Batalha EspiritualEstudo 10

Vencendo a Carne

“Vigiem e orem, para que não entrem em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca.”Mateus 26.41 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Rm 7.14–8.4; Gl 5.16-25; 1Jo 1.5–2.2

Série Batalha Espiritual — os 12 estudos

1 · Maldição Hereditária2 · Herança Familiar3 · Batalha Inicial4 · Batalha Decisiva5 · O Valente Amarrado6 · A Batalha Final7 · Contra quem Lutamos?8 · Sedução e Disfarce9 · Ataques à Mente e ao Coração10 · Vencendo a Carne11 · Vencendo o Mundo12 · Nossas Armas

Para começar

As perguntas que nos guiam

Depois de mapear as estratégias do adversário, a série volta-se para o inimigo de dentro. Três perguntas orientam este estudo.

1

O que significa “tudo se fez novo”?

Se sou nova criatura (2Co 5.17), por que ainda sofro, adoeço e sou tentado como antes?

2

Por que a luta parece ter aumentado?

Muitos crentes sentem que a batalha interior começou — ou se intensificou — justamente na conversão.

3

Como lutaram os que vieram antes?

Pedro, João e Paulo conheceram por dentro esta guerra — e deixaram instruções de combate.

O ponto de partida

Nova criatura, carne fraca

Paulo diz que quem está em Cristo é nova criatura: as coisas velhas já passaram, e tudo se fez novo (2Co 5.17). Como entender esta afirmação de modo coerente com todo o ensino do Novo Testamento?

Por um lado, a nova criatura foi perdoada, justificada, reconciliada com o Criador, adotada como filho de Deus; recebeu um novo coração e o dom do Espírito Santo, com todas as condições necessárias para viver uma nova vida, segundo novos princípios e uma nova vocação — abençoada, de fato, com toda sorte de bênçãos espirituais. Por outro lado, esta mesma nova criatura ainda habita um corpo mortal e corruptível: a mesma pessoa que já se encontra espiritualmente assentada com Cristo, acima de todo principado e potestade, está ao mesmo tempo com os pés fincados aqui na terra.

Diversos textos mostram que muita coisa antiga subsiste na vida do nascido de novo. Jesus mesmo disse que os discípulos sofreriam aflições — as mesmas de antes. E o próprio Paulo reconhece que os genuínos cristãos ainda gemem: possuem as primícias do Espírito e aguardam a redenção dos seus corpos (Rm 8.23). Nosso espírito foi renovado; nosso corpo segue sendo o mesmo, sujeito a fraquezas, enfermidades e morte. O corpo novo é esperança futura — o “tudo se fez novo” ainda não se aplica a ele.

O novo nascimento não acabou com a nossa natureza humana — nós, os crentes, sabemos bem que ela continua viva e atuante. Uma grande guerra entre o espírito que está pronto e a carne que permanece fraca é travada no interior de cada cristão. E a impressão que temos é que esta batalha começou — ou foi tremendamente potencializada — com a conversão. Antes, estávamos mortos em delitos e pecados: não havia luta nem resistência, pois estávamos rendidos. Mas, quando recebemos um novo coração, a luz de Cristo passou a brilhar em nós de tal maneira que os nossos pecados começaram a nos incomodar profundamente. Passamos a experimentar, com mais frequência, a tristeza que é segundo Deus — a que conduz ao arrependimento (2Co 7.9-10).

Vejamos alguns exemplos e instruções de como lutar contra a carne.

Primeiro retrato

A luta de Pedro

Pedro era um discípulo verdadeiro, que amava a Jesus e tudo deixou para segui-lo — e que também tinha as suas fraquezas.

Ele recebeu do Espírito a revelação de que Jesus era o Messias, reconhecida publicamente pelo próprio Senhor. Mas entrou em disputa pelo poder com os demais discípulos; entrou em pânico quando sentiu a vida ameaçada, a ponto de negar a Jesus três vezes (Jo 18.27); e, mesmo depois de Pentecostes, foi duramente repreendido por Paulo por uma atitude pecaminosa (Gl 2.11-14).

Pedro oscilava entre altos e baixos: declarava pelo Espírito que Jesus era o Cristo e, no momento seguinte, caía na tentação de Satanás, cogitando apenas as coisas terrenas e instigando Cristo a evitar a cruz (Mt 16.22-23). Foi capaz de caminhar com Cristo sobre as águas — e se deixou perturbar pelo vento e pelo balanço do mar, desviou os olhos de Cristo, olhou para baixo e começou a afundar (Mt 14.28-31). Jesus o salvou e repreendeu a pequenez da sua fé: “Por que você duvidou?” — questão que segue crucial para os filhos de Deus, que precisam superar o medo das águas e de toda circunstância adversa.

A boa notícia de Pedro

Fé abalada não é fé destruída

A fé de Pedro era pequena, mas ele não a perdeu — ela foi sendo alimentada pelo convívio com Jesus. Os verdadeiros cristãos estão sujeitos a altos e baixos e enfrentam crises de fé, mas não estão sós: Jesus prometeu estar conosco todos os dias (Mt 28.20) e não permite que sejamos tentados além das nossas forças (1Co 10.13). Ele restaurou Pedro depois da tripla negação, estendeu-lhe a mão sobre as águas e ouviu a oração dos apóstolos: “Aumenta a nossa fé!” (Lc 17.5). Quando a nossa fé estiver fraca e vacilante, ainda podemos gritar por socorro — e contar com a misericordiosa salvação do Senhor, que nos ajuda em nossas fraquezas.

Segundo retrato

João e a batalha espiritual

João afirma que o maligno não toca nos que são nascidos de Deus (1Jo 5.18) — mas com isto não quer dizer que os crentes estejam imunes à tentação.

Na mesma carta, João declara mentirosos os cristãos que afirmam não cometer pecado algum (1Jo 1.8, 10). E diz: “Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.7) — dando a entender que andar na luz não é sinônimo de impecabilidade; se fosse, não faria sentido a frase complementar. Os que andam na luz ainda carecem de perdão.

Não pense, porém, que João incentiva a prática do pecado: o propósito declarado da carta é a santidade — “escrevo estas coisas para que vocês não pequem” (1Jo 2.1) —, e o nascido de Deus não pode viver na prática deliberada do pecado (1Jo 5.18; Hb 10.26). “Todo aquele que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, assim como ele é puro” (1Jo 3.3).

O equilíbrio de João: ainda que a santidade seja o alvo, o pecado é uma possibilidade real na vida do verdadeiro cristão. Deve ser evitado a todo custo; mas, quando acontece, o cristão não deve desistir do caminho da luz nem supor que é o fim. Cristo tem enorme provisão de misericórdia e graça para perdoar os pecados e purificar de toda injustiça (1Jo 1.9).

Jesus lavou os pés dos discípulos que se sujaram na caminhada (Jo 13.4-5). Um banho completo não era necessário para quem já havia sido banhado (Jo 13.10): Jesus nos lavou completamente no batismo e segue lavando os nossos pés na Ceia do Senhor, pois nos quer sempre limpos. Bendita seja a sua misericórdia!

As armas de João: fé e amor

“E este é o seu mandamento: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo e que nos amemos uns aos outros” (1Jo 3.23). Sobre a fé: “todo aquele que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. Quem é que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?” (1Jo 5.4-5). E sobre o amor:

1. O amor a Deus nos ajuda a suplantar o amor e o apego às coisas terrenas (1Jo 2.15-17).
2. O amor lança fora o medo (1Jo 4.18).
3. Se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós — e “maior é aquele que está em vocês do que aquele que está no mundo” (1Jo 4.12; 4.4; Rm 8.31).
4. Quem ama guarda os mandamentos de Deus (1Jo 5.3).

E João destaca também o papel da Palavra de Deus, a Espada do Espírito, que nos ajuda a vencer o inimigo: “Jovens, eu lhes escrevi, porque vocês são fortes, a palavra de Deus permanece em vocês, e vocês venceram o Maligno” (1Jo 2.14).

Terceiro retrato

A luta de Paulo

Paulo descreve a luta interior no capítulo 7 de Romanos: duas forças antagônicas — uma propensão para o bem e outra para o pecado.

A batalha é tão renhida que Paulo percebe que, por si mesmo, não é capaz de cumprir cabalmente toda a vontade de Deus, mesmo sendo este o seu desejo. Segundo o homem interior, ele tem prazer na lei de Deus (Rm 7.22); mas vê nos seus membros outra lei, que guerreia contra a lei da sua mente e o faz prisioneiro da lei do pecado (Rm 7.23). O resultado é o grito do miserável que suspira por libertação: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24). Este dramático dilema é o retrato da luta de todo verdadeiro cristão — que, por vezes, se percebe ainda mais pecador do que antes da conversão.

Do livro

Questões para reflexão

Responda por escrito, diante de Deus.

1. O que significa “tudo se fez novo”, se ainda estamos suscetíveis às fraquezas e aflições de uma carne que permanece fraca?
2. Que lições aprendemos aqui sobre o que fazer para vencer as inclinações pecaminosas de nossa carne?
3. Depois da leitura deste capítulo, você saberia dizer como é que o jugo de Jesus pode ser maravilhosamente leve e suave?
4. Você tem encontrado alegria em fazer a vontade de Deus?

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.

0 de 5

Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

“Como é que o jugo de Jesus pode ser maravilhosamente leve e suave?” (questão 3 do livro). Medite antes de abrir a resposta sugerida.Ver resposta sugerida
O convite vem no meio da guerra: “Venham a mim, todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso… porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mt 11.28-30). Três razões emergem deste estudo. Primeira: o jugo é leve porque não carregamos sozinhos — jugo é canga de dois bois, e o outro boi é o Senhor; ele não permite tentação acima das forças (1Co 10.13) e nos socorre nas fraquezas, como fez com Pedro nas águas (Mt 14.31). Segunda: é leve porque a santidade não é obra da carne, mas fruto do Espírito — Deus opera em nós “tanto o querer como o realizar” (Fp 2.13); o legalismo pesa porque exige de fora o que só a graça produz por dentro. Terceira: é leve porque a queda não encerra a caminhada — há Advogado (1Jo 2.1), há lava-pés (Jo 13.10), há “nenhuma condenação” (Rm 8.1); quem carrega culpa sem perdão carrega o fardo mais pesado do mundo. O jugo de Jesus não é ausência de luta — é luta com descanso no coração: “aprendam de mim, que sou manso e humilde”. A alegria de fazer a vontade de Deus (questão 4) nasce exatamente aí: obedecer por amor a quem nos amou primeiro é leve; obedecer por medo ou por desempenho esmaga.
Um irmão diz: “Cristão de verdade não peca mais”; outro rebate: “Somos todos pecadores mesmo, não adianta lutar.” Como responder aos dois com 1 João? Medite antes de abrir.Ver resposta sugerida
João responde aos dois na mesma carta — e é preciso ler a carta inteira. Ao perfeccionista: “se dissermos que não temos pecado nenhum, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1Jo 1.8); até quem anda na luz precisa do sangue que “nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.7) — se andar na luz fosse impecabilidade, a purificação seria desnecessária. Ao acomodado: “escrevo estas coisas para que vocês não pequem” (1Jo 2.1); o nascido de Deus não pode viver na prática deliberada do pecado (1Jo 5.18; cf. Hb 10.26), e quem tem a esperança da volta de Cristo “purifica-se a si mesmo” (1Jo 3.3). A síntese: santidade é o alvo; o pecado é possibilidade real, não programa de vida. Quando acontece, o caminho não é negar (perfeccionismo) nem normalizar (licenciosidade), mas confessar: “ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9) — temos Advogado junto ao Pai (1Jo 2.1). Termine com a imagem do lava-pés: banhados no batismo, seguimos tendo os pés lavados na caminhada (Jo 13.10). Nem pés que nunca sujam, nem corpo que dispensa o banho — discípulos limpos por misericórdia, em marcha.

Para casa e próximo estudo

Tarefas

Ler Rm 7.14–8.4 e Gl 5.16-25, marcando as expressões que descrevem a guerra interior e as que apontam a vitória no Espírito. Durante a semana, praticar Mt 26.41 de modo literal: um momento diário de vigilância e oração, nomeando diante de Deus a inclinação da carne que mais o assedia — e agradecendo, ao fim, pela purificação de 1Jo 1.9.

Estudo 11

A série continua com Vencendo o Mundo: as tentações de Harã ao Egito, a vitória de Jesus no deserto e a batalha de Neemias. Ir para o Estudo 11 →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Do livro do Bispo Ildo Mello · Editoras No Cenáculo e Filhos da Graça