O que significa “tudo se fez novo”?
Se sou nova criatura (2Co 5.17), por que ainda sofro, adoeço e sou tentado como antes?
“Vigiem e orem, para que não entrem em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca.”Mateus 26.41 · NAA
Série Batalha Espiritual — os 12 estudos
Para começar
Depois de mapear as estratégias do adversário, a série volta-se para o inimigo de dentro. Três perguntas orientam este estudo.
Se sou nova criatura (2Co 5.17), por que ainda sofro, adoeço e sou tentado como antes?
Muitos crentes sentem que a batalha interior começou — ou se intensificou — justamente na conversão.
Pedro, João e Paulo conheceram por dentro esta guerra — e deixaram instruções de combate.
O ponto de partida
Paulo diz que quem está em Cristo é nova criatura: as coisas velhas já passaram, e tudo se fez novo (2Co 5.17). Como entender esta afirmação de modo coerente com todo o ensino do Novo Testamento?
Por um lado, a nova criatura foi perdoada, justificada, reconciliada com o Criador, adotada como filho de Deus; recebeu um novo coração e o dom do Espírito Santo, com todas as condições necessárias para viver uma nova vida, segundo novos princípios e uma nova vocação — abençoada, de fato, com toda sorte de bênçãos espirituais. Por outro lado, esta mesma nova criatura ainda habita um corpo mortal e corruptível: a mesma pessoa que já se encontra espiritualmente assentada com Cristo, acima de todo principado e potestade, está ao mesmo tempo com os pés fincados aqui na terra.
Diversos textos mostram que muita coisa antiga subsiste na vida do nascido de novo. Jesus mesmo disse que os discípulos sofreriam aflições — as mesmas de antes. E o próprio Paulo reconhece que os genuínos cristãos ainda gemem: possuem as primícias do Espírito e aguardam a redenção dos seus corpos (Rm 8.23). Nosso espírito foi renovado; nosso corpo segue sendo o mesmo, sujeito a fraquezas, enfermidades e morte. O corpo novo é esperança futura — o “tudo se fez novo” ainda não se aplica a ele.
A chave do estudo
“Vigiem e orem, para que não entrem em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26.41). O espírito já foi renovado e está pronto em Cristo; o problema que nos lança numa gigantesca batalha é que a carne segue fraca. “Carne”, aqui, não é necessariamente o corpo físico, mas os apetites e cobiças da natureza humana atrelada às debilidades do corpo — por isso seguimos suscetíveis a tentações, enfermidades e aflições mesmo após a conversão.
O novo nascimento não acabou com a nossa natureza humana — nós, os crentes, sabemos bem que ela continua viva e atuante. Uma grande guerra entre o espírito que está pronto e a carne que permanece fraca é travada no interior de cada cristão. E a impressão que temos é que esta batalha começou — ou foi tremendamente potencializada — com a conversão. Antes, estávamos mortos em delitos e pecados: não havia luta nem resistência, pois estávamos rendidos. Mas, quando recebemos um novo coração, a luz de Cristo passou a brilhar em nós de tal maneira que os nossos pecados começaram a nos incomodar profundamente. Passamos a experimentar, com mais frequência, a tristeza que é segundo Deus — a que conduz ao arrependimento (2Co 7.9-10).
Vejamos alguns exemplos e instruções de como lutar contra a carne.
Primeiro retrato
Pedro era um discípulo verdadeiro, que amava a Jesus e tudo deixou para segui-lo — e que também tinha as suas fraquezas.
Ele recebeu do Espírito a revelação de que Jesus era o Messias, reconhecida publicamente pelo próprio Senhor. Mas entrou em disputa pelo poder com os demais discípulos; entrou em pânico quando sentiu a vida ameaçada, a ponto de negar a Jesus três vezes (Jo 18.27); e, mesmo depois de Pentecostes, foi duramente repreendido por Paulo por uma atitude pecaminosa (Gl 2.11-14).
Pedro oscilava entre altos e baixos: declarava pelo Espírito que Jesus era o Cristo e, no momento seguinte, caía na tentação de Satanás, cogitando apenas as coisas terrenas e instigando Cristo a evitar a cruz (Mt 16.22-23). Foi capaz de caminhar com Cristo sobre as águas — e se deixou perturbar pelo vento e pelo balanço do mar, desviou os olhos de Cristo, olhou para baixo e começou a afundar (Mt 14.28-31). Jesus o salvou e repreendeu a pequenez da sua fé: “Por que você duvidou?” — questão que segue crucial para os filhos de Deus, que precisam superar o medo das águas e de toda circunstância adversa.
A boa notícia de Pedro
A fé de Pedro era pequena, mas ele não a perdeu — ela foi sendo alimentada pelo convívio com Jesus. Os verdadeiros cristãos estão sujeitos a altos e baixos e enfrentam crises de fé, mas não estão sós: Jesus prometeu estar conosco todos os dias (Mt 28.20) e não permite que sejamos tentados além das nossas forças (1Co 10.13). Ele restaurou Pedro depois da tripla negação, estendeu-lhe a mão sobre as águas e ouviu a oração dos apóstolos: “Aumenta a nossa fé!” (Lc 17.5). Quando a nossa fé estiver fraca e vacilante, ainda podemos gritar por socorro — e contar com a misericordiosa salvação do Senhor, que nos ajuda em nossas fraquezas.
Segundo retrato
João afirma que o maligno não toca nos que são nascidos de Deus (1Jo 5.18) — mas com isto não quer dizer que os crentes estejam imunes à tentação.
Na mesma carta, João declara mentirosos os cristãos que afirmam não cometer pecado algum (1Jo 1.8, 10). E diz: “Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.7) — dando a entender que andar na luz não é sinônimo de impecabilidade; se fosse, não faria sentido a frase complementar. Os que andam na luz ainda carecem de perdão.
Não pense, porém, que João incentiva a prática do pecado: o propósito declarado da carta é a santidade — “escrevo estas coisas para que vocês não pequem” (1Jo 2.1) —, e o nascido de Deus não pode viver na prática deliberada do pecado (1Jo 5.18; Hb 10.26). “Todo aquele que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, assim como ele é puro” (1Jo 3.3).
O equilíbrio de João: ainda que a santidade seja o alvo, o pecado é uma possibilidade real na vida do verdadeiro cristão. Deve ser evitado a todo custo; mas, quando acontece, o cristão não deve desistir do caminho da luz nem supor que é o fim. Cristo tem enorme provisão de misericórdia e graça para perdoar os pecados e purificar de toda injustiça (1Jo 1.9).
Jesus lavou os pés dos discípulos que se sujaram na caminhada (Jo 13.4-5). Um banho completo não era necessário para quem já havia sido banhado (Jo 13.10): Jesus nos lavou completamente no batismo e segue lavando os nossos pés na Ceia do Senhor, pois nos quer sempre limpos. Bendita seja a sua misericórdia!
“E este é o seu mandamento: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e que nos amemos uns aos outros” (1Jo 3.23). Sobre a fé: “todo aquele que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. Quem é que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?” (1Jo 5.4-5). E sobre o amor:
E João destaca também o papel da Palavra de Deus, a Espada do Espírito, que nos ajuda a vencer o inimigo: “Jovens, eu lhes escrevi, porque vocês são fortes, a palavra de Deus permanece em vocês, e vocês venceram o Maligno” (1Jo 2.14).
Terceiro retrato
Paulo descreve a luta interior no capítulo 7 de Romanos: duas forças antagônicas — uma propensão para o bem e outra para o pecado.
A batalha é tão renhida que Paulo percebe que, por si mesmo, não é capaz de cumprir cabalmente toda a vontade de Deus, mesmo sendo este o seu desejo. Segundo o homem interior, ele tem prazer na lei de Deus (Rm 7.22); mas vê nos seus membros outra lei, que guerreia contra a lei da sua mente e o faz prisioneiro da lei do pecado (Rm 7.23). O resultado é o grito do miserável que suspira por libertação: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24). Este dramático dilema é o retrato da luta de todo verdadeiro cristão — que, por vezes, se percebe ainda mais pecador do que antes da conversão.
O desfecho
Ainda bem que a história não termina aí. Paulo conclui não com o grito de desespero, mas com um brado de vitória: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte” (Rm 8.1-2). Há esperança de vitória sobre o pecado — não na força da carne, mas no Espírito.
Rm 7.22-25 · Rm 8.1-4
Do livro
Responda por escrito, diante de Deus.
Fixação
Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
Tarefas
Ler Rm 7.14–8.4 e Gl 5.16-25, marcando as expressões que descrevem a guerra interior e as que apontam a vitória no Espírito. Durante a semana, praticar Mt 26.41 de modo literal: um momento diário de vigilância e oração, nomeando diante de Deus a inclinação da carne que mais o assedia — e agradecendo, ao fim, pela purificação de 1Jo 1.9.
Estudo 11
A série continua com Vencendo o Mundo: as tentações de Harã ao Egito, a vitória de Jesus no deserto e a batalha de Neemias. Ir para o Estudo 11 →
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Do livro do Bispo Ildo Mello · Editoras No Cenáculo e Filhos da Graça