Manual de aconselhamento pastoral · Capítulo 7 de 14
A família também é objeto do cuidado pastoral. Ela vive o luto antes da morte, se esgota nos cuidados, enfrenta decisões difíceis e, nas últimas horas, precisa de alguém que explique o que está acontecendo, ore e ajude nas providências depois do óbito.
É comum, no Brasil, a família esconder o diagnóstico “para não matar de desgosto”. O doente, por sua vez, percebe a verdade e finge não saber para proteger a família. Cada um fica sozinho com o que sabe, e as despedidas que poderiam acontecer não acontecem.
O pastor não rompe esse silêncio por conta própria, mas ajuda a família a pensar: “O que vocês acham que ele já percebeu? O que ele perguntaria se pudesse?”. A maioria dos doentes sente que está piorando, e o Código de Ética Médica prevê que o paciente seja informado do diagnóstico e do prognóstico, salvo quando a comunicação direta puder causar-lhe dano. Conversas honestas, no ritmo do doente e com apoio da equipe, costumam trazer alívio a todos.
O cuidador principal, quase sempre uma mulher da família, carrega um peso que poucos veem: noites sem dormir, tarefas de enfermagem, contas, conflitos entre irmãos, culpa e raiva misturadas. Jetro advertiu Moisés de que ninguém aguenta sozinho um fardo pesado demais (Êx 18.17-23), e o mesmo vale para quem cuida de um doente terminal.
As crianças percebem que algo grave está acontecendo, mesmo quando ninguém conta. Diga a verdade em linguagem simples, permita que visitem o doente se quiserem, que façam desenhos e cartas e que se despeçam. Afastá-las “para proteger” costuma deixá-las sozinhas com fantasias piores que a realidade. O capítulo 10 trata do luto infantil.
As reuniões entre família e equipe médica decidem coisas pesadas: suspender um tratamento, não reanimar, levar o doente para casa. O pastor pode participar se a família pedir, como presença serena e não como árbitro.
A pergunta que mais ajuda é: “O que ele diria, se pudesse falar agora?”. Ela tira o foco da culpa de quem decide e o coloca na vontade de quem está morrendo. Parentes que chegam tarde e exigem “fazer tudo” muitas vezes estão lidando com a própria culpa; acolha-os, explique com paciência e ore pela unidade da família.
Explicar à família o que é esperado diminui o pânico e permite despedidas mais tranquilas. Os sinais variam de pessoa para pessoa, e a equipe de saúde é quem confirma o quadro.
| Quando | Sinais comuns | O que ajuda |
|---|---|---|
| Semanas a dias antes | Mais sono, menos interesse por comida e bebida, fraqueza, pouca conversa, confusão. Alguns falam de viagem ou de arrumar as malas, ou dizem ver parentes que já morreram. Às vezes há uma melhora súbita, que o povo chama de “a melhora da morte” | Não forçar alimentação. Aproveitar os momentos de lucidez para conversas e despedidas. Ouvir as falas simbólicas com respeito, sem contradizer nem explorar |
| Dias a horas antes | Respiração irregular, com pausas; respiração ruidosa por secreções, a “sororoca”; mãos e pés frios, manchas arroxeadas nos joelhos e nos pés; pouca urina; olhos semiabertos; pouca ou nenhuma resposta; às vezes agitação | Avisar a equipe, que pode mudar a posição e usar medicação. O ruído das secreções costuma angustiar mais a família do que o doente. Molhar os lábios, segurar a mão, falar com calma, cantar baixinho |
Muitas famílias sentem paz ao dizer ao doente: “Pode descansar no Senhor; nós vamos ficar bem”. Essa frase não decide a hora da morte, que pertence a Deus (Sl 31.15), mas tira do doente a preocupação com quem fica.
Se puder, esteja presente nas últimas horas, ou ao menos disponível por telefone. A igreja cristã sempre acompanhou os que morrem com a oração de entrega, que ecoa as palavras de Jesus na cruz, “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!” (Lc 23.46), e as de Estêvão, “Senhor Jesus, recebe o meu espírito!” (At 7.59).
O Manual da Igreja traz a ordem do culto fúnebre (§9310), mas não uma ordem para o leito de morte. O capítulo 13 oferece um roteiro breve: leitura do Salmo 23 ou de Jo 14.1-3, Pai-Nosso, oração de entrega, um hino conhecido e a bênção. Quando a morte demora, não há problema em repetir o roteiro ou simplesmente permanecer em silêncio, com a mão sobre a mão do doente.
Não tenha pressa. A família pode querer tocar, beijar, chorar, cantar ou ficar em silêncio junto ao corpo. O Manual do Pastor aconselha a incentivar com delicadeza os familiares a ver o corpo antes que seja levado, porque isso ajuda a começar o luto.
Faça uma oração breve ao redor da cama: gratidão pela vida da pessoa, entrega dela ao Senhor e pedido de consolo para a família. Depois, ofereça ajuda nas providências, sem tomar o lugar da família nas decisões.
| Situação ou etapa | O que fazer |
|---|---|
| Morte no hospital | A equipe médica constata o óbito e emite a Declaração de Óbito, documento exclusivamente médico. |
| Morte esperada em casa, de doente acompanhado | Chamar o médico ou a equipe que acompanhava o doente. Combine isto antes com a equipe, porque os procedimentos variam de cidade para cidade. |
| Morte natural sem assistência médica | A declaração cabe ao Serviço de Verificação de Óbito (SVO), onde houver; onde não houver, a um médico do serviço público de saúde ou, na falta, a qualquer médico da localidade. |
| Morte violenta ou suspeita (acidente, homicídio, suicídio) | Chamar a polícia (190) e não mexer no local. O corpo vai para o Instituto Médico Legal (IML). |
| Dúvida se a pessoa ainda está viva | Ligar para o SAMU (192). |
| Funerária | A família escolhe e pode comparar preços; verifique se havia plano funerário. Lembre que a igreja não cobra pelos funerais que realiza (§9300). |
| Certidão de óbito | O registro é feito no cartório com a Declaração de Óbito, em geral com a ajuda da funerária. O prazo é de 24 horas, podendo chegar a 15 dias e, a mais de 30 km do cartório, a três meses. O registro e a primeira certidão são gratuitos, e nenhum sepultamento acontece sem a certidão (Lei nº 6.015/1973, arts. 77 a 79; Lei nº 9.534/1997). |
| Cremação | Só é permitida se a pessoa manifestou essa vontade ou por interesse da saúde pública, com a declaração assinada por dois médicos ou por um médico legista; em morte violenta, depende de autorização judicial (Lei nº 6.015/1973, art. 77, §2º). Quem deseja ser cremado deve deixar isso por escrito. A igreja recomenda o sepultamento, sem condenar a cremação: veja o estudo Sepultar ou cremar?. |
| Avisos | Ajude a família a fazer uma lista de quem avisar e a escolher uma pessoa para responder às ligações e mensagens. |
As providências das semanas seguintes, como pensão, licença do trabalho e inventário, estão no capítulo 9.
Organizador: Bispo Ildo Mello. Texto preparado com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do organizador. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA).