Walker, História da Igreja Cristã · Período V

Período V, seções I a III

I. As Cruzadas; II. Novos movimentos religiosos; III. Seitas antieclesiásticas. Cátaros e valdenses. A Inquisição.

Período V. A Baixa Idade Média

Seção I. As Cruzadas

As Cruzadas são, em muitos aspectos, o mais notável dos fenômenos da Idade Média. Suas causas foram muitas. O historiador que dá ênfase às influências econômicas pode com razão apontar as condições excepcionalmente penosas do século XI como fonte principal. Entre 970 e 1040 contaram-se quarenta e oito anos de fome. De 1085 a 1095 as condições foram ainda piores. A miséria e a inquietação se espalhavam por toda parte. As condições mais estáveis da época tornavam impossíveis migrações de povos como as que se tinham visto nas invasões germânicas por ocasião da queda do império do Ocidente. Sentia-se, porém, o mesmo desejo de mudar de ambiente.

Estimulado sem dúvida por essas condições econômicas, todo o século XI foi um período de aprofundamento do sentimento religioso. Suas manifestações assumiram formas monásticas e ascéticas. Caracterizou-se por um forte senso de “desapego do mundo”, da miséria da terra e da bem-aventurança do céu. Esse zelo religioso crescente fora a forja em que se reformara o papado; sustentara a oposição à simonia e ao nicolaitismo e dera ânimo à longa luta com o império. As regiões em que o movimento de reforma brilhara com mais intensidade, ou que tinham entrado em relação mais estreita com o papado reformador, a França, a Lorena e o sul da Itália, foram as áreas de recrutamento dos principais exércitos cruzados. A piedade da época atribuía grande valor às relíquias e às peregrinações; e que relíquia poderia haver mais preciosa, ou que santuário de peregrinação mais nobre, do que a terra santificada pela vida, morte e ressurreição de Cristo? Essa terra era objeto de peregrinação desde os dias de Constantino. Embora Jerusalém estivesse em poder muçulmano desde 638, as peregrinações tinham prosseguido praticamente sem interrupção, salvo breves intervalos. Nunca tinham sido tão numerosas como no século XI, até que a conquista de grande parte da Ásia Menor, a partir de 1071, e a tomada de Jerusalém pelos turcos seljúcidas tornaram as peregrinações quase impossíveis e profanaram os lugares santos.

Foi a uma época profundamente convencida do proveito espiritual das peregrinações que chegou a notícia desses acontecimentos. Aquele tempo, além disso, assistia a lutas bem-sucedidas contra o maometanismo. Entre 1060 e 1090 os normandos do sul da Itália arrancaram a Sicília aos muçulmanos. Sob Fernando I de Castela (1028-1065) começara a reconquista cristã efetiva da Espanha aos maometanos. O fim do século XI é a época do Cid (1040?-1099). Espalhou-se amplamente o sentimento de que o cristianismo era capaz de desalojar o maometanismo. O gosto pela aventura, a esperança de saque, o desejo de engrandecimento territorial e o ódio religioso sem dúvida moveram os cruzados com impulsos bem terrenos. Seríamos injustos com eles, contudo, se não reconhecêssemos com igual clareza que pensavam estar fazendo algo da mais alta importância para a sua alma e para Cristo.

O primeiro impulso para as Cruzadas veio de um apelo do imperador do Oriente, Miguel VII (1067-1078), a Hildebrando, pedindo auxílio contra os seljúcidas. Aquele grande papa, a quem isso parecia prometer a reunião da cristandade grega e latina, abraçou a causa em 1074 e pôde comunicar a Henrique IV da Alemanha que cinquenta mil homens estavam prontos para partir sob a liderança adequada. A irrupção logo em seguida da luta das investiduras frustrou o plano. Ele seria retomado com eficácia por Urbano II, herdeiro de Hildebrando em tantos aspectos. Aleixo I (1081-1118), governante mais forte que seus predecessores imediatos em Constantinopla, sentia-se incapaz de enfrentar os perigos que ameaçavam o império. Apelou, portanto, a Urbano II por auxílio. Urbano recebeu os mensageiros imperiais no sínodo de Piacenza, no norte da Itália, em março de 1095, e prometeu sua ajuda. No sínodo reunido em Clermont, no leste da França, no novembro seguinte, Urbano proclamou então a Cruzada num apelo de consequências quase sem exemplo. A empresa crescera na concepção do papa, de um socorro ao acossado Aleixo para um resgate geral dos lugares santos das mãos muçulmanas. Ele conclamou toda a cristandade a tomar parte na obra, prometendo perdão dos pecados a todos e vida eterna aos que tombassem na empresa. A mensagem encontrou resposta imediata e entusiástica. Entre os pregadores populares que a difundiram, nenhum foi mais famoso que Pedro, o Eremita, monge de Amiens ou de seus arredores. Uma lenda antiga atribuiu-lhe a origem da própria Cruzada, da qual ele foi, sem dúvida, um dos mais eficazes proclamadores. Ele não merece a distinção assim atribuída, nem sua conduta na Cruzada, uma vez iniciada, foi tal que honrasse sua liderança ou mesmo sua coragem.

Tamanho foi o entusiasmo despertado, especialmente na França, que grandes grupos de camponeses, com alguns cavaleiros entre eles, partiram na primavera de 1096 sob a liderança de Gualtério Sem-Haveres, de um sacerdote chamado Gottschalk e do próprio Pedro, o Eremita. Alguns desses bandos desordenados massacraram muitos judeus nas cidades do Reno. Suas próprias pilhagens desenfreadas provocaram represálias selvagens na Hungria e nos Bálcãs. O bando de Pedro chegou a Constantinopla, mas foi quase inteiramente destruído pelos turcos numa tentativa de alcançar Niceia. O próprio Pedro não participou dessa catástrofe, juntou-se à força principal dos cruzados e sobreviveu aos perigos da expedição.

A verdadeira obra da Primeira Cruzada foi realizada pela nobreza feudal da Europa. Formaram-se três grandes exércitos. O da Lorena e da Bélgica incluía Godofredo de Bulhão, o herói moral da Cruzada, pois inspirava o respeito devido à sua dedicação íntegra e desinteressada aos objetivos dela, embora não fosse o seu general mais hábil. Com Godofredo estavam seus irmãos Balduíno e Eustáquio. Outros exércitos, do norte da França, eram comandados por Hugo de Vermandois e Roberto da Normandia. Do sul da França veio uma grande força sob o conde Raimundo de Toulouse, e da Itália normanda um exército bem equipado, comandado por Boemundo de Tarento e seu sobrinho Tancredo. A primeira dessas forças partiu em agosto de 1096. Nenhum comandante único dirigia as hostes. Urbano II nomeara legado seu o bispo Ademar de Puy, e Ademar designou Constantinopla como ponto de reunião. Para lá cada exército seguiu como pôde, chegando no inverno e na primavera de 1096-1097 e causando não pequena dificuldade a Aleixo com sua desordem e suas exigências.

Em maio de 1097 o exército cruzado iniciou o cerco de Niceia. A rendição veio em junho. Em 1º de julho, uma grande vitória sobre os turcos perto de Dorileia abriu o caminho através da Ásia Menor, de modo que Icônio foi alcançada em meados de agosto, depois de graves perdas pela fome e pela sede. Em outubro a hoste cruzada estava diante das muralhas de Antioquia. Tomou essa cidade somente depois de um cerco difícil, em 3 de junho de 1098. Três dias depois os cruzados foram sitiados na cidade pelo governante turco Kerbogha de Mossul. A crise da Cruzada foi esse tempo de perigo e desespero; mas em 28 de junho Kerbogha foi completamente derrotado. Ainda assim, só em junho de 1099 se chegou a Jerusalém, e só em 15 de julho ela foi tomada e seus habitantes passados a fio de espada. A derrota completa de um exército egípcio de socorro perto de Ascalom, em 12 de agosto de 1099, coroou o êxito da Cruzada.

Concluída a obra, Godofredo de Bulhão foi escolhido Protetor do Santo Sepulcro. Morreu em julho de 1100 e foi sucedido por seu irmão mais hábil, que fundara um condado latino em Edessa e agora tomou o título de rei Balduíno I (1100-1118). Os cruzados vinham do Ocidente feudal, e o país foi dividido e organizado em pleno estilo feudal. Abrangia, além da Terra Santa, o principado de Antioquia e os condados de Trípoli e Edessa, que eram praticamente independentes do rei de Jerusalém. Nas cidades surgiram importantes estabelecimentos comerciais italianos; mas a maioria dos cavaleiros era francesa. Sob um patriarca de rito latino em Jerusalém, o país foi dividido em quatro arcebispados e dez bispados, e fundaram-se numerosos mosteiros.

O maior sustentáculo do reino logo passaram a ser as ordens militares. Destas, a dos Templários foi fundada por Hugo de Payens em 1119 e recebeu do rei Balduíno II (1118-1131) alojamento perto do local do templo, daí o seu nome. Graças ao apoio caloroso de Bernardo de Claraval, a ordem recebeu aprovação papal em 1128 e logo conquistou grande popularidade no Ocidente. Seus membros faziam os votos monásticos habituais e se comprometiam, além disso, a lutar pela defesa da Terra Santa e a proteger os peregrinos. Não eram clérigos, mas leigos. Em alguns aspectos a ordem se assemelhava a uma moderna sociedade missionária. Os que simpatizavam com a Cruzada, mas estavam impedidos pela idade ou pelo sexo de participar pessoalmente da obra, davam com largueza para ser representados por outros por meio da ordem. Como a riqueza consistia sobretudo em terras, os Templários logo se tornaram grandes proprietários de terras no Ocidente. Sua independência e sua riqueza fizeram deles objeto do ciúme real, especialmente depois que o fim das Cruzadas frustrou o seu propósito original, e levaram à sua brutal supressão na França em 1307 pelo rei Filipe IV (1285-1314). Enquanto duraram as Cruzadas, foram um dos principais baluartes do reino de Jerusalém.

Quase o mesmo se pode dizer dos grandes rivais dos Templários, os Hospitalários ou Cavaleiros de São João. Carlos Magno fundara em Jerusalém um hospital, que foi destruído em 1010. Refundado por cidadãos de Amalfi, na Itália, já existia antes da Primeira Cruzada e recebeu o nome da igreja de São João Batista, perto da qual se erguia. Essa fundação foi transformada em ordem militar por seu grão-mestre, Raimundo de Puy (1120-1160?), sem descuidar, porém, de seus deveres para com os enfermos. Depois da época das Cruzadas, manteve uma luta contra os turcos a partir de sua sede em Rodes (1310-1523) e depois em Malta (1530-1798). Uma terceira ordem, mais tardia, foi a dos Cavaleiros Teutônicos, fundada por alemães em 1190. Sua obra principal, contudo, não seria na Palestina, mas, a partir de 1229, na Prússia, ou, como hoje se diz, na Prússia Oriental, onde foi pioneira da civilização e da cristianização.

Apesar da desorganização feudal, o reino de Jerusalém teve razoável êxito até que a tomada de Edessa pelos maometanos, em 1144, o privou de seu baluarte do nordeste. Bernardo de Claraval, então no auge de sua fama, proclamou uma nova Cruzada e alistou Luís VII da França (1137-1180) e o imperador Conrado III (1138-1152), da Alemanha, em 1146. Em 1147 partiu a Segunda Cruzada; mas pouco mostrou do entusiasmo ardente da sua predecessora: suas forças pereceram em grande parte na Ásia Menor, e as que chegaram à Palestina foram duramente derrotadas numa tentativa de tomar Damasco, em 1148. Foi um fracasso desastroso, e o seu colapso deixou no Ocidente um sentimento amargo para com o império do Oriente, a cujos príncipes se atribuiu, com razão ou sem ela, aquele fracasso.

Uma das razões do êxito do reino latino tinham sido as discórdias entre os maometanos. Em 1171 o general curdo Saladino tornou-se senhor do Egito; em 1174 havia assegurado Damasco, e em 1183 os territórios de Saladino cercavam o reino latino ao norte, a leste e ao sul. Era preciso agora enfrentar um maometanismo unido. Os resultados não tardaram. Em Hattin o exército latino foi derrotado em julho de 1187. Seguiu-se rapidamente a perda de Jerusalém e da maior parte da Terra Santa. A notícia dessa catástrofe despertou a Europa para a Terceira Cruzada (1189-1192). Nenhuma das Cruzadas foi equipada com mais esmero. Três grandes exércitos foram comandados pelo imperador Frederico Barbarossa (1152-1190), o primeiro soldado de seu tempo, pelo rei Filipe Augusto da França (1179-1223) e pelo rei Ricardo “Coração de Leão” da Inglaterra (1189-1199). Frederico morreu afogado acidentalmente na Cilícia. Seu exército, privado de sua liderança vigorosa, ficou inteiramente ineficaz. As discórdias entre os reis da França e da Inglaterra, e o rápido regresso de Filipe à França para promover seus próprios planos políticos, tornaram quase abortiva toda a expedição. Recuperou-se Acre, mas Jerusalém permaneceu em poder muçulmano.

A Quarta Cruzada (1202-1204) foi coisa pequena quanto ao número de participantes, mas de importantes consequências políticas e religiosas. Suas forças vinham das regiões do norte da França conhecidas como Champanhe e Blois, e de Flandres. Os homens se haviam convencido de que o verdadeiro caminho para a recuperação de Jerusalém era a conquista prévia do Egito. Os cruzados, portanto, contrataram com os venezianos o transporte até lá. Incapazes de levantar o custo total, aceitaram a proposta dos venezianos de que, em lugar do saldo devido, parassem no caminho e conquistassem Zara à Hungria em favor de Veneza. Assim fizeram. Fez-se-lhes então uma proposta muito maior. Deviam parar em Constantinopla e ajudar a destronar o imperador usurpador, Aleixo III (1195-1203). Aleixo, filho do deposto Isaac II, prometeu aos cruzados grande pagamento e ajuda em sua expedição, contanto que derrubassem o usurpador, e a astuta Veneza viu perspectivas brilhantes de aumento do comércio. O ódio ocidental aos gregos contribuiu. Embora o papa Inocêncio III proibisse esse desvio de propósito, os cruzados se deixaram persuadir. Aleixo III foi facilmente expulso do trono; mas o outro Aleixo não pôde cumprir suas promessas aos cruzados, que então, com os venezianos, em 1204, tomaram Constantinopla e saquearam os seus tesouros. Nenhum despojo foi buscado com mais avidez do que as relíquias das igrejas, que foram então enriquecer os lugares de culto do Ocidente. Balduíno de Flandres foi feito imperador, e grande parte do império do Oriente foi dividida, à maneira feudal, entre cavaleiros ocidentais. Veneza obteve uma parte considerável e o monopólio do comércio. Nomeou-se um patriarca latino de Constantinopla, e a Igreja grega foi submetida ao papa. O império do Oriente continuou a existir, embora só viesse a recuperar Constantinopla em 1261. Essa conquista latina foi desastrosa. Enfraqueceu muito o império do Oriente e aumentou o ódio entre o cristianismo grego e o latino.

Episódio melancólico foi a chamada “Cruzada das Crianças”, de 1212. Um menino pastor, Estêvão, na França, e um menino de Colônia, na Alemanha, Nicolau, reuniram milhares de crianças. Chegando dispersas à Itália, foram em grande parte vendidas como escravas no Egito. Fizeram-se outras tentativas de cruzada. Uma expedição contra o Egito, em 1218-1221, teve algum êxito inicial, mas terminou em fracasso. Costuma ser chamada Quinta Cruzada. A mais curiosa foi a Sexta (1228-1229). O livre-pensador imperador Frederico II (1212-1250) tomara a cruz em 1215, mas não mostrava pressa em cumprir seus votos. Por fim, em 1227, partiu, mas logo voltou. Parece ter estado realmente doente, mas o papa Gregório IX (1227-1241), julgando-o desertor e tendo outros motivos de hostilidade, excomungou-o. Apesar da excomunhão, Frederico seguiu adiante em 1228 e, no ano seguinte, obteve por tratado com o sultão do Egito a posse de Jerusalém, Belém, Nazaré e um caminho até o litoral. Jerusalém esteve mais uma vez em mãos cristãs até 1244, quando se perdeu definitivamente. O espírito das cruzadas estava agora quase esgotado, embora Luís IX da França (São Luís, 1226-1270) tenha conduzido uma expedição desastrosa contra o Egito em 1248-1250, na qual foi feito prisioneiro, e um ataque a Túnis em 1270, no qual perdeu a vida. A última expedição considerável foi a do príncipe Eduardo, logo depois Eduardo I da Inglaterra (1272-1307), em 1271 e 1272. Em 1291 perdeu-se a última das possessões latinas na Palestina. As Cruzadas tinham terminado, embora os homens continuassem a falar de novas expedições por quase dois séculos mais.

Consideradas do ponto de vista do seu propósito, as Cruzadas foram fracassos. Não fizeram nenhuma conquista permanente da Terra Santa. Pode-se duvidar de que tenham retardado muito o avanço do maometanismo. Seu custo em vidas e em riquezas foi enorme. Embora iniciadas num elevado espírito de devoção, seus métodos, na melhor das hipóteses, não eram os que o cristianismo moderno considera ilustrativos do Evangelho, e sua conduta foi manchada do começo ao fim por discórdias, motivos divididos e baixos padrões de conduta pessoal. Quando se examinam, porém, os seus resultados indiretos, é preciso fazer uma avaliação muito diferente do seu valor. A civilização é resultado de fatores tão complexos que é difícil atribuir valores precisos a causas isoladas. A Europa teria progredido nesse período ainda que não tivesse havido Cruzadas. Mas as mudanças operadas são tão notáveis que é inevitável concluir que a maior influência isolada foi a das Cruzadas.

Pelo comércio que as Cruzadas estimularam, as cidades do norte da Itália e da grande rota comercial que atravessava os Alpes e descia o Reno ganharam importância. Pelos sacrifícios de terras e bens feudais que elas acarretaram, um novo elemento político, o das cidades, um “terceiro estado”, foi grandemente estimulado, especialmente na França. O horizonte mental do mundo ocidental ampliou-se imensamente. Milhares que tinham crescido na mais densa ignorância e estreiteza de espírito foram postos em contato com as esplêndidas cidades e a antiga civilização do Oriente. Por toda parte houve despertar intelectual. O período assistiu ao mais alto desenvolvimento teológico da Idade Média, o da escolástica. Presenciou grandes movimentos religiosos populares, dentro e fora da igreja. Viu o desenvolvimento das universidades. Nele o estudo do direito romano tornou-se uma influência transformadora. A literatura moderna em língua vernácula começou a florescer. Um grande desenvolvimento artístico, a arquitetura nacional do norte da França, impropriamente chamada gótica, percorreu então sua carreira gloriosa. A Europa do período das Cruzadas estava desperta e esclarecida em comparação com os séculos anteriores. Admitindo que as Cruzadas tenham sido apenas um fator nesse resultado, valeram todo o seu custo.

Seção II. Novos movimentos religiosos

A época da Primeira Cruzada foi de crescente seriedade religiosa, que se manifestava no desapego do mundo, no ascetismo, na piedade mística e na ênfase na vida monástica. A longa batalha contra a simonia e o nicolaitismo desviara as simpatias populares do clero “secular”, ou ordinário, tantas vezes criticado, para os monges, como verdadeiros representantes do ideal religioso. Cluny, em certa medida, esgotara a sua força. Seu próprio êxito levara ao luxo no modo de vida. Surgiam novas associações religiosas, das quais a mais importante foi a dos cistercienses, ordem que dominou o século XII como Cluny dominara o XI.

Como Cluny, os cistercienses eram de origem francesa. Um monge beneditino, Roberto, do mosteiro de Montier, impressionado com a falta de disciplina do monaquismo contemporâneo, fundou em 1098 um mosteiro de grande rigor em Cîteaux, não longe de Dijon. Desde o início, o propósito da fundação de Cîteaux foi cultivar uma vida austera e abnegada. Seus edifícios, utensílios e até os objetos do culto eram da maior simplicidade. Na comida e no vestuário praticava grande austeridade. Sua regra era a de Bento, mas sua abnegação ia muito além da dos beneditinos em geral. Sob o seu terceiro abade, Estêvão Harding (1109-1134), um inglês, a importância de Cîteaux cresceu rapidamente. Sob a sua liderança fundaram-se quatro mosteiros filiados até 1115. Daí em diante seu progresso foi rápido em todo o Ocidente. Em 1130 as casas cistercienses somavam trinta; em 1168, duzentas e oitenta e oito; e um século depois, seiscentas e setenta e uma. Sobre todas elas tinha autoridade o abade de Cîteaux, assistido por uma assembleia anual dos superiores dos mosteiros filiados. Dava-se muita atenção à agricultura e relativamente pouca ao ensino ou ao trabalho pastoral. Os ideais eram o afastamento do mundo, a contemplação e a imitação da “pobreza apostólica”.

Não pouco do êxito inicial dos cistercienses deveu-se à influência de Bernardo (1090-1153), a maior força religiosa de seu tempo e, por consenso geral, tido como um dos principais santos medievais. Nascido de linhagem de cavaleiros em Fontaines, perto de Dijon, herdou da mãe uma natureza profundamente religiosa. Com cerca de trinta companheiros, fruto do seu poder de persuasão, entrou no mosteiro de Cîteaux, provavelmente em 1112. Dali saiu em 1115 para fundar o mosteiro cisterciense de Claraval, do qual permaneceu abade até a morte, apesar de esplêndidas ofertas de promoção eclesiástica. Homem da mais completa consagração, seu motivo primordial era um amor a Cristo que, apesar da extrema mortificação monástica, encontrou expressão tão evangélica que conquistou a calorosa aprovação de Lutero e Calvino. A contemplação mística de Cristo era sua mais elevada alegria espiritual. Ela determinou não só o seu próprio tipo de piedade, mas, em grande parte, o da época em suas expressões mais nobres. Acima de tudo, os homens admiravam em Bernardo uma força moral, uma coerência de caráter, que dava peso a tudo o que ele dizia e fazia.

Bernardo era homem de ação demais para ficar confinado ao mosteiro. Primeiro pregador de seu tempo e um dos maiores de todos os tempos, comovia profundamente os seus semelhantes, de qualquer classe social que viessem. Manteve vasta correspondência sobre os problemas da época. Os interesses da igreja, da qual era considerado o ornamento mais eminente, levaram-no a longas viagens. Em particular, foi obra de Bernardo a cura do cisma papal resultante da eleição dupla feita pelos cardeais em 1130, de Inocêncio II (1130-1143) e Anacleto II (1130-1138). Seu papel dominante na organização da malograda Segunda Cruzada já foi considerado (ver Período V, seção I). Sua influência junto ao papado pareceu apenas confirmar-se quando um antigo monge de Claraval foi eleito como Eugênio III (1145-1153), embora muitas coisas que Eugênio fez não fossem do agrado de Bernardo. Convencido de que suas próprias opiniões eram as únicas concepções ortodoxas, persuadiu também outros e obteve a condenação de Abelardo (ver Período V, seção V) pelo sínodo de Sens em 1141, e a confirmação desta pelo papa. Em 1145 Bernardo pregou, com algum êxito temporário, aos hereges do sul da França. Em 1153 morreu, o homem mais conhecido e mais amplamente pranteado de seu tempo.

Os princípios ascéticos e de desapego do mundo de Bernardo foram representados, curiosamente, num homem a quem ele se opôs com amargura: Arnaldo de Bréscia (?-1155). Com toda a sua devoção à “pobreza apostólica”, Bernardo não tinha nenhuma desavença essencial com a organização hierárquica de seu tempo, nem hostilidade ao exercício de seu poder em assuntos mundanos. Arnaldo era muito mais radical. Nascido em Bréscia, estudante na França, tornou-se clérigo em sua cidade natal. De severa austeridade, sustentou a opinião de que o clero devia abandonar toda propriedade e todo poder mundano. Só assim poderiam ser verdadeiros discípulos de Cristo. Na luta entre Inocêncio II e Anacleto II conquistou grande número de seguidores em Bréscia, mas foi obrigado a buscar refúgio na França, onde se tornou íntimo de Abelardo e foi condenado juntamente com ele, por instigação de Bernardo, pelo sínodo de Sens (1141). Bernardo conseguiu a expulsão de Arnaldo da França. Em 1143 os nobres romanos tinham sacudido o domínio temporal do papado e estabelecido o que julgavam ser um renascimento do Senado. Para Roma foi Arnaldo. Ele não era tanto um líder político quanto um pregador da “pobreza apostólica”. Em 1145 Eugênio III restituiu Arnaldo à comunhão da igreja, mas em 1147 Arnaldo e os romanos tinham expulsado Eugênio da cidade. Ali Arnaldo permaneceu influente até a ascensão do enérgico Adriano IV (1154-1159), o único inglês que jamais ocupou o trono papal. Adriano, em 1155, obrigou os romanos a expulsar Arnaldo, proclamando um interdito que proibia os serviços religiosos na cidade; e negociou com o novo soberano alemão, Frederico Barbarossa (1152-1190), a destruição de Arnaldo como preço da coroação imperial. Em 1155 Arnaldo foi enforcado e seu corpo queimado. Embora acusado de heresia, essas acusações são vagas e parecem ter tido pouca substância. A verdadeira ofensa de Arnaldo foi o seu ataque às riquezas e ao poder temporal da igreja.

Muito mais radical fora um pregador do sul da França, nos primeiros anos do século XII, Pedro de Bruys, de cuja origem ou juventude pouco se sabe. A um ascetismo rigoroso ele unia a negação do batismo infantil, a rejeição da Ceia do Senhor em qualquer forma, o repúdio de todas as cerimônias e até dos templos, e a rejeição da cruz, que devia antes ser condenada do que honrada, como instrumento pelo qual Cristo sofrera. Pedro também se opunha às orações pelos mortos. Tendo queimado cruzes em Saint-Gilles, foi ele mesmo queimado pela multidão em data incerta, provavelmente entre 1120 e 1130. Tido como discípulo de Pedro, mas dificilmente considerável como tal, foi Henrique, chamado “de Lausanne”, antigo monge beneditino, que pregou com grande número de seguidores, de 1101 até a sua morte, depois de 1145, no oeste e especialmente no sul da França. Pregador, acima de tudo, de uma justiça ascética, negava, no antigo espírito donatista, a validade dos sacramentos ministrados por sacerdotes indignos. Seu critério de dignidade era a vida ascética e a pobreza apostólica. Por esse padrão condenava o clero rico e ávido de poder. Arnaldo, Pedro e Henrique têm sido proclamados protestantes antes da Reforma. Fazê-lo é não os compreender. Sua concepção da salvação era essencialmente medieval. Levaram a um extremo radical uma crítica dos aspectos mundanos da vida clerical que era amplamente partilhada e tinha sua manifestação mais conservadora na vida e nos ensinos de Bernardo.

Seção III. Seitas antieclesiásticas. Cátaros e valdenses. A Inquisição

O maniqueísmo do Império Romano tardio, do qual Agostinho fora outrora adepto (ver Período II, seção XVIII), parece nunca ter desaparecido de todo no Ocidente. Foi estimulado pela chegada de paulicianos e bogomilos (ver Período IV, seção XIII), que a política persecutória dos imperadores do Oriente expulsou da Bulgária, e pelo novo intercâmbio com o Oriente promovido pelas Cruzadas. O resultado foi um novo maniqueísmo. Seus adeptos eram chamados cátaros, isto é, os “Puros”, ou albigenses, de Albi, uma de suas principais sedes no sul da França. Com o impulso ascético e entusiástico que causou e acompanhou as Cruzadas, os cátaros entraram em grande atividade. Embora se encontrassem em muitas partes da Europa, suas regiões principais eram o sul da França, o norte da Itália e o norte da Espanha. No sul da França, o próprio Bernardo trabalhou em vão pela conversão deles. Com a crítica às condições eclesiásticas existentes que se seguiu ao fracasso desastroso da Segunda Cruzada (ver Período V, seção I), multiplicaram-se com grande rapidez. Em 1167 puderam realizar um concílio muito concorrido em Saint-Félix de Caraman, perto de Toulouse; e antes do fim do século tinham conquistado o apoio de grande parte, talvez da maioria, da população do sul da França e a proteção de seus príncipes. No norte da Itália eram muito numerosos. Só em Florença, em 1228, os cátaros somavam quase um terço dos habitantes. Por volta de 1200 eram um perigo extremo para a Igreja romana. No movimento, o espírito ascético da época encontrou plena expressão, e a crítica à riqueza e ao poder da igreja viu satisfação na rejeição completa do seu clero e das suas pretensões.

Como os antigos maniqueus, os cátaros eram dualistas. Os bogomilos e muitos dos cátaros da Itália sustentavam que o Deus bom tinha dois filhos, Satanael e Cristo, dos quais o mais velho se rebelou e se tornou o chefe do mal. Os cátaros da França em geral afirmavam dois poderes eternos, um bom, o outro maligno. Todos concordavam em que este mundo visível é obra do poder mau, no qual as almas, tomadas como prisioneiras do reino do Deus bom, são mantidas em cativeiro. O maior dos pecados, o pecado original de Adão e Eva, é a reprodução humana, pela qual se aumenta o número das prisões. A salvação vem pelo arrependimento, pelo ascetismo e pela “consolação”. Esse rito, como o batismo na igreja, opera o perdão dos pecados e a restauração ao reino do Deus bom. É conferido pela imposição das mãos de alguém que já o recebeu, juntamente com a colocação do Evangelho de João sobre a cabeça do candidato. É a verdadeira sucessão apostólica. Quem recebeu a “consolação” torna-se perfeito, um perfectus; mas, para não perder a graça, deve dali em diante evitar o casamento, os juramentos, a guerra, a posse de bens e o consumo de carne, leite ou ovos, porque são produto do pecado da reprodução. Os “perfeitos”, ou, como eram chamados na França, os bons hommes, isto é, homens bons, eram o verdadeiro clero dos cátaros, e há notícias de “bispos” e até de um “papa” entre eles, embora seja impossível dizer quais eram exatamente as gradações de autoridade. Por uma crença conveniente, a maioria dos adeptos, os credenti ou “crentes”, tinha permissão para casar-se, possuir bens e desfrutar das boas coisas deste mundo, e até conformar-se exteriormente à Igreja romana, na certeza de que, se recebessem a “consolação” antes da morte, seriam salvos. Os que morressem sem consolação seriam, na opinião da maioria dos cátaros, reencarnados em corpos humanos, ou mesmo animais, até que por fim também eles fossem levados à salvação. Parece que os “crentes” nem sempre eram plenamente iniciados nas doutrinas do sistema.

Os cátaros faziam grande uso das Escrituras, que traduziam e nas quais afirmavam encontrar os seus ensinos. Alguns rejeitavam inteiramente o Antigo Testamento como obra do poder mau; outros aceitavam os Salmos e os profetas. Todos criam que o Novo Testamento procedia do Deus bom. Uma vez que todas as coisas materiais são do mal, Cristo não podia ter tido um corpo real nem morrido uma morte real. Por isso rejeitavam a cruz. Os sacramentos, com seus elementos materiais, eram maus. O Deus bom é desonrado pela construção de igrejas edificadas e ornamentadas com criações materiais do poder mau. Os cultos dos cátaros eram simples. Liam-se as Escrituras, especialmente o Evangelho de João, como o mais espiritual de todos. Pregava-se um sermão. Os “crentes” então se ajoelhavam e adoravam os “perfeitos”, como habitados pelo Espírito divino. Os “perfeitos”, por sua vez, davam a sua bênção. No culto usava-se apenas a Oração do Senhor. Em muitos lugares realizava-se uma vez por mês uma refeição comum, na qual o pão era consagrado, como uma espécie de Ceia do Senhor. O estudioso do movimento encontrará nele sobrevivências extremamente interessantes de antigos ritos e cerimônias cristãs, ortodoxas e heréticas. Em geral, os “perfeitos” parecem ter sido homens e mulheres de retidão, seriedade moral e firmeza corajosa na perseguição. De sua eficácia em conquistar a adesão de milhares, especialmente das camadas mais humildes, não pode haver dúvida.

Ao contrário dos cátaros, os valdenses não nasceram de nenhuma hostilidade consciente à igreja e, se tivessem sido tratados com habilidade, provavelmente nunca se teriam separado dela. Em 1176, Valdez, ou Valdo, rico comerciante de Lyon, impressionado com a canção de um menestrel errante que narrava os sacrifícios de Santo Aleixo, perguntou a um mestre de teologia qual era “o melhor caminho para Deus”. O clérigo citou aquele texto áureo do monaquismo: “Se você quer ser perfeito, vá, venda os seus bens, dê o dinheiro aos pobres e você terá um tesouro nos céus; depois, venha e siga-me” (Mt 19.21). Valdez pôs esse conselho em prática ao pé da letra. Provendo modestamente para a esposa e as filhas, deu o restante de seus bens aos pobres. Resolveu cumprir de modo absoluto as instruções de Cristo aos apóstolos (Mt 10). Usaria a roupa ali indicada. Viveria do que lhe dessem. Para conhecer melhor o seu dever, obteve uma tradução do Novo Testamento. Sua atitude causou profunda impressão em seus amigos. Ali, pensavam eles, estava a verdadeira “pobreza apostólica”. Em 1177 outros, homens e mulheres, se tinham juntado a ele, e o pequeno grupo se propôs levar adiante as instruções de Cristo pregando o arrependimento. Chamavam-se a si mesmos os “Pobres em Espírito”.1 Apelaram então ao Terceiro Concílio de Latrão, em 1179, pedindo permissão para pregar. O concílio não os considerou hereges. Julgou-os leigos ignorantes, e o papa Alexandre III (1159-1181) recusou o consentimento. Isso levou a uma ação decisiva. Valdez, que aparece no que se sabe de sua história posterior como homem determinado, para não dizer obstinado, sentiu que essa recusa era a voz do homem contra a de Deus. Ele e seus companheiros continuaram a pregar. Por desobediência foram, portanto, excomungados em 1184 pelo papa Lúcio III (1181-1185).

Esses atos imprudentes do papado não só forçaram os valdenses a sair da igreja contra a sua vontade, como também lhes trouxeram um acréscimo considerável. Os humiliati eram um grupo de gente humilde que se associara para uma vida comum de penitência em Milão e arredores. Também a eles Alexandre III proibira realizar reuniões separadas ou pregar, e foram excomungados em 1184 por desobediência. Parte muito considerável desses humiliati lombardos juntou-se então aos valdenses e ficou sob a direção de Valdez. As características primitivas dos valdenses desenvolveram-se então rapidamente. A principal de todas era o princípio de que a Bíblia, e especialmente o Novo Testamento, é a única regra de fé e de vida. No entanto, liam-na com óculos inteiramente medievais. Era para eles um livro de lei, de prescrições minuciosas a serem seguidas ao pé da letra. Decoravam grandes porções dela. De acordo com o que julgavam ser os seus ensinos, andavam de dois em dois, pregando, vestidos com uma simples túnica de lã, descalços ou de sandálias, vivendo inteiramente das dádivas de seus ouvintes, jejuando às segundas, quartas e sextas-feiras, rejeitando os juramentos e todo derramamento de sangue, e não usando outras orações senão a do Senhor e uma fórmula de ação de graças à mesa. Ouviam confissões, celebravam juntos a Ceia do Senhor e ordenavam seus membros para um ministério. Por serem antibíblicas, rejeitavam as missas e as orações pelos mortos e negavam o purgatório. Tinham por inválidos os sacramentos ministrados por sacerdotes indignos. Criam que a oração em secreto era mais eficaz do que na igreja. Defendiam a pregação leiga, de homens e de mulheres. Tinham bispos, sacerdotes e diáconos, e um chefe, ou reitor, da sociedade. O primeiro foi o próprio Valdez; depois, a nomeação passou a ser por eleição. Além desse círculo interno, a sociedade propriamente dita, logo formaram um corpo de simpatizantes, “amigos” ou “crentes”, do qual a sociedade se recrutava, mas que permaneciam exteriormente em comunhão com a Igreja romana. A maior parte desse desenvolvimento parece ter ocorrido logo após a excomunhão de 1184. Muito dele se deveu ao exemplo cátaro; contudo, opunham-se aos cátaros e com razão se consideravam muito diferentes deles.

Certos conflitos de opinião e a impressão de que o governo de Valdez era arbitrário levaram à secessão do ramo lombardo por volta de 1210, ruptura que as tentativas de reunião de 1218, depois da morte de Valdez, não conseguiram sanar. Os dois corpos permaneceram afastados. O hábil papa Inocêncio III (1198-1216) aproveitou essas disputas aprovando, em 1208, a organização dos pauperes catholici, que permitia muitas das práticas dos valdenses sob rigorosa supervisão eclesiástica. Número considerável foi assim reconduzido à igreja. Ainda assim, o corpo valdense se espalhou. Havia valdenses no norte da Espanha, na Áustria e na Alemanha, bem como em suas terras de origem. Foram reprimidos pouco a pouco, até que sua principal sede passou a ser os vales alpinos a sudoeste de Turim, onde ainda hoje se encontram. Na Reforma aceitaram prontamente os seus princípios e tornaram-se plenamente protestantes. Sob a liberdade religiosa moderna trabalham com êxito em muitas partes da Itália. Sua história é de heroica resistência à perseguição, uma história das mais honrosas, e são a única seita medieval que ainda sobrevive, embora com ampla modificação de seus ideais e métodos originais.

No início do século XIII, a situação da Igreja romana no sul da França, no norte da Itália e no norte da Espanha era duvidosa. Os esforços missionários para converter cátaros e valdenses tinham em grande parte fracassado. Sentia-se que eram necessárias medidas mais duras. Já em 1181 o papa Alexandre III (1159-1181) ordenara uma cruzada contra o visconde de Béziers, como protetor dos cátaros, mas ela pouco conseguiu. Sob Inocêncio III (1198-1216) desabou a tempestade. Depois de tentar em vão esforços missionários, o assassinato do legado papal Pedro de Castelnau, em 1208, levou Inocêncio a proclamar uma cruzada contra os hereges do sul da França. O ataque agradou à monarquia francesa, que achava os nobres da região vassalos independentes demais. Esses interesses combinados do papa e do rei conduziram a vinte anos de guerra destruidora (1209-1229), em que o poder dos nobres do sul foi despedaçado e cidades e províncias foram devastadas. Os defensores dos cátaros foram reduzidos à impotência ou obrigados a tomar parte no seu extermínio.

O fim da luta foi seguido por um sínodo de grande importância reunido em Toulouse em 1229. Os cátaros e os valdenses tinham feito muito uso da Bíblia. O sínodo, portanto, proibiu aos leigos possuir as Escrituras, exceto o saltério e as porções contidas no breviário, e condenou especialmente todas as traduções. O decreto era, na verdade, local, mas considerações semelhantes levaram a proibições parecidas na Espanha e em outros lugares. Nenhuma proibição universal da leitura da Bíblia pelos leigos foi promulgada durante a Idade Média.

Um segundo ato significativo que marcou o sínodo de Toulouse foi o início de uma inquisição sistemática. A questão da punição dos hereges permanecera indefinida na Idade Média anterior. Tinha havido bom número de casos de morte, geralmente pelo fogo, às mãos de governantes, de eclesiásticos ou da multidão, mas eclesiásticos de alta posição se tinham oposto a isso. A identificação dos cátaros com os maniqueus, contra os quais os imperadores romanos tardios tinham decretado a pena de morte, deu a essa punição a sanção do direito romano. Pedro II de Aragão, em 1197, ordenou a execução dos hereges pelo fogo. O papa Inocêncio III (1198-1216) sustentava que a heresia, como traição contra Deus, era de gravidade ainda maior do que a traição contra um rei. A investigação da heresia ainda não estava sistematizada. Essa tarefa o sínodo de Toulouse empreendeu. Sua obra foi logo aperfeiçoada pelo papa Gregório IX (1227-1241), que confiou a descoberta da heresia a inquisidores escolhidos principalmente da ordem dominicana, corpo formado com objetivos muito diferentes. Tal como logo se desenvolveu, a inquisição tornou-se um órgão formidável. Seus processos eram secretos; os nomes dos acusadores não eram dados ao prisioneiro, o qual, por uma bula de Inocêncio IV de 1252, estava sujeito à tortura. O confisco dos bens do condenado era uma de suas características mais odiosas e economicamente destrutivas, e, como esses despojos eram partilhados pelas autoridades leigas, essa característica sem dúvida manteve acesas as fogueiras da perseguição onde, de outro modo, se teriam apagado. Contudo, graças à inquisição e a outros meios mais louváveis, que logo serão descritos, os cátaros foram inteiramente extirpados no decurso de pouco mais de um século, e os valdenses grandemente reprimidos. Esse êxito inicial explica, em grande parte, a tenacidade com que a Igreja romana se apegou à inquisição na época da Reforma.

Notas

1. Provavelmente de Mt 5.3.

Tradução para o português a partir de Williston Walker, A History of the Christian Church (Nova York, Charles Scribner’s Sons, 1918), 1ª edição, conferida com as imagens das páginas; domínio público. As notas são de Walker; as que eram só referência bíblica passaram para o texto. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.