Jerônimo, Cartas pastorais · Carta 53
Apresentação do editor inglês
Jerônimo exorta Paulino, bispo de Nola (sobre quem ver a Carta 58), a estudar com diligência as Escrituras e, para isso, lembra-lhe o zelo pelo saber demonstrado não só pelos mais sábios dentre os pagãos, mas também pelo apóstolo Paulo. Depois, percorrendo em detalhe os dois Testamentos, descreve o conteúdo de cada livro e as lições que dele se podem tirar. Conclui com um apelo a Paulino para que se despoje inteiramente de suas riquezas terrenas e se dedique de todo a Deus. Escrita em 394 d.C.
1. Nosso irmão Ambrósio, junto com os seus pequenos presentes, entregou-me uma carta encantadora, que, embora chegue no começo da nossa amizade, dá garantia de uma fidelidade já provada e de uma afeição de longa data. A verdadeira intimidade, cimentada pelo próprio Cristo, não é aquela que depende de interesses materiais, nem da presença das pessoas, nem de uma lisonja falsa e exagerada; é, antes, uma como a nossa, produzida por um temor comum a Deus e por um estudo conjunto das divinas Escrituras.
Lemos nas histórias antigas que homens percorriam províncias, atravessavam mares e visitavam povos estranhos, somente para ver face a face pessoas que conheciam apenas pelos livros. Assim Pitágoras visitou os profetas de Mênfis; e Platão, além de visitar o Egito e Arquitas de Tarento, explorou com o maior cuidado aquela parte da costa da Itália que outrora se chamava Magna Grécia. Desse modo, o influente mestre ateniense, com cujas lições ressoavam as escolas1 da Academia, tornou-se ao mesmo tempo peregrino e aluno, preferindo modestamente aprender o que outros tinham a ensinar a propor com excesso de confiança as suas próprias opiniões. De fato, a sua busca do saber, que parecia fugir diante dele pelo mundo inteiro, acabou por levá-lo a ser capturado por piratas, que o venderam como escravo a um tirano cruel.2 Assim ele se tornou prisioneiro, servo e escravo; no entanto, como foi sempre filósofo, foi ainda maior do que o homem que o comprou. Lemos também que certos nobres viajaram das partes mais remotas da Hispânia e da Gália para visitar Tito Lívio3 e ouvir a sua eloquência, que corria como uma fonte de leite. Assim, a fama de um só homem teve mais poder para atrair gente a Roma do que os encantos da própria cidade; e aquela época exibiu um prodígio inaudito e digno de nota: homens que, entrando na grande cidade, voltavam a atenção não para ela, mas para outra coisa. Apolônio4 também foi viajante, aquele, digo, que o povo comum chama de mago5 e os seguidores de Pitágoras chamam de filósofo. Entrou na Pérsia, atravessou o Cáucaso e abriu caminho pelos albaneses, pelos citas, pelos masságetas e pelas regiões mais ricas da Índia. Por fim, depois de cruzar aquele largo rio, o Pisom (Gn 2.11), chegou aos brâmanes. Ali viu Hiarcas6 sentado em seu trono de ouro e bebendo da sua fonte de Tântalo, e ouviu-o instruir alguns poucos discípulos sobre a natureza, os movimentos e as órbitas dos corpos celestes. Depois disso viajou entre os elamitas, os babilônios, os caldeus, os medos, os assírios, os partos, os sírios, os fenícios, os árabes e os filisteus.7 Voltando então a Alexandria, seguiu para a Etiópia, a fim de ver os gimnosofistas e a famosa mesa do sol posta nas areias do deserto.8 Em toda parte encontrava algo para aprender e, como estava sempre indo a lugares novos, tornava-se cada vez mais sábio e melhor. Filóstrato escreveu extensamente a história da sua vida em oito livros.
2. Mas por que limitar as minhas alusões aos homens deste mundo, quando o apóstolo Paulo, o instrumento escolhido (At 9.15), o doutor9 dos gentios, que podia dizer com ousadia: “Vocês buscam provas de que Cristo fala em mim?” (2Co 13.3), sabendo que de fato tinha dentro de si aquele que é o maior de todos os hóspedes, quando até ele, depois de visitar Damasco e a Arábia, “foi a Jerusalém para se encontrar com Pedro e ficou quinze dias com ele” (Gl 1.17-18)? Pois quem havia de ser pregador aos gentios precisava ser instruído nos números místicos sete e oito. E de novo, catorze anos depois, tomou consigo Barnabé e Tito e expôs o seu evangelho aos apóstolos, para não correr ou ter corrido em vão (Gl 2.1-2). A palavra falada possui uma força oculta e indefinível, e o ensino que passa diretamente da boca de quem fala para os ouvidos dos discípulos impressiona mais do que qualquer outro. Quando o discurso de Demóstenes contra Ésquines foi recitado diante deste, durante o seu exílio em Rodes, em meio a toda a admiração e aplauso ele suspirou: “Ah, se vocês tivessem ouvido a própria fera pronunciar os seus períodos!”10
3. Não cito esses exemplos por haver em mim algo com que você possa ou queira aprender uma lição, mas para lhe mostrar que o seu zelo e a sua avidez por aprender, mesmo que não possa contar com a minha ajuda, são em si mesmos dignos de louvor. Uma mente disposta a aprender merece elogio mesmo quando não tem mestre. O que me importa não é o que você encontra, mas o que você procura encontrar. A cera é macia e fácil de moldar, ainda que faltem as mãos do artesão e do modelador para trabalhá-la. Ela já é, em potência, tudo aquilo em que pode ser transformada. O apóstolo Paulo aprendeu a Lei de Moisés e os profetas aos pés de Gamaliel e alegrou-se por tê-lo feito, pois, armado com essa armadura espiritual, pôde dizer com ousadia: “as armas da nossa luta não são carnais, mas poderosas em Deus, para destruir fortalezas”; armados com elas, lutamos “destruindo raciocínios e toda arrogância que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo, e estando prontos para punir qualquer desobediência” (2Co 10.4-6). Ele escreve a Timóteo, que fora educado nas sagradas letras desde a infância, exortando-o a estudá-las com diligência (2Tm 3.14-15) e a não negligenciar o dom que lhe fora dado com a imposição das mãos do presbitério (1Tm 4.14). A Tito ordena que, entre as demais virtudes de um bispo (que descreve brevemente), ele cuide de buscar o conhecimento das Escrituras. O bispo, diz ele, deve “ser apegado à palavra fiel, conforme lhe foi ensinada, para que possa exortar pelo reto ensino e convencer os que contradizem” (Tt 1.9). De fato, a falta de instrução num clérigo11 o impede de fazer bem a qualquer outro que não a si mesmo, e, por mais que a virtude da sua vida edifique a igreja de Cristo, ele lhe causa um dano igualmente grande ao deixar de resistir aos que tentam derrubá-la. O profeta Ageu diz, ou melhor, o Senhor diz pela boca de Ageu: “Peça aos sacerdotes que decidam a seguinte questão relacionada com a lei” (Ag 2.11). Pois tal é a importante função do sacerdócio: dar respostas aos que o interrogam a respeito da lei. E em Deuteronômio lemos: “Perguntem aos seus pais, e eles informarão; aos seus anciãos, e eles lhes dirão” (Dt 32.7). Também no salmo cento e dezenove: “Os teus decretos são motivo dos meus cânticos, na casa da minha peregrinação.”12 Davi também, na descrição do justo, que compara à árvore da vida no paraíso, entre as suas outras excelências fala desta: “o seu prazer está na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite” (Sl 1.2). Ao fim da sua visão mais solene, Daniel declara que “os justos brilharão como as estrelas; e os sábios, isto é, os instruídos, como o firmamento” (Dn 12.3). Você vê, portanto, quão grande é a diferença entre a ignorância justa e a justiça instruída. Os que têm a primeira são comparados às estrelas; os que têm a segunda, ao céu. Contudo, segundo o sentido exato do hebraico, ambas as afirmações podem ser entendidas dos instruídos, pois deve ser lido assim: “Os que forem sábios resplandecerão como o fulgor do firmamento, e os que conduzirem muitos à justiça brilharão como as estrelas, sempre e eternamente.” Por que o apóstolo Paulo é chamado instrumento escolhido (At 9.15)? Certamente porque é um repositório da Lei e das santas Escrituras. O ensino erudito de nosso Senhor deixa os fariseus mudos de espanto, e eles se enchem de admiração ao descobrir que Pedro e João conhecem a Lei, embora não tenham aprendido as letras. Pois a estes o Espírito Santo sugeria de imediato aquilo que aos outros vem pelo estudo e pela meditação diários; e, como está escrito (1Ts 4.9), eles eram “instruídos por Deus”. O Salvador mal havia completado doze anos quando ocorreu a cena no templo (Lc 2.46); mas, quando interrogou os anciãos a respeito da Lei, as suas perguntas sábias mais ensinavam do que buscavam informação.
4. Mas talvez devamos chamar de ignorantes Pedro e João, ambos os quais podiam dizer de si mesmos: “embora seja fraco no falar, não o sou no conhecimento” (2Co 11.6). Era João um mero pescador, rude e sem instrução? Se era, de onde tirou as palavras: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1)? Logos, em grego, tem muitos significados. Significa palavra, razão, cálculo e a causa das coisas individuais, pela qual subsistem as que existem. Todas essas coisas nós as predicamos corretamente de Cristo. Essa verdade Platão, com todo o seu saber, não conheceu; dela Demóstenes, com toda a sua eloquência, foi ignorante. “Destruirei”, está dito, “a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência dos inteligentes” (1Co 1.19). A verdadeira sabedoria tem de destruir a falsa, e, embora a loucura da pregação (1Co 1.21) seja inseparável da cruz, Paulo fala “sabedoria entre os que são maduros, não, porém, a sabedoria deste mundo, nem a dos poderosos desta época, que são reduzidos a nada”, mas fala “a sabedoria de Deus em mistério, a sabedoria que estava oculta e que Deus predeterminou antes do mundo” (1Co 2.6-7). A sabedoria de Deus é Cristo, pois Cristo, como nos é dito, é “o poder de Deus e a sabedoria de Deus” (1Co 1.24). Ele é a sabedoria escondida em mistério, da qual também lemos no título do salmo nono: “sobre as coisas ocultas do filho”.13 Nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento. Aquele que estava escondido em mistério é também o mesmo que foi predestinado antes do mundo. Ora, foi na Lei e nos Profetas que ele foi predestinado e prefigurado. Por isso também os profetas eram chamados videntes (1Sm 9.9), porque viam aquele que os outros não viam. Abraão viu o seu dia e alegrou-se (Jo 8.56). Os céus, selados para um povo rebelde, abriram-se para Ezequiel. “Desvenda os meus olhos”, diz Davi, “para que eu contemple as maravilhas da tua lei” (Sl 119.18). Pois “a lei é espiritual” (Rm 7.14), e é necessária uma revelação para que a compreendamos e, quando Deus descobre a sua face, contemplemos a sua glória.
5. No Apocalipse se mostra um livro selado com sete selos (Ap 5.1), o qual, se você o entregar a alguém instruído, dizendo: “Leia isto”, ele lhe responderá: “Não posso, porque está selado” (Is 29.11). Quantos há hoje que se julgam instruídos, e no entanto as Escrituras são para eles um livro selado, que não conseguem abrir senão por meio daquele que tem a chave de Davi, “que abre, e ninguém fechará, e que fecha, e ninguém abrirá” (Ap 3.7)! Nos Atos dos Apóstolos, o santo eunuco (ou melhor, “homem”, pois assim a Escritura o chama), lendo Isaías, quando Filipe lhe pergunta: “O senhor entende o que está lendo?”, responde: “Como poderei entender, se ninguém me explicar?” (At 8.27, 30-31). Para fazer por um momento uma digressão a meu respeito, não sou nem mais santo nem mais diligente do que esse eunuco, que veio da Etiópia, isto é, dos confins do mundo, ao templo, deixando para trás o palácio de uma rainha, e era tão grande amante da Lei e do conhecimento divino que lia as santas Escrituras até em sua carruagem. Contudo, embora tivesse o livro na mão e recebesse na mente as palavras do Senhor, e até as tivesse na língua e as proferisse com os lábios, ainda não conhecia aquele a quem, sem conhecer, adorava no livro. Então veio Filipe e mostrou-lhe Jesus, que estava oculto sob a letra. Maravilhosa excelência do mestre! Na mesma hora o eunuco creu e foi batizado; tornou-se um dos fiéis e um santo. Já não era aluno, mas mestre; e encontrou mais na fonte batismal da igreja, ali no deserto, do que jamais encontrara no templo dourado da sinagoga.
6. Toquei de leve nesses exemplos (os limites de uma carta proíbem tratá-los mais extensamente) para convencê-lo de que nas santas Escrituras você não pode fazer progresso algum se não tiver um guia que lhe mostre o caminho. Nada digo do saber dos gramáticos, retóricos, filósofos, geômetras, dialéticos, músicos, astrônomos, astrólogos e médicos, cujas diversas artes são utilíssimas à humanidade e podem ser agrupadas sob três títulos: a doutrina, o método e a prática. Passarei aos ofícios menos importantes, que exigem mais destreza manual do que capacidade mental. Agricultores, pedreiros, carpinteiros, trabalhadores em madeira e metal, cardadores de lã e pisoeiros, bem como os artesãos que fazem móveis e utensílios baratos, não conseguem alcançar os fins que buscam sem a instrução de pessoas qualificadas. Como diz Horácio:14
Só os médicos professam a arte de curar,
e ninguém, senão os marceneiros, tenta fazer juntas.
7. A arte de interpretar as Escrituras é a única da qual todos, em toda parte, se dizem mestres. Para citar Horácio de novo:
Instruídos ou não, todos escrevemos versos.15
A velha tagarela, o velho caduco e o sofista palavroso, todos sem exceção tomam as Escrituras nas mãos, despedaçam-nas e as ensinam antes de as terem aprendido. Alguns, de sobrancelhas franzidas e com palavras pomposas, equilibradas umas contra as outras, filosofam sobre os escritos sagrados entre mulherzinhas. Outros, coro de vergonha ao dizê-lo, aprendem com mulheres o que hão de ensinar aos homens; e, como se isso não bastasse, explicam ousadamente aos outros aquilo que eles mesmos de modo algum entendem. Nada digo das pessoas que, como eu, estavam familiarizadas com a literatura secular antes de chegarem ao estudo das santas Escrituras. Esses homens, quando encantam o ouvido popular com o primor do estilo, supõem que cada palavra que dizem é uma lei de Deus. Não se dignam a observar o que os profetas e os apóstolos quiseram dizer, mas adaptam passagens discordantes ao seu próprio sentido, como se fosse um grande modo de ensinar, e não antes o mais defeituoso de todos, deturpar as ideias de um escritor e forçar as Escrituras, contra a vontade delas, a fazer o que eles querem. Esquecem que lemos centões de Homero e de Virgílio; mas nunca nos ocorre chamar de cristão o Marão sem Cristo16 por causa destes versos:
Já volta a Virgem, volta o reino de Saturno,
já do alto céu desce uma Criança recém-nascida.17
Outro verso poderia ser dirigido pelo Pai ao Filho:
Salve, Filho único, minha Força e minha Majestade.18
E ainda outro poderia seguir-se às palavras do Salvador na cruz:
Tais palavras disse, e ali permaneceu imóvel.19
Mas tudo isso é pueril e se parece com a prestidigitação de um charlatão. É inútil tentar ensinar o que você não sabe e, se me permite falar com algum calor, pior ainda é ignorar a própria ignorância.
8. O Gênesis, dirão, não precisa de explicação; os seus temas são simples demais: o nascimento do mundo, a origem do gênero humano (Gn 1-2), a divisão da terra (Gn 10), a confusão das línguas (Gn 11) e a descida dos hebreus ao Egito (Gn 46)! O Êxodo, sem dúvida, é igualmente claro, contendo como contém apenas um relato das dez pragas (Êx 7-12), o decálogo (Êx 20) e diversos preceitos misteriosos e divinos! O sentido do Levítico é, naturalmente, evidente por si mesmo, embora cada sacrifício que ele descreve, e mais ainda cada palavra que contém, a descrição das vestes de Arão (Lv 8) e todas as normas relativas aos levitas sejam símbolos de coisas celestiais! E o livro de Números, não são os seus próprios números (Nm 26), a profecia de Balaão (Nm 23-24) e os quarenta e dois acampamentos no deserto20 outros tantos mistérios? O Deuteronômio também, isto é, a segunda lei ou prefiguração da lei do evangelho, não é verdade que, ao expor coisas antes conhecidas, põe velhas verdades sob uma nova luz? Até aqui as “cinco palavras” do Pentateuco, com as quais o apóstolo se gaba de desejar falar na igreja (1Co 14.19). Depois, quanto a Jó,21 esse modelo de paciência, que mistérios não estão contidos nos seus discursos? Começando em prosa, o livro logo desliza para o verso e no fim volta outra vez à prosa. Pelo modo como estabelece proposições, admite postulados, apresenta provas e tira conclusões, ilustra todas as leis da lógica. Palavras isoladas que ocorrem no livro estão cheias de significado. Para não falar de outros temas, profetiza a ressurreição dos corpos humanos com mais clareza e, ao mesmo tempo, com mais cautela do que qualquer um até hoje demonstrou. “Eu sei”, diz Jó, “que o meu redentor vive, e que no último dia ressuscitarei da terra; e serei de novo revestido da minha pele, e na minha carne verei a Deus. Eu mesmo o verei, e os meus olhos o contemplarão, e não outro. Esta minha esperança está guardada no meu peito.”22 Passarei a Jesus, filho de Nave,23 tipo do Senhor tanto no nome quanto nos feitos, que atravessou o Jordão, subjugou reinos inimigos, repartiu a terra entre o povo vencedor e que, em cada cidade, aldeia, monte, rio, torrente e fronteira de que tratou, delineou os domínios espirituais da Jerusalém celestial, isto é, da igreja (Gl 4.26). No livro de Juízes, cada um dos líderes do povo é um tipo. Rute, a moabita, cumpre a profecia de Isaías: “Envia, Senhor, o cordeiro dominador da terra, desde a rocha do deserto até o monte da filha de Sião.”24 Sob as figuras da morte de Eli e da morte de Saul, Samuel mostra a abolição da lei antiga. Além disso, em Zadoque e em Davi, ele dá testemunho dos mistérios do novo sacerdócio e da nova realeza. O terceiro e o quarto livros dos Reis, chamados em hebraico Malachim, contam a história do reino de Judá, de Salomão a Jeconias,25 e a do reino de Israel, de Jeroboão, filho de Nebate, a Oseias, que foi levado para a Assíria. Se você considerar apenas a narrativa, as palavras são bem simples; mas, se olhar por baixo da superfície para o seu sentido oculto, encontrará uma descrição do pequeno número da igreja e das guerras que os hereges movem contra ela. Os doze profetas, cujos escritos estão comprimidos nos estreitos limites de um único volume,26 têm sentidos típicos muito diferentes dos literais. Oseias fala muitas vezes de Efraim, de Samaria, de José, de Jezreel, de uma mulher de prostituições e de filhos de prostituições (Os 1.2), de uma adúltera encerrada no quarto do marido, sentada por muito tempo em viuvez e em trajes de luto, aguardando o tempo em que o marido voltará para ela (Os 3.1, 3-4). Joel, filho de Petuel, descreve a terra das doze tribos despojada e devastada pela lagarta, pelo gafanhoto migrador, pelo gafanhoto e pela ferrugem (Jl 1.4), e prediz que, depois da ruína do povo antigo, o Espírito Santo será derramado sobre os servos e as servas de Deus (Jl 2.29); o mesmo Espírito, isto é, que seria derramado no cenáculo em Sião sobre os cento e vinte crentes (At 1.13, 15). Esses crentes, subindo por graus progressivos e regulares de um a quinze, formam os degraus a que há uma alusão mística nos “salmos dos degraus”.27 Amós, embora seja apenas “um vaqueiro” do campo, “um colhedor de sicômoros” (Am 7.14), não pode ser explicado em poucas palavras. Pois quem é capaz de falar adequadamente das três transgressões e das quatro de Damasco, de Gaza, de Tiro, da Idumeia, de Moabe, dos filhos de Amom e, em sétimo e oitavo lugar, de Judá e de Israel? Ele fala às vacas gordas que estão no monte de Samaria (Am 4.1) e testemunha que a casa grande e a casa pequena cairão (Am 6.11). Ele vê ora o criador do gafanhoto (Am 7.1), ora o Senhor de pé sobre um muro (Am 7.7) rebocado28 ou feito de diamante,29 ora um cesto de frutas (Am 8.1) que traz a ruína aos transgressores, ora uma fome sobre a terra, “não de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do Senhor” (Am 8.11). Obadias, cujo nome significa servo de Deus, troveja contra Edom, vermelho de sangue, e contra a criatura nascida da terra.30 Fere-o com a lança do Espírito por causa da sua contínua rivalidade com seu irmão Jacó. Jonas, a mais bela das pombas, cujo naufrágio mostra em figura a paixão do Senhor, chama o mundo ao arrependimento e, enquanto prega a Nínive, anuncia a salvação a todos os pagãos. Miqueias, o morastita, coerdeiro de Cristo,31 anuncia o despojamento da filha do salteador e lhe põe cerco, porque ela feriu a queixada do juiz de Israel.32 Naum, o consolador do mundo, repreende “a cidade sanguinária”33 e, quando ela é derrubada, exclama: “Eis sobre os montes os pés do que anuncia boas-novas!” (Na 1.15). Habacuque, como um lutador forte e inflexível,34 põe-se na sua torre de vigia e firma o pé sobre a fortaleza (Hc 2.1), para contemplar Cristo na cruz e dizer: “A sua glória cobriu os céus, e a terra ficou cheia do seu louvor. E o seu resplendor era como a luz; chifres saíam da sua mão: e ali estava o esconderijo do seu poder” (Hc 3.3-4). Sofonias, isto é, o guarda-costas e conhecedor dos segredos do Senhor,35 ouve “um grito desde a porta dos Peixes, e um uivo desde a segunda, e um grande estrondo desde as colinas” (Sf 1.10). Ele proclama “uivo aos moradores do Morteiro;36 pois todo o povo de Canaã está arruinado; todos os que estavam carregados de prata foram exterminados” (Sf 1.11). Ageu, isto é, aquele que está alegre ou jubiloso, que semeou com lágrimas para colher com alegria (Sl 126.5), ocupa-se da reconstrução do templo. Ele apresenta o Senhor (o Pai, isto é) dizendo: “Mais uma vez, daqui a pouco, farei tremer os céus, a terra, o mar e a terra seca; e farei tremer todas as nações, e virá aquele que é desejado37 por todas as nações” (Ag 2.6-7). Zacarias, aquele que se lembra do seu Senhor,38 nos dá muitas profecias. Ele vê Jesus,39 “vestido com roupas muito sujas” (Zc 3.3), uma pedra com sete olhos (Zc 3.9), um candelabro todo de ouro com tantas lâmpadas quantos são os olhos, e duas oliveiras, à direita do vaso (Zc 4.2-3) e à esquerda. Depois de descrever os cavalos vermelhos, pretos, brancos e malhados (Zc 6.1-3), e a eliminação do carro de Efraim e do cavalo de Jerusalém (Zc 9.10), passa a profetizar e predizer um rei que será pobre e que montará “num jumentinho, cria de jumenta” (Zc 9.9). Malaquias, o último de todos os profetas, fala abertamente da rejeição de Israel e do chamado das nações: “Eu não tenho prazer em vocês, diz o Senhor dos Exércitos, nem aceitarei oferta da mão de vocês. Pois, desde o nascente do sol até o poente, é grande o meu nome entre as nações; e em todo lugar se oferece incenso40 ao meu nome, e uma oferta pura” (Ml 1.10-11). Quanto a Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel, quem pode compreendê-los plenamente ou explicá-los adequadamente? O primeiro deles parece compor não uma profecia, mas um evangelho. O segundo fala de uma vara de amendoeira (Jr 1.11), de uma panela fervente com a boca voltada para o norte (Jr 1.13) e de um leopardo que mudou as suas manchas (Jr 13.23). Ele também percorre quatro vezes o alfabeto, em metros diferentes.41 O começo e o fim de Ezequiel, o terceiro dos quatro, estão envoltos em tão grande obscuridade que, como o início do Gênesis, não são estudados pelos hebreus antes dos trinta anos de idade. Daniel, o quarto e último dos quatro profetas, tendo conhecimento dos tempos e interessando-se pelo mundo inteiro, proclama em linguagem clara a pedra cortada do monte sem auxílio de mãos, que derruba todos os reinos (Dn 2.45). Davi, que é o nosso Simônides, o nosso Píndaro e o nosso Alceu, o nosso Horácio, o nosso Catulo e o nosso Sereno, tudo num só, canta Cristo à sua lira; e num saltério de dez cordas o chama do mundo inferior para que ressuscite. Salomão, amante da paz42 e do Senhor, corrige os costumes, ensina a natureza, une Cristo e a igreja e canta um doce cântico nupcial43 para celebrar aquelas santas núpcias. Ester, tipo da igreja, livra o seu povo do perigo e, depois de matar Hamã, cujo nome significa iniquidade, transmite à posteridade um dia memorável e uma grande festa.44 O livro das coisas omitidas45 ou epítome da antiga aliança46 é de tal importância e valor que, sem ele, quem reclamasse para si o conhecimento das Escrituras faria de si mesmo motivo de riso aos próprios olhos. Cada nome usado nele, e até a ligação das palavras, serve para lançar luz sobre narrativas omitidas nos livros dos Reis e sobre questões suscitadas pelo evangelho. Esdras e Neemias, isto é, o ajudador do Senhor e o seu consolador, estão unidos num só livro. Eles restauram o templo e reconstroem os muros da cidade. Nas suas páginas vemos a multidão dos israelitas que volta à terra natal, lemos sobre sacerdotes e levitas, sobre o Israel propriamente dito e sobre os prosélitos; e somos até informados das diversas famílias a que foi atribuída a tarefa de construir os muros e as torres. Essas referências transmitem um sentido na superfície, mas outro por baixo dela.
9. [Em Migne, 8.] Você vê como, levado pelo meu amor às Escrituras, ultrapassei os limites de uma carta e, no entanto, não alcancei plenamente o meu objetivo. Ouvimos apenas aquilo que devemos conhecer e desejar, para que também nós possamos dizer com o salmista: “A minha alma se desfaz no ardentíssimo desejo que tem sempre dos teus juízos” (Sl 119.20). Mas o dito de Sócrates sobre si mesmo, “só sei que nada sei”,47 cumpre-se também no nosso caso. Do Novo Testamento tratarei brevemente. Mateus, Marcos, Lucas e João são a quadriga do Senhor,48 os verdadeiros querubins, ou depósito do conhecimento.49 Neles o corpo inteiro é cheio de olhos,50 eles cintilam como faíscas (Ez 1.7), correm e voltam como relâmpagos (Ez 1.14), os seus pés são pés retos (Ez 1.7) e erguidos, e as suas costas também têm asas, prontas para voar em todas as direções. Mantêm-se unidos um ao outro e estão entrelaçados entre si (Ez 1.11); como rodas dentro de rodas, avançam rolando (Ez 1.16) e vão para onde quer que o sopro do Espírito Santo os leve (Ez 1.20). O apóstolo Paulo escreve a sete igrejas51 (pois a oitava epístola, a dos Hebreus, não costuma ser contada com as demais). Ele instrui Timóteo e Tito; intercede junto a Filemom pelo seu escravo fugitivo.52 Sobre ele julgo melhor nada dizer do que escrever de modo insuficiente. Os Atos dos Apóstolos parecem relatar uma simples narrativa sem adornos, que descreve a infância da igreja recém-nascida; mas, quando percebemos que o seu autor é Lucas, o médico, cujo louvor está no evangelho (Cl 4.14; 2Co 8.18), veremos que todas as suas palavras são remédio para a alma enferma. Os apóstolos Tiago, Pedro, João e Judas publicaram sete epístolas ao mesmo tempo espirituais e precisas, breves e longas: breves, isto é, nas palavras, mas longas na substância, de modo que são poucos os que não se sentem às escuras ao lê-las. O Apocalipse de João tem tantos mistérios quanto palavras. Ao dizer isso, disse menos do que o livro merece. Todo louvor a ele é insuficiente; múltiplos sentidos se escondem em cada uma de suas palavras.
10. [Em Migne, 9.] Eu lhe peço, meu querido irmão, que viva entre esses livros, que medite neles, que não conheça outra coisa, que não busque outra coisa. Uma vida assim não lhe parece um antegozo do céu aqui na terra? Não se ofenda com a simplicidade da Escritura nem com a pobreza do seu vocabulário, pois estas se devem ou aos defeitos dos tradutores ou a um propósito deliberado: desse modo ela se presta melhor à instrução de uma congregação iletrada, já que a pessoa instruída pode tirar um sentido e a não instruída outro de uma mesma frase. Não sou tão obtuso nem tão atrevido a ponto de professar que eu mesmo a conheço, ou que posso colher na terra o fruto que tem a sua raiz no céu; mas confesso que gostaria de fazê-lo. Coloco-me à frente daquele que fica sentado ocioso e, embora não pretenda ser mestre, de bom grado me comprometo a ser companheiro de estudo. “Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e, a quem bate, a porta será aberta” (Mt 7.8). Aprendamos na terra aquele conhecimento que permanecerá conosco no céu.
11. [Em Migne, 10.] Eu o receberei de mãos abertas e, se me for permitido gabar-me e falar como insensato, à maneira de Hermágoras,53 me esforçarei por aprender com você tudo o que você desejar estudar. Eusébio, que está aqui, tem por você a afeição de um irmão; ele54 tornou a sua carta duas vezes mais preciosa ao me falar da sinceridade do seu caráter, do seu desprezo pelo mundo, da sua constância na amizade e do seu amor a Cristo. A carta traz estampadas (sem nenhuma ajuda dele) a sua prudência e a graça do seu estilo. Apresse-se, pois, eu lhe suplico, e corte em vez de soltar a amarra que impede o seu barco de mover-se no mar. Quem vende os seus bens porque os despreza e pretende renunciar ao mundo não pode ter desejo de vendê-los caro. Considere dinheiro ganho a soma que tiver de gastar com o seu equipamento. Há um velho ditado segundo o qual ao avarento falta tanto o que ele tem quanto o que não tem. O crente tem um mundo inteiro de riquezas; o incrédulo não tem um só centavo. Vivamos sempre “como nada tendo, mas possuindo tudo” (2Co 6.10). Alimento e vestuário, eis a riqueza do cristão (1Tm 6.8). Se os seus bens estão em seu próprio poder (cf. At 5.4), venda-os; se não, lance-os fora de si. “Se alguém […] quer tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa” (Mt 5.40). Você só pensa em demorar, quer adiar a ação: a menos, assim você argumenta, a menos que eu venda os meus bens aos poucos e com cautela, Cristo não terá com que alimentar os seus pobres. Ao contrário, quem se ofereceu a Deus lhe deu tudo de uma vez por todas. Os apóstolos não deixaram mais do que barcos e redes (Mt 4.18-22). A viúva lançou no gazofilácio apenas duas moedas de cobre (Mc 12.41-44) e, no entanto, será preferida a Creso55 com toda a sua riqueza. Despreza facilmente todas as coisas quem pensa sempre que há de morrer.
1. Gymnasia [ginásios].
2. Dionísio de Siracusa.
3. Cf. Quintiliano X.1.32.
4. Apolônio de Tiana, cuja vida estranha e cujas aventuras nos foram narradas por Filóstrato.
5. Magus.
6. Filóstrato III.7.
7. Isto é, os habitantes da Palestina.
8. Heródoto III.17-18.
9. Título predileto dos teólogos na Idade Média.
10. Cícero, De Oratore III.56; a palavra “fera” foi inserida por Jerônimo.
11. Sancta rusticitas [santa rusticidade].
12. Versículo 54. Na Vulgata este salmo é o 118.
13. No título do Sl 9 (Mute-Labém). Ver Perowne sobre essas palavras.
14. Horácio, Epístolas II.1.115-116.
15. Horácio, Epístolas II.1.117.
16. O nome completo de Virgílio era Públio Vergílio Marão.
17. Virgílio, Éclogas IV.6-7.
18. Virgílio, Eneida I.664.
19. Virgílio, Eneida II.650.
20. Nm 33. Ver a Carta 78.
21. A menção de Jó neste ponto é curiosa: parece que, na opinião de Jerônimo, ele foi contemporâneo de Moisés ou pouco posterior a ele.
22. Jó 19.25-27, segundo a Vulgata.
23. Isto é, Josué, filho de Num, cujo nome a Septuaginta traduz assim. Cf. Eclesiástico 46.1.
24. Is 16.1, segundo a Vulgata; “a rocha do deserto” = Moabe.
25. Também chamado Conias e Joaquim.
26. Na Bíblia hebraica são contados como um só livro.
27. A alusão é aos Salmos 120 a 134. Cento e vinte é a soma dos números de um a quinze.
28. Assim a Vulgata.
29. Assim a Septuaginta.
30. “Edom” significa “vermelho” e está relacionado com Adamah, “a terra”.
31. Jerônimo interpreta a palavra hebraica “morastita” como “minha possessão”.
32. Mq 5.1, segundo a Vulgata.
33. Isto é, Nínive (Na 3.1).
34. O nome significa propriamente “abraço”.
35. Propriamente “o Senhor guarda” ou “esconde”.
36. Provavelmente um lugar em Jerusalém.
37. Assim a Vulgata.
38. Propriamente “o Senhor se lembra”.
39. Isto é, Josué, o sumo sacerdote.
40. Esta palavra não está na Vulgata.
41. Lamentações, capítulos 1 a 4, em que cada versículo começa com uma letra diferente do alfabeto.
42. Ver a nota à Carta 52, §3.
43. O Cântico dos Cânticos.
44. Isto é, a festa de Purim (Et 9.20-32).
45. Paraleipomena, nome dado na Septuaginta aos livros das Crônicas.
46. Veteris instrumenti epitome.
47. Platão, Apologia de Sócrates 21-22.
48. Quadriga. Cf. Ireneu, Contra as Heresias III.ii.8.
49. Clemente de Alexandria, seguindo Fílon, faz “querubim” significar sabedoria.
50. Ez 1.18, segundo a Vulgata.
51. Isto é, as de Roma, Corinto, Galácia, Éfeso, Filipos, Colossos e Tessalônica.
52. Onésimo.
53. Retórico prolixo mencionado por Cícero, De Inventione I.6.
54. Eusébio de Cremona, que permaneceu com Jerônimo pelos cinco anos seguintes e depois se correspondeu com ele da Itália. Ver a Carta 57, §2; Rufino, Apologia I.19; Jerônimo, Apologia III.4-5 etc.
55. O último rei da Lídia, célebre pelas suas riquezas.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de W. H. Fremantle (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 6, Nova York, 1893), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é latino: esta é, portanto, tradução de tradução. O parágrafo de apresentação de cada carta é de Fremantle; os números de seção são os da edição dele. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Jerônimo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Bíblia latina ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.