Walker, História da Igreja Cristã · Período VII

Período VII, seções VI a VII

VI. Zinzendorf e o moravianismo; VII. Wesley e o metodismo.

Seção VI. Zinzendorf e o moravianismo

Um dos resultados mais notáveis do despertamento pietista, embora longe de ter a aprovação dos pietistas em geral, foi a reconstituição dos Irmãos Morávios, sob a liderança de Zinzendorf. Nicolaus Ludwig, conde de Zinzendorf, nasceu em Dresden, em 26 de maio de 1700. Seu pai era alto funcionário da corte eleitoral saxônica e amigo de Spener. O pai morreu pouco depois do nascimento do filho, a mãe casou-se de novo, e o menino foi criado, bastante solitário e introspectivo, pela avó, a pietista Katherine von Gersdorff. Já em menino ele trazia os dois traços que sempre caracterizaram sua vida religiosa: uma devoção pessoal e apaixonada a Cristo e a convicção de que Deus só é conhecido como Cristo, ao menos no cristianismo. Dos dez aos dezessete anos estudou no Paedagogium de Francke, em Halle. O rigor da casa o repelia, mas aos poucos ele chegou a apreciar o zelo de Francke, e sua natureza religiosa foi avivada em 1715, por ocasião da primeira comunhão. A insistência da família em que seguisse carreira pública levou-o a Wittenberg, de 1716 a 1719, para estudar direito. Embora pietista decidido, suas experiências em Wittenberg deram-lhe um sentimento mais benévolo do que antes para com o luteranismo ortodoxo. Em 1719 e 1720 fez uma longa viagem à Holanda e à França, travando conhecimento com muitos homens ilustres e deixando claros, ainda que com tato, os seus princípios religiosos. Na viagem de volta, passando por Castell, apaixonou-se pela prima, mas, julgando que o conde Heinrich XXIX, de Reuss, era pretendente mais favorecido, renunciou às suas pretensões, crendo que com isso Deus lhe indicava alguma obra a realizar. Acabou por casar-se, em 1722, com a irmã do conde Heinrich, Erdmute Dorothea, que foi para ele uma esposa de grande afinidade.

O desejo dos parentes levou-o a entrar no serviço eleitoral em Dresden, em 1721. Seu interesse principal, porém, era cultivar a “religião do coração”, no sentido pietista, entre os amigos de Dresden e, mais ainda, em sua propriedade de Berthelsdorf, cerca de setenta milhas a leste de Dresden, onde, como patrono, nomeou para o pastorado o amigo de mesmas ideias Johann Andreas Rothe. Ali, de modo inteiramente inesperado, viria ao seu encontro a obra da sua vida.

A antiga igreja hussita da Boêmia tinha caído em dias maus. Parte dela encontrara refúgio na Polônia, onde mantivera por muito tempo sua constituição episcopal; mas, vendo crescer as dificuldades, preservara-a persuadindo Daniel Ernst Jablonski, pregador calvinista da corte de Frederico III em Berlim, ligado por ascendência e formação à igreja hussita polonesa, a aceitar a ordenação ao episcopado em 1699. As consequências da Guerra dos Trinta Anos para o protestantismo boêmio tinham sido devastadoras, e ele persistira na Boêmia e na vizinha província da Morávia apenas às escondidas e sob perseguição. Já em 1722 os morávios de língua alemã começaram a buscar refúgio na Saxônia, sob a liderança do carpinteiro Christian David. Zinzendorf permitiu-lhes fundar uma aldeia em sua propriedade de Berthelsdorf, a que deram o nome de Herrnhut, e ali se reuniram em número considerável. A princípio Zinzendorf deu pouca atenção a esses imigrantes, além de lhes conceder refúgio, mas por volta de 1727 assumiu a liderança espiritual deles. A tarefa foi difícil no começo. Os refugiados estavam divididos; seu alvo era uma igreja separada, ao passo que Zinzendorf e Rothe queriam incorporá-los à igreja estatal luterana da Saxônia, embora com reuniões especiais suplementares, como no plano dos collegia pietatis de Spener. Por outro lado, os costumes locais permitiam que uma aldeia organizada se desse uma organização civil e fizesse suas próprias regras. Com base nesses costumes, Herrnhut escolheu em 1727 “anciãos” para a sua direção civil. Zinzendorf, como senhor da propriedade, tinha certo direito indefinido de liderança, e tudo isso foi selado por um culto de comunhão de tamanho poder espiritual em Berthelsdorf, em 13 de agosto de 1727, que essa data costuma ser tida como a do renascimento da Igreja Morávia.

Dessas instituições de liderança da aldeia de Herrnhut, originalmente civis, logo nasceu uma organização espiritual. Do corpo de anciãos desenvolveu-se uma comissão executiva de quatro membros, que por volta de 1730 já era vista como exercendo funções ministeriais. Criou-se um ancionato geral, cujo primeiro titular, em 1733, foi Leonhard Dober. A Zinzendorf a sociedade de Herrnhut logo pareceu um corpo de soldados de Cristo, destinados a promover a sua causa na pátria e no estrangeiro: um novo monaquismo protestante sem votos nem celibato, mas ligado ao seu Senhor pela oração e pelo culto diários. Por volta de 1728 os rapazes e as moças foram separados da vida familiar comum, e cada grupo foi posto sob rigorosa supervisão. As crianças eram criadas longe dos pais, à maneira do Orfanato de Halle. A comunidade chegou a tentar regular as escolhas matrimoniais. O ideal era o de uma comunidade separada do mundo, mas pronta a enviar forças para trabalhar em qualquer parte pelo reino de Cristo. Duas tendências, porém, confundiam esse desenvolvimento. O elemento morávio teria visto com gosto o estabelecimento de uma denominação separada, um pleno renascimento da antiga Igreja Morávia. Zinzendorf apegava-se firmemente à ideia pietista de uma ecclesiola in ecclesia. Queria mantê-los como parte da igreja estatal luterana, apenas um grupo especial dentro dela, onde se cultivasse uma vida espiritual mais calorosa, uma “religião do coração”. O movimento logo encontrou muita oposição, não só dos luteranos ortodoxos, mas também dos pietistas, tanto pelas peculiaridades de Herrnhut quanto por seu caráter separatista. No conjunto, as tendências separatistas foram lentamente prevalecendo.

A disposição morávia de ir a qualquer parte a serviço de Cristo logo deu ao movimento um nobre desenvolvimento missionário, que ele jamais perdeu. Nenhum corpo protestante estivera tão desperto para o dever das missões, e nenhum, em proporção ao número de membros, se consagra tanto a esse serviço até hoje. Uma viagem a Copenhague para assistir à coroação de Cristiano VI (1730-1746) da Dinamarca pôs Zinzendorf em contato com nativos das Índias Ocidentais dinamarquesas e da Groenlândia. Zinzendorf voltou a Herrnhut inflamado de entusiasmo missionário. Em consequência, Leonhard Dober e David Nitschmann iniciaram em 1732 uma missão nas Índias Ocidentais, e Christian David e outros, em 1733, na Groenlândia. Dois anos depois, um grupo considerável, chefiado por August Gottlieb Spangenberg (1704-1792), começou a trabalhar na Geórgia. Para essa obra de expansão, Nitschmann foi ordenado bispo por Jablonski em 1735, o primeiro da sucessão morávia moderna.

Enquanto isso, as relações de Zinzendorf com o governo saxônico iam ficando tensas. As autoridades austríacas queixavam-se, sem fundamento, de que ele aliciava seus súditos. Renovaram-se as queixas eclesiásticas, e em 20 de março de 1736 ele foi banido da Saxônia. Zinzendorf encontrou oportunidade de prosseguir sua obra em Ronneburg, no oeste da Alemanha, e nas províncias bálticas. Em 1737 foi ordenado bispo por Jablonski em Berlim. Em 1738-1739 viajou às Índias Ocidentais; em 1741 estava em Londres, onde a obra morávia já se desenvolvia havia vários anos. Em dezembro de 1741 Zinzendorf estava em Nova York e, no Natal, deu o nome de Belém ao povoado que morávios vindos da Geórgia começavam a estabelecer na Pensilvânia, cidade destinada a tornar-se a sede americana do movimento. A permanência de Zinzendorf na América foi cheia de atividade. Esforçou-se muito pela união de todas as forças protestantes alemãs dispersas na Pensilvânia, iniciou missões entre os índios, organizou sete ou oito congregações morávias e fundou escolas. Estabeleceu-se um ministério itinerante sob a supervisão de Peter Böhler. Em janeiro de 1743 Zinzendorf embarcou para a Europa, e em dezembro de 1744 Spangenberg foi posto à frente de toda a obra americana, como bispo. O mais famoso missionário entre os índios foi David Zeisberger (1721-1808), que trabalhou entre os creeks da Geórgia a partir de 1740 e, de 1743 até a morte, entre os iroqueses.

Herrnhut tornou-se assim uma colmeia de atividade missionária. Iniciaram-se missões no Suriname, na Guiana, no Egito e na África do Sul. Em 1771, depois de repetidas tentativas, estabeleceu-se uma missão permanente no Labrador. Os nomes dos primeiros campos missionários mostram uma característica do esforço morávio. Eram, em geral, lugares difíceis, que exigiam paciência e devoção singulares, e esse traço caracteriza o trabalho missionário morávio até hoje.

Enquanto isso, apesar da aversão de Zinzendorf ao separatismo, o moravianismo ia se tornando cada vez mais uma igreja. Em 1742 foi reconhecido como tal pelo governo da Prússia. Por volta de 1745 a Igreja Morávia estava inteiramente organizada, com bispos, anciãos e diáconos, embora seu governo fosse, e ainda seja, mais presbiteriano que episcopal. O Parlamento inglês, por uma lei de 1749, reconheceu-a como “uma antiga Igreja Protestante Episcopal”. Zinzendorf, contudo, não abandonou sua teoria de uma ecclesiola in ecclesia. As negociações com as autoridades saxônicas resultaram em sua volta do exílio em 1747, na aceitação da Confissão de Augsburgo pelo corpo morávio no ano seguinte e em seu reconhecimento, em 1749, como parte da igreja estatal saxônica, com seus próprios cultos especiais. A essa altura o moravianismo desenvolvia uma liturgia de grande beleza e uma hinódia de grande riqueza.

Durante o tempo do exílio, Zinzendorf e alguns morávios desenvolveram certas peculiaridades teológicas e culturais que foram fonte de críticas merecidas. Sua ênfase na relação com Cristo como o coração da religião assumia às vezes uma expressão sentimental, na palavra e no hino. Como Cristo, a seu ver, era o Criador, nossa relação com Deus Pai é a relação com o Pai de Cristo. Como o Espírito Santo opera o novo nascimento, a designação “Mãe” parecia-lhe apropriada. Zinzendorf sempre deu grande destaque aos sofrimentos de Cristo e relacionava a experiência cristã com as suas chagas de um modo ao mesmo tempo fantasioso e sentimental. Isso se dava de modo especial com o seu lado ferido. Zinzendorf representava a igreja como tirada do lado de Cristo, como Eva do lado de Adão. Sua insistência em que os cristãos devem tornar-se como criancinhas para entrar no reino de Deus levou a muita puerilidade de expressão. Essas peculiaridades chegaram ao auge entre 1747 e 1749, mas em grande medida corrigiram-se por si mesmas. Os próprios morávios chamaram esse período de “o tempo da peneira”. O próprio Zinzendorf acabou por afastar-se delas em grande parte. Seja como for, devem ser vistas apenas como manchas no caráter de alguém que podia dizer de sua devoção a Cristo, como poucos podem: “Tenho uma só paixão. É Ele.”

A vida de Zinzendorf de 1749 a 1755 passou-se sobretudo na Inglaterra. Tinha gasto sua fortuna sem reservas com os morávios e via-se agora quase falido. Suas dívidas foram assumidas, como era justo, pelo corpo morávio e saldadas aos poucos. Essa necessidade financeira levou a um avanço na organização constitucional morávia. Estabeleceu-se uma diretoria colegiada, que logo se tornou um conselho de controle encarregado de supervisionar os assuntos morávios, e as contribuições pagas pelas diversas congregações logo levaram à sua representação num sínodo geral, reunido em intervalos regulares.

Os últimos anos de Zinzendorf foram dedicados sobretudo às atividades pastorais. Suas forças tinham sido gastas com prodigalidade, e ele perdera a esposa e o único filho. Morreu em Herrnhut em 9 de maio de 1760.

A Igreja Morávia, que Zinzendorf tanto fizera para renovar e inspirar, estava firmemente assentada, de modo que sua morte não abriu nenhuma brecha séria. Foi uma felicidade, porém, que a liderança prática coubesse a Spangenberg, chamado da América a Herrnhut em 1762, que continuou a dirigi-la até a morte, trinta anos depois. Sem o gênio e o entusiasmo de Zinzendorf, distinguia-se por igual devoção, grande senso prático e elevada capacidade de organização. Sob sua direção firme e sábia o moravianismo fortaleceu-se e cresceu; suas peculiaridades criticadas foram, em geral, abandonadas. Sua obra foi discreta e sem brilho, mas inteiramente útil. A Igreja Morávia ocupou o lugar que lhe cabia entre as famílias da cristandade. Ganhou crescente boa vontade na Alemanha, embora restasse o bastante das ecclesiolae in ecclesia de Zinzendorf para impedir um rápido crescimento numérico naquele país.

Seção VII. Wesley e o metodismo

A condição da religião na Inglaterra no início do século XVIII já foi descrita (ver seção III deste período). O fim das lutas do século XVII fora marcado por uma letargia espiritual generalizada, tanto na igreja oficial quanto entre os dissidentes. O racionalismo penetrara todas as correntes do pensamento religioso, de modo que mesmo entre os ortodoxos o cristianismo parecia pouco mais que um sistema de moral apoiado por sanções divinas. Butler (ver seção III deste período) pode servir de exemplo típico. Suas frias probabilidades talvez tenham convencido alguns intelectos, mas poucos homens terão levado à ação. Havia pregadores capazes, mas o sermão característico era o ensaio incolor sobre as virtudes morais. O trabalho de alcance aos que estavam fora das igrejas era muito escasso. A condição das classes baixas era de penúria espiritual. As diversões populares eram grosseiras, o analfabetismo, generalizado, a lei, selvagem na aplicação, e as prisões, sentinas de doença e iniquidade. A embriaguez estava mais disseminada do que em qualquer outro período da história inglesa.

Além disso, a Grã-Bretanha estava às vésperas da revolução industrial que, no último terço do século XVIII, a transformaria de país agrícola em país manufatureiro. James Watt (1736-1819) patenteou em 1769 a primeira máquina a vapor realmente eficiente. James Hargreaves (?-1778) patenteou a spinning-jenny [N. do T.: máquina de fiar de múltiplos fusos] em 1770. Richard Arkwright (1732-1792) lançou a máquina de fiar em 1768. Edmund Cartwright (1743-1823) inventou o tear mecânico em 1784. Josiah Wedgwood (1730-1795) deu eficiência às olarias de Staffordshire a partir de 1762. As mudanças industriais e sociais, e os problemas delas decorrentes, foram da mais ampla importância e implicavam, por si mesmas, reajustes de imensa consequência religiosa prática.

Não faltaram, no início do século XVIII, homens e movimentos que apontavam para algo melhor. O zelo missionário do bispo Berkeley já foi visto (ver seção III deste período). William Law não só foi vigoroso adversário do deísmo (ver seção III deste período), como seu Serious Call to a Devout and Holy Life [Um chamado sério a uma vida devota e santa], de 1728, influiu profundamente em John Wesley e continua a ser um dos monumentos da literatura exortativa inglesa, embora, receia-se, hoje pouco lido. O congregacionalista Isaac Watts (1674-1748), há muito esquecido como teólogo, foi com razão chamado “o fundador da hinódia inglesa moderna”. Seus Hymns [Hinos], de 1707, e The Psalms of David, Imitated in the Language of the New Testament [Os salmos de Davi imitados na linguagem do Novo Testamento], de 1719, derrubaram o preconceito então existente, dos dois lados do Atlântico, nos círculos de língua inglesa não episcopais, contra o uso de qualquer coisa que não fossem passagens rimadas da Escritura. Exprimem uma piedade profunda e viva.

Faziam-se alguns esforços conjuntos de importância em favor de uma vida religiosa mais calorosa. Tais eram as “sociedades”, a primeira das quais foi formada por um grupo de rapazes em Londres por volta de 1678, para a oração, a leitura das Escrituras, o cultivo da vida religiosa, a comunhão frequente, o auxílio aos pobres, aos soldados, aos marinheiros e aos presos, e o incentivo à pregação. Espalharam-se rapidamente. Por volta de 1700 havia quase cem só em Londres, e encontravam-se em muitas partes da Inglaterra e até na Irlanda. Uma dessas sociedades foi formada pelo pai de John Wesley, Samuel Wesley, em Epworth, em 1702. Em muitos aspectos assemelhavam-se aos collegia pietatis de Spener (ver seção V deste período), mas não tiveram um Spener que as promovesse. Compunham-se quase exclusivamente de comungantes da igreja oficial. Muitos do clero viam o movimento como “entusiasta”, ou, como hoje se diria, fanático, e depois de 1710 ele declinou sensivelmente, embora as “sociedades” fossem continuar e ter importância nos começos do metodismo. Essas “sociedades” deram o modelo a uma obra de maior alcance, iniciada por Thomas Bray (1656-1730). Bray foi nomeado em 1696 comissário de Henry Compton, bispo de Londres (1675-1713), em Maryland, e em 1699 e 1700 esteve naquela colônia fortalecendo as igrejas anglicanas. Impressionado com a necessidade de Bíblias, bibliotecas e literatura religiosa, fundou, em 8 de março de 1699, a Sociedade para a Promoção do Conhecimento Cristão. A Convocação apoiou-a e levou à fundação, em 27 de junho de 1701, da Sociedade para a Propagação do Evangelho em Terras Estrangeiras, que viria a tornar-se uma grande sociedade missionária. Ambas têm levado adiante sua obra em medida crescente até hoje. Ambas eram estritamente anglicanas, e à obra da segunda se deveram principalmente a implantação do episcopado na Nova Inglaterra e seu desenvolvimento nas colônias americanas.

Esses esforços, contudo, eram na melhor das hipóteses locais e parciais em sua influência. A massa do povo da Inglaterra estava em letargia espiritual, embora cegamente consciente do pecado e convencida da realidade da recompensa e da retribuição futuras. Não se haviam despertado emoções de lealdade a Cristo, de salvação por meio dele, de uma fé presente e transformadora. Era preciso o apelo de uma intensa seriedade espiritual, dirigido à convicção do coração, e não a considerações de prudência ou a frios argumentos lógicos. Que uma profunda transformação se tenha operado na Inglaterra, cujos resultados correram em torrentes benfazejas para todas as terras de língua inglesa, foi obra principalmente de três homens: os irmãos John e Charles Wesley e George Whitefield, cujos trabalhos haveriam de tornar a Inglaterra e a América espiritualmente muito diferentes e deixaram essas terras em dívida permanente com eles.

Os pais dos irmãos Wesley eram de ascendência não conformista. Os dois avôs tinham estado entre os clérigos expulsos de 1662. O pai, Samuel Wesley (1662-1735), preferira o ministério da igreja oficial e foi, de 1695 até a morte, reitor da rude paróquia rural de Epworth. Homem de fervorosa disposição religiosa, era um tanto pouco prático; escreveu uma Life of Christ [Vida de Cristo] em verso e um comentário ao livro de Jó. A mãe, Susanna (Annesley), era mulher de notável força de caráter e, como o marido, anglicana devotada. Os filhos herdaram muito de ambos, mas talvez mais energia da mãe. Numa casa de dezenove filhos, ainda que oito tenham morrido na infância, trabalho duro e economia rigorosa eram forçosamente a regra. Dessa grande prole, John era o décimo quinto e Charles o décimo oitavo.

John Wesley nasceu em 17 de junho de 1703, Charles em 18 de dezembro de 1707. Ambos foram salvos com dificuldade do incêndio da casa paroquial em 1709, acontecimento que deixou uma impressão indelével no espírito de John, que dali em diante se considerou literalmente “um toco de lenha tirado do fogo”. Em 1714 John entrou na Charterhouse School, em Londres, e Charles, dois anos depois, na Westminster School. Os dois meninos distinguiram-se nos estudos. Em 1720 John ingressou no Christ Church College, em Oxford, para onde Charles o seguiu seis anos depois, e tal era o preparo intelectual de John que, em 1726, foi eleito fellow do Lincoln College. Para candidatar-se a essa honra, John precisava estar nas ordens sacras, e por isso, em 25 de setembro de 1725, foi ordenado diácono. Com a ordenação começaram as lutas espirituais que durariam até a sua conversão, em 1738, e talvez, em certo sentido, além dessa data.

De 1726 a 1729 John Wesley foi, na maior parte do tempo, auxiliar do pai. Em 22 de setembro de 1728 foi ordenado presbítero. Durante sua ausência de Oxford, na primavera de 1729, Charles Wesley e dois colegas, Robert Kirkham e William Morgan, formaram um pequeno clube, voltado em primeiro lugar para o progresso nos estudos, mas que logo passou à leitura de livros edificantes e à comunhão frequente. Ao voltar a Oxford em novembro de 1729, John Wesley tornou-se o líder do grupo, que logo atraiu outros estudantes. Sob sua orientação, o grupo procurou realizar os ideais de William Law de uma vida consagrada. Por influência de Morgan, começou em agosto de 1730 a visitar os presos da cadeia de Oxford. Os membros jejuavam. Seus ideais eram de alta igreja. Eram ridicularizados pela universidade. Chamavam-nos de “Clube Santo”, e por fim algum estudante achou um apelido que pegou, os “metodistas”, embora o nome já circulasse no século anterior. Ainda estavam muito longe do que o metodismo viria a ser. Eram ainda um grupo penosamente empenhado em operar a salvação da própria alma. No estado em que então se achavam, pareciam-se mais com o movimento anglo-católico do século XIX do que com o metodismo da história.

Uma adesão importante ao clube, no começo de 1735, foi George Whitefield. Nascido em Gloucester em 16 de dezembro de 1714, filho de um estalajadeiro, crescera na pobreza e entrara em Oxford em 1733. Uma doença grave na primavera de 1735 trouxe uma crise à sua experiência religiosa, da qual saiu com a jubilosa consciência da paz com Deus. Em junho de 1736 Whitefield buscou e recebeu a ordenação episcopal e, jovem como era, logo começou sua maravilhosa carreira de pregador. Nenhum anglo-saxão do século XVIII mostrou tal poder no púlpito. Homem absolutamente sem espírito denominacional, numa época em que esse espírito costumava ser intenso, estava pronto a pregar em qualquer lugar e em qualquer púlpito que se lhe abrisse. Às vezes censurava a autenticidade de experiências religiosas diferentes da sua, mas sua natureza era no mais alto grau simples e desinteressada. Sua mensagem era o evangelho da graça perdoadora de Deus, da paz pela aceitação de Cristo pela fé e da consequente vida de serviço alegre. Os poucos sermões que deixou impressos dão pouca ideia do seu poder. Dramático, comovente, persuasivo, com uma voz de expressividade maravilhosa, tinha diante de si os auditórios de dois continentes como cera derretida. Grande parte do seu ministério ativo passou-se na América. Em 1738 estava na Geórgia. Em 1739 voltou à América, e sua pregação na Nova Inglaterra em 1740 foi acompanhada do maior abalo espiritual jamais visto ali, o “Grande Despertamento”; nem foi menor o seu êxito nas colônias do centro, embora ali e na Nova Inglaterra houvesse grande divisão de opiniões quanto ao valor espiritual permanente de sua obra. Os anos de 1744 a 1748 viram-no de novo deste lado do Atlântico, mais uma vez em 1751 e 1752, e de novo em 1754 e 1755. Sua sexta visita foi de 1763 a 1765. Em 1769 veio para a última viagem de pregação e morreu em Newburyport, Massachusetts, em 30 de setembro de 1770. Entregara-se sem reservas ao serviço das igrejas americanas de todas as famílias protestantes. Não era organizador. Não deixou partido que levasse o seu nome, mas despertou milhares.

Nenhum dos líderes do Clube Metodista estava destinado a permanecer muito tempo em Oxford, nem o movimento teve grande influência sobre a universidade, que estava então em maré baixa de estudos e de religião. A morte do pai, em 25 de abril de 1735, a quem John Wesley de bom grado teria sucedido em Epworth, se possível, deixou os Wesley menos presos ao lar, e ambos conseguiram então emprego como missionários na nova colônia da Geórgia, cuja colonização fora iniciada pelo general Oglethorpe em 1733. Embarcaram em outubro de 1735. Na viagem foram incansáveis nos exercícios religiosos e nos esforços pelos companheiros de viagem; mas no navio ia um grupo de vinte e seis morávios, chefiados pelo bispo David Nitschmann. A coragem serena desse grupo numa tempestade convenceu John Wesley de que os morávios tinham uma confiança em Deus que ele ainda não possuía. Aprendeu muito com eles. Pouco depois de chegar a Savannah, encontrou Spangenberg (ver seção VI deste período), que lhe fez a pergunta embaraçosa: “O senhor conhece Jesus Cristo?” Wesley respondeu: “Sei que ele é o Salvador do mundo.” Spangenberg replicou: “É verdade, mas o senhor sabe que ele salvou o senhor?”

Os trabalhos dos Wesley na Geórgia foram árduos, mas muito malsucedidos. Charles Wesley voltou para casa em 1736, desgostoso e doente. John continuou. Mostrou sua extraordinária capacidade linguística dirigindo cultos em alemão, francês e italiano. Em maio de 1737 fundou em Savannah uma pequena sociedade para o cultivo de uma vida religiosa mais calorosa. Trabalhou incansavelmente, mas com pouca paz de espírito e pouco conforto para os outros. Era um homem de alta igreja meticuloso. Faltava-lhe tato. Um caso notório foi o de Sophy Hopkey, mulher em tudo adequada para ser sua esposa. Deu a ela e aos amigos dela todo motivo para crer que suas intenções eram sérias, mas oscilava entre o celibato clerical e um possível casamento. Um veio de superstição, sempre presente em Wesley, que o levava a decidir questões importantes pelo primeiro versículo da Escritura em que abrisse a Bíblia, ou tirando a sorte, levou-o agora a este último método para decidir sobre o casamento. A sorte foi contrária, e Wesley naturalmente despertou o ressentimento da moça e dos parentes dela. Por despeito, ela casou-se às pressas com outro pretendente. O marido opôs-se a que ela continuasse a participar das conversas religiosas íntimas de Wesley. Wesley passou então a achar que ela não se preparava devidamente para a comunhão e recusou-lhe o sacramento. Não admira que os amigos dela acusassem o ato de ser o de um pretendente despeitado. A influência de Wesley na Geórgia estava acabada. Moveram-se processos contra ele. Teve de deixar a colônia às escondidas. Em 1º de fevereiro de 1738 John Wesley estava de volta à Inglaterra. Como na viagem de ida, tivera medo da morte. Na amargura da decepção, só conseguia dizer: “Tenho uma religião de tempo bom.” Era, contudo, um pregador de poder notável e trabalhara sem se poupar. Cometera muitos erros, mas não dos que revelam falta de consagração cristã.

Felizmente para o seu estado de angústia, menos de uma semana depois da volta de John Wesley os dois irmãos estavam em convívio familiar com um morávio, Peter Böhler, retido em Londres até maio a caminho da Geórgia. Böhler ensinava uma fé de completa entrega de si, uma conversão instantânea e uma alegria no crer. Mas, embora antes de embarcar Böhler tenha organizado uma “sociedade”, mais tarde conhecida como “Sociedade de Fetter Lane”, da qual John Wesley foi um dos membros fundadores, nenhum dos irmãos estava ainda em paz. Essa experiência, a sua “conversão”, veio a Charles Wesley, então sofrendo de doença grave, em 21 de maio de 1738. Na quarta-feira, 24 de maio, a experiência transformadora veio a John. Naquela noite, como ele registrou, foi de má vontade a uma “sociedade” anglicana na Aldersgate Street, em Londres, e ouviu ler o prefácio de Lutero ao Comentário sobre Romanos. “Cerca de um quarto para as nove, enquanto ele [Lutero] descrevia a mudança que Deus opera no coração pela fé em Cristo, senti meu coração estranhamente aquecido. Senti que confiava em Cristo, só em Cristo, para a salvação; e foi-me dada a certeza de que ele havia tirado os meus pecados, sim, os meus, e me salvara da lei do pecado e da morte.” Sobre o alcance dessa experiência não pode haver dúvida. Determinou dali em diante o juízo de Wesley sobre o modo normal de entrada na vida cristã. Foi a luz de toda a sua percepção teológica. Contudo, foi em certa medida gradualmente, mesmo depois dela, e pregando e observando obra semelhante em outros e pela comunhão com Deus, que ele entrou na plena liberdade do medo e na completa alegria do crer.

John Wesley resolveu conhecer melhor os morávios, que o tinham ajudado até ali. Menos de três semanas depois da conversão, estava a caminho da Alemanha. Encontrou Zinzendorf em Marienborn, passou duas semanas em Herrnhut e em setembro de 1738 estava de volta a Londres. Foi uma visita feliz para Wesley. Viu muito que admirar. Nem tudo, porém, lhe agradou. Achou que Zinzendorf era tratado com deferência excessiva e que a piedade morávia não estava livre de limitações subjetivas. Por mais que devesse aos morávios, Wesley era demasiado ativo em sua atitude religiosa, muito pouco místico, demasiado voltado para os homens em suas necessidades mais amplas, para ser inteiramente morávio.

John e Charles Wesley pregavam agora quando se apresentavam oportunidades, encontrando muitos púlpitos fechados ao seu “entusiasmo” e falando principalmente nas “sociedades” de Londres e arredores. No começo de 1739 Whitefield desenvolvia uma grande obra em Bristol, e ali, em 17 de fevereiro, começou a pregar ao ar livre aos mineiros de carvão de Kingswood. Entrou então em relações amistosas com Howel Harris (1714-1773), que trabalhava com grande êxito, desde 1736, como pregador leigo no País de Gales. Whitefield convidou então John Wesley a Bristol. Wesley hesitou quanto à pregação ao ar livre; mas a oportunidade de anunciar o evangelho aos necessitados era irresistível, e em 2 de abril começou em Bristol o que dali em diante seria sua prática por mais de cinquenta anos, enquanto as forças o permitiram. Charles Wesley logo seguiu seu exemplo. Embora sem o poder dramático de Whitefield, John Wesley era um pregador com poucos iguais em eficácia popular: sério, prático, destemido. Dali em diante percorreria a Inglaterra, a Escócia e a Irlanda. Atacado, sobretudo no início do ministério, exposto à violência das turbas, nenhum perigo o intimidava e nenhuma interrupção o detinha. Sob a sua pregação, como sob a de Whitefield, eram frequentes notáveis manifestações de excitação corporal. Homens e mulheres gritavam, desmaiavam, eram tomados de convulsões. Para os dois pregadores, isso parecia a operação do Espírito de Deus ou a resistência visível do diabo. São acompanhamentos frequentes de grande excitação religiosa entre os ignorantes e descontrolados, e o desfavor com que eram vistos explica boa parte da oposição que esses pregadores encontraram da parte do clero regular.

Os dons de John Wesley como organizador eram excepcionais. Contudo, a criação do metodismo foi obra gradual, uma adaptação dos meios às circunstâncias. Em Bristol fundou em 1739 sua primeira “sociedade” realmente metodista e, em 12 de maio de 1739, começou ali a construção da primeira capela. No fim daquele ano conseguiu em Londres uma antiga “fundição” (a Foundery), que se tornou a primeira capela da cidade.

Até então, em Londres, os metodistas também participavam da Sociedade morávia de Fetter Lane, que Peter Böhler fundara em 1738 (ver acima). Os ideais de Wesley o iam afastando do moravianismo. Essa separação aumentou quando, em outubro de 1739, Philipp Heinrich Molther, recém-chegado da companhia de Zinzendorf, afirmou em Fetter Lane que quem tivesse dúvidas não tinha fé verdadeira e devia abster-se dos sacramentos e da oração, esperando em silêncio até que Deus lhe renovasse a esperança religiosa. Esse ensino encontrou pouca simpatia na vigorosa atividade de Wesley. A Sociedade de Fetter Lane dividiu-se. Wesley e seus amigos retiraram-se e fundaram, em 23 de julho de 1740, uma “Sociedade Unida” puramente metodista na Foundery. Wesley continuou em termos amistosos com alguns dos morávios, mas dali em diante os dois movimentos ficaram independentes um do outro.

Wesley não tinha desejo nem intenção de romper com a Igreja da Inglaterra. Por isso não fundou igrejas, mas tomou para o seu serviço o recurso das antigas “sociedades religiosas”, que agora, porém, deveriam compor-se só de pessoas convertidas. Essas “sociedades” foram desde o início divididas em “bandas”, ou grupos, dentro da sociedade, para o cultivo mútuo da vida cristã. Era um recurso morávio; mas a experiência logo mostrou a Wesley algo mais eficiente. Pouco depois de formada a sociedade de Bristol, Wesley teve a ideia de dar “bilhetes da sociedade” aos que julgava suficientemente firmados para ser membros plenos, e de receber os demais em experiência. Esses bilhetes eram renovados a cada trimestre e ofereciam um meio fácil de depurar a sociedade. A dívida da capela de Bristol levou a uma disposição ainda mais importante. Em 15 de fevereiro de 1742 os membros foram divididos em “classes” de cerca de doze pessoas, cada uma sob um “líder de classe”, encarregado de recolher de cada membro um pêni por semana. O sistema foi introduzido em Londres em 25 de março. Suas vantagens para a supervisão espiritual e a vigilância mútua logo se mostraram ainda maiores que seus méritos financeiros. Logo se tornou um dos traços característicos do metodismo, embora as antigas “bandas” também continuassem por muito tempo.

Wesley teria preferido que toda a pregação fosse feita por homens ordenados, mas poucos do clero simpatizavam com o movimento. Um pregador leigo, Joseph Humphreys, já o ajudava em 1738; mas não se fez uso extenso desse recurso até 1742, quando Thomas Maxfield se tornou regularmente o primeiro do que logo foi um grupo considerável. O crescimento do movimento fez surgir outros oficiais leigos: “mordomos”, para cuidar dos bens, professores para as escolas, “visitadores dos enfermos”, para os deveres que os nomes indicavam. A princípio Wesley visitava todas as “sociedades”, que ficavam sobretudo nas regiões de Londres e Bristol, mas a tarefa logo se tornou grande demais. Em 1744 reuniu os pregadores consigo em Londres: foi a primeira das “Conferências Anuais”. Dois anos depois o campo foi dividido em “circuitos”, com pregadores itinerantes e líderes mais fixos para “auxiliar principalmente num só lugar”. Logo um “assistente”, mais tarde chamado “superintendente”, foi posto à frente de cada “circuito”. Wesley procurou, com publicações adequadas, ajudar o desenvolvimento intelectual de seus pregadores leigos e assegurou-lhes o estudo tanto quanto possível. Tentou em vão obter para eles a ordenação episcopal; mas não permitia que os sacramentos fossem ministrados por homens não ordenados.

Embora Wesley estivesse teologicamente sobre a base comum da tradição doutrinária evangélica e considerasse suas “sociedades” parte da Igreja da Inglaterra, duas questões levaram a considerável controvérsia. Uma dizia respeito à perfeição. Wesley cria ser possível ao cristão alcançar motivos dominantes retos, o amor a Deus e ao próximo, e que tal conquista o libertaria do pecado. Para o juízo cauteloso e sóbrio de Wesley, isso era antes um alvo do que uma realização frequentemente consumada, por mais que assim tenha parecido a alguns de seus seguidores. Nenhum homem foi jamais mais categórico do que ele em que a salvação se evidencia numa vida de obediência ativa e vigorosa à vontade de Deus.

Uma segunda questão dizia respeito à predestinação. Wesley, como a Igreja da Inglaterra em geral no seu tempo, era arminiano, mas herdara dos pais uma hostilidade especial ao calvinismo, que lhe parecia paralisar o esforço moral. Whitefield era calvinista. Uma acalorada troca de cartas ocorreu entre os dois evangelistas em 1740 e 1741. Suas boas relações pessoais logo se restabeleceram em grande medida. Whitefield encontrou em 1748 uma protetora em Selina, condessa de Huntingdon (1707-1791), viúva rica, convertida ao metodismo, mas de caráter dominante demais para sujeitar-se à liderança imperiosa de Wesley. Quis ser o seu próprio Wesley e, como Wesley, fundou e dirigiu “sociedades” e capelas, a primeira em Brighton, em 1761, dando assim início à “Conexão de Lady Huntingdon”. Fez de Whitefield seu capelão. Sua “Conexão” era calvinista. Em 1769 a controvérsia predestinacionista irrompeu com renovada intensidade. Na “Conferência” de 1770, Wesley assumiu uma posição fortemente arminiana. Whitefield morreu naquele ano, mas Wesley foi violentamente atacado por Augustus Toplady (1740-1778), autor do hino “Rock of Ages” (Rocha eterna). Wesley foi defendido por seu devotado discípulo, o suíço John William de la Fléchère (1729-1785), que se estabelecera na Inglaterra e aceitara um benefício na igreja oficial em 1760 (Fletcher de Madeley), onde realizaria uma obra notável. O efeito dessas discussões foi confirmar o caráter arminiano do metodismo wesleyano. Contudo, a “Conexão de Lady Huntingdon” e esses dissidentes calvinistas devem ser vistos como movimentos paralelos, e não hostis. Seu espírito fundamental era essencialmente o mesmo de Wesley.

O movimento metodista cresceu enormemente. John Wesley tinha muitos amigos e auxiliares, mas poucos íntimos que partilhassem suas responsabilidades. Seu irmão Charles por muito tempo tomou parte em suas constantes viagens, mas Charles não tinha a constituição de ferro de John. Depois de 1756 Charles raramente itinerou. Trabalhou em Bristol e, de 1771 até a morte, em 29 de março de 1788, pregou em Londres. Foi sempre mais conservador que John, e mais anglicano. Seu grande serviço foi o de autor de hinos, não só do metodismo, mas de todo o cristianismo de língua inglesa. O casamento imprudente de John com uma viúva, a sra. Mary Vazeille, em 1751, foi infeliz. Ele se dedicou ainda mais sem reservas à sua obra. Sobre todos os múltiplos assuntos do metodismo exerceu uma autoridade sábia, mas absoluta. Naturalmente, à medida que as “sociedades” cresciam e os pregadores se multiplicavam, aumentou a pressão por autorização para ministrar os sacramentos. Wesley resistiu-lhe por muito tempo; mas os homens com ordenação episcopal eram poucos, e a força dos acontecimentos tornou a pressão irresistível, apesar da insistência de Wesley em que seu movimento estava dentro da igreja oficial.

O metodismo foi levado à América por Philip Embury (1728-1773), que começou a trabalhar em Nova York em 1766, e por Robert Strawbridge (?-1781), que atuava em Maryland mais ou menos na mesma época. Um vigoroso pregador dos primeiros tempos foi o capitão Thomas Webb (1724-1796), do exército britânico. Tão promissora era a obra que, em 1771, Wesley enviou Francis Asbury (1745-1816), escolha das mais sábias. Todos esses eram pregadores leigos. Em 1773 realizou-se em Filadélfia a primeira “Conferência” americana. Veio então a tempestade da Guerra da Independência, mas o metodismo cresceu apesar dela. Com a paz, em 1783, a dependência da Inglaterra já não era desejável, e a questão sacramental era ainda mais premente do que na Inglaterra, pois em muitas regiões dos Estados Unidos não havia igrejas episcopais a que os metodistas pudessem recorrer. Wesley tentara em vão, em 1780, obter do bispo de Londres a ordenação de clérigos para a América. Havia muito estava convencido de que bispos e presbíteros na igreja antiga eram uma só ordem. Por isso, como presbítero, sentia-se autorizado a ordenar em caso de necessidade. Em Bristol, em 1º de setembro de 1784, ele e seu discípulo íntimo Thomas Coke (1747-1814), como Wesley presbítero da igreja oficial, ordenaram Richard Whatcoat e Thomas Vasey presbíteros para a América; e no dia seguinte, “assistido por outros ministros ordenados”, “separou” Coke “como superintendente” para a mesma obra. Isso foi de fato uma ruptura com a Igreja da Inglaterra, embora Wesley então não a visse assim. Seu irmão Charles desaprovou o ato. A necessidade era grande, e nenhum crente de convicção não episcopal pode censurar Wesley. Muitas vezes se lamentou que Wesley e a igreja de sua afeição tenham sido assim forçados a separar-se. Teria sido de infinita vantagem encontrar alguma solução que não a divisão; mas, no estado de ideias e de organização então existente, parece quase impossível conceber que arranjo poderia ter sido proposto com êxito.

Com data de 10 de setembro de 1784, Wesley comunicou seu ato aos metodistas americanos e informou-os também de que nomeara Asbury, bem como Coke, “superintendentes”. Em dezembro de 1784, os ministros recém-consagrados por Wesley realizaram uma “conferência” em Baltimore, na qual Asbury foi ordenado “presbítero” e “superintendente”, e “concordou-se em formar uma Igreja Metodista Episcopal”. Em 1788 Coke e Asbury já eram chamados “bispos”, e esse título dali em diante substituiu “superintendente” na América. Uma vez dado esse passo, Wesley, no curso dos anos seguintes, ordenou ministros para a Escócia, Antígua, Terra Nova e, por fim, a Inglaterra.

Outro acontecimento de 1784 foi de grande importância. Wesley fora até então a força dirigente do metodismo. Por uma “Escritura de Declaração” (Deed of Declaration), de 28 de fevereiro, determinou então que os que pregassem nas capelas fossem aqueles que a “Conferência” reconhecesse, e definiu de outros modos os poderes desse corpo. Foi um grande passo para o autogoverno do metodismo.

As forças e as atividades de Wesley continuaram quase sem diminuição até o fim. Em 2 de março de 1791 morreu em Londres, depois de realizar uma obra que revolucionara em grande parte a condição religiosa das classes baixas e médias inglesas e que haveria de influir ainda mais amplamente na América.

Tradução para o português a partir de Williston Walker, A History of the Christian Church (Nova York, Charles Scribner’s Sons, 1918), 1ª edição, conferida com as imagens das páginas; domínio público. As notas são de Walker; as que eram só referência bíblica passaram para o texto. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.