Cirilo de Jerusalém, Catequeses · Catequese XVII
O Espírito Santo nos Evangelhos e nos Atos: o Pentecostes, os dons e a obra nos apóstolos.
1 Coríntios 12.8
Porque a um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria etc.
1. Na catequese anterior, segundo a nossa capacidade, apresentamos a vocês, amados ouvintes1, uma pequena parte dos testemunhos a respeito do Espírito Santo; e na presente ocasião, se for do agrado de Deus, passaremos a tratar, na medida do possível, dos que restam do Novo Testamento. E, assim como então, para não ultrapassar o justo limite da atenção de vocês, contivemos o nosso entusiasmo (pois não há fartura quando se discorre sobre o Espírito Santo), assim também agora devemos dizer apenas uma pequena parte do que resta. Pois agora, como então, confessamos com franqueza que a nossa fraqueza se vê esmagada pela multidão das coisas escritas. Nem hoje usaremos as sutilezas dos homens, pois isso não traz proveito; mas apenas traremos à memória o que vem das divinas Escrituras. Esse é o caminho mais seguro, segundo o bem-aventurado apóstolo Paulo, que diz: “Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com espirituais” (1Co 2.13). Fazemos, assim, como os viajantes por terra ou por mar que, tendo uma só meta numa viagem muito longa, ainda que se apressem com afinco, costumam, por causa da fraqueza humana, parar no caminho em diversas cidades ou portos.
2. Portanto, embora os nossos discursos sobre o Espírito Santo sejam divididos, ele mesmo é indiviso, sendo um só e o mesmo. Pois, ao falar do Pai, ensinamos uma vez como ele é a única Causa2; outra vez, como é chamado Pai3, ou Todo-Poderoso4; e outra, como é o Criador5 do universo; e, contudo, a divisão das catequeses não dividiu a fé, porque ele, o objeto da nossa adoração, era e é um só. E também, ao discorrer sobre o Filho unigênito de Deus, ensinamos uma vez a respeito da sua divindade6 e outra a respeito da sua humanidade7, dividindo em muitos discursos as doutrinas sobre nosso Senhor Jesus Cristo, mas pregando uma fé indivisa nele. Assim também agora, embora as catequeses sobre o Espírito Santo sejam divididas, pregamos uma fé indivisa nele. Pois é um só e o mesmo Espírito que distribui os seus dons “a cada um, individualmente, conforme ele quer” (1Co 12.11), permanecendo ele mesmo indiviso. Pois o Consolador não é outro que não o Espírito Santo, mas um só e o mesmo, chamado por vários nomes; ele vive e subsiste, fala e age; e de todas as naturezas racionais feitas por Deus por meio de Cristo, tanto dos anjos como dos homens, ele é o Santificador8.
3. Mas, para que ninguém, por falta de instrução, suponha, pelos diferentes títulos do Espírito Santo, que se trata de espíritos diversos, e não de um só e o mesmo, o único que existe, a Igreja católica, protegendo você de antemão, entregou-lhe na profissão da fé que você “crê em um só Espírito Santo, o Consolador, que falou pelos profetas”, para que você soubesse que, embora os seus nomes sejam muitos, o Espírito Santo é um só. Desses nomes vamos agora recordar a vocês alguns, dentre muitos.
4. Ele é chamado Espírito, segundo a Escritura que acabou de ser lida: “Porque a um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria” (1Co 12.8). É chamado Espírito da verdade, como diz o Salvador: “quando vier o Espírito da verdade” (Jo 16.13). É chamado também Consolador, como ele disse: “se eu não for, o Consolador não virá para vocês” (Jo 16.7). E que ele é um só e o mesmo, embora chamado por títulos diferentes, mostra-se claramente pelo que segue. Pois que o Espírito Santo e o Consolador são o mesmo, declara-se nestas palavras: “Mas o Consolador, o Espírito Santo” (Jo 14.26); e que o Consolador é o mesmo que o Espírito da verdade, declara-se quando se diz: “E eu lhes darei outro Consolador, a fim de que esteja com vocês para sempre, o Espírito da verdade” (Jo 14.16-17); e ainda: “Quando, porém, vier o Consolador, que eu enviarei a vocês da parte do Pai, o Espírito da verdade” (Jo 15.26). E é chamado Espírito de Deus, conforme está escrito: “E vi o Espírito de Deus descer” (Jo 1.32); e ainda: “Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14). É chamado também Espírito do Pai, como diz o Salvador: “Afinal, não são vocês que estão falando, mas o Espírito do Pai de vocês é quem fala por meio de vocês” (Mt 10.20); e Paulo diz também: “Por essa razão, eu me ponho de joelhos diante do Pai”, e o restante; “… que conceda a vocês que sejam fortalecidos… mediante o seu Espírito” (Ef 3.14-16). É chamado também Espírito do Senhor, segundo o que Pedro disse: “Por que vocês entraram em acordo para tentar o Espírito do Senhor?” (At 5.9). É chamado também Espírito de Deus e de Cristo, como Paulo escreve: “Vocês, porém, não estão na carne, mas no Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9). É chamado também Espírito do Filho de Deus, como se diz: “E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho” (Gl 4.6). É chamado também Espírito de Cristo, como está escrito: “investigando qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas que eram indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava” (1Pe 1.11); e ainda: “pela súplica de vocês e com a ajuda do Espírito de Jesus Cristo” (Fp 1.19).
5. Você encontrará ainda muitos outros títulos do Espírito Santo. Assim, ele é chamado Espírito de santidade, como está escrito: “segundo o Espírito de santidade” (Rm 1.4). É chamado também Espírito de adoção, como diz Paulo: “Porque vocês não receberam um espírito de escravidão, para viverem outra vez atemorizados, mas receberam o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: ‘Aba, Pai'” (Rm 8.15). É chamado também Espírito de revelação, como está escrito: “conceda a vocês espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele” (Ef 1.17). É chamado também Espírito da promessa, como diz o mesmo Paulo: “Nele também vocês, depois que creram, foram selados com o Santo Espírito da promessa” (Ef 1.13). É chamado também Espírito da graça, como quando ele diz ainda: “e insultou o Espírito da graça” (Hb 10.29). E por muitos outros títulos semelhantes ele é nomeado. E vocês ouviram claramente na catequese anterior que nos Salmos ele é chamado ora o “bom Espírito”9 (Sl 143.10), ora o “Espírito soberano”10 (Sl 51.12); e em Isaías foi chamado o “Espírito de sabedoria e de entendimento, de conselho e de fortaleza, de conhecimento e de piedade, e do temor de Deus” (Is 11.2). Por todas essas Escrituras, tanto as anteriores como as que agora foram apresentadas, fica estabelecido que, embora os títulos do Espírito Santo sejam diferentes, ele é um só e o mesmo, vivo e subsistente, e sempre presente junto com o Pai e o Filho11; não pronunciado ou soprado da boca e dos lábios do Pai ou do Filho, nem disperso no ar, mas tendo substância real12, ele mesmo falando, agindo, dispensando e santificando; assim como a economia da salvação que nos vem do Pai, do Filho e do Espírito Santo é inseparável, harmoniosa e una, como também já dissemos antes. Pois quero que vocês guardem na memória as coisas ditas há pouco e saibam claramente que não há um Espírito na Lei e nos Profetas e outro nos Evangelhos e nos Apóstolos; mas que é um só e o mesmo Espírito Santo que, tanto no Antigo como no Novo Testamento, falou as divinas Escrituras13.
6. Este é o Espírito Santo que veio sobre a santa Virgem Maria; pois, como aquele que foi concebido era Cristo, o Unigênito, “o poder do Altíssimo a envolveu com a sua sombra”, e “o Espírito Santo veio sobre ela” (Lc 1.35) e a santificou, para que ela pudesse receber aquele “por meio de quem todas as coisas foram feitas” (Jo 1.3). Mas não preciso de muitas palavras para ensinar a você que aquela geração foi sem mancha nem mácula, pois você já aprendeu isso. É Gabriel quem lhe diz: “Eu sou o arauto do que vai ser feito, mas não tenho parte na obra. Embora seja arcanjo, conheço o meu lugar; e, embora com alegria eu lhe diga: Salve!, o modo como você dará à luz não depende de nenhuma graça minha. O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus” (Lc 1.35).
7. Este Espírito Santo agiu em Isabel; pois ele não reconhece somente as virgens, mas também as casadas, contanto que o seu casamento seja legítimo. “Então Isabel ficou cheia do Espírito Santo” (Lc 1.41) e profetizou; e aquela nobre serva diz a respeito do seu próprio Senhor: “E de onde me vem isto, que a mãe do meu Senhor venha a mim?” (Lc 1.43). Pois Isabel considerou-se bem-aventurada. Cheio deste Espírito Santo, também Zacarias, o pai de João, profetizou (Lc 1.67), dizendo quantos bens o Unigênito haveria de proporcionar e que João seria o seu precursor (Lc 1.76) por meio do batismo. Também por este Espírito Santo foi revelado ao justo Simeão “que não morreria antes de ver o Cristo do Senhor” (Lc 2.26-35); e ele o recebeu nos braços e deu claro testemunho a respeito dele no templo.
8. E também João, que tinha sido cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe14, foi por isso santificado, para batizar o Senhor; não dando ele mesmo o Espírito, mas anunciando as boas-novas daquele que dá o Espírito. Pois ele diz: “Eu batizo vocês com água, para arrependimento; mas aquele que vem depois de mim”, e o restante; “Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3.11). Mas por que com fogo? Porque a descida do Espírito Santo se deu em línguas de fogo; a respeito disso o Senhor diz com alegria: “Eu vim para lançar fogo sobre a terra; e que mais quero, se já está aceso?” (Lc 12.49).
9. Este Espírito Santo desceu quando o Senhor foi batizado, para que a dignidade daquele que era batizado não ficasse oculta; como diz João: “aquele, porém, que me enviou a batizar com água me disse: ‘Aquele sobre quem você vir descer e pousar o Espírito, esse é o que batiza com o Espírito Santo'” (Jo 1.33). Mas veja o que diz o Evangelho: “os céus se abriram”; abriram-se por causa da dignidade daquele que descia; pois, eis que, diz ele, “os céus se abriram e ele viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele” (Mt 3.16), isto é, com movimento voluntário na sua descida. Pois convinha, como alguns interpretaram, que as primícias e a primazia15 do Espírito Santo, prometido aos batizados, fossem conferidas à humanidade do Salvador, que é o doador dessa graça. Mas talvez ele tenha descido em forma de pomba, como dizem alguns, para mostrar uma figura daquela pomba que é pura, inocente e sem mácula, e que também auxilia as orações pelos filhos que gerou e pelo perdão dos pecados16; assim como foi anunciado de antemão, em figura, que Cristo seria manifestado deste modo na aparência dos seus olhos; pois no Cântico ela clama a respeito do Noivo e diz: “Os teus olhos são como pombas junto aos rios de água” (Ct 5.12)17.
10. Desta pomba, a pomba de Noé, segundo alguns, foi em parte uma figura18. Pois, assim como no tempo dele, por meio da madeira e da água, veio a salvação para eles e o começo de uma nova geração, e a pomba voltou para ele ao entardecer com um ramo de oliveira, assim também, dizem eles, o Espírito Santo desceu sobre o verdadeiro Noé, o Autor do segundo nascimento, que reúne numa só as vontades de todas as nações, das quais as diversas índoles dos animais na arca eram figura: aquele em cuja vinda os lobos espirituais pastam com os cordeiros, em cuja Igreja o bezerro, o leão e o boi pastam no mesmo pasto, como vemos até hoje os governantes do mundo guiados e ensinados por homens da Igreja. A pomba espiritual, portanto, como alguns interpretam, desceu no tempo do seu batismo, para mostrar que é ele quem, pela madeira da cruz, salva os que creem, ele que ao entardecer haveria de conceder a salvação por meio da sua morte.
11. E essas coisas talvez devam ser explicadas de outro modo; mas agora devemos ouvir de novo as palavras do próprio Salvador a respeito do Espírito Santo. Pois ele diz: “quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3.5). E que essa graça vem do Pai, ele o declara assim: “quanto mais o Pai celeste dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem!” (Lc 11.13). E que devemos adorar a Deus no Espírito, ele o mostra assim: “Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. Porque são esses que o Pai procura para seus adoradores. Deus é Espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.23-24). E ainda: “Se, porém, eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus” (Mt 12.28); e logo em seguida: “Por isso, digo a vocês que todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada. Se alguém disser alguma palavra contra o Filho do Homem, isso lhe será perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, isso não lhe será perdoado, nem neste mundo nem no porvir” (Mt 12.31-32). E ainda ele diz: “E eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Consolador, a fim de que esteja com vocês para sempre: é o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece. Vocês o conhecem, porque ele habita com vocês e estará em vocês” (Jo 14.16-17). E ainda ele diz: “Tenho dito isso enquanto ainda estou com vocês. Mas o Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse ensinará a vocês todas as coisas e fará com que se lembrem de tudo o que eu lhes disse” (Jo 14.25-26). E ainda ele diz: “Quando, porém, vier o Consolador, que eu enviarei a vocês da parte do Pai, o Espírito da verdade, que dele procede, esse dará testemunho de mim” (Jo 15.26). E ainda diz o Salvador: “se eu não for, o Consolador não virá para vocês” (Jo 16.7)… “Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16.8); e depois, ainda: “Tenho ainda muito para lhes dizer, mas vocês não o podem suportar agora. Porém, quando vier o Espírito da verdade, ele os guiará em toda a verdade. Ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que ouvir e anunciará a vocês as coisas que estão para acontecer. Ele me glorificará, porque vai receber do que é meu e anunciará isso a vocês. Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso eu disse que o Espírito vai receber do que é meu e anunciar isso a vocês” (Jo 16.12-15). Li agora para você as palavras do próprio Unigênito, para que você não dê ouvidos às palavras dos homens.
12. A comunhão deste Espírito Santo ele concedeu aos apóstolos; pois está escrito: “E, havendo dito isso, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebam o Espírito Santo. Se de alguns vocês perdoarem os pecados, são-lhes perdoados; mas, se os retiverem, são retidos” (Jo 20.22-23). Esta foi a segunda vez que ele soprou sobre o homem (pois o seu primeiro sopro19 tinha sido sufocado pelos pecados voluntários), para que se cumprisse a Escritura: “Subiu soprando no seu rosto e livrando você da aflição” (Na 2.1)20. Mas de onde subiu? Do Hades; pois assim relata o Evangelho, que então, depois da sua ressurreição, ele soprou sobre eles. Mas, embora tivesse concedido a sua graça naquele momento, ainda haveria de derramá-la com mais abundância; e ele lhes diz: “Estou pronto para dá-la já agora, mas o vaso ainda não pode contê-la; por enquanto, pois, recebam tanta graça quanto podem suportar, e esperem ainda mais; mas ‘permaneçam na cidade de Jerusalém, até que vocês sejam revestidos do poder que vem do alto’ (Lc 24.49). Recebam-na agora em parte; depois, vocês a vestirão na sua plenitude. Pois quem recebe muitas vezes possui o dom só em parte; mas quem é revestido fica completamente envolvido pelo seu manto.” “Não temam”, diz ele, “as armas e os dardos do diabo; pois vocês levarão consigo o poder do Espírito Santo.” Mas lembrem-se do que foi dito há pouco: que o Espírito Santo não se divide, mas somente a graça que é dada por ele.
13. Jesus, então, subiu ao céu e cumpriu a promessa. Pois ele lhes tinha dito: “E eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Consolador” (Jo 14.16). Eles estavam, pois, sentados, esperando a vinda do Espírito Santo; e, “ao cumprir-se o dia de Pentecostes” (At 2.1), aqui, nesta cidade de Jerusalém (pois também esta honra nos pertence21; e não falamos dos bens que aconteceram entre outros, mas dos que nos foram concedidos entre nós mesmos), no dia de Pentecostes, digo, eles estavam sentados, e o Consolador desceu do céu, o Guardião e Santificador da Igreja, o Governador das almas, o Piloto dos que são sacudidos pela tempestade, que conduz à luz os que andam errantes, preside os combatentes e coroa os vencedores.
14. Mas ele desceu para revestir de poder os apóstolos e para batizá-los; pois o Senhor diz: “vocês serão batizados com o Espírito Santo, dentro de poucos dias” (At 1.5). Esta graça não foi em parte, mas o seu poder veio em plena perfeição; pois, assim como quem mergulha nas águas e é batizado fica envolvido por todos os lados pelas águas, assim também eles foram batizados completamente pelo Espírito Santo. A água, porém, envolve somente o lado de fora, mas o Espírito batiza também a alma por dentro, e isso completamente. E por que você se admira? Tome um exemplo da matéria; pobre, é verdade, e comum, mas útil para os mais simples. Se o fogo, penetrando na massa do ferro, torna todo ele fogo, de modo que o que era frio fica ardente e o que era negro se torna brilhante; se o fogo, que é corpo, penetra assim e age sem impedimento no ferro, que também é corpo, por que se admirar de que o Espírito Santo entre nos recessos mais íntimos da alma?
15. E, para que os homens não ignorassem a grandeza do poderoso dom que descia sobre eles, soou como que uma trombeta celeste: “De repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso” (At 2.2), significando a presença daquele que haveria de conceder aos homens o poder de tomar à força o Reino de Deus; para que tanto os seus olhos vissem as línguas de fogo como os seus ouvidos ouvissem o som. “E encheu toda a casa onde estavam sentados” (At 2.2); pois a casa tornou-se o vaso da água espiritual; enquanto os discípulos estavam sentados lá dentro, a casa inteira ficou cheia. Assim eles foram inteiramente batizados, segundo a promessa, e revestidos, na alma e no corpo, de uma divina veste de salvação. “E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At 2.3-4). Participaram do fogo, não de um fogo que queima, mas de um fogo que salva; de um fogo que consome os espinhos dos pecados, mas dá brilho à alma. Este fogo está para vir agora também sobre vocês, e isso para arrancar e consumir os seus pecados, que são como espinhos, e para fazer brilhar ainda mais aquela preciosa posse que é a alma de vocês, e para lhes dar a graça; pois ele a deu então aos apóstolos. E ele pousou sobre eles em forma de línguas de fogo, para que se coroassem com novos diademas espirituais, por meio das línguas de fogo sobre a cabeça. Uma espada de fogo fechou outrora as portas do paraíso; uma língua de fogo, que trouxe a salvação, restituiu o dom.
16. “E começaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem” (At 2.4). Pedro ou André, galileus, falavam persa ou medo. João e os demais apóstolos falavam todas as línguas aos que eram de origem gentia; pois não foi no nosso tempo que multidões de estrangeiros começaram a se reunir aqui, vindas de todas as partes, mas fazem isso desde aquele tempo. Que mestre se pode encontrar tão grande que ensine aos homens, de uma só vez, coisas que eles não aprenderam? Durante tantos anos eles se dedicam, pela gramática e por outras artes, a aprender a falar bem somente o grego; e nem todos o falam igualmente bem: o retórico talvez consiga falar bem, e o gramático às vezes não fala bem, e o gramático habilidoso ignora os assuntos da filosofia. Mas o Espírito Santo lhes ensinou muitas línguas de uma só vez, línguas que em toda a sua vida eles nunca tinham conhecido. Isto é, na verdade, imensa sabedoria; isto é poder divino. Que contraste entre a longa ignorância deles no tempo passado e o uso repentino, completo, variado e desacostumado dessas línguas!
17. A multidão dos ouvintes ficou confundida: foi uma segunda confusão, em lugar daquela primeira, a má, em Babilônia. Pois naquela confusão das línguas houve divisão de propósito, porque o pensamento deles era inimigo de Deus; mas aqui as mentes foram restauradas e unidas, porque o objeto do interesse era piedoso. Os meios da queda foram os meios da recuperação. Por isso se admiravam, dizendo: “Como os ouvimos falar?” (At 2.8). Não é de admirar que vocês ignorem isso; pois também Nicodemos ignorava a vinda do Espírito, e a ele foi dito: “O Espírito sopra onde quer, e você ouve a sua voz, mas não sabe de onde vem, nem para onde vai” (Jo 3.8)22. Mas, se eu, mesmo ouvindo a sua voz, não sei de onde ele vem, como posso explicar o que ele é em si mesmo, na sua substância?
18. Mas outros, zombando, diziam: “Estão cheios de vinho novo” (At 2.13); e falaram a verdade, ainda que por zombaria. Pois, na verdade, o vinho era novo, isto é, a graça do Novo Testamento; mas este vinho novo vinha de uma videira espiritual, que já muitas vezes antes dera fruto nos profetas e agora brotara no Novo Testamento. Pois, assim como nas coisas sensíveis a videira permanece sempre a mesma, mas dá frutos novos a cada estação, assim também o mesmo Espírito, continuando a ser o que é, assim como muitas vezes tinha agido nos profetas, manifestou agora uma obra nova e maravilhosa. Pois, embora a sua graça já tivesse vindo antes também aos pais, aqui ela veio em abundância transbordante; porque antes os homens apenas participavam do Espírito Santo, mas agora eram batizados por inteiro.
19. Mas Pedro, que tinha o Espírito Santo e sabia o que possuía, diz: “Homens de Israel, vocês que pregam Joel, mas não conhecem as coisas que estão escritas, ‘estes homens não estão bêbados, como vocês estão pensando’ (At 2.15). Bêbados estão, mas não como vocês pensam, e sim conforme está escrito: ‘Ficarão embriagados com a fartura da tua casa, e tu os farás beber da torrente das tuas delícias’ (Sl 36.8). Estão embriagados, com uma embriaguez sóbria, mortífera para o pecado e vivificante para o coração, uma embriaguez contrária à do corpo; pois esta faz esquecer até o que se sabia, mas aquela concede o conhecimento até do que não se sabia. Estão embriagados, porque beberam o vinho da videira espiritual, que diz: ‘Eu sou a videira, vocês são os ramos’ (Jo 15.5). Mas, se não se convencem por mim, entendam o que lhes digo pela própria hora do dia: pois ‘é a terceira hora do dia’ (At 2.15). Pois aquele que, como relata Marcos, foi crucificado na terceira hora, agora, na terceira hora, enviou a sua graça. Porque a graça dele não é outra senão a graça do Espírito; mas aquele que então foi crucificado, e que também fez a promessa, cumpriu o que prometera. E, se querem receber também um testemunho, ouçam, diz ele: ‘Mas isto é o que foi dito por meio do profeta Joel: E acontecerá depois disso, diz Deus, que derramarei do meu Espírito’ (Jl 2.28) (e esta palavra, ‘derramarei’, indicava um dom abundante; pois ‘Deus não dá o Espírito por medida. O Pai ama o Filho e entregou todas as coisas nas mãos dele’ (Jo 3.34-35); e deu-lhe também o poder de conceder a graça do Espírito santíssimo a quem ele quiser); ‘derramarei do meu Espírito sobre toda carne, e os seus filhos e as suas filhas profetizarão’; e mais adiante: ‘Sim, e sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei naqueles dias do meu Espírito, e eles profetizarão’ (Jl 2.29).” O Espírito Santo não faz acepção de pessoas; pois não procura dignidades, mas a piedade da alma. Que nem o rico se envaideça, nem o pobre desanime, mas que cada um apenas se prepare para receber o dom celestial.
20. Falamos muito hoje, e talvez vocês estejam cansados de ouvir; mas ainda resta mais. E, na verdade, para a doutrina do Espírito Santo seria necessária uma terceira catequese, e muitas outras além dela. Mas precisamos da indulgência de vocês nos dois pontos. Pois, como a santa festa da Páscoa já está próxima, alongamos hoje o nosso discurso, e ainda assim não tivemos espaço para apresentar a vocês todos os testemunhos do Novo Testamento que deveríamos. Pois ainda estão por vir muitas passagens dos Atos dos Apóstolos, nas quais a graça do Espírito Santo agiu poderosamente em Pedro e em todos os apóstolos juntos; muitas também das Epístolas católicas e das catorze Epístolas de Paulo; de todas as quais procuraremos agora colher algumas, como flores de um vasto prado, só a modo de lembrança.
21. Pois, no poder do Espírito Santo, pela vontade do Pai e do Filho, Pedro se pôs de pé com os onze e, levantando a voz (conforme o texto: “Levante a sua voz fortemente, você que anuncia boas-novas a Jerusalém” (Is 40.9)), apanhou na rede espiritual das suas palavras “cerca de três mil almas” (At 2.41). Tão grande foi a graça que agiu em todos os apóstolos juntos, que, dentre os judeus, aqueles que crucificaram Cristo, esse grande número creu, foi batizado no nome de Cristo e “perseverava na doutrina dos apóstolos e nas orações” (At 2.42). E outra vez, no mesmo poder do Espírito Santo, “Pedro e João subiram ao templo na hora da oração, que era a hora nona” (At 3.1), e no nome de Jesus curaram o homem da Porta Formosa, que era coxo desde o ventre da mãe havia quarenta anos, para que se cumprisse o que foi dito: “Então os coxos saltarão como as corças” (Is 35.6). E assim, como apanharam na rede espiritual da sua doutrina cinco mil fiéis de uma só vez, assim também refutaram os chefes extraviados do povo e os principais sacerdotes, e isso não pela sua própria sabedoria, pois “eram homens iletrados e incultos” (At 4.13), mas pelo grande poder do Espírito Santo; porque está escrito: “Então Pedro, cheio do Espírito Santo, lhes disse” (At 4.8). Tão grande foi também a graça do Espírito Santo, que agiu por meio dos doze apóstolos naqueles que creram, que eles “eram um só coração e uma só alma” (At 4.32), e o gozo dos seus bens era comum, pois os proprietários ofereciam piedosamente o preço das suas propriedades, e ninguém entre eles passava necessidade; enquanto Ananias e Safira, que tentaram mentir ao Espírito Santo, sofreram o castigo merecido.
22. “E pelas mãos dos apóstolos eram feitos muitos sinais e prodígios entre o povo” (At 5.12). E tão grande era a graça espiritual derramada ao redor dos apóstolos que, mansos como eram, inspiravam temor; pois “dos restantes ninguém ousava juntar-se a eles; mas o povo os engrandecia; e multidões de homens e mulheres que criam no Senhor eram acrescentadas”; e as ruas se enchiam de enfermos em leitos e macas, “para que, ao passar Pedro, ao menos a sua sombra se projetasse sobre alguns deles”. E também “a multidão das cidades vizinhas vinha” a esta santa Jerusalém, “trazendo doentes e atormentados por espíritos imundos, e todos eram curados” neste poder do Espírito Santo (At 5.13-16).
23. Além disso, depois que os doze apóstolos foram lançados na prisão pelos principais sacerdotes por pregarem Cristo, e foram maravilhosamente libertados dela à noite por um anjo, e foram trazidos do templo à presença deles na sala de julgamento, eles os repreenderam sem temor no discurso que lhes fizeram a respeito de Cristo, e acrescentaram isto: que “Deus também deu o seu Espírito Santo aos que lhe obedecem” (At 5.32). E, depois de açoitados, seguiram o seu caminho alegres e não cessavam de “ensinar e de pregar que Jesus é o Cristo” (At 5.42).
24. E a graça do Espírito Santo não agiu somente nos doze apóstolos, mas também nos filhos primogênitos desta Igreja, antes estéril; refiro-me aos sete diáconos; pois também estes foram escolhidos, como está escrito, “cheios do Espírito e de sabedoria” (At 6.3). Dentre eles, Estêvão, com razão assim chamado23, primícias dos mártires, “homem cheio de fé e do Espírito Santo, fazia grandes prodígios e milagres entre o povo” (At 6.5, 8) e vencia os que discutiam com ele; pois “não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito, pelo qual ele falava” (At 6.10). Mas, quando foi acusado com malícia e levado à sala de julgamento, resplandecia com um brilho angelical; pois “todos os que estavam sentados no Sinédrio, fitando os olhos nele, viram o seu rosto como se fosse rosto de anjo” (At 6.15). E, depois de refutar com a sua sábia defesa os judeus, aqueles “homens teimosos e incircuncisos de coração e de ouvidos”, que “sempre resistiam ao Espírito Santo” (At 7.51), ele viu “os céus abertos” e “o Filho do Homem em pé à direita de Deus” (At 7.56). Ele o viu, não pelo seu próprio poder, mas, como diz a divina Escritura, “cheio do Espírito Santo, fitou os olhos no céu e viu a glória de Deus e Jesus, que estava à direita de Deus” (At 7.55).
25. Neste poder do Espírito Santo, também Filipe, no nome de Cristo, numa ocasião, na cidade de Samaria, expulsou os espíritos imundos, que “gritavam em alta voz” (At 8.7); curou os paralíticos e os coxos e trouxe a Cristo grandes multidões dos que creem. A eles desceram Pedro e João e, com oração e imposição das mãos, comunicaram a comunhão do Espírito Santo, da qual só Simão, o mago, foi declarado estranho, e com justiça. E noutra ocasião Filipe foi chamado pelo anjo do Senhor no caminho, por causa daquele piedosíssimo etíope, o eunuco, e ouviu claramente o próprio Espírito dizer: “Aproxime-se dessa carruagem e acompanhe-a” (At 8.29). Ele instruiu o eunuco e o batizou; e assim, tendo enviado à Etiópia um arauto de Cristo, conforme está escrito: “a Etiópia corre a estender mãos cheias para Deus” (Sl 68.31), foi arrebatado pelo anjo e pregou o evangelho nas cidades, uma após outra.
26. Deste Espírito Santo também Paulo tinha sido cheio, depois do seu chamado por nosso Senhor Jesus Cristo. Venha o piedoso Ananias como testemunha do que dizemos, ele que em Damasco lhe disse: “O Senhor Jesus, que apareceu a você no caminho por onde vinha, me enviou para que você volte a ver e fique cheio do Espírito Santo” (At 9.17). E imediatamente a poderosa ação do Espírito transformou a cegueira dos olhos de Paulo em vista renovada; e, tendo concedido o seu selo à alma dele, fez dele “um instrumento escolhido” para “levar o nome” do Senhor, que lhe tinha aparecido, “perante reis e os filhos de Israel” (At 9.15), e tornou o antigo perseguidor embaixador e bom servo, alguém que “desde Jerusalém até o Ilírico divulgou plenamente o evangelho” (Rm 15.19), instruiu até a Roma imperial e levou o ardor da sua pregação até a Espanha, sustentando combates sem conta e realizando sinais e prodígios. Dele, por ora, basta.
27. No poder do mesmo Espírito Santo, também Pedro, o principal dos apóstolos e o portador das chaves24 do Reino dos Céus, curou Eneias, o paralítico, no nome de Cristo, em Lida, que hoje é Dióspolis, e em Jope ressuscitou dos mortos Tabita, rica em boas obras. E, estando no terraço em êxtase, viu o céu aberto e, por meio do objeto que descia, semelhante a um grande lençol cheio de animais de toda forma e espécie, aprendeu claramente a não chamar homem algum de comum ou impuro, ainda que fosse dos gregos (At 10.11-16). E, quando foi chamado por Cornélio, ouviu claramente o próprio Espírito Santo dizer: “Eis que homens procuram você; levante-se, desça e vá com eles, sem hesitar; porque eu os enviei” (At 10.19-20). E, para que ficasse claramente demonstrado que também os gentios que creem se tornam participantes da graça do Espírito Santo, quando Pedro chegou a Cesareia e ensinava as coisas a respeito de Cristo, a Escritura diz sobre Cornélio e os que estavam com ele: “Enquanto Pedro ainda falava estas palavras, o Espírito Santo caiu sobre todos os que ouviam a mensagem; de modo que também os da circuncisão que tinham vindo com Pedro se admiraram e, ao compreenderem, disseram que também sobre os gentios foi derramado o dom do Espírito Santo” (At 10.44-45).
28. E também em Antioquia, cidade famosíssima da Síria, quando a pregação de Cristo surtiu efeito, Barnabé foi enviado daqui até Antioquia para ajudar na boa obra, porque era “homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé” (At 11.24); e ele, vendo uma grande colheita de crentes em Cristo, trouxe Paulo de Tarso para Antioquia, como seu companheiro de luta. E, depois que multidões foram instruídas por eles e reunidas na Igreja, “aconteceu que em Antioquia os discípulos foram, pela primeira vez, chamados de cristãos” (At 11.26)25; o Espírito Santo, a meu ver, concedendo aos que criam aquele nome novo que tinha sido prometido antes pelo Senhor. E, sendo a graça do Espírito derramada por Deus com mais abundância em Antioquia, havia ali profetas e mestres, dos quais Ágabo era um (At 11.28). E, “enquanto eles adoravam o Senhor e jejuavam, o Espírito Santo disse: Separem-me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado”. E, depois que lhes foram impostas as mãos, “foram enviados pelo Espírito Santo” (At 13.2-4). Ora, é manifesto que o Espírito que fala e envia é um Espírito vivo, subsistente e operante, como dissemos.
29. Este Espírito Santo, que em unidade com o Pai e o Filho estabeleceu a nova aliança na Igreja católica, libertou-nos dos fardos da lei, pesados de carregar, refiro-me àqueles a respeito das coisas comuns e impuras, dos alimentos, dos sábados, das luas novas, da circuncisão, das aspersões e dos sacrifícios; os quais foram dados por um tempo e tinham “a sombra dos bens vindouros” (Hb 10.1), mas que, quando veio a verdade, foram com razão retirados. Pois, quando Paulo e Barnabé foram enviados aos apóstolos por causa da questão levantada em Antioquia por aqueles que diziam ser necessário circuncidar-se e guardar os costumes de Moisés, os apóstolos que estavam aqui em Jerusalém, por uma determinação escrita, libertaram o mundo inteiro de todas as observâncias legais e figurativas; contudo, não atribuíram a si mesmos a plena autoridade num assunto tão grande, mas enviam uma determinação por escrito e reconhecem isto: “Pois pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não impor a vocês maior encargo além destas coisas essenciais: que vocês se abstenham das coisas sacrificadas a ídolos, bem como do sangue, da carne de animais sufocados e da imoralidade sexual” (At 15.28-29)26; mostrando claramente pelo que escreveram que, embora a escrita fosse obra de mãos de apóstolos humanos, o decreto vem do Espírito Santo e vale para todos; e esse decreto Paulo e Barnabé levaram e confirmaram a todo o mundo.
30. E agora, tendo avançado até aqui no meu discurso, peço indulgência ao amor de vocês27, ou antes ao Espírito que habitava em Paulo, se eu não conseguir relatar tudo, por causa da minha própria fraqueza e do cansaço de vocês que ouvem. Pois quando poderei eu, em termos dignos dele, declarar os feitos maravilhosos realizados pela ação do Espírito Santo no nome de Cristo? Os que foram realizados em Chipre sobre Elimas, o mago, e em Listra na cura do aleijado, e na Cilícia, na Frígia, na Galácia, na Mísia e na Macedônia? Ou os de Filipos (refiro-me à pregação e à expulsão do espírito de adivinhação no nome de Cristo, e à salvação pelo batismo do carcereiro com toda a sua casa, à noite, depois do terremoto); ou os acontecimentos de Tessalônica, e o discurso no Areópago, no meio dos atenienses; ou as instruções em Corinto e em toda a Acaia? Como poderei narrar dignamente os grandes feitos realizados em Éfeso por meio de Paulo, pelo Espírito Santo (At 19.1-6)? Os daquela cidade não o conheciam antes, mas vieram a conhecê-lo pela doutrina de Paulo; e, quando Paulo lhes impôs as mãos e o Espírito Santo veio sobre eles, “falavam em línguas e profetizavam” (At 19.6). E tão grande era a graça espiritual sobre ele que não só o seu toque operava curas, mas até os “lenços e aventais” (At 19.12) levados do seu corpo curavam doenças e afugentavam os espíritos malignos; e por fim também “os que praticavam artes mágicas reuniram os seus livros e os queimaram diante de todos” (At 19.19).
31. Deixo de lado a obra realizada em Trôade sobre Êutico, que, “vencido pelo sono, caiu do terceiro andar” e “foi levantado morto”; mas foi restituído com vida por Paulo (At 20.9-12). Deixo de lado também as profecias dirigidas aos presbíteros de Éfeso, que ele chamou a Mileto, aos quais disse abertamente: “O Espírito Santo testifica em cada cidade, dizendo” (At 20.23), e o resto; pois, ao dizer “em cada cidade”, Paulo deixou manifesto que as obras maravilhosas feitas por ele em cada cidade vinham do poder operante do Espírito Santo, pela vontade de Deus e no nome de Cristo, que falava nele. Pelo poder deste Espírito Santo, o mesmo Paulo se apressava para esta santa cidade de Jerusalém, e isso apesar de Ágabo ter predito pelo Espírito o que lhe havia de acontecer; e ainda assim falou ao povo com confiança, declarando as coisas a respeito de Cristo. E, levado a Cesareia e posto diante de tribunais, ora perante Félix, ora perante Festo, o governador, e o rei Agripa, Paulo obteve do Espírito Santo uma graça tão grande e tão vitoriosa em sabedoria que, por fim, o próprio Agripa, rei dos judeus, disse: “Por pouco você me convence a me tornar cristão” (At 26.28)28. Este Espírito Santo concedeu a Paulo, também quando estava na ilha de Malta, não sofrer dano algum ao ser picado pela víbora e realizar diversas curas nos doentes. Este Espírito Santo o guiou, a ele, o antigo perseguidor, como arauto de Cristo, até a Roma imperial; e lá persuadiu muitos dos judeus a crer em Cristo, e aos que o contradiziam disse claramente: “Bem falou o Espírito Santo por meio do profeta Isaías, dizendo aos pais de vocês” (At 28.25), e o resto.
32. E que Paulo era cheio do Espírito Santo, e também todos os seus companheiros apóstolos, e os que depois deles creram no Pai, no Filho e no Espírito Santo, ouçam dele mesmo, como escreve claramente nas suas epístolas: “A minha palavra”, diz ele, “e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e de poder” (1Co 2.4). E outra vez: “Mas aquele que nos selou para isso mesmo é Deus, que nos deu o penhor do Espírito” (2Co 1.22). E outra vez: “Aquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos vivificará também o corpo mortal de vocês, por meio do seu Espírito, que habita em vocês” (Rm 8.11). E outra vez, escrevendo a Timóteo: “Guarde o bom tesouro que lhe foi confiado, por meio do Espírito Santo que nos foi dado” (2Tm 1.14)29.
33. E que o Espírito Santo subsiste, vive, fala e prediz, eu o disse muitas vezes no que veio antes, e Paulo o escreve claramente a Timóteo: “Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé” (1Tm 4.1); o que vemos nas divisões não só dos tempos passados, mas também dos nossos; tão variados e multiformes são os erros dos hereges. E outra vez o mesmo Paulo diz: “O qual, em outras gerações, não foi dado a conhecer aos filhos dos homens, como agora foi revelado aos seus santos apóstolos e profetas, pelo Espírito” (Ef 3.5). E outra vez: “Por isso, como diz o Espírito Santo” (Hb 3.7); e outra vez: “Também o Espírito Santo nos dá testemunho” (Hb 10.15). E outra vez ele chama os soldados da justiça, dizendo: “E usem o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus, com todo tipo de oração e súplica” (Ef 6.17-18). E outra vez: “Não se embriaguem com vinho, pois isso leva à devassidão, mas deixem-se encher do Espírito, falando entre vocês com salmos, hinos e cânticos espirituais” (Ef 5.18-19). E outra vez: “A graça do Senhor Jesus, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vocês” (2Co 13.13).
34. Por todas estas provas, e por outras mais que foram deixadas de lado, fica estabelecido, para os que podem entender, o poder pessoal, santificador e eficaz do Espírito Santo; pois me faltaria tempo no discurso se eu quisesse citar o que ainda resta a respeito do Espírito Santo nas catorze Epístolas de Paulo, nas quais ele ensinou com tanta variedade, plenitude e reverência. E ao poder do próprio Espírito Santo há de caber conceder-nos o perdão pelo que omitimos por serem poucos os dias, e imprimir mais perfeitamente em vocês, os ouvintes, o conhecimento do que ainda resta; enquanto, pela leitura frequente das Sagradas Escrituras, os diligentes entre vocês chegam a entender estas coisas e, a esta altura, tanto por estas catequeses presentes quanto pelo que lhes foi dito antes, mantêm com mais firmeza a fé “num só Deus, Pai todo-poderoso; e em nosso Senhor Jesus Cristo, seu Filho unigênito; e no Espírito Santo, o Consolador.” Embora a própria palavra e o título de Espírito se apliquem aos três em comum nas Sagradas Escrituras (pois se diz do Pai: “Deus é Espírito” (Jo 4.24), como está escrito no Evangelho segundo João; e do Filho: “Espírito diante da nossa face, Cristo, o Senhor” (Lm 4.20)30, como diz o profeta Jeremias; e do Espírito Santo: “o Consolador, o Espírito Santo” (Jo 14.26), como foi dito), contudo a ordem dos artigos na fé, se entendida com piedade, refuta também o erro de Sabélio31. Voltemos, pois, no nosso discurso, ao ponto que agora urge e é proveitoso a vocês.
35. Cuidado para que nunca você venha, como Simão, aos ministros do batismo com hipocrisia, sem que o seu coração busque a verdade. A nós cabe advertir, mas a você cabe resguardar-se. Se você “continua firme mediante a fé” (Rm 11.20), feliz é você; se caiu na incredulidade, deste dia em diante lance fora a sua incredulidade e receba plena certeza. Pois, no momento do batismo, quando você chegar diante dos bispos, ou dos presbíteros, ou dos diáconos32 (pois a sua graça está em toda parte, nas aldeias e nas cidades, sobre os humildes e sobre os grandes, sobre escravos e sobre livres, porque esta graça não vem dos homens, mas o dom vem de Deus por meio dos homens), aproxime-se do ministro do batismo; mas, ao aproximar-se, não pense no rosto daquele que você vê, e sim lembre-se deste Espírito Santo de quem agora falamos. Pois ele está presente, pronto para selar a sua alma, e lhe dará aquele selo diante do qual os espíritos malignos tremem, um selo celestial e sagrado, como também está escrito: “Nele também vocês creram e receberam o selo do Espírito Santo da promessa” (Ef 1.13)33.
36. Mas ele prova a alma. Não lança as suas pérolas aos porcos; se você fingir, ainda que os homens agora o batizem, o Espírito Santo não o batizará34. Mas, se você se aproximar com fé, ainda que os homens ministrem o que se vê, o Espírito Santo concede o que não se vê. Você está chegando a uma grande prova, a um grande alistamento35, naquela única hora, que, se você a desperdiçar, o seu desastre é irreparável; mas, se for considerado digno da graça, a sua alma será iluminada, você receberá um poder que não tinha, receberá armas terríveis para os espíritos malignos; e, se não lançar fora as suas armas, mas guardar o selo sobre a sua alma, nenhum espírito maligno se aproximará de você; porque ficará intimidado; pois, na verdade, é pelo Espírito de Deus que os espíritos malignos são expulsos.
37. Se você crer, não só receberá a remissão dos pecados, mas também fará coisas que ultrapassam o poder humano36. E que você seja digno também do dom de profecia! Pois receberá a graça na medida da sua capacidade, e não das minhas palavras; pois talvez eu fale apenas de coisas pequenas, mas você pode receber coisas maiores; porque a fé é um grande negócio37. Por toda a sua vida o Consolador, seu guardião, permanecerá com você; ele cuidará de você como do seu próprio soldado; das suas saídas e das suas entradas, e dos inimigos que tramam contra você. E ele lhe dará dons de graça de toda espécie, se você não o entristecer pelo pecado; pois está escrito: “E não entristeçam o Espírito Santo de Deus, no qual vocês foram selados para o dia da redenção” (Ef 4.30). Que é, então, amados, conservar a graça? Estejam prontos para receber a graça e, depois de recebê-la, não a lancem fora.
38. E que o próprio Deus de todas as coisas, que falou pelo Espírito Santo por meio dos profetas, que o enviou sobre os apóstolos no dia de Pentecostes neste lugar, ele mesmo o envie também agora sobre vocês; e por ele guarde também a nós, comunicando a todos nós em comum o seu benefício, para que sempre produzamos os frutos do Espírito Santo: “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl 5.22-23), em Cristo Jesus, nosso Senhor. Por ele e com ele, juntamente com o Espírito Santo, glória ao Pai, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.
1. tais tes humeteras agapes akoais. Compare § 30, abaixo: aito para tes humeteras agapes. Inácio, Aos Filadelfienses, c. 4 (recensão longa): tharron grapho te axiotheo agape humon. “Caritas” é usado constantemente da mesma maneira.
2. Catequese VI.
3. Catequese VII.
4. Catequese VIII.
5. Catequese IX.
6. Catequeses X e XI.
7. Catequeses XII e XV.
8. Compare Basílio, Sobre o Espírito Santo, c. 38: “Pela vontade do Pai os espíritos ministradores subsistem, pela operação do Filho são trazidos à existência e pela presença do Espírito Santo são aperfeiçoados; e a perfeição dos anjos é a santificação e a permanência nela.”
9. Catequese XVI, 28.
10. hegemoniko, na Septuaginta. A Revised Version traz: “Sustenta-me com um espírito livre”.
11. Orígenes, na Catena sobre João 3.8: “Isto também mostra que o Espírito é um Ser (ousian); pois ele não é, como alguns supõem, uma energia de Deus, que, segundo eles, não tem individualidade de subsistência. E o Apóstolo também, depois de enumerar os dons do Espírito, logo acrescentou: ‘Mas todas essas coisas as realiza um só e o mesmo Espírito, distribuindo-as a cada um, individualmente, conforme ele quer.’ Ora, se ele quer, realiza e distribui, é certamente um Ser que age, e não uma energia” (Suicer, Thesaurus, Pneuma).
12. enupostaton. Cf. Catequese XI, 10; XVI, 13.
13. Catequese IV, 16; XVI, 4.
14. Catequese III, 6.
15. tas aparchas kai ta proteia. A ordem está invertida na tradução. Cf. Hermas, O Pastor, Semelhanças VIII, 7: echontes zelon tina en allelois peri proteion.
16. O editor beneditino acrescenta as duas últimas palavras, tupon paradeloun, com base nos manuscritos Roe e Casaub., como necessárias à construção, e junta a seguinte nota: “O texto assim emendado admite dois sentidos. O primeiro: que o Espírito Santo desceu em forma de pomba, ave pura e inofensiva, para mostrar que ele mesmo é, por assim dizer, uma pomba mística na sua simplicidade e no seu amor aos filhos, por cujo novo nascimento e remissão de pecados no batismo ele une as suas orações às de Cristo, como Cirilo ensina na Catequese XVI, 20; e que Cristo, pela mesma razão, foi prefigurado misticamente no Cântico dos Cânticos como tendo olhos de pomba. O outro sentido é que o Espírito desceu em forma de pomba sobre a humanidade de Cristo para mostrar que esta é, por assim dizer, uma pomba em inocência, santidade, amor aos filhos e concorrência com o Espírito Santo na regeneração deles… Os dois sentidos são admissíveis e sustentados por muitos dos Pais; mas eu prefiro o primeiro.” Esta interpretação é confirmada por Tertuliano (Sobre o batismo, c. 8), que diz que o Espírito Santo desceu deslizando sobre o Senhor “em forma de pomba”, para que a natureza do Espírito Santo fosse declarada por meio de uma criatura de simplicidade e inocência.
17. epi pleromata hudaton (Septuaginta). O sentido habitual de ophthalmophanos é “manifestamente aos olhos” (Et 8.13).
18. Tertuliano, no mesmo lugar: “Assim como, depois das águas do dilúvio, pelas quais a antiga iniquidade foi purificada, depois do batismo, por assim dizer, do mundo, uma pomba foi o arauto que anunciou à terra o abrandamento da ira celeste… assim também sobre a nossa carne, quando ela sai da pia depois dos antigos pecados, voa a pomba do Espírito Santo, trazendo-nos a paz de Deus, enviada do céu, onde está a Igreja, a arca prefigurada.” Compare também Hipólito, A Santa Teofania, §§ 8 e 9, tratado com o qual Cirilo tem muito em comum.
19. Gn 2.7: “e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida”. Compare Catequese XIV, 10.
20. A Septuaginta, seguida por Cirilo, difere muito do hebraico; a Revised Version traz: “Aquele que despedaça subiu diante do teu rosto”.
21. Catequese III, 7; XVI, 5. O bispo Pearson (Lectiones in Acta Apost. I, § 18): “Com razão disse Cirilo, bispo de Jerusalém: ‘Todas as prerrogativas estão conosco.’ E o imperador Justino a chamou ‘Mãe do nome cristão’. Também Jerônimo (Ep. 17, 3) disse: ‘Todo o mistério da nossa fé é natural daquela província e daquela cidade.'”
22. A Revised Version traz: “O vento sopra”; e à margem: “Ou: O Espírito sopra”. É impossível preservar o duplo sentido em inglês.
23. Stephanos, “coroa.”
24. kleidouchos. Cf. Mt 16.19; Catequese II, 19; XI, 3.
25. Cf. Is 65.15.
26. Epistole significa uma mensagem ou determinação, seja verbal, seja escrita.
27. Veja § 1, acima.
28. Cirilo evidentemente entendeu en oligo como “quase” (A.V.); mas a tradução mais correta é: “Em poucas palavras você me persuadiria a me tornar cristão.”
29. Na R.V.: “por meio do Espírito Santo que habita em nós”.
30. “O alento das nossas narinas, o ungido do Senhor”: referindo-se ao rei cativo.
31. A menção distinta, no Credo, de três Pessoas exclui o erro de Sabélio, que as confundia. Cf. Catequese IV, 8; XVI, 14.
32. Cf. Bingham, Antiquities, II. xx. 9. “Quando Cirilo orienta os seus catecúmenos sobre como deviam comportar-se no momento do batismo, quando chegavam diante de um bispo, de um presbítero ou de um diácono, na cidade ou na aldeia, isso pode ser tomado como clara indicação de que então se permitia normalmente aos diáconos ministrar o batismo nas localidades do interior.” Veja ainda ‘Of the power granted anciently to deacons to baptize’, Bingham, Lay Baptism, I. i. 5.
33. Cf. Catequese I, 2, 3.
34. Cf. Procatequese, 4: “A água receberá você, mas o Espírito não o aceitará.”
35. Stratologia. Cf. Catequese III, 3, mellete stratologeisthai.
36. A mesma graça dupla é atribuída ao batismo na Catequese XIII, 23: “Você recebe agora a remissão dos seus pecados e os dons da generosidade espiritual do Rei.”
37. Pragmateia. Cf. 2Tm 2.4; e Lc 19.13: “Negociem (pragmateuesthe) até que eu volte”.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Edwin Hamilton Gifford (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 7, Nova York, 1894), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Cirilo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.