Walker, História da Igreja Cristã · Período V
XIV. O Renascimento italiano e seus papas; XV. Os novos poderes nacionais; XVI. O Renascimento e outras influências ao norte dos Alpes.
O acontecimento intelectual mais notável, contemporâneo da história do papado em Avinhão e do cisma, foi o início do Renascimento. Essa grande mudança de perspectiva mental tem sido tratada com demasiada frequência como se não tivesse antecedentes medievais. Começa-se a reconhecer que a Idade Média não careceu de iniciativa individual, que o controle da igreja nunca foi tal que tornasse inteiramente dominante a preocupação com o outro mundo, e que os monumentos literários da Antiguidade latina, pelo menos, eram amplamente conhecidos. O renascimento do direito romano começara ao mesmo tempo que as Cruzadas e atraíra atenção crescente para esse aspecto normativo do pensamento antigo, primeiro na Itália e depois na França e na Alemanha. Contudo, reconhecidos todos esses elementos, continua verdadeiro que o Renascimento trouxe uma visão essencialmente nova do mundo, na qual a ênfase recaía sobre a vida presente, a beleza e a satisfação que ele oferece, sobre o homem enquanto homem, e não sobre um céu e um inferno futuros, nem sobre o homem como objeto de salvação ou de perdição. O meio pelo qual essa transformação se operou foi uma nova apreciação do espírito da Antiguidade clássica, sobretudo tal como se manifestava em seus grandes monumentos literários.
O Renascimento surgiu primeiro na Itália. Seu desenvolvimento foi favorecido por muitas influências, entre as quais pelo menos três se destacaram. Os dois grandes poderes dominantes da Idade Média, o papado e o império, ficaram subitamente paralisados, no que dizia respeito à Itália, pelo colapso do poder imperial na segunda metade do século XIII e pela transferência do papado para Avinhão no começo do século XIV. O comércio da Itália, fomentado pelas Cruzadas e prosseguindo depois do fim delas, levara a península a um desenvolvimento cultural mais elevado que o do resto da Europa. A intensa fragmentação da política italiana deu às cidades uma qualidade de vida que não existia em outros lugares, facilitando o reconhecimento local do talento e tendendo a acentuar o individualismo.
O primeiro italiano em quem o espírito do Renascimento foi força dominante foi Petrarca (1304-1374). Criado em Avinhão e ordenado clérigo, seu verdadeiro interesse estava no renascimento da literatura latina, especialmente dos escritos de Cícero. Estudioso diligente e, acima de tudo, homem de letras, foi amigo de príncipes e figura de influência internacional. Desprezava a escolástica. Condenava Aristóteles. Embora tivesse sentimento religioso genuíno, por mais que lhe faltasse a prática, seu ponto de vista era muito diferente do medieval. Tinha, além disso, aquela falta de seriedade profunda, aquela vaidade egocêntrica e aquele culto da forma mais que da substância que haveriam de caracterizar boa parte do humanismo italiano; mas despertou nos homens um novo interesse pela Antiguidade e uma nova visão do mundo. Amigo e discípulo de Petrarca foi Boccaccio (1313-1375), hoje lembrado sobretudo pelo seu Decameron, mas de grande influência em sua própria época na promoção do estudo do grego, na revelação dos mistérios da mitologia clássica e no fomento dos estudos humanísticos em Florença e Nápoles.
O grego talvez nunca tenha desaparecido no sul da Itália, mas seu cultivo humanístico começou quando, em 1360, Boccaccio levou Leôncio Pilato a Florença. Por volta de 1397, o grego foi ensinado, sob os auspícios do governo da mesma cidade, por Manuel Crisoloras (1355?-1415), que traduziu Homero e Platão. O Concílio de Ferrara e Florença (1438-1439) (ver Período V, seção XIII) estimulou grandemente esse desejo de dominar os tesouros do Oriente, ao reunir gregos e latinos. Bessarion (ver Período V, seção XIII) passou desde então a auxiliar a obra. À influência de Gemisto Pletão (1355-1450), outro grego presente nesse concílio de reunião, deveu-se a fundação da Academia Platônica, por volta de 1442, por Cosme de Médici (1389-1464), o verdadeiro governante de Florença. Ali o estudo de Platão foi cultivado com ardor, mais tarde sob a liderança de Marsílio Ficino (1433-1499). Ficino, que se tornou sacerdote, unia um cristianismo sincero ao seu entusiasmo platônico. Julgava que a maior necessidade do tempo era um retorno às fontes cristãs, sentimento que a maioria dos humanistas italianos não compartilhava, mas que haveria de exercer profunda influência além dos Alpes, propagado por seus admiradores, Jacques Lefèvre na França e John Colet na Inglaterra. Colet, por sua vez, transmitiu-o a Erasmo. Quase tão influente foi Pico della Mirandola (1463-1494), cujo zelo pelo hebraico e conhecimento da Cabala haveriam de influenciar Reuchlin.
A crítica histórica foi desenvolvida por Lorenzo Valla (1405-1457), que denunciou a falsidade da Doação de Constantino (ver Período IV, seção III) por volta de 1440 e negou que o Credo Apostólico tivesse sido composto pelos apóstolos. Criticou a legitimidade dos votos monásticos e lançou o fundamento dos estudos do Novo Testamento, em 1444, comparando a Vulgata com o grego.
O exame das datas que acabamos de dar mostrará que o movimento do Renascimento na Itália estava em pleno desenvolvimento antes da queda de Constantinopla, em 1453. Em meados do século XV, ele dominava a classe culta da Itália. Em geral, sua atitude para com a igreja era de indiferença. Fez reviver amplamente um ponto de vista pagão e procurou reproduzir a vida da Antiguidade tanto em seus vícios quanto em suas virtudes. Poucos períodos da história do mundo foram tão jactanciosamente corruptos quanto o do Renascimento italiano.
O movimento do Renascimento ganhou asas com uma grande invenção, por volta de 1440-1450: a impressão com tipos móveis. Se o seu berço foi Mainz ou Estrasburgo, na Alemanha, ou Haarlem, na Holanda, é ainda assunto de disputa erudita. A arte espalhou-se com rapidez e não só pôs ao alcance de muitos os livros que até então eram propriedade de poucos, mas, pela multiplicação dos exemplares, tornou praticamente indestrutíveis os resultados do saber. Mais de trinta mil publicações saíram antes de 1500.
Nenhuma menção do Renascimento poderia deixar de notar os seus serviços à arte. É verdade que já se haviam dado na Itália os primeiros passos para algo melhor antes que sua influência se fizesse sentir. Cimabue (1240?-1302?), Giotto (1267?-1337) e Fra Angelico (1387-1455) pertencem à época anterior ao Renascimento, por notável que seja a sua obra. Com Masaccio (1402-1429), Filippo Lippi (1406-1469), Botticelli (1444-1510) e Ghirlandaio (1449-1494), a pintura avançou, por um conhecimento mais exato da perspectiva, maior precisão anatômica e composição mais eficaz dos grupos, até o pleno meio-dia de um Leonardo da Vinci (1452-1519), de um Rafael Sanzio (1483-1520), de um Michelangelo Buonarroti (1475-1564) e de seus poderosos companheiros. A escultura recebeu impulso semelhante na obra de Ghiberti (1378-1455) e de Donatello (1386-1466), ao passo que a arquitetura foi transformada por Brunelleschi (1379-1446), Bramante (1444?-1514) e Michelangelo. A maior parte da obra desses grandes artistas, por clássica que fosse em sua motivação, foi realizada a serviço da igreja.
A sede mais destacada do Renascimento italiano em seus primeiros tempos foi Florença, embora ele exercesse influência em muitas cidades. Com o pontificado de Nicolau V (1447-1455), encontrou pela primeira vez um poderoso patrono na cabeça da igreja, e Roma tornou-se a sua principal morada. A ele se deveu a fundação da Biblioteca Vaticana. O papa seguinte, Afonso Bórgia, espanhol, que tomou o nome de Calisto III (1455-1458), não era amigo do humanismo e empenhou-se com ardor, ainda que sem fruto, numa cruzada que expulsasse os turcos da recém-conquistada Constantinopla. Em Enea Silvio Piccolomini, que reinou como Pio II (1458-1464), o papado teve um ocupante notável. Na juventude partidário do movimento conciliar e atuante no Concílio de Basileia, alcançara distinção como escritor humanista de tom decididamente pouco clerical. Reconciliado com Eugênio IV, tornou-se cardeal e, por fim, papa, passando então a combater todas as ideias conciliares que antes defendera e proibindo futuros apelos a um concílio geral. Seus esforços para mover a Europa contra os turcos foram inúteis. Contudo, apesar de sua atitude mutável e interesseira, teve a concepção mais digna dos deveres do ofício papal entre todos os papas da segunda metade do século XV. Os papas seguintes, até depois do alvorecer da Reforma, foram patronos das letras e dos artistas, grandes construtores que embelezaram Roma e sentiram plenamente o impulso do Renascimento.
Enquanto isso, operara-se uma mudança nos ideais e ambições do papado. A permanência em Avinhão e o cisma haviam tornado impossível um controle efetivo dos Estados da Igreja. Estes eram agitados pelas lutas do povo de Roma e, sobretudo, pelas rivalidades das casas nobres, notadamente as dos Colonna e dos Orsini. A Itália consolidara-se gradualmente em cinco grandes Estados, Veneza, Milão, Florença, Nápoles (ou Reino das Duas Sicílias, como era chamado) e os Estados da Igreja, embora muitos territórios menores permanecessem fora desses grupos maiores e fossem objeto de disputa. A política da Itália tornou-se um esforço caleidoscópico para ampliar as possessões das potências maiores e opor umas às outras, no qual a intriga, o assassinato e a duplicidade foram empregados numa medida quase sem exemplo.
Nesse jogo da política italiana o papado mergulhou então por inteiro. Seu desejo era consolidar e ampliar os Estados da Igreja e manter a independência política. Suas ambições e seus objetivos eram como os de outros governantes italianos. O papado secularizou-se como em nenhum outro período de sua história, exceto talvez o século X. Martinho V (1417-1431), o papa eleito no Concílio de Constança, ele mesmo um Colonna, conseguiu em certa medida restaurar a autoridade papal em Roma. Seu sucessor, Eugênio IV (1431-1447), não foi tão afortunado e passou boa parte do pontificado em Florença. Nicolau V (1447-1455), o humanista, controlou efetivamente Roma e fortaleceu a autoridade papal, política que foi continuada por Calisto III (1455-1458), Pio II (1458-1464) e Paulo II (1464-1471). Com Sisto IV (1471-1484), a ambição política tomou conta quase por completo do papado. Ele guerreou contra Florença, procurou enriquecer e promover os parentes, visou ampliar os Estados da Igreja. Patrono do saber, construiu muito. A Capela Sistina conserva o seu nome. Todos esses empreendimentos exigiam dinheiro, e ele aumentou a tributação papal e os abusos financeiros da cúria. Por uma bula de 1476, fez artigo de fé a crença generalizada de que as indulgências são aplicáveis às almas do purgatório.1
O papa seguinte, Inocêncio VIII (1484-1492), de natureza fraca e maleável, tornou-se notório pela maneira aberta com que procurou promover a fortuna dos filhos, por seus gastos extravagantes e pela venda de cargos. Chegou a receber uma pensão do sultão Bajazet II para manter preso o irmão e rival deste, Djem. O sucessor de Inocêncio, Alexandre VI (1492-1503), sobrinho de Calisto III e espanhol (Rodrigo Bórgia), obteve o papado não sem suborno e foi homem de imoralidade desenfreada, embora de considerável visão política. Seu grande empenho foi promover os filhos bastardos, especialmente a filha, Lucrécia Bórgia, por meio de casamentos vantajosos, e o filho inescrupuloso e assassino, César Bórgia, ajudando-o a talhar um principado nos Estados da Igreja. Seu reinado viu o início do colapso da independência italiana com a invasão de Carlos VIII da França (1483-1498), em 1494, numa tentativa de fazer valer a pretensão do rei francês ao trono de Nápoles. Em 1499, Luís XII da França (1498-1515) conquistou Milão, e em 1503 Fernando, o Católico, de Espanha (1479-1516), apoderou-se de Nápoles. A Itália tornou-se o miserável campo de batalha das rivalidades entre franceses e espanhóis.
Em tais circunstâncias, aumentar o poder temporal do papado não era fácil; mas a tarefa foi realizada pelo mais guerreiro dos papas, Júlio II (1503-1513), sobrinho de Sisto IV. Os Orsini e os Colonna foram reconciliados, César Bórgia foi expulso da Itália, as cidades da Romanha foram libertadas de seus conquistadores venezianos, as várias nações da Europa foram agrupadas em ligas, com o resultado de que os franceses foram, por algum tempo, expulsos da Itália. Nessa disputa, Luís XII obteve uma paródia de concílio geral em Pisa, à qual o papa Júlio respondeu convocando o Quinto Concílio de Latrão em Roma. Este se reuniu de 1512 a 1517 e, embora tenha ordenado reformas, nada realizou de importante. Júlio II foi sem dúvida um governante de grandes talentos, que comandava pessoalmente seus soldados e era movido pelo desejo de fortalecer o poder temporal do papado, mais que de enriquecer os parentes. Como patrono da arte e construtor, esteve entre os mais eminentes dos papas.
Júlio II teve como sucessor Giovanni de Médici, que tomou o nome de Leão X (1513-1521). A todos os gostos artísticos e literários da grande família florentina a que pertencia, juntava o amor à ostentação e aos gastos extravagantes. Muito menos guerreiro que Júlio II e livre dos vícios pessoais de alguns de seus predecessores, fez, não obstante, de seus interesses principais a ampliação dos Estados da Igreja e o equilíbrio das várias facções da Itália, internas e estrangeiras, em proveito político do papado. Esforçou-se por promover os parentes. Em 1516 obteve, por uma “concordata” com Francisco I da França (1515-1547), a abolição da “Pragmática Sanção” (ver Período V, seção XIV), em termos que deixavam ao rei a nomeação de todos os altos eclesiásticos franceses e o direito de tributar o clero, enquanto as anatas e outros impostos semelhantes iam para o papa. No ano seguinte começou na Alemanha uma revolta, cuja gravidade Leão nunca chegou realmente a compreender, e que haveria de arrancar metade da Europa da obediência romana.
Tais papas representavam o Renascimento italiano, mas de modo algum encarnavam o verdadeiro espírito de uma igreja que era, para milhões, fonte de consolo nesta vida e de esperança para a vida futura. Uma revolução era inevitável. Tampouco tal papado representava a verdadeira vida religiosa da Itália. O Renascimento atingiu apenas as classes cultas e as altas. O povo respondia aos apelos dos pregadores e ao exemplo daqueles que considerava santos, embora, infelizmente, raras vezes com resultados duradouros, a não ser em vidas individuais.
Uma dessas líderes religiosas, quando o Renascimento era jovem, foi santa Catarina (1347-1380), filha de um tintureiro de Siena. Mística, recebedora, segundo cria, de visões enviadas por Deus, foi uma líder prática nos negócios, pacificadora de contendas familiares, causa principal da persuasão do papado a voltar de Avinhão para Roma, denunciadora destemida dos males do clero e embaixadora a quem papas e cidades ouviam com respeito. Sua correspondência continha conselhos de valor quase tão político quanto religioso para muitos dos líderes da época, tanto na igreja quanto no Estado.
Ainda mais famoso no período posterior do Renascimento foi Girolamo Savonarola, de Florença (1452-1498). Natural de Ferrara e destinado à profissão médica, uma recusa de casamento voltou seus pensamentos para a vida monástica. Em 1474 tornou-se dominicano em Bolonha. Oito anos depois começou a sua obra em Florença. A princípio pouco bem-sucedido como pregador, chegou a falar com imensa eficácia popular, realçada pela convicção geral, que ele mesmo partilhava, de que era um profeta divinamente inspirado. Não era de modo algum um protestante. Sua perspectiva religiosa era inteiramente medieval. A invasão francesa de 1494 provocou uma revolução popular contra os Médici, e Savonarola tornou-se então o verdadeiro governante de Florença, que procurou transformar numa cidade penitente. Muitos dos habitantes adotaram uma vida semimonástica. Nos carnavais de 1496 e 1497, foram queimadas máscaras, livros e quadros indecentes. Por algum tempo, a vida de Florença mudou radicalmente. Mas Savonarola suscitou inimigos. Os partidários dos Médici depostos o odiavam e, acima de todos, o papa Alexandre VI, cujo mau caráter e desgoverno Savonarola denunciava. O papa o excomungou e exigiu a sua punição. Amigos o sustentaram por algum tempo, mas a populaça volúvel voltou-se contra ele. Em abril de 1498 foi preso, cruelmente torturado e, em 23 de maio, enforcado, e seu corpo queimado pelo governo da cidade. Não o menor dos crimes de Alexandre VI foi a perseguição a esse pregador da justiça, embora a morte de Savonarola se devesse tanto à reação florentina contra ele quanto à hostilidade do papa.
O meio século de 1450 a 1500 viu um crescimento notável da autoridade real e da consciência nacional nos reinos ocidentais da Europa. A França, que parecera quase arruinada pelas longas guerras com a Inglaterra, de 1339 a 1453, saiu delas com a monarquia muito fortalecida, pois essas lutas haviam sido imensamente destrutivas para a nobreza feudal. Luís XI (1461-1483), pela intriga, pelas armas e pela tirania, com a ajuda dos plebeus, quebrou o poder da nobreza feudal e assegurou à coroa uma autoridade que ela até então não possuíra. Seu filho, Carlos VIII (1483-1498), pôde conduzir o Estado, agora centralizado, a uma carreira de conquista estrangeira na Itália que haveria de abrir nova época na política europeia e dar origem a rivalidades que determinariam o pano de fundo político de toda a época da Reforma. O que esses reis haviam tentado em centralização interna e em conquista externa foi levado ainda mais longe por Luís XII (1498-1515) e pelo brilhante e ambicioso Francisco I (1515-1547). A França era agora uma monarquia forte e centralizada. Sua igreja estava em grande parte sob controle real e, em considerável grau, livre dos piores abusos papais, graças à “Pragmática Sanção” de 1438 (ver Período V, seção XIV) e ao costume, surgido com o fortalecimento da monarquia no século XV, de que se podia apelar dos tribunais eclesiásticos para os do rei. O controle da monarquia sobre as nomeações, a tributação e os tribunais do clero foi ampliado pela “concordata” de 1516 (ver Período V, seção XIV), que em troca deu ao papa os impostos desejados. No alvorecer da Reforma, a igreja da França era, em muitos aspectos, uma igreja de Estado.
Na Inglaterra, a Guerra das Duas Rosas, entre os partidários de York e os de Lancaster, de 1455 a 1485, resultou na destruição do poder da alta nobreza em benefício da coroa. O Parlamento sobreviveu. O rei devia governar em forma legal; mas o poder de um Henrique VII (1485-1509), o primeiro da casa Tudor, era maior que o de qualquer soberano inglês havia um século, e foi exercido com absolutismo quase ilimitado, embora em forma parlamentar, por seu filho ainda mais capaz, Henrique VIII (1509-1547). Os soberanos ingleses haviam alcançado, já antes da Reforma, um grau elevado de autoridade nos assuntos eclesiásticos e, como na França, a igreja na Inglaterra era em grande parte nacional no fim do século XV.
Em nenhum lugar esse processo de nacionalização alcançou desenvolvimento tão pleno quanto na Espanha, onde assumia o caráter de um despertamento religioso que haveria de fazer daquela terra o modelo da concepção de reforma, frequentemente, embora não muito corretamente, chamada Contra-Reforma, concepção que se oporia ao ideal teutônico de revolução e que acabou conseguindo manter metade da Europa fiel a uma Igreja Romana purificada. A ascensão da Espanha foi o prodígio político da segunda metade do século XV. À margem das grandes correntes da vida europeia medieval, a história da península fora uma longa cruzada para sacudir o jugo maometano, imposto em 711. Em nenhum lugar da Europa o patriotismo e a ortodoxia católica estavam tão entrelaçados. A luta resultara, no século XIII, na restrição dos mouros ao reino de Granada e na formação de quatro reinos cristãos: Castela, Aragão, Portugal e Navarra. Esses Estados eram fracos, e o poder real era limitado pela nobreza feudal. Uma mudança radical veio quando o futuro governo da maior parte da península foi unificado, em 1469, pelo casamento de Fernando, herdeiro de Aragão (rei, 1479-1516), com Isabel, herdeira de Castela (rainha, 1474-1504). Sob a soberania conjunta de ambos, a Espanha tomou um lugar novo na vida europeia. Os nobres turbulentos foram reprimidos. A autoridade real foi afirmada. Em 1492, Granada foi conquistada e o maometismo vencido. O mesmo ano assistiu à descoberta de um novo mundo por Colombo, sob os auspícios da Espanha, o qual logo se tornou fonte de receita bem considerável para o tesouro real. As invasões francesas da Itália provocaram a intervenção espanhola, que estabeleceu a Espanha firmemente em Nápoles por volta de 1503 e logo tornou predominante a influência espanhola em toda a Itália. Com a morte de Fernando, em 1516, essas grandes possessões passaram ao seu neto, já herdeiro da Áustria e dos Países Baixos, e que haveria de portar o título imperial como Carlos V. A Espanha tornara-se de repente a primeira potência da Europa.
Os soberanos conjuntos, Fernando e Isabel, dedicaram-se com não menos energia ao controle da igreja que à ampliação de sua autoridade temporal. O “despertamento espanhol” não foi de modo algum único. Não diferia em princípio de muito do que se tentara em outros lugares no fim da Idade Média. Nenhuma nação com uma história como a da Espanha poderia desejar mudança doutrinária. Ela era intensamente devotada ao sistema de que o papado era a cabeça espiritual. Mas acreditava que as intromissões papais nos assuntos administrativos deviam ser limitadas pela autoridade real, e que, pelo mesmo poder, um clero instruído, moral e zeloso podia ser estimulado e mantido. Foi em razão do êxito com que esses resultados foram alcançados que o despertamento espanhol se tornou o modelo da “Contra-Reforma”.
Nunca reinou soberana mais conscienciosa ou de espírito mais religioso que Isabel, e, se Fernando era antes de tudo um político, foi rápido em perceber as vantagens políticas de uma política que submetesse a igreja espanhola à coroa. Em 1482, os soberanos conjuntos forçaram o papa Sisto IV a concordar com uma concordata que punha sob controle real a nomeação para os cargos eclesiásticos mais altos. A política assim iniciada foi rapidamente ampliada pelos enérgicos soberanos. As bulas papais passaram a exigir aprovação real para serem promulgadas. Os tribunais eclesiásticos foram fiscalizados. O clero foi tributado em benefício do Estado.
Fernando e Isabel passaram então a preencher os postos importantes da igreja espanhola não só com homens devotados aos interesses reais, mas também de piedade vigorosa e zelo disciplinar. Nesse esforço tiveram a ajuda de muitos homens capazes, mas o principal entre eles foi Gonzalez (ou Francisco) Ximenes de Cisneros (1436-1517), em quem o despertamento espanhol teve o seu representante típico.
Nascido de uma família da baixa nobreza, Ximenes foi a Roma depois de estudar em Alcalá e Salamanca. Ao voltar, em 1465, após seis anos na sede do papado, mostrou grande habilidade nos negócios da igreja e muito talento como pregador. Por volta de 1480 foi nomeado vigário-geral da diocese por Mendoza, então bispo de Sigüenza. Em pleno sucesso, Ximenes renunciou então a todas as suas honras e tornou-se monge franciscano da mais estrita observância. Não satisfeito com essas austeridades, adotou a vida de eremita. Em 1492, porém, por recomendação de Mendoza, agora arcebispo de Toledo, a rainha Isabel nomeou Ximenes seu confessor e passou a consultá-lo nos assuntos de Estado bem como nas questões de consciência. Rainha e confessor trabalharam em harmonia, e sob a ação vigorosa de ambos empreendeu-se uma reforma completa da disciplina nos mosteiros desregrados do país. A influência de Ximenes só aumentou quando, em 1495, por insistência de Isabel e contra os seus próprios protestos, ele se tornou o sucessor de Mendoza no arcebispado de Toledo, não só o mais alto posto eclesiástico da Espanha, mas também um cargo ao qual estava unida a grã-chancelaria de Castela. Ali manteve a sua vida ascética. Apoiado pela rainha, voltou todos os poderes de seu alto cargo para livrar a Espanha de clérigos e monges indignos. Nenhuma oposição conseguia detê-lo, e diz-se que mais de mil monges deixaram a península para não se submeter à sua disciplina. O caráter moral e o zelo do clero espanhol melhoraram grandemente.
Ximenes, embora não fosse grande erudito, percebeu a necessidade de um clero instruído. Encontrara as influências do Renascimento em Roma e queria pô-las inteiramente a serviço da igreja. Em 1498 fundou a Universidade de Alcalá de Henares, à qual dedicou grande parte de suas rendas episcopais e onde reuniu homens doutos, entre eles quatro professores de grego e hebraico. Um quarto de século depois, Alcalá contava sete mil estudantes. Embora se opusesse à leitura geral da Bíblia pelos leigos, Ximenes julgava que as Escrituras deviam ser o principal estudo do clero. O mais nobre monumento dessa convicção é a Poliglota Complutense (Alcalá = Complutum), cujo trabalho ele dirigiu de 1502 a 1517. O Antigo Testamento era apresentado em hebraico, grego e latim, com o Targum sobre o Pentateuco; o Novo Testamento, em grego e latim. O Novo Testamento estava impresso em 1515. A Ximenes cabe, portanto, a honra de ter impresso pela primeira vez o Novo Testamento em grego, embora, como a permissão papal para a publicação só pôde ser obtida em 1520, o Testamento grego publicado por Erasmo em 1516 tenha chegado antes ao mercado.
O lado menos atraente do caráter de Ximenes vê-se na sua disposição de usar a força para a conversão dos maometanos. Nos assuntos de Estado, sua firmeza e sabedoria foram de imenso serviço a Isabel, Fernando e Carlos V, até a sua morte em 1517.
O impulso intelectual assim inaugurado por Ximenes levou por fim a um renascimento da teologia de Tomás de Aquino, iniciado por Francisco de Vitória (?-1546) em Salamanca e continuado pelos discípulos de Vitória, os grandes teólogos romanos dos primeiros tempos da luta contra o protestantismo, Domingo de Soto (1494-1560) e Melchior Cano (1525-1560).
Característica do despertamento espanhol foi a reorganização da inquisição. O temperamento espanhol via a ortodoxia e o patriotismo como essencialmente uma só coisa, e considerava a manutenção de suas religiões por judeus e maometanos, ou a recaída daqueles dentre esses dissidentes que haviam abraçado o cristianismo, como perigos tanto para a igreja quanto para o Estado. Assim, em 1480, Fernando e Isabel estabeleceram a inquisição, inteiramente sob a autoridade real e com inquisidores nomeados pelo soberano. Foi esse caráter nacional o traço distintivo da inquisição espanhola, e ele provocou protestos do papa Sisto IV, aos quais os soberanos fizeram ouvidos moucos. Apoiada pela coroa, ela logo se tornou um instrumento terrível, sob a liderança de Tomás de Torquemada (1420-1498). Sem dúvida, seu valor para quebrar a independência dos nobres e reabastecer o tesouro por meio de confiscos recomendou-a aos soberanos, mas o seu principal título ao favor popular foi a repressão da heresia e da dissidência.
A Espanha tinha, portanto, no fim do século XV, a igreja nacional mais independente de todas as nações da Europa, na qual uma renovação moral e intelectual, não destinada a ser permanente, progredia com mais vigor que em outros lugares; contudo, uma igreja intensamente medieval em doutrina e prática, e ferozmente intolerante de toda heresia.
Na Alemanha a situação era muito diferente. O império carecia de qualquer unidade real. A coroa imperial, em teoria eletiva, foi usada por membros da casa austríaca de Habsburgo de 1438 a 1740, mas os imperadores tinham poder como possuidores de suas terras hereditárias, e não como detentores da autoridade imperial. Sob Frederico III (1440-1493), as guerras entre os príncipes e as cidades e a desordem da baixa nobreza, que vivia com demasiada frequência do que era na verdade salteamento de estradas, mantinham o país num tumulto que o imperador era impotente para reprimir. As coisas foram um pouco melhores sob Maximiliano I (1493-1519), e tentou-se dar ao império uma autoridade central mais forte por meio de reuniões frequentes do antigo Reichstag feudal, da criação de uma corte suprema imperial (1495) e da divisão do império em distritos para melhor preservação da paz pública (1512). Fizeram-se esforços para formar um exército imperial e cobrar impostos imperiais. Essas reformas tiveram pouca vitalidade. As decisões da corte não podiam ser executadas, nem os impostos cobrados. O Reichstag haveria, é verdade, de desempenhar grande papel nos dias da Reforma, mas era um parlamento desajeitado, reunido em três câmaras: a primeira, dos eleitores imperiais; a segunda, dos príncipes leigos e eclesiásticos; e a terceira, dos delegados das cidades imperiais livres. A baixa nobreza e o povo comum não tinham parte nele.
As cidades imperiais eram um elemento importante da vida alemã, sem reconhecer outro superior além do fraco governo do imperador. Eram industriosas e ricas, mas estavam longe de ser democráticas em seu governo e eram inteiramente interesseiras no que dizia respeito aos interesses maiores da Alemanha. Seu espírito comercial as levava a resistir às exigências tanto do clero quanto dos príncipes.
Em nenhum país da Europa o campesinato vivia em maior inquietação, especialmente no sudoeste da Alemanha, onde houve insurreições em 1476, 1492, 1512 e 1513. Os camponeses eram servos, condição que desaparecera na Inglaterra e, em grande parte, na França. Sua situação piorara rapidamente com a substituição dos antigos costumes jurídicos pelo direito romano, um direito feito em grande parte para escravos, e no fim do século XV estavam profundamente descontentes.
Contudo, se a vida nacional alemã como um todo era assim desordenada e insatisfeita, os territórios maiores da Alemanha iam-se fortalecendo e desenvolvendo em si mesmos uma espécie de vida nacional local semi-independente. Isso era notadamente verdadeiro da Áustria, da Saxônia eleitoral e ducal, da Baviera, de Brandemburgo e de Hesse. O poder de seus governantes crescia, e eles começavam a exercer uma autoridade local nos assuntos eclesiásticos, controlando a nomeação de bispos e abades, tributando o clero e limitando em certa medida a jurisdição eclesiástica. Esse governo eclesiástico territorial e local não fora longe, mas o fato de existir foi da maior importância, pois forneceu uma estrutura que a Reforma haveria de desenvolver rapidamente quando a obediência romana fosse rejeitada.
Os anos que precederam a Reforma testemunharam dois casamentos dos governantes Habsburgo da Áustria, da maior importância para o pano de fundo político da época da Reforma. Em 1477, a morte de Carlos, o Temerário, o ambicioso duque da Borgonha, deixou a herança de seus territórios borgonheses e dos Países Baixos à sua filha, Maria. O casamento dela, naquele mesmo ano, com Maximiliano I, para descontentamento de Luís XI da França, que se apoderou da Alta Borgonha, semeou as sementes da contenda entre os reis da França e a linhagem dos Habsburgo, que haveriam de determinar em grande parte a política da Europa até 1756. Filipe, filho de Maximiliano e Maria, casou-se por sua vez com Joana, herdeira de Fernando e Isabel da Espanha. Assim aconteceu que o filho de Filipe e Joana, Carlos, se tornou possuidor da Áustria, dos Países Baixos e dos vastos territórios espanhóis na Europa e no Novo Mundo, soberania maior que qualquer outra exercida por um só governante desde Carlos Magno, à qual se acrescentou o título imperial em 1519. Carlos V tornou-se também herdeiro da rivalidade entre a linhagem dos Habsburgo, à qual pertencia, e os reis da França. Essa rivalidade e a luta pela reforma religiosa haveriam de entrelaçar-se durante toda a época da Reforma, modificando-se constantemente uma à outra.
Embora o século XV tenha sido um período notável de fundação de universidades na Alemanha (nada menos que doze surgiram entre 1409 e 1506), essas novas criações não deviam sua existência ao Renascimento. Nasceram em parte de um forte desejo de saber, mas ainda mais da ambição dos governantes territoriais maiores de possuir tais escolas em suas próprias terras. Uma influência favorável ao triunfo final do humanismo foi o renascimento da antiga teologia medieval realista e uma tendência a recuar, para além mesmo dos primeiros escolásticos, até Agostinho e a concepções neoplatônicas mais que aristotélicas. Esses renascimentos tinham forte representação na Universidade de Paris no último quarto do século XV e dali se espalharam, com seguidores consideráveis, pelas universidades alemãs. Foram para muitos a ponte para o humanismo e tornaram possível aquele predomínio das concepções agostinianas que haveria de caracterizar a época da Reforma.
O Renascimento além dos Alpes teve início com o contato com humanistas italianos nos Concílios de Constança e Basileia, mas só se tornou influência poderosa perto do fim do século XV. Suas conquistas foram mais precoces na Alemanha que na França, na Inglaterra ou na Espanha. Algum impulso considerável foi dado pelo douto matemático e filósofo Nicolau de Cusa (1401-1464), que reuniu uma biblioteca notável. Morreu cardeal e bispo de Brixen. Muitos de seus primeiros representantes na Alemanha, porém, pouco se prestavam a recomendá-lo às pessoas de espírito sério. Estudantes alemães trouxeram da Itália o amor aos clássicos e também a vida dissoluta, característica com demasiada frequência do Renascimento italiano. Assim eram homens como o poeta vagabundo Peter Luder, que passou de universidade em universidade, expoente desacreditado do novo saber, de 1456 a 1474. Mestre muito diferente, que estudara na Itália, foi Rodolfo Agrícola (1443-1485), que terminou a vida como professor em Heidelberg. Homem de valor e influência, muito fez para promover a educação clássica nas escolas preparatórias. Por meio do discípulo de Agrícola, Alexandre Hégio, que dirigiu a escola de Deventer de 1482 a 1498, essa instituição tornou-se um centro de ensino clássico, do qual Erasmo haveria de ser o aluno mais famoso. No fim do século XV ocorrera grande melhora no ensino do latim nas escolas secundárias da Alemanha.
O humanismo firmou-se nas universidades, não sem dura luta. Sua primeira conquista foi a Universidade de Viena, onde o poeta latino semipagão Conrad Celtis (1459-1508) gozou da proteção do imperador Maximiliano I, inclinado ao humanismo. Na primeira década do século XVI, o humanismo forçava a entrada nas universidades de Basileia, Tübingen, Ingolstadt, Heidelberg e Erfurt. Encontrou também muitos patronos nas ricas cidades comerciais, notadamente Nuremberg, Estrasburgo e Augsburgo. Tão numerosos eram os seus simpatizantes no fim do século XV que se formavam círculos eruditos, como a Associação Literária Renana, organizada por Celtis em Mainz, em 1491, cujos membros se correspondiam, faziam circular as obras uns dos outros e se prestavam ajuda mútua. Por volta de 1500, o humanismo tornava-se um fator vital na Alemanha.
O humanismo alemão apresentou muitos tipos, mas era em geral muito menos pagão e de espírito mais sério que o da Itália. Muitos de seus líderes eram homens de igreja sinceros, desejosos de reformar e purificar a vida religiosa. Ele se vê no seu melhor em seus dois representantes mais famosos, Reuchlin e Erasmo.
Nascido em condições humildes, em Pforzheim, em 1455, Johann Reuchlin cedo ganhou reputação local como latinista e foi enviado, por volta de 1472, como companheiro do jovem filho do margrave de Baden, à Universidade de Paris. Ali, em Paris, começou o estudo do grego, cujo ensino ali se oferecia desde 1470. Em 1477 recebeu o grau de mestre em Basileia e ali ensinou grego. Antes mesmo de se graduar, publicou um dicionário latino (1475-1476). Estudou direito em Orléans e Poitiers e, mais tarde, foi muito empregado em cargos judiciais; mas seus interesses foram sempre, antes de tudo, os da erudição. O serviço do conde de Württemberg levou-o a Florença e Roma em 1482, cidades que visitou de novo em 1490 e 1498. Em Florença, já na primeira visita, seu conhecimento do grego despertou admiração. Ali conheceu os eruditos da Academia Platônica (ver Período V, seção XIV) e foi influenciado por eles, e de Pico della Mirandola (ver Período V, seção XIV) adquiriu aquele estranho interesse pelas doutrinas cabalísticas que muito acrescentou à sua fama na Alemanha. Reuchlin era tido como o mais capaz helenista da Alemanha nos últimos anos do século XV, e sua influência na promoção dos estudos gregos foi muito fecunda.
Reuchlin tinha o desejo renascentista de voltar às fontes, e isso o levou, primeiro entre os eruditos não judeus da Alemanha, a fazer um estudo profundo do hebraico, a fim de melhor compreender o Antigo Testamento. O fruto de vinte anos desse trabalho foi a publicação, em 1506, de uma gramática e de um léxico hebraicos, De Rudimentis Hebraicis, que abriram aos estudantes cristãos os tesouros daquela língua. A amarga contenda em que o pacífico erudito foi arrastado por causa desses estudos hebraicos, e com ele toda a Alemanha culta, será descrita ao tratarmos dos antecedentes imediatos da revolta luterana. Reuchlin não era protestante. Recusou aprovação à Reforma nascente, que presenciou até a sua morte em 1522. Mas prestou um serviço de imensa importância à erudição bíblica, e seu herdeiro intelectual haveria de ser o seu sobrinho-neto, aquele erudito entre os reformadores, Filipe Melanchthon.
Desidério Erasmo nasceu fora do matrimônio em Roterdã, ou Gouda, provavelmente em 1466. A escola de Deventer despertou nele o amor às letras (ver Período V, seção XVI). A pobreza levou-o a um mosteiro agostiniano em Steyn, mas ele não tinha gosto pela vida monástica, nem pela do sacerdócio, para o qual foi ordenado em 1492. Em 1495 estudava em Paris. O ano de 1499 viu-o na Inglaterra, onde fez a proveitosa amizade de John Colet, que o orientou para o estudo da Bíblia e dos Pais. Alguns anos de labores estudiosos, principalmente na França e nos Países Baixos, viram-no uma vez mais na Inglaterra, em 1505; seguiu-se então uma estada de três anos na Itália. Em 1509 voltou de novo à Inglaterra e passou a ensinar na Universidade de Cambridge, gozando da amizade de muitos dos homens mais ilustres do reino. Os anos de 1515 a 1521 foram passados, na maior parte, a serviço de Carlos V nos Países Baixos. De 1521 até a sua morte, em 1536, Basileia, onde podia ter amplas facilidades de publicação, foi a sua principal morada. Pode, assim, ser chamado cidadão de toda a Europa.
Erasmo não era um latinista impecável. Seu conhecimento do grego era antes superficial. Era, acima de tudo, um homem de letras, que tocava as questões de seu tempo com espírito consumado e brilho de expressão; apresentava críticas ousadas ao clero e aos governantes civis e, com tudo isso, era movido por profunda sinceridade de propósito. Convencido de que a igreja de seu tempo estava recoberta de superstição, corrupção e erro, e de que a vida monástica era com demasiada frequência ignorante e indigna, não tinha, contudo, nenhum desejo de romper com a igreja que tão livremente criticava. Era demasiado intelectual por natureza para simpatizar com a revolução luterana, cujos excessos o repeliam. Era demasiado perspicaz para não ver os males da Igreja Romana. Por isso, nenhum dos lados da luta que se abriu na última parte de sua vida o compreendeu, e sua memória tem sido condenada pelos escritores polêmicos, protestantes e católicos. Seu próprio pensamento era que a educação, o retorno às fontes da verdade cristã e a flagelação da ignorância e da imoralidade por uma sátira impiedosa trariam a igreja à pureza. Para esse fim trabalhou. Seu Enchiridion militis christiani [Manual do soldado cristão], de 1502, foi uma apresentação simples e sincera de um cristianismo não eclesiástico, em grande parte de caráter estoico. Seu Elogio da Loucura, de 1509, foi uma sátira mordaz aos males de sua época na igreja e no Estado. Seus Colloquia familiaria [Colóquios familiares], de 1518, foram discussões espirituosas em que os jejuns, as peregrinações e observâncias exteriores semelhantes eram alvo de sua pena brilhante. Sua obra construtiva foi da mais alta importância. Em 1516 saiu a primeira edição de seu Testamento grego, a publicação pioneira do texto grego, pois o de Ximenes ainda era inacessível (ver Período V, seção XV). Seguiu-se uma série dos Pais, Jerônimo, Orígenes, Basílio, Cirilo, Crisóstomo, Irineu, Ambrósio e Agostinho, nem todos inteiramente de sua pena, mas todos por seu impulso, que pôs o conhecimento erudito do cristianismo primitivo num novo patamar e ajudou profundamente uma Reforma cujas fontes religiosas mais profundas Erasmo nunca compreendeu. Erasmo prestou aos clássicos cristãos um serviço muito semelhante ao dos humanistas italianos aos escritores pagãos da Grécia e de Roma.
Contudo, Erasmo fez algo mais que reavivar o conhecimento das fontes cristãs. Em certa medida, tinha uma teologia positiva. Para ele, o cristianismo era apenas a expressão mais plena, por meio de Cristo, sobretudo no Sermão do Monte, de uma religião universal, essencialmente ética, da qual os filósofos da Antiguidade também haviam sido portadores. Tinha pouca sensibilidade para o sacramental ou para os elementos profundamente pessoais da religião. Um teísmo ético universal, que tinha em Cristo a sua mais alta ilustração, era a sua ideia. Seu modo de pensar haveria de ter pouca influência sobre a Reforma como um todo, embora muita sobre o socinianismo, e é o que se representa em grande parte da teologia moderna, da qual ele foi assim o antepassado espiritual.
Embora a Alemanha fosse, no começo do século XVI, mais amplamente influenciada pelo Renascimento que qualquer outra terra além dos Alpes, os mesmos impulsos agitavam-se em outros lugares. Os esforços de Ximenes na Espanha já foram notados (ver Período V, seção XV). Na Inglaterra, John Colet (1467?-1519) introduzia reformas educacionais e fazia preleções sobre as epístolas de Paulo em Oxford e Londres. Sua influência em voltar Erasmo para os estudos bíblicos foi considerável (ver Período V, seção XVI). Rejeitava toda interpretação alegórica das Escrituras, criticava o celibato clerical e a confissão auricular e desejava melhorar a instrução e a moral do clero. Ao raiar o século XVI, o humanismo ganhava seguidores em número sempre crescente na Inglaterra, e o rei Henrique VIII (1509-1547) era tido como seu patrono.
A situação na França era semelhante. O principal representante de um humanismo eclesiástico e reformador foi Jacques Lefèvre d’Étaples (1455-1536), cujos anos de atividade se passaram na maior parte em Paris ou perto dela. Homenzinho modesto e bondoso, de piedade mística, publicou em 1512 uma tradução latina das epístolas de Paulo, com comentário, que negava os méritos justificadores das boas obras e tinha a salvação por dom gratuito de Deus. Nunca percebeu, porém, nenhuma diferença fundamental entre ele mesmo e a Igreja Romana; mas reuniu ao seu redor um grupo de alunos dedicados, destinados a participações muito diferentes na luta da Reforma: Guillaume Briçonnet, que seria bispo de Meaux; Guillaume Budé, eminente no grego e que contribuiria para a fundação do Collège de France; Louis de Berquin, que morreria mártir protestante; e Guillaume Farel, que seria o ardente reformador da Suíça de língua francesa.
A todos esses humanistas de espírito religioso o caminho da reforma parecia semelhante. O saber sólido, o estudo e a pregação da Bíblia e dos Pais e a correção da ignorância, da imoralidade e dos abusos administrativos flagrantes fariam da igreja o que ela devia ser. Essa solução não atendia às necessidades profundas da situação; mas os humanistas prestaram uma preparação indispensável para a Reforma. Levaram os homens a estudar de novo as fontes cristãs. Desacreditaram a teologia escolástica tardia. Introduziram métodos de exegese novos e mais naturais. Em grande medida, olharam a vida de um ponto de vista diferente do medieval. Representaram uma libertação da mente, em medida bastante considerável, do tradicionalismo medieval.
Em parte como resultado da ênfase renascentista nas fontes, mas ainda mais em consequência da invenção da imprensa, a segunda metade do século XV testemunhou ampla distribuição da Bíblia, na Vulgata e em tradução. Nada menos que noventa e duas edições da Vulgata saíram antes de 1500. Dezoito edições de uma versão alemã foram impressas antes de 1521. O Novo Testamento foi impresso em francês em 1477, e a Bíblia inteira dez anos depois; 1478 viu a publicação de uma tradução espanhola; 1471, a impressão de duas versões independentes em italiano. Nos Países Baixos, os Salmos foram publicados sete vezes entre 1480 e 1507. As Escrituras foram impressas em boêmio em 1488. Se a Inglaterra não teve Bíblia impressa antes da Reforma, muitos manuscritos da tradução de Wyclif estavam em circulação.
Fizeram-se esforços para restringir a leitura da Bíblia pelos leigos, pois o seu uso parecia ser a fonte das heresias medievais; mas não pode haver dúvida de que a familiaridade com ela aumentou muito entre o sacerdócio menos instruído e entre os leigos. Contudo, a verdadeira questão da influência dessa leitura da Bíblia é o problema da interpretação bíblica. A Idade Média nunca negou a autoridade final da Bíblia. Agostinho e Tomás de Aquino assim a consideravam. Mas era a Bíblia interpretada pelos Pais, pelos doutores e pelos concílios da igreja. Se esse direito eclesiástico de interpretar fosse negado, restaria apenas o direito da interpretação particular; mas as vozes da Boêmia e das seitas medievais que negavam a autoridade interpretativa da igreja não encontraram ainda resposta geral. A palavra decisiva ainda estava por ser dita. A simples leitura da Bíblia não implicava negação alguma dos ideais medievais. Só quando esses ideais fossem rejeitados é que a autoridade interpretativa que os sustentava poderia ser negada e a Bíblia tornar-se o apoio das novas concepções da salvação e da igreja. A Bíblia não foi tanto a causa do protestantismo quanto o protestantismo foi uma nova interpretação das Escrituras.
Os últimos anos do século XV foram, como se viu, um período de melhora religiosa na Espanha. Nenhum renascimento correspondente do interesse pela religião se pode apontar na França ou na Inglaterra; mas a Alemanha passava por um despertamento religioso real e amplo nas décadas imediatamente anteriores à Reforma. Seu motivo fundamental parece ter sido o medo. Muito na vida popular da Alemanha tendia a aumentar o sentimento de apreensão. A ilusão da feitiçaria, embora de modo algum nova, espalhava-se rapidamente. Uma bula do papa Inocêncio VIII, em 1484, declarou a Alemanha cheia de bruxas, e os inquisidores alemães Jakob Sprenger e Heinrich Kramer publicaram em 1489 o seu dolorosamente célebre Malleus Maleficarum. Era uma superstição que acrescentava terror à vida popular e haveria de ser partilhada pelos reformadores tanto quanto por seus adversários romanos. Os anos de 1490 a 1503 foram um período de fome na Alemanha. O perigo turco tornava-se ameaçador. A inquietação social geral já foi notada (ver Período V, seção XV). Todos esses elementos contribuíram para desenvolver o senso da realidade e da proximidade dos juízos divinos e da necessidade de aplacar um Deus irado. As primeiras experiências religiosas de Lutero estavam em harmonia com o espírito desse amplo movimento religioso.
O espírito religioso da Alemanha no fim do século XV expressou-se em peregrinações. Alguns dos mais ricos viajavam à Terra Santa, mais iam a Roma, mas o santuário estrangeiro de peregrinação mais popular era o de São Tiago de Compostela, na Espanha. Os santuários de peregrinação alemães ficavam apinhados, e faziam-se grandes coleções de relíquias, notadamente pelo eleitor saxão Frederico, o Sábio (1486-1525), que seria o protetor de Lutero, o qual as colocou na igreja do castelo, em cuja porta Lutero haveria de pregar as suas famosas teses. Nunca se buscou tanto a intercessão de Maria, e a mãe de Maria, santa Ana, era pouco menos estimada. Cristo era popularmente considerado um juiz severo, a ser aplacado com satisfações ou absolvições.
Contudo, lado a lado com esse espírito religioso exterior e confiado nas obras, a Alemanha tinha não pouca piedade mística, que via a essência da religião na relação da alma individual com Deus; e bastante do que se tem chamado “religião não eclesiástica”, que se manifestava não só em vidas simples e sérias, como a do pai de Lutero, mas em tentativas crescentes de príncipes leigos de melhorar a qualidade do clero, de cidades de regulamentar a mendicância e de controlar as fundações de caridade, que haviam estado em mãos exclusivamente eclesiásticas, e, de vários modos, de reivindicar para os leigos, como tais, uma parte maior na vida religiosa da comunidade. A vida ativa afirmava os seus direitos contra a contemplativa. A teologia, como tal, perdera em grande parte o seu domínio sobre o pensamento popular, desacreditada pelo nominalismo, desprezada pelo humanismo e suplantada pelo misticismo.
Não era uma época morta aquela a que Lutero haveria de falar, mas uma época fervilhante de inquietação, atormentada por inúmeros problemas não resolvidos e anseios não satisfeitos.
1. Kidd, Documents Illustrative of the Continental Reformation, p. 3.
Tradução para o português a partir de Williston Walker, A History of the Christian Church (Nova York, Charles Scribner’s Sons, 1918), 1ª edição, conferida com as imagens das páginas; domínio público. As notas são de Walker; as que eram só referência bíblica passaram para o texto. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.