J. A. Wood · Amor Perfeito · Prefácio e seções I a IV
O prefácio do autor; os termos bíblicos que designam a plena salvação; por que a regeneração e a inteira santificação não são a mesma coisa; a natureza da regeneração e a natureza da perfeição cristã.
As páginas seguintes se destinam especialmente aos crentes da igreja de Deus que “têm fome e sede de justiça” (Mt 5.6) e procuram luz sobre a doutrina, a experiência, o testemunho e a prática da santidade cristã.
Durante os breves anos do meu ministério, e sobretudo desde que aprouve ao Salvador purificar de todo pecado o meu pobre coração, encontrei multidões que desejavam fazer muitas perguntas sobre este assunto. No trabalho pastoral, não foi pequeno o tempo que gastei corrigindo enganos, respondendo a objeções e atendendo a indagações a respeito deste tema. Muitas vezes fiquei entristecido e espantado com a quantidade de descuido, oposição, incredulidade e ignorância que encontrei a respeito dele.
Poupar tempo, apresentar a verdade simples, remover preconceitos e encorajar o esforço para alcançar a santidade cristã: esses são os objetivos deste livro. É com sentimentos de oração, e muito particulares, que estas páginas são publicadas. Desejo que tenham uma leitura sincera, uma atenção acompanhada de oração e a bênção de Deus em cada casa.
O autor não apresenta nenhuma teoria nova ou original. Não entra em rivalidade com outros escritores sobre este assunto. Suas opiniões, até onde ele entende o tema, são estritamente wesleyanas; por isso, não ataca as autoridades wesleyanas consagradas. Se estas fossem lidas de modo geral, haveria menos razão para novos volumes sobre o mesmo assunto. O dr. Jesse T. Peck observa: “A verdade não nos obrigará a confessar que a maioria da igreja negligencia por completo as grandes obras dos nossos mestres sobre este assunto? Os livros puros e excelentes que derramam uma torrente de luz sobre este tema não são lidos.”
Não apresentei nenhuma opinião que contrarie, no mais leve grau, as grandes doutrinas fundamentais da nossa santa religião. Não tenho consciência de ter procurado sustentar nenhuma prática, princípio, doutrina ou fé em que eu não deseje viver e com que não deseje morrer. Ao submeter tudo isso ao meu leitor cristão, não espero escapar da censura dos inimigos da verdade. Tremam os que temem; pela graça de Deus, amo a todos os homens, mas não temo homem algum, e proclamarei com humildade e sem medo o que entendo ser “a verdade em Jesus” (Ef 4.21). Confio humildemente que nem homens nem demônios poderão abalar a minha fé na bendita verdade do amor perfeito. E não posso deixar de recomendar, com a minha língua ou com a minha humilde pena, que todos os crentes o busquem sem demora. Gostaria de fazer o que o dr. Gibson, bispo de Londres, aconselhou o sr. Wesley a fazer: “Publique-o ao mundo inteiro.”
Quando bem compreendida, esta doutrina não apresenta nenhum dos traços repelentes que tantas vezes lhe atribuem os seus opositores equivocados. Minha oração sincera é não causar dano a ninguém e que aquilo que escrevi, ou recolhi dos escritos de outros, faça bem ao leitor. O que houver de errado, que o Senhor perdoe!
Todo homem tem um certo círculo de amigos aos quais tem acesso e sobre os quais exerce influência. O autor confia que algumas pessoas, que de outro modo não seriam alcançadas, sejam alcançadas por este livro, se interessem pelo seu tema e sejam levadas a buscar aquela santidade “sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14).
A matéria do livro foi posta em forma de catecismo, para responder às muitas perguntas que tantas vezes se fazem sobre este assunto e também para ajudar a memória do leitor. Essa forma permite ao autor apresentar uma visão geral, embora breve, de todo o tema.
Não pretendo me colocar como árbitro deste assunto, nem pronunciar-me sobre ele com autoridade; tampouco suponho ter respondido a todas as perguntas para inteira satisfação até mesmo de todos os homens bons, nem que as respondi tão bem quanto o faria um homem mais sábio e mais piedoso. Respondi a elas, assim confio humildemente, com os olhos fitos apenas na glória de Deus, segundo a luz que tenho. Quem tiver mais luz e puder fazê-lo melhor, tem liberdade para fazê-lo.
Se alguém objetar à quantidade de material compilado neste livro a partir dos escritos de outros, minha resposta é:
1. O próprio sr. Wesley fez isso muitas vezes.
2. Meu objetivo foi apresentar com clareza e inculcar com força a verdade do evangelho; e, quando julguei que poderia fazê-lo com mais eficácia usando a linguagem de outros e citando outros, servi-me livremente da ajuda deles. Dei o crédito pelo que selecionei (exceto nos casos em que alterei as palavras ou frases) e confio que em nenhum caso citei mal ou torci o sentido de ninguém. Os itálicos em muitas das citações são meus.
3. O que reuni neste livro está, em sua forma original, espalhado por muitos volumes que milhares de pessoas na igreja não têm dinheiro para comprar nem tempo para ler.
Se alguém objetar à repetição ou ao excesso de testemunhos sobre certos pontos, minha resposta é:
1. Escrevi principalmente para os que precisam de “uma palavra, depois mais outra, um pouco aqui, um pouco ali” (Is 28.10). Algumas pessoas são muito lentas para compreender este assunto, e prefiro repetir muitas vezes uma verdade importante a ser mal compreendido e mal representado.
2. Isso pode servir para evitar a ideia de que ensino doutrinas estranhas, ou uma fé ou prática contrária aos padrões do metodismo.
Quanto ao estilo, procurei, ao escrever, como procuro ao pregar, usar uma linguagem simples.
Entendo que os termos “amor perfeito”, “perfeição”, “santificação” e “santidade” têm substancialmente o mesmo significado; e dei a este volume o título de “Amor Perfeito” (embora alguns dos outros termos sejam usados nele com mais frequência) porque esse nome suave tem sido negligenciado e deixado de lado, enquanto os outros termos foram empregados como títulos de obras sobre este assunto.
E agora, meu amigo leitor, com o testemunho da minha consciência de que “com simplicidade e sinceridade de Deus” (2Co 1.12) fiz o melhor que pude para apresentar a verdade de Deus, submeto a você este meu humilde esforço para fazer o bem, confiando que ele ajude a esclarecer os princípios, a experiência e a prática da santidade. Peço que você o leia tão devagar, com tanto estudo e tanta sinceridade, que possa recolher todas as coisas boas, novas e velhas, contidas neste pequeno legado de um homem mortal a homens mortais. Se a leitura lhe der a décima parte do proveito que o autor tirou da sua preparação, você será de fato ricamente recompensado pelo tempo assim empregado.
J. A. W.
Termos que significam uma salvação completa do evangelho
1. Que termos se usam comumente para expressar a plena salvação?
São “amor perfeito”, “perfeição”, “santificação” e “santidade”. Esses termos, propriamente falando, são sinônimos: todos apontam para o mesmo estado elevado de graça. Mas, embora todos indiquem o mesmo estado religioso, cada um deles destaca algumas de suas características essenciais e de seus aspectos particulares. São termos que exprimem esse estado de modo significativo.
A palavra “santificação” se refere especialmente à obra em sua ligação com a inteira consagração da alma a Deus. “Santificar” significa separar, dedicar a usos santos. “Portanto, santifiquem-se e sejam santos” (Lv 20.7).
O termo “perfeição” se refere especialmente à completude do caráter cristão: sua liberdade de todo pecado e sua posse de todas as graças do Espírito; completo em espécie. “Avancemos para a perfeição” (Hb 6.1) [N. do T.: a NAA traz “avancemos para o que é perfeito”.].
A expressão “amor perfeito” aponta mais diretamente para o espírito, a disposição e o elemento em que vive o cristão inteiramente santificado e perfeito. “Aquele que permanece no amor permanece em Deus” (1Jo 4.16).
O termo “santidade” é um pouco mais geral e abrangente do que os outros, e inclui tudo o que está envolvido na completa salvação do pecado e na posse da imagem e do Espírito de Deus. “Procurem viver em paz com todos e busquem a santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14) [N. do T.: a NAA traz “busquem a santificação”.]. Neste livro, esses termos são usados como sinônimos e indistintamente.
Todos eles são bíblicos, todos são significativos e todos são bons; e a igreja de Deus nunca deveria deixá-los de lado. Nenhum deles deve ser empregado com exclusão dos outros, nem se devem escolher outros termos com exclusão deles. O uso comum de outros termos, como “a vida de fé”, “o descanso em Deus”, “a plena certeza”, “a plenitude de Deus” etc., no lugar dos termos bíblicos, altamente significativos, é no mínimo de conveniência duvidosa. São nomes dados pela inspiração à obra de Deus naqueles que estão plenamente salvos, e fazemos bem em lembrar que o nosso Salvador disse: “Quem se envergonhar de mim e das minhas palavras, dele se envergonhará o Filho do Homem, quando vier na sua glória e na glória do Pai e dos santos anjos” (Lc 9.26).
A regeneração e a inteira santificação não são idênticas
2. As Escrituras ensinam uma distinção entre a regeneração e a inteira santificação?
Ensinam. “Eu, porém, irmãos, não pude falar a vocês como a pessoas espirituais, e sim como a pessoas carnais, como a crianças em Cristo. Porque vocês ainda são carnais. Porque, se há ciúmes e brigas entre vocês, será que isso não mostra que são carnais e andam segundo os padrões humanos?” (1Co 3.1-3). “Portanto, meus amados, tendo tais promessas, purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus” (2Co 7.1). “Porque a carne luta contra o Espírito, e o Espírito luta contra a carne, porque são opostos entre si, para que vocês não façam o que querem” (Gl 5.17). “O mesmo Deus da paz os santifique em tudo” (1Ts 5.23). “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). Todas essas passagens se referem a cristãos que estão num estado regenerado, mas não inteiramente santificados; e essas escrituras dão a entender, ou ensinam, que a inteira santificação deles ainda não havia sido realizada.
3. As Escrituras pressupõem uma distinção entre a regeneração e a inteira santificação?
Pressupõem. Aos pecadores Deus diz: “Vocês precisam nascer de novo” (Jo 3.7). Aos regenerados ele diz: “Sejam santos, porque eu sou santo” (1Pe 1.16). Essas duas classes de mandamentos, em suas várias formas, se destacam em todos os Evangelhos e Epístolas.
4. A Disciplina metodista reconhece uma distinção?
Reconhece. Todo ministro da Igreja Metodista Episcopal, ao ser admitido ao ministério, pôs o seu selo na doutrina de que a inteira santificação é uma obra distinta e posterior à justificação. Na Disciplina, parte II, seção 10, estão as seguintes perguntas: “Você tem fé em Cristo? Está avançando para a perfeição? Espera ser aperfeiçoado no amor nesta vida? Está gemendo por isso?” Essas perguntas supõem que a “perfeição”, ou o “amor perfeito”, é distinta da justificação e posterior a ela. Todo ministro metodista respondeu afirmativamente a essas perguntas.
5. O hinário metodista ensina uma distinção?
Ensina com muita clareza. Ele contém uma classe de hinos sobre quase todas as principais doutrinas do cristianismo, entre as quais uma classe sobre Justificação, Adoção e Certeza, e uma grande classe sobre Santificação. Esses hinos (mais numerosos do que os de qualquer outra classe no hinário) foram escritos principalmente pelos Wesley, para definir, defender e promover a doutrina da santificação, nos primeiros tempos do metodismo, quando ela era muito combatida. Tome-se o seguinte como amostra do ensino dos nossos excelentes hinos sobre este assunto:
“Espero até que ele me toque e me purifique,
E me conceda vida e poder,
Me dê a fé que lança fora o pecado
E purifica o coração.”
“Ah, que eu agora, liberto do pecado,
Prove a tua palavra até o fim,
Entre no descanso prometido,
A Canaã do teu perfeito amor!”
“Agora, que o teu Espírito me introduza
E dê ao teu servo possuir
A terra do descanso do pecado inato,
A terra da perfeita santidade.”
“Quebra o jugo do pecado inato
E liberta por completo o meu espírito;
Não posso descansar até ser puro por dentro,
Até estar inteiramente perdido em ti.”
“Fogo refinador, passa pelo meu coração;
Ilumina a minha alma;
Espalha a tua vida por cada parte
E santifica o todo.”
“Está feito; tu me salvas neste momento,
Abençoas com plena salvação;
Tenho a redenção pelo teu sangue,
E amor sem mancha, e paz.”
6. Os principais escritores da igreja metodista ensinam essa distinção?
Ensinam; e, como a velha doutrina morávia está brotando entre nós e vem sendo pregada até por alguns ministros metodistas, permita-me apresentar a você várias autoridades sobre esta questão.
1. O sr. Wesley diz: “A santificação começa no momento em que o homem é justificado. Mas o pecado permanece nele, sim, a semente de todo pecado, até que ele seja santificado por inteiro. … Ainda permanece, mesmo nos que estão justificados, uma mente que é carnal em certa medida.” “No exato momento da justificação nascemos de novo; naquele instante experimentamos aquela mudança interior das trevas para a maravilhosa luz. Mas somos então inteiramente mudados? Somos totalmente transformados à imagem daquele que nos criou? Longe disso; ainda retemos uma profundidade de pecado, e é a consciência disso que nos leva a gemer por um pleno livramento, diante daquele que é poderoso para salvar.” “O novo nascimento não é o mesmo que a santificação. Creio que a justificação é totalmente distinta da santificação e necessariamente anterior a ela.”
2. Richard Watson diz: “Que existe uma distinção entre o estado regenerado e o estado de inteira e perfeita santidade, será admitido de modo geral. A regeneração, como vimos, acompanha a justificação; mas os apóstolos, ao se dirigirem ao conjunto dos crentes das igrejas às quais escreveram suas Epístolas, puseram diante deles, tanto nas orações que fazem em seu favor como nas exortações que lhes dirigem, um grau ainda mais elevado de livramento do pecado, assim como um crescimento maior nas virtudes cristãs.”
3. John Fletcher diz: “Não negamos que os restos da mente carnal ainda se apegam aos cristãos imperfeitos.” “O mesmo espírito de fé que purifica inicialmente o nosso coração quando cremos sinceramente no amor de Deus que perdoa, purifica-o por completo quando cremos plenamente no seu amor que santifica.”
4. O dr. Adam Clarke diz a um amigo que tinha sido mal informado sobre as suas opiniões a respeito da inteira santificação: “Quanto às palavras que você cita como minhas, eu as rejeito totalmente. Nunca as disse, nunca tive a intenção de dizê-las. Creio que a justificação e a santificação são obras amplamente distintas.” Ele usava o termo justificação incluindo a regeneração.
5. O bispo Hedding diz: “A regeneração, sendo o mesmo que o novo nascimento, é também o começo da santificação, embora não a sua conclusão, ou seja, não a inteira santificação. A regeneração é o começo da purificação; a inteira santificação é o acabamento dessa obra.”
6. O bispo Hamline diz: “Que esse amor perfeito, ou inteira santificação, é especificamente um novo estado, e não o mero aperfeiçoamento de um estado anterior, ou da regeneração, deduz-se claramente da Bíblia.”
7. O dr. R. S. Foster diz: “A regeneração não é a inteira santificação; os que são apenas regenerados não estão santificados; não estão inteiramente livres do pecado; não são perfeitos no amor.”
8. O dr. George Peck diz: “A doutrina da inteira santificação, como obra distinta realizada na alma pelo Espírito Santo, é a grande doutrina distintiva do metodismo. Abandonada esta, pouco nos resta que não tenhamos em comum com outras denominações evangélicas.” “A posição de que a justificação e a inteira santificação acontecem num só e mesmo momento, e de que a regeneração e a inteira santificação são idênticas, é claramente contrária à posição adotada pelos nossos teólogos de referência.”
9. O dr. Upham diz: “A distinção que as Escrituras fazem entre as duas é considerada tão evidente e incontestável pela maioria dos escritores que passou naturalmente, como verdade estabelecida, para os tratados de teologia.”
Essas citações poderiam ser multiplicadas quase indefinidamente. As que demos bastam para convencer qualquer mente sincera sobre a voz da igreja nesta questão.
7. Essa distinção está em harmonia com a experiência cristã?
Está. Todos os cristãos declaram ser regenerados, e de fato o são; mas poucos declaram estar inteiramente santificados. Os pecadores e os não convertidos não se preocupam com a bênção do amor perfeito, ou da inteira santificação. Os pecadores buscam perdão e aceitação, e não a inteira santificação. Quanto mais clara brilha a luz da regeneração e da justificação, mais a alma convertida verá e sentirá a necessidade da inteira santificação. Os srs. Fletcher, Bramwell, Carvosso, Nelson, Stoner, a sra. Hester Ann Rogers, a sra. Fletcher, Lady Maxwell e uma multidão de outros declararam explicitamente que receberam um testemunho distinto desta “SEGUNDA BÊNÇÃO“.
Milhares de cristãos esclarecidos, cuja experiência quanto à regeneração e à santificação foi clara, podem testemunhar o seguinte:
1. Tiveram uma prova clara da justificação.
2. Enquanto estavam de posse dessa prova, foram convencidos do pecado inato, ou corrupção.
3. Buscaram e obtiveram uma purificação perceptível do coração, na qual todo pecado foi tirado e eles foram capacitados a amar a Deus de todo o coração.
4. Tiveram um testemunho do Espírito tão claro e distinto desta “segunda bênção” quanto o que tiveram da justificação e da regeneração.
8. O sr. Wesley ou o dr. Adam Clarke chegaram a conhecer um caso de conversão e inteira santificação acontecendo ao mesmo tempo?
O sr. Wesley diz: “Mas não conhecemos um único exemplo, em lugar algum, de uma pessoa que tenha recebido num só e mesmo momento a remissão dos pecados, o testemunho permanente do Espírito e um coração novo e puro.”
O dr. Clarke diz: “Há vinte e três anos sou pregador itinerante e, durante esse tempo, conheci alguns milhares de cristãos, que estavam em diferentes estados de graça; e nunca, que eu saiba, encontrei um único caso em que Deus tenha justificado e santificado ao mesmo tempo.”
9. O sr. Wesley considerava um grande mal a doutrina de que somos inteiramente santificados quando somos justificados?
Considerava. Foi por causa dessa heresia entre os morávios que o sr. Wesley, depois de várias longas entrevistas com o conde Zinzendorf, um de seus líderes, foi levado a se separar deles, de modo que nem ele nem as suas sociedades tiveram mais nenhuma comunhão com eles.
10. Como William Bramwell encarava a ideia de que somos inteiramente santificados quando somos justificados?
Ele escreve a um amigo: “Está se espalhando a ideia de que ‘quando somos justificados somos inteiramente santificados’ e de que ‘sentir a natureza má depois da justificação é perder o perdão’ etc. Pode ter certeza: esse é o grande canhão do diabo. Teremos muito trabalho com isso, e receio que não consigamos suprimi-lo.”
O dr. George Peck diz: “Não seria um triste sinal da degeneração do metodismo neste país se aquilo que o sr. Wesley, sob Deus o nosso grande fundador, considerou heresia e combateu com todas as forças fosse acalentado como a própria medula do evangelho pelos ministros e pelo povo da Igreja Metodista Episcopal?”
A natureza da regeneração
11. Qual é a obra da regeneração, sua natureza e sua extensão?
A regeneração é a comunicação de vida espiritual à alma do homem. Ela devolve à alma uma nova vida espiritual, que foi perdida pela queda, e sempre acompanha a justificação. Permita-me apresentar algumas autoridades eruditas sobre esta questão. Você as estudará com atenção?
1. O dr. J. Dempster diz: “Você pergunta: Em que consiste, então, a regeneração? Simplesmente nesta tríplice mudança: justificação, renovação parcial e adoção divina. A primeira muda as relações do crente com o governo infinito, mas não produz renovação alguma em seu coração. A segunda muda a sua afeição o bastante para que ele consiga controlar as tendências que o puxam para baixo. A terceira o introduz na família divina, da qual ele toma consciência pelo Espírito de adoção que testemunha.”
2. Luther Lee diz: “A regeneração inverte a corrente das afeições e renova de tal modo a alma inteira que todas as graças cristãs passam a existir. … A regeneração é uma renovação da nossa natureza caída pelo poder do Espírito Santo, pela qual os regenerados são libertos do poder do pecado que reina sobre todos os não regenerados. … O poder do pecado é quebrado; o princípio da obediência é plantado no coração.”
1. “A justificação é uma obra feita em nosso favor; a regeneração é uma obra feita em nós.
2. “A justificação muda a nossa relação com Deus e nos restitui o seu favor por meio de um perdão; a regeneração muda o nosso estado, o nosso caráter real.
3. “A justificação remove a culpa do pecado que cometemos; a regeneração remove o amor ao pecado.
4. “A justificação remove o castigo que merecemos, perdoa a pena da lei; mas a regeneração planta no coração o princípio da obediência.
5. “A justificação traz o favor de Deus; a regeneração traz de volta a imagem de Deus e a imprime novamente na alma.”
3. O dr. R. S. Foster diz: “Quanto à regeneração, é uma obra feita em nós, mudando a nossa natureza interior; uma obra pela qual se infunde na alma uma vida espiritual, por meio da qual ele (o regenerado) produz os frutos pacíficos da justiça, tem vitória sobre o pecado, é capacitado a resistir às tendências corruptas e tem paz e alegria no Espírito Santo; uma mudança radical pela qual as tendências predominantes da alma se voltam para Deus, quando antes se afastavam dele; pela qual o amor ao pecado é destruído, o seu domínio é quebrado e se implantam o desejo, o gosto e o anseio pela santidade.”
12. A obra de Deus na regeneração não é perfeita?
“Respondemos: é uma regeneração perfeita. Mas uma regeneração perfeita não é uma santificação perfeita, assim como um arrependimento perfeito não é uma regeneração perfeita. A alma nasce de novo perfeitamente, mas não é feita santa perfeitamente.” (Foster.)
13. É possível conservar o estado de justificação enquanto se comete algum pecado?
1. O sr. Wesley diz: “Mas mesmo as crianças em Cristo são perfeitas a ponto de não cometerem pecado. … Todos concordamos e afirmamos com veemência: ‘Aquele que pratica o pecado procede do diabo’ (1Jo 3.8). Concordamos: ‘Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado’ (1Jo 3.9).”
2. O rev. Luther Lee diz: “Nenhum homem pode crer com o coração para a justiça, ou de modo a obter a justificação, enquanto vive na prática de algum pecado conhecido ou na negligência de algum dever conhecido. … No momento em que ele faz o que sabe ser pecado, ou negligencia o que sabe ser dever, a fé pela qual ele é justificado solta a sua mão de Deus, e ele perde a justificação. … A justificação, que é somente pela fé, traz consigo inteira submissão e obediência a Deus. … A vontade é reta no momento da regeneração, e precisa permanecer reta; do contrário, o resultado será o pecado voluntário, e a justificação será perdida.”
3. O rev. Timothy Merritt diz: “A palavra de Deus declara claramente que os que nasceram de novo, mesmo no sentido mais baixo, não permanecem no pecado; que já não podem viver nele.”
4. O dr. J. T. Peck diz: “A continuidade do estado justificado implica obediência, na intenção, a todas as exigências do evangelho, incluídas a lei do progresso (‘cresçam na graça’, 2Pe 3.18) e a lei da pureza (‘sejam santos’, 1Pe 1.16).”
5. As condições para receber a justificação e a regeneração são as condições para conservá-las. “Assim como vocês receberam Cristo Jesus, o Senhor, continuem a viver nele” (Cl 2.6). Cristo é recebido por uma submissão completa e por uma fé presente, simples e despojada. A confiança consciente e a culpa consciente não podem existir no mesmo coração ao mesmo tempo. Há uma união vital entre a fé justificadora e a obediência. Pela obediência a fé se aperfeiçoa, e pela desobediência ela é destruída.
A justificação não pode ser conservada uma hora sequer com menos submissão, consagração e fé do que aquelas pelas quais foi obtida. Temos razões para temer que o padrão da justificação esteja ficando baixo demais entre os professantes. A igreja deve lembrar sempre que os crentes não podem cometer pecado algum sem perder a justificação e sem lançar o fundamento para o arrependimento de obras mortas. É preciso obedecer continuamente a toda a vontade conhecida de Deus, se quisermos conservar o estado justificado; pois “aquele que pratica o pecado procede do diabo” (1Jo 3.8) e “todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado” (1Jo 3.9).
A natureza da perfeição cristã
14. Em que consiste a perfeição cristã?
A perfeição cristã, ou santidade, é aquele estado de graça que exclui do coração todo pecado. “Bem-aventurados os limpos de coração” (Mt 5.8). “Cria em mim, ó Deus, um coração puro” (Sl 51.10). “O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.7). “Libertados do pecado, o fruto que vocês colhem é para a santificação. E o fim, neste caso, é a vida eterna” (Rm 6.22).
Embora quase todos os nossos autores de referência definam a santidade e a perfeição cristã com palavras diferentes, as definições são essencialmente as mesmas. Veja as seguintes:
1. O sr. Wesley diz: “O amor puro reinando sozinho no coração e na vida: isso é toda a perfeição cristã. … A perfeição bíblica é o amor puro enchendo o coração e governando todas as palavras e ações. … Sob um aspecto, é a pureza de intenção que dedica toda a vida a Deus.”
2. O rev. John Fletcher diz: “É a profundidade do arrependimento evangélico, a plena certeza da fé e o puro amor a Deus e aos homens derramado no coração de um crente fiel pelo Espírito Santo que lhe foi dado, para purificá-lo e conservá-lo puro ‘de toda impureza, tanto da carne como do espírito’ (2Co 7.1), e para capacitá-lo a ‘cumprir a lei de Cristo’ (Gl 6.2), segundo os talentos que lhe foram confiados e as circunstâncias em que está colocado neste mundo.”
3. O bispo Hedding diz: “A regeneração é o começo da purificação; a inteira santificação é o acabamento dessa obra.”
4. O dr. George Peck diz: “Por ser salvo de todo pecado na vida presente, entendemos ser salvo, primeiro, de todo pecado exterior, isto é, de todas as violações das exigências da lei do amor que dizem respeito à nossa conduta exterior; e, em segundo lugar, de todo pecado interior, isto é, de todas as violações da lei do amor que dizem respeito ao intelecto, à sensibilidade e à vontade.”
5. O rev. Luther Lee diz: “A santificação é aquela renovação da nossa natureza caída pelo Espírito Santo, recebida pela fé em Jesus Cristo, cujo sangue expiatório tem poder para purificar de todo pecado; pela qual não somos apenas libertos da culpa do pecado, o que é a justificação, mas somos inteiramente lavados da sua contaminação, libertos do seu poder e capacitados, pela graça, a amar a Deus de todo o coração e a andar irrepreensíveis nos seus santos mandamentos.”
O sr. Wesley diz: “Tanto meu irmão [Charles Wesley] como eu sustentamos que a perfeição cristã é aquele amor a Deus e ao próximo que implica LIVRAMENTO DE TODO PECADO.”
15. Em que consiste a diferença entre a regeneração e a santificação?
O homem que é apenas regenerado está salvo do pecado só em parte, enquanto o santificado está inteiramente salvo. A alma regenerada não comete pecado, embora tenha consciência do pecado inato que ainda resta. A alma santificada nem comete pecado nem sente consciência alguma de pecado inato remanescente. Na alma justificada, o poder e o controle do pecado são destruídos; na santificada, é destruída a sua própria existência. Na justificação, o valente armado é amarrado; na santificação, ele é lançado fora.
1. O sr. Wesley diz: “Que os crentes são libertos da culpa e do poder do pecado, nós o admitimos; que são libertos da existência dele, nós o negamos. … Cristo, de fato, não pode reinar onde o pecado reina; nem habitará onde o pecado é consentido. Mas ele está e habita no coração de todo crente que luta contra todo pecado, embora esse coração ainda não esteja purificado. … De fato, este ponto capital, de que há dois princípios contrários nos crentes [não santificados], a natureza e a graça, a carne e o espírito, percorre todas as Epístolas de são Paulo, sim, todas as Sagradas Escrituras; quase todas as instruções e exortações que elas contêm se baseiam nessa suposição, apontando disposições ou práticas erradas naqueles que, apesar disso, são reconhecidos pelos escritores inspirados como crentes.”
2. O bispo Hedding diz: “A diferença entre uma alma justificada que não está plenamente santificada e outra plenamente santificada, entendo que é esta: a primeira (se não se desviar) é guardada de cometer voluntariamente pecado conhecido, que é o que o Novo Testamento costuma entender por cometer pecado. Mas ainda encontra em si os restos da corrupção inata, ou pecado original, como orgulho, ira, inveja, um sentimento de ódio a um inimigo, uma alegria com a desgraça que caiu sobre um inimigo etc. A segunda, a pessoa plenamente santificada, está purificada de todos esses pecados interiores e involuntários.”
3. O dr. Dempster diz: “Você exige, então, uma expressão exata da diferença? É esta: um admite tendências controladas ao pecado; o outro extirpa essas tendências. Isto é, o que é apenas regenerado tem impureza remanescente; o plenamente santificado não tem nenhuma.”
4. O rev. Richard Watson diz: “Neste estado regenerado, as antigas corrupções do coração podem permanecer e lutar pelo domínio; mas o que o caracteriza e o distingue do estado de um penitente antes da justificação, antes de estar em Cristo, é que elas já não são nem mesmo o seu hábito interior e não têm domínio.”
5. O rev. Luther Lee diz: “O poder do pecado é quebrado, o tirano é destronado e o seu reinado cessa na alma no momento da regeneração; mas o pecado não é destruído a ponto de não deixar a sua marca na alma e de não lutar ainda pelo domínio.”
“Ainda há uma guerra interior; encontra-se um elemento contrário na sensibilidade da alma, que, embora já não controle a vontade, muitas vezes se rebela contra ela e se recusa a obedecer-lhe.” … “A vontade pode resistir a elas, e resiste, no estado regenerado; mas não pode silenciá-las, renová-las ou mudar a sua direção por um ato de vontade.” … “Estas [as inclinações, paixões e apetites] pertencem à alma e precisam ser postas em harmonia com o que é reto e com a vontade santificada antes que se possa dizer que a alma inteira está santificada ou inteiramente consagrada a Deus. Quando essa obra for realizada, a guerra interior cessará.”
6. O rev. William McDonald diz:
1. “Na regeneração, o pecado não reina; na santificação, ele não existe.
2. “Na regeneração, o pecado é suspenso; na santificação, é destruído.
3. “Na regeneração, os desejos desordenados (ira, orgulho, incredulidade, inveja etc.) são subjugados; na santificação, são removidos.
4. “A regeneração é a salvação da prática voluntária do pecado; a santificação é a salvação da existência do pecado.
5. “A regeneração é o velho homem amarrado; a santificação é o velho homem lançado fora e despojado dos seus bens.
6. “A regeneração é a santificação começada; a inteira santificação é a obra concluída.”
16. Há alguma diferença entre o pecado (propriamente dito) e a depravação?
1. “O pecado cometido e a depravação sentida são muito diferentes: um é uma ação, a outra é um estado das afeições. O crente apenas regenerado está salvo do primeiro e tem graça para vencer a segunda; mas a própria disposição, em certa medida, permanece, sob o controle de um poder gracioso mais forte nele implantado, mas ainda oferecendo resistência, mostrando que está presente de fato e precisando ser inteiramente santificada.” (Foster.)
2. “Estes [o pecado e a depravação] são postos juntos como se fossem a mesma coisa; mas não são a mesma coisa. A culpa é uma coisa, o poder é outra, e a existência é outra ainda. Que os crentes são libertos da culpa e do poder do pecado, nós o admitimos; que são libertos da existência dele, nós o negamos.” (Wesley.)
O leitor deve ter em mente que os termos “pecado inato”, “pecado que habita em nós” e “pecado inerente” não são usados neste livro no sentido de pecado propriamente dito, que “é a transgressão da lei” (1Jo 3.4), mas como alusão à corrupção, deformidade ou depravação interior do coração não santificado. Ela não deve ser perdoada, como o pecado propriamente dito, mas extirpada e purificada do coração.
17. As graças do Espírito existem sem mistura nos inteiramente santificados?
Existem. As graças nos santificados são perfeitas em espécie, mas limitadas em grau. A regeneração dá vitória sobre o pecado subjugado; a santificação dá vitória sobre o pecado exterminado e lançado fora, de modo que todas as graças do Espírito existem perfeitas em espécie, isto é, com exclusão dos seus contrários.
O dr. Foster diz: “Essas graças existirão na alma santificada sem liga, sem mistura, em simplicidade. Nada há nela que lhes seja contrário, e elas existem na medida correspondente à capacidade presente da alma que as possui.”
Haverá amor sem ódio, submissão sem rebeldia, fé sem incredulidade, humildade sem orgulho, mansidão sem ira, paciência sem impaciência e paz sem contenda.
18. A santificação acrescenta à alma alguma virtude nova?
Não acrescenta; ela simplesmente purifica a alma de todo pecado que nela habita, de modo que as graças implantadas na alma na regeneração possam existir sem mistura, ou sem os seus contrários no coração. Todas as graças, em número, estão plantadas na alma regenerada; mas existem junto com a impureza do coração até que a alma seja inteiramente santificada. Luther Lee diz: “Não se deve entender que a santificação acrescente alguma virtude nova, que não esteja presente na alma regenerada antes da inteira santificação.”
“Embora na regeneração sejam comunicados todos os elementos da santidade, nem todos os rudimentos do pecado inato são destruídos; daí, mais uma vez, a ausência da santificação completa, que, quando acontece, expulsa todo pecado.” (Foster.)
19. Os que são apenas regenerados pensam muitas vezes que todo pecado foi tirado?
“Com que naturalidade os que experimentam essa mudança [a regeneração] imaginam que todo pecado se foi, que ele foi inteiramente arrancado do seu coração e já não tem lugar nele! Com que facilidade tiram esta conclusão: ‘Não sinto pecado algum, logo não tenho nenhum; ele não se mexe, logo não existe; não tem movimento, logo não tem existência’! Mas raramente demora muito para que se desenganem, descobrindo que o pecado estava apenas suspenso, não destruído.” (Wesley.)
20. Qual tem sido a causa de tanto preconceito e oposição à doutrina da santidade entre os professantes?
A doutrina tem sido mal compreendida. Multidões entenderam mal a sua verdadeira natureza. Em geral, ela foi tomada como significando mais do que se pretendia e mais do que ensinam os padrões da igreja. Há milhares, no seio da nossa própria igreja, que ignoram de modo espantoso a doutrina tal como a ensinam os nossos padrões. As excelentes obras escritas sobre este assunto e publicadas pela nossa editora são lidas apenas por uma pequena parte dos nossos membros. Uma multidão de ministros entre nós tem culpa nesta questão por não buscarem eles mesmos a santidade e por não a pregarem ao povo com mais clareza e vigor.
21. Você pode me dar um aspecto negativo da doutrina e me dizer o que você não inclui na perfeição cristã? Você ensina uma perfeição absoluta?
Não ensinamos perfeição absoluta em ninguém a não ser em Deus. O anjo mais brilhante, mais elevado, mais suave e mais amável do paraíso não é absolutamente perfeito. A perfeição absoluta pertence somente a DEUS. Nesse sentido, “ninguém é bom, a não ser um, que é Deus” (Mc 10.18). Nenhum autor de referência do metodismo jamais ensinou tal perfeição no homem.
22. A perfeição cristã torna alguém perfeito como os anjos?
Não ensinamos nenhuma perfeição angélica no homem enquanto ele está fora do céu. Os anjos são uma ordem mais elevada de seres inteligentes e mantêm uma pureza sem pecado. O fogo do seu amor arde com uma intensidade, e os seus serviços são realizados com uma precisão e retidão, que não são possíveis a nenhum mortal. Os anjos não têm nenhuma das fraquezas da natureza humana caída. Não estão sujeitos a enganos. Neste mundo temos de nos contentar com a perfeição cristã; quando chegarmos ao céu, então seremos “iguais aos anjos” (Lc 20.36).
23. A perfeição cristã exclui a necessidade da expiação?
Não. A alma santificada confia na expiação de modo mais perfeito e constante do que qualquer outra. Ela é guardada a cada momento por uma fé presente e simples na expiação. A perfeição cristã aumenta a consciência que o crente tem da necessidade e do valor inestimável da expiação, e o capacita a ver com mais clareza e a sentir mais profundamente a sua dependência constante dela. Mais do que qualquer outro homem, ele sente:
“A cada momento, Senhor, preciso
Do mérito da tua morte.”
A santidade só se conserva de momento a momento descansando nos méritos de Cristo. Os limpos de coração, no sentido mais estrito, vivem “pela fé no Filho de Deus” (Gl 2.20). A fé é o laço vital que une a alma a Cristo. Se essa ligação vital fosse cortada, a vida espiritual da alma cessaria imediatamente. Nenhum homem em período de prova pode dispensar a expiação por um momento sequer. Temos de permanecer sempre em Cristo.
O dr. Clarke observa: “O que é que purifica a alma e destrói o pecado? Não é o grande poder da graça de Deus? O que é que conserva a alma pura? Não é o mesmo poder habitando em nós? Um efeito não pode subsistir sem a sua causa, assim como uma alma santificada não pode permanecer em santidade sem o Santificador que nela habita.”
O sr. Fletcher diz: “Dizer que a doutrina da perfeição cristã dispensa a necessidade do sangue de Cristo não é menos absurdo do que afirmar que a perfeição da navegação faz do grande abismo um reservatório inútil de água.”
24. A perfeição cristã exclui a possibilidade de crescer na graça?
De modo nenhum. Os limpos de coração crescem mais depressa do que quaisquer outros. Não cremos em nenhum estado de graça, nem na terra nem na glória, além do qual não haja progresso. Esperamos crescer cada vez mais depressa por toda a eternidade. Se o cristão perfeito deixar de crescer, cairá em pecado e poderá ir à ruína. Acontece com a alma inteiramente santificada o mesmo que com a apenas regenerada: ela precisa seguir adiante para conservar o seu estado presente de graça. É aqui que multidões das duas classes caíram. Não existe ficar parado na religião, nem no pecado. Ou progredimos, ou retrocedemos. Se estamos vivendo à altura da nossa luz e do nosso dever, estamos crescendo, qualquer que seja o nosso estado de graça e por mais abundantemente que tenhamos participado do Espírito Santo. Se estamos negligenciando o dever presente, estamos nos desviando, por maiores que tenham sido as nossas conquistas.
25. Como você entende que uma alma inteiramente santificada possa crescer na graça e, como você diz, crescer até mais depressa do que quaisquer outras?
A alma santificada está salva de todo pecado, de modo que o crescimento na graça, depois da inteira santificação, não consiste em nenhum processo adicional de separar da alma o pecado, mas num aumento de conhecimento, amor e poder; um aumento da santidade em medida, não em qualidade. Desde o momento em que a alma é purificada (limpa de todo pecado), o Espírito Santo continua a enriquecê-la, iluminá-la, adorná-la e abençoá-la com cada vez mais da sua presença e graça. As nossas faculdades podem ser aperfeiçoadas, e as nossas capacidades podem se expandir.
A alma santificada cresce mais depressa do que qualquer outra:
1. Porque está mais perto da fonte, num solo melhor, e habita numa atmosfera mais pura.
2. Porque todos os antagonismos à graça foram tirados do seu coração; todos os obstáculos internos ao seu crescimento foram removidos.
3. Porque a santificação aperfeiçoa as condições do maior e mais rápido crescimento na graça. A graça encontra campo livre numa alma santificada. Uma criança saudável cresce em estatura e força mais depressa do que uma criança fraca e doente. Uma alma santificada está bem preparada para um crescimento firme, vigoroso e rápido. As próprias condições para obter a santificação são exatamente as condições para conservá-la e para crescer na graça enquanto a conserva.
O santo Fletcher diz: “Um cristão perfeito cresce muito mais do que um crente fraco, cujo crescimento ainda é impedido pelos espinhos sombrios do pecado e pelos brotos parasitas da iniquidade, que lhe sugam a seiva.”
26. Quais são os maiores obstáculos ao crescimento na graça?
Os obstáculos que estão em casa, no nosso próprio coração: os restos de uma natureza não santificada dentro de nós; raízes de amargura; males interiores reais, vivos e ativos. Esses inimigos íntimos são os nossos piores inimigos e impedem o nosso crescimento na graça mais do que todos os outros juntos.
27. A perfeição cristã exclui a possibilidade de ser tentado?
Não exclui. Adão e Eva foram tentados no Éden. O nosso santo Salvador foi tentado. Se a tentação fosse incompatível com a santidade, então o bendito Salvador não seria santo. Ele passou por um longo e amargo cerco de tentação durante quarenta dias no deserto. Foi tentado até a se ajoelhar e adorar o diabo. Ele “foi tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (Hb 4.15). Se a tentação fosse inconciliável com a santidade, então Adão e Eva não seriam santos antes da queda. Estar sujeito à tentação é uma condição imutável do período de prova. Enquanto estivermos no mundo, enquanto Satanás andar em derredor como leão que ruge procurando alguém para devorar, enquanto tivermos cinco sentidos em contato com um mundo cheio de mal, podemos esperar ser tentados. Ser tentado não é pecado, desde que se tenha usado a devida cautela para evitar as ocasiões de tentação.
28. A perfeição cristã exclui a possibilidade de cair?
Não exclui a possibilidade da apostasia; mas a torna muito menos provável. Ela possui todos os elementos de força e estabilidade. O amor perfeito faz do coração uma fortaleza forte. Essa fortaleza será atacada, mas não está tão sujeita a ser tomada quanto estaria sem a santidade. Estar sujeito a pecar e cair é uma condição essencial do período de prova. Temos de esperar pela segurança absoluta até chegarmos ao céu. A santidade garante a condição mais segura possível na terra. Mas Adão, perfeito e sem pecado, caiu, e sempre acharemos necessário vigiar e orar, guardar o nosso coração com toda a diligência e manter o nosso corpo sob domínio. Devemos “desenvolver a nossa salvação com temor e tremor” (Fp 2.12). O amor perfeito não lança fora o temor da cautela ou da prudência. Nesse sentido, “o justo teme sempre” (Pv 28.14) [N. do T.: a NAA traz “Feliz é aquele que sempre teme o Senhor”.]. A graça nunca leva à presunção. “Aquele que pensa estar em pé veja que não caia” (1Co 10.12).
29. As tentações da alma santificada são as mesmas das pessoas apenas regeneradas?
Embora sejam essencialmente as mesmas, as tentações de cada uma dessas duas classes têm algo de próprio. Se não nos enganamos, as tentações dos inteiramente santificados costumam ser mais agudas e mais curtas do que as outras. Além disso, vêm inteiramente de fora, pois não há inimigos dentro de um coração santificado; ali tudo é pacífico, amigável e em ordem. As tentações de uma alma santificada não encontram eco favorável dentro dela, enquanto as da alma não santificada encontram, em maior ou menor grau. Num caso, as tentações acham no coração impulsos corruptos a seu favor; no outro, não acham nenhum.
O dr. G. Peck diz: “A grande diferença entre as tentações dos que estão inteiramente santificados e as dos que não estão é que a tentação, ao entrar em contato com estes últimos, muitas vezes revolve o sedimento da corrupção, ao passo que, assaltando os primeiros com igual violência, encontra resistência constante e não deixa vestígio algum, a não ser um aumento de força moral e os frutos de um novo triunfo.”
30. Quando termina a tentação e começa o pecado?
1. Nenhuma tentação ou sugestão maligna à mente se torna pecado enquanto não é tolerada. O pecado consiste em ceder à tentação. Enquanto a alma mantém a sua integridade, de modo que a tentação não encontra simpatia dentro dela, nenhum pecado é cometido, e a alma permanece ilesa, por mais prolongada ou severa que seja a prova de fogo.
2. O dr. Foster diz: “A esta questão, que é das mais difíceis, respondemos: O pecado começa sempre que a tentação passa a encontrar simpatia interior, se se sabe que ela é um convite ao pecado. Enquanto ela é repelida prontamente e com a plena e sincera concordância da alma, não há sinal de simpatia interior, não há pecado.”
3. O dr. G. Peck diz: “Primeiro, suponho que todos admitirão que, quando a tentação obtém a concordância da vontade, a pessoa contrai culpa. Não pode haver dúvida aqui. Segundo: é igualmente claro que, quando a tentação gera na mente um desejo pelo objeto proibido, a pessoa entra em tentação e assim peca contra Deus. Terceiro: é claro também que a tentação não pode ser convidada ou prolongada sem necessidade sem que isso indique uma tendência pecaminosa para o objeto proibido; por isso, tal procedimento não só implica a ausência da inteira santificação, mas envolve a pessoa em culpa real.”
31. A perfeição cristã torna alguém perfeito em conhecimento?
Não torna. Há mil coisas que nunca saberemos nesta vida. Aqui vemos como por um espelho, de forma obscura. Agora somos crianças em conhecimento; agora conhecemos só em parte. Mas, embora a perfeição cristã não torne ninguém perfeito em conhecimento, ela garante um conhecimento de Deus mais amplo e completo do que se pode alcançar de outro modo. Dos que estão inteiramente santificados se pode dizer com ênfase que eles andam “na luz, como ele está na luz” (1Jo 1.7); e ainda: “Agora são luz no Senhor” (Ef 5.8). “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus” (Mt 5.8). Os perfeitos no amor têm uma compreensão mais clara de Deus, da sua presença e das coisas espirituais (em igualdade de outras circunstâncias) do que quaisquer outros.
Admite-se que um pecador penitente e convencido do pecado tem mais luz do que um impenitente e não convencido. Admite-se também que uma alma convertida e justificada tem ainda mais luz do que um penitente convencido. Afirmamos que uma alma inteiramente santificada e cheia de amor perfeito tem luz ainda maior do que a alma apenas regenerada. Ela pode cantar:
“Felizes os limpos de coração,
Porque verão o nosso Deus;
O segredo do Senhor é deles;
A alma deles é a sua morada.”
32. A perfeição cristã exclui as fraquezas da natureza humana?
Não exclui. Não se pode esperar estar livre delas neste mundo. Temos de esperar pelo livramento dessas imperfeições até que este corpo mortal se revista da imortalidade. Essas fraquezas, tão numerosas e variadas, são a herança comum da humanidade. Não são pecados; são inocentes; e, embora sejam uma desventura nossa, estão incluídas nas “todas as coisas” (Rm 8.28) que, pela graça e bênção de Deus, cooperarão para o nosso bem. Embora a perfeição cristã não admita nenhum pecado exterior ou interior, propriamente dito, admite uma forte consciência de inúmeras fraquezas e imperfeições, como lentidão de entendimento, erros de julgamento, enganos na prática, imaginação errante, memória traiçoeira etc. Se alguém afirmar que essas fraquezas inocentes precisam do sangue da expiação, não teremos briga com ninguém, mas louvaremos ao Senhor porque o sangue de Jesus atende a toda exigência.
33. Como a santidade pode ser perfeita e, ainda assim, progressiva?
A santidade numa alma santificada é completa em espécie, mas limitada em grau. Embora seja perfeita em espécie, pode crescer em grau até mais depressa do que antes. A perfeição em qualidade não exclui o aumento em quantidade. As capacidades da alma são progressivas, e a santidade deve crescer em medida correspondente à sua capacidade crescente; deve estar em harmonia com as faculdades e capacidades presentes da alma. As faculdades e capacidades da alma santificada aumentam ou se expandem mais depressa do que as da não santificada. O pecado degenera, aleija e enfraquece; a santidade vivifica, fortalece e garante o melhor fundamento possível para a expansão e o desenvolvimento de todas as faculdades da alma. Repetimos: a santidade pode melhorar ou progredir em medida, mas não em qualidade. A fé, o amor, a humildade e a paciência podem ser perfeitos em espécie e, ainda assim, crescer em volume e poder, isto é, em medida. Uma gota de água pode aumentar em quantidade, sendo pura ou perfeita em qualidade.
Tradução para o português a partir de J. A. Wood, Perfect Love; or, Plain Things for Those Who Need Them (Filadélfia, Samuel D. Burlock, 1861), conferida com as imagens das páginas; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.