João Crisóstomo, Sobre o Sacerdócio · Livro V
O trabalho da pregação: desprezar a inveja e os louvores do povo, estudar sempre e falar para agradar a Deus.
1. Já mostramos o bastante quanta habilidade se exige do mestre para batalhar com empenho pela verdade. Mas tenho de mencionar mais uma coisa além dessa, que é causa de inúmeros perigos; embora eu, de minha parte, preferisse dizer que a causa não é a coisa em si, mas aqueles que não sabem usá-la bem, pois por si mesma ela é um auxílio para a salvação e para muitos outros bens, sempre que você encontra homens zelosos e bons à frente dela. Que quero dizer, então? O grande trabalho gasto na preparação dos discursos que se pronunciam em público. Para começar, a maioria dos que estão sob os cuidados dos pregadores não se dispõe a tratá-los como mestres; antes, desdenhando o papel de aprendizes, assume a atitude dos que se sentam para assistir aos jogos públicos. E assim como lá a multidão se divide em partidos, e uns se ligam a este, outros àquele, assim também aqui os homens se dividem e se tornam partidários ora deste mestre, ora daquele, ouvindo-os com favor ou com despeito. E não há só esta dificuldade, mas outra igualmente grande. Pois, se ocorrer a algum pregador entretecer em seus sermões alguma parte das obras de outros, fica exposto a maior desonra do que os que furtam dinheiro. Mais ainda: muitas vezes, sem ter tomado nada de ninguém, só por estar sob suspeita, sofreu a sorte de um ladrão. E por que falo das obras alheias, quando nem lhe é permitido usar os próprios recursos sem variá-los? Pois o público costuma ouvir não para o proveito, mas para o prazer, sentado como quem julga tragédias e espetáculos musicais; e aquela facilidade de palavra contra a qual há pouco discursamos torna-se aqui desejável, ainda mais do que no caso dos advogados, que são obrigados a contender uns contra os outros. O pregador, portanto, deve ter uma grandeza de ânimo que exceda em muito a minha pequenez de espírito, para corrigir esse prazer desordenado e inútil da multidão e conseguir conduzi-la a um modo de ouvir mais proveitoso, de forma que o seu povo o siga e lhe ceda, e ele não seja arrastado pelos caprichos dela. E a isso não se chega senão por dois meios: a indiferença aos louvores do povo e o poder de pregar bem.1
2. Pois, se faltar um desses dois, o que resta torna-se inútil, divorciado do outro. Se o pregador for indiferente ao louvor, mas não for capaz de produzir a doutrina “que é temperada com sal, com graça” (Cl 4.6), torna-se desprezado pela multidão e nada ganha com a sua nobreza de ânimo. Se, por outro lado, prega com êxito, mas se deixa vencer pelo pensamento do aplauso, o dano atinge igualmente a ele e à multidão, porque, no seu desejo de louvor, cuida de falar mais para agradar do que para edificar. E assim como aquele que não se deixa influenciar pela boa opinião, mas não tem habilidade para falar, não cede ao gosto da multidão e também não consegue lhe fazer nenhum bem digno de menção, porque nada tem a dizer, assim também aquele que se deixa levar pelo desejo de louvor, embora seja capaz de prestar à multidão um serviço melhor, prefere oferecer-lhe em lugar disso o alimento que lhe agrada ao paladar, porque com isso compra o tumulto das aclamações.
3. O melhor tipo de bispo deve, portanto, ser forte nesses dois pontos, de modo que nenhum deles suplante o outro. Pois, se quando se levanta na assembleia e diz palavras próprias para fazer os negligentes estremecerem,2 ele então tropeça, para no meio e é forçado a corar pelo seu fracasso, o bem do que disse se perde de imediato. Os que foram repreendidos, feridos pelo que ouviram e sem outro modo de se vingar dele, zombam dele e escarnecem da sua ignorância, pensando com isso encobrir a própria vergonha. Por isso ele deve, como um ótimo cocheiro, chegar a um juízo preciso sobre esses dois bens, para poder lidar com ambos conforme a necessidade; pois, quando for irrepreensível aos olhos de todos, então poderá, com toda a autoridade que quiser, tanto corrigir como dispensar da correção todos os que estão sob o seu governo. Sem isso, não lhe será fácil fazê-lo. Mas essa nobreza de alma não deve mostrar-se apenas até o limite da indiferença ao louvor; deve ir além, para que o ganho assim obtido não fique, por sua vez, sem fruto.
4. A que mais, então, ele deve ser indiferente? À calúnia e à inveja. Quanto à maledicência descabida,3 porém (pois naturalmente o bispo sofre algumas censuras sem fundamento), convém que ele não a tema nem trema diante dela em excesso, nem a deixe passar inteiramente; antes, ainda que seja falsa ou levantada contra nós pela gente comum, devemos procurar apagá-la imediatamente. Pois nada engrandece tanto uma fama má ou boa quanto a turba indisciplinada. Acostumados a ouvir e a falar sem parar para examinar, repetem a esmo tudo o que lhes cai no caminho, sem nenhuma consideração pela verdade. Por isso o bispo não deve ficar despreocupado com a multidão, mas cortar logo pela raiz as suas más suspeitas, persuadindo os seus acusadores, ainda que sejam os mais insensatos de todos os homens, e não omitir nada que possa dissipar um boato desfavorável. Mas se, fazendo nós tudo isso, os que nos censuram não se deixarem persuadir, daí em diante não devemos dar-lhes atenção. Pois, se alguém se abate depressa demais com esses incidentes, nunca será capaz de produzir nada de nobre e admirável. O desânimo e as preocupações constantes têm grande poder para destruir as forças da mente e reduzi-la à extrema fraqueza. Assim, pois, deve o sacerdote portar-se para com os que estão sob os seus cuidados, como um pai se portaria com os filhos muito pequenos; e assim como não nos perturbamos com os insultos, os golpes ou os choros deles, nem fazemos muito caso quando riem e se alegram conosco, assim também não devemos nos envaidecer com as promessas dessas pessoas nem nos abater com a sua censura, quando vem delas fora de propósito. Mas isso é difícil, meu bom amigo, e talvez, penso eu, até impossível. Pois não sei se algum homem jamais conseguiu, por mais que se esforçasse, não sentir prazer quando é louvado; e quem sente prazer nisso provavelmente também deseja desfrutá-lo, e quem deseja desfrutá-lo ficará, necessariamente, de todo aflito e fora de si sempre que lhe faltar. Assim como os que se deleitam em ser ricos se entristecem quando caem na pobreza, e os que se acostumaram a viver no luxo não suportam viver pobremente, assim também os que anseiam por aplausos, não só quando são censurados sem motivo, mas quando não estão sendo louvados continuamente, definham na alma como que por uma fome, sobretudo quando eles mesmos se acostumaram a ser louvados ou quando ouvem outros sendo louvados. Quem entra na provação da pregação com desejos desse tipo, quantos aborrecimentos e quantas angústias você acha que terá? Não é mais possível o mar ficar sem ondas do que esse homem ficar sem preocupações e tristezas.
5. Pois, ainda que o pregador tenha grande capacidade (e isso só se encontraria em poucos), nem nesse caso fica livre do trabalho contínuo. Como a pregação não vem da natureza, mas do estudo, suponha-se que um homem alcance nela um alto nível: ela o abandonará, se ele não cultivar o seu dom com aplicação e exercício constantes. De modo que há mais trabalho para os mais sábios do que para os sem instrução. Pois a negligência não traz o mesmo grau de perda a um e a outro, mas a perda é exatamente proporcional à diferença entre os dois cabedais. Os últimos4 ninguém os censuraria, já que nada oferecem digno de atenção. Mas os primeiros, se não produzirem constantemente algo acima da reputação que todos lhes atribuem, recebem grande censura de todos os lados; além disso, os últimos receberiam considerável louvor mesmo por pequenos feitos, ao passo que os esforços dos primeiros, a não ser que sejam especialmente maravilhosos e surpreendentes, não só deixam de ganhar aplauso, mas encontram muitos críticos. Pois os ouvintes se põem a julgar não tanto o que é dito quanto a reputação de quem fala; de modo que, sempre que alguém supera todos os demais na arte oratória, então, mais do que todos, ele precisa de estudo laborioso. A esse homem não se permite valer-se da desculpa comum que a natureza humana apresenta, de que não se pode ter êxito em tudo; mas, se os seus sermões não corresponderem em tudo à grandeza das expectativas formadas, ele sairá sem ter ganhado nada além de incontáveis zombarias e censuras. E ninguém leva em conta, a respeito dele, que o desânimo, a dor, a ansiedade e muitas vezes a ira podem intervir, turvar a clareza dos seus pensamentos e impedir que as suas produções saiam dele sem mistura;5 e que, em suma, sendo apenas homem, não pode ser sempre o mesmo nem sair-se bem em todas as ocasiões, mas naturalmente há de às vezes ficar aquém do alvo e parecer de capacidade inferior à habitual. Nenhuma dessas coisas, como eu disse, eles querem levar em conta, mas o acusam de faltas como se estivessem julgando um anjo. Mesmo em outros casos, aliás, o homem tende a não fazer caso dos bons feitos do próximo, ainda que sejam muitos e grandes; e, se em algum ponto aparece um defeito, ainda que acidental, ainda que só ocorra a longos intervalos, é logo percebido e sempre lembrado; e assim coisas pequenas e insignificantes muitas vezes diminuíram a glória de muitos e grandes feitos.
6. Você vê, meu excelente amigo, que o homem poderoso na pregação tem especial necessidade de mais estudo do que os outros; e, além do estudo, também de uma paciência maior do que a exigida de todos aqueles que já mencionei. Pois muitos se levantam constantemente contra ele, num espírito vão e insensato, e, sem ter nenhuma falta a apontar nele senão a de que é geralmente aprovado, o odeiam; e ele deve suportar com nobreza a sua amarga malícia. Como não conseguem esconder esse ódio maldito, que nutrem tão sem razão, eles injuriam, censuram, caluniam em particular e difamam em público; e a mente que começou a se magoar e se exasperar em cada uma dessas ocasiões não escapará de ser corrompida pela tristeza. Pois não só se vingarão dele pelos próprios atos, mas tentarão fazê-lo por meio de outros; e muitas vezes, escolhendo alguém incapaz de dizer uma palavra, o exaltarão com louvores e o admirarão além do seu valor. Alguns fazem isso só por ignorância,6 outros por ignorância e inveja, a fim de arruinar a reputação do outro, e não para provar que é admirável quem não o é. E o homem de ânimo nobre tem de lutar não só contra estes, mas muitas vezes contra a ignorância de toda a multidão. Pois, como não é possível que todos os que se reúnem sejam homens instruídos, e o provável é que a maior parte da congregação se componha de gente sem instrução, e que mesmo os demais, de cabeça mais clara que eles, fiquem tão aquém da capacidade de julgar sermões quanto os outros ficam aquém deles, de modo que apenas um ou dois ali sentados possuem esse poder, segue-se necessariamente que quem prega melhor que os outros colhe menos aplausos e talvez volte para casa sem ser louvado de modo algum. E ele deve estar preparado para enfrentar com nobreza essas anomalias, perdoar os que as cometem por ignorância e chorar pelos que se conformam com elas por inveja, como criaturas miseráveis e dignas de compaixão, sem considerar que as suas capacidades diminuíram por qualquer desses motivos. Pois, se um homem, pintor eminentemente bom e superior a todos na sua arte, vê ridicularizado o retrato que desenhou com grande precisão, não deve desanimar nem considerar ruim a pintura por causa do juízo dos ignorantes; assim como não consideraria maravilhoso e belo o desenho realmente ruim por causa do espanto dos que nada entendem de arte.
7. Seja o melhor artífice o juiz dos seus próprios trabalhos, e sejam as suas obras julgadas boas ou ruins conforme a sentença que sobre elas der a mente que as concebeu. Mas que ele nem sequer leve em conta a opinião, tão errada e leiga, dos de fora. Portanto, quem toma sobre si o esforço do ensino nunca dê atenção à boa opinião dos de fora, nem desanime na alma por causa dessas pessoas; mas, trabalhando nos seus sermões para agradar a Deus (pois seja só esta a sua regra e o seu propósito no desempenho dessa melhor espécie de obra, e não a aclamação nem a boa opinião), se de fato for louvado pelos homens, não rejeite o aplauso deles; e, quando os ouvintes não o oferecerem, não o busque nem se entristeça. Pois consolo suficiente nos seus trabalhos, e maior que todos, é poder ter consciência de que dispõe e ordena o seu ensino com o propósito de agradar a Deus.
8. Pois, se antes de tudo ele se deixar levar pelo desejo de louvor indiscriminado, não colherá nenhum proveito dos seus trabalhos nem do seu poder na pregação, porque a mente, incapaz de suportar as censuras insensatas da multidão, desanima e abandona todo o empenho pela pregação. Por isso é especialmente necessário exercitar-se para ser indiferente a toda espécie de louvor. Pois saber pregar não basta para conservar esse poder, se não se acrescentar isto. E, se alguém examinar com cuidado o homem desprovido dessa arte, verá que ele precisa ser indiferente ao louvor não menos que o outro,7 pois será forçado a fazer muitas coisas erradas ao se pôr sob o domínio da opinião popular. Não tendo vigor para igualar os que têm fama pela qualidade da sua pregação, não se absterá de tramar contra eles, de invejá-los e de censurá-los sem razão, e de muitas práticas vergonhosas desse tipo; antes, arriscará tudo, ainda que precise arruinar a própria alma, para rebaixar a fama deles ao nível da sua própria insignificância. Além disso, deixará de se esforçar no seu trabalho, espalhando-se sobre a sua mente uma espécie de torpor. Pois muito trabalho recompensado com pouco louvor basta para abater o homem que não sabe desprezar o louvor e lançá-lo numa profunda letargia; já que até o lavrador, quando gasta tempo com algum pedaço de terra ruim e é forçado a lavrar uma rocha, logo desiste do trabalho, a não ser que tenha muito empenho na tarefa ou o medo da fome iminente pese sobre ele. Pois, se os que são capazes de falar com considerável poder precisam de um exercício tão constante para conservar o seu talento, aquele que não junta material nenhum, mas é forçado a pensar no meio do próprio esforço, que dificuldade, que confusão, que aflição não experimentará, para conseguir, com grande trabalho, reunir umas poucas ideias! E se algum dos clérigos que estão sob a sua autoridade, colocados na ordem inferior, conseguir sair-se melhor do que ele nessa posição, que mente divina não precisará ele ter para não ser tomado de inveja nem abatido pelo desânimo! Pois estar colocado num posto de dignidade mais alta, ser superado por um inferior em categoria e suportar isso com nobreza não seria próprio de uma mente comum, nem de uma como a minha, mas de uma dura como o diamante. E, se o homem de maior reputação for muito paciente e modesto, o sofrimento se torna tanto mais fácil de suportar. Mas, se for ousado, jactancioso e vaidoso, uma morte diária seria desejável para o outro, tanto ele lhe amargurará a vida, insultando-o na cara e rindo dele pelas costas, arrancando-lhe grande parte da autoridade e querendo ser ele mesmo tudo. Mas, em todas essas circunstâncias, tem a maior segurança aquele que possui facilidade na pregação, a atenção zelosa da multidão ao seu redor e a afeição de todos os que estão sob os seus cuidados. Você não sabe que paixão pelos sermões irrompeu hoje em dia na mente dos cristãos? E que os que se exercitam na pregação gozam de especial honra, não só entre os pagãos, mas entre os da família da fé? Como, então, alguém poderia suportar a vergonha de ver todos calados enquanto ele prega, achando que estão oprimidos e esperando o fim do sermão como uma folga do trabalho, enquanto ouvem outro com avidez, ainda que pregue longamente, lamentam quando ele está para terminar e quase se irritam quando ele pretende calar-se? Se essas coisas lhe parecem pequenas e fáceis de desprezar, é por causa da sua inexperiência. Elas bastam, de fato, para apagar o zelo e paralisar as forças da mente, a não ser que o homem se retire de todas as paixões humanas e se aplique a moldar a sua conduta segundo o modelo daquelas potências incorpóreas que não são perseguidas nem pela inveja, nem pelo anseio de fama, nem por nenhum outro sentimento mórbido. Se, então, houver algum homem de tal têmpera que consiga subjugar essa fera tão difícil de capturar, tão invencível, tão feroz, isto é, a fama pública, e cortar as suas muitas cabeças, ou melhor, impedir de todo que cresçam, ele poderá repelir facilmente esses muitos ataques violentos e desfrutar de uma espécie de porto tranquilo de descanso. Mas quem não se libertou desse monstro envolve a alma em lutas de toda espécie, em agitação perpétua e no peso do desânimo e de outras paixões. Mas para que expor em pormenor o restante dessas dificuldades, que ninguém será capaz de descrever nem de compreender a não ser que as tenha experimentado de fato?
1. Os sermões do próprio Crisóstomo eram com frequência interrompidos por aplausos, que ele sempre repreendia com severidade.
2. epistupsai, literalmente, franzir os lábios, como ao provar algo ácido e azedo.
3. kakegoria. Se se ler kategoria, o sentido será “acusação”.
4. A saber, os sem instrução.
5. eilikrine, literalmente, de tal modo que a luz do sol não consegue descobrir neles nenhum defeito.
6. Outra leitura é mania, desvario.
7. Isto é, o pregador hábil.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de W. R. W. Stephens (Nicene and Post-Nicene Fathers, 1ª série, vol. 9, Nova York, 1889), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Crisóstomo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.