Walker, História da Igreja Cristã · Período VI

Período VI, seções II a IV

II. Separações e divisões; III. A revolta Suíça; IV. Os anabatistas.

Seção II. Separações e divisões

A permanência de Lutero no Wartburg deixou Wittenberg sem sua poderosa liderança; mas ali não faltavam muitos que dessem continuidade à revolução eclesiástica. Aos seus primeiros companheiros na universidade, Karlstadt, Melanchthon e Nikolaus von Amsdorf (1483-1565), haviam-se juntado, no primeiro semestre de 1521, Johann Bugenhagen (1485-1558) e Justus Jonas (1493-1555). Destes, Karlstadt possuía, sem dúvida, a maior capacidade natural de liderança, mas era temerário, impulsivo e radical. Lutero ainda não fizera nenhuma mudança no culto público nem na vida monástica. Era inevitável, porém, que surgisse a exigência de tais mudanças. O ardoroso confrade de Lutero, Gabriel Zwilling (1487?-1558), já em outubro de 1521 denunciava a missa e instava ao abandono dos votos clericais. Logo reuniu numerosos seguidores, sobretudo no mosteiro agostiniano de Wittenberg, muitos de cujos internos renunciaram então à sua profissão. Com igual zelo Zwilling passou em breve a atacar as imagens. No Natal de 1521, Karlstadt celebrou a Ceia do Senhor na igreja do castelo, sem vestes sacerdotais, sem oferta sacrificial, sem elevação da hóstia e com o cálice oferecido aos leigos. A confissão auricular e os jejuns foram abandonados. Karlstadt ensinava que todos os ministros deviam casar-se e, em janeiro de 1522, tomou esposa. Logo se opunha ao uso de quadros, de órgãos e do canto gregoriano no culto público. Sob sua liderança, o governo municipal de Wittenberg dissolveu as antigas confrarias religiosas e confiscou-lhes os bens, decretou que os ofícios fossem em alemão, condenou as imagens nas igrejas e proibiu a mendicância, ordenando que os casos de real necessidade fossem socorridos pelo tesouro da cidade. A agitação pública aumentou com a chegada, em 27 de dezembro de 1521, de três pregadores radicais de Zwickau, cujos principais eram Nikolaus Storch e Markus Thomä Stübner. Esses homens alegavam inspiração divina imediata, opunham-se ao batismo de crianças e profetizavam o fim próximo do mundo. Melanchthon foi de início um tanto abalado por eles, embora sua influência em geral tenha sido exagerada. Sem dúvida acrescentaram algo a um estado de tumulto.1

Essas rápidas mudanças, seguidas de um ataque popular às imagens, desagradaram profundamente ao eleitor Frederico, o Sábio, e provocaram protestos admonitórios de príncipes alemães e das autoridades imperiais. Embora Lutero viesse a promover, nos três ou quatro anos seguintes, a maior parte das mudanças que Karlstadt e Zwilling haviam feito, sentiu então que sua causa corria perigo por causa de um radicalismo perigoso. O governo da cidade apelou a Lutero para que voltasse. O eleitor, por considerações políticas, proibiu-o nominalmente, mas em 6 de março de 1522 Lutero estava outra vez em Wittenberg, que dali em diante seria o seu lar. Oito dias de pregação mostraram o seu poder. O evangelho, declarou ele, consistia no conhecimento do pecado, no perdão por meio de Cristo e no amor ao próximo. As alterações que haviam provocado o tumulto diziam respeito a coisas exteriores. Só deviam ser feitas num espírito de consideração para com os fracos. Lutero dominou a situação. Karlstadt perdeu toda a influência e teve de deixar a cidade. Muitas das mudanças foram, por ora, desfeitas, e a antiga ordem de culto foi em grande parte restabelecida. Lutero mostrou assim uma atitude decididamente conservadora. Opunha-se não apenas aos romanistas, como até então, mas também àqueles da revolução que, segundo ele, queriam avançar depressa demais. As separações dentro do próprio partido da reforma haviam começado. Não pode haver dúvida, contudo, quanto à sabedoria de Lutero. Sua atitude levou muitos dos governantes alemães a olhá-lo com benevolência, como alguém que, embora condenado em Worms, era na realidade uma força de ordem em tempos turbulentos, e conservou-lhe especialmente o favor do seu eleitor, sem o qual sua causa teria, ainda então, naufragado depressa.

Enquanto isso, o imperador tinha as mãos atadas pela grande guerra com a França pelo controle da Itália, que o manteria ausente da Alemanha de 1522 a 1530. Era-lhe impossível intervir eficazmente contra a Reforma. O papa Leão X encerrara seu reinado amante do esplendor em dezembro de 1521 e tivera como sucessor o antigo preceptor holandês de Carlos V, com o nome de Adriano VI, homem de estrita ortodoxia medieval, mas plenamente consciente da necessidade de reforma moral e administrativa na corte papal, cujo breve pontificado de vinte meses seria um esforço penosamente infrutífero para conter os males dos quais ele julgava ser o movimento herético de Lutero um castigo divino. A simpatia por Lutero espalhava-se rapidamente, não só por toda a Saxônia, mas nas cidades da Alemanha. À Dieta (Reichstag) reunida em Nuremberg em novembro de 1522, Adriano enviou então uma mensagem exigindo a execução do édito de Worms contra Lutero, ao mesmo tempo que admitia haver muita coisa errada na administração eclesiástica. A Dieta respondeu declarando impossível a execução do édito e exigindo um concílio para a reforma da igreja, a reunir-se dentro de um ano na Alemanha, devendo-se, enquanto não se reunisse, pregar somente o “verdadeiro, puro, genuíno e santo evangelho”. As antigas queixas contra o mau governo papal foram renovadas pela Dieta. Embora não na forma, foi na realidade uma vitória para Lutero e sua causa. Parecia que a Reforma poderia ganhar o apoio de toda a nação alemã.2

Nessas circunstâncias favoráveis, formavam-se rapidamente congregações evangélicas em muitas regiões da Alemanha, ainda sem constituição fixa nem ordem de culto. Lutero estava então convencido de que tais associações de crentes tinham pleno poder para nomear e destituir seus pastores. Sustentava também, porém, que os governantes temporais, por ocuparem as posições de maior poder e responsabilidade na comunidade cristã, tinham o dever primordial de promover o evangelho. As experiências do futuro imediato e as necessidades da organização efetiva da igreja em territórios extensos levariam Lutero a abandonar a simpatia que então tivesse por esse regime de igreja livre, em favor de estrita dependência do Estado. Para atender às exigências do novo culto evangélico, Lutero publicou em 1523 a sua Ordenação do Culto, na qual enfatizava o lugar central da pregação; a sua Fórmula da Missa, na qual, embora ainda usando o latim, eliminava as implicações sacrificiais da missa, recomendava o cálice para uso dos leigos e instava ao emprego de hinos populares pelos fiéis; e o seu Taufbüchlein [Livrinho do batismo], no qual apresentava um rito batismal em alemão. O abandono das missas privadas e das missas pelos mortos, com os emolumentos que as acompanhavam, criou um sério problema de sustento ministerial, que Lutero propôs resolver com salários pagos de uma caixa comum mantida pelo município. Lutero sustentava que era admissível grande liberdade nos pormenores do culto, desde que a “Palavra de Deus” fosse mantida no centro. Por isso as diversas congregações reformadas logo apresentaram considerável variedade, e a tendência ao uso do alemão cresceu rapidamente, tendo o próprio Lutero publicado uma Missa Alemã em 1526. A confissão, Lutero a considerava extremamente desejável como preparação do cristão ainda imaturo para a Ceia do Senhor, mas não obrigatória. Julgada pelo desenvolvimento da Reforma em outros lugares, a atitude de Lutero em matéria de culto era fortemente conservadora, sendo seu princípio que “o que não é contrário à Escritura é a favor da Escritura, e a Escritura a favor dele”. Por isso conservou muito do uso romano, como as velas, o crucifixo e o emprego ilustrativo de imagens.3

Até então a maré corria fortemente em direções favoráveis a Lutero, mas com os anos de 1524 e 1525 começaram separações cujos efeitos seriam limitar o movimento da Reforma, fazer de Lutero o chefe de um partido em vez de um líder nacional, dividir a Alemanha e lançar Lutero nos braços dos príncipes temporais. A primeira dessas separações foi a dos humanistas. Seu admirado líder, Erasmo, tinha pouca simpatia pela doutrina de Lutero da justificação somente pela fé. A seu ver, a reforma viria pela educação, pela rejeição da superstição e por um retorno às “fontes” da verdade cristã. Os escritos tempestuosos de Lutero e o tumulto popular tornavam-se-lhe cada vez mais odiosos. Como os humanistas em geral, alarmava-o a grande queda da frequência nas universidades alemãs, que se manifestou por toda parte com o surgimento da controvérsia religiosa, e o declínio do interesse por questões puramente eruditas. Embora frequentemente instado, relutou por muito tempo em atacar Lutero; mas por fim, no outono de 1524, contestou a negação luterana do livre-arbítrio. A Erasmo Lutero respondeu, um ano depois, com a afirmação mais rígida possível do determinismo e da predestinação, embora Melanchthon logo viesse a mover-se na direção oposta. A ruptura entre Lutero e Erasmo era irremediável. A maior parte dos humanistas abandonou Lutero, embora entre os discípulos de Melanchthon se desenvolvesse lentamente uma escola mais jovem de humanistas luteranos.4

Para alguns na Alemanha, Lutero parecia apenas um reformador a meio caminho. Um desses radicais era seu antigo companheiro Karlstadt, que, tendo perdido toda a posição em Wittenberg, avançou para concepções e práticas ainda mais radicais e, ganhando numerosos seguidores em Orlamünde, praticamente desafiou Lutero e o governo saxão. Negava o valor da educação, vestia-se e vivia como os camponeses, destruía imagens e rejeitava a presença física de Cristo na Ceia. Ainda mais radical era Thomas Münzer, que afirmava a revelação imediata e atacava romanistas e luteranos igualmente por sua dependência da letra da Escritura. Homem de ação, comandou ataques tumultuosos a mosteiros e pregava a guerra contra os “ímpios”. A estes e a homens semelhantes Lutero se opôs com vigor, chamando-os Schwärmer, isto é, fanáticos; mas a presença deles indicava uma fenda crescente nas forças da reforma.

Mais grave ainda foi uma terceira separação, a causada pela revolta dos camponeses. A situação do campesinato alemão vinha sendo havia muito de miséria crescente e da consequente inquietação, sobretudo no sudoeste da Alemanha, onde o exemplo das melhores condições na vizinha Suíça alimentava o descontentamento. Com a revolta camponesa o luteranismo pouco teve a ver diretamente. Suas manifestações mais fortes deram-se em regiões onde o movimento da reforma mal havia penetrado. Contudo, a excitação religiosa e a pregação popular radical foram sem dúvida causas contribuintes, embora não primárias. Iniciada no extremo sudoeste da Alemanha em maio e junho de 1524, a insurreição era extremamente temível na primavera do ano seguinte. Em março de 1525, os camponeses apresentaram doze artigos,5 exigindo o direito de cada comunidade escolher e destituir o seu pastor; que os dízimos maiores (sobre os cereais) fossem usados para o sustento do pastor e outras despesas da comunidade, e os dízimos menores abolidos; que a servidão fosse suprimida, as reservas de caça restringidas, o uso das florestas permitido aos pobres, o trabalho forçado regulado e devidamente pago, fixadas rendas justas, não mais promulgadas leis novas, restituídas as terras comunais às comunidades das quais tinham sido tomadas e abolidos os pagamentos de herança aos senhores. Ao pensamento moderno, eram pedidos moderados e razoáveis. Àquela época, pareciam revolucionários.

Outros grupos de camponeses, um dos quais tinha Thomas Münzer como chefe, eram muito mais radicais. Lutero tentou de início mediar e estava disposto a reconhecer culpa de ambos os lados; mas, à medida que o levante, mal dirigido, caía em excessos maiores, voltou-se contra os camponeses com o seu feroz panfleto Contra as hordas assassinas e ladras dos camponeses, exigindo que os príncipes os esmagassem pela espada. A grande derrota de Francisco I da França perto de Pavia, infligida pelo exército imperial em 24 de fevereiro de 1525, permitira aos príncipes da Alemanha dominar o levante. A insurreição camponesa foi esmagada num derramamento de sangue espantoso.

Das separações, a ocasionada pela guerra dos camponeses foi sem dúvida a mais desastrosa. Lutero sentia que o seu evangelho não podia ficar envolvido nas exigências sociais e econômicas dos camponeses desordeiros. Mas o custo foi grande. A simpatia popular por sua causa entre as classes inferiores do sul da Alemanha perdeu-se em grande parte, sua própria desconfiança do homem comum aumentou, e seu sentimento de que a reforma devia ser obra dos príncipes temporais fortaleceu-se muito. Seus adversários, além disso, apontavam esses levantes como o fruto natural da rebelião contra a antiga igreja.

Enquanto isso, o medieval, embora a seu modo reformador, Adriano VI havia morrido, e tivera por sucessor no papado, em novembro de 1523, Giulio de’ Medici, com o nome de Clemente VII (1523-1534), homem de caráter respeitável, mas com pouco senso da importância das questões religiosas e, em sua política, antes de tudo um príncipe italiano mundano. À nova Dieta reunida em

Nuremberg na primavera de 1524, Clemente enviou como seu legado o hábil cardeal Lorenzo Campeggio (1474-1539). Junto à Dieta Campeggio pouco conseguiu. Ela prometeu executar o Édito de Worms contra Lutero “tanto quanto possível” e exigiu uma “assembleia geral da nação alemã” que se reuniria em Speier no outono seguinte. Essa reunião o imperador ausente conseguiu frustrar. O verdadeiro êxito de Campeggio, porém, deu-se fora da Dieta. Por seus esforços formou-se em Regensburg, em 7 de julho de 1524, uma liga em apoio à causa romana, que abrangia o irmão do imperador, Fernando, os duques da Baviera e alguns bispos do sul da Alemanha. Um quinto das rendas eclesiásticas foi atribuído aos príncipes leigos, foram promulgados regulamentos para assegurar um clero mais digno, aliviados os emolumentos clericais, diminuído o número de dias santos a guardar como feriados, e a pregação devia seguir os Pais da igreja antiga, e não os escolásticos.6 Foi o começo de uma verdadeira Contrarreforma; mas seu efeito foi aumentar a separação dos partidos na Alemanha e reforçar a linha divisória com base nos domínios de príncipes territoriais rivais. A nação estava irremediavelmente dividida.

Enquanto Roma assim se fortalecia no sul da Alemanha, a causa de Lutero recebia importantes adesões. A principal delas foi a do clarividente landgrave Filipe de Hesse (1518-1567), em 1524, o político mais hábil entre os príncipes luteranos. Ao mesmo tempo, Alberto da Prússia, grão-mestre dos Cavaleiros Teutônicos, Jorge de Brandemburgo, Henrique de Mecklenburg e Alberto de Mansfeld mostravam decidido interesse pela causa evangélica. As cidades importantes de Magdeburg, Nuremberg, Estrasburgo, Augsburgo, Esslingen, Ulm e outras de menor importância também tinham sido ganhas até 1524.

Foi nos dias sombrios da revolta camponesa que o cauteloso protetor de Lutero, Frederico, o Sábio, morreu (5 de maio de 1525), sendo sucedido por seu irmão João, “o Constante” (1525-1532). A mudança foi favorável a Lutero, pois o novo eleitor era um luterano declarado e ativo. Nesses meses ocorreu também o casamento de Lutero com Katharina von Bora (1499-1552), em 13 de junho de 1525, união que haveria de revelar alguns dos traços mais cativantes do caráter do reformador. O casamento foi arranjado de modo bastante repentino, e a acusação, às vezes feita, de que o desejo de matrimônio teve alguma parte na revolta de Lutero contra Roma é evidentemente absurda; mas, embora esse repúdio do celibato clerical tenha sido, sem dúvida, favorável em seus resultados finais, foi, naquele momento, mais uma causa de divisão, e a união de um ex-monge com uma ex-freira parecia dar razão à zombaria amarga de Erasmo, de que a Reforma, que parecera uma tragédia, era na verdade uma comédia, cujo desfecho era um casamento.7

A repressão da revolta camponesa deixara os príncipes e as cidades como as verdadeiras forças dominantes na Alemanha, e formaram-se então combinações políticas a favor ou contra a Reforma. Uma liga católica desse tipo foi instituída pelo duque Jorge da Saxônia e outros príncipes católicos reunidos em Dessau em julho de 1525; e, em resposta, Filipe de Hesse e o novo eleitor João da Saxônia organizaram uma liga luterana em Torgau. A grande vitória imperial de Pavia, em fevereiro anterior, resultara no cativeiro do rei da França derrotado, Francisco I. A guerra pendera decisivamente a favor do imperador, e seus resultados pareciam colhidos pelo Tratado de Madri, de janeiro de 1526, pelo qual Francisco obteve a libertação. Os dois monarcas comprometeram-se a esforços conjuntos para suprimir a heresia.8 As perspectivas do luteranismo eram de fato sombrias. Desse perigo a causa luterana deveu o seu resgate, antes de tudo, ao papa. Clemente VII, sempre mais príncipe italiano do que homem de igreja, alarmou-se profundamente com o aumento do poder imperial na Itália. Formou uma liga italiana contra o imperador, à qual aderiu o rei da França em maio de 1526. Francisco I repudiou o Tratado de Madri, e então a Liga de Cognac alinhou a França, o papa, Florença e Veneza contra o imperador. Os resultados de Pavia pareciam perdidos. A guerra teria de ser travada de novo. O imperador tinha as mãos ocupadas demais para intervir nas lutas religiosas da Alemanha.9

Assim aconteceu que, quando a nova Dieta se reuniu em Speier no verão de 1526, embora as instruções imperiais proibissem alterações na religião e ordenassem a execução do Édito de Worms, os luteranos puderam alegar que a situação mudara em relação à que o imperador tinha em vista quando suas ordens foram expedidas da Espanha. O avanço aterrador dos turcos, que resultaria no desastre húngaro de Mohács, em 29 de agosto de 1526, também aconselhava a unidade militar. A Dieta, portanto, decretou que, enquanto não se reunisse “um concílio ou uma assembleia nacional”, cada um dos governantes territoriais do império devia “viver, governar e portar-se de modo tal como espera e confia poder responder por isso perante Deus e sua majestade imperial”.10

Isso não passava, sem dúvida, de um mero compromisso ad interim; mas os príncipes e as cidades luteranas logo o interpretaram como plena autorização legal para ordenar suas constituições eclesiásticas como bem entendessem. Sob seu abrigo, a organização das igrejas territoriais luteranas realizou-se então rapidamente. Alguns passos rumo a essa organização territorial haviam sido dados mesmo antes da Dieta de 1526. Além das fronteiras do império, Alberto de Brandemburgo (1511-1568), grão-mestre dos Cavaleiros Teutônicos na Prússia Oriental, transformou seu cargo num ducado hereditário sob a suserania da Polônia, em 1525, e promoveu vigorosamente a luteranização do país.11 Na própria Saxônia eleitoral, o eleitor João planejava um controle governamental mais ativo dos assuntos eclesiásticos, e Lutero publicara sua Missa Alemã e Ordem do Culto Divino, de 1526, antes da Dieta.12 O decreto da Dieta veio então fortalecer muito essas tendências. Em Hesse, o landgrave Filipe fez reunir-se um sínodo em Homberg, em outubro de 1526, onde se adotou uma constituição em grande parte por influência de François Lambert (1487-1530), discípulo de Lutero. Em cada comunidade, os comungantes fiéis deviam constituir o corpo dirigente, pelo qual o pastor seria escolhido e a disciplina administrada. Representantes desses corpos locais, um pastor e um irmão leigo de cada um, deviam constituir um sínodo anual para todo o Hesse, do qual o landgrave e os altos nobres seriam também membros.13 Eis uma organização proposta que estava em grande medida de acordo com as concepções anteriores de Lutero. Mas Lutero havia mudado. Passara a desconfiar do homem comum e, por conselho seu, o landgrave rejeitou as propostas e adotou em seu lugar o procedimento da Saxônia eleitoral.

Na Saxônia, que se tornou, de modo geral, a norma para a criação das igrejas territoriais, o eleitor nomeou “visitadores” para examinar a doutrina e a conduta do clero com base em artigos redigidos por Melanchthon em 1527 e ampliados no ano seguinte.14 A antiga jurisdição dos bispos foi rejeitada, o território foi dividido em distritos, cada um sob um “superintendente” com superioridade administrativa, mas não espiritual, sobre o ministro paroquial, e por sua vez responsável perante o eleitor. O clero indigno ou recalcitrante foi expulso, assegurou-se a uniformidade do culto, e os bens monásticos, as dotações de altares e fundações semelhantes foram confiscados, em parte em benefício das igrejas paroquiais e das escolas, mas em grande parte em benefício do tesouro eleitoral. Numa palavra, uma igreja estatal luterana, coextensiva aos territórios eleitorais e tendo como membros todos os habitantes batizados, substituiu a antiga igreja governada por bispos. Outros territórios da Alemanha evangélica organizaram-se de modo semelhante. Para auxiliar a instrução religiosa popular, que a confusão de uma década reduzira a um estado deplorável, Lutero preparou dois catecismos em 1529, dos quais o Catecismo Menor é um dos mais nobres monumentos da Reforma.15

Que esse desenvolvimento das igrejas territoriais pudesse ocorrer deveu-se a condições políticas favoráveis. O imperador tinha de travar uma guerra tremenda, cujo prêmio era o domínio da Itália. Seu irmão, Fernando, foi coroado rei da Hungria em 3 de novembro de 1527 e dali em diante esteve em luta com os turcos. Era impossível uma intervenção eficaz na Alemanha. Mas a sorte favoreceu o imperador. Em 6 de maio de 1527, um exército imperial, que contava muitos recrutas luteranos alemães, tomou Roma, encerrou o papa Clemente VII no castelo de Santo Ângelo e submeteu a cidade a toda sorte de barbaridades. Embora a sorte parecesse voltar-se para os franceses no começo de 1528, antes do fim daquele ano as forças imperiais haviam afirmado o seu domínio. O papa foi obrigado a fazer a paz com o imperador, em Barcelona, em 29 de junho de 1529,16 e a França desistiu da luta pela Paz de Cambrai, a 5 do agosto seguinte. A grande guerra que se travava desde 1521 terminara, e Carlos V podia agora voltar a atenção para a supressão da revolta luterana. Tampouco os líderes luteranos tinham sido inteiramente afortunados. Enganados por uma falsificação de Otto von Pack, funcionário da Saxônia ducal, o landgrave Filipe de Hesse e o eleitor João da Saxônia haviam-se convencido de que os católicos pretendiam atacá-los. Filipe resolveu antecipar-se à suposta conspiração e estava armando-se para esse fim em 1528, quando a falsificação foi descoberta. O efeito do incidente foi azedar as relações entre os dois grandes partidos eclesiásticos.

Nessas circunstâncias, era inevitável que, quando a Dieta seguinte se reuniu em Speier, em fevereiro de 1529, a maioria católica fosse fortemente hostil aos inovadores luteranos. Essa Dieta ordenou então, por decisão da maioria, que não se fizessem mais mudanças eclesiásticas, que o culto romano fosse permitido nas terras luteranas e que todas as autoridades e ordens romanas pudessem gozar plenamente de seus antigos direitos, bens e rendas. Isso teria significado, na prática, a abolição das igrejas territoriais luteranas. Incapazes de derrotar essa legislação, os poderes civis luteranos representados na Dieta apresentaram, em 19 de abril de 1529, um protesto formal de grande importância histórica, pois deu origem à designação do partido como “protestante”. Apoiaram-no João da Saxônia eleitoral, Filipe de Hesse, Ernesto de Lüneburg, Jorge de Brandemburgo-Ansbach, Wolfgang de Anhalt e as cidades de Estrasburgo, Ulm, Constança, Nuremberg, Lindau, Kempten, Memmingen, Nördlingen, Heilbronn, Isny, St. Gallen, Reutlingen, Weissenburg e Windsheim.17

As perspectivas protestantes eram sombrias, e a situação exigia uma união defensiva, que Filipe de Hesse se encarregou de obter. Nessa conjuntura crítica, a causa da Reforma via-se ameaçada pela divisão entre os reformadores da Saxônia e os da Suíça e pela rápida expansão dos anabatistas.

Seção III. A revolta Suíça

A Suíça, embora nominalmente parte do império, era havia muito praticamente independente. Seus treze cantões estavam unidos numa confederação frouxa, sendo cada um praticamente uma república autônoma. O país como um todo era tido como o mais livre da Europa. Seus filhos gozavam de grande fama como soldados e eram avidamente procurados como mercenários, sobretudo pelos reis da França e pelos papas. Embora o nível geral da educação fosse baixo, o humanismo penetrara nas cidades maiores e, nas primeiras décadas do século XVI, tinha a sua sede notável em Basileia. A reforma suíça haveria de ter suas fontes no humanismo, no autogoverno local, no ódio às restrições eclesiásticas e na resistência às exações monásticas, sobretudo onde os mosteiros eram grandes proprietários de terras.

Huldreich Zwingli, o principal dos reformadores da Suíça de língua alemã, nasceu em 1º de janeiro de 1484, em Wildhaus, onde seu pai era o magistrado da aldeia e vivia em situação confortável. Um tio, deão de Wesen, encaminhou-o nos estudos, que prosseguiram em Basileia e depois em Berna, sob o humanista Heinrich Wölflin (Lupulus), de 1498 a 1500. Por dois anos Zwingli foi estudante na Universidade de Viena, onde Conrad Celtes gozava de grande fama nos clássicos. De 1502 a 1506 continuou seus estudos na Universidade de Basileia, graduando-se bacharel em artes em 1504 e recebendo o grau de mestre dois anos depois. Em Basileia teve as lições do humanista Thomas Wyttenbach (1472-1526), de quem se lembrava com gratidão como aquele que lhe ensinara a autoridade exclusiva da Escritura, a morte de Cristo como único preço do perdão e a inutilidade das indulgências. Sob tal ensino, Zwingli tornou-se naturalmente ele mesmo um humanista, desejoso de voltar às fontes mais antigas da crença cristã e crítico daquilo que os humanistas em geral consideravam superstição. Nunca passou pela profunda experiência espiritual de pecado e perdão que coube a Lutero. Sua atitude religiosa foi sempre mais intelectual e radical que a do reformador saxão.

O ano da segunda graduação de Zwingli viu sua nomeação, ao que parece por influência do tio clérigo, como pároco em Glarus. Ali estudou grego, tornou-se pregador influente, opôs-se ao emprego de suíços como mercenários, exceto pelo papa, e em 1513 recebeu uma pensão do papa, que desejava assegurar o apoio militar contínuo dos suíços. Acompanhou como capelão os jovens de sua paróquia em várias campanhas na Itália. Correspondeu-se com Erasmo e outros humanistas. Seu conhecimento do mundo crescia, e ele tocava a vida por muitos lados.18

Zwingli estava patrioticamente convencido do mal moral do serviço mercenário, mas os franceses, ávidos por alistar soldados suíços, causaram tantos problemas em sua paróquia de Glarus que, sem renunciar ao cargo, ele transferiu suas atividades em 1516 para o santuário de peregrinação de Einsiedeln, famoso ainda hoje. A mudança lhe trouxe maior reputação como pregador e estudioso. A essa permanência em Einsiedeln Zwingli, sempre cioso de não admitir dívida para com Lutero, atribuiu mais tarde a sua aceitação da posição evangélica. As provas que sobreviveram, porém, apontam para pouco mais, naquela época, do que a atitude humanista mais avançada. Sua própria vida nesse tempo, além disso, não estava livre de censura por violação do voto de castidade.

Sua oposição ao serviço militar estrangeiro e sua reputação como pregador e erudito levaram à eleição de Zwingli pelo cabido do Münster de Zurique como sacerdote do povo, cargo que assumiu no começo de 1519. Começou de imediato a exposição ordenada de livros inteiros da Bíblia, a começar pelo Evangelho de Mateus. Tomou então conhecimento dos escritos de Lutero. Esteve à beira da morte por causa da peste. Pregou fielmente contra o serviço mercenário, de modo que Zurique acabou (maio de 1521) por proibir essa prática.19 Sua própria vida espiritual aprofundou-se com o luto pela morte de um irmão querido em 1520, e no mesmo ano renunciou à sua pensão papal.

Embora Zwingli viesse assim havia muito avançando na direção reformadora, foi com 1522 que começou sua vigorosa obra de reforma. É interessante notar que a primeira questão em jogo não nasceu, como em Lutero, de uma profunda experiência religiosa, mas da convicção de que só a Bíblia obriga os cristãos. Alguns cidadãos quebraram o jejum da Quaresma, invocando como justificação a afirmação de Zwingli da autoridade exclusiva da Escritura. Zwingli pregou e publicou então em sua defesa. O bispo de Constança, em cuja diocese ficava Zurique, enviou uma comissão para reprimir a inovação. O governo civil do cantão decidiu que o Novo Testamento não impunha jejuns, mas que estes deviam ser observados por amor à boa ordem. A importância dessa decisão de compromisso estava em que as autoridades civis do cantão praticamente rejeitaram a jurisdição do bispo e tomaram em suas próprias mãos o controle das igrejas de Zurique. No agosto seguinte, o burgomestre de Zurique estabeleceu a regra de que somente a pura Palavra de Deus devia ser pregada, e o caminho para a revolução ficou assim inteiramente aberto.20

Zwingli cria que a autoridade última era a comunidade cristã e que essa autoridade se exercia por meio dos órgãos do governo civil devidamente constituídos, agindo de acordo com as Escrituras. Só aquilo que a Bíblia ordena, ou para o qual se possa encontrar autorização expressa em suas páginas, é obrigatório ou permitido. Daí que sua atitude para com as cerimônias e a ordem do culto antigo fosse muito mais radical que a de Lutero. Na realidade, a situação em Zurique era tal que o governo cantonal introduzia as mudanças que Zwingli, como intérprete confiável da Escritura e líder popular nato, persuadia esse governo a sancionar. Zwingli iniciou então um processo de educação do governo e do povo, que empregou com grande êxito. Persuadido por Zwingli, o governo cantonal ordenou uma disputa pública, em janeiro de 1523, na qual somente a Bíblia seria a pedra de toque. Para esse debate Zwingli preparou sessenta e sete breves artigos, afirmando que o evangelho não deriva sua autoridade da igreja, que a salvação é pela fé, e negando o caráter sacrificial da missa, o caráter salvífico das boas obras, o valor dos santos intercessores, o caráter obrigatório dos votos monásticos e a existência do purgatório. Declarou também que Cristo é a única cabeça da igreja e defendeu o casamento clerical. No debate que se seguiu, o governo declarou Zwingli vencedor, ao afirmar que ele não fora convencido de heresia, e determinou que continuasse a pregar. Foi um endosso de seu ensino.21

As mudanças então se sucederam rapidamente. Sacerdotes e freiras casaram-se. Os emolumentos por batismos e sepultamentos foram suprimidos. Num segundo grande debate, em outubro de 1523, Zwingli e seu colega de ministério, Leo Jud (1482-1542), atacaram o uso de imagens e o caráter sacrificial da missa. O governo estava com eles, mas avançava com cautela.22 Janeiro de 1524 viu um terceiro grande debate. Aos defensores da antiga ordem deu-se a escolha entre a conformidade e o banimento. Em junho e julho de 1524, as imagens, as relíquias e os órgãos foram suprimidos. Dezembro presenciou o confisco dos estabelecimentos monásticos, cujos bens foram sabiamente empregados, em grande parte, na fundação de excelentes escolas. A missa continuou até a Semana Santa de 1525, quando também foi abolida. A transformação estava completa. A jurisdição episcopal fora rejeitada, os ofícios postos em alemão, o sermão tornado central, as doutrinas e cerimônias características do culto antigo suprimidas.23 Enquanto isso, em 2 de abril de 1524, Zwingli casara publicamente com Anna Reinhard, viúva, a quem ele e seus amigos, não sem considerável maledicência, vinham tratando desde 1522 como, em certo sentido, sua esposa. Durante todo esse tempo os papas não fizeram nenhuma intervenção eficaz nos assuntos de Zurique, em grande parte por causa do valor político da Suíça nas guerras. O bispo de Constança fizera o que podia, mas em vão.

Naturalmente Zwingli acompanhava com avidez os rumos da revolução eclesiástica em outras partes da Suíça e nas regiões vizinhas da Alemanha, e ajudou-a ao máximo de sua capacidade. Basileia, onde a autoridade civil adquirira grande influência nos assuntos da igreja antes da revolta, foi ganha gradualmente para a causa evangélica, principalmente por Johann Ecolampádio (1482-1531), que ali trabalhou continuamente a partir de 1522. Ali a missa foi abolida em 1529. Ecolampádio e Zwingli eram amigos íntimos. Berna, o maior dos cantões suíços, foi ganha para a reforma em 1528, depois de muito trabalho evangélico preparatório, por meio de um debate público do qual Zwingli participou.24 St. Gallen, Schaffhausen, Glarus e Mülhausen, na Alsácia, também foram ganhas. De importância ainda maior foi a inclinação da grande cidade alemã de Estrasburgo para o ponto de vista zuingliano, e não para o luterano. Naquela cidade, a revolução evangélica, iniciada em 1521 por Matthäus Zell (1477-1548), fora levada adiante com vigor a partir de 1523 por Wolfgang Capito (1478-1541) e pelo hábil e pacífico Martin Butzer (1491-1551), embora só se completasse inteiramente em 1529.

Zwingli e Lutero estavam em muitos aspectos substancialmente de acordo, mas eram diferentes de temperamento, e suas experiências religiosas haviam sido muito distintas. Lutero chegara ao seu alvo por uma profunda luta religiosa, que envolvia um senso transformador da relação entre sua alma e Deus. Zwingli percorrera o caminho dos humanistas, embora indo muito além da maioria deles. Suas ênfases eram diferentes das de Lutero. Quando Lutero pensava no porquê da salvação, o que acontecia com relativa raridade, dava a resposta agostiniana. O interesse de Lutero estava muito mais no como. Para Zwingli, a vontade de Deus, e não o caminho da salvação, era o fato central da teologia. Para Lutero, a vida cristã era uma vida de liberdade na filiação perdoada. Para Zwingli, era muito mais uma vida de conformidade com a vontade de Deus tal como exposta na Bíblia.

A natureza de Zwingli era intelectual e crítica. Em nenhum ponto da doutrina cristã sua divergência de Lutero foi mais evidente do que na interpretação diferente que davam à Ceia do Senhor, e aqui o desacordo entre ambos acabou, infelizmente, por dividir as fileiras evangélicas. Para Lutero, as palavras de Cristo, “Isto é o meu corpo”, eram literalmente verdadeiras. Seu profundo sentimento religioso via numa participação real de Cristo o penhor mais seguro daquela união com Cristo e daquele perdão dos pecados de que a Ceia era a promessa divinamente atestada. Mas já em 1521 um advogado holandês, Cornelius Hoen, sustentara que a interpretação correta é “Isto significa o meu corpo”. O argumento de Hoen chegou ao conhecimento de Zwingli em 1523 e confirmou a compreensão simbólica das palavras, à qual o teólogo suíço já se inclinava. Daí em diante ele negou qualquer presença física de Cristo na Ceia e enfatizou o seu caráter memorial e o seu significado como laço que une uma congregação de crentes num testemunho comum de lealdade ao seu Senhor. Em 1524, as interpretações rivais haviam levado a uma amarga controvérsia de panfletos, na qual tomaram parte Lutero e Bugenhagen, de um lado, e Zwingli e Ecolampádio, de outro, com seus respectivos companheiros. A obra mais importante de Lutero foi a sua [Grande] Confissão acerca da Ceia do Senhor, de 1528. Pouca caridade se mostrou de ambos os lados. Para Zwingli, a afirmação de Lutero da presença física de Cristo era um resto irracional da superstição católica. Um corpo físico só podia estar em um lugar. Para Lutero, a interpretação de Zwingli era uma pecaminosa exaltação da razão acima da Escritura, e ele procurou explicar a presença física de Cristo em dez mil altares ao mesmo tempo por uma afirmação escolástica, derivada em grande parte de Occam, de que as qualidades da natureza divina de Cristo, inclusive a ubiquidade, eram comunicadas à sua natureza humana. Lutero estava empenhado, também, em sustentar que o crente participava do Cristo divino-humano inteiro e em evitar qualquer desmembramento de sua pessoa. Lutero declarou que Zwingli e seus partidários não eram cristãos, ao passo que Zwingli afirmou que Lutero era pior do que o campeão romano, Eck. As concepções de Zwingli, porém, tiveram a aprovação não só da Suíça de língua alemã, mas de grande parte do sudoeste da Alemanha. O partido romano regozijou-se com essa evidente divisão das forças evangélicas.

Zwingli foi, politicamente, o mais dotado de todos os reformadores, e concebeu planos de longo alcance, embora afinal inúteis. Os velhos cantões rurais, Uri, Schwyz, Unterwalden e Zug, eram fortemente conservadores e opostos às mudanças em Zurique, e com eles estava Lucerna, constituindo o conjunto um vigoroso partido romano. Em abril de 1524, haviam formado uma liga para resistir à heresia. Para contrabalançar esse esforço e levar a pregação evangélica a territórios ainda mais amplos, Zwingli propôs então que Zurique entrasse em aliança com a França e a Saboia, e iniciou negociações com o despojado duque Ulrico de Württemberg. As coisas arrastaram-se, mas uma tentativa mais bem-sucedida foi a organização da “Aliança Cívica Cristã”, no fim de 1527, entre Zurique e Constança,25 liga à qual se juntaram Berna e St. Gallen em 1528, e Biel, Mülhausen, Basileia e Schaffhausen em 1529. Embora Estrasburgo aderisse no começo de 1530, a liga foi muito menos extensa do que Zwingli planejara. Ainda assim, foi um fator de divisão da unidade suíça, e os cantões romanos conservadores formaram uma “União Cristã” oposta e obtiveram aliança com a Áustria em 1529. As hostilidades começaram. Mas o auxílio austríaco ao partido romano não veio, e em 25 de junho de 1529 fez-se a paz entre os dois partidos em Kappel, em condições muito favoráveis a Zurique e aos zuinglianos.26 A liga com a Áustria foi abandonada.

Zurique estava então no auge do seu poder e era amplamente considerada a cabeça política da causa evangélica. Contudo, a paz não passara de uma trégua, e quando, em 1531, Zurique tentou impor a pregação evangélica aos cantões romanos por meio de um embargo ao envio de víveres para eles, a guerra tornou-se outra vez certa. Zurique, apesar dos conselhos de Zwingli, não fez preparação adequada para a luta. Os cantões romanos agiram com rapidez. Em 11 de outubro de 1531, derrotaram os homens de Zurique na batalha de Kappel. Entre os mortos estava o próprio Zwingli. Na paz que se seguiu,27 Zurique foi obrigada a abandonar suas alianças, e a cada cantão foi dado pleno direito de regular seus assuntos religiosos internos. O avanço da Reforma na Suíça de língua alemã foi detido para sempre, e as linhas ficaram traçadas substancialmente como estão hoje. Na liderança da igreja de Zurique, não em suas ambições políticas, Zwingli teve como sucessor o hábil e conciliador Heinrich Bullinger (1504-1575). O movimento suíço, como um todo, haveria de ser modificado e grandemente desenvolvido pelo gênio de Calvino; e às igrejas que remontam a ele sua filiação espiritual, e assim em parte a Zwingli, seria finalmente dado o nome de “reformadas”, em distinção de “luteranas”.

Seção IV. Os anabatistas

Já se disse, ao falar de Karlstadt, que alguns que outrora trabalharam com Lutero chegaram a sentir que ele não passava de um reformador a meio caminho. Essa foi, em medida ainda maior, a experiência de Zwingli. Entre os que mais se haviam adiantado em favor das inovações em Zurique estavam Conrad Grebel e Felix Manz, ambos de famílias proeminentes da cidade. Eles e outros logo passaram a sentir que a liderança de Zwingli na aplicação do critério bíblico às práticas de Zurique era conservadora demais. Esse elemento manifestou-se pela primeira vez no segundo grande debate, em outubro de 1523 (ver Período VI, seção III), onde exigiu a abolição imediata das imagens e da missa, passos para os quais as autoridades cantonais ainda não estavam inteiramente prontas. Participante mais hábil daquele debate foi Balthasar Hubmaier (1480?-1528), outrora aluno, depois colega e amigo do adversário de Lutero, Eck, mas então pregador em Waldshut, na orla norte da Suíça. Levado a concepções evangélicas pelos escritos de Lutero em 1522, promovia com êxito a reforma em sua cidade. Já em maio de 1523 passara a duvidar do batismo de crianças e discutira o assunto com Zwingli, que, segundo o seu testemunho, então simpatizava com ele. Suas críticas baseavam-se na falta de autorização bíblica para administrá-lo a crianças.28 Em 1524, Grebel e Manz haviam chegado à mesma conclusão,29 mas só no começo de 1525 eles ou Hubmaier passaram da teoria à prática.

Suas críticas levaram, em janeiro de 1525, a um debate público com Zwingli, em consequência do qual as autoridades cantonais de Zurique ordenaram que todas as crianças fossem batizadas (houvera evidentemente demora da parte de alguns pais) e, em particular, determinaram que Grebel e Manz cessassem de disputar, e baniram o sacerdote de Wytikon, Wilhelm Röubli.30 A esses homens isso pareceu uma ordem de um poder terreno para agir contra a Palavra de Deus. Eles e alguns de seus amigos reuniram-se numa casa particular em Zollikon, perto de Zurique, em 7 de fevereiro de 1525, e ali Manz, ou Georg Blaurock, outrora monge, instituiu o batismo de crentes por aspersão. Poucas semanas depois ocorreu um caso de imersão, e depois da Páscoa Hubmaier foi batizado em Waldshut por Röubli.31

Esses atos fizeram dos grupos comunhões separadas. Seus adversários os apelidaram de “anabatistas”, ou rebatizadores. Na verdade, uma vez que negavam a validade do batismo que haviam recebido na infância, o nome era impróprio, e “batistas” seria a designação mais exata; mas, como título consagrado por longo uso a um notável movimento da época da Reforma, o nome mais comum é conveniente. O governo de Zurique, em março de 1526, ordenou que os anabatistas fossem afogados, em horrenda paródia de sua crença, e poucos meses depois Manz sofreu desse modo o martírio.32 Zwingli opôs-se a eles com muita amargura, mas com pouco êxito em demovê-los de sua posição.33

Em Waldshut, Hubmaier logo reuniu uma grande comunidade anabatista, e teve ainda mais êxito em propagar suas opiniões pela pena. A seu ver, a Bíblia é a única lei da igreja, e, segundo o critério das Escrituras, a ordem correta do desenvolvimento cristão é: pregação da Palavra, audição, fé, batismo, obras, estas indicando uma vida vivida tendo a Bíblia por lei. Waldshut, porém, logo se viu envolvida na revolta camponesa (até que ponto por obra de Hubmaier é duvidoso) e partilhou do colapso daquele movimento. Hubmaier teve de fugir, e a cidade voltou a ser católica. Preso e torturado em Zurique, fugiu para a Morávia, onde propagou o movimento anabatista com muito êxito.

Essas perseguições tiveram o efeito de espalhar a propaganda anabatista por toda a Alemanha e os Países Baixos. O movimento logo assumiu grandes proporções, sobretudo entre as classes inferiores, depois que o miserável fracasso da revolta camponesa causara profunda desconfiança da causa luterana, então inteiramente associada aos príncipes territoriais e aos magistrados aristocráticos das cidades. Nas partes do império ainda católicas, a propaganda anabatista praticamente suplantou a luterana. Por outro lado, a rejeição anabatista do controle principesco só fez fortalecer a hostilidade das autoridades luteranas e romanas. Em fevereiro de 1527, realizou-se uma reunião de líderes anabatistas em Schlatt, onde sete artigos de fé foram redigidos por Michael Sattler, ex-monge sincero e digno. Neles se afirmava o batismo de crentes. A igreja é considerada como composta apenas de associações locais de cristãos batizados e de experiência pessoal, unidos como corpo de Cristo pela observância comum da Ceia do Senhor; sua única arma é a excomunhão. Exige-se a rejeição absoluta de toda “servidão da carne”, como o culto das igrejas romana, luterana e zuingliana. Cada congregação deve escolher seus próprios oficiais e por meio deles administrar sua disciplina. Embora o governo civil ainda seja uma necessidade neste mundo imperfeito, o cristão não deve ter parte nele, nem prestar qualquer forma de juramento. Eis ideias que seriam representadas, em proporções variadas, pelos batistas, congregacionais e quacres posteriores, e por meio deles exerceriam profunda influência no desenvolvimento religioso da Inglaterra e da América.

O ideal anabatista implicava uma congregação autônoma, independente do controle do Estado ou dos bispos, tendo a Bíblia como lei e vivendo uma vida um tanto ascética, de estrita conformidade a uma interpretação literal de exigências supostamente bíblicas. As fontes dessas opiniões ainda estão em discussão. Por alguns, os anabatistas são considerados os radicais do período da Reforma; por outros, o fruto do novo interesse pela leitura da Bíblia entre os de mentalidade literal; por outros ainda, revivescências de seitas antirromanas medievais. Há verdade em todas essas teorias. Os próprios anabatistas não tinham consciência de ligação com movimentos anteriores à Reforma; fizeram da Bíblia literalmente a sua lei, mas muitas de suas características são, sem dúvida, anteriores à Reforma. Tal é a sua concepção da Bíblia como nova lei na igreja e no Estado, por cuja obediência se há de conservar o favor de Deus. Tinham tão pouca simpatia pela concepção luterana do evangelho como resumido no perdão dos pecados quanto pela concepção romana da salvação por meio dos sacramentos. Anterior à Reforma é a sua visão ascética da vida cristã. Assim também a sua concepção do Estado como concessão ao pecado e indigno da participação de um cristão em sua administração. Tais são, igualmente, as suas fortes tendências apocalípticas e místicas.

As concepções aqui indicadas eram as da imensa maioria dos anabatistas; mas um movimento radical atrai extremistas, e não foram poucos os que foram muito mais longe, mas não podem ser considerados representativos dos anabatistas como um todo. Tal foi o erudito humanista Johann Denk (?-1527), que ensinava uma luz interior superior a toda a Escritura, via em Cristo apenas o mais alto exemplo humano de amor e sustentava que o cristão pode viver sem pecado. Associado a Denk nessas opiniões estava o erudito Ludwig Haetzer, a quem se deveu, com o auxílio de Denk, uma tradução dos livros proféticos do Antigo Testamento, mas que foi decapitado por adultérios em Constança em 1529. O pregador radical Hans Hut, a cuja obra se deveu grande parte da rápida difusão das concepções anabatistas entre as classes trabalhadoras do sul da Alemanha e da Áustria, declarou-se profeta, afirmando que a perseguição dos santos seria imediatamente seguida da destruição do império pelos turcos, após o que os santos seriam reunidos e por eles destruídos todos os sacerdotes e governantes indignos, e então Cristo reinaria visivelmente na terra. Em Hubmaier, Hut teve um adversário vigoroso, mas a pregação de Hut só terminou com sua morte, em 1527, em Augsburgo, em consequência de queimaduras sofridas numa tentativa de fugir da prisão ateando-lhe fogo. Alguns dos líderes anabatistas mais radicais ensinavam a comunhão de bens e a revolução social.

Por toda parte a mão das autoridades, católicas e evangélicas, pesou sobre os anabatistas, embora a maioria dos territórios protestantes usasse o banimento, e não a pena de morte. Seus líderes foram martirizados. Em 1527, Manz morreu afogado em Zurique, enquanto Sattler foi queimado e sua esposa afogada perto de Rottenburg. No ano seguinte, Hubmaier foi queimado em Viena e sua esposa afogada. Blaurock foi queimado no Tirol em 1529. Com esses líderes pereceram grandes números de seus seguidores. Contudo, o movimento continuou a espalhar-se e, em 1529, era extremamente perigoso para a causa protestante, sendo visto pelos católicos como o resultado legítimo da revolta contra Roma, dividindo as forças da reforma e, no pensar dos luteranos, desacreditando a causa evangélica. Não pode haver dúvida de que um efeito importante do movimento anabatista foi prender os luteranos com mais força à concepção de igrejas territoriais governadas por príncipes e magistrados como a única garantia da boa ordem e de uma oposição eficaz a Roma.

Notas

1. Kidd, pp. 94-104.

2. Kidd, pp. 105-121.

3. Kidd, pp. 121-133.

4. Kidd, pp. 171-174.

5. Kidd, pp. 174-179.

6. Kidd, pp. 133-151.

7. Kidd, pp. 179, 180.

8. Ibid., p. 180.

9. Ibid., p. 182.

10. Kidd, pp. 183-185.

11. Ibid., pp. 185-193.

12. Ibid., pp. 193-202.

13. Ibid., pp. 222-230.

14. Kidd, pp. 202-205.

15. Ibid., pp. 205-222.

16. Ibid., p. 246.

17. Kidd, pp. 239-245.

18. Kidd, pp. 374-380.

19. Kidd, pp. 384-387.

20. Ibid., pp. 387-408.

21. Kidd, pp. 408-423.

22. Ibid., pp. 424-441.

23. Kidd, pp. 441-450.

24. Ibid., pp. 459-464.

25. Kidd, p. 469.

26. Ibid., p. 470.

27. Ibid., pp. 475, 476.

28. Kidd, p. 451.

29. Ibid., p. 452.

30. Ibid., pp. 453, 454.

31. Kidd, pp. 454, 455.

32. Ibid., p. 455.

33. Ibid., pp. 456-458.

Tradução para o português a partir de Williston Walker, A History of the Christian Church (Nova York, Charles Scribner’s Sons, 1918), 1ª edição, conferida com as imagens das páginas; domínio público. As notas são de Walker; as que eram só referência bíblica passaram para o texto. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.