Walker, História da Igreja Cristã · Período VI
VIII. João Calvino.
João Calvino nasceu em Noyon, cidade da Picardia, cerca de cinquenta e oito milhas a nordeste de Paris, em 10 de julho de 1509. Seu pai, Gérard Cauvin, era um homem que se fizera por si mesmo, que subira aos cargos de secretário do bispado de Noyon e de procurador do cabido da catedral, e gozava da amizade da poderosa família nobre de Hangest, que deu dois bispos a Noyon durante a vida dele. Com os membros mais jovens dessa família João Calvino teve convívio íntimo, e essa amizade lhe valeu uma familiaridade com os costumes da sociedade polida como poucos dos reformadores tiveram. Pela influência do pai, o filho recebeu a renda de certos cargos eclesiásticos em Noyon e nos arredores, o primeiro deles atribuído antes dos doze anos de idade. Nunca foi ordenado. Assim provido de meios, Calvino ingressou na Universidade de Paris em agosto de 1523, desfrutando do notável ensino de latim ministrado por Mathurin Cordier (1479-1564), a quem deveu o fundamento de um estilo de grande brilho. Prosseguindo o curso com ênfase especial, como então era costume, na filosofia e na dialética, Calvino concluiu os estudos de graduação no começo de 1528. Como estudante, formou várias amizades calorosas, notadamente com a família de Guillaume Cop, médico do rei e ardoroso partidário do humanismo.
O pai de Calvino o havia destinado à teologia, mas em 1527 Gérard Cauvin estava em litígio com o cabido da catedral de Noyon e decidiu que o filho estudaria direito. Para essa disciplina Calvino foi então à Universidade de Orléans, onde Pierre de l’Estoile (1480-1537) gozava de grande fama como jurista, e, em 1529, à Universidade de Bourges, para ouvir Andrea Alciati (1493-1550). Os interesses humanísticos também o atraíam fortemente, e em Bourges ele começou o grego com o auxílio de um professor alemão, Melchior Wolmar (1496-1561). Formou-se em direito; mas a morte do pai, em 1531, deixou Calvino senhor de si, e ele passou então ao estudo do grego e do hebraico no humanista Collège de France, que o rei Francisco I fundara em Paris em 1530. Trabalhava intensamente em seu primeiro livro, o Comentário ao Tratado de Sêneca sobre a Clemência, publicado em abril de 1532. Era um prodígio de erudição, marcado não menos por um profundo senso dos valores morais; mas nele Calvino não mostrou nenhum interesse pelas questões religiosas da época. Ainda era simplesmente um humanista sério e profundamente erudito.
Contudo, não era por falta de oportunidade de conhecer as novas doutrinas que Calvino ainda se mantinha alheio à luta. O humanismo havia feito na França, como em outras partes, sua obra preparatória. Seu representante mais conspícuo fora Jacques Lefèvre d’Étaples (1455?-1536), que fez sua morada no mosteiro de Saint-Germain-des-Prés, em Paris, a partir de 1507, por alguns anos, e reuniu em torno de si um grupo notável de discípulos. Lefèvre nunca rompeu nem quis romper com a Igreja Romana, mas em 1512 publicou um comentário às epístolas de Paulo que negava o mérito justificador das boas obras, declarava a salvação dom gratuito de Deus e sustentava a autoridade exclusiva da Escritura. Era o estudo de um erudito tranquilo e não causou sensação na época. Onze anos depois, em 1523, publicou uma tradução do Novo Testamento. Entre seus discípulos estavam Guillaume Briçonnet (1470-1534), bispo de Meaux a partir de 1516; Guillaume Budé (1467-1540), a cujas instâncias se deveu a criação do Collège de France por autoridade real; François Vatable (?-1547), professor de hebraico de Calvino naquela instituição; Gérard Roussel (1500?-1550), amigo de Calvino, mais tarde bispo de Oloron; Louis de Berquin (1490-1529), que haveria de morrer na fogueira por seu protestantismo; e Guillaume Farel, cuja ardorosa carreira reformadora já foi mencionada. Com esses homens de impulso reformador, nenhum dos quais, salvo os dois últimos mencionados, rompeu com a Igreja Romana, simpatizavam muitos humanistas, como a família Cop, de cuja amizade Calvino desfrutava em Paris. Tinham um apoio poderoso na talentosa e popular irmã do rei Francisco, Margarida de Angoulême (1492-1549), rainha de Navarra a partir de 1527, que acabou sendo uma protestante não declarada. Os livros de Lutero cedo penetraram na França e foram lidos nesse círculo. Poucos de seus membros, porém, perceberam a gravidade da situação ou estavam prontos a pagar o preço integral da reforma; mas não havia ignorância de quais eram as questões principais no círculo erudito em que Calvino se movia. Elas ainda não se haviam tornado importantes para ele.
Entre a publicação do Comentário ao Tratado de Sêneca sobre a Clemência, na primavera de 1532, e o outono de 1533, Calvino passou por uma “conversão repentina”.1 De suas circunstâncias nada se sabe com certeza, mas sua experiência central foi que Deus lhe falou por meio das Escrituras e que a vontade de Deus devia ser obedecida. A religião passou a ter dali em diante o primeiro lugar em seus pensamentos. Até que ponto ele ainda pensava em romper com a Igreja Romana é duvidoso. Continuava membro do círculo humanístico de Paris, do qual eram líderes Roussel e Nicolas Cop, amigo íntimo de Calvino.2 Em 1º de novembro de 1533, Cop pronunciou um discurso inaugural como reitor recém-eleito da Universidade de Paris, no qual defendeu a reforma, usando linguagem tomada de Erasmo e de Lutero.3 Que Calvino tenha escrito o discurso, como muitas vezes se alegou, é improvável, mas sem dúvida simpatizava com suas ideias. A agitação provocada foi grande, e o rei Francisco ordenou que se agisse contra os “luteranos”.4 Cop e Calvino tiveram de buscar segurança, que Calvino encontrou na casa de um amigo, Louis du Tillet, em Angoulême. A consciência que Calvino tinha da necessidade de separar-se da antiga comunhão desenvolvia-se então rapidamente e o obrigou a ir a Noyon para renunciar a seus benefícios, em 4 de maio de 1534. Ali esteve preso por breve tempo. Embora logo libertado, a França era perigosa demais para ele, especialmente depois que Antoine Marcourt afixou suas imprudentes teses contra a missa, em outubro de 1534,5 e por volta do Ano-Novo seguinte Calvino estava a salvo na protestante Basileia.
Os cartazes de Marcourt foram seguidos de uma dura renovação da perseguição, sendo uma das vítimas o amigo de Calvino, o comerciante parisiense Estienne de la Forge. Francisco I cortejava o auxílio dos protestantes alemães contra Carlos V e, por isso, para justificar as perseguições francesas, publicou em fevereiro de 1535 uma carta pública que acusava o protestantismo francês de objetivos anárquicos, que nenhum governo poderia tolerar. Calvino sentiu que devia defender seus irmãos na fé caluniados. Concluiu, por isso, rapidamente uma obra começada em Angoulême e a publicou em março de 1536 como suas Institutas, antepondo-lhe uma carta ao rei da França. A carta é uma das obras-primas literárias da época da Reforma. Cortês e digna, é uma apresentação extraordinariamente vigorosa da posição protestante e uma defesa dos que a professavam contra as calúnias reais. Nenhum protestante francês havia ainda falado com tal clareza, comedimento e força, e com ela o autor, de vinte e seis anos, passou de imediato à liderança do protestantismo francês.6
As Institutas propriamente ditas, às quais essa carta servia de prefácio, estavam, na forma publicada em 1536, longe do extenso tratado em que se haveriam de transformar na edição final de Calvino, de 1559; mas já eram a mais ordenada e sistemática exposição popular da doutrina e da vida cristã que a Reforma produziu. A mente de Calvino era mais formuladora que criadora. Sem os trabalhos anteriores de Lutero, sua obra não poderia ter sido feita. É a concepção de Lutero da justificação pela fé, e dos sacramentos como selos das promessas de Deus, que ele apresenta. Muito ele derivou de Butzer, notadamente sua ênfase na glória de Deus como aquilo para que todas as coisas foram criadas, na eleição como doutrina da confiança cristã e nas consequências da eleição como esforço intenso por uma vida conforme à vontade de Deus. Mas tudo é sistematizado e esclarecido com uma habilidade que era própria de Calvino.
O conhecimento mais alto do homem, ensinava Calvino, é o de Deus e o de si mesmo. Pela natureza vem o bastante para deixar o homem sem desculpa, mas o conhecimento adequado só é dado nas Escrituras, que o testemunho do Espírito no coração do leitor crente atesta como a própria voz de Deus. Essas Escrituras ensinam que Deus é bom e a fonte de toda bondade em toda parte. A obediência à vontade de Deus é o dever primordial do homem. Tal como foi criado originalmente, o homem era bom e capaz de obedecer à vontade de Deus, mas perdeu a bondade e o poder ao mesmo tempo na queda de Adão e agora é, por si mesmo, absolutamente incapaz de bondade. Daí que nenhuma obra do homem possa ter mérito algum; e todos os homens estão num estado de ruína que só merece condenação. Dessa condição desamparada e sem esperança alguns homens são resgatados imerecidamente pela obra de Cristo. Ele pagou a pena devida pelos pecados daqueles em cujo favor morreu; contudo, a oferta e a aceitação desse resgate foram um ato livre da parte de Deus, de modo que sua causa é o amor de Deus.
Tudo o que Cristo realizou é sem proveito, a menos que se torne posse pessoal do homem. Essa posse é efetuada pelo Espírito Santo, que opera quando, como e onde quer, criando o arrependimento; e a fé, que, como em Lutero, é uma união vital entre o crente e Cristo. Essa nova vida de fé é a salvação, mas é salvação para a justiça. Que o crente agora faça obras agradáveis a Deus é a prova de que entrou em união vital com Cristo. “Somos justificados não sem obras, e contudo não pelas obras.” Calvino deixou assim espaço para uma concepção das “obras” tão exigente quanto qualquer uma reivindicada pela Igreja Romana, embora muito diferente quanto à relação com a realização da salvação. O padrão posto diante do cristão é a lei de Deus, tal como está contida nas Escrituras, não como prova de sua salvação, mas como expressão daquela vontade de Deus que ele, como homem já salvo, se esforçará por cumprir. Essa ênfase na lei como guia da vida cristã era peculiarmente própria de Calvino. Ela tornou o calvinismo sempre insistente no caráter, embora na concepção de Calvino o homem seja salvo para o caráter e não pelo caráter. Um alimento primordial da vida cristã é a oração.
Uma vez que todo bem vem de Deus, e o homem é incapaz de dar início à sua conversão ou de resistir a ela, segue-se que a razão pela qual uns são salvos e outros se perdem é a escolha divina: eleição e reprovação. Buscar para essa escolha uma razão além da vontade de Deus é absurdo, pois a vontade de Deus é um fato último. Contudo, para Calvino a eleição foi sempre, antes de tudo, uma doutrina de consolo cristão. Que Deus tivesse um plano de salvação para um homem, individualmente, era uma rocha inabalável de confiança, não só para quem estava convencido da própria indignidade, mas para quem estava cercado de forças adversas, ainda que fossem as de sacerdotes e reis. Fazia do homem um cooperador de Deus na realização da vontade de Deus.
Três instituições foram divinamente estabelecidas pelas quais a vida cristã é mantida: a igreja, os sacramentos e o governo civil. Em última análise, a igreja consiste de “todos os eleitos de Deus”; mas também designa propriamente “o corpo inteiro da humanidade […] que professa adorar um só Deus e Cristo”. Contudo, não há igreja verdadeira “onde a mentira e a falsidade usurparam o predomínio”. O Novo Testamento mostra como oficiais da igreja pastores, mestres, presbíteros e diáconos, que assumem seus cargos com o assentimento da congregação a que servem. Seu “chamado” é duplo: a inclinação secreta vinda de Deus e a “aprovação do povo”. Calvino deu assim à congregação uma voz na escolha de seus oficiais que nenhum outro partido da Reforma lhe concedia, exceto o dos anabatistas, embora as circunstâncias em Genebra o obrigassem a considerar que ali essa voz se exprimia pelo governo da cidade. Do mesmo modo, Calvino reivindicou para a igreja jurisdição plena e independente na disciplina, até o ponto da excomunhão. Além disso ela não podia ir; mas era a conservação de uma liberdade que todos os outros líderes da Reforma haviam entregado à supervisão do Estado. O governo civil tem, porém, a tarefa divinamente designada de amparar a igreja, protegê-la da falsa doutrina e punir os ofensores para cujos crimes a excomunhão é insuficiente. Era essencialmente a teoria medieval das relações entre a igreja e o Estado.
Calvino reconheceu apenas dois sacramentos: o batismo e a Ceia do Senhor. Quanto à candente questão da presença de Cristo na Ceia, situou-se, como Butzer, a meio caminho entre Lutero e Zuínglio, mais perto do reformador suíço na forma e do alemão no espírito. Com Zuínglio negou qualquer presença física de Cristo; contudo, afirma nos termos mais claros uma presença real, embora espiritual, recebida pela fé. “Cristo, da substância de sua carne, sopra vida em nossas almas, ou melhor, difunde em nós a sua própria vida, embora a carne real de Cristo não entre em nós.”7
Depois da publicação das Institutas, na primavera de 1536, Calvino fez uma breve visita à corte de Ferrara, na Itália, sem dúvida com a intenção de promover a causa evangélica junto à sua compatriota liberal e hospitaleira, a duque- sa Renata. Sua estada foi curta, e seguiu-se uma breve visita à França, para acertar seus negócios e seguir para Basileia ou Estrasburgo com o irmão e a irmã. Os perigos da guerra levaram-no a Genebra em julho de 1536, e ali a ardorosa exortação de Farel, como se viu (ver Período VI, seção VII), induziu-o a ficar.
O trabalho de Calvino em Genebra começou muito modestamente. Era professor de Bíblia e só um ano depois foi nomeado um dos pregadores. Sobre Farel, porém, exerceu grande influência. Seu primeiro trabalho conjunto foi auxiliar os ministros e as autoridades civis de Berna no estabelecimento efetivo da Reforma em todo o Vaud e em Lausanne, que acabara de passar ao controle de Berna.8 Em Lausanne, Pierre Viret (1511-1571) foi nomeado pastor, cargo que ocuparia até 1559. Com ele Calvino haveria de manter estreita amizade. Calvino e Farel empreenderam então alcançar três resultados na própria Genebra. Em janeiro de 1537, apresentaram ao Pequeno Conselho uma série de recomendações escritas por Calvino.9 Estas propunham a ministração mensal da Ceia do Senhor. Para melhor preparação, o governo da cidade deveria nomear “certas pessoas” para cada bairro da cidade, que, em conjunto com os ministros, poderiam denunciar os indignos à igreja para disciplina, até a excomunhão. Foi a primeira tentativa de Calvino de fazer de Genebra uma comunidade modelo e, ao mesmo tempo, de afirmar a independência da igreja em sua própria esfera. Um segundo esforço foi a adoção de um catecismo composto por Calvino, e um terceiro, a imposição a cada cidadão de um credo, provavelmente escrito por Farel.10 Essas recomendações o Pequeno Conselho adotou com consideráveis modificações.
O êxito do trabalho de Calvino logo foi ameaçado. Ele e Farel foram injustamente acusados de arianismo por Pierre Caroli, então em Lausanne. Provaram facilmente sua ortodoxia, mas não antes que se tivesse dado grande publicidade ao assunto.11 Na própria Genebra, a nova disciplina e a exigência de assentimento individual ao novo credo logo despertaram oposição acerba. Esta foi forte o bastante para obter do Conselho dos Duzentos, em janeiro de 1538, a votação de que a Ceia não seria recusada a ninguém, destruindo assim o sistema de disciplina de Calvino.12 No mês seguinte a oposição venceu a eleição da cidade e decidiu forçar a questão. A liturgia de Berna diferia um pouco daquela agora estabelecida em Genebra. Berna desejava havia muito que ela fosse adotada em Genebra, e a oposição obteve então a votação de que fosse usada. Calvino e Farel consideravam de pouca importância as diferenças entre o uso de Berna e o de Genebra, mas uma imposição pela autoridade civil, sem consultar os ministros, viam-na como roubar à igreja toda liberdade. Calvino e Farel recusaram-se a obedecer e, em 23 de abril de 1538, foram banidos.13 Seu trabalho em Genebra parecia ter terminado em fracasso total.
Depois de uma tentativa vã de restabelecimento em Genebra pela intervenção das autoridades protestantes suíças, Farel encontrou um pastorado em Neuchâtel, que dali em diante seria seu lar; e Calvino, a convite de Butzer, um refúgio em Estrasburgo. Os três anos ali passados foram, em muitos aspectos, os mais felizes da vida de Calvino. Ali foi pastor de uma igreja de refugiados franceses e professor de teologia. Ali foi honrado pela cidade e feito um de seus representantes nos debates de reunião entre protestantes e católicos promovidos por Carlos V (ver Período VI, seção V), ganhando com isso a amizade de Melanchthon e de outros reformadores alemães. Ali se casou, em 1540, com a esposa que seria sua fiel companheira até a morte dela, em 1549. Ali encontrou tempo para escrever não apenas uma edição ampliada das Institutas e seu Comentário aos Romanos, início de uma série que o pôs na primeira fila dos exegetas entre os reformadores, mas também sua brilhante Resposta a Sadoleto, que foi com justiça considerada a mais hábil das defesas do protestantismo em geral.14
Enquanto isso, ocorreu em Genebra uma revolução política pela qual Calvino não teve responsabilidade alguma. O partido que ali obtivera seu banimento fez com Berna, em 1539, um tratado desastroso, que resultou em sua derrubada no ano seguinte e na condenação dos negociadores como traidores. O partido favorável a Calvino estava outra vez no poder, e seus líderes procuraram trazê-lo de volta. Foi persuadido com dificuldade, mas em 1541 estava novamente em Genebra, praticamente em seus próprios termos.15
Calvino obteve prontamente a adoção de sua nova constituição eclesiástica, as Ordonnances ecclésiastiques [Ordenanças eclesiásticas], agora muito mais definidas que as recomendações aceitas em 1537. Apesar de seu retorno vitorioso, porém, não conseguiu que fossem inteiramente como ele desejava. As Ordonnances16 declaram que Cristo instituiu em sua igreja os quatro ofícios de pastor, mestre, presbítero e diácono, e definem os deveres de cada um. Os pastores deviam reunir-se semanalmente para discussão pública, exame dos candidatos ao ministério e exegese, no que era popularmente conhecido como a Congregação. O mestre seria o chefe do sistema escolar de Genebra, que Calvino considerava fator essencial da formação religiosa da cidade. Aos diáconos cabiam o cuidado dos pobres e a supervisão do hospital. Os presbíteros eram o coração do sistema de Calvino. Eram leigos, escolhidos pelo Pequeno Conselho, dois dentre os seus próprios membros, quatro dentre os Sessenta e seis dentre os Duzentos, sob a presidência de um dos síndicos. Eles, juntamente com os ministros, formavam o Consistoire, que se reunia todas as quintas-feiras e estava encarregado da disciplina eclesiástica. Podiam chegar à excomunhão; além disso, se a ofensa o exigisse, deviam remeter o caso às autoridades civis. Nenhum direito parecia a Calvino tão vital para a independência da igreja como esse da excomunhão, e por nenhum foi ele obrigado a lutar tanto, até seu estabelecimento definitivo em 1555.17
Além dessa tarefa, Calvino preparou um catecismo novo e muito mais eficaz18 e introduziu uma liturgia baseada na de sua congregação francesa em Estrasburgo, a qual, por sua vez, era essencialmente uma tradução da que estava em uso geral naquela cidade alemã. Ao formulá-la para uso em Genebra, Calvino fez bom número de modificações para atender aos costumes ou preconceitos genebrinos.19 Ela combinava numa feliz união a oração fixa e a livre. Calvino não tinha nada da hostilidade contra as formas fixas que seus descendentes espirituais na Grã-Bretanha e na América manifestaram mais tarde. Ela também dava pleno lugar ao canto.
Sob a orientação de Calvino, que não ocupava outro cargo senão o de um dos ministros da cidade, muito se fez pela educação e pela melhoria do comércio; mas toda a vida genebrina estava sob a supervisão constante e minuciosa do Consistoire. Calvino queria fazer de Genebra o modelo de uma comunidade cristã aperfeiçoada. Seu evangelicalismo rigoroso atraiu refugiados em grande número, muitos deles homens de posição, saber e riqueza, principalmente da França, mas também da Itália, dos Países Baixos, da Escócia e da Inglaterra. Estes logo se tornaram um fator muito importante da vida genebrina. O próprio Calvino e todos os ministros a ele associados eram estrangeiros. A oposição a seu governo exigente apareceu praticamente desde o início, mas em 1548 se tornara muito séria. Compunha-se de dois elementos: aqueles para quem qualquer disciplina teria sido incômoda; e, muito mais temíveis, os de antigas famílias genebrinas, que sentiam que Calvino, seus colegas ministros e os refugiados eram estrangeiros que impunham um jugo estrangeiro a uma cidade de heroicas tradições de independência. Que tenha havido em Genebra um partido de libertins religiosos é uma tradição sem fundamento.
A luta mais dura de Calvino foi de 1548 a 1555, desde o tempo em que alguns dos habitantes mais antigos começaram a temer ser politicamente submergidos pelos refugiados, até que os refugiados, quase todos ardorosos partidários de Calvino, realizaram o que se temia e tornaram inabalável a posição de Calvino. Com fama sempre crescente fora de Genebra, Calvino esteve, durante todo esse período, em perigo iminente de ver derrubada sua obra genebrina.
Os casos de conflito foram muitos, mas dois se destacam com especial relevo. O primeiro foi o provocado por Jérôme Hermès Bolsec, antigo monge de Paris, agora médico protestante em Veigy, perto de Genebra. Na Congregação, Bolsec acusou Calvino de erro ao afirmar a predestinação. Isso era atacar os próprios fundamentos da autoridade de Calvino, pois seu único domínio sobre Genebra era como intérprete das Escrituras. Se não estivesse certo em tudo, ficaria inteiramente desacreditado. Calvino levou as acusações de Bolsec ao governo da cidade em outubro de 1551. O resultado foi o julgamento de Bolsec. Pediram-se os pareceres de outros governos suíços, e ficou evidente que não davam à predestinação o peso que Calvino lhe dava. Foi com dificuldade que Calvino obteve o banimento de Bolsec, e o episódio o levou a insistir, mais energicamente ainda do que antes, na importância vital da predestinação como verdade cristã.20 Quanto a Bolsec, acabou voltando à comunhão romana e vingou-se da memória de Calvino com uma biografia grosseiramente caluniosa.
Calvino mantinha assim o poder com dificuldade quando, em fevereiro de 1553, as eleições, que por alguns anos haviam estado bastante equilibradas, se voltaram decididamente a favor de seus adversários. Sua queda parecia inevitável, quando foi salvo e posto no caminho da vitória final pela chegada a Genebra de Miguel Serveto, cujo caso é o segundo dos aqui mencionados. Serveto era espanhol, quase da mesma idade de Calvino, e sem dúvida um homem de grande gênio, embora excêntrico. Em 1531 publicou seu De Trinitatis Erroribus [Dos erros acerca da Trindade]. Obrigado a ocultar sua identidade, estudou medicina sob o nome de Villeneuve, sendo o verdadeiro descobridor da circulação pulmonar do sangue. Estabeleceu-se em Vienne, na França, onde formou uma grande clientela. Trabalhava secretamente em sua Christianismi Restitutio [Restituição do cristianismo], que publicou no começo de 1553. Em seu modo de pensar, a doutrina nicena da Trindade, a cristologia calcedônia e o batismo infantil eram as principais fontes da corrupção da igreja. Já em 1545 havia iniciado uma correspondência exasperante com Calvino, cujas Institutas criticava com desprezo.
A identidade e a autoria de Serveto foram desmascaradas às autoridades eclesiásticas romanas de Lyon por um amigo de Calvino, Guillaume Trie, que, pouco depois, forneceu provas adicionais obtidas do próprio Calvino. Serveto foi condenado à fogueira; mas, antes da sentença, havia fugido da prisão em Vienne. Por razões difíceis de entender, dirigiu-se a Genebra, e ali foi preso em agosto de 1553. Sua condenação tornou-se então uma prova de força entre Calvino e a oposição, que não ousava sair abertamente em defesa de um herege tão notório, mas criou para Calvino todas as dificuldades que pôde. Quanto a Serveto, tinha muita esperança de um desfecho favorável e exigiu que Calvino fosse exilado e que os bens de Calvino lhe fossem adjudicados. O processo terminou com a condenação de Serveto e sua morte na fogueira, em 27 de outubro de 1553. Embora se levantassem algumas vozes de protesto, notadamente a de Sébastien Castellion (1515-1563), de Basileia, a maioria concordou com Melanchthon em que aquilo fora “feito com justiça”. Por mais odioso que o processo e seu trágico fim possam parecer em retrospecto, para Calvino foi uma grande vitória. Livrou as igrejas suíças de qualquer imputação de heterodoxia quanto à doutrina da Trindade, enquanto os adversários de Calvino se haviam arruinado ao dificultar a punição de alguém que o sentimento geral daquela época condenava.
A melhora da situação de Calvino logo se fez visível. As eleições de 1554 foram decididamente a seu favor, as de 1555 ainda mais. Em janeiro de 1555, ele obteve o reconhecimento permanente do direito do Consistoire de proceder à excomunhão sem interferência do governo.21 O governo, agora em grande parte calvinista, tratou, no mesmo ano, de assegurar sua posição admitindo à cidadania um número considerável de refugiados. Um pequeno tumulto na noite de 16 de maio de 1555, iniciado pelos adversários de Calvino, foi aproveitado como ocasião para executar e banir seus líderes como traidores. Dali em diante o partido favorável a Calvino foi senhor incontestado de Genebra. Berna continuava hostil, mas o perigo comum a Berna e Genebra, quando Emanuel Filiberto, duque de Saboia e vencedor dos franceses pela Espanha em Saint-Quentin em 1557, ficou em condições de reivindicar seu ducado, então em grande parte em poder dos franceses, produziu uma “aliança perpétua”, em janeiro de 1558, na qual Genebra figurou pela primeira vez em plena igualdade com sua aliada, Berna. Assim aliviado dos perigos mais prementes, dentro e fora, Calvino coroou sua obra genebrina com a fundação, em 1559, da “Academia de Genebra”, na realidade, como há muito se tornou, a Universidade de Genebra.22 Ela se tornou imediatamente o maior centro de ensino teológico das comunhões reformadas, em distinção das luteranas, e o grande seminário de onde ministros em grande número eram enviados não só à França, mas, em menor grau, aos Países Baixos, à Inglaterra, à Escócia, à Alemanha e à Itália.
A influência de Calvino estendeu-se muito além de Genebra. Graças a suas Institutas, a seu modelo de governo eclesiástico em Genebra, à sua academia, a seus comentários e à sua correspondência constante, ele moldou o pensamento e inspirou os ideais do protestantismo da França, dos Países Baixos, da Escócia e dos puritanos ingleses. Sua influência penetrou na Polônia e na Hungria, e antes de sua morte o calvinismo criava raízes no próprio sudoeste da Alemanha. Os homens pensavam os pensamentos dele depois dele. O seu foi o único sistema produzido pela Reforma capaz de organizar-se vigorosamente diante da hostilidade dos governos, como na França e na Inglaterra. Formou homens fortes, confiantes em sua eleição para serem cooperadores de Deus na realização da vontade dele, corajosos para combater, insistentes no caráter e certos de que Deus deu nas Escrituras o guia de toda conduta humana reta e do culto devido. Os discípulos espirituais de Calvino, nas mais diversas terras, traziam um mesmo selo. Essa foi a obra de Calvino, um domínio da mente sobre a mente, e certamente, à época de sua morte em Genebra, em 27 de maio de 1564, ele merecia a qualificação de “o único reformador internacional”.23
Calvino não deixou sucessor de igual estatura. A obra crescera demais para que um só homem a dirigisse. Mas em Genebra, e em considerável medida em seus trabalhos além das fronteiras dela, seu manto caiu sobre os dignos ombros de Teodoro de Beza (1519-1605), homem de espírito mais conciliador e de maneiras mais brandas, mas dedicado aos mesmos ideais.
1. Kidd, pp. 523, 524.
2. Ibid., pp. 524, 525.
3. Ibid., pp. 525, 526.
4. Ibid., pp. 526-528.
5. Kidd, pp. 528-532.
6. Ibid., pp. 532, 533.
7. As citações destes parágrafos são da edição de 1559.
8. Kidd, pp. 548-558.
9. Ibid., pp. 560-567.
10. Ibid., pp. 568-572.
11. Ibid., pp. 573-575.
12. Ibid., p. 577.
13. Kidd, pp. 577-580.
14. Ibid., pp. 583-586.
15. Ibid., pp. 586-589.
16. Kidd, pp. 589-603.
17. Ibid., p. 647.
18. Excertos em Kidd, pp. 604-615.
19. Kidd, pp. 615-628.
20. Kidd, pp. 641-645.
21. Kidd, p. 647.
22. Ibid., p. 648.
23. Kidd, p. 651.
Tradução para o português a partir de Williston Walker, A History of the Christian Church (Nova York, Charles Scribner’s Sons, 1918), 1ª edição, conferida com as imagens das páginas; domínio público. As notas são de Walker; as que eram só referência bíblica passaram para o texto. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.