Jerônimo, Cartas pastorais · Carta 60
Apresentação do editor inglês
Uma das mais belas cartas de Jerônimo, escrita para consolar seu velho amigo Heliodoro, então bispo de Altino, pela perda do sobrinho Nepociano, que pouco antes morrera de febre. Jerônimo procura aliviar a dor do amigo (1) contrastando o desespero ou a resignação pagã com a esperança cristã, (2) com um elogio do falecido, como homem e como presbítero, e (3) com um exame dos males que então assolavam o Império e dos quais, segundo ele sustentava, Nepociano fora poupado. A carta é marcada do começo ao fim por um sentimento profundo e sincero. Sua data é 396 d.C.
1. Os engenhos pequenos não conseguem abarcar grandes temas; aventurando-se além das próprias forças, fracassam na própria tentativa. E, quanto maior o assunto, tanto mais completamente se vê esmagado quem não encontra palavras para desdobrar a sua grandeza. Nepociano, que era meu e seu e nosso, ou melhor, que era de Cristo e, por ser de Cristo, ainda mais nosso, deixou a nós, os mais velhos, de modo que estamos feridos pelas pontadas da saudade e vencidos por uma dor que ultrapassa o que se pode suportar. Nós o supúnhamos nosso herdeiro, e agora só o seu cadáver é nosso. Para quem trabalhará agora o meu engenho? A quem desejarão agradar as minhas pobres letras? Onde está ele, o que me impelia ao trabalho, cuja voz era mais doce que o último canto do cisne? Minha mente está aturdida, minha mão treme, uma névoa me cobre os olhos, a gagueira me prende a língua. Sejam quais forem as minhas palavras, parecem como não ditas, já que ele não as ouve mais. A própria pena parece sentir a sua falta, a própria tabuinha de cera parece embaçada e triste; uma está coberta de ferrugem, a outra de mofo. Todas as vezes que tento exprimir-me em palavras e espalhar as flores deste elogio sobre o seu túmulo, meus olhos se enchem de lágrimas, minha dor volta e não consigo pensar em nada senão na sua morte. Era costume, em tempos antigos, que os filhos, junto ao corpo dos pais falecidos, proclamassem publicamente os seus louvores e (como quando se cantam canções comoventes) arrancassem lágrimas dos olhos e suspiros do peito dos ouvintes. Mas no nosso caso, eis que a ordem das coisas se inverteu: para nos desferir este golpe, a natureza abriu mão dos seus direitos. Pois a honra que o jovem deveria ter prestado aos mais velhos, somos nós, os mais velhos, que a prestamos a ele.
2. Que farei, então? Juntarei as minhas lágrimas às suas? O apóstolo o proíbe, pois fala dos cristãos mortos como “os que dormem” (1Ts 4.13). Assim também no evangelho o Senhor diz: “A criança não está morta, mas dorme” (Mc 5.39), e de Lázaro, quando é ressuscitado dentre os mortos, se diz que dormia (Jo 11.11). Não; eu me alegrarei e exultarei porque “foi levado depressa, para que a maldade não lhe alterasse o entendimento”, pois “a sua alma agradou ao Senhor” (Sb 4.11, 14). Mas, embora relute em ceder e combata os meus sentimentos, as lágrimas me correm pelo rosto e, apesar dos ensinos da virtude e da esperança da ressurreição, a paixão da saudade esmaga a minha mente, que cede com demasiada facilidade. Ó morte, que separas irmãos unidos pelo amor, quão cruel, quão impiedosa és ao separá-los assim! “O Senhor trouxe um vento abrasador que sobe do deserto, o qual secou as tuas veias e tornou desolada a tua fonte” (Os 13.15). Tu engoliste o nosso Jonas, mas mesmo no teu ventre ele ainda vivia. Tu o carregaste como morto, para que a tempestade do mundo se acalmasse e a nossa Nínive fosse salva pela sua pregação. Ele, sim, ele te venceu, ele te matou, aquele profeta fugitivo que deixou a sua casa, abriu mão da sua herança e entregou a sua amada vida nas mãos dos que a buscavam. Foi ele que outrora te ameaçou em Oseias: “Ó morte, eu serei as tuas pragas; ó sepultura, eu serei a tua destruição” (Os 13.14). Pela morte dele tu estás morta; pela morte dele nós vivemos. Tu engoliste e foste engolida. Enquanto te deixas tomar pelo desejo do corpo que ele assumiu, e enquanto as tuas mandíbulas vorazes o julgam uma presa, as tuas entranhas são feridas por presas recurvas como anzóis.
3. A ti, ó Cristo Salvador, nós, tuas criaturas, damos graças porque, ao seres morto, mataste o nosso poderoso adversário. Antes da tua vinda, haveria ser mais miserável que o homem, que, encolhido diante da terrível perspectiva da morte eterna, só recebia a vida para perecer? Pois “a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão” (Rm 5.14). Se Abraão, Isaque e Jacó estão no inferno, quem pode estar no Reino dos Céus? Se os teus amigos, mesmo os que não tinham pecado pessoalmente, estavam ainda assim sujeitos, pelos pecados de outro, ao castigo de Adão transgressor, que devemos pensar daqueles que disseram no seu coração: “Não há Deus”; que “são corruptos e abomináveis” (Sl 14.1) na sua obstinação, e dos quais se diz: “se desviaram e se tornaram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Rm 3.12)? Ainda que Lázaro seja visto no seio de Abraão e num lugar de refrigério, mesmo assim as regiões inferiores não se podem comparar com o Reino dos Céus. Antes da vinda de Cristo, Abraão está nas regiões inferiores; depois da vinda de Cristo, o ladrão está no paraíso. E por isso, quando ele ressuscitou, “muitos corpos de santos que dormiam ressuscitaram e foram vistos na Jerusalém celestial” (Mt 27.52-53). Cumpriu-se então o dito: “Desperte, você que está dormindo, levante-se dentre os mortos, e Cristo o iluminará” (Ef 5.14). João Batista clama no deserto: “Arrependam-se, porque está próximo o Reino dos Céus” (Mt 3.2). Pois “desde os dias de João Batista o Reino dos Céus sofre violência, e os que usam de força se apoderam dele” (Mt 11.12). A espada flamejante que guarda o caminho do paraíso e os querubins postados às suas portas (Gn 3.24) foram igualmente apagados e desatados pelo sangue de Cristo.1 Não admira que isso nos seja prometido na ressurreição, pois todos nós que, vivendo na carne, não vivemos segundo a carne (2Co 10.3) temos a nossa cidadania nos céus (Fp 3.20) e, enquanto ainda estamos aqui na terra, ouvimos que “o Reino dos Céus está dentro de nós” (Lc 17.21).
4. Além disso, antes da ressurreição de Cristo, Deus era “conhecido em Judá” somente, e “grande era o seu nome” apenas “em Israel” (Sl 76.1). E os que o conheciam eram, apesar desse conhecimento, arrastados para o inferno. Onde estavam naqueles dias os habitantes do globo, da Índia à Britânia, da zona gelada do Norte ao calor ardente do oceano Atlântico? Onde estavam os inúmeros povos do mundo? Onde as grandes multidões?
Diversos na língua, diversos nas vestes e nas armas?2
Eram esmagados como peixes e gafanhotos, como moscas e mosquitos. Pois, sem o conhecimento do seu Criador, todo homem não passa de um bruto. Mas agora as vozes e os escritos de todas as nações proclamam a paixão e a ressurreição de Cristo. Nada digo dos judeus, dos gregos e dos romanos, povos que o Senhor consagrou à sua fé pelo título escrito na sua cruz (Lc 23.38). A imortalidade da alma e a sua permanência depois da dissolução do corpo, verdades com que Pitágoras sonhou, em que Demócrito se recusou a crer e que Sócrates discutiu na prisão para consolar-se da sentença pronunciada contra ele, são agora temas familiares ao indiano e ao persa, ao godo e ao egípcio. Os ferozes bessos3 e a multidão de selvagens vestidos de peles, que costumavam oferecer sacrifícios humanos em honra dos mortos, romperam a sua áspera discórdia para entrar na doce música da cruz, e Cristo é o único clamor do mundo inteiro.
5. Que podemos fazer, minha alma? Para onde nos voltar? Que devemos tomar primeiro? Que devemos deixar de lado? Você esqueceu os preceitos dos retóricos? Está tão absorvida pela dor, tão vencida pelas lágrimas, tão embaraçada pelos soluços, que esquece toda sequência lógica? Onde estão os estudos a que você se dedicou desde a infância? Onde está aquele dito de Anaxágoras e de Telamão (que você sempre louvou): “Eu sabia que tinha gerado um mortal”?4 Li os livros de Crantor, que ele escreveu para aliviar a própria dor e que Cícero imitou.5 Li os escritos consolatórios de Platão, Diógenes, Clitômaco, Carnéades e Posidônio, que em diversas épocas se esforçaram, por livro ou por carta, para diminuir a dor de várias pessoas. Por isso, se o meu próprio engenho secasse, poderia ser regado de novo nas fontes que eles abriram. Apresentam-nos exemplos sem conta, e em particular os de Péricles e de Xenofonte, discípulo de Sócrates. O primeiro, depois de perder os dois filhos, pôs uma coroa e pronunciou um discurso;6 o segundo, ao ouvir, quando oferecia um sacrifício, que o filho fora morto na guerra, teria deposto a coroa; e depois, ao saber que ele caíra lutando com bravura, teria tornado a pô-la na cabeça. Que direi daqueles generais romanos cujas virtudes heroicas brilham como estrelas nas páginas da história latina? Pulvilo estava dedicando o Capitólio7 quando, ao receber a notícia da morte repentina do filho, deu ordem para que o funeral se fizesse sem ele. Lúcio Paulo8 entrou em triunfo na cidade na semana que mediou entre os funerais dos seus dois filhos. Passo por alto os Máximos, os Catões, os Galos, os Pisões, os Brutos, os Cévolas, os Metelos, os Escauros, os Mários, os Crassos, os Marcelos, os Aufídios, homens que mostraram igual fortaleza no luto e na guerra, e cujas perdas Túlio expôs no seu livro Da consolação. Passo por alto, para não parecer que preferi as palavras e as dores alheias às minhas. Contudo, mesmo estes exemplos podem bastar para nos cobrir de vergonha, se a nossa fé não superar os feitos da incredulidade.
6. Vou, então, ao meu assunto propriamente dito. Não baterei no peito com Jacó e com Davi por filhos que morrem sob a Lei, mas os receberei ressuscitando com Cristo no Evangelho. O luto do judeu é a alegria do cristão. “O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã” (Sl 30.5). “Vai alta a noite, e o dia vem chegando” (Rm 13.12). Por isso, quando Moisés morre, faz-se luto por ele (Dt 34.8), mas, quando Josué é sepultado, é sem lágrimas nem pompa fúnebre (Js 24.30). Tudo o que se pode tirar da Escritura sobre o lamento eu expus brevemente na carta de consolação que dirigi a Paula, em Roma.9 Agora preciso tomar outro caminho para chegar à mesma meta. Do contrário, parecerei andar de novo numa trilha outrora batida, mas há muito abandonada.
7. Sabemos, de fato, que o nosso Nepociano está com Cristo e que se juntou aos coros dos santos. Aquilo que aqui conosco ele buscava às apalpadelas, de longe, na terra, e procurava segundo o melhor do seu juízo, lá ele vê de perto, de modo que pode dizer: “Como temos ouvido, assim vimos na cidade do Senhor dos Exércitos, na cidade do nosso Deus” (Sl 48.8). Ainda assim, não conseguimos suportar o sentimento da sua ausência e nos afligimos, se não por ele, por nós mesmos. Quanto maior a felicidade que ele desfruta, tanto mais profunda a tristeza em que nos mergulha a perda de um bem tão grande. As irmãs de Lázaro não podiam deixar de chorar por ele, embora soubessem que ele ressuscitaria. E o próprio Salvador, para mostrar que possuía verdadeiro sentimento humano, chorou por aquele que estava prestes a ressuscitar (Jo 11.35). Também o seu apóstolo, embora diga: “tenho o desejo de partir e estar com Cristo” (Fp 1.23), e em outro lugar: “para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp 1.21), dá graças a Deus porque Epafras10 (que estivera “à beira da morte”) lhe fora devolvido, para que não tivesse tristeza sobre tristeza (Fp 2.27). Palavras ditadas não pelo medo que nasce da incredulidade, mas pela saudade apaixonada que vem da verdadeira afeição. Quanto mais profundamente você, que era para Nepociano ao mesmo tempo tio e bispo (isto é, pai na carne e no espírito), deve deplorar a perda de alguém tão querido, como se o coração lhe fosse arrancado! Ponha um limite, peço-lhe, à sua dor e lembre-se do dito: “nada em excesso”.11 Enfaixe por um pouco a sua ferida e escute os louvores de alguém em cuja virtude você sempre se deleitou. Não se aflija por ter perdido tal modelo; alegre-se antes por tê-lo tido algum dia. Assim como numa pequena tábua os homens representam a configuração da terra, assim neste meu pequeno rolo você poderá ver as virtudes dele, se não plenamente retratadas, ao menos esboçadas em contorno. Peço que aceite a intenção pela realização.
8. O conselho dos retóricos em casos assim é que primeiro se pesquisem os antepassados remotos da pessoa a ser elogiada e se narrem os seus feitos, e depois se chegue gradualmente ao herói, de modo a torná-lo mais ilustre pelas virtudes dos seus antepassados e mostrar ou que é digno sucessor de homens bons, ou que deu brilho a uma linhagem em si mesma obscura. Mas, como o meu dever é cantar os louvores da alma, não me deterei naquelas vantagens carnais que Nepociano, de sua parte, sempre desprezou. Nem me gabarei da sua família, isto é, de qualidades que pertencem não a ele, mas a outros; pois mesmo aqueles homens santos, Abraão e Isaque, tiveram por filhos os pecadores Ismael e Esaú. E, por outro lado, Jefté, que o apóstolo conta no rol dos justos (Hb 11.32), é filho de uma prostituta (Jz 11.1). Está dito: “A pessoa que pecar, essa morrerá” (Ez 18.4). Portanto, a alma que não pecou viverá. Nem as virtudes nem os vícios dos pais são imputados aos filhos. Deus só nos leva em conta a partir do momento em que nascemos de novo em Cristo. Paulo, o perseguidor da igreja, que de manhã é o lobo voraz de Benjamim (Gn 49.27), à tarde “deu alimento”,12 isto é, entrega-se à ovelha Ananias.13 Consideremos também o nosso Nepociano um bebê que chora e uma criança sem instrução, que nos nasceu num instante, recém-saído das águas do Jordão.
9. Outro talvez descrevesse como, pela salvação dele, você deixou o Oriente e o deserto, e como me consolou, a mim, seu companheiro mais querido, acenando com a esperança de um regresso; e tudo isso para salvar, se possível, tanto a sua irmã, então viúva com um filhinho, quanto, caso ela rejeitasse os seus conselhos, ao menos o seu doce sobrinho pequeno. Foi dele que outrora usei as palavras proféticas: “ainda que o seu sobrinho pequeno se agarre ao seu pescoço”.14 Outro, digo, contaria como, quando Nepociano ainda estava a serviço da corte, por baixo do uniforme e do linho de brancura resplandecente,15 a sua pele era esfolada pelo cilício; como, estando diante dos poderes deste mundo, os seus lábios estavam descorados pelo jejum; como, ainda com o uniforme de um senhor, servia a outro; e como usava o cinturão da espada apenas para socorrer viúvas e órfãos, os aflitos e os infelizes. De minha parte, não gosto que os homens adiem a consagração completa de si mesmos a Deus. Quando leio a respeito do centurião Cornélio (At 10) que era homem justo, logo ouço falar do seu batismo.
10. Ainda assim, podemos aprovar essas coisas como os cueiros de uma fé infante. Quem foi soldado leal sob uma bandeira estranha certamente merecerá o louro quando vier a servir o seu próprio rei. Quando Nepociano depôs o boldrié e mudou de traje, distribuiu aos pobres todo o soldo que recebera. Pois tinha lido as palavras: “Se você quer ser perfeito, venda os seus bens, dê aos pobres e siga-me” (Mt 19.21), e ainda: “Vocês não podem servir a dois senhores, a Deus e às riquezas” (Mt 6.24). Não guardou nada para si senão uma túnica comum e um manto para cobri-lo e protegê-lo do frio. Feitas à moda da sua província, as suas vestes não chamavam a atenção nem pela elegância nem pelo desleixo. Ardia diariamente por ir aos mosteiros do Egito, ou visitar as comunidades da Mesopotâmia, ou ao menos viver uma vida solitária nas ilhas da Dalmácia,16 separadas do continente apenas pelo estreito de Altino. Mas não teve coragem de abandonar o tio bispo, no qual contemplava um modelo de muitas virtudes e do qual podia receber lições sem ir para fora. Numa só e mesma pessoa encontrou um monge para imitar e um bispo para reverenciar. O que tantas vezes acontece não aconteceu aqui. A convivência constante não produziu familiaridade, nem a familiaridade gerou desprezo. Ele o reverenciava como pai e a cada dia o admirava por alguma nova virtude. Para ser breve, tornou-se clérigo e, depois de passar pelos graus habituais, foi ordenado presbítero. Bom Jesus! Como suspirou e gemeu! Como jejuou e fugiu dos olhos de todos! Pela primeira e única vez irritou-se com o tio, queixando-se de que o fardo posto sobre ele era pesado demais e de que a sua juventude o tornava inapto para o sacerdócio. Mas, quanto mais resistia, tanto mais atraía para si o coração de todos: a sua recusa só provava que era digno de um ofício que relutava em assumir, e tanto mais digno quanto mais se declarava indigno. Também nós, nos nossos dias, temos o nosso Timóteo; também nós vimos aquela sabedoria que vale tanto quanto os cabelos brancos (Sb 4.9); o nosso Moisés escolheu um ancião que sabia ser verdadeiramente ancião.17 Nepociano considerava o estado clerical menos uma honra que um fardo. Seu primeiro cuidado foi silenciar a inveja com a humildade, e o seguinte, não dar motivo de escândalo, para que os que atacavam a sua juventude se maravilhassem com a sua continência. Ajudava os pobres, visitava os enfermos, incitava os homens à hospitalidade, acalmava-os com palavras brandas, alegrava-se com os que se alegravam e chorava com os que choravam (Rm 12.15). Era bordão para os cegos, alimento para os famintos, esperança para os abatidos, consolo para os enlutados. Cada virtude isolada brilhava nele como se não possuísse nenhuma outra. Entre os seus companheiros de presbitério, sempre o primeiro no trabalho, contentava-se sempre com o último lugar. Todo bem que fazia, atribuía ao tio; mas, se o resultado não correspondia às suas expectativas, dizia que o tio nada sabia daquilo, que o erro era seu. Em público reconhecia nele o bispo; em casa o via como pai. A seriedade do seu temperamento era temperada por uma expressão alegre. Mas, embora o seu riso fosse jovial, nunca era ruidoso. As virgens e as viúvas de Cristo, ele as honrava como mães e as exortava como irmãs, “com toda a pureza” (1Tm 5.2). Quando voltava para casa, costumava deixar o clérigo do lado de fora e entregar-se à dura regra de um monge. Frequente na súplica e vigilante na oração, oferecia as suas lágrimas não aos homens, mas a Deus. Regulava os seus jejuns, como o cocheiro regula o passo dos cavalos, segundo o cansaço ou o vigor do corpo. À mesa do tio, apenas provava o que lhe era servido, de modo a evitar a superstição e, ao mesmo tempo, preservar o domínio próprio. Nas conversas durante as refeições, tinha o hábito de propor algum tema da Escritura, ouvir com modéstia, responder com acanhamento, apoiar o que era certo, refutar o que era errado, mas uma coisa e outra sem amargura; antes instruir o adversário que vencê-lo. Tal era a ingênua modéstia que adornava a sua juventude que confessava francamente de que fontes vinham os seus diversos argumentos; e desse modo, ao recusar a fama de erudito, passou a ser tido como eruditíssimo. Esta, dizia ele, é a opinião de Tertuliano, aquela de Cipriano; esta de Lactâncio, aquela de Hilário; assim fala Minúcio Félix, assim Vitorino, deste modo Arnóbio. Também a mim às vezes citava, pois me amava por causa da minha intimidade com o seu tio. Na verdade, pela leitura constante e pela meditação prolongada, tinha feito do seu peito uma biblioteca de Cristo.
11. Quantas vezes, em cartas de além-mar, ele me instou a escrever-lhe alguma coisa! Quantas vezes me lembrou o homem do evangelho que pediu ajuda de noite (Lc 11.5-8) e a viúva que importunou o juiz cruel (Lc 18.1-5)! E, quando eu ignorava calado o seu pedido e fazia o meu suplicante corar por eu mesmo corar de responder, ele pôs à frente o tio para reforçar a sua causa, sabendo que, sendo o favor para outro, o tio o pediria com mais disposição, e que, como eu respeitava o seu ofício episcopal, o obteria com mais facilidade. Fiz, então, o que ele desejava e, num breve ensaio,18 dediquei a nossa amizade mútua a uma lembrança perpétua. Ao recebê-lo, Nepociano se gabava de ser mais rico que Creso e mais opulento que Dario. Segurava-o nas mãos, devorava-o com os olhos, guardava-o no peito, repetia-o com os lábios. E muitas vezes, quando o desenrolava no leito, adormecia com a página querida sobre o peito. Quando chegava um estranho ou um amigo, alegrava-se em fazer-lhes conhecer o meu testemunho a seu respeito. As deficiências do meu livrinho ele as supria com uma pontuação cuidadosa e uma ênfase variada, de modo que, quando era lido em voz alta, era sempre ele, e não eu, quem parecia agradar ou desagradar. De onde vinha tamanho zelo, senão do amor de Deus? De onde vinha tão incansável estudo da lei de Cristo, senão do anseio por aquele que a deu? Que outros acrescentem moeda a moeda até que as suas bolsas fiquem abarrotadas; que outros se rebaixem a viver às custas de senhoras casadas; que sejam mais ricos como monges do que eram como homens do mundo; que possuam, a serviço de um Cristo pobre, riquezas que nunca tiveram a serviço de um diabo rico; que a igreja fique sem fôlego diante da opulência de homens que no mundo eram mendigos. O nosso Nepociano despreza o ouro e mendiga apenas livros escritos. Mas, enquanto despreza a si mesmo na carne e anda por aí mais esplêndido do que nunca na sua pobreza, ainda procura tudo o que possa adornar a igreja.
12. Em comparação com o que veio antes, o que agora vou dizer pode parecer trivial, mas mesmo nas miudezas se manifesta o mesmo espírito. Pois, assim como admiramos o Criador não só como o artífice do céu e da terra, do sol e do oceano, dos elefantes, camelos, cavalos, bois, leopardos, ursos e leões, mas também como o autor das criaturas mais minúsculas, formigas, mosquitos, moscas, vermes e semelhantes, cujas formas conhecemos melhor que os nomes, e em todas igualmente reverenciamos a mesma arte criadora, assim a mente entregue a Cristo mostra o mesmo empenho nas coisas de pequena e de grande importância, sabendo que deve prestar contas de toda palavra inútil (Mt 12.36). Nepociano cuidava de manter o altar brilhante, as paredes da igreja livres de fuligem e o piso devidamente varrido. Providenciava que o porteiro estivesse constantemente no seu posto, que as cortinas das portas estivessem nos seus lugares, o santuário limpo e os vasos reluzentes. A reverência cuidadosa que demonstrava em cada rito levava-o a não negligenciar nenhum dever, pequeno ou grande. Sempre que alguém o procurava na igreja, ali o encontrava.
Em Quinto Fábio19 a antiguidade admirava um nobre e o autor de uma história de Roma; no entanto, as suas pinturas lhe deram mais renome que os seus escritos. Também o nosso Bezalel (Êx 31.2-3) e Hirão, filho de uma mulher de Tiro,20 são descritos na Escritura como cheios de sabedoria e do Espírito de Deus, porque fabricaram, um, a mobília do tabernáculo, o outro, a do templo. Pois, assim como acontece com campos férteis e terras de lavoura ricas, que às vezes se excedem em crescimento redundante de caule ou de espiga, assim é com os talentos distintos e com uma mente cheia de virtude: certamente transbordam em habilidades elegantes e variadas. Por isso, entre os gregos, ouvimos de um filósofo21 que se gabava de que tudo o que usava, até o manto e o anel, fora feito por ele mesmo. Podemos fazer o mesmo elogio ao nosso amigo, pois ele adornou tanto as basílicas da igreja quanto os salões22 dos mártires com desenhos de flores, folhagens e gavinhas de videira, de modo que tudo o que havia de atraente na igreja, fosse pela posição, fosse pelo aspecto, dava testemunho do trabalho e do zelo do presbítero posto à frente dela.
13. Avante, bendito na tua bondade! Que espécie de fim devíamos esperar depois de tal começo! Ah, triste condição dos mortais e vaidade de toda vida que não é vivida em Cristo! Por que, ó minhas palavras, vocês recuam? Por que se desviam e dão voltas? Temo chegar ao fim, como se pudesse adiar a sua morte ou prolongar a sua vida. “Toda carne é como a erva, e toda a glória do homem, como a flor da erva” (1Pe 1.24). Onde estão agora aquele rosto bonito e aquela figura digna com que, como de uma bela veste, se revestia a sua bela alma? O lírio começou a murchar, ai!, quando soprou o vento sul, e a violeta purpúrea foi lentamente desbotando em palidez. Contudo, enquanto ardia em febre e enquanto o fogo da doença secava as fontes das suas veias, ofegante e exausto, ainda procurava consolar o tio aflito. O seu rosto brilhava de alegria e, enquanto todos ao redor choravam, ele, e somente ele, sorria. Lançou de lado o manto, estendeu a mão, viu o que os outros não viam e até tentou levantar-se para receber os que chegavam. Dir-se-ia que partia em viagem, e não que morria, e que, em vez de deixar para trás todos os amigos, apenas passava de uns para outros.23 As lágrimas me rolam pelo rosto e, por mais que endureça o ânimo, não consigo disfarçar a dor que sinto. Quem poderia supor que numa hora daquelas ele se lembraria da sua intimidade comigo e que, enquanto lutava pela vida, recordaria a doçura do estudo? Contudo, apertando a mão do tio, disse-lhe: “Mande esta túnica, que usei no serviço de Cristo, ao meu querido amigo, meu pai na idade, mas meu irmão no ofício, e transfira a afeição até agora reclamada pelo seu sobrinho para aquele que lhe é tão querido quanto é para mim.” Com estas palavras partiu, segurando a mão do tio e com o meu nome nos lábios.
14. Sei quão pouco você desejava provar a afeição do seu povo a tal preço, e que teria preferido conquistar o amor dos seus conterrâneos conservando a sua felicidade. Tais expressões de sentimento, agradáveis como são quando tudo vai bem, são duplamente bem-vindas no tempo da tristeza. Toda Altino, toda a Itália chorou Nepociano. A terra recebeu o seu corpo; a sua alma foi devolvida a Cristo. Você perdeu um sobrinho; a igreja, um sacerdote. Aquele que devia segui-lo foi adiante de você. No juízo de todos, ele merecia suceder-lhe no ofício que você ocupava. E assim uma só família teve a honra de produzir dois bispos: o primeiro, para ser felicitado por ter exercido o ofício; o segundo, para ser lamentado por ter sido levado cedo demais para exercê-lo. Platão pensa que toda a vida do sábio deve ser uma meditação da morte;24 e os filósofos louvam esse sentimento e o exaltam até os céus. Mas muito mais cheias de força são as palavras do apóstolo: “Morro todos os dias pela glória de vocês” (1Co 15.31). Pois uma coisa é ter um ideal, outra é realizá-lo. Uma coisa é viver de modo a morrer, outra é morrer de modo a viver. O sábio e o cristão têm ambos de morrer, mas um sempre morre saindo da sua glória, o outro entrando nela. Por isso também nós devemos considerar de antemão o fim que um dia há de nos alcançar e que, queiramos ou não, não pode estar muito distante. Pois, ainda que vivêssemos novecentos anos ou mais, como os homens antes do dilúvio, e ainda que nos fossem concedidos os dias de Matusalém (Gn 5.27), aquele longo espaço de tempo, uma vez passado e terminado, seria como nada. Pois, para o homem que viveu dez anos e para o que viveu mil, uma vez chegado o fim da vida e a sentença inexorável da morte, todo o passado, longo ou curto, é exatamente o mesmo; a não ser que, quanto mais velho o homem, tanto mais pesada é a carga de pecado que tem de levar consigo.
Primeiro, os infelizes mortais perdem da sua vida
os dias mais belos; vêm depois a doença e a velhice;
e por fim a morte cruel reclama a sua presa.25
Também o poeta Névio diz que
os mortais forçosamente têm de suportar muitos males.
Por isso a antiguidade imaginou que Níobe, por causa do seu muito chorar, foi transformada em pedra, e que outras mulheres foram metamorfoseadas em animais. Também Hesíodo lamenta o dia do nascimento dos homens e se alegra com a sua morte, e Ênio diz sabiamente:
A plebe tem uma vantagem sobre o seu rei:
pode chorar, enquanto para ele as lágrimas são vergonha.
Se um rei não pode chorar, tampouco o pode um bispo; na verdade, o bispo tem ainda menos licença que o rei. Pois o rei governa súditos que não o querem; o bispo, súditos que o querem. O rei impõe a submissão pelo terror; o bispo exerce o senhorio fazendo-se servo. O rei guarda o corpo dos homens até que morram; o bispo salva a alma deles para a vida eterna. Os olhos de todos estão voltados para você. A sua casa está posta numa torre de vigia; a sua vida fixa para os outros os limites do seu domínio próprio. Tudo o que você faz, todos pensam que podem fazer o mesmo. Não se comprometa de tal modo que os que buscam motivo de crítica pareçam tê-lo atacado com razão, ou que os ansiosos por imitá-lo sejam forçados a agir mal. Vença quanto puder, ou melhor, mais do que puder, a sensibilidade do seu ânimo e contenha o copioso fluxo das suas lágrimas. Do contrário, a sua profunda afeição pelo sobrinho pode ser interpretada pelos incrédulos como sinal de desespero em relação a Deus. Você deve sentir a falta dele não como morto, mas como ausente. Deve parecer que o espera, e não que o perdeu.
15. Mas por que procuro curar uma dor que, suponho, o tempo e a razão já aliviaram? Por que não lhe exponho antes (não é preciso ir longe para encontrá-las) as misérias dos nossos governantes e as calamidades do nosso tempo? Quem perdeu a luz da vida não é tanto de lastimar quanto de felicitar, por ter escapado de tão grandes males. Constâncio,26 patrono da heresia ariana, apressava-se a dar batalha ao seu inimigo27 quando morreu na aldeia de Mopso e, para seu grande desgosto, deixou o império ao adversário. Juliano,28 traidor da própria alma, assassino de um exército cristão, sentiu na Média a mão do Cristo que antes negara na Gália. Desejando anexar novos territórios a Roma, apenas perdeu anexações feitas anteriormente. Joviano29 mal provara as doçuras da soberania quando um braseiro de carvão o sufocou: bom exemplo da transitoriedade do poder humano. Valentiniano30 morreu do rompimento de um vaso sanguíneo, com a terra do seu nascimento devastada e a sua pátria sem vingança. Seu irmão Valente,31 derrotado na Trácia pelos godos, foi sepultado onde morreu. Graciano, traído pelo seu exército e recusado pelas cidades no caminho da sua marcha, tornou-se objeto de escárnio para o inimigo; e os seus muros, ó Lião, ainda trazem as marcas daquela mão sanguinária.32 Valentiniano era ainda jovem, posso dizer um simples menino, quando, depois da fuga e do exílio e da recuperação do seu poder à custa de sangue, foi morto33 não longe da cidade que testemunhara o fim do irmão. E não só isso: o seu corpo sem vida foi pendurado numa forca para a sua vergonha. Que direi de Procópio, de Máximo, de Eugênio,34 que, enquanto detiveram o poder soberano, foram o terror das nações, e contudo todos eles compareceram como prisioneiros diante dos seus vencedores e (ferida mais cruel de todas para os grandes e poderosos) sentiram a dor de uma escravidão ignominiosa antes de caírem pelo fio da espada?
16. Alguém poderá dizer: tal é a sorte dos reis:
O raio sempre fere os cumes dos montes.35
Passo, então, às pessoas de condição privada, e ao falar delas não irei além dos dois últimos anos. Na verdade, omitindo todos os outros, contento-me em contar a sorte de três recentes ex-cônsules. Abundâncio é um exilado empobrecido em Pítio.36 A cabeça de Rufino foi levada numa lança a Constantinopla, e a sua mão decepada mendigou esmolas de porta em porta, para vergonha da sua insaciável cobiça.37 Timásio,38 lançado de repente de uma posição da mais alta categoria, considera uma escapatória que lhe permitam viver na obscuridade em Assa. Descrevo não os infortúnios de uns poucos infelizes, mas o fio de que dependem as fortunas humanas em seu conjunto. Estremeço quando penso nas catástrofes do nosso tempo. Há vinte anos e mais o sangue de romanos é derramado diariamente entre Constantinopla e os Alpes Julianos. A Cítia, a Trácia, a Macedônia, a Dardânia, a Dácia, a Tessália, a Acaia, o Epiro, a Dalmácia, as Panônias, todas e cada uma delas foram saqueadas, pilhadas e despojadas por godos e sármatas, quados e alanos, hunos e vândalos e marcomanos. Quantas matronas e virgens de Deus, senhoras virtuosas e nobres, foram feitas joguete desses brutos! Bispos foram levados cativos, sacerdotes e clérigos de ordens menores foram mortos. Igrejas foram derrubadas, cavalos foram estabulados junto aos altares de Cristo, as relíquias dos mártires foram desenterradas.
Luto e medo abundam por toda parte,
e a morte aparece em incontáveis vultos e formas.39
O mundo romano está caindo, e contudo mantemos a cabeça erguida em vez de curvá-la. Que ânimo você pensa que têm agora os coríntios, ou os atenienses, ou os lacedemônios, ou os árcades, ou qualquer dos gregos sobre os quais os bárbaros dominam? Mencionei apenas algumas cidades, mas estas foram outrora as capitais de Estados nada desprezíveis. O Oriente, é verdade, parecia estar a salvo de todos esses males; e, se os homens aqui se apavoravam, era só por causa das más notícias de outras partes. Mas eis que, no ano que acaba de passar, os lobos (já não da Arábia, mas de todo o Norte40) foram soltos contra nós desde os mais remotos redutos do Cáucaso e em pouco tempo invadiram estas grandes províncias. Quantos mosteiros capturaram! Quantos rios fizeram correr vermelhos de sangue! Sitiaram Antioquia e cercaram outras cidades às margens do Hális, do Cidno, do Orontes e do Eufrates. Levaram tropas de cativos. A Arábia, a Fenícia, a Palestina e o Egito, no seu terror, já se imaginavam escravizados.
Tivesse eu cem línguas e cem bocas,
uma garganta de ferro e um peito de bronze,
não poderia contar os incontáveis sofrimentos dos homens.41
E, de fato, não é meu propósito escrever uma história; desejo apenas derramar algumas lágrimas sobre as suas dores e as minhas. De resto, para tratar tais temas como merecem, Tucídides e Salústio ficariam praticamente mudos.
17. Feliz é Nepociano, que não vê nem ouve essas coisas. Infelizes somos nós, pois ou sofremos nós mesmos ou vemos os nossos irmãos sofrer. E, contudo, desejamos viver e consideramos os que estão fora do alcance desses males antes miseráveis que bem-aventurados. Há muito sentimos que Deus está irado, e contudo não procuramos aplacá-lo. São os nossos pecados que tornam fortes os bárbaros, são os nossos vícios que vencem os soldados de Roma; e, como se aqui houvesse pouca matéria para a carnificina, as guerras civis fizeram entre nós estragos quase maiores que as espadas dos inimigos estrangeiros. Miseráveis devem ter sido aqueles israelitas em comparação com os quais Nabucodonosor foi chamado servo de Deus (Jr 27.6). Infelizes também somos nós, que tanto desagradamos a Deus que ele se serve da fúria dos bárbaros para executar a sua ira contra nós. Contudo, quando Ezequias se arrependeu, cento e oitenta e cinco mil assírios foram destruídos numa só noite por um único anjo (2Rs 19.35). Quando Josafá cantou os louvores do Senhor, o Senhor deu a vitória ao seu adorador (2Cr 20.5-25). E, quando Moisés combateu contra Amaleque, não foi com a espada, mas com a oração que prevaleceu (Êx 17.11). Por isso, se queremos ser levantados, devemos primeiro prostrar-nos. Ai da nossa vergonha e da nossa loucura, que chega até a incredulidade! O exército de Roma, outrora vencedor e senhor do mundo, agora treme de terror à vista do inimigo e aceita a derrota de homens que não sabem andar a pé e se julgam mortos se uma vez são derrubados do cavalo.42 Não entendemos as palavras do profeta: “Mil homens fugirão pela ameaça de apenas um” (Is 30.17). Não extirpamos as causas da doença, como devemos fazer para remover a própria doença. Do contrário, logo veríamos as flechas do inimigo cederem aos nossos dardos, os seus gorros aos nossos capacetes, os seus cavalinhos aos nossos corcéis.
18. Mas fui além do ofício de consolador e, enquanto o proíbo de chorar por um só morto, eu mesmo chorei os mortos do mundo inteiro. Xerxes, o poderoso rei que arrasou montanhas e encheu mares, olhando de uma elevação para a multidão incontável, o exército inumerável diante de si, teria chorado43 ao pensar que dali a cem anos nenhum daqueles que então via estaria vivo. Ah, se pudéssemos subir a uma torre de vigia tão alta que dela contemplássemos a terra inteira estendida sob os nossos pés, então eu lhe mostraria a ruína de um mundo, nação guerreando contra nação e reino colidindo com reino; uns homens torturados, outros passados a fio de espada, outros tragados pelas ondas, alguns arrastados para a escravidão; aqui um casamento, ali um funeral; homens nascendo aqui, homens morrendo ali; uns vivendo na abundância, outros mendigando o pão; e não o exército de Xerxes, por grande que fosse, mas todos os habitantes do mundo, vivos agora, mas destinados a passar em breve. A linguagem é insuficiente para um tema tão vasto, e tudo o que eu possa dizer há de ficar aquém da realidade.
19. Voltemos, então, a nós mesmos e, descendo dos céus, olhemos por alguns momentos para o que mais de perto nos diz respeito. Você tem consciência, eu pergunto, das etapas do seu crescimento? Pode fixar o momento em que se tornou bebê, menino, jovem, adulto, velho? Todos os dias estamos mudando, todos os dias estamos morrendo, e contudo nos julgamos eternos. Os próprios momentos que gasto ditando, escrevendo, relendo o que escrevo e corrigindo-o são outros tantos tirados da minha vida. Cada ponto que o meu secretário traça é outro tanto que se vai do tempo que me foi concedido. Escrevemos cartas e respondemos às dos outros, as nossas missivas atravessam o mar e, enquanto o navio abre o seu sulco por entre onda após onda, os momentos que temos para viver se desvanecem um a um. O nosso único ganho é que assim estamos unidos no amor de Cristo. “O amor é paciente e bondoso. O amor não arde em ciúmes, não se envaidece, não é orgulhoso; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba” (1Co 13.4, 7-8). Vive sempre no coração, e assim o nosso Nepociano, embora ausente, ainda está presente e, por mais separados que estejamos, tem uma mão para oferecer a cada um. Sim, nele temos um penhor da caridade mútua. Unamo-nos, pois, em espírito, liguemo-nos um ao outro pela afeição e mostremos, nós que perdemos um filho, a mesma fortaleza com que o bem-aventurado papa Cromácio44 suportou a perda de um irmão. Que cada página que escrevermos ecoe o seu nome, que todas as nossas cartas ressoem com ele. Se já não podemos apertá-lo ao coração, retenhamo-lo firmemente na memória; e, se já não podemos falar com ele, nunca deixemos de falar dele.
1. Cf. Carta 39, § 4.
2. Virgílio, Eneida VIII, 723.
3. Uma tribo da Trácia.
4. As palavras são citadas por Cícero (Tusculanas III, 13), aparentemente do Telamão de Ênio. Diógenes Laércio as atribui a Anaxágoras.
5. No seu De consolatione, do qual restam apenas alguns fragmentos.
6. Valério Máximo V, 10.
7. No primeiro ano da República. Segundo Lívio (II, 8), o filho não estava realmente morto.
8. O conquistador da Macedônia. Celebrou o seu triunfo em 167 a.C.
9. Carta 39.
10. Isto é, Epafrodito.
11. Mēden agan, ne quid nimis. Dito de um dos Sete Sábios da Grécia, século VI a.C. Ver Grote IV, 127.
12. Dedit escam. É a leitura da Septuaginta. A Vulgata, como a Versão Autorizada, traz “repartirá o despojo”. Compare a Carta 69, 6.
13. At 9.17. (Cf. Carta 69, § 6.)
14. Carta 14, § 2.
15. Para outras alusões ao uniforme de um oficial romano, ver as Cartas 79, § 2, e 118, § 1.
16. Como Bonoso (Carta 3, 4).
17. Nm 11.16. Presbyterum. Esse nome (depois contraído no inglês “Priest”) é tirado do nome dos Anciãos de Israel.
18. Carta 52.
19. Jerônimo confunde aqui duas pessoas distintas: C. Fábio Pictor era o pintor; seu neto, Q. Fábio, o historiador.
20. 1Rs 7.14. Engano de Jerônimo. O tírio era o pai de Hirão.
21. Hípias de Élida. Ver Cícero, Do orador III, 32.
22. Conciliabula.
23. Expressão semelhante ocorre na Carta 118, § 4.
24. Platão, Fédon XII. Cícero, Tusculanas I, 31.
25. Virgílio, Geórgicas III, 66-68.
26. Morreu em 361 d.C.
27. Juliano.
28. Morreu em 363 d.C.
29. Morreu em 364 d.C.
30. Morreu em 375 d.C.
31. Morreu queimado numa cabana depois da batalha de Adrianópolis, em 378 d.C.
32. Morreu em 383 d.C., pela mão de Andragácio.
33. Estrangulado por Arbogasto em Vienne, em 392 d.C.
34. Pretendentes à púrpura que foram mortos, o primeiro por Valente, o segundo e o terceiro por Teodósio.
35. Horácio, Odes II, 10, 11-12.
36. Banido por Eutrópio, que lhe devia a sua promoção.
37. O primeiro-ministro de Teodósio I. Pouco depois da ascensão de Arcádio, o godo Gainas providenciou o seu assassinato.
38. Um dos generais de Teodósio I, banido para o Oásis por instigação de Eutrópio.
39. Virgílio, Eneida II, 369.
40. Isto é, os hunos tomaram o lugar dos caldeus descritos em Hc 1.8, segundo a Septuaginta.
41. Virgílio, Eneida VI, 625-627.
42. Jordanes corrobora o relato sobre os hunos aqui dado por Jerônimo.
43. Heródoto VII, 45-46.
44. Bispo de Aquileia. Seu irmão Eusébio também era bispo.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de W. H. Fremantle (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 6, Nova York, 1893), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é latino: esta é, portanto, tradução de tradução. O parágrafo de apresentação de cada carta é de Fremantle; os números de seção são os da edição dele. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Jerônimo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Bíblia latina ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.