Walker, História da Igreja Cristã · Período VI
XI. O reavivamento romano; XII. A luta na França, nos Países Baixos e na Inglaterra.
Já se observou (ver Período V, seção XV) que, uma geração antes da ruptura de Lutero com Roma, a Espanha assistia a uma vigorosa obra reformadora conduzida pela rainha Isabel e pelo cardeal Ximenes. Essa obra combinava o zelo por um clero mais moral e mais instruído, a abolição de abusos gritantes e os estudos bíblicos para os eruditos, não para o povo, com uma ortodoxia inabalável, medida pelos padrões medievais, e com a repressão da heresia pela inquisição. Foi esse movimento que haveria de dar vida e vigor ao reavivamento romano, muitas vezes chamado, de modo um tanto impróprio, de Contrarreforma. Fora da Espanha, ele tinha pouquíssima influência quando Lutero iniciou sua obra. Na verdade, a decadência da Igreja Romana em parte alguma se mostrou mais evidente do que na fraqueza com que os ataques protestantes foram enfrentados pelos contemporâneos do primeiro quarto de século da grande revolta, e na incapacidade dos próprios papas de perceber a real gravidade da situação e de pôr seus interesses de grandes homens da igreja acima de suas preocupações de pequenos príncipes italianos. Embora Adriano VI (1522-1523) tenha demonstrado um zelo reformador verdadeiro, ainda que de todo ineficaz, no sentido espanhol, durante seu breve e infeliz pontificado, nem seu predecessor, Leão X (1513-1521), nem seu sucessor, Clemente VII (1523-1534), foi em sentido algum um líder religioso, e as ambições políticas deste último contribuíram consideravelmente para a expansão do protestantismo.
Havia, contudo, mesmo na Itália, quem desejasse a reforma, embora não a revolução. Um grupo desses fundou em Roma, por volta de 1517, o “Oratório do Amor Divino”. Entre seus líderes estava Giovanni Pietro Caraffa (1476-1559), mais tarde papa Paulo IV (1555-1559), de ilustre família napolitana, que vivera vários anos na Espanha e de lá trouxera admiração pela reforma espanhola, embora nenhum afeto pela monarquia espanhola. Outro membro era Jacopo Sadoleto (1477-1547); e em estreita afinidade com eles, embora não pertencesse ao Oratório, estava o senador Gasparo Contarini (1483-1542), de Veneza, que ainda era leigo. Desses, Caraffa era de uma devoção inflexível ao dogma medieval, ao passo que Contarini tinha muita simpatia pela doutrina luterana da justificação somente pela fé, embora não pela rejeição luterana da antiga hierarquia. O papa Paulo III (1534-1549), mais atento do que seus predecessores à gravidade da situação, fez cardeais, logo no início de seu pontificado, a Contarini, Caraffa, Sadoleto e o inglês Reginald Pole (1500-1558), e nomeou-os, com outros, para uma comissão sobre o aprimoramento da igreja, que apresentou em 1538 um relatório franco, mas sem resultado.1
Esses homens estavam muito distantes de opiniões realmente protestantes. Mas havia um número considerável de pessoas cujas simpatias as levavam muito mais longe. Em Veneza eram particularmente numerosas, embora ali não tenham produzido nenhum verdadeiro líder. Nessa cidade foi impressa, em 1530, a tradução italiana do Novo Testamento feita por Bruccioli, e, em 1532, a da Bíblia inteira. A hospitalidade de Ferrara, sob a duquesa Renata, já foi mencionada a propósito de Calvino (ver Período VI, seção VIII). O mais notável desses grupos foi o que se reuniu em Nápoles em torno de Juan Valdés (1500?-1541), espanhol de alta posição, a serviço de Carlos V, homem de um misticismo evangélico e piedoso. De seu discípulo, Benedetto de Mântua, veio, por volta de 1540, o livro mais popular desse círculo, Beneficio di Cristo [O benefício da morte de Cristo]. Entre seus adeptos estavam Pietro Martire Vermigli (1500-1562), cujo pai fora admirador de Savonarola, ele mesmo prior do mosteiro de São Pedro em Nápoles, destinado a ser professor de teologia protestante em Estrasburgo e em Oxford;
e Bernardino Ochino (1487-1564), vigário-geral da ordem dos capuchinhos, mais tarde prebendado protestante de Cantuária, pastor em Zurique e, por fim, um andarilho por causa de suas opiniões excêntricas. Outro amigo desse grupo era o próprio sobrinho de Caraffa, Galeazzo Caraccioli, marquês de Vico, que viria a ser companheiro íntimo de Calvino em Genebra. Esses evangélicos italianos, porém, não tinham organização nem apoio de príncipes, salvo, com muita cautela, em Ferrara, e tampouco conquistaram seguidores entre o povo comum. Na Itália eram uma planta exótica; e o mesmo se pode dizer dos pouquíssimos protestantes que se encontravam na Espanha.
O papa Paulo III hesitou por algum tempo entre o método de conciliação defendido por Contarini, que tomou parte nas discussões de reunificação em Regensburg (ver Período VI, seção V) como legado papal, e o de Caraffa, que insistia na severa repressão das divergências doutrinárias, ao mesmo tempo que defendia a reforma administrativa e moral. Por fim decidiu-se pelo segundo, e sua decisão tornou-se a política de seus sucessores. A pedido insistente de Caraffa, Paulo III, em 21 de julho de 1542, reorganizou a inquisição, em grande parte segundo o modelo espanhol, em escala universal,2 embora, naturalmente, seu efetivo estabelecimento só se desse onde contava com o apoio de uma autoridade civil favorável. Diante dela, os débeis começos do protestantismo italiano rapidamente desapareceram. Assim se forjou uma das principais armas da Contrarreforma católica.
Muito mais importante foi um reavivamento do zelo missionário, com o qual o gênio ainda jovem da Espanha contribuiu para inflamar o entusiasmo católico. Visto de qualquer ângulo, Inácio de Loyola é uma das figuras dominantes da época da Reforma. Íñigo López de Recalde nasceu de família nobre no norte da Espanha, em 1491. Depois de servir como pajem na corte de Fernando, tornou-se soldado. Sua intrépida firmeza revelou-se quando os franceses sitiaram Pamplona em 1521, mas ali recebeu um ferimento que tornou impossível continuar no serviço militar. Durante a lenta convalescença, estudou as vidas de Cristo, de São Domingos e de São Francisco. Os ideais cavaleirescos ainda persistiam na Espanha, e ele resolveu ser um cavaleiro da Virgem. Recuperado em certa medida, viajou a Montserrat e pendurou suas armas no altar da Virgem. Dali foi para Manresa, onde, no mosteiro dominicano, iniciou aquelas visões dirigidas que mais tarde se transformariam em seus Exercícios Espirituais. O ano de 1523 o viu peregrino em Jerusalém, mas os franciscanos, que ali mantinham a cruz com dificuldade, julgaram-no perigoso e o mandaram de volta para casa.
Convencido de que, para realizar a obra que desejava, precisava de instrução, Inácio entrou numa classe de meninos em Barcelona e avançou rapidamente até as universidades de Alcalá e Salamanca. Líder nato, reuniu companheiros que pensavam como ele, com os quais praticava seus exercícios espirituais. Isso despertou a suspeita da inquisição espanhola, e sua vida correu perigo. Em 1528 entrou na Universidade de Paris, exatamente quando Calvino a deixava. Ali não fez nenhuma manifestação pública, mas reuniu à sua volta um punhado de amigos e discípulos dedicados: Pierre Lefèvre, Francisco Xavier, Diego Laínez, Alfonso Salmerón, Nicolás Bobadilla e Simão Rodrigues, em sua maioria da Península Ibérica. Na igreja de Santa Maria, em Montmartre, Paris, em 15 de agosto de 1534, esses companheiros fizeram voto de ir a Jerusalém para trabalhar pela igreja e pelo próximo ou, se isso se mostrasse impossível, de se pôr à disposição do papa. Era uma pequena associação de estudantes, cujo laço de união era o amor a Deus e à igreja, tal como eles os entendiam.
O ano de 1536 os encontrou em Veneza; mas o caminho de Jerusalém estava fechado pela guerra, e eles resolveram então pedir a orientação do papa. Inácio começava a perceber o que sua sociedade poderia vir a ser. A Itália vira muitas companhias militares a serviço terreno. A dele seria a companhia militar de Jesus, ligada por igual rigor de obediência e por um exercício de armas igualmente cuidadoso, embora espiritual, para travar a batalha da igreja contra infiéis e hereges. Apesar da oposição eclesiástica, Paulo III foi levado, pela atitude favorável de Contarini e pela habilidade de Inácio, a autorizar a companhia em 27 de setembro de 1540.3 A constituição da sociedade ainda era indefinida, exceto que ela teria um chefe a quem se devia plena obediência e trabalharia onde quer que esse chefe e o papa determinassem. Em abril de 1541, Inácio foi eleito o primeiro “geral”, cargo que ocupou até sua morte, em 31 de julho de 1556.
A constituição dos jesuítas foi elaborada aos poucos; na verdade, só se completou depois da morte de Inácio, embora seus traços principais fossem obra dele. À frente está um “geral”, a quem se deve obediência absoluta; mas ele, por sua vez, é vigiado por assistentes nomeados pela ordem e pode, se necessário, ser deposto por ela. Sobre cada distrito há um “provincial”, nomeado pelo “geral”. Cada membro é admitido depois de um cuidadoso noviciado e promete obediência na mais plena medida em tudo o que não envolva pecado. Seus superiores o designam para a obra que julgam mais adequada a ele. Para que essa obra seja mais bem realizada, os jesuítas não estão presos, como os monges, a horas fixas de culto nem a um hábito. Cada membro é disciplinado pelo uso dos Exercícios Espirituais de Inácio, obra notável, segundo a qual o jesuíta é treinado num manual espiritual de armas, por quatro semanas de intensa contemplação dos principais fatos da vida e da obra de Cristo e da guerra cristã contra o mal, sob a direção de um instrutor espiritual. Foi um instrumento maravilhoso o que Inácio construiu, combinando o individualismo da Renascença (cada homem designado e preparado para sua obra peculiar) com o sacrifício da vontade e a completa obediência ao espírito e aos fins do todo. Ele se ergue como a própria antítese do protestantismo.
Embora a sociedade jesuíta se espalhasse rapidamente na Itália, na Espanha e em Portugal, foi mais lenta em firmar-se solidamente na França e na Alemanha; mas, na segunda metade do século XVI, já era a vanguarda da Contrarreforma. Seus principais instrumentos eram a pregação, o confessionário, suas excelentes escolas (não para a multidão, mas para os bem-nascidos e os abastados) e suas missões estrangeiras. Sob a influência jesuíta, a confissão e a comunhão mais frequentes tornaram-se a regra nos países católicos; e, para auxiliar o confessionário, a prática moral jesuíta foi sendo desenvolvida, principalmente depois da morte de Inácio e sobretudo no começo do século XVII, de um modo que provocou a crítica não só dos protestantes, mas de muitos católicos. Para avaliá-los corretamente, convém lembrar que esses tratados morais não representam ideais de conduta, mas os mínimos sobre os quais se pode dar a absolvição; e também que a moral jesuíta acentuou a tendência latina universal de considerar o pecado como uma série de atos definidos, e não como um estado.
A própria natureza do pecado foi minimizada. Só é pecado aquilo que se faz com claro conhecimento de sua pecaminosidade e pleno consentimento da vontade. A responsabilidade pessoal foi minada pela doutrina do “probabilismo”, pela qual alguém podia escolher o que lhe parecia o caminho pior, se este tivesse a seu favor uma autoridade reconhecida. A “restrição mental”, por sua vez, ensinava que os homens, para fins que lhes parecessem bons, não eram obrigados a dizer toda a verdade sob juramento, nem mesmo a dar uma impressão correta; doutrina que, mais do que qualquer outra, produziu o sentimento comum dos protestantes anglo-saxões de que os jesuítas eram inescrupulosos e indignos de confiança.
Naturalmente, uma sociedade de caráter tão internacional, cujos membros estavam ligados a seus superiores por cartas e relatórios constantes, logo se tornou uma força na vida política.
Ao lado do estabelecimento da inquisição em escala mundial e da fundação da Companhia de Jesus, o Concílio de Trento deve ser contado como importante instrumento da Contrarreforma. Esse concílio teve uma história acidentada. Desejado ardentemente por Carlos V e convocado com relutância por Paulo III, reuniu-se de fato em Trento em dezembro de 1545. Em março de 1547, a maioria italiana o transferiu para Bolonha; mas em maio de 1551 estava de volta a Trento, onde a minoria espanhola permanecera o tempo todo. Em 28 de abril de 1552, suspendeu-se em consequência do bem-sucedido levante protestante, sob Maurício da Saxônia, contra o imperador (ver Período VI, seção V). Só em janeiro de 1562 voltou a reunir-se, e concluiu sua obra em 4 de dezembro de 1563. O voto ficou restrito aos bispos e aos superiores das ordens, sem divisão por nações, como em Constança (ver Período V, seção XIII). A maioria estava, portanto, em mãos italianas. Isso correspondia ao desejo papal de que a definição da doutrina precedesse a reforma. Por outro lado, os bispos espanhóis, igualmente ortodoxos na fé, defenderam com firmeza o desejo do imperador de que a reforma precedesse a doutrina. Combinou-se que doutrina e reforma seriam discutidas alternadamente, mas todas as decisões precisavam da aprovação do papa, o que fortaleceu a supremacia papal na igreja. Nenhuma voz teve mais influência no concílio do que a dos peritos teológicos do papa, os jesuítas Laínez e Salmerón, e, numa fase posterior, a do primeiro jesuíta alemão, Pedro Canísio, e essa influência sustentou constantemente o espírito antiprotestante.
Os decretos doutrinários do Concílio de Trento4 foram claros e definidos na rejeição das crenças protestantes, embora muitas vezes indecisos quanto a questões disputadas nas controvérsias medievais. A Escritura e a tradição são igualmente fontes da verdade. Só a igreja tem o direito de interpretação. A justificação é definida com habilidade, mas de modo a deixar espaço para o mérito das obras. Os sacramentos são os sete medievais, definidos à maneira medieval. O resultado está expresso com competência, mas a igreja fechara completamente a porta a todo acordo ou modificação da doutrina medieval.
Embora as reformas realizadas pelo concílio estivessem longe de satisfazer os desejos de muitos na Igreja Romana, não foram desprezíveis. Providenciou-se a interpretação pública da Escritura nas cidades maiores. Os bispos foram obrigados a pregar, e o clero paroquial a ensinar com clareza o que é necessário para a salvação. Exigiu-se a residência e restringiu-se a acumulação de benefícios. Ordenou-se a criação de seminários para a formação do clero e uma melhor supervisão moral dos clérigos. Promulgaram-se regulamentos para impedir os casamentos clandestinos. Passo menos louvável foi a aprovação de um índice de livros proibidos, a ser preparado pelo papa, seguindo o exemplo dado por Paulo IV em 1559. Disso resultou, em 1571, a criação por Pio V (1566-1572) da Congregação do Índice, em Roma, para censurar publicações.
De um teólogo espanhol, influente em Trento, Melchior Cano (1525-1560), veio a mais competente defesa da posição romana que até então aparecera, em seu De Locis Theologicis Libri XII [Doze livros sobre os lugares teológicos], publicado três anos depois de sua morte. A teologia, ensinava ele, baseia-se na autoridade. A autoridade da Escritura repousa no poder de discernimento e aprovação da igreja, que determina o que é Escritura e o que não é; mas, como de modo algum toda a doutrina cristã está contida na Escritura, a tradição, transmitida e examinada pela igreja, é outra base de autoridade.
Meados do século XVI testemunharam uma mudança no interesse primordial dos ocupantes do papado. Ainda eram príncipes temporais italianos, mas os assuntos da igreja haviam agora assumido o primeiro lugar. Com Paulo IV (Caraffa, 1555-1559), a Contrarreforma chegou ao trono papal, e o resultado foi que muitos dos abusos da cúria foram eliminados. Roma era uma cidade mais sombria, muito mais eclesiástica do que na Renascença, mas os papas eram agora, em geral, homens de vida austera, seriedade religiosa e catolicismo ardoroso.
O resultado de todas essas influências foi que, em 1565, o fervor católico havia sido reavivado. Um novo espírito, intenso em sua oposição ao protestantismo, medieval em sua teologia, mas pronto a lutar ou a sofrer por sua fé, estava amplamente difundido. Diante desse zelo renovado, o protestantismo não apenas deixou de fazer novas conquistas, como logo viu abalado em medida considerável seu domínio na Renânia e no sul da Alemanha. O catolicismo começou a esperar reconquistar tudo o que havia perdido.
Esse reavivamento católico caracterizou-se também por um amplo desenvolvimento da piedade mística, no qual, como em tantas outras coisas, a Espanha foi a líder. Os traços principais dessa vida religiosa eram um quietismo de renúncia a si mesmo, uma elevação da alma a Deus em contemplação e oração silenciosa, até que se julgasse alcançada uma união no amor divino ou num êxtase de revelação interior. Muitas vezes se pensava que práticas ascéticas ajudavam essa exaltação mística. Destacaram-se nesse movimento Teresa de Jesus (1515-1582), de Ávila, e João da Cruz (1542-1591), de Ontiveros, na Espanha. Francisco de Sales (1567-1622), bispo nominal de Genebra, a cujos esforços se deveu a conquista para o catolicismo das partes da Saboia próximas de Genebra, representou o mesmo tipo de piedade, que foi difundido na França por sua discípula Jeanne Françoise Frémyot de Chantal (1572-1641). Essa piedade vinha combinada com extrema devoção à igreja e a seus sacramentos. Satisfazia os anseios religiosos das almas católicas mais fervorosas, e a igreja, por sua vez, a reconheceu inscrevendo muitos de seus modelos entre os santos.
O zelo católico manifestou-se em plena medida também na obra das missões estrangeiras. Estas foram, antes de tudo, empreendimento das ordens monásticas, sobretudo dos dominicanos e franciscanos, com os quais, desde sua fundação, a Companhia de Jesus partilhou avidamente o trabalho. À obra dessas ordens se deve o cristianismo da América do Sul, da América Central e de grandes partes da América do Norte. Elas converteram as Filipinas. O mais famoso desses missionários romanos foi o companheiro original de Inácio, Francisco Xavier (1506-1552). Designado por Inácio missionário na Índia, a pedido do rei João III de Portugal, chegou a Goa em 1542 e iniciou uma carreira de atividade prodigiosa. Em Goa fundou um colégio missionário, pregou por todo o sul da Índia e, em 1549, entrou no Japão e começou uma obra que alcançara grandes dimensões quando os governantes nativos empreenderam sua severa repressão, em 1612. Xavier morreu em 1552, justamente quando ia entrar na China. Sua obra foi superficial, mais uma exploração do que uma construção, mas seu exemplo exerceu uma influência contagiante de grande alcance. Na China, o trabalho que Xavier tentara foi iniciado em 1581 pelo jesuíta Matteo Ricci (1552-1610), mas seu desejo de fazer-se “tudo para com todos” (1Co 9.22) levou-o a transigir com o culto aos antepassados, afrouxamento a que missionários de outras ordens católicas se opuseram com vigor. Na Índia, os convertidos vinham quase inteiramente dos párias ou das castas inferiores. O jesuíta Roberto de’ Nobili (1576?-1656) iniciou em Madurai, em 1606, uma obra entre os de casta alta, que reconhecia as distinções de casta e, de outras formas, se acomodava aos preconceitos indianos. Seu sucesso aparente foi grande, mas seus métodos provocaram críticas e, por fim, a proibição do papado. Provavelmente a experiência mais famosa das missões jesuítas foi a do Paraguai. O trabalho ali começou em 1586. Em 1610, passaram a reunir os nativos em “reduções”, ou aldeias, todas construídas segundo plano semelhante, onde os habitantes eram mantidos em paz e instruídos nos elementos da religião e do trabalho, mas conservados numa dependência estrita e semi-infantil dos missionários, em cujas mãos estava a administração do comércio e da agricultura. Muito admirado, o sistema caiu com a expulsão dos jesuítas, em 1767, e deixou poucos resultados permanentes.
As rivalidades entre as diversas ordens e o desejo de uma supervisão mais eficaz dos trabalhos missionários levaram o papa Gregório XV (1621-1623) a fundar, em 1622, a Congregatio de Propaganda Fide, pela qual todo o campo podia ser examinado e dirigido a partir de Roma.
As rivalidades entre a França e a Espanha, com suas consequências políticas e militares, haviam tornado possível o crescimento da Reforma e facilitado a divisão da Alemanha entre luteranos e católicos registrada na Paz de Augsburgo de 1555. Henrique II (1547-1559) sucedera a Francisco I na França, e Carlos V transferira a seu filho Filipe II (1556-1598) a soberania da Espanha, dos Países Baixos e dos territórios espanhóis na Itália; mas a velha rivalidade continuou. Na guerra, porém, Filipe II mostrou-se de início mais bem-sucedido do que o pai, e as batalhas de Saint-Quentin, em agosto de 1557, e de Gravelines, em julho de 1558, obrigaram a França ao Tratado de Cateau-Cambrésis, de 2 de abril de 1559. Esse tratado foi um marco na história da Europa. A França abandonou a longa luta pela Itália. A liderança espanhola era evidentemente a primeira da Europa e havia, em grande parte, obrigado a França a seguir seus interesses, ou ao menos a não se opor a eles. O protestantismo via-se diante de um catolicismo politicamente muito mais unido do que qualquer outro que enfrentara até então. O chefe político desse catolicismo era Filipe II da Espanha, metódico, laborioso, paciente e inflexivelmente decidido, que via como tarefa designada por Deus a extirpação do protestantismo e empenhou todas as energias em realizá-la. Os trinta anos seguintes seriam o tempo de maior perigo na história do protestantismo.
O ponto de maior perigo talvez tenha sido o ano de 1559, quando, após a morte de Henrique II, em julho, a coroa passou a Francisco II, cuja esposa era Maria, “rainha dos escoceses”, e, por sua própria reivindicação, também rainha da Inglaterra. Contudo, nem mesmo o ardente catolicismo de Filipe estava disposto a ver uma combinação tão perigosa para a Espanha como a da França, da Escócia e da Inglaterra sob um único casal de soberanos. Por isso ajudou Elizabeth, ação de que mais tarde deve ter se arrependido (ver Período VI, seção IX).
A influência de Calvino penetrara cada vez mais na França, e os protestantes franceses, ou huguenotes, como passaram a ser chamados a partir de 1557, multiplicaram-se apesar de severa perseguição. Em 1555 havia uma congregação em Paris. Quatro anos depois, o número de igrejas huguenotes na França era de setenta e duas. Naquele ano, 1559, eram fortes o bastante para realizar seu Primeiro Sínodo Geral em Paris, adotar um credo fortemente calvinista preparado por Antoine de la Roche Chandieu5 e uma constituição presbiteriana extraída dos princípios eclesiásticos de Calvino. A estimativa popular atribuía-lhes 400.000 adeptos. Além desses huguenotes por religião, em sua maioria das classes artesãs, economicamente oprimidas e descontentes, o partido logo se fortaleceu com a adesão dos huguenotes políticos.
A morte de Henrique II e a ascensão de Francisco II deixaram a família Guise, tios da rainha de Francisco, todo-poderosa em sua corte. Os Guise eram da Lorena e eram vistos por muitos da nobreza francesa como estrangeiros. Entre os dois irmãos, ardorosamente católicos, Carlos (1524-1574), o “cardeal de Lorena”, era chefe do clero francês como arcebispo de Reims, ao passo que Francisco (1519-1563), duque de Guise, era o melhor soldado da França. Opostos à família Guise estavam os Bourbon, cujo chefe em hierarquia era Antônio de Vendôme, rei titular de Navarra, homem de espírito fraco e vacilante, e seu irmão muito mais capaz, Luís, príncipe de Condé. Da casa de Châtillon, também oposta aos irmãos Guise, o líder era Gaspard de Coligny, conhecido como almirante Coligny, homem de caráter íntegro e dedicado ao calvinismo. Esses grandes nobres eram movidos, em grande parte, pela oposição à centralização do poder no rei. Representavam, assim, a hostilidade da velha nobreza feudal às usurpações régias. Seus interesses e os dos calvinistas mais humildes, da classe média, coincidiam no desejo de que as coisas na França não continuassem como estavam. O primeiro passo rumo a uma revolução foi dado quando a mal planejada “Conjuração de Amboise”, em março de 1560, fracassou na tentativa de capturar o jovem rei e transferir o governo aos Bourbon. Condé teria sido executado, não fosse a morte de Francisco II em 5 de dezembro de 1560.
A sucessão de Carlos IX (1560-1574), irmão do falecido rei, trouxe um novo partido à confusa luta. Os Guise perderam boa parte de seu poder na corte, mas continuavam a ser considerados os chefes dos interesses católicos na França e estavam em constante comunicação com Filipe II da Espanha. A principal influência junto ao novo soberano, que ainda não tinha onze anos, passou a ser a de sua mãe, Catarina de Médici (1519-1589), hábil e sem escrúpulos, decidida a manter os direitos da coroa jogando as duas grandes facções nobres da França uma contra a outra. Era auxiliada por um estadista de ideias amplas e conciliadoras, Michel de l’Hôpital (1505-1573), que se tornou chanceler da França em 1560. Catarina buscou então uma reconciliação das facções, libertou Condé da prisão, permitiu uma discussão pública entre teólogos católicos e protestantes em Poissy, em setembro de 1561, da qual Beza participou, e a seguiu, em janeiro de 1562, com um edito que permitia aos huguenotes reunir-se para o culto, exceto nas cidades muradas.
Em vez de se submeter, o partido católico resolveu provocar a guerra. Em 1º de março de 1562, a guarda pessoal do duque de Guise atacou uma congregação huguenote reunida para o culto em Vassy. Seguiram-se três guerras selvagens entre huguenotes e católicos, 1562-1563, 1567-1568 e 1568-1570, com breves tréguas entre elas. O duque Francisco de Guise foi morto por um assassino protestante. Antônio, rei de Navarra, e Condé morreram de ferimentos. Coligny ficou à frente da causa huguenote. No conjunto, os huguenotes mantiveram suas posições, e o ciúme da influência espanhola favoreceu sua causa, de modo que, em agosto de 1570, se fez a paz em Saint-Germain-en-Laye, pela qual os nobres receberam liberdade de culto, e permitiram-se dois lugares de culto ao povo comum huguenote em cada divisão administrativa da França, ao passo que quatro cidades foram postas sob controle huguenote como garantia.
A situação, nessa conjuntura, complicou-se muito com o curso dos acontecimentos nos Países Baixos. As fontes de inquietação naquela região eram, em sua origem, ainda mais políticas e econômicas do que religiosas, embora na luta a religião assumisse importância cada vez maior. Os Países Baixos, que haviam passado a Filipe II da Espanha por herança de seu pai, Carlos V, em 1555, eram um grupo de dezessete províncias, apegadas a seus direitos locais, predominantemente comerciais e manufatureiras, e inclinadas a ressentir-se de tudo o que interferisse nos costumes existentes ou perturbasse o comércio. O luteranismo entrara cedo, mas fora em grande parte substituído pelo anabatismo entre as camadas mais baixas da população, ao passo que, por volta de 1561, quando Guy de Bray redigiu a Confissão Belga,6 o calvinismo ganhava convertidos entre as classes médias. A nobreza ainda mal fora tocada, e em 1562 o número total de protestantes era calculado em apenas 100.000.
Carlos V, embora resistisse com vigor às investidas do protestantismo, respeitara em grande parte os direitos e as suscetibilidades dos Países Baixos. Não assim Filipe II. Ele resolveu impor ali uma uniformidade política e religiosa semelhante à da Espanha. Em 1559 nomeou regente sua irmã, Margarida de Parma, com uma comissão consultiva de três membros, cujo espírito dominante era seu dedicado partidário, o cardeal Granvela (1517-1586), bispo de Arras. Essa comissão praticamente usurpou o poder dos antigos conselhos de Estado, dos quais os grandes nobres participavam. No ano seguinte, Filipe obteve do papa uma reorganização da geografia eclesiástica dos Países Baixos, que teve o mérito de libertar os bispados neerlandeses da supervisão eclesiástica estrangeira, mas despertou ciúmes, pois os novos prelados eram nomeados por Filipe e tinham assento no Parlamento, ou “Estados Gerais”, o que fortalecia muito a influência espanhola. Além disso, Filipe usou de todos os meios para esmagar a “heresia”, conduta que desagradava às classes médias, porque prejudicava o comércio e levava os operários a emigrar. Nobres e comerciantes estavam, por isso, cada vez mais inquietos.
Entre os principais opositores dessas mudanças estavam três nobres eminentes: Guilherme de Nassau, príncipe de Orange (1533-1584), nascido luterano, mas agora, ao menos nominalmente, católico, destinado a ser o herói da independência holandesa; e os condes católicos de Egmont e de Horn. Eles forçaram a demissão de Granvela em 1564. Filipe passou a ver neles o principal obstáculo a seus planos. Exigiu a aplicação dos decretos do Concílio de Trento e uma punição mais rigorosa da heresia. Uma petição de protesto circulou e foi apresentada à regente em 5 de abril de 1566, e o apelido de “Mendigos”, dado a seus signatários naquela ocasião, tornou-se o nome do partido da liberdade neerlandesa. A agitação popular era intensa. A pregação protestante era ouvida abertamente e, em agosto de 1556 [N. do T.: assim no original; o contexto, posterior à petição de abril de 1566, indica 1566], tumultos iconoclastas, aos quais se opuseram homens como Guilherme de Orange, devastaram centenas de igrejas.
Para Filipe, esses acontecimentos eram rebelião na política e na religião. Por isso enviou o duque de Alba (1508-1582), hábil general espanhol, a Bruxelas, com um exército espanhol escolhido e praticamente como governador. Sua chegada, em agosto de 1567, foi seguida de centenas de execuções, entre elas as de Egmont e de Horn. Guilherme de Orange fugiu para a Alemanha e organizou a resistência, mas esta foi esmagada pela habilidade de Alba. Alba, porém, completou o afastamento das classes mercantis, em 1569, ao introduzir os pesados impostos espanhóis sobre as vendas. Enquanto isso, Guilherme de Orange comissionava corsários, que atacavam o comércio espanhol e encontravam refúgio incerto nos portos ingleses, onde o governo inglês fora levado a uma atitude mais enérgica de hostilidade a todas as forças católicas, cujo chefe era Filipe, pela bula de deposição lançada contra Elizabeth pelo papa Pio V em 25 de fevereiro de 1570.
Em abril de 1572, esses corsários tomaram Brielle. As províncias do norte levantaram-se. Guilherme de Orange pôs-se à frente do movimento. Em 15 de julho, as principais cidades da Holanda, da Zelândia, da Frísia e de Utrecht reconheceram-no como estatúder. Enquanto isso, desde a paz de 1570, os huguenotes e os adversários da Espanha na França vinham trabalhando por um retorno à antiga política, que fazia da França a rival, e não a aliada, da Espanha. Planejou-se uma ajuda imediata aos rebeldes neerlandeses, a ser recompensada com a anexação de algum território à França, e ninguém a favorecia mais do que Coligny, cuja influência sobre Carlos IX era agora grande. Para pôr em evidência a reconciliação dos partidos na França, arranjou-se um casamento entre Henrique de Navarra, filho protestante do falecido Antônio de Bourbon, e a irmã de Carlos IX, Margarida de Valois. Para o casamento, em 18 de agosto de 1572, nobres huguenotes e católicos, com seus séquitos, reuniram-se na cidade fanaticamente católica de Paris.
Catarina de Médici passara a ver com temor a influência que Coligny agora exercia sobre seu filho, o rei. Não se sabe ao certo se o motivo era ciúme quanto à própria influência ou receio de que a guerra para a qual Coligny conduzia o rei fosse desastrosa para a coroa francesa. Ao que parece, tudo o que ela queria de início era eliminar Coligny por assassinato. Nisso contava com a calorosa simpatia de Henrique, duque de Guise (1550-1588), filho do assassinado Francisco, que injustamente responsabilizava Coligny pela morte do pai. Em 22 de agosto, falhou um atentado contra a vida de Coligny, e esse fracasso lançou Catarina em pânico. Os huguenotes tinham sido hostilizados sem ser privados de seu líder. Ela e seus partidários decidiram então, de repente, um massacre geral, para o qual o partido dos Guise e o povo fanático de Paris forneceram meios abundantes. Em 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, começou a obra sangrenta. Coligny foi morto, e com ele um número de vítimas que tem sido estimado das mais variadas formas, chegando, não improvavelmente, a 8.000 em Paris e a várias vezes esse número em toda a França. Henrique de Navarra salvou a vida abjurando o protestantismo.
A notícia foi saudada com júbilo em Madri e em Roma, e com razão, se fosse possível desconsiderar sua enormidade moral. Ela salvara a causa católica de grande perigo. A política da França inverteu-se. Os planos de intervenção nos Países Baixos chegaram ao fim. A consequência foi a luta desesperada pela liberdade neerlandesa. Contudo, os católicos não obtiveram na França o que esperavam. A quarta, a quinta, a sexta e a sétima guerras huguenotes, 1573, 1574-1576, 1577 e 1580, seguiram seu curso de destruição e miséria, mas os huguenotes não foram esmagados. Carlos IX morreu em 1574 e teve como sucessor no trono seu depravado irmão, Henrique III (1574-1589).
Desenvolvia-se uma divisão entre os próprios católicos. Havia muito existia um elemento considerável que, embora católico na religião, sentia que as guerras prolongadas arruinavam o país e permitiam a intriga estrangeira, especialmente espanhola. Seus membros julgavam que se devia chegar a alguma base de paz com os huguenotes e eram conhecidos como os Politiques. Por outro lado, os que punham a religião em primeiro lugar e estavam dispostos a ver a França tornar-se mero apanágio da Espanha, se com isso o catolicismo pudesse triunfar, vinham havia algum tempo organizando associações em várias partes da França para defender a Igreja Romana. Em 1576, estas se transformaram numa “Liga” geral, dirigida por Henrique de Guise e apoiada pela Espanha e pelo papa. Sua existência empurrou os Politiques cada vez mais para a aliança com os huguenotes, que encontraram seu chefe político em Henrique de Navarra, o qual reafirmara sua fé protestante em 1576.
O massacre de São Bartolomeu destruiu as esperanças de Guilherme de Orange de uma rápida expulsão da Espanha dos Países Baixos. Os dois anos seguintes foram de luta intensíssima, da qual Guilherme foi a alma. A estratégia de Alba parecia de início irresistível. Mons, Malines, Zutphen, Naarden e Haarlem caíram diante das forças espanholas; mas Alkmaar elas não conseguiram tomar, em outubro de 1573. Alba foi chamado de volta a seu próprio pedido e teve como sucessor, em novembro, Luis de Requesens (1525?-1576), sob o qual a política espanhola permaneceu substancialmente inalterada. Mas outubro de 1574 viu o fim vitorioso da defesa de Leiden, e ficou evidente que os Países Baixos do norte não podiam ser conquistados com as forças de que a Espanha então dispunha. Em 1576 Requesens morreu, e as tropas espanholas saquearam Antuérpia, acontecimento que levou as províncias do sul à resistência. O novo comandante espanhol, João da Áustria (1545-1578), pouco conseguiu fazer. Elizabeth ajudou os Países Baixos revoltados a partir de 1576. Em setembro de 1577, Guilherme pôde fazer uma entrada triunfal em Bruxelas. João da Áustria morreu desiludido em outubro de 1578; mas teve como sucessor seu sobrinho, Alexandre Farnese, duque de Parma (1545-1592), general e estadista de talentos extraordinários. As coisas melhoraram para a causa espanhola. Parma explorou os ciúmes entre o sul católico e o norte calvinista. O primeiro uniu-se na Liga de Arras para a proteção do catolicismo, em janeiro de 1579; o segundo respondeu no mesmo mês com a União de Utrecht. Os protestantes deixaram o sul rumo ao norte aos milhares, e muitos católicos foram para o sul. Por fim, as dez províncias do sul foram salvas por Parma para a Espanha, e a Bélgica moderna é seu monumento. Os sete Estados do norte declararam sua independência da Espanha em 1581 e, embora restasse muito a fazer até que todos os perigos fossem vencidos, sua liberdade estava tão firmemente entrincheirada que nem mesmo o assassinato de Guilherme de Orange, em 10 de julho de 1584, por um fanático encorajado por Parma, conseguiu derrubá-la.
Durante essa luta, as igrejas calvinistas dos Países Baixos foram tomando forma. O Primeiro Sínodo Nacional se realizara fora do território neerlandês, em Emden, em 1571. Guilherme de Orange aceitara o calvinismo dois anos depois. Em 1575 fundou-se uma universidade em Leiden, que logo ficaria famosa por sua erudição em teologia e nas ciências. A Igreja Reformada dos Países Baixos era, como a Igreja Huguenote da França, presbiteriana em sua constituição, embora seu grau de independência em relação ao controle do Estado fosse por muito tempo objeto de controvérsia e variasse conforme as províncias. A dureza da luta pela independência nacional, o desejo de assegurar a ajuda de todos os que lhe eram favoráveis e o espírito mercantil levaram os Países Baixos protestantes a um grau de tolerância maior do que o de qualquer outro lugar da cristandade naquele tempo. Aos católicos, é verdade, não se permitia o culto público nem o exercício de cargos políticos, mas eles tinham direito de residência e de trabalho. Aos anabatistas, Guilherme de Orange concedeu em 1577 a primeira proteção de direitos de culto que receberam em qualquer lugar. Esse grau de tolerância, por parcial que fosse, logo fez dos Países Baixos um refúgio para os religiosamente oprimidos e aumentou a força da nação.
Contudo, a morte de seu sábio líder, Guilherme de Orange, trouxe grande perigo aos Países Baixos revoltados. Eles não se sentiam capazes de se manter sozinhos e ofereceram sua soberania primeiro a Henrique III da França e depois a Elizabeth da Inglaterra. Ambos recusaram; mas Elizabeth enviou seu favorito, o conde de Leicester, em 1585, com um pequeno exército. Ele se tornou então governador-geral, mas seu governo foi um fracasso, e ele voltou para a Inglaterra em 1587. Parecia que a hábil estratégia de Parma poderia submeter as províncias rebeldes; mas, felizmente, Filipe requereu sua atenção para um empreendimento maior. O rei espanhol decidira nada menos do que a conquista da Inglaterra.
No começo do reinado de Elizabeth, Filipe a ajudara por razões políticas (ver Período VI, seção IX), mas essas razões logo deixaram de valer, e Filipe tornou-se seu inimigo, vendo em Elizabeth a cabeça daquele protestantismo que era seu principal desejo derrubar. A primeira parte do reinado de Elizabeth fora surpreendentemente livre de problemas efetivos por parte de seus súditos católicos. Maria, “rainha dos escoceses”, era, porém, a herdeira do trono e um centro constante de conspiração. Em 1569 irrompeu no norte da Inglaterra uma rebelião católica, com o incentivo da Espanha. Foi sufocada. Em 1570 seguiu-se a bula papal que declarava Elizabeth excomungada e deposta. Em 1571 descobriu-se uma conspiração de vasto alcance, a de Ridolfi, que visava ao assassinato de Elizabeth. Elizabeth foi salva pela nova direção dos negócios franceses pouco antes do massacre de São Bartolomeu (ver acima, nesta seção) e pela eclosão da rebelião nos Países Baixos. O Parlamento respondeu tornando alta traição os atentados contra a pessoa, a ortodoxia ou o título de Elizabeth ao trono. No momento, porém, a Inglaterra gozava de relativa paz. Durante os primeiros anos de Elizabeth, os católicos ingleses tinham sido deixados por Roma e por seus correligionários do continente com surpreendentemente pouca ajuda espiritual ou liderança. Para remediar essa situação, William Allen (1532-1594), hábil exilado inglês que se tornou cardeal em 1587, fundou em Douai, em 1568, um seminário para formar sacerdotes missionários para a Inglaterra. Seus alunos logo afluíam à Inglaterra. Sua obra era quase inteiramente espiritual, mas as autoridades inglesas a viam com grande hostilidade. A situação agravou-se quando, em 1580, os jesuítas iniciaram uma missão sob a liderança de Robert Parsons (1546-1610) e Edmund Campion (1540-1581). Campion foi preso e executado, embora pareça não ter pretendido nenhum movimento político. Não assim Parsons. Ele escapou para o continente, ganhou Allen para seus planos e iniciou uma série de intrigas para provocar uma invasão espanhola da Inglaterra, um levante católico ali e a morte ou destronamento de Elizabeth. Sua obra foi desastrosa para seus correligionários católicos. Sabe-se hoje que a maioria dos sacerdotes que trabalhavam na Inglaterra estava livre de desígnios de traição; mas não era isso o que se entendia então, e as autoridades inglesas viam todos eles como inimigos públicos e executavam os que seus espiões conseguiam descobrir. Sua obra preservou uma Igreja Romana na Inglaterra, mas foi levada adiante a um custo terrível. Elizabeth enviou então um exército aos Países Baixos, em 1585 (ver acima, nesta seção), ao mesmo tempo que incentivava, no mesmo ano, uma expedição semipirata sob Sir Francis Drake, que incendiou e saqueou estabelecimentos espanhóis no Caribe e no golfo do México.
Em 1586 tramou-se um novo plano contra a vida de Elizabeth, a Conspiração de Babington, na qual espiões ingleses descobriram que Maria, “rainha dos escoceses”, estava pessoalmente envolvida. Em consequência, ela foi executada em 8 de fevereiro de 1587, depois de muita hesitação por parte de Elizabeth. Filipe decidiu então invadir a Inglaterra. Sua conquista estabeleceria ali o catolicismo e o domínio do próprio Filipe e tornaria promissora a submissão dos Países Baixos rebeldes. Para essa obra ele reuniria uma grande frota capaz de dominar o mar do Norte, enquanto Parma traria dos Países Baixos seus soldados experimentados. Depois de infinitas dificuldades, a “Grande Armada” partiu da Espanha em 12 de julho de 1588. O empreendimento apelara ao zelo religioso da nação, e homens de distinção em número incomum tinham se alistado nele. Na opinião geral da Europa, era tida por invencível; mas, na realidade, estava mal equipada e seus marinheiros eram ineficientes. Além disso, a batalha que ia travar era um confronto entre a velha e a nova tática naval. O plano de batalha espanhol era o da abordagem com arpões. Seus canhões eram leves e poucos, seus navios lentos, embora grandes. A Inglaterra desenvolvera navios mais velozes, armados com canhões muito mais pesados, capazes de evitar a abordagem e de castigar terrivelmente os pesados navios espanhóis. Em 21 de julho travou-se a batalha ao largo de Plymouth. Seguiu-se uma semana de combate em movimento, subindo o canal da Mancha, que culminou numa grande batalha ao largo de Gravelines no dia 28. A frota espanhola, irremediavelmente derrotada, fugiu para o norte, a fim de escapar para casa contornando a Escócia e a Irlanda. Qualquer travessia de Parma tornou-se impossível. Embora seja lenda que a Armada foi derrotada pelas tempestades, ela de fato sucumbiu diante da artilharia e da arte de navegar dos ingleses, ainda que uma semana depois, em sua retirada, as tempestades completassem seu naufrágio. A Inglaterra foi a rocha em que se despedaçaram os planos de Filipe de um catolicismo vitorioso, e despedaçaram-se por uma causa que ele dificilmente poderia ter compreendido. Na disputa, em vez do levante católico que ele esperara na Inglaterra e que homens como Allen e Parsons haviam predito, católicos e protestantes tinham ficado ombro a ombro, como ingleses, contra a Espanha.
Embora as esperanças maiores de Filipe tivessem sido assim esmagadas em 1588, ele se apegou mais tenazmente do que nunca ao plano de extirpar o protestantismo na França. A morte do irmão de Henrique III, o duque de Anjou, em 1584, deixou o huguenote Henrique de Bourbon, de Navarra, como provável herdeiro do trono. Para impedir essa sucessão, Filipe e a Liga firmaram um tratado, em janeiro de 1585, pelo qual a coroa passaria, por morte de Henrique III, ao tio de Henrique de Navarra, Carlos, cardeal de Bourbon. Em julho de 1585, Henrique III foi forçado pela Liga a retirar todos os direitos dos huguenotes, e em setembro uma bula de Sisto V (1585-1590) declarou Henrique de Navarra incapaz de suceder ao trono. O resultado foi a oitava guerra huguenote, conhecida como “Guerra dos Três Henriques”, por causa de Henrique III, Henrique de Guise, chefe da Liga, e Henrique de Navarra. Paris era inteiramente devotada a Henrique de Guise. Em 12 de maio de 1588, seus cidadãos obrigaram Henrique III a deixar a cidade. O rei fraco não viu meio de resistir às exigências da Liga e de seu imperioso chefe e, em 23 de dezembro, mandou assassinar traiçoeiramente Henrique de Guise. Treze dias depois, Catarina de Médici encerrou sua vida tempestuosa.
Henrique de Guise teve como sucessor na chefia da Liga seu irmão Carlos, duque de Mayenne. Henrique III fez então acordo com Henrique de Navarra, e os dois sitiavam juntos Paris quando Henrique III foi assassinado por um monge fanático, morrendo em 2 de agosto de 1589. Mas Henrique de Navarra, ou, como passou a ser, Henrique IV da França (1589-1610), ainda estava longe de seguro em seu novo trono. Uma brilhante vitória em Ivry, em março de 1590, derrotou a Liga, mas as tropas espanholas, sob a hábil direção de Parma, impediram que ele tomasse Paris naquele ano e Rouen em 1592. Só depois da morte de Parma, em 3 de dezembro deste último ano, Henrique IV se tornou realmente senhor da situação. E então, por razões puramente políticas, Henrique IV declarou-se católico, sendo recebido na Igreja Romana em 25 de julho de 1593, embora o acordo com o papa só se concluísse mais de dois anos depois. Por mais que se possa criticá-lo moralmente (e a vida de Henrique, tanto como protestante quanto como católico, mostrou que os princípios religiosos tinham pouca influência sobre sua conduta), o passo foi sábio. Deu paz ao país dilacerado. Agradou à vasta maioria de seus súditos. Tampouco Henrique esqueceu seus antigos companheiros. Em abril de 1598 foi publicado o Edito de Nantes, pelo qual os huguenotes foram admitidos a todos os cargos públicos, o culto público foi permitido onde quer que existisse em 1597, exceto em Paris, Reims, Toulouse, Lyon e Dijon, e os filhos de huguenotes não podiam ser forçados a receber educação católica. Algumas cidades fortificadas foram postas em mãos huguenotes como garantia.
No mesmo ano (1598), Filipe II morreu, em 13 de setembro, convencido até o fim de que o que fizera era para o serviço de Deus, mas tendo fracassado no grande esforço de sua vida para derrubar o protestantismo.
As igrejas huguenotes entraram então em seu período mais próspero. Sua organização completou-se, e suas escolas em Sedan, Saumur, Montauban, Nîmes e outros lugares floresceram. Eram uma corporação política dentro do Estado. Como tal, encontraram a oposição da política centralizadora de Richelieu, o grande ministro de Luís XIII. Em 1628 La Rochelle lhes foi tomada, e sua semi-independência política terminou. Pelo Edito de Nîmes, em 1629, seus privilégios religiosos foram preservados, mas sofreram ataques crescentes dos jesuítas e de outras influências católicas à medida que o século avançava, até que a revogação do Edito de Nantes por Luís XIV, em 1685, os reduziu a uma igreja perseguida e mártir, proscrita até as vésperas da Revolução Francesa, e levou milhares de seus membros ao exílio, para proveito duradouro da Inglaterra, da Holanda, da Prússia e da América.
1. Kidd, pp. 307-318.
2. Kidd, pp. 347-350.
3. Kidd, pp. 335-340.
4. Schaff, Creeds of Christendom, 2: 77-206.
5. Schaff, Creeds of Christendom, 3: 356-382.
6. Schaff, Creeds of Christendom, 3: 383-436.
Tradução para o português a partir de Williston Walker, A History of the Christian Church (Nova York, Charles Scribner’s Sons, 1918), 1ª edição, conferida com as imagens das páginas; domínio público. As notas são de Walker; as que eram só referência bíblica passaram para o texto. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.