Batalha EspiritualEstudo 3

Guerra Espiritual: a Batalha Inicial

“Porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela; este lhe ferirá a cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar.”Gênesis 3.15 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Gn 1–3; Lc 15.11-32; Zc 4.6

Série Batalha Espiritual — os 12 estudos

1 · Maldição Hereditária2 · Herança Familiar3 · Batalha Inicial4 · Batalha Decisiva5 · O Valente Amarrado6 · A Batalha Final7 · Contra quem Lutamos?8 · Sedução e Disfarce9 · Ataques à Mente e ao Coração10 · Vencendo a Carne11 · Vencendo o Mundo12 · Nossas Armas

Para começar

As perguntas que nos guiam

A Bíblia começa descrevendo a criação de um paraíso terreno e termina com a revelação de um paraíso celestial. Entre um e outro, ela relata muitas batalhas espirituais — e três perguntas nos acompanharão neste estudo.

1

De onde veio o mal?

Se Deus é Todo-poderoso e bom, por que permite a existência do mal? Por que não impediu o surgimento do pecado?

2

O que é, de fato, a guerra espiritual?

Uma queda de braço entre o bem e o mal? A Bíblia responde que não — e a resposta certa muda o jeito de batalhar.

3

Como Deus escolheu vencer?

Não por força nem por violência (Zc 4.6): o Pai decidiu cativar pelo amor. Isso define as nossas armas.

O mapa

As Três Grandes Batalhas

Dentre as muitas batalhas espirituais relatadas na Escritura, três se destacam em importância. Elas servem como marcos que nos ajudam a compreender a natureza e a dinâmica das nossas próprias batalhas dentro do plano maior de Deus.

1. A Batalha Inicial

Travada no Jardim do Éden, quando nossos ancestrais foram seduzidos pelas falsas promessas de Satanás e pelo fascínio do fruto proibido (Gn 3). É o assunto deste estudo.

2. A Batalha Decisiva

A intervenção de Deus na história, promovendo salvação, cura e reconciliação — o Segundo Adão que pisa a cabeça da serpente. Assunto do próximo estudo.

3. A Batalha Final

A consumação: o mal destruído para sempre e o povo de Deus conduzido ao paraíso, agora celestial e eterno (Ap 20–22).

Gn 3

A Batalha Inicial: o que aconteceu no Éden

O propósito de Satanás foi separar os nossos primeiros pais de Deus por meio do pecado, pois ele sabia que o pecado nos afasta de Deus: “As iniquidades de vocês fazem separação entre vocês e o seu Deus” (Is 59.2).

Por conta da desobediência, Adão e Eva foram expulsos do Paraíso, e com isto toda a raça humana foi tremendamente afetada pelas consequências danosas do pecado: sofrimento, enfermidades, invejas, ódio, injustiças e morte. Mas, no episódio da queda, não há apenas maldição. Temos ali também a graciosa promessa de que um dia nasceria um homem que pisaria a cabeça da serpente (Gn 3.15) — o protoevangelho, o primeiro anúncio do evangelho nas Escrituras. Tal promessa se cumpriu em Jesus, que veio para ser o nosso Segundo Adão, o homem santo e ideal, que veio promover restauração: “Se, pela transgressão de um só, a morte reinou por meio dele, muito mais aqueles que recebem a abundância da graça e o dom da justiça reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo” (Rm 5.17).

Primeiro, o que a batalha espiritual não é. O livro de Gênesis ensina que Deus fez tudo perfeito e bom: “Viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom” (Gn 1.31). Só há um Deus — eterno, santo e bom (1Co 8.4-6; Ef 4.6; 1Tm 2.5). O mal não existe em Deus, nem é uma força autônoma que coexiste com Deus, medindo forças com a bondade divina. De modo que a batalha espiritual não pode ser entendida como uma queda de braço entre o bem e o mal para ver quem é o mais forte. A supremacia do poder de Deus é indiscutível e jamais foi questionada por Satanás ou por qualquer demônio: “Você crê que Deus é um só? Faz bem; até os demônios creem e tremem” (Tg 2.19). Deus não é o autor do mal, e tampouco podemos concluir que o pecado tenha sido resultado de seres criados com algum defeito de fabricação: “Deus fez o ser humano reto, mas ele se meteu em muitas astúcias” (Ec 7.29).

A origem do mal

Por que Deus permitiu?

Se Deus é Todo-poderoso e bom, por que permite a existência do mal? Por que não impediu o surgimento do pecado? Duas razões principais.

Deus poderia ter criado seres programados para obedecer à sua vontade — seres autômatos, como robôs, sem liberdade de escolha. Um mundo de autômatos poderia funcionar muito bem: sem guerras, sem injustiças, sem maldade. Mas, no final das contas, seria também um tanto sem graça, pois as próprias expressões de amor, devoção e serviço não seriam livres e espontâneas; teriam de ser programadas, resultando em algo artificial, sem significado real. Ninguém, em sã consciência, se sentiria tocado ao receber uma declaração de amor de um ser que não pode dizer outra coisa senão aquilo que está na sua programação.

Portanto, o ser humano foi criado de maneira muito especial: feito à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.27-28), com inteligência, livre-arbítrio e capacidade para se relacionar verdadeiramente com o Criador, correspondendo ao seu amor. Deus quis que seus filhos e filhas fossem livres, mesmo sabendo dos riscos derivados da liberdade humana — pois ninguém pode ser livre apenas para obedecer: quem é livre pode se rebelar e optar pelo mal. A história revela as consequências do mau uso da liberdade: pecado, egoísmo, inveja, ódio, crimes, doenças, injustiças, guerras, fomes. Um alto preço tem sido pago para que possamos ter relacionamentos verdadeiramente significativos. Mas, quando amamos a Deus e respondemos positivamente ao seu chamado, isto é cheio de significado — este relacionamento entre Deus e o ser humano é cheio de afeto. O mesmo se pode dizer do amor e da amizade entre os seres humanos. Alguém, certa vez, disse: “Amo a liberdade; por isso, deixo livres todas as coisas que tenho. Se elas permanecerem comigo, será porque as conquistei; se partirem, será porque, de fato, nunca as possuí”.

Zc 4.6

A natureza da batalha: o Pai que cativa pelo amor

Mesmo tendo criado seres livres, Deus poderia ter se imposto a eles pela força do seu poder. Mas não quis que fosse assim: “Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos” (Zc 4.6).

Deus, como Pai, não quis se impor pela força: decidiu cativar pelo amor. Manifestou-se ao mundo na pessoa de Jesus, que, sendo o próprio Deus, esvaziou-se da sua glória para identificar-se com a nossa fraqueza (Fp 2.6-8), revelou-se como Servo sofredor, que carrega a sua cruz e dá a vida pelos seus amados e amadas. Quando se apresentou como Rei, na entrada em Jerusalém no Domingo de Ramos, não entrou montado num cavalo portentoso, cheio de pompa, nem acompanhado de um exército ameaçador: escolheu entrar de maneira humilde e mansa, montado num jumentinho (Zc 9.9; Mc 11.7-10). O seu próprio estilo de liderança foi marcado pela cruz, pelo jumentinho, pela água e a toalha com que lavou os pés dos discípulos (Jo 13.4-5). Sendo Senhor, foi humilde e assumiu a condição de servo; não foi dominador nem tirano, mas procurou cativar pelo exemplo. Não constrangeu os seguidores pela força — eles sempre foram livres para escolher e até para desistir (Jo 6.66-68). Na cruz, Deus revelou seu grande amor ao mundo e atraiu muitos a si: “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos para mim mesmo” (Jo 12.32).

Enquanto Satanás promoveu a separação entre o homem e Deus através do pecado, o propósito de Deus foi promover a reconciliação através de um ato extremo de amor, “para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus” (Ef 2.7; cf. Rm 5.11; 11.33-36; 2Co 5.18-19; Jo 3.16).

A parábola que explica a guerra. Os conflitos humanos, as batalhas espirituais e as guerras de toda espécie são fruto da rebeldia humana, que escolheu viver distante de Deus. Como o Filho Pródigo, o homem apropriou-se da sua herança e fugiu para bem longe da casa paterna, para viver e desfrutar a vida à sua maneira (Lc 15.11-13). Bem sabemos a consequência deste ato insano: engano, frustração, destruição e amargura. Ao comer o fruto proibido, o homem não alcançou o que tanto almejava; pelo contrário, encontrou a vergonha, o medo e a própria morte — que é o resultado da ausência do Autor da vida. O Pai concede liberdade para que o filho escolha o seu caminho: por mais doloroso que seja vê-lo afastar-se, este Pai amoroso não quer mantê-lo preso por qualquer espécie de coerção — não quer o filho contrariado dentro de casa. O filho é livre para ir, livre para dar ouvidos às mentiras de Satanás, livre para viver como bem entende; mas terá de arcar com as consequências das suas escolhas, na esperança de que desperte, recordando o carinho do lar paterno — e que a tristeza “segundo Deus” o leve ao arrependimento e o conduza de volta aos braços do Pai (2Co 7.10-11; Lc 15.17-24).

Aplicação

Como batalhar, então?

Se a guerra é, no fundo, uma disputa pela nossa proximidade com Deus, as armas do cristão decorrem diretamente disso.

Permaneça perto. Se a estratégia inteira do inimigo é separar (Is 59.2), a defesa inteira do cristão é permanecer: “Cheguem-se a Deus, e ele se chegará a vocês” (Tg 4.8). Comunhão diária — Palavra, oração, culto, comunhão dos santos — não é rotina religiosa: é posição de guerra.
Submeta-se e resista, nesta ordem. “Sujeitem-se, portanto, a Deus; resistam ao diabo, e ele fugirá de vocês” (Tg 4.7). Não há resistência eficaz sem submissão prévia: quem enfrenta o diabo longe de Deus enfrenta sozinho.
Combata mentira com Palavra. A Batalha Inicial começou com uma pergunta enganosa: “É assim que Deus disse?” (Gn 3.1). O Segundo Adão venceu no deserto respondendo três vezes “está escrito” (Mt 4.4, 7, 10). A guerra espiritual é, antes de tudo, uma guerra de versões sobre quem Deus é — e se vence com a verdade (Jo 8.32, 44).
Desconfie das promessas do sedutor. “Serão como Deus” (Gn 3.5) terminou em vergonha, medo e morte. Toda oferta que exige distância de Deus entrega o contrário do que promete — pergunte ao Pródigo entre os porcos (Lc 15.16).
Volte depressa. Se você caiu, o caminho da vitória não é o esconderijo de Adão (Gn 3.10), é a estrada do Pródigo: “levantar-me-ei e irei ter com o meu pai” (Lc 15.18). A tristeza segundo Deus produz arrependimento que não traz pesar (2Co 7.10) — e o Pai continua olhando a estrada.

Do livro

Questões para reflexão

As perguntas abaixo encerram o capítulo no livro. Responda-as por escrito, com honestidade, diante de Deus.

1. Você já se deparou, em sua experiência de fé, com a questão: “Por que Deus permitiu que tal coisa acontecesse?” Como você tem lidado com isso? De que forma podemos superar o sentimento de dúvida em relação ao amor de Deus que certas respostas a esta pergunta podem trazer à nossa vida?
2. Como os relatos da queda e a Parábola do Filho Pródigo nos ajudam a compreender a natureza da batalha espiritual?
3. Analisando o episódio da queda de Adão e Eva e a Parábola do Filho Pródigo, que lições podem ser úteis para você diante de suas batalhas espirituais?
4. Você, genuinamente, ama a Deus — ou ainda sente que sua relação com Deus está atravancada por outras paixões?

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

“Por que Deus permitiu que tal coisa acontecesse?” Esta é a primeira questão do livro — e talvez a pergunta mais repetida da vida cristã. Como lidar com ela sem deixar que a dúvida corroa a confiança no amor de Deus?Ver resposta sugerida
Primeiro, reconheça que a pergunta é legítima: os salmistas a fizeram (Sl 10.1; 22.1), Jó a fez, e Deus não os censurou por perguntar. Segundo, distinga o que a Escritura responde do que ela não responde: ela não nos dá o porquê de cada dor específica (Jo 13.7 — “o que eu faço não o sabes agora”), mas nos dá o porquê estrutural: Deus quis filhos livres, não robôs, e a liberdade real tornou o mal possível (Rm 8.29; Ec 7.29). Terceiro — e decisivo —, ancore a resposta na cruz, não na circunstância: quando a dúvida sussurra que Deus não se importa, olhe para o lugar onde ele entrou na nossa dor e a carregou (Rm 5.8; 8.32). Não interprete o amor de Deus pelas circunstâncias; interprete as circunstâncias pelo amor já provado no Calvário. Por fim, lembre que a história não acabou: o mesmo plano que permitiu a Batalha Inicial já garantiu a Final, quando Deus enxugará dos olhos toda lágrima (Ap 21.4). Entre uma e outra, a fé caminha com perguntas — de mãos dadas com o Pai.
Um irmão pergunta: “Se há uma guerra entre Deus e o diabo, quem está ganhando?” Como corrigir, com mansidão, o dualismo embutido na pergunta?Ver resposta sugerida
Acolha a intuição correta — há, sim, um conflito real — e corrija a geometria: a Bíblia nunca apresenta Deus e Satanás como dois pesos na mesma balança. Satanás é criatura, não anticriador; nem ele nem demônio algum jamais questionou a supremacia de Deus — “até os demônios creem e tremem” (Tg 2.19); ele pede permissão em Jó (Jó 1.12), é repreendido com uma palavra (Zc 3.2) e será lançado fora sem batalha equilibrada alguma (Ap 20.10). Então por que a guerra continua? Porque o campo de disputa não é o trono de Deus — é o coração do homem livre. Deus escolheu vencer não por força (Zc 4.6), mas cativando pelo amor, o que dá tempo e espaço para a persuasão, a paciência e o arrependimento (2Pe 3.9). A pergunta certa, portanto, não é “quem está ganhando?” — a cruz e o túmulo vazio já decidiram isso (Cl 2.15). A pergunta certa é: “de que lado da porta do Pai eu estou?” — e essa, cada um responde com a própria vida.

Para casa e próxima aula

Tarefas

Ler Gn 3 e Lc 15.11-32 lado a lado, anotando por escrito os paralelos entre a queda e o Filho Pródigo (a oferta, a saída, a miséria, o retorno); memorizar Gn 3.15 e Zc 4.6; e responder com total honestidade à quarta Questão para Reflexão: o que hoje atravanca o seu amor a Deus?

Estudo 4

A Batalha Decisiva: o Dia D da cruz, o paradoxo do “já e ainda não” e as duas razões do adiamento do fim. Ir para o Estudo 4 →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello