A criação do ser humano. Imaginemos (pois podemos fazê-lo sem culpa) o estado da natureza divina antes da formação do ser humano. Infinitamente feliz, porque infinitamente perfeito e suficiente em si mesmo, o Ser Supremo não podia sentir nenhuma carência. Nada lhe faltava; nada lhe era necessário. Assim como “o homem de bem se satisfaz consigo mesmo”, isto é, com a contemplação da consciência da própria retidão, assim também, comparando coisas infinitamente grandes com pequenas, a mente divina estava supremamente satisfeita com a posse e a contemplação das suas próprias excelências ilimitadas. [N. do T.: Pv 14.14 na versão King James; a NAA diz “quem é de bem é recompensado pelo seu próprio proceder”.] Da bondade sem mistura e sem mancha brotaram todos os atributos, perfeições e excelências infinitamente variados da natureza divina; ou melhor, todos eles se fundam nesse princípio, e cada um é uma modalidade especial dele. A benevolência, porém, é um afeto inseparável da bondade. Deus, o todo-suficiente, sabia que podia, de certa maneira, comunicar influências das suas próprias perfeições. Mas o ser a quem essa comunicação pudesse ser feita teria de se parecer com ele. A sua benevolência, portanto, o desejo de comunicar e difundir a sua própria felicidade infinita, o levou, como podemos naturalmente supor, a formar o propósito de criar seres inteligentes a quem essa comunicação pudesse ser feita. Por isso, na abundância da sua bondade eterna, ele projetou a criação do ser humano, que formou à sua própria imagem, para que fosse capaz dessas comunicações. Aqui estava, então, um motivo digno da bondade eterna, o desejo de comunicar a sua própria bem-aventurança; e aqui estava uma obra digna da sabedoria e do poder divinos: fazer uma criatura inteligente, cópia da sua própria eternidade, “por um pouco, menor do que Deus” (Sl 8.5), e dotá-la de poderes e faculdades da natureza mais extraordinária e abrangente.
Não fundamento essas observações na suposição de certas excelências que o ser humano possuía antes da queda. Fundamento-as no que ele é agora. Fundamento-as no seu entendimento vasto e abrangente, nos seus espantosos poderes de raciocínio, na extensão e na variedade infinita da sua imaginação, ou faculdade inventiva. E vejo a prova e o exercício dessas faculdades na sua invenção das artes e das ciências. Embora caído de Deus, naturalmente degradado e depravado, ele não perdeu os seus poderes naturais. Ainda é capaz dos graus mais elevados de conhecimento em todas as coisas naturais, e o seu “conhecimento é poder”.
Lancemos um olhar rápido sobre o que ele fez e sobre aquilo de que é capaz. Contou as estrelas do céu; demonstrou as revoluções dos planetas e as leis que as governam; explicou cada aparente anomalia nos diversos movimentos dos corpos celestes; mediu as suas distâncias, determinou os seus volumes e pesou o sol!
As suas pesquisas nos três reinos da natureza, animal, vegetal e mineral, são, pela variedade, exatidão e importância, da mais alta consideração. As leis da matéria, dos seres organizados e não organizados, e os princípios químicos pelos quais se conduzem todas as operações da natureza, foram investigados por ele com o maior êxito. Mostrou quem é o pai da chuva e quem gera as gotas de orvalho (Jó 38.28); explicou a formação da neve, do granizo e do gelo e demonstrou as leis que governam a tempestade e o furacão; tirou o trovão das nuvens e brinca com os relâmpagos do céu!
Inventou aqueles grandes auxiliares da vida que são a alavanca, o parafuso, a cunha, o plano inclinado e a roldana, e por esses meios multiplicou a sua força além do que se pode conceber. Inventou o telescópio e, por esse instrumento, trouxe os exércitos do céu quase ao contato com a terra. Pelas suas máquinas, adquiriu uma espécie de onipotência sobre a matéria inerte e produziu efeitos que, para a mente sem instrução, têm toda a aparência de ação sobrenatural. Pela sua energia mental, lançou-se ao espaço ilimitado e viu e descreveu os mundos que uma Habilidade Infinita planejou e uma Benevolência Infinita sustenta. Avançou até todos os limites que se podem descrever e determinar, e concebeu as relações e propriedades mais espantosas do espaço, do lugar e do vazio. E, no entanto, em todos esses limites, sentiu-se ilimitado e ainda consegue imaginar a possibilidade de mundos e seres, naturais e intelectuais, numa variedade sem fim, além de tudo isso. Eis um poder extraordinário: descreva todos os seres conhecidos ou conjecturados, e ele consegue imaginar mais; aponte todo o bem que o próprio Deus prometeu, e ele consegue desejar gozos ainda maiores!
De nenhuma criatura, a não ser do ser humano, se diz que foi feita à imagem e semelhança de Deus. Nem os tronos, nem as dominações, nem os principados, nem as potestades, nem os querubins, nem os serafins, nem os arcanjos, nem os anjos participaram dessa honra. É possível que somente uma ordem de seres criados pudesse ser formada assim.
“Deus fez o ser humano à sua imagem e conforme a sua semelhança” (Gn 1.26-27). Ora, isso deve referir-se ao que se chama imagem moral de Deus, porque não pode ser explicado como uma imagem ou semelhança formal daquele Espírito infinito. E por São Paulo (Cl 3.10; Ef 4.24) aprendemos que essa imagem consistia em conhecimento, justiça e verdadeira santidade.
1. O ser humano tinha um intelecto que Deus encheu da sua própria sabedoria. Por isso era sábio, e por essa sabedoria tinha um conhecimento de si mesmo, de Deus e das obras de Deus muito além do que podemos agora compreender. O fato de ter dado nome às diversas criaturas foi uma prova da extensão desse conhecimento e da sua capacidade especial de abarcar tanto os aspectos particulares quanto os gerais. Ele deu a cada criatura o seu nome, e, ao que parece, esse nome expressava alguma característica ou qualidade essencial da criatura a que se aplicava. A única coisa que esse conhecimento não alcançava era o conhecimento do bem e do mal: do bem como distinto do mal, e do mal como o contrário do bem. Essa distinção só poderia ser conhecida pela experiência, e tal experiência não combinava com a perfeição do seu estado, pois seria consequência da transgressão do mandamento do seu Criador. Quando ele comeu da árvore proibida, a do conhecimento do bem e do mal, recebeu então um conhecimento que Deus nunca quis que ele tivesse: conheceu o bem perdido e o mal adquirido. Antes, porém, o seu conhecimento era puro, santo, bom, claro e aperfeiçoava o seu ser.
2. Justiça. Entre os nossos antepassados, essa palavra [righteousness] significava o mesmo que right-wiseness, “sabedoria do que é reto”, sabedoria completa, aquilo que capacitava a pessoa a distinguir entre o certo e o errado. [N. do T.: Clarke explica a palavra inglesa righteousness pela sua forma antiga, rightwiseness.] Essa é a sabedoria que vem do alto, e é sábio no que é reto quem age segundo os seus ditames. O reto é direito; o errado é torto. Por isso o justo é aquele que segue em linha reta, que age e anda por linha e regra. E o injusto é o que anda por caminhos tortos, faz o que é errado e nunca é guiado pela verdadeira sabedoria. Esse poder, e com ele a inclinação para agir retamente, era uma das características da alma humana tal como saiu das mãos de Deus. Ela foi criada em conhecimento e justiça.
3. Santidade: piedade para com Deus; culto do coração, livre de hipocrisia e superstição; piedade firme e constante; adoração a Deus em espírito e em verdade. Esse era outro elemento da imagem de Deus na qual o ser humano foi feito. E ele andava na verdade. Era a santidade da verdade, uma piedade sem artifício. Todo sentimento era um sentimento de verdadeira piedade, e todo ato de adoração brotava desse sentimento. Era um estado de perfeição. Ele conhecia perfeitamente tudo o que dizia respeito ao seu ser e ao seu dever; agia perfeitamente; andava no caminho reto; seguia em frente em linha direta; fazia sempre o que era lícito e reto aos olhos de Deus, o seu Criador; reverenciava-o no mais alto grau; oferecia a adoração mais pura, de um coração puro e santo; e tudo era segundo a verdade. Não havia aparências, nem exterioridades de piedade; tudo era genuíno, tudo era sólido, tudo era como Deus podia exigir; e em cada ato e em cada sentimento o Senhor se agradava.
Não basta dizer que Deus fez todas as suas obras para manifestar a sua glória. Ele não precisava contemplar as próprias obras para ficar satisfeito com o exercício do seu poder e da sua sabedoria. Isso suporia que a sua satisfação dependia da sua própria obra. Ele não precisa do exercício do seu eterno poder e divindade para servir à sua felicidade ou aumentá-la. Pois, embora não possa deixar de se agradar de cada obra da sua mão, já que tudo o que criou é muito bom, não foi para esse fim, mas em vista de um grande propósito, que as coisas foram criadas e ainda subsistem. Esse propósito era a formação e a bem-aventurança eterna de seres inteligentes. Por isso ele fez o SER HUMANO à sua própria imagem e conforme a sua própria semelhança. Fê-lo imortal, racional e santo. Dotou-o de poderes intelectuais de alcance espantoso. Tornou-o capaz de conhecer o Autor do seu ser na glória das suas perfeições e de tirar desse conhecimento uma felicidade indizível. Fê-lo imortal, cópia da sua própria eternidade: ele não pode morrer por completo, não pode ser aniquilado, mas tem de existir, e existir como ser intelectual, por toda a eternidade. Fê-lo santo, para que fosse capaz, para sempre, de união com AQUELE que é a Origem e a Fonte de toda pureza. E a sua felicidade eterna há de consistir na sua união eterna com esse Ser: vê-lo como ele é, conhecê-lo na sua própria luz e receber sem fim, da sua plenitude, graus sempre maiores de conhecimento e felicidade.
A alma humana foi feita à imagem e semelhança de Deus. Ora, como o Ser divino é infinito, não está limitado por partes nem é definível por paixões. Por isso não pode ter uma imagem corpórea segundo a qual tenha feito o corpo humano. A imagem e semelhança têm de ser necessariamente intelectuais: a mente, a alma do ser humano, deve ter sido formada segundo a natureza e as perfeições do seu Deus. A mente humana ainda é dotada de capacidades extraordinárias; era-o ainda mais quando saiu das mãos do seu Criador. Deus estava então produzindo espírito, e um espírito formado segundo as perfeições da sua própria natureza. Deus é a Fonte de onde esse espírito brotou; por isso a corrente tem de se parecer com a Nascente que a produziu. Deus é santo, justo, sábio, bom e perfeito; assim tem de ser a alma que brotou dele. Não podia haver nela nada impuro, injusto, ignorante, mau, baixo, vulgar, mesquinho ou vil. Ela foi criada segundo a imagem de Deus, e essa imagem, diz-nos São Paulo, consistia em justiça, verdadeira santidade e conhecimento. Por isso o ser humano era sábio na mente, santo no coração e justo nas ações. Ainda que a palavra de Deus se calasse sobre esse assunto, não poderíamos concluir menos que isso das luzes que a razão e o bom senso nos oferecem. O texto de Gênesis 1.26 nos diz que ele foi obra de ELOHIM, a pluralidade divina, marcada aqui com mais clareza pelos pronomes plurais “nós” e “nossa”. E, para mostrar que ele era a obra-prima da criação de Deus, todas as Pessoas da Divindade são representadas como unidas em conselho e esforço para produzir essa criatura espantosa.
Tanto o seu corpo quanto a sua alma estão adaptados, com sabedoria espantosa, à sua morada e às suas ocupações; e também o lugar da sua morada, assim como os objetos ao redor, na sua diversidade, cor e relações mútuas, estão adaptados à mente e ao corpo desse senhor da criação. A estrutura, a disposição, a ação e a reação das diferentes partes do corpo mostram a admirável habilidade do maravilhoso Criador; e as diversas potências e faculdades da mente, agindo sobre os diferentes órgãos desse corpo e por meio deles, proclamam a origem divina da alma e demonstram que aquele que foi feito à imagem e semelhança de Deus era uma cópia da sua própria excelência, destinado a conhecer, amar e habitar com o seu Criador por toda a eternidade.
Que Deus fez o ser humano condicionalmente imortal, não se pode, penso eu, duvidar com razão. Embora formado do pó da terra, o seu Criador lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e ele se tornou um ser vivente (Gn 2.7). E como então não havia nada violento, nada fora do lugar, nenhum agente fraco ou lento demais, de um lado, nem poderoso ou ativo demais, de outro, todas as operações da natureza se realizavam no tempo, na quantidade e na força exigidos pelos fins a alcançar. De modo que, em número, peso e medida, tudo existia e agia segundo a sabedoria e a habilidade infalíveis do Criador Todo-Poderoso. Não podia haver, portanto, corrupção nem decadência; nenhum endurecimento desordenado, nem dissolução ou solubilidade antinatural de qualquer porção de matéria; nenhuma desordem na terra; nada nocivo ou insalubre na atmosfera. Toda a vasta massa era perfeita, e as partes que a compunham também. Assim como ele criou, também sustentou todas as coisas pela palavra do seu poder (Hb 1.3). E, assim como criou todas as coisas, também por ele todas as coisas subsistiam (Cl 1.17), e entre elas o SER HUMANO. Cada sólido tinha a sua devida consistência; cada fluido, o seu canal próprio; uns para sustentação e força, outros para atividade e energia; e os diversos fluidos para levar a cada parte os suprimentos necessários e fornecer aqueles espíritos por cuja ação natural e regular a vida, sob Deus, é mantida.
Seria absurdo supor que Deus tivesse formado seres inteligentes sem uma lei ou regra de vida, quando sabemos que os formou para manifestar a sua glória. E isso eles não podem fazer de outro modo senão exibindo em ações as virtudes derivadas das perfeições de Deus. E essas ações têm de se fundar em alguma prescrição ou regra. Aquilo que o nosso bendito Senhor chama de “o grande e primeiro mandamento” deve ser a lei em questão, a saber: “Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e com toda a sua força” (Mc 12.30; cf. Mt 22.37-38). A própria natureza da criação do ser humano mostra que essa era a lei ou regra de vida pela qual ele foi chamado a agir. Essa lei é adequada à natureza de um ser inteligente. E, como o ser humano foi feito à imagem e semelhança de Deus, essa lei era adequada à sua natureza, e os seus princípios devem ter sido gravados nessa natureza.
Observe-se que tal lei, para tal ser, não admite desvios. Ela exige uma obediência plena, perfeita e universal, e uma obediência prestada com todas as forças e energias do corpo e da alma.
Mas segue-se daí que o ser humano, nesse estado puro e perfeito, cumprindo em todo tempo o dever sublime exigido por essa lei, poderia merecer uma glória eterna pela sua obediência? Não. Porque ele é criatura de Deus; os seus poderes pertencem ao seu Criador. Ele lhe deve todos os serviços que pode prestar. E, quando tiver agido até os últimos limites da sua natureza elevada, em obediência a essa lei puríssima e santa, ficará claro que não pode fazer nenhuma reivindicação de recompensa à justiça divina. Em relação a Deus, ele é um “servo inútil”: fez apenas o seu dever e não tem nada a reclamar (Lc 17.10). Nessa condição estava não só o ser humano no Paraíso, mas também todo anjo e arcanjo de Deus. Por toda a eternidade, nenhum ser criado, por mais puro, santo, submisso e obediente que seja, pode ter qualquer reivindicação diante do seu Criador. Dele recebeu originalmente o ser, e por ele esse ser é sustentado. A ele, portanto, pertence por direito, e tudo aquilo de que ele o fez capaz, ele tem o direito de exigir. Supor que o Criador, em qualquer circunstância, seja devedor da criatura seria tão absurdo quanto supor que a causa é devedora do efeito que produziu.
Deus deu ao ser humano uma lei cujo espírito era: “Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma” etc. Essa lei era clara, simples, santa, justa e boa. 1. Era clara, de modo que não podia ser mal entendida. 2. Simples, de modo que não podia confundir nem perturbar com distinções e sutilezas. 3. Santa, totalmente livre de pecado ou imperfeição. 4. Justa, por não exigir nenhuma obediência além da que a criatura devia ao seu Criador. E 5. Boa, porque conduzia ao contínuo aperfeiçoamento da criatura e lhe assegurava uma felicidade sempre crescente.
O primeiro preceito positivo que Deus deu ao ser humano foi dado como prova de obediência e como demonstração de que ele estava num estado de dependência e de provação. Era necessário que, ao ser constituído senhor deste mundo inferior, ele soubesse que era apenas o representante de Deus e que teria de prestar contas a ele do uso das suas faculdades mentais e corporais e do uso que fizesse das diversas criaturas postas sob o seu cuidado. A pessoa de cuja mente se apaga a forte impressão dessa dependência e dessa responsabilidade perde necessariamente de vista a sua origem e o seu fim, e se torna capaz de toda espécie de maldade. Como Deus é soberano, tem o direito de dar às suas criaturas os mandamentos que julgar convenientes. Uma criatura inteligente sem uma lei que regule a sua conduta é um absurdo; isso destruiria de imediato a ideia da sua dependência e da sua responsabilidade. O ser humano deve sempre sentir Deus como o seu soberano e agir sob a sua autoridade, o que não pode fazer se não tiver uma regra de conduta. Deus dá essa regra, e não importa de que espécie seja, desde que obedecer a ela não esteja além das forças da criatura que deve obedecer. Deus diz: “Há uma certa árvore frutífera; você não comerá do seu fruto. Mas de todos os outros frutos, e eles são todos os de que você precisa, você pode comer livremente, à vontade” (Gn 2.16-17). Não tinha ele o direito absoluto de dizer isso? E não estava o ser humano obrigado a obedecer?
A queda do ser humano. Revejamos todo esse triste acontecimento, a queda e os seus efeitos.
1. Pelo Novo Testamento sabemos que Satanás se associou à criatura que chamamos serpente, e que o original chama nachash, para seduzir e arruinar a humanidade (2Co 11.3; Ap 12.9; 20.2). 2. Essa criatura era a mais adequada ao seu propósito, por ser o mais sutil, o mais inteligente e o mais astuto de todos os animais do campo, dotado do dom da fala e da razão e, por consequência, um em que ele poderia melhor se esconder. [N. do T.: Clarke defendia, no seu Comentário a Gênesis 3, uma interpretação própria e controversa do nachash, segundo a qual não se trataria de uma cobra, mas de um animal semelhante ao macaco, dotado de fala. Daí a expressão “dom da fala e da razão”.] 3. Como sabia que, enquanto dependessem de Deus, eles não poderiam ser arruinados, procurou afastá-los dessa dependência. 4. Fez isso trabalhando sobre aquela inclinação da mente ao desejo de aumentar o conhecimento, com a qual Deus, com os propósitos mais graciosos, a havia dotado. 5. Para ter êxito, insinuou que Deus havia dado a proibição por inveja: “Deus sabe que, no dia em que dele comerem, vocês serão como ele” etc. 6. Como o seu estado presente de bem-aventurança devia ser indizivelmente precioso para eles, procurou convencê-los de que não poderiam cair desse estado: “É certo que vocês não morrerão”; isto é, “vocês não apenas conservarão a bem-aventurança que têm, como ela será muito aumentada” (Gn 3.4-5). É uma tentação pela qual ele tem tido êxito fatal, desde então, na ruína de multidões de almas, a quem persuadiu de que, uma vez estando em bom estado diante de Deus, jamais poderiam se perder definitivamente. 7. Como manteve fora de vista a ilicitude do meio proposto, persuadiu-os de que não podiam cair da sua firmeza e lhes garantiu que se pareceriam com o próprio Deus e seriam, por consequência, suficientes em si mesmos e totalmente independentes dele, eles deram ouvidos e, fixando os olhos apenas no bem prometido, desprezaram o mandamento positivo e, decididos a se tornar sábios e independentes a qualquer custo, “tomaram do fruto e comeram” (Gn 3.6).
Examinemos agora os efeitos.
1. “Os olhos de ambos se abriram e perceberam que estavam nus” (Gn 3.7). Viram o que nunca tinham visto antes: que estavam despojados da sua excelência, que tinham perdido a inocência e que tinham caído num estado de penúria e perigo. 2. Embora os seus olhos se tivessem aberto para ver a sua nudez, a mente ficou nublada e o juízo confuso. Parecem ter perdido toda noção correta de honra e desonra, do que era vergonhoso e do que era digno de louvor. Era desonroso e vergonhoso quebrar o mandamento de Deus, mas não era nem uma coisa nem outra andar nu quando a roupa não era necessária. 3. Parecem ter perdido num instante não só o bom juízo, mas também a reflexão. Pouco antes, Adão era tão sábio que podia dar nome a todas as criaturas trazidas diante dele, segundo a natureza e as qualidades de cada uma. Agora não conhece o primeiro princípio a respeito da natureza divina, que ela conhece todas as coisas e está presente em toda parte. Por isso procura esconder-se entre as árvores dos olhos do Deus que tudo vê (Gn 3.8)! Como isso é espantoso! Quando as criaturas lhe foram trazidas, ele pôde dar-lhes nome, porque podia discernir a natureza e as propriedades de cada uma. Quando Eva lhe foi trazida, ele pôde dizer de imediato o que ela era, quem ela era e para que fim fora feita, embora estivesse em sono profundo quando Deus a formou. E isso parece ter sido registrado de propósito, só para mostrar a profundidade da sua sabedoria e a perfeição do seu discernimento. Mas, ai! Como caíram os valentes (2Sm 1.19)! Compare-se o seu estado presente com o passado, o seu estado antes da transgressão com o seu estado depois dela, e diga-se: é esta a mesma criatura? A criatura de quem Deus disse, como disse de todas as suas obras, “é muito bom” (Gn 1.31), exatamente o que devia ser, imagem viva do Deus vivo, e que agora está mais baixa que os animais do campo? 4. Esse relato jamais poderia ter sido acreditado se as provas e evidências indiscutíveis dele não tivessem continuado, numa sucessão ininterrupta, até o presente. Todos os descendentes desse primeiro casal culpado se parecem com os seus antepassados degenerados e copiam a sua conduta. O modo original de transgressão continua, e, em consequência, o pecado original. Eis as provas: 1. Todo ser humano procura obter conhecimento por meios ilícitos, mesmo quando os meios lícitos e toda ajuda disponível estão à mão. 2. As pessoas procuram ser independentes e viver sem Deus no mundo (Ef 2.12). Por isso a oração, que é a linguagem da dependência da providência e da graça de Deus, é negligenciada, e eu poderia dizer detestada, pela grande maioria das pessoas. Se eu não tivesse outra prova além desta de que o ser humano é uma criatura caída, a minha alma se curvaria diante dessa evidência. 3. Desprovidas do verdadeiro conhecimento de Deus, as pessoas buscam o segredo para os seus crimes, sem considerar que os olhos de Deus estão sobre elas, preocupadas apenas em escondê-los dos olhos humanos.
O ser humano quebrou a condição simples, clara e fácil da qual dependia a sua imortalidade, e assim perdeu, com a vida, a bênção de que fora naturalmente dotado. [N. do T.: o original diz forfeited his life to the blessing, expressão obscura que está assim no livro impresso; traduzimos pelo sentido provável.] Assim sobrevieram a corrupção, a decadência e um curso desordenado da natureza. O ar que ele respirava tornou-se hostil à manutenção contínua da vida; as sementes da dissolução se formaram na sua constituição; e delas brotaram diversas doenças, que, pelos seus ataques repetidos, minaram os alicerces da vida, até que por fim o fruto da sua dissolução confirmou a sentença do seu Criador. Pois, depois de uma vida moribunda, ela por fim terminou na morte. Não apenas não havia morte antes do pecado, como também não havia nenhuma causa que predispusesse à morte, nada que, no curso da natureza, pudesse produzi-la. O solo era fértil, e ao que parece não havia nele produções nocivas nem incômodas, e a bênção do Altíssimo repousava sobre a terra, os montes, as colinas, as planícies e os vales. Mas, quando o pecado entrou, que mudança! A gleba se torna dura e rebelde; ervas nocivas e incômodas crescem à vontade; embora o lavrador empregue toda a força dos seus músculos num trabalho doloroso e esgotante, o seu esforço é mal recompensado. Espinhos e cardos, todo gênero, família e ordem de plantas daninhas, brotam com grande rapidez até uma perfeição destruidora. E muitas vezes, quando o trabalhador está para encher os braços com os frutos de uma colheita penosamente ganha, uma praga estraga o grão; tornados e tempestades o arrancam da casca e o dão às aves do céu, ou arrancam os talos pela raiz e os espalham aos ventos do céu; ou as enchentes levam os feixes que estavam quase prontos para ser recolhidos. E assim perece a esperança do lavrador. Por esses e por vários outros meios, o Deus justo cumpre os propósitos da sua justiça e realiza a sua declaração: “Em fadigas você obterá dela o sustento” (Gn 3.17), pois por sua causa a própria terra é maldita. Você voltará à terra, pois dela foi formado (Gn 3.19). Você perdeu a sua felicidade e a sua imortalidade naturais; a morte espiritual já entrou na sua alma, e a morte do seu corpo logo virá em seguida: VOCÊ MORRERÁ (Gn 2.17).
O ser humano não é o que Deus o fez. Ainda que as Escrituras se calassem sobre isso, toda a razão e todo o bom senso declarariam de imediato que é impossível que o Deus infinitamente perfeito tenha feito um ser moralmente imperfeito, e muito menos corrupto e pecador. No entanto, Deus é o Criador do ser humano, e nos diz que o fez à sua própria imagem e conforme a sua própria semelhança. Segue-se, então, que o ser humano caiu do estado de santidade e perfeição em que foi criado. E que a sua queda ocorreu na cabeça e na raiz da natureza humana, antes que qualquer geração humana se propagasse na terra, é evidente não só pela declaração do próprio Deus na sua palavra, mas também por este fato forte e decisivo: nunca se descobriu, em parte alguma do mundo, uma nação ou tribo de pessoas santas ou justas, nem há registro de que tal povo tenha algum dia sido conhecido. É uma circunstância realmente surpreendente e uma prova absoluta de que não só toda a humanidade está agora caída e pecadora, mas sempre esteve no mesmo estado. E essa queda deve ter acontecido antes da propagação da humanidade. Pois, se não tivesse acontecido nos nossos primeiros pais antes de começarem a ter filhos e povoar a terra, os chefes de família e os seus sucessores que tivessem nascido antes da queda não poderiam ter participado do contágio e, por consequência, teriam sido os progenitores de nações que praticassem a justiça, amando a Deus de todo o coração, alma, entendimento e força, e ao próximo como a si mesmas. Mas nenhuma nação assim existe; nenhuma nação assim jamais existiu. Vemos, assim, que a experiência e o conhecimento universais concordam com o relato da queda do ser humano dado no livro de Gênesis e o confirmam. Estando corrompida a raiz, também o fruto tem de ser corrupto; estando envenenada a fonte, as correntes têm de ser impuras. Todos os que vêm ao mundo pelo modo da geração natural têm de ser exatamente iguais àquele de quem recebem o ser. O corpo, a alma e o espírito de todos os descendentes de Adão têm de participar das suas imperfeições morais, porque é uma lei inflexível e invariável da natureza que “o semelhante produz o semelhante”. Por isso, vendo essa corrupção total da natureza humana, já não esperamos colher uvas de espinheiros nem figos de ervas daninhas (Mt 7.16). A experiência não só confirma a grande mas terrível verdade de que toda a humanidade caiu da imagem de Deus, mas mostra também que o ser humano tem naturalmente inclinação para fazer o mal e nenhuma para fazer o bem. Sim, para fazer o mal mesmo quando é demonstradamente para o seu próprio prejuízo. Mostra que os grandes princípios do amor-próprio e do interesse próprio não pesam nada contra as inclinações pecaminosas da sua mente; que ele corre continuamente, e confessadamente, para a própria ruína; e que não tem em si mesmo nenhum poder ou influência pelo qual possa corrigir, conter ou destruir a perversidade da sua própria natureza. Em suma, ele “jaz no Maligno” (1Jo 5.19), com um desejo inútil de se levantar, mas sem nenhum poder eficaz para isso. O entendimento, o juízo e a razão, essas faculdades da alma tão gabadas, fortes e dominantes, que deveriam regular todas as faculdades inferiores, estão elas mesmas tão caídas, enfraquecidas, obscurecidas e corrompidas, no que diz respeito ao bem espiritual, que não sabem como mandar nem sentem como executar. Não há, portanto, nenhuma esperança de que o ser humano possa levantar-se da queda e recolocar-se num estado de retidão moral, porque os próprios princípios pelos quais deveria levantar-se estão tão caídos quanto todo o resto. Desejar e querer é tudo o que ele pode exercer, e mesmo isso, por falta de energia moral, é totalmente ineficaz. Deus lhe inspirou o desejo de ser salvo, e só isso o coloca num estado em que pode ser salvo. Não há, portanto, na alma humana nenhum poder de reviver por si mesma, nenhum princípio inato que possa desenvolver-se, expandir-se e levantar-se. Tudo é fraco; tudo é miserável, doente e impotente. Essa visão do estado miserável da humanidade levou um dos pais da igreja primitiva a considerar toda a raça humana como um grande homem doente, estendido sem forças sobre todo o globo habitado, do oriente ao ocidente, do norte ao sul, para curar o qual o Médico Todo-Poderoso desceu do céu.
Por todos os relatos que temos das nações mais eminentes, antigas e célebres, como os egípcios, caldeus, assírios, persas, gregos e romanos, verificamos, pelo testemunho delas mesmas, que estavam desprovidas do conhecimento do verdadeiro Deus e que, embora cultivassem as diversas artes e ciências, eram ferozes, bárbaras e cruéis. A sua história é um tecido de fraudes, agressões, tréguas rompidas, assassinatos, revoltas, insurreições, desordem geral e insegurança. As suas leis eram despóticas e opressoras; os seus reis e governadores, tiranos; os seus estadistas, oportunistas e opressores do povo comum; os seus soldados, saqueadores autorizados; os seus heróis, carniceiros de gente; as suas conquistas, um sopro de desolação e morte sobre impérios e nações; a sua religião, supersticiosa, grosseira, brutal e impura; e os seus deuses e os objetos gerais do seu culto, piores no caráter e nas práticas reconhecidas do que os mais vis e execráveis dos homens. E como seriam os imitadores, quando tinham tais modelos para copiar? Esse era o seu estado e caráter geral.
“Mas os gregos tão cultos e os romanos tão eruditos e refinados não eram exceções ilustres?” Não excluo nenhum deles desta censura geral. Leiam-se as suas próprias histórias: as das repúblicas da Grécia. O que se encontra? Traições, insurreições, crimes e matanças de toda espécie. Consultem-se também os escritores romanos sobre as suas fases republicana, consular-tribunícia, régia e imperial, e vejam-se os retratos que esses mestres pintores esboçaram. E o que se vê? Não caricaturas, mas retratos fiéis ao natural: feições cruéis e deformadas, de cenho carregado, por entre as sombras densas e escuras que servem para realçá-las e destacá-las.
O passar do tempo também não melhorou a condição e o caráter morais das nações pagãs. As nossas extensas relações comerciais, não só com as nações da Europa e da América, mas também com os principais reinos e Estados pagãos na maior parte do mundo, nos deram um conhecimento íntimo dos lugares tenebrosos da terra, que estão cheios de moradas de violência (Sl 74.20). E o que vimos? Trevas cobrindo cada terra, e escuridão espessa no coração dos povos (Is 60.2); idolatria das mais repugnantes e superstição das mais tolas e degradantes, intimamente associadas a cerimônias ridículas e ritos cruéis; suicídio religioso; abandono dos idosos à fome, quando já não podem trabalhar, ou nas matas, para serem devorados por animais selvagens, quando estão desenganados; enjeitamento de crianças; queima de viúvas com o corpo do marido falecido, sendo os próprios filhos os que acendem a pira funerária; as peregrinações mais dolorosas, sem sentido e prolongadas; jejuns religiosos que esgotam a saúde e as forças; e festas em que o ser humano se rebaixa a animal. Tudo isso, e mais coisas do mesmo tipo, igualmente degradantes e destrutivas, prevalece entre os milhões da Ásia, e especialmente entre os que são chamados os habitantes civilizados, brandos e pacíficos do Indostão.
Que gradação há aqui! [N. do T.: o trecho comenta Rm 5.6-10, que fala dos que eram “fracos”, “ímpios”, “pecadores” e “inimigos”.] 1. Na nossa queda de Deus, o primeiro estado visível é que estamos sem forças: perdemos o nosso princípio de poder espiritual ao perder a imagem de Deus, a justiça e a verdadeira santidade, nas quais fomos criados. 2. Somos ímpios: tendo perdido a força para fazer o bem, perdemos também todo poder de adorar a Deus como se deve. A mente que foi feita para Deus já não é a sua morada. 3. Somos pecadores: sentindo que perdemos o nosso centro de descanso e a nossa felicidade, andamos à procura de descanso e não o encontramos. O que perdemos ao perder Deus, procuramos nas coisas terrenas, e assim erramos continuamente o alvo e multiplicamos as transgressões contra o nosso Criador. 4. Somos inimigos: o pecado, quando consentido, cresce em força; os atos maus geram hábitos fixos e enraizados; a mente, envenenada pelo pecado em todas as partes, cresce na aversão ao bem; a simples aversão produz inimizade; e a inimizade, atos de hostilidade, crueldade feroz etc. De modo que o inimigo de Deus odeia o seu Criador e o serviço dele, é cruel com as outras criaturas (“um inimigo de Deus jamais foi verdadeiro amigo do ser humano”) e atormenta até a própria alma! Embora todo ser humano traga ao mundo as sementes de todos esses males, é só crescendo nele que elas atingem a sua perfeição. Nemo repente fuit turpissimus, “ninguém se torna depravado de uma só vez”: chega a isso aos poucos, e a velocidade com que avança é proporcional às suas circunstâncias, aos meios de satisfazer as paixões pecaminosas, à má educação, às más companhias etc. Isso produz uma grande diversidade nos estados morais das pessoas. Todos têm as mesmas sementes do mal (Nemo sine vitiis nascitur, “todos vêm manchados ao mundo”), mas nem todos têm as mesmas oportunidades de cultivar essas sementes. Além disso, como o Espírito de Deus está continuamente convencendo o mundo do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8), e os ministros de Deus apoiam a sua influência com exortações piedosas, e como a Bíblia está em quase todas as casas e é ouvida ou lida, em maior ou menor grau, por quase todas as pessoas, essas sementes más recebem contínuos golpes e freios, de modo que, em muitos casos, não crescem com vigor. São essas causas que produzem as principais diferenças morais que encontramos entre as pessoas, embora nas inclinações para o mal sejam todas radicalmente iguais.
Isso completa o seu mau caráter: são ateus completos, ao menos na prática. Não temem os juízos de Deus, embora os olhos dele estejam sobre eles nos seus maus caminhos. [N. do T.: o trecho comenta Rm 3.18, “Não há temor de Deus diante de seus olhos”, e o “aqui” se refere à acusação de Rm 3.10-18.] Não há um só item do que aqui se imputa aos judeus e aos gentios que não se encontre amplamente comprovado pela história de ambos. E o que era verdade a respeito deles naqueles tempos primitivos continua sendo verdade. Com muito pouca variação, esses são os males em que a grande massa da humanidade se compraz e vive. Olhe-se especialmente para as pessoas em estado de guerra; olhe-se para as nações da Europa, que gozam da maior parte da luz de Deus; veja-se o que aconteceu entre elas de 1792 a 1814; veja-se quanta destruição de milhões e quanta miséria de centenas de milhões resultaram da excitação satânica das paixões caídas e ferozes! Ó PECADO, o que você fez! Quantas miríades de almas você precipitou, despreparadas, no mundo eterno! Quem, entre seres humanos ou anjos, pode avaliar a grandeza dessa calamidade, dessa carnificina de almas! Quantas viúvas, quantos órfãos ficaram para chorar os maridos e os pais sacrificados e a própria desgraça que daí resultou! E de onde nasceu tudo isso? Daquilo de onde vêm todas as guerras e brigas (Tg 4.1): os maus desejos humanos, a ambição de domínio, a sede insaciável de dinheiro e o desejo de ser único e independente. Esse é o pecado que arruinou os nossos primeiros pais, os expulsou do paraíso e desceu a toda a sua posteridade. E prova plenamente, prova de modo incontestável, que somos descendentes legítimos deles: a prole caída de pais caídos; filhos em cujos caminhos há destruição e miséria, em cujo coração não há fé e diante de cujos olhos não há temor de Deus (cf. Rm 3.16-18).
Que retrato terrível Deus faz dos habitantes do mundo antes do dilúvio! 1. Eram carne (Gn 6.3): inteiramente sensuais, com os desejos da mente sufocados e perdidos nos desejos da carne. A alma deles já não discernia o seu alto destino, mas se ocupava sempre das coisas terrenas, de modo que se tornaram sensuais, embrutecidos e carne, encarnados a ponto de não reter Deus no seu conhecimento, e viviam buscando a sua porção nesta vida. 2. Estavam num estado de maldade. Tudo era corrupto por dentro e tudo injusto por fora; não existia nem a ciência nem a prática da religião. A piedade tinha desaparecido, e toda forma de sãs palavras tinha sumido. 3. Essa maldade era grande, “havia se multiplicado” (Gn 6.5). Crescia continuamente, multiplicando aumento sobre aumento, de modo que toda a terra estava corrompida diante de Deus e cheia de violência, predominando a devassidão entre as classes mais baixas e a crueldade e a opressão entre as mais altas. 4. “Todo desígnio” dos seus pensamentos “era mau”: o primeiro embrião de cada ideia, a formação de cada pensamento, a própria matéria de que se formavam a percepção, a concepção e as ideias, tudo era mau. A fonte que os produzia, com cada pensamento, propósito, desejo, anseio e motivo, estava incuravelmente envenenada. 5. Tudo isso era mau, “sem mistura alguma de bem”. O Espírito de Deus, que lutava com eles, era continuamente resistido, de modo que o mal tinha domínio soberano. 6. Eram maus continuamente: não havia intervalo de bem, nenhum momento concedido à reflexão séria, nenhum propósito santo, nenhum ato justo. Que retrato acabado de uma alma caída! Um retrato como só Deus, que sonda o coração e prova o espírito, poderia fazer. [N. do T.: nos itens 4 a 6, Clarke comenta palavra por palavra o hebraico de Gn 6.5, que a NAA traduz “todo desígnio do coração delas era continuamente mau”. O “sem mistura alguma de bem” é a explicação dele para a palavra que a King James traduz por only, “somente”.] 7. Para completar tudo, Deus se representa como arrependido por tê-los feito e entristecido no coração por causa das suas iniquidades (Gn 6.6)! Se essas não fossem transgressões voluntárias, crimes que eles poderiam ter evitado; se eles não tivessem entristecido e apagado o Espírito de Deus, poderia ele falar deles como fala aqui? 8. Tão indignado está o Deus santíssimo e misericordiosíssimo que decide destruir a obra das suas mãos: “O Senhor disse: Farei desaparecer da face da terra o ser humano que criei” (Gn 6.7). Quão grande devia ser o mal, e quão provocadoras as transgressões, que obrigaram o Deus compassivíssimo, para a defesa da sua própria glória, a tomar essa terrível decisão! “Os insensatos zombam do pecado” (Pv 14.9), mas ninguém além dos insensatos.
O mundo inteiro jaz na maldade; jaz no Maligno (1Jo 5.19). Está nos braços do diabo, onde dorme profundamente, em segurança carnal, tirando o seu calor e a sua força desse cuidador infernal. Que estado verdadeiramente terrível! E as ações, as disposições, as inclinações, as opiniões e as máximas de todas as pessoas mundanas não provam e ilustram isso? “Nesta breve expressão”, diz o sr. Wesley, “o horrível estado do mundo é pintado com as cores mais vivas; um comentário a ela temos nas ações, conversas, contratos, brigas e amizades das pessoas mundanas”. Sim: as suas ações se opõem à lei de Deus; as suas conversas são superficiais, fingidas e falsas; os seus contratos, forçados, interesseiros e enganosos; as suas brigas, pueris, ridículas e ferozes; e as suas amizades, ocas, insinceras, caprichosas e inconstantes. Tudo, tudo efeito de jazerem nos braços do Maligno, pois assim ficam impregnadas do espírito dele. E, porque são do diabo, que é o pai delas, querem satisfazer os desejos dele (Jo 8.44).
Até os mais despreocupados com as coisas espirituais têm entendimento, juízo, razão e vontade. E por meio disso temos visto até zombadores da revelação divina tornarem-se muito eminentes nas artes e nas ciências. Alguns dos nossos melhores metafísicos, médicos, matemáticos, astrônomos, químicos etc. são conhecidos, para vergonha deles, diga-se e publique-se, por não terem religião. Mais ainda: alguns deles a blasfemaram, deixando Deus fora da sua própria obra e atribuindo a um ídolo de sua invenção, a que chamam “natureza”, as operações da sabedoria, do poder e da bondade do Altíssimo. É verdade que muitos dos mais eminentes em todos esses ramos do conhecimento foram crentes conscienciosos na revelação divina. Mas o caso dos outros prova que, por mais caído que esteja, o ser humano ainda possui poderes extraordinários, capazes de cultivo e aperfeiçoamento muito elevados. Em suma, a alma parece capaz de tudo, menos de conhecer, temer, amar e servir a Deus. E não só é incapaz, por si mesma, de qualquer ato verdadeiramente religioso, como o que mostra a sua queda da maneira mais indiscutível é a sua inimizade contra as coisas sagradas. Diga o homem não regenerado o que quiser: a sua consciência sabe que ele odeia a religião; a sua alma se revolta contra ela; a inclinação da sua carne “não está sujeita à lei de Deus, nem mesmo pode estar” (Rm 8.7). Não há como reduzir à sujeição esse princípio cruel. Ele é pecado, e o pecado é rebelião contra Deus. Por isso o pecado tem de ser destruído, não sujeitado; se fosse sujeitado, deixaria de ser pecado, porque o pecado está em oposição a Deus. Por isso o apóstolo diz, de modo concludente, que ele não pode ser sujeitado; isto é, tem de ser destruído, ou destruirá a alma para sempre.
Há um contágio na natureza humana, um princípio mau, que se opõe à verdade e à santidade de Deus. Essa é a grande causa oculta de toda transgressão. É um contágio do qual nenhuma alma humana está livre. Propaga-se com a espécie humana; nenhum ser humano jamais nasceu sem ele. É a infecção da nossa natureza e se chama comumente pecado original: pecado, porque não tem conformidade com a natureza, a vontade e a lei de Deus, e está constantemente em oposição às três. A doutrina do pecado original tem sido negada por muitos, ao passo que os seus opositores, tanto quanto os que a admitem, dão as provas mais inequívocas de que estão sujeitos à sua ação. Tenho visto opositores e defensores atacá-la e defendê-la com uma aspereza de temperamento e uma grosseria de linguagem que davam prova suficiente de uma natureza caída; ambos, à maneira de Jonas, julgando ter razão para estar irados (Jn 4.9)! Um escritor recente sobre o assunto se destacou nesse aspecto e estragou as suas obras com as suas más disposições. As más disposições são manchas de lepra, que indicam suficientemente o contágio profundamente enraizado no coração daqueles em cuja vida aparecem.
A infecção, ou corrupção original da natureza, é a grande causa oculta, a origem e a fonte de toda transgressão. A iniquidade é uma semente que tem o seu crescimento, o seu aumento gradual e a sua perfeição. À medida que as diversas faculdades da mente se desenvolvem, ela se espalha, infectando cada paixão e cada apetite em toda a sua extensão e atividade.
Assim como se espalha na mente, difunde-se pela vida. Cada ação participa da sua influência, até que toda a conduta se torna um tecido de transgressões, porque todo desígnio dos pensamentos do coração do pecador é somente mau, continuamente. Esse é o estado natural do ser humano.
Assim como o pecador está infectado, também é infeccioso. Pelo seu ensino e pelo seu exemplo, espalha o contágio infernal por onde quer que vá, unindo-se à multidão para fazer o mal, fortalecendo e sendo fortalecido nos caminhos do pecado e da morte, e tornando-se especialmente um laço e uma maldição para a sua própria casa.
Que o pecador é abominável aos olhos de Deus e de todas as pessoas boas, que não é digno da companhia dos justos e que não pode, enquanto tal, ser admitido no reino de Deus, não precisa de prova. É por causa da universalidade do mal que os pecadores não são expulsos da sociedade como os mais perigosos de todos os monstros e obrigados a viver sem nenhum contato com os seus semelhantes. Dez leprosos podiam andar juntos, porque participavam da mesma infecção (Lc 17.12); e a sociedade civil em geral se mantém porque é composta de uma comunidade de leprosos.
O pecado torna a pessoa desprezível na vida, miserável na morte e desgraçada por toda a eternidade. Não é estranho, então, que as pessoas o amem?
Todos nascem com uma natureza pecaminosa, e as sementes desse mal logo germinam e produzem os frutos correspondentes. Desde a queda de Adão, nunca houve um só exemplo de alma humana imaculada. Todo ser humano peca, e peca à semelhança da transgressão de Adão (cf. Rm 5.14). Adão procurou ser independente de Deus, e todos os seus descendentes agem do mesmo modo. Por isso se ora pouco, porque a oração é a linguagem da dependência, e isso é incompatível com todo movimento do pecado original. Quando esses filhos degenerados de pais degenerados são apanhados nos seus pecados, agem exatamente como os pais agiram: cada um se desculpa e põe a culpa em outro. “O que você fez?” “A mulher que me deste para estar comigo, ELA me deu da árvore, e eu comi.” “Que é isso que VOCÊ fez?” “A serpente me enganou, e eu comi” (Gn 3.12-13). Assim, é extremamente difícil encontrar alguém que reconheça com franqueza a própria transgressão.
O pecado é representado como um rei, governante ou tirano que tem sob o seu controle os desejos da mente e os membros do corpo, de modo que, influenciando as paixões, governa o corpo. Não permitam que o pecado reine (Rm 6.12), não o deixem agir. Isto é, que ele não tenha lugar nem existência na alma de vocês, porque, onde quer que esteja, governa, em maior ou menor grau. E, na verdade, o pecado não é pecado sem isso. Como se conhece o pecado? Pelas más influências na mente e pelos maus atos na vida. Mas essas influências e esses atos não provam o seu domínio? Certamente. A simples existência de um pensamento mau ao qual se prende uma paixão ou um apetite é prova de que ali o pecado tem domínio, pois sem domínio essas paixões não poderiam ser excitadas. Onde quer que o pecado seja sentido, ali o pecado tem domínio, porque o pecado só é pecado enquanto age, em ação ou em paixão, contra Deus. O pecado não pode ser algo em repouso: se não age, não existe.
Depois de todas as provas da excelência natural do ser humano, temos dez mil outras da sua depravação moral interior e do seu afastamento da vida divina. O teor geral da sua conduta moral é uma infração das leis do seu Criador. Embora senhor do mundo inferior, é escravo das paixões mais vis e degradantes; não ama o seu Criador e é hostil e opressor para com os seus semelhantes. Numa palavra, é tão assombrosa e maravilhosamente vil quanto foi formado “de modo assombrosamente maravilhoso” (Sl 139.14). E tudo isso mostra com muita força que ele está culpado diante de Deus e corre o perigo de perecer eternamente.
As pessoas podem se divertir argumentando contra a doutrina do pecado original, ou da depravação total da alma humana. Mas, enquanto houver perseguição religiosa no mundo, haverá a mais absoluta refutação de todos os seus argumentos. Só um coração inteiramente afastado de Deus poderia tramar a perseguição ou os maus-tratos de alguém por nenhum outro motivo senão o de ter se entregado a glorificar a Deus no seu corpo e no seu espírito, que pertencem a ele (1Co 6.20).
Outra prova da queda e da degeneração humanas é a inimizade geral contra a doutrina da santidade. As pessoas não suportam a ideia de ser santificadas no corpo, na alma e no espírito (1Ts 5.23), de modo a aperfeiçoar a santidade no temor de Deus (2Co 7.1). Um cristianismo espúrio vem ganhando terreno no mundo. A fraqueza, a dúvida, a pequenez da fé, a consciência de corrupções interiores e as fraquezas pecaminosas de diversas espécies são consideradas por alguns as provas mais altas de um estado de graça. Na igreja primitiva, porém, elas teriam sido vistas como evidência de que as pessoas em questão tinham recebido luz apenas suficiente para ver a sua miséria e o seu perigo, mas não a virtude curadora do sangue de Cristo.
O coração humano, entregue às suas próprias inclinações, ou se atola na lama ou despenca nos precipícios. Que ajuda o ser humano jamais encontrou no que se chama religião natural? Em comparação com a revelação, ela é uma lamparina de junco diante do sol, por mais que seja moldada pelas invenções humanas.
Se o ser humano tivesse sido deixado exatamente como estava quando caiu de Deus, muito provavelmente teria ficado sem nenhuma possibilidade de salvação, já que parece ter perdido toda a sua luz e todo o seu entendimento espirituais, e até o seu senso moral. Temos uma prova nada pequena disso no fato de ele ter procurado “esconder-se entre as árvores do jardim” (Gn 3.8), longe da presença e dos olhos daquele que, antes da sua transgressão, sabia estar presente em toda parte; para cujos olhos as trevas e a luz são a mesma coisa (Sl 139.12); e que discerne os pensamentos mais secretos do coração humano. Acrescente-se a isso que ele parece não ter tido nem humilhação nem contrição. Por isso lançou o seu crime sobre a mulher e, indiretamente, sobre Deus, ao passo que a mulher, por sua vez, lançou a sua culpa sobre a serpente. Assim como eles foram, assim teria sido toda a sua posteridade, se algum princípio gracioso não lhes tivesse sido restaurado de modo sobrenatural para iluminar a mente deles, dar-lhes algum conhecimento do bem e do mal, do certo e do errado, da virtude e do vício, e assim colocá-los num estado em que pudessem ser salvos.
O pecado que nos assedia (Hb 12.1): “o pecado bem cercado de circunstâncias” é aquele que tem tudo a seu favor, o tempo, o lugar e a oportunidade, o coração e o objeto; um pecado em que todas essas coisas concorrem com frequência e que, por consequência, é cometido com frequência. [N. do T.: Clarke comenta o grego euperístatos, que a King James traduz por the sin which doth so easily beset us, “o pecado que tão facilmente nos assedia”, e a NAA por “o pecado que tão firmemente se apega a nós”.] O que chamamos de “pecado que facilmente nos assedia” é o pecado do nosso temperamento, o pecado do nosso ofício, aquele em que a nossa honra mundana, o nosso lucro secular e a nossa satisfação sensual são mais frequentemente sentidos e buscados. Alguns o entendem como o pecado original, aquele que nos envolve no corpo, na alma e no espírito. Seja o que for, a palavra nos dá a entender que é aquilo que nos encontra a cada passo, que está sempre se apresentando a nós. Assim como um compasso descreve um círculo pela volta de uma das pernas, enquanto a outra fica parada no centro, assim também esse pecado, brotando daquele ponto de corrupção interior chamado “a inclinação da carne”, nos cerca em todo lugar. Estamos limitados por ele e muitas vezes encurralados por todos os lados. É um muro circular e bem fortificado, por cima do qual temos de saltar ou através do qual temos de romper. O homem dado a uma espécie particular de pecado (pois todo pecador tem o seu caminho) é representado como prisioneiro nessa fortaleza.
“O pecado imperdoável”, como alguns o chamam, não é nem mais nem menos do que atribuir ao espírito do diabo os milagres que Cristo operou pelo poder de Deus (Mt 12.24-32). Muitas pessoas sinceras se afligiram gravemente com o medo de ter cometido o pecado imperdoável. Mas observe-se que ninguém que crê na missão divina de Jesus Cristo pode jamais cometer esse pecado. Portanto, que o coração de ninguém desfaleça por causa dele, de agora em diante e para sempre. Amém.
Se olhamos o pecado em si mesmo, a nossa mente logo fica limitada, na sua visão, aos atos particulares de transgressão, cuja torpeza e cujo demérito mal conseguimos perceber, pois não consideramos nem o princípio de onde procedem, “a inclinação da carne, que é inimizade contra Deus” (Rm 8.7), nem a natureza e a dignidade do DEUS contra quem são cometidos. Mas, quando consideramos a dignidade infinita de Jesus, cuja paixão e morte foram necessárias para fazer expiação pelo pecado, então veremos o pecado em toda a sua força de pecado (Rm 7.13), e veremos que a sua malignidade e a sua torpeza estão além de toda comparação e descrição.