O que dizem Êx 20.5 e Dt 5.9?
Os textos-base da doutrina da maldição hereditária dizem mesmo o que se costuma pregar a partir deles?
“Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição em nosso lugar.”Gálatas 3.13 · NAA
Série Batalha Espiritual — os 12 estudos
Para começar
Um salvo em Cristo pode ainda estar debaixo de maldição hereditária? A pergunta parece técnica, mas decide coisas muito práticas: para onde olhamos quando a vida aperta — para trás, para os lados ou para a cruz?
Os textos-base da doutrina da maldição hereditária dizem mesmo o que se costuma pregar a partir deles?
Jeremias e Ezequiel enfrentaram um provérbio popular sobre uvas verdes — e o sepultaram.
Se Cristo se fez maldição em nosso lugar (Gl 3.13), o que resta para ser “quebrado” depois da conversão?
O problema
Há movimentos cristãos nos quais a pessoa passa por uma longa sabatina, revolvendo toda a sua vida, à procura de aberturas espirituais em seu passado que possam ser maldição para o seu presente.
Os líderes desses movimentos buscam ser exaustivos e chegam às raias da paranoia. Indagam se o sujeito já foi em benzedeira, se já comeu algum doce de Cosme e Damião quando era criança, se os seus pais ou avós frequentaram reuniões de cultos afro-brasileiros, se o seu nome possui um significado negativo, se seus pais ou avós rogaram alguma praga sobre você, e por aí vai… Há encontros em que se praticam regressões até a vida intrauterina, sob pretensão de hipnose.
Alguns acreditam e ensinam que até os cristãos podem estar sujeitos à maldição de seus ancestrais. Existem livros e seminários que se prestam ao ensino de como quebrar as cadeias da maldição hereditária. Eles se baseiam principalmente em Êxodo 20.5 e Deuteronômio 5.9.
Mas leia o texto inteiro. O próprio Êxodo qualifica de quem se fala: Deus visita a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração “daqueles que me aborrecem” — e, no fôlego seguinte, promete misericórdia “até mil gerações” aos que o amam e guardam os seus mandamentos (Êx 20.5-6; Dt 5.9-10). O texto não descreve um feitiço automático transmitido no sangue, mas a solidariedade de gerações que persistem no mesmo ódio a Deus — e uma misericórdia incomparavelmente mais longa que o juízo: quatro gerações contra mil. A própria Lei, aliás, proíbe transferir a pena de pais para filhos nos tribunais: “Cada um será morto pelo seu próprio pecado” (Dt 24.16). E Jesus, diante do cego de nascença, rejeitou frontalmente a lógica “quem pecou, ele ou seus pais?”: “Nem ele pecou, nem os seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus” (Jo 9.2-3).
Jr 31 · Ez 18
Por causa de uma má interpretação desses textos, surgiu um ditado muito popular em Israel, contestado por Jeremias.
“Naqueles dias já não dirão: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram” (Jr 31.29). Vemos essa ideia em Lamentações 5.7: “Nossos pais pecaram, e já não existem; nós é que levamos o castigo das suas iniquidades”. Ezequiel afirma que o dia previsto por Jeremias já chegou: “Que tendes vós, vós que, acerca de Israel, proferis este provérbio, dizendo: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram? Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, jamais direis este provérbio em Israel” (Ez 18.2-3).
Para uma compreensão melhor desta passagem, é aconselhável a leitura e o estudo de todo o capítulo 18 de Ezequiel. Ambos os profetas eram contra esta perniciosa doutrina, que descambava em irresponsabilidade e fatalismo. De fato, é muito conveniente para alguns desviar a culpa de si mesmos e transferi-la para gerações anteriores. Ou culpar o destino e as forças ocultas por seus fracassos, pecados, vícios e misérias. Chegam a acusar a Deus de injustiça, como em Ezequiel 18.25: “No entanto, dizeis: O caminho do Senhor não é direito”.
Em outras palavras, Ezequiel nos ensina que, em vez de voltarmos nossos olhos para trás em busca de resposta para os infortúnios do presente, em vez de culparmos nossos antepassados, ou os demônios, ou o destino, deveríamos olhar para nós mesmos e pedir a Deus que venha sondar os nossos corações, vendo se há em nós caminho mau, a fim de nos guiar pelos seus caminhos (Sl 139.23-24).
O pecado, sim, é que traz maldição: “pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7). “A maldição sem causa não se cumpre” (Pv 26.2); “Amou a maldição: ela o apanhe; não quis a bênção: aparte-se dele” (Sl 109.17); “Eis que hoje eu ponho diante de vós a bênção e a maldição” (Dt 11.26). Repare que bênção e maldição estão diante, e não atrás, das pessoas; tudo depende da nossa atitude para com Deus. Maldição é estar longe de Deus, e bênção é estar perto dele. A doutrina que ensina que cristãos podem estar debaixo de maldições hereditárias é um contrassenso.
Gl 3.13-14
Jesus é chamado de o Segundo Adão, que veio para reverter os efeitos do pecado do Primeiro Adão: “O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente; o último Adão, porém, é espírito vivificante” (1Co 15.45).
Ambos morreram em um jardim — João destaca isto em seu Evangelho (Jo 19.41). O Primeiro Adão morreu por conta de sua desobediência; e Cristo, o Segundo Adão, por sua obediência ao Pai, com vistas a se tornar o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Acompanhe os contrastes:
O Primeiro Adão
Foi derrotado por Satanás ao comer o fruto proibido de uma árvore (Gn 2.17; 3.6). Comeu — e foi expulso do Paraíso, cuja porta ficou guardada por querubins com espadas (Gn 3.24). Seu pecado trouxe inúmeras maldições (Gn 3.17-19).
O Segundo Adão
“Carregou ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados” (1Pe 2.24). Da árvore de Cristo, que é a sua cruz, todos são convidados a se aproximar e comer para a vida eterna (Sl 34.8; Jo 6.51). E, morrendo, conduziu ao Paraíso um ladrão arrependido crucificado ao seu lado (Lc 23.43).
O detalhe do véu: querubins com espadas foram postos à porta do Paraíso para impedir a entrada do Primeiro Adão. Quando o Segundo Adão morreu na cruz, o véu do templo se rasgou — o que é muito significativo, pois o véu possuía um desenho de querubins como sinal de advertência para que os homens não adentrassem o lugar sagrado da presença de Deus, o Santo dos Santos (Êx 26.31; 2Cr 3.14; Mc 15.38). Jesus reverteu a maldição, e agora temos acesso, pela fé, à santíssima presença do nosso Criador (Hb 10.19-22). Podemos, enfim, regressar ao Paraíso onde Deus habita! Jesus se tornou a árvore da vida que cura a maldição do fruto da árvore proibida. Hoje, comemos do fruto da árvore da vida: participamos da Ceia do Senhor e comemos do Pão vivo que desceu do céu, que nos dá a vida eterna (Jo 6.51).
Portanto, “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição em nosso lugar” (Gl 3.13). Quem era crucificado, naquele tempo, era considerado amaldiçoado por Deus, além de ser um gênero de morte extremamente humilhante. Por isso, o fato de Jesus ter sido crucificado como maldito, sendo ele inocente, serviu para nos resgatar da maldição da lei — que significa que aquele que erra tem de pagar pelo seu pecado, sem fuga nem escape. Desta forma, a bênção — o restauro da comunhão com Deus por meio da ação justificadora e intercessora de Cristo — chega até nós (Gl 3.13-14). Os “da fé” não estão debaixo de nenhuma maldição, mas “são abençoados com o crente Abraão” (Gl 3.9).
“Quem está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram, tudo se fez novo” (2Co 5.17). Não precisamos nos preocupar em desenhar nossa árvore genealógica, regredindo até a terceira e quarta gerações, quebrando cadeias — porque as coisas velhas já passaram e nenhuma maldição e condenação há para os que estão em Cristo Jesus.
Rm 8.23
Concordo com o argumento de que o novo nascimento não resolveu o problema dos nossos genes. Mas tampouco o farão uma ou mais sessões de quebra de maldição hereditária.
Seguiremos habitando um corpo frágil, suscetível a enfermidades e à morte; por conta disto, como bem disse o apóstolo Paulo, seguiremos gemendo, aspirando à redenção do nosso corpo, que só ocorrerá por ocasião da Segunda Vinda de Cristo (Rm 8.23). Não estou com isto negando a existência de uma provisão de cura para nossos traumas físicos e emocionais; mas tal cura ainda pertence à categoria do que Paulo denomina “primícias do Espírito” (Rm 8.23), os primeiros frutos — de modo que a colheita plena permanece sendo esperança futura.
Devemos aprender com Paulo que orar não é decretar nem exigir: ele orou três vezes para ser curado e não o foi. Aprendeu a submeter-se resignadamente à boa e perfeita vontade de Deus, reconhecendo que o poder de Deus se aperfeiçoa na nossa fraqueza (2Co 12.7-10). Paulo nos ensina que não dá para amarrar, rejeitar e quebrar toda e qualquer enfermidade e aflição. É certo que no mundo teremos aflições, é certo que ficaremos enfermos e é certo que um dia morreremos, caso Cristo não retorne em nossa geração. Diante da inevitável deterioração do corpo físico, Paulo nos conforta: “Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus… para que o mortal seja absorvido pela vida” (2Co 5.1-4). E ainda: “Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação” (2Co 4.16-18). Por isto ele diz que podemos até nos gloriar nas tribulações, “sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. E a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5.2-5).
Discernimento
Precisamos discernir devidamente o que de fato está acontecendo, para não chamarmos de maldição algo que não é maldição. E, mesmo quando concluímos que se trata de uma maldição, devemos procurar entender sua origem e alcance: é importantíssimo saber se ela é de origem divina, humana ou satânica.
Não há mais maldição nem condenação para os que estão em Cristo (Rm 8.1). “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8.31). Tendo em mente a definição bíblica de maldição — estar separado de Deus —, ouçamos Paulo em Romanos 8.33-39: “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus?… Quem nos separará do amor de Cristo? Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor”. E ainda: “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o Reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados” (Cl 1.13-14).
Fp 3.13
Temos de lidar com nossa herança genética, com as inclinações da carne, com toda espécie de herança familiar e com as maldições de um modo bíblico.
Não é necessário regredir para nascer de novo (Jo 3). Um crente que volta atrás para quebrar cadeias de maldições hereditárias está pondo em dúvida a sua fé e a sua salvação. Está diminuindo o que Cristo fez por ele. Não está crendo que é nova criatura e que as coisas velhas já passaram. Não está descansando no poder de Deus, nem confiando no poder purificador e libertador do sangue de Jesus: “E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões…, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos; tendo cancelado o escrito de dívida que era contra nós…, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz” (Cl 2.13-14; ver também Ap 1.5; Rm 5.9; Ef 1.7; Hb 9.12, 14; 1Pe 1.18-19).
Em vez de retroceder, devemos fazer como o apóstolo Paulo: “Uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fp 3.13-14). O Senhor ainda diz ao seu povo: “Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas” (Is 43.18). Deus tem um caminho no meio da tormenta (Na 1.3). Não duvide do amor de Deus: não estamos largados à própria sorte, nem somos joguetes nas mãos de seres humanos ou de espíritos malignos.
Traga à memória o que lhe pode dar esperança (Lm 3.21) e busque discernir a boa mão de Deus em sua vida, no seu histórico familiar e na sua hereditariedade. O próprio Senhor nos formou com carinho e com bons propósitos, que vão além da nossa compreensão: “Pois tu formaste o meu interior, tu me teceste no seio de minha mãe. Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem” (Sl 139.13-14); e “Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o Senhor: pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais” (Jr 29.11).
Firme-se na Palavra de Deus e não se deixe levar por todo vento de doutrina (Ef 4.14); não se deixe enganar por aqueles que distorcem as Escrituras com o intuito de atrair discípulos para si (At 20.30). A ignorância e a superstição escravizam, mas a verdade liberta (Jo 8.32). Só como curiosidade: a última palavra do Antigo Testamento é “maldição” (Ml 4.6) — já o primeiro e mais importante sermão do Senhor Jesus registrado no Novo Testamento começa com “Bem-aventurados” (Mt 5.3).
Fixação
Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
Tarefas
Ler Ezequiel 18 inteiro, anotando cada vez que o profeta afirma a responsabilidade individual; ler Gl 3.1-14 e escrever, com suas palavras, o que significa “Cristo se fez maldição em nosso lugar”; e copiar Cl 2.13-14 num cartão com o título “Fatura cancelada”, guardando-o na Bíblia.
Estudo 2
Como superar complexos e traumas ligados à herança familiar: Saul e Josias, Josué e Calebe, e a nova identidade de quem nasceu de novo. Ir para o Estudo 2 →
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello