Aula 2 de 7Narcisismo religioso

A devoção que quer ser vista

“Evitem praticar as suas obras de justiça diante dos outros para serem vistos por eles; porque, sendo assim, vocês já não terão nenhuma recompensa junto do Pai de vocês, que está nos céus.”Mateus 6.1 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Lc 18.9-14; Mt 6.1-18; Mt 5.13-16; Jo 12.42-43; Lc 17.7-10; Mt 25.31-40; Cl 3.23-24

Lucas 18.9-14

O fariseu e o publicano

Lucas explica a finalidade da parábola antes de contá-la, e é por aí que a leitura precisa começar: Jesus fala a pessoas que confiavam em si mesmas, por se considerarem justas, e desprezavam os outros.

9 Jesus também contou esta parábola para alguns que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros:

10 Dois homens foram ao templo para orar: um era fariseu e o outro era publicano.

11 O fariseu ficou em pé e orava de si para si mesmo, desta forma: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano.

12 Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo o que ganho.”

13 O publicano, estando em pé, longe, nem mesmo ousava levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: “Ó Deus, tem pena de mim, que sou pecador!”

14 Digo a vocês que este desceu justificado para a sua casa, e não aquele. Porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado.

Lucas 18.9-14 · NAA

A cena é simples e dura. Dois homens sobem ao templo para orar. O fariseu apresenta a Deus o seu jejum e os seus dízimos e monta uma comparação em que sai vencedor. Lucas diz que ele “orava de si para si mesmo”, uma expressão que resume o problema inteiro: a oração tinha Deus como destinatário formal e o próprio fariseu como assunto. O publicano, sem ousar levantar os olhos, bate no peito e pede misericórdia. E Jesus conclui que foi este, e não aquele, quem “desceu justificado para a sua casa” (Lc 18.14).

Repare no detalhe que costuma passar despercebido: o publicano nem entra na oração do fariseu como pessoa, e sim como medida. “Nem ainda como este publicano.” O outro homem virou um recurso para engrandecer a imagem de quem ora. Até a gratidão pode ser deformada quando o seu conteúdo é a satisfação de não ser “como os demais homens” (Lc 18.11).

O que a parábola condena

Justiça própria e desprezo andam juntos

Jejuar e contribuir não são condenados. O desvio está em usar essas práticas como fundamento de superioridade. Quando isso acontece, o desprezo pelos outros vem logo atrás.

O fariseu jejuava duas vezes por semana, muito além do que a lei exigia, e dava o dízimo de tudo. Nada disso é criticado por Jesus. O problema é o uso: as práticas viraram prova de que ele era melhor. A ligação entre justiça própria e desprezo merece atenção, porque uma coisa alimenta a outra. Quando considero a minha condição espiritual uma conquista que me distingue dos inferiores, fica difícil acolher o pecador, ouvir uma correção ou reconhecer uma virtude em quem discorda de mim.

O publicano, por outro lado, não é aprovado por desprezar a si mesmo como pessoa. Ele simplesmente abandona a pretensão de justificar-se e se lança sobre a misericórdia de Deus. É exatamente o que Paulo descreve quando diz que somos salvos “pela graça”, “mediante a fé”, “não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8-9). E o versículo seguinte impede o mal-entendido oposto: fomos “criados em Cristo Jesus para boas obras” (Ef 2.10). As obras continuam; o que muda é o lugar delas: deixam de ser fundamento e passam a ser fruto.

Há uma armadilha na leitura desta parábola: ela pode ser lida de modo farisaico. Basta agradecer a Deus por não sermos como o fariseu. Por isso a aplicação começa em nós, e não nos “fariseus” que conhecemos. Quem conheceu a graça precisa tratar as pessoas de maneira graciosa, inclusive as pessoas que tratam mal os outros.

É preciso também respeitar o contexto histórico. Jesus era judeu, e a sua crítica não autoriza caricaturar todos os fariseus nem o judaísmo. Nicodemos era fariseu (Jo 3.1), e Paulo também (Fp 3.5). O comportamento que Jesus denuncia pode reaparecer em qualquer comunidade cristã, e é isso que nos interessa aqui.

Numa reunião de oração, um membro agradece a Deus “por não ser como aqueles crentes que só aparecem no Natal”, e cita nomes. Outro, que faltou o ano inteiro, ouve a oração da porta. Na parábola, quem é quem? E o que a comunidade ensinou, sem querer, a quem estava na porta?

Mateus 6.1-18

A esmola, a oração e o jejum

No Sermão do Monte, Jesus examina as três práticas centrais da piedade judaica e faz a mesma pergunta a cada uma delas: para quem isso está sendo feito?

1 Evitem praticar as suas obras de justiça diante dos outros para serem vistos por eles; porque, sendo assim, vocês já não terão nenhuma recompensa junto do Pai de vocês, que está nos céus.

2 Quando, pois, você der esmola, não fique tocando trombeta nas sinagogas e nas ruas, como fazem os hipócritas, para serem elogiados pelos outros. Em verdade lhes digo que eles já receberam a sua recompensa.

3 Mas, ao dar esmola, que a sua mão esquerda ignore o que a mão direita está fazendo,

4 para que a sua esmola fique em secreto. E o seu Pai, que vê em secreto, lhe dará a recompensa.

5 E, quando orarem, não sejam como os hipócritas, que gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos pelos outros. Em verdade lhes digo que eles já receberam a sua recompensa.

6 Mas, ao orar, entre no seu quarto e, fechada a porta, ore ao seu Pai, que está em secreto. E o seu Pai, que vê em secreto, lhe dará a recompensa.

16 Quando vocês jejuarem, não fiquem com uma aparência triste, como os hipócritas; porque desfiguram o rosto a fim de parecer aos outros que estão jejuando. Em verdade lhes digo que eles já receberam a sua recompensa.

17 Mas você, quando jejuar, unja a cabeça e lave o rosto,

18 a fim de não parecer aos outros que você está jejuando, e sim ao seu Pai, em secreto. E o seu Pai, que vê em secreto, lhe dará a recompensa.

Mateus 6.1-6,16-18 · NAA

A estrutura das três instruções é idêntica, e a repetição é proposital. Em cada caso há a prática (esmola, oração, jejum), a versão dos “hipócritas”, que a executam para serem vistos, a sentença “já receberam a sua recompensa” e a alternativa: em secreto, diante do “Pai, que vê em secreto”. Entre a oração e o jejum, Jesus ensina o Pai-Nosso (Mt 6.7-15), que é a oração de quem sabe que o Pai “sabe o que vocês precisam, antes mesmo de lhe pedirem” (Mt 6.8).

A palavra “hipócrita” vinha do teatro: era o ator, o que representa um papel diante de uma plateia. Jesus não está dizendo que essas pessoas fingiam dar esmola; a esmola era real. O que estava fora do lugar era a plateia. Quando a finalidade é ser visto, a aprovação humana passa a ser a recompensa desejada, e Jesus adverte que ela será também a única recompensa recebida. A prática religiosa continua a mesma; o que mudou foi a sua direção interior.

A mesma prática

Dar esmola, orar, jejuar. Nada disso é abolido. Jesus diz “quando você der esmola”, “quando orarem”, “quando vocês jejuarem”, e não “se”.

Duas direções

Para ser visto pelos outros, com a recompensa já recebida no elogio. Ou para o Pai que vê em secreto, com a recompensa que só ele dá.

Note a expressão que fecha cada uma das três instruções: “o seu Pai, que vê em secreto, lhe dará a recompensa”. Jesus não propõe uma devoção sem recompensa; propõe uma devoção que não precisa da recompensa dos outros porque conhece a do Pai. A diferença entre o fariseu do templo e o discípulo do quarto fechado não está na intensidade da prática, e sim em quem eles imaginam olhando.

Mateus 5.16

Brilhe a luz de vocês diante dos outros

Um capítulo antes, no mesmo sermão, Jesus manda que as boas obras sejam vistas. Os dois textos precisam ser lidos juntos, senão um anula o outro.

14 Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada no alto de um monte.

15 Nem se acende uma lamparina para colocá-la debaixo de um cesto, mas num lugar adequado onde ilumina bem todos os que estão na casa.

16 Assim brilhe também a luz de vocês diante dos outros, para que vejam as boas obras que vocês fazem e glorifiquem o Pai de vocês, que está nos céus.

Mateus 5.14-16 · NAA

Em Mateus 5.16 as boas obras são vistas pelas pessoas e as levam a glorificar o Pai. Em Mateus 6.1 as obras de justiça não devem ser praticadas diante dos outros “para serem vistos por eles”. A diferença não está na visibilidade, e sim na finalidade. Num caso, a obra é vista e o olhar sobe para o Pai; no outro, a obra é feita para que o olhar pare em quem a fez. A visibilidade, por si só, não determina a infidelidade. A questão é a glória que se procura e o bem que de fato se realiza.

O Novo Testamento dá o critério em várias formas. João registra que algumas autoridades creram em Jesus, mas não o confessavam, “porque amaram mais a glória dos homens do que a glória de Deus” (Jo 12.43). Paulo pergunta: “Por acaso eu procuro, agora, o favor das pessoas ou o favor de Deus?” (Gl 1.10), e lembra aos tessalonicenses que “jamais andamos buscando elogios das pessoas” (1Ts 2.6). E resume o conteúdo da sua pregação de um jeito que serve de teste para qualquer púlpito e para qualquer perfil: “não pregamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo como Senhor e a nós mesmos como servos de vocês, por causa de Jesus” (2Co 4.5).

Mt 5.16

Visto para que o Pai seja glorificado

A obra aparece, mas o olhar de quem vê é conduzido para Deus. Quem fez a obra pode até ficar em segundo plano, e não se incomoda com isso.

Mt 6.1

Visto para ser admirado

A obra aparece para que o olhar pare em quem a fez. Se ninguém olhar, a obra perde a graça. A recompensa já foi recebida, e é pequena.

Aplicação

A presença cristã nas redes sociais

Um tema que não existia nos dias de Jesus, mas que cai exatamente sob a sua palavra. As redes sociais são a praça e a sinagoga do nosso tempo, o lugar onde se toca a trombeta.

O mesmo princípio ajuda a examinar a presença cristã nas redes sociais. Publicar uma mensagem, divulgar um trabalho ou prestar contas de uma campanha pode servir à missão; uma igreja que presta contas em público está fazendo algo bom, e a transparência protege a todos. A dificuldade aparece quando pessoas necessitadas viram cenário de autopromoção, quando a exposição vale mais do que o cuidado ou quando o serviço perde o sentido se ninguém souber quem o realizou.

Uma equipe distribui cestas básicas numa comunidade. Antes de entregar, pede que cada família pose para a foto segurando a cesta, com o logotipo da igreja virado para a câmera. Uma senhora pergunta se pode receber a cesta sem a foto. O coordenador hesita. O que está em jogo nessa hesitação? Como a mesma prestação de contas poderia ser feita sem transformar a senhora em vitrine?

Não conhecemos perfeitamente as motivações alheias, e é bom não fingir que conhecemos. Deus “vê o coração” (1Sm 16.7); nós vemos o exterior. Podemos, entretanto, observar padrões e, sobretudo, examinar as nossas próprias escolhas. Três perguntas ajudam:

1

Consigo ajudar sem registrar?

Se a ajuda só acontece quando pode ser fotografada, a foto passou a ser o objetivo. Jesus recomendou que a mão esquerda ignorasse o que a direita faz (Mt 6.3).

2

Aceito que outra pessoa conte a história?

Se a história só pode ser contada por mim e com o meu nome, a história virou monumento. Paulo deixou que outros dissessem quem ele era: “Deixe que outros o louvem, e não a sua própria boca” (Pv 27.2).

3

Consigo celebrar um resultado sem destacar a minha participação?

Os justos de Mateus 25 nem se lembravam do bem que tinham feito: “Quando foi que vimos o senhor com fome e lhe demos de comer?” (Mt 25.37). Eles não guardaram registro; o Rei guardou.

Jesus ainda deu aos discípulos uma frase para repetir depois de qualquer serviço: “Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer” (Lc 17.10). Não é falsa modéstia; é a descrição exata de quem trabalha para o Senhor e não para as pessoas (Cl 3.23-24). E Paulo desmonta o orgulho pela raiz com uma pergunta: “o que é que você tem que não tenha recebido? E, se o recebeu, por que se gloria, como se não o tivesse recebido?” (1Co 4.7).

Esta seção não é uma proibição de publicar. Uma igreja pode e deve comunicar o que faz, convidar, prestar contas, dar testemunho. O exame é de direção, não de quantidade: para onde vai o olhar de quem vê? E o critério vale primeiro para quem publica, e só depois, com muito cuidado, para quem observa a publicação dos outros.

Para a semana

Três práticas formativas

O serviço em segredo, a oração no quarto fechado e a generosidade discreta não são apenas regras. São práticas formativas: nos acostumam a fazer o bem diante de Deus, inclusive quando isso não acrescenta nada ao nosso prestígio.

1

Uma esmola que ninguém saiba

Ajude alguém esta semana de um modo que não possa ser descoberto. Depois observe o que sente quando ninguém agradece. O que você sentir é informação sobre o seu coração.

2

Uma oração de porta fechada

Reserve um horário de oração que ninguém conheça, sem contar a ninguém que orou. A oração pública continua; esta é a que Jesus chamou de secreta.

3

Um jejum sem aparência

Se jejuar, unja a cabeça e lave o rosto, no sentido de hoje: mantenha o rosto normal, o humor normal e a agenda normal. Só o Pai precisa saber.

A vida do publicano depois do templo não aparece na parábola, mas podemos imaginá-la: um homem que desceu justificado não sobe de novo para se comparar com ninguém. É a diferença que a graça faz. Davi entendeu isso antes do evangelho: “Sacrifício agradável a Deus é o espírito quebrantado; coração quebrantado e contrito, não o desprezarás, ó Deus” (Sl 51.17).

Para usar em grupo. Leiam a parábola em voz alta com duas pessoas fazendo as orações do fariseu e do publicano. Depois perguntem: quem, na comunidade, ocupa hoje o lugar do publicano, o de quem fica “longe”? Em seguida leiam Mateus 6.1-6 e proponham a cada um escolher uma das três práticas da semana, sem dizer qual. No encontro seguinte, ninguém conta o que fez; conversam apenas sobre o que sentiram.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Seis questões, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Uma pergunta para dentro e outra para a conversa com quem pensa diferente. Cada uma traz uma resposta sugerida.

Consigo ajudar sem registrar? Aceito que outra pessoa conte a história? Consigo celebrar um resultado sem destacar a minha participação?Ver resposta sugerida

Responda cada pergunta com um caso concreto do último mês, não com uma intenção. A primeira revela se a foto virou o objetivo. A segunda revela se a história é sobre a obra ou sobre o autor. A terceira revela se o resultado só tem valor quando o meu nome aparece nele.

Depois faça o exercício inverso: lembre uma ocasião em que alguém fez algo bom e você não foi lembrado, embora tivesse participado. O que sentiu na hora diz mais sobre o seu coração do que qualquer princípio que você defenda.

Por fim, leve a resposta ao Pai que vê em secreto. Ele já viu; o exercício não é para informá-lo, e sim para que você se veja com os olhos dele.

Um irmão diz que a igreja precisa mostrar tudo o que faz nas redes, porque “quem não é visto não é lembrado” e isso atrai pessoas. Como responder com mansidão?Ver resposta sugerida

Comece concordando com o que é verdadeiro: a igreja deve comunicar, convidar, prestar contas e dar testemunho, e Jesus disse que a cidade no alto do monte não pode ser escondida (Mt 5.14-16). Publicar não é pecado.

Depois, mostre o outro texto do mesmo sermão (Mt 6.1-4) e pergunte, sem acusar, qual é a finalidade de cada publicação: levar o olhar das pessoas para Deus ou para a igreja e para os seus líderes? Proponha um critério prático, e não uma proibição: nenhuma pessoa assistida vira imagem sem consentimento livre; nenhuma ação deixa de ser feita porque não pode ser fotografada; e a prestação de contas mostra números e resultados, não rostos em situação de necessidade.

Encerre com a frase de Jesus, que resolve a discussão do “quem não é visto não é lembrado”: o Pai vê em secreto. A igreja pode ser vista; o que ela não pode é depender de ser vista para fazer o bem.

Como uma igreja pode prestar contas de uma campanha de ajuda sem transformar as pessoas assistidas em vitrine?Ver resposta sugerida

Prestar contas é dever, e Paulo cuidou disso com a coleta para Jerusalém, enviando irmãos de confiança para que ninguém o acusasse (2Co 8.18-21). O que se presta contas, porém, são os recursos e os resultados: quanto foi arrecadado, como foi aplicado, quantas famílias foram alcançadas, quem supervisionou. Nada disso exige o rosto de ninguém.

Algumas práticas simples ajudam: fotografar a equipe e os mantimentos, não as famílias; pedir consentimento livre, sem condicionar a ajuda à imagem; contar histórias sem identificar as pessoas, ou deixar que elas mesmas contem se quiserem; e manter uma prestação de contas escrita, acessível a todos os membros, que não dependa de publicação nenhuma.

O teste final é simples: a pessoa ajudada sairia da cena com a dignidade intacta? Se a resposta for não, a campanha ajudou a igreja mais do que ajudou a pessoa.

A devoção que quer ser vista · Aula 2 de 7 do curso Narcisismo religioso. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada.