Manual de aconselhamento pastoral · Capítulo 6 de 14

As grandes perguntas do fim da vida

Quem sabe que vai morrer costuma fazer, em voz alta ou em silêncio, poucas e grandes perguntas: sobre o medo, a culpa, o porquê, a salvação, o sentido do que viveu e o que fazer com o tempo que resta. O pastor não precisa ter resposta pronta para todas, mas precisa ter coragem de entrar nelas com a pessoa.

A igreja conhece estas perguntas há muito tempo. No século 15 circulava a Ars moriendi, a “arte de morrer”, que descrevia as tentações do leito de morte: a dúvida, o desespero, a impaciência, o orgulho espiritual e o apego excessivo às coisas e às pessoas. Em 1651 o bispo anglicano Jeremy Taylor publicou Holy Dying (O santo morrer), e Wesley conta que a leitura de Taylor, em 1725, foi um dos marcos do seu despertar espiritual. O metodismo nasceu, portanto, de uma tradição que ensinava a viver e a morrer diante de Deus.

Perguntas frequentes e como acolhê-las

O que a pessoa diz O que pode estar por trás Como acolher Escritura
“Tenho medo.” Medo da dor, da falta de ar, de ficar sozinho, do desconhecido, do juízo Pergunte de que, exatamente. Muitos medos têm resposta prática: a equipe pode controlar a dor, a igreja pode organizar companhia. O medo não é pecado: Jesus também se angustiou Hb 2.14-15; Sl 23.4; Jo 14.1-3; Mt 26.38
“Deus está me castigando?” Culpa verdadeira por pecados reais ou culpa falsa, nascida da ideia de que doença é castigo Separe as duas. Para a culpa verdadeira, confissão e perdão; para a falsa, a verdade de que Deus não aflige de bom grado 1Jo 1.9; Tg 5.16; Jo 9.2-3; Lm 3.33
“Por que eu? Por que agora?” Protesto, revolta, sensação de injustiça Não explique. Ore com a pessoa a queixa dos salmos e lembre que o próprio Jesus perguntou “por quê” na cruz Sl 13; Mc 15.34; Rm 8.18
“Será que sou salvo?” Lembrança de pecados, medo do juízo, tentação de desespero Leve a pessoa a olhar para Cristo, e não para os próprios méritos. Ofereça confissão, oração e a Ceia Rm 8.16, 38-39; Lc 23.42-43; 1Jo 4.18
“Orei tanto, e a cura não veio.” Decepção com Deus, sensação de fé fracassada Afirme que pedir a cura foi certo e que a resposta diferente não é culpa da pessoa. A cura completa virá na ressurreição 2Co 12.9; 2Tm 4.20; 1Co 15.42-44
“Não quero ser um peso.” Perda da autonomia, vergonha da dependência Deixar-se cuidar também é humildade e dá aos outros a chance de amar. Não existe vida inútil (§3420) Jo 13.6-9; Mc 14.3-9; Gl 6.2
“Peço a Deus que me leve.” Saudade do céu, cansaço, dor mal controlada ou depressão Escute o que está por trás. O desejo de estar com Cristo é legítimo; dor e desespero precisam ser comunicados à equipe Fp 1.21-23; 2Co 5.8

Quando o doente pede para morrer

Quando alguém diz que quer morrer ou pergunta sobre eutanásia, quase sempre está pedindo outra coisa: alívio da dor, companhia, controle sobre o que acontece, sentido para o que resta. O pastor não responde com condenação nem com silêncio constrangido. Ele pergunta: “O que faz o senhor sentir isso agora?”, escuta e leva as necessidades à equipe de cuidados paliativos.

A posição da igreja continua clara (§3420), mas o caminho até ela passa pelo cuidado. A pessoa precisa saber que não será abandonada, que a dor pode ser tratada e que a sua vida ainda tem valor diante de Deus e da família.

A certeza da salvação no leito de morte

A dúvida sobre a salvação é uma das tentações mais comuns no fim da vida, inclusive entre crentes antigos. A resposta wesleyana não é “uma vez salvo, salvo para sempre”, mas a confiança viva em Cristo agora, confirmada pelo testemunho do Espírito (Rm 8.16). O Manual ensina que “Cristo ofereceu definitivamente o único sacrifício perfeito pelos pecados do mundo inteiro” (§114).

  1. Convide a pessoa a dizer o que a inquieta. Às vezes há um pecado específico que ela nunca confessou.
  2. Ouça a confissão, se ela desejar, e anuncie o perdão prometido: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar” (1Jo 1.9).
  3. Ajude-a a renovar a confiança em palavras simples: “Senhor Jesus, eu confio em ti. Recebe-me”.
  4. Ofereça a Ceia, sinal visível da graça (§123).
  5. Leia promessas que apontam para Cristo, como Jo 10.27-29 e Rm 8.38-39, e cante um hino de confiança.

Charles Wesley sabia que mesmo o crente pode chegar ao fim angustiado. O primeiro hino da sua Preparação para a Morte começa assim: “Jesus, a ti clamo angustiado, um pecador prestes a morrer”. A fé não exige serenidade perfeita; ela se agarra a Cristo, com ou sem paz sentida.

Reconciliação e despedida

O fim da vida é muitas vezes a última chance de resolver o que ficou pendente entre as pessoas. O médico Ira Byock, que dedicou a carreira aos cuidados paliativos, resumiu em quatro frases o que os doentes mais precisam dizer e ouvir: “Perdoe-me”, “Eu perdoo você”, “Obrigado” e “Eu amo você” (The Four Things That Matter Most, 2004). A elas se junta a despedida.

As quatro frases têm raíz no evangelho (Mt 5.23-24; Ef 4.32; Cl 3.13-15). O pastor pode:

Legado e bênção

A Bíblia registra bênçãos ditas por quem estava para morrer. “Pela fé, Jacó, quando estava para morrer, abençoou cada um dos filhos de José” (Hb 11.21; Gn 48-49). Moisés abençoou as tribos (Dt 33), Paulo deixou a Timóteo o seu testemunho (2Tm 4.6-8), e Jesus, na cruz, confiou a mãe ao discípulo amado (Jo 19.26-27).

A terapia da dignidade, desenvolvida pelo psiquiatra Harvey Chochinov (2005), mostrou que contar a própria história e deixar palavras para a família aumenta, em muitos doentes, o senso de dignidade e de propósito. As perguntas abaixo se inspiram nesse trabalho e na tradição bíblica da bênção.

As respostas podem ser gravadas ou escritas pela família, com a permissão do doente. Elas servem ao luto dos que ficam e, muitas vezes, ao próprio culto fúnebre.

Pôr a casa em ordem

Quando o profeta disse a Ezequias que pusesse a casa em ordem (Is 38.1), falava também de providências concretas. O pastor não substitui o advogado, mas pode lembrar com tato o que costuma ficar para trás: testamento, documentos, dívidas e contas, a guarda de filhos menores, as diretivas antecipadas e os desejos para o sepultamento. Orar pelo milagre e organizar a casa não são atitudes contrárias; as duas cabem na mesma fé.

Organizador: Bispo Ildo Mello. Texto preparado com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do organizador. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA).