John Fletcher · O Retrato de São Paulo · Ministros mornos e falsos apóstolos (conclusão)
A resposta às demais objeções contra o Retrato de São Paulo, até a última.
Refutação de uma quarta objeção
A objeção aqui proposta tem sido muito mais prejudicial à causa da piedade do que qualquer das anteriores. “Vocês supõem”, dizem os cristãos apenas de nome, “que todo pastor é chamado a trabalhar hoje pela salvação das almas com todo o zelo que animava São Paulo nos tempos primitivos. Mas as circunstâncias deles diferem de modo muito importante. Os apóstolos foram encarregados de pregar o evangelho a judeus obstinados ou a pagãos idólatras, ao passo que os nossos pastores são chamados a exercer o ministério entre pessoas que receberam a verdade desde a mais tenra infância. Não é, então, contrário ao bom senso julgar necessários, para a instrução de cristãos, os mesmos esforços laboriosos que São Paulo foi outrora obrigado a empregar para a conversão de idólatras?”
Como essa objeção enganosa tem sido mais vezes repetida do que devidamente refutada, torna-se necessário, neste lugar, expor toda a sua fraqueza e demonstrar que a diferença entre os pecadores batizados e aqueles com quem São Paulo lidava de modo nenhum favorece os pastores indolentes.
1. Há enxames de incrédulos e idólatras em todo país cristão da terra. Não precisamos ir além das igrejas protestantes para descobrir multidões de cristãos ímpios que não só desprezam o evangelho em segredo, mas até ousam fazer dele objeto de zombaria pública: homens que “levantaram ídolos dentro de seu coração” (Ez 14.3) e que correspondem perfeitamente à descrição que o apóstolo faz dos professos degenerados (2Tm 3.2-5).
2. O próprio São Paulo responde suficientemente a essa mesma objeção, nestes termos: “Em Cristo Jesus, nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura. E, a todos os que andarem em conformidade com esta regra, paz seja sobre eles” (Gl 6.15, 16). Se há alguns que professam ter recebido a fé cristã e não seguem essa regra evangélica, o apóstolo assim se dirige a eles, com santo ardor: “Examinem-se para ver se realmente estão na fé; provem a si mesmos. Ou não reconhecem que Jesus Cristo está em vocês? A não ser que já tenham sido reprovados” (2Co 13.5). “Não se enganem: nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o Reino de Deus” (1Co 6.9, 10).
3. Observe-se como a mesma objeção é combatida de novo em outra das epístolas de São Paulo: “Eis que você se chama cristão, gloria-se em Deus e conhece a sua vontade, sendo instruído na lei duplicada, a de Moisés e a de Cristo. Você, que se gloria nesta lei, se desonra a Deus pela transgressão da lei, então o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por sua causa. Por isso, você é indesculpável, ó homem, quem quer que seja, quando julga” os pagãos como pecadores mais sem esperança do que você: “pois, naquilo que julga o outro, você está condenando a si mesmo, porque pratica as mesmas coisas que condena. E você, ó homem, pensa” que os seus privilégios, não aproveitados, o ajudarão a “se livrar do juízo de Deus? Ou será que você despreza a riqueza da sua bondade, ignorando que a bondade de Deus é que leva você ao arrependimento?” Cuidado para que, “por ser teimoso e ter um coração impenitente”, você não acumule “contra si mesmo ira para o dia da ira” (Rm 2.1-24). [N. do T.: Fletcher adapta ao cristão Rm 2.1-5,17-24 (Paulo fala ao judeu); na edição inglesa, os acréscimos dele vêm em itálico.]
Se toda ameaça das Escrituras é pronunciada contra os que não têm a santidade que o evangelho exige, mal nos ficaria lisonjear a nós mesmos ou aos outros como verdadeiros seguidores de Cristo apenas por causa da profissão exterior de cristianismo que geralmente se vê entre nós. Não é inegavelmente evidente que tal profissão, se não for acompanhada de rigorosa santidade, nos sujeitará a mais e mais pesados açoites do que se nunca tivéssemos conhecido a vontade do nosso Pai celestial nem reconhecido a Cristo como nosso legítimo Senhor (Lc 12.47, 48)? Não manifestou certa vez o nosso bondoso Mestre, abertamente, maior aversão pelo cristão morno do que pelo pecador notório (Ap 3.16)? E não declarou ele claramente que miríades de pagãos justos terão permissão de tomar lugar no Reino de Deus, ao passo que multidões do seu povo professo serão lançadas nas trevas exteriores (Lc 13.28, 29)?
5. Depois que as crianças foram batizadas e os jovens admitidos à santa comunhão, o verdadeiro pastor, em vez de dar como certo que se tornaram cristãos sinceros por participarem dessas ordenanças, examina-os com diligência de tempos em tempos e, pela observação atenta da sua conduta, forma um juízo sobre a fé que têm. Se, depois do exame mais rigoroso, descobre entre eles alguns que têm a forma, sem experimentar o poder da piedade, renova o seu trabalho com ardor crescente. A parte mais penosa do seu dever ainda está diante dele, quando procura converter esses pecadores que são batizados e esses incrédulos que são comungantes; pois, antes de poder levá-los àquela fé que atua pelo amor, como São Paulo costumava levar os pagãos sem preconceitos, ele precisa primeiro desmascará-los com santa severidade, como o bendito Jesus costumava desmascarar os fariseus do seu tempo.
6. Se os cristãos não regenerados são pagãos pelas suas disposições mundanas; se são fariseus pela sua presunção, e confirmados no seu farisaísmo pelas opiniões enganosas que alimentam sobre a sua prerrogativa sob o evangelho, segue-se que todo pastor moderno é chamado a cumprir o duplo dever acima descrito. E, se é assim, quão insensato é imaginar que os ministros do nosso tempo têm diante de si uma tarefa muito menos difícil do que os que outrora foram encarregados de publicar o evangelho!
7. Todos os pastores têm uma tarefa importante que lhes foi designada e, até que ela seja cumprida, são obrigados a trabalhar sem desfalecer. Observe-se em que consiste essa tarefa: “Aquele que desceu do céu”, diz São Paulo, “concedeu uns para apóstolos e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos [tanto pastores como rebanhos] cheguemos à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.10-13). Quando todo cristão tiver chegado a esse estado elevado, os ministros do evangelho poderão afirmar que a sua obra está completa e já não precisarão imitar a diligência de São Paulo. Mas, enquanto estivermos cercados de batizados que juram em vão, que profanam o dia do Senhor, caluniadores, jogadores, bêbados, glutões, devassos, blasfemos e hipócritas, que se esforçam de todos os modos para tornar o cristianismo desprezível diante dos incrédulos e execrável aos olhos dos filósofos, não se pode razoavelmente imaginar que a algum trabalhador seja permitido ficar ocioso na vinha espiritual. E, no entanto, neste mesmo tempo de degeneração universal, não faltam entre nós muitos que exclamam sem refletir: “São Paulo, sem dúvida, tinha razão de trabalhar com assiduidade incansável pela conversão dos pagãos idólatras; mas nós já estamos convertidos e não vemos necessidade, nos nossos mestres modernos, daquele zelo ardente e daqueles esforços vigorosos que foram louváveis naquele apóstolo.”
8. Se objetarem que os cristãos são aqui representados de modo mais deplorável do que a imparcialidade ou a observação podem justificar, apelamos para as proclamações feitas com o fim de reprimir um único pecado, o de profanar o nome de Deus com juramentos ímpios e imprecações horríveis. Essas proclamações devem, sem dúvida, ser consideradas testemunhos públicos de uma culpa pública. Nelas, todos os governos cristãos, sejam católicos ou protestantes, igualmente se queixam de que todas as leis civis com que procuraram fazer cumprir a lei de Deus se mostraram insuficientes para impedir o transbordamento de um crime tão insípido quanto vergonhoso. Em vão se decretaram novas penas e castigos; em vão são eles constantemente anunciados do púlpito dos pregadores e do trono dos reis; esse vício desprezível continua reinando tranquilo entre nós, insultando as leis violadas da terra e do céu. Ora, se até agora tem sido impossível impedir um pecado que não tem a seu favor nem o prazer nem o lucro, que podemos esperar de todos aqueles mil vícios que seduzem com a promessa de ambos? Não se veem a dissimulação e o perjúrio, a injustiça e a avareza, a lascívia e o luxo entre os membros de todas as igrejas? A rapina, a vingança e o homicídio não mancham todas as partes da cristandade, apesar das prisões, do exílio e da morte? É verdade notória demais para ser contestada que todo crime com que a natureza humana já se manchou continua a ser praticado sem cessar nas partes mais esclarecidas do mundo.
Poderíamos mencionar aqui, se fosse necessário, o desprezo em que se tem o casamento, a instabilidade desse santo estado e a facilidade com que se rompe um laço tão sagrado. Poderíamos continuar lamentando a frequência do suicídio nas comunidades cristãs. Mas falar disso, e de muitos outros pecados que crescem ao nosso redor em grau alarmante, seria apenas repetir as tristes queixas que todos os dias saem dos lábios dos justos. As observações acima talvez pareçam pouco caridosas a alguns; mas, se não têm fundamento, quantas expressões sem sentido encontramos na nossa liturgia! Que hipocrisia nas nossas confissões públicas! Que falsa humildade nas nossas orações!
De todas essas observações fica evidente que os costumes mais pagãos são comuns entre os chamados cristãos e que os vícios mais escandalosos prevalecem até naqueles países onde o cristianismo reformado ergueu a sua bandeira. Que o investigador imparcial diga, então, se não é particularmente necessário pregar o arrependimento entre aqueles cuja rebelião contra Deus vem acompanhada de perfídia e hipocrisia.
Continuação do mesmo assunto
1. Ainda que fosse certo que os cristãos professos em geral andam de acordo com a sua santa vocação, seria louvável que os pastores mostrassem menos interesse pela salvação dos discípulos aparentes de Cristo do que São Paulo mostrou outrora pela conversão de pagãos perseguidores? Os cristãos são nossos irmãos. A igreja, nossa mãe comum, nutriu-nos com o mesmo leite espiritual e chama-nos a participar da mesma herança celestial. Os cristãos já não são estrangeiros; e até os que são maus cidadãos e servos infiéis são, de certo modo, concidadãos nossos e “membros da família de Deus” (Ef 2.19). Portanto, assim como formamos uma única família, sempre que estivermos dispostos a negligenciar alguma parte dela, podemos aplicar a nós mesmos as seguintes palavras do apóstolo: “Se alguém não tem cuidado dos seus e, especialmente, dos da própria casa, esse negou a fé e é pior do que o descrente” (1Tm 5.8). Ponham-se, pois, os ministros nas circunstâncias mais felizes que se possam imaginar, e ainda assim lhes convirá clamar, com a piedosa benevolência de São Paulo: “Enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé” (Gl 6.10).
2. Podemos aqui desenvolver a imagem que o próprio Cristo nos deu ao comparar a sua igreja a uma vinha. Se é necessário enxertar os troncos naturalmente bravos, será menos necessário cultivar os que já foram enxertados? Vemos os lavradores dedicarem o maior cuidado às videiras que produzem o fruto mais excelente. Atentem os ministros para essa regra geral; e, como só podem ser fecundos na vinha sagrada os que recebem com fé a palavra de Deus, procurem eles conduzir os crentes ao mais alto grau de maturidade. Assim o lavrador celestial é representado limpando todo ramo que dá fruto, “para que produza mais fruto ainda” (Jo 15.2).
3. A palavra de Deus deve ser oferecida aos pecadores como remédio adequado à doença da sua alma; mas aos fiéis deve ser ministrada como alimento nutritivo. Por isso, como a ordem da graça se parece com a da natureza, é necessário, em sentido espiritual, ministrar alimento aos sãos em quantidade muito maior do que remédio aos doentes. Assim, os crentes, que têm constantemente fome e sede de maiores graus de graça, devem receber com mais frequência a palavra viva, para que o seu amor aumente “mais e mais em conhecimento” até ficarem “cheios do fruto de justiça” (Fp 1.9-11).
4. Encontramos as seguintes expressões na Epístola de São Paulo aos Romanos: “E eu mesmo, meus irmãos, estou certo de que vocês estão cheios de bondade, têm todo o conhecimento e são aptos para admoestar uns aos outros. Entretanto, eu lhes escrevi, em parte mais ousadamente, como para fazer com que vocês se lembrem disso outra vez.” “Porque desejo muito vê-los, a fim de repartir com vocês algum dom espiritual, para que vocês sejam fortalecidos” (Rm 15.14, 15; 1.11). Ora, se São Paulo podia exprimir um desejo tão ardente de instruir cristãos que lhe eram completamente desconhecidos e que já eram tão divinamente iluminados, longe de sermos imitadores desse grande apóstolo, não perdemos todo direito de pretender ao amor quando deixamos perecer, por lhes faltar “o conhecimento” (Os 4.6), cristãos ignorantes que não só são da nossa vizinhança, mas provavelmente da nossa própria paróquia?
5. Embora São Paulo fosse assistido por dons miraculosos, com que empenho se esforçava para cumprir o duplo dever de crente em Cristo e de ministro do seu evangelho! E haveremos nós de recusar trabalhar com igual dedicação, nós cujos dons são tão pobres e cujas graças são tão pequenas? Designados, como os primeiros pregadores do cristianismo, para ser “pescadores de gente”, não é perfeitamente razoável que mostremos, com as nossas frágeis linhas, tanta atividade quanto São Paulo costumava mostrar no uso da sua grande rede? Se esse apóstolo, cheio de santo zelo, conseguia converter mais pecadores com um único discurso do que muitos pastores convertem com mil sermões, não deveríamos nós, por uma assiduidade fora do comum, suprir quanto possível a falta daquela energia incompreensível que acompanhava os seus trabalhos ministeriais?
6. Os ministros são comparados a trabalhadores que saem para cultivar as terras do seu senhor. Ora, São Paulo, como o primeiro desses trabalhadores, trabalhava noite e dia com um instrumento extraordinário, que abria sulcos de profundidade incomum e revolvia de repente províncias inteiras. Cumpriu plenamente o seu ministério e, pelos esforços mais assombrosos, espalhou a semente do evangelho “desde Jerusalém e arredores até o Ilírico” (Rm 15.19). Que diferença imensa entre os primeiros e os últimos pastores da igreja cristã! Muitos de nós se contentam em ficar inteiramente ociosos até que venha “a noite, quando ninguém pode trabalhar” (Jo 9.4), enquanto outros, dispostos a alguma pequena ocupação, trabalham como obreiros que têm de que se envergonhar profundamente dos seus trabalhos insignificantes (2Tm 2.15). Na melhor das hipóteses, seguramos um instrumento lento, um instrumento que, com imenso esforço, mal arranha a terra que somos chamados a cultivar. E haveremos nós, em situação tão infeliz, de deixar enferrujar os nossos arados durante seis dias seguidos, para depois usá-los com toda a calma durante uma hora no sétimo? Certamente tal procedimento é tão contrário ao bom senso quanto ao exemplo que São Paulo nos deixou.
7. Tão espantosa é a inconstância, a fraqueza e a depravação do coração humano que, apesar de toda a perseverante diligência desse apóstolo na vinha do seu Senhor, ela ainda produzia sarças e espinhos, para angústia da sua alma. “Eis que, pela terceira vez”, diz ele aos coríntios, “estou pronto para visitá-los” para a sua edificação. “Pois tenho receio de que, indo até aí, eu não os encontre na forma em que gostaria de encontrá-los, e que também vocês me achem diferente do que esperavam, e que haja entre vocês briga, inveja, ira, egoísmo, difamação, intriga, orgulho e tumulto. Tenho receio de que, indo outra vez, o meu Deus me humilhe diante de vocês, e eu venha a chorar por muitos que, no passado, pecaram e não se arrependeram” (2Co 12.14-21).
Encerraremos este capítulo propondo as perguntas seguintes, que podem razoavelmente fundar-se na passagem anterior. Se os talentos naturais e sobrenaturais de São Paulo, se o seu zelo, a sua diligência e a sua autoridade apostólica foram insuficientes para levar o seu rebanho a portar-se como seguidor de Cristo; se a falta de piedade dos seus fiéis lhe arrancava lágrimas de lamento e o obrigava a renovar os seus penosos esforços com redobrada solicitude, pode-se dizer que possuem o espírito do evangelho os pastores que veem com indiferença as desordens daquela igreja decadente que Cristo comprou com o seu próprio sangue? E, se os trabalhos extraordinários de São Paulo não bastaram para cumprir plenamente o propósito do santo ministério, não é verdadeira presunção imaginar que os nossos serviços insignificantes são suficientemente completos?
Nova resposta à mesma objeção
Quando atacamos um preconceito obstinadamente defendido, muitas vezes é tão preciso multiplicar os argumentos quanto, num cerco, é necessário multiplicar os assaltos. Seguindo esse método, procuraremos, sobre novas bases, firmar a doutrina defendida nos dois últimos capítulos.
1. Depois de exortar Timóteo a trabalhar sem cessar, São Paulo dá a seguinte razão para essa ordem: “Você precisa saber disto”, diz ele: “nos últimos dias” da igreja cristã os homens que professam a fé “serão egoístas”, “inimigos do bem”, “mais amigos dos prazeres do que amigos de Deus, tendo forma de piedade, mas negando o poder dela.” Ora, se Timóteo foi exortado a usar toda diligência para se opor a males que então apenas se aproximavam, é razoável que sejamos negligentes nós, que temos a infelicidade de ver esses últimos tempos, em que a decadência da piedade predita pelo apóstolo se tornou universal? Ao contrário, não é este o momento em que devemos resistir vigorosamente ao transbordamento da impiedade e fortalecer os que ainda não foram arrastados pela torrente impetuosa?
2. Quando o grande apóstolo, cheio de benevolência, levava a palavra de Deus aos pecadores de todas as nações, armava contra si a autoridade dos magistrados e dos sacerdotes, tanto judeus como pagãos. O seu amor universal pelos homens o expunha às perseguições mais cruéis. Milhares e dezenas de milhares se puseram em ordem de batalha contra ele, e os habitantes de todos os reinos pareciam decididos a resistir-lhe ou a destruí-lo no seu avanço espiritual. Ele via esses perigos que o cercavam, mas os via sem mostrar sinal algum de medo; e, em vez de interromper os seus penosos trabalhos, seguia alegremente adiante para enfrentar todo mal que o ameaçava. Nós, ao contrário, somos designados para edificar os filhos do Reino na sua santíssima fé. E haveremos de trabalhar menos porque podemos trabalhar com menos perigo? Haveremos de negligenciar os deveres da nossa função sagrada porque os nossos superiores na igreja e no Estado nos permitem converter pecadores, nos ordenam pregar o evangelho, nos erguem templos para a celebração pública do culto divino e nos concedem salários para que o nosso ministério nunca seja interrompido por preocupações seculares? Os serviços ministeriais que São Paulo prestava com zelo incansável, quando a sua recompensa eram prisões e açoites, precisaremos nós ser levados a cumpri-los por meio de rendimentos e honrarias? E, afinal, limitaremos a nossa obediência forçada exatamente ao ponto que nos livre de deposições públicas e da desonra?
3. Qual foi o erro de Demas, homem tão notório pela sua queda entre os evangelistas quanto Judas entre os apóstolos? Demas, “tendo amado o presente século” (2Tm 4.10) e deixando de imitar a diligência de São Paulo, abandonou-o ingratamente a trabalhar quase sem companheiro. E presumirão os evangelistas infiéis que podem imitar sem medo a apostasia de Demas e renunciar impunemente ao exemplo de São Paulo? Se é essa a sua infeliz persuasão, submetemos à sua séria consideração as seguintes perguntas: as almas dos homens valem menos, o pecado de qualquer tipo é menos detestável ou a lei de Deus é menos severa nos dias de hoje do que nas primeiras épocas da igreja cristã? Têm os pastores o direito de ser negligentes enquanto a noite da incredulidade se adensa ao seu redor? São os ataques dos filósofos anticristãos menos frequentes e audaciosos hoje do que antigamente? Ou, por fim, já não se espera no mundo a vinda do nosso Juiz todo-poderoso?
4. Se os apóstolos e os pastores primitivos removeram do nosso caminho muitos obstáculos ameaçadores; se nos obtiveram as vantagens que hoje temos à custa dos esforços mais espantosos e do preço imenso do seu sangue, certamente não se pode imaginar que agiram com tanta firmeza e sofreram com tanta constância para que nos tornássemos leitores indolentes da sua história sem igual. Não foi antes para que, animados por um justo senso do seu grande exemplo, aproveitássemos ao máximo os nossos privilégios inestimáveis?
5. Os montes agora estão rebaixados, os vales aterrados, os caminhos tortos endireitados, e só nos resta levar aos pecadores aquela salvação para a qual se fizeram preparativos tão maravilhosos. E seremos negligentes em levar os recados do amor eterno? E seremos lentos em levar as mais felizes notícias às mais infelizes das criaturas? Nenhuma desculpa se pode dar, então, para essa frieza, a não ser aquela que o autor de Emílio pôs na boca de um personagem fictício: “Que me importa”, diz o vigário saboiano, “o que acontece aos maus? Pouco me preocupo com o destino futuro deles.” Desculpa para a falta de zelo que jamais se pode alegar sem lançar a maior desonra sobre a humanidade.
6. Pastores de um rebanho sempre inclinado a se desviar! Escolham a quem vão seguir, os filósofos ou os apóstolos, o zelo infatigável de São Paulo ou a cruel indiferença do vigário cético. Mas, se tomarem este último como modelo, pedimos solenemente que deixem a profissão, já que renunciam de modo tão vergonhoso aos deveres do santo ministério. “Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho e viva” (Ez 33.11). Para vocês, porém, é coisa de pouquíssima importância que o ímpio seja finalmente salvo ou destruído. E, no entanto, despreocupados como estão do bem ou do mal dele, ousam apresentar-se como ministros da igreja e como pastores daquele pequeno rebanho pelo qual o bom Pastor aceitou dar a sua vida. Figurar entre os guardas vigilantes do aprisco é uma honra de que vocês são totalmente indignos; mas podem, com propriedade, ser contados entre aqueles mercenários ingratos que “não se importam com as ovelhas” (Jo 10.13).
8. É verdade que vocês não estão sem companheiros, tanto antigos como modernos. Têm Hofni e Fineias, Geazi e Balaão para lhes dar ânimo; têm os profetas de Jezabel para advogar a seu favor e todo eclesiástico mundano dos dias de hoje para aprovar a sua escolha; mas os homens apostólicos lhes resistirão com firmeza, como Eliseu e o seu senhor, na causa da verdade abandonada. Servos preguiçosos do mais diligente dos senhores! Guardas cruéis do mais terno dos pastores! Digam: nunca ouviram esse Senhor clamar, com voz de afeto: “Apascente as minhas ovelhas” (Jo 21.17)? Não o viram conduzir o seu rebanho a uma pastagem evangélica, no templo, nas sinagogas, nas aldeias, nas casas, nos desertos, à beira-mar e no alto dos montes? Ele procurava com solicitude os infelizes. A verdade era o guia do seu caminho, o amor acompanhava os seus passos, e a sua trilha era marcada de bênçãos. Os seus esforços secretos eram mais penosos que os seus trabalhos públicos: ensinava em público durante o dia, mas agonizava em oração, em particular, durante a noite. Os seus primeiros discípulos se empenharam em andar nos passos do seu adorável Mestre. Exerceram o ministério à vista dos tormentos e da morte. E vocês ousarão negligenciá-lo agora que o clamor da perseguição se calou? Desprezarão igualmente as promessas e as ameaças do evangelho? Apressarão o tempo do anticristo com uma conduta anticristã? E, quando vier o Filho do Homem, ele os encontrará pisando o evangelho da sua graça? Ou os surpreenderá distribuindo cartas de baralho ao redor da mesa dos seus amigos, em vez de convidando com insistência esses amigos à mesa do seu Senhor?
Oh, se pudéssemos convencê-los a ficar no posto que lhes cabe e a agir de acordo com o seu caráter profissional! Enquanto sonham com segurança, estão cercados dos perigos mais alarmantes. “Portanto, fiquem firmes, cingindo-se com a verdade e vestindo a couraça da justiça. Tenham os pés calçados com a preparação do evangelho da paz, segurando sempre o escudo da fé, com o qual poderão apagar todos os dardos inflamados do Maligno. Usem também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus. Orem em todo tempo, com todo tipo de oração e súplica, e para isto vigiem com toda perseverança e súplica por todos os santos” [e pelos ministros do evangelho em particular], para que, com ousadia, abram a boca para “tornar conhecido o mistério do evangelho” e espalhar “as insondáveis riquezas de Cristo” (Ef 6.14-19; 3.8). Portando-se assim como homens nesta guerra sagrada, depois de resistirem com firmeza, vencerão por fim toda a força do inimigo, “na palavra da verdade, no poder de Deus; pelas armas da justiça, tanto para atacar como para defender” (2Co 6.7), até que, tendo atravessado o dia mau e permanecendo fiéis “até a morte”, sejam recompensados com “a coroa” da vida eterna (Ap 2.10).
Nova refutação da mesma objeção
(1.) Quando vemos várias pessoas em circunstâncias perigosas, o amor nos constrange a fazer os primeiros esforços em favor das que parecem estar no perigo mais iminente. Tais são os cristãos não santificados. Os pagãos pecadores sem dúvida estão em perigo; os judeus obstinados, em perigo ainda maior; mas os cristãos impenitentes estão numa situação muito mais lamentável que a de uns e outros, pois pecam contra uma luz e um conhecimento mais claros, igualmente desatentos às promessas mais graciosas, de um lado, e às ameaças mais terríveis, de outro. Pecar com o Novo Testamento na mão e o som do evangelho nos ouvidos; pecar com o selo do batismo na fronte e o nome de Cristo nos lábios; pecar e receber a santa comunhão; ratificar e quebrar os compromissos mais solenes: que é isso senão trabalhar com afinco pela própria condenação e precipitar-se naqueles abismos de miséria que pagãos e judeus não conseguem sondar? Com que ardor, pois, todo crente deveria tentar resgatar os irmãos que caem; e, sobretudo, com que empenho deveriam deter aqueles guias de cegos que arrastam os seus seguidores à beira da perdição! Como este é um dos argumentos em que principalmente se apoia a verdade aqui defendida, nós o consideraremos sob os vários pontos de vista em que o evangelho o apresenta.
(2.) A comissão de São Paulo dirigia-se particularmente aos gentios; contudo, antes de visitar as suas nações entenebrecidas, ele julgou ser seu dever fazer ao povo judeu uma oferta plena e livre do evangelho eterno. Para esse procedimento do apóstolo podem-se apontar as razões seguintes. Primeira: as promessas pertenciam de modo especial aos judeus (Rm 9.4). Segunda: os filhos de Abraão segundo a carne tinham diante de si, em caso de impenitência final, uma perspectiva mais ameaçadora que qualquer outro povo da terra. “Tribulação e angústia virão sobre todo aquele que faz o mal, ao judeu primeiro e também ao grego” (Rm 2.9).
(3.) As mesmas razões, embora principalmente a segunda, ainda se podem apresentar para mostrar por que os ministros de Cristo devem trabalhar principalmente entre os cristãos. Pois, se os pecadores da circuncisão serão castigados com mais severidade que os pagãos ignorantes, o apóstolo declara que os pecadores batizados em nome de Cristo serão tratados com rigor ainda maior que os judeus impenitentes. “Quem tiver rejeitado a lei de Moisés”, diz ele, “morre sem misericórdia, pelo depoimento de duas ou três testemunhas. Imaginem quanto mais severo deve ser o castigo daquele que pisou o Filho de Deus e insultou o Espírito da graça!” (Hb 10.28, 29). Se essa consideração produzisse o devido efeito, nos inflamaria do zelo mais invencível pela salvação dos cristãos negligentes.
(4.) Num dos últimos discursos que nosso Senhor dirigiu às cidades da Galileia, vemo-lo ler-lhes esta terrível sentença de condenação: “Ai de você, Corazim! Ai de você, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que foram feitos em vocês, há muito que elas teriam se arrependido com pano de saco e cinza. Mas eu digo a vocês que, no Dia do Juízo, haverá menos rigor para Tiro e Sidom do que para vocês. E você, Cafarnaum, que [pelos seus privilégios religiosos] foi elevada até o céu, [por não tê-los aproveitado] será jogada no inferno.” Sim, “no Dia do Juízo, haverá menos rigor para a terra de Sodoma [que já foi consumida pelo fogo do céu] do que para você” (Mt 11.21-24). [N. do T.: Fletcher segue a King James, que afirma a exaltação de Cafarnaum; no v. 23 a NAA traz “pensa que será elevada até o céu? Será jogada no inferno!”]
(5.) Para tirar as justas consequências dessa ameaça comovente, devemos lembrar que, quando ela foi pronunciada, os habitantes das cidades acima mencionadas haviam sido favorecidos apenas por um intervalo muito curto com o ministério de Cristo e dos seus mensageiros. E, se a morte e a ressurreição de Jesus foram depois anunciadas entre eles, é mais provável que esses fatos importantes lhes tenham sido anunciados apenas de modo esporádico e passageiro. Mesmo assim, os pecadores de Cafarnaum foram julgados dignos de castigo maior que os pecadores de Sodoma. Daí concluímos que, se os pecadores de Londres, Paris, Roma e Genebra se endureceram contra as verdades do evangelho por muito mais tempo do que aos cidadãos de Cafarnaum foi permitido fazê-lo, há toda razão para temer que a sentença deles será não só mais terrível que a de Sodoma, mas muito menos tolerável que a que foi pronunciada contra os habitantes da Galileia.
(6.) Enquanto consideramos as várias proporções em que o castigo futuro será aplicado aos ímpios de diferentes classes, podemos voltar-nos para aquelas notáveis expressões de São Pedro e de São Paulo: “Se, depois de terem escapado das contaminações do mundo mediante o conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, se deixam enredar de novo e são vencidos, o seu último estado se tornou pior do que o primeiro. Pois teria sido melhor que eles nunca tivessem conhecido o caminho da justiça do que, após conhecê-lo, voltar atrás e se afastar do santo mandamento que lhes havia sido dado” (2Pe 2.20, 21). “Porque, se continuarmos a pecar de propósito, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados. Pelo contrário, resta apenas uma terrível expectativa de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários” (Hb 10.26, 27). Essas declarações nos ajudam a descobrir o verdadeiro fundamento da exortação apostólica com que encerraremos este capítulo: “E tenham compaixão de alguns, fazendo diferença; e salvem outros com temor, arrebatando-os do fogo” (Jd 22, 23). [N. do T.: Fletcher segue a King James; a NAA traz “E tenham compaixão de alguns que estão em dúvida; salvem outros, arrebatando-os do fogo; quanto a outros, sejam também compassivos, mas com temor”.]
Deste último ponto de vista podemos perceber em que erro perigoso caíram aqueles que ousam fazer objeções contra a imitação do zelo de São Paulo.
Resposta a uma quinta objeção
A solidez das observações precedentes pode ser reconhecida por muitos pastores que, ainda assim, se desculparão de copiar o exemplo de São Paulo.
“Não é razoável”, dirão eles, “exigir que preguemos a palavra de Deus a tempo e fora de tempo, como outrora fez São Paulo e como Timóteo foi depois exortado a fazer. Achamos difícil, nos dias de hoje, preparar qualquer discurso público que seja aceitável ao povo ou honroso para nós.”
A essa objeção damos as respostas seguintes:
(1.) Aquele que falou como “jamais alguém falou” rejeitou as artes dos nossos oradores modernos e proferia os seus discursos num estilo de simplicidade natural e zelo sem afetação.
(2.) Não vemos que São Paulo e os outros apóstolos se tenham imposto a incômoda servidão de escrever os seus discursos. E sabemos bem que, quando os setenta e os doze foram encarregados de publicar o evangelho, não se deu instrução dessa natureza nem num caso nem no outro.
(3.) São Paulo dá a Timóteo as seguintes instruções pastorais: “Dedique-se à leitura pública das Escrituras, à exortação, ao ensino. Não seja negligente para com o dom que você recebeu. Medite estas coisas e dedique-se a elas. Cuide de você mesmo e da doutrina. Continue nestes deveres, porque, fazendo assim, você salvará tanto a si mesmo como aos que o ouvem” (1Tm 4.13-16). “Pregue a palavra, insista, quer seja oportuno, quer não, corrija, repreenda, exorte com toda a paciência e doutrina” (2Tm 4.2). Ora, se alguma vez tivesse passado pela mente do apóstolo que seria conveniente os pastores comporem os seus sermões à maneira dos retóricos e os proferirem como oradores públicos, ele muito provavelmente teria dado alguma indicação disso ao seu discípulo. Nesse caso, teria dado ao seu aluno de teologia instruções como estas: “Ó Timóteo, meu filho! Muitas vezes lhe ordenei que trabalhasse na obra do Senhor segundo o meu exemplo. Mas, como você não é apóstolo propriamente dito e não recebeu o dom de línguas, aconselho-o a escrever os seus sermões com a maior correção possível. Depois disso, não deixe de ensaiá-los diante de um espelho, até ser capaz de repeti-los com desembaraço e graça, para que, quando for chamado ao serviço público, possa garantir eficazmente a aprovação dos seus ouvintes. Além disso, quando estiver para visitar alguma igreja distante, guarde na sua mala os melhores dos seus sermões. E, onde quer que esteja, tenha o cuidado de levar consigo pelo menos um discurso, para estar preparado para qualquer emergência repentina e nunca aparecer desprovido aos olhos do povo.” A ideia de tal passagem nas epístolas de São Paulo, públicas ou particulares, é absurda demais para ser tolerada.
(4.) Se os advogados, depois de considerarem às pressas uma questão difícil, estão prontos para defender a causa do seu cliente diante de um tribunal, será possível que um ministro, depois de vários anos de meditação e estudo, ainda não esteja preparado para defender a causa da piedade diante de uma assembleia simples de paroquianos sem instrução?
(5.) Quando estamos profundamente interessados num assunto da maior importância, julgamos necessário redigir em boa ordem os nossos argumentos no papel antes de tentar exprimir o que pensamos sobre a questão? O amor e a perspicácia de um pai não bastam para lhe ditar os conselhos adequados aos diferentes temperamentos e condições dos seus filhos? Ao vermos a casa do nosso vizinho em chamas, não nos retiramos para o nosso gabinete a fim de preparar uma série de argumentos comoventes para levá-lo a salvar a si mesmo e à sua família do fogo. Nesse caso, uma convicção viva do perigo do vizinho e um desejo ardente de livrá-lo dele nos dão maior força de eloquência natural do que quaisquer regras da arte nos podem fornecer.
(6.) Horácio observa que, num assunto bem digerido, não faltarão nem a matéria nem o método:
Cui lecta potenter erit res, [A quem escolher um assunto à altura das suas forças,]
Nec facundia deseret hunc, nec lucidus ordo. [não lhe faltará a eloquência nem a ordem clara.]
Com quanto mais facilidade, então, se pode esperar que as expressões adequadas acompanhem os sentimentos animadores inspirados por um amor ardente a Deus e aos homens, sobretudo quando se tratam assuntos de interesse tão universal como a morte e a redenção, o juízo e a eternidade! Em tais ocasiões, “a boca fala do que está cheio o coração”, “e o pregador não conseguirá repetir a décima parte das verdades que Deus lhe comunicou enquanto meditava no seu texto” (Ato do Sínodo, cap. XI). Se a malícia pode fornecer um fundo inesgotável de conversa aos que se deleitam na malícia, quanto mais podemos supor que o amor de um pastor lhe fornecerá um fundo inesgotável de exortação, instrução e consolo!
(7.) Muitos ministros do evangelho têm alegado que deixam de proclamar esse evangelho durante seis dias da semana para não ficarem despreparados para falar com propriedade aos paroquianos no sétimo. Com mestres tão escrupulosamente zelosos da própria reputação, é justo que se nos permita argumentar assim: para que servem todos esses apêndices oratórios com que vocês tanto se esforçam por adornar os seus discursos? E “quem requereu de vocês” todo esse trabalho inútil (Is 1.11, 12)? Se um servo, encarregado pelo seu senhor de uma mensagem da maior importância, se recolhesse ao seu quarto e adiasse dia após dia a sua execução, não seria tal demora considerada uma negligência imperdoável? Ou, se tentasse desculpar a omissão alegando que estivera muito ocupado em aprender a repetir com precisão a mensagem recebida e a caminhar para o seu recado com dignidade e graça, não seria tal desculpa vista como exemplo da mais alta presunção e loucura? E podemos imaginar que o nosso Senhor celestial deixará passar nos seus mensageiros públicos uma negligência que, na conduta de um criado particular, pareceria tão justamente condenável?
(8.) Que vantagem trouxe à igreja o abandono do método apostólico de publicar o evangelho? Temos indolência e artifício em lugar de sinceridade e vigilância. Os discursos públicos, que antigamente eram fruto da convicção e do zelo, tornaram-se agora exercícios semanais de erudição e de arte. “Também nós cremos e, por isso, também falamos” (2Co 4.13) é uma expressão que caiu inteiramente em desuso entre os pastores modernos. Mas nada é mais comum entre nós do que dizer: “Como temos sermões preparados sobre vários assuntos, estamos prontos para proferi-los conforme se ofereça a oportunidade.”
(9.) Muitos inconvenientes nascem do método de pregação geralmente adotado nos dias de hoje. Enquanto o médico das almas se esforça para compor uma dissertação erudita sobre alguma passagem simples das Escrituras, pouco tempo lhe sobra para visitar os doentes abatidos que precisam da sua assistência imediata. Ele julga suficiente atendê-los todo domingo, no lugar designado para o culto público. Mas não se lembra de que aqueles a quem o seu conselho é particularmente necessário são justamente os que se recusam a encontrá-lo ali. As suas ocupações inúteis em casa não lhe deixam oportunidade de sair em busca das ovelhas desgarradas. Ele as encontra, é verdade, em períodos fixos, no aprisco comum; mas é igualmente verdade que, em cada intervalo, mostra a mais fria indiferença pelo bem espiritual delas. Por essa conduta imprópria de muitos ministros, seria natural imaginar que o rebanho é que foi chamado a procurar o seu pastor indolente, e não que ele foi contratado de propósito para ir atrás de cada ovelha desgarrada.
(10.) O nervo mais poderoso do santo ministério é a disciplina eclesiástica. Mas esse nervo é inteiramente cortado pelo método de que agora falamos. Quando um pastor sai cansado do seu gabinete, imaginando ter cumprido honrosamente o seu dever para com o povo, está muito inclinado a negligenciar aquela inspeção vigilante das famílias da qual depende a disciplina da igreja. Tal instrutor espiritual pode com justiça ser comparado a um mestre-escola vaidoso que, depois de traçar um modelo de caligrafia e enfeitá-lo durante vários dias seguidos com todos os adornos da sua arte, imaginasse ter cumprido admiravelmente o seu papel por tê-lo preparado, por fim, sem defeitos visíveis para os seus alunos. E que se poderia razoavelmente esperar dos alunos de tal mestre senão que, não temendo nem a disciplina escolar nem a inspeção particular, deixassem de copiar o que o mestre, com tanto trabalho inútil, havia produzido?
(11.) Desde que a arte do orador tomou o lugar da energia da fé, que efeito feliz ela produziu no espírito dos homens? Temos visto conversões mais frequentes entre nós? Os cristãos apenas de nome são tomados mais geralmente de temor religioso? Os libertinos são mais universalmente constrangidos a exclamar: “Que faremos, irmãos?” (At 2.37). Os ímpios saem da igreja para chorar as suas transgressões em particular, e os crentes para visitar os que choram na sua aflição? Não é antes de lamentar que estejamos hoje igualmente distantes do amor cristão e da simplicidade primitiva?
(12.) Ler uma série de sermões aprovados é geralmente considerado pregar o evangelho. Se assim fosse realmente, bastaria procurar algum menino de escola de capacidade razoável e, depois de ensiná-lo a ler com a ênfase e os gestos convenientes os sermões de Tillotson, Sherlock ou Saurin, teríamos feito dele um excelente ministro da palavra de Deus. Mas, se pregar o evangelho é publicar entre os pecadores o arrependimento e a salvação que experimentamos em nós mesmos; se é imitar um escravo arrependido que, livre da miséria e dos ferros, volta aos companheiros da sua antiga escravidão, declarando a generosidade do seu príncipe e persuadindo-os a implorar misericórdia; se é isso publicar o evangelho da paz, então é evidente que a experiência e a compaixão são mais necessárias ao devido cumprimento dessa obra do que toda a correção e toda a elocução que se possam adquirir.
(13.) Quando essa experiência sagrada e essa compaixão generosa começaram a perder a primazia na igreja, o seu lugar foi aos poucos ocupado pelos substitutos frívolos do estudo e da afetação. A prudência carnal tem procurado, há muitos séculos, adaptar-se solicitamente ao gosto dos sábios e dos eruditos. Mas, enquanto se evita “o escândalo da cruz” (Gl 5.11), nem os sábios nem os ignorantes se convertem de fato. O evangelho é muito mais adequado aos “pobres em espírito” do que aos que se têm em conta de homens sagazes e cultos. “Graças te dou, ó Pai”, disse o humilde Jesus, “porque escondeste estas coisas dos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11.25). Esses pequeninos, porém, na linguagem de Cristo, são justamente as pessoas que temos costumado negligenciar, para mero agrado dos tidos por sábios. Ai de nós! De quantos milhares de provas precisamos para nos convencer de que a sabedoria deste mundo continuará a pisar a pérola do evangelho, ainda que, para garantir a sua aceitação, ela seja apresentada entre as pérolas artificiais de uma filosofia vã?
(14.) Em consequência do mesmo erro, os ornamentos da eloquência teatral têm sido buscados com uma solicitude vergonhosa. E qual tem sido o fruto de tanto trabalho inútil? Os pregadores, afinal, representaram o seu papel com muito menos aplauso que os comediantes; e os seus ouvintes curiosos continuam correndo do púlpito para o palco, pelo prazer de ouvir fábulas recitadas com um grau de sensibilidade que os mensageiros da verdade não conseguem nem sentir nem fingir.
Embora as observações acima tenham sido expressas da maneira mais incisiva, não pretendemos insinuar que os erros já expostos sejam os únicos enganos de que nos devemos guardar. Os extremos de todo tipo devem ser evitados com igual cuidado. Condenamos a prudência carnal dos oradores cristãos; mas reprovamos com igual sinceridade a conduta daqueles entusiastas que, sob o pretexto de que Cristo prometeu permanecer com os seus discípulos até o fim dos tempos, apresentam os devaneios de uma imaginação exaltada como verdades do evangelho. Encontram-se muitos desses fanáticos iludidos que, tomando a sua preguiça e presunção por efeitos de uma fé viva e de uma confiança apostólica, afrontam repetidamente o Todo-Poderoso e ofendem com justiça os ouvintes sinceros que menos dispostos estão a se escandalizar. Os escândalos sem dúvida virão; mas cumpre-nos fazer a justa distinção entre o verdadeiro escândalo da cruz e aquele que nasce de uma presunção desregrada da nossa parte.
Se temos a honra do ofício pastoral, consideremos as Sagradas Escrituras uma mina inesgotável de tesouros sagrados. Meditemos na lei do Senhor de dia e de noite. Antes de tentar anunciar em público as verdades evangélicas, seja o nosso primeiro cuidado penetrar em particular o nosso coração com o devido senso dessas verdades. Disponhamo-las na ordem mais conveniente; reunamos e comparemos as várias passagens das Sagradas Escrituras que parecem sustentar ou explicar as doutrinas particulares em que pretendemos insistir. Mas, acima de tudo, unindo a fé e a oração à meditação tranquila, depois de dominarmos o nosso assunto, peçamos humildemente a Deus aquela παρρησία [franqueza, ousadia no falar], aquela elocução viva e vigorosa que brota da unção da graça.
E aqui, em vez de nos contentarmos em simplesmente pedir, devemos esforçar-nos para adquirir o que buscamos, reavivando com frequência o dom que está em nós. Aproveitemos toda oportunidade de exortar tanto os crentes como os catecúmenos. Levemos, com constância incansável, instrução aos ignorantes e consolo aos aflitos. Sejamos fiéis em repreender os pecadores de toda classe e diligentes em educar as crianças da nossa paróquia.
É necessário, de fato, ter o máximo cuidado para não abusar da liberdade de pregar a partir da meditação, tornando-nos seguidores daqueles que merecem mais censura que imitação. Há pastores dessa espécie que, tendo adquirido bom grau de conhecimento espiritual e uma facilidade admirável de expressão, infelizmente começam a se orgulhar de aparecer diante de uma assembleia numerosa sem nenhum estudo prévio. Conscientes da própria capacidade, esses pregadores autossuficientes fazem pouca ou nenhuma preparação para um dos deveres mais solenes que se podem cumprir. Correm para um auditório lotado sem nenhuma preocupação aparente e, descendo do púlpito com o mesmo ar de tranquila confiança com que subiram, voltam satisfeitos àquela indolência habitual que fora interrompida pelo cumprimento exterior de uma obra necessária. Ai! Se fosse possível convencer esses pastores presunçosos a escrever os seus sermões, quanto melhor empregariam assim as suas horas do que desperdiçando-as descuidadamente em conversas frívolas e numa inatividade vergonhosa!
Não é para imitar exemplos dessa natureza que pedimos aos ministros de Cristo que recuperem as horas geralmente empregadas na composição dos seus discursos semanais. Quantas são as ocupações importantes entre as quais o pastor fiel pode escolher a cada dia! É preciso reconduzir os ímpios e firmar os justos. É preciso dar esperança aos medrosos e coragem aos tentados. Os fracos devem ser fortalecidos, e os fortes exercitados. Os doentes devem ser amparados, e os moribundos preparados para a partida. Por meio de frequentes visitas pastorais aos povoados, às escolas e às casas particulares, o ministro incansável deve percorrer continuamente as diversas partes da sua paróquia, conhecendo a condição dos que estão confiados ao seu cuidado, suprindo regularmente as necessidades do seu rebanho e espalhando por toda parte instrução e repreensão, exortação e consolo. Para resumir os seus deveres numa única frase, ele deve fazer brilhar em todas as direções possíveis a luz que está nele, diante dos ignorantes e dos sábios, dos ricos e dos pobres, fazendo da salvação dos homens a sua principal ocupação e da glória de Deus o seu fim último.
Assim, depois de ter cumprido fielmente o trabalho de um evangelista, quando estiver para ser afastado do seu cargo pela morte ou por qualquer outra disposição da providência, poderá despedir-se afetuosamente do seu povo e dizer: “Lembrem-se, meus filhos, de que, enquanto vivi entre vocês, não cessei de admoestar cada um de vocês,1 noite e dia; e, se a minha palavra nem sempre foi acompanhada de lágrimas (At 20.31), sempre brotou da mais verdadeira sinceridade e afeto.”
Resposta à quinta e última objeção que se pode levantar contra “o Retrato de São Paulo”
As pessoas que já resistiram com tanto empenho às verdades que defendemos não deixarão de exclamar, por último, à guisa de argumento irrespondível: “O que vocês exigem dos pastores é absurdo no mais alto grau. Se eles são de fato chamados a trabalhar pela salvação das almas com o zelo e a assiduidade de São Paulo, o santo ministério terá de ser considerado a mais penosa de todas as profissões e, por consequência, os nossos púlpitos em breve ficarão vazios.”
O sr. Ostervald, que previu essa objeção, respondeu-a completamente na sua Terceira Fonte da Corrupção que reina entre os Cristãos. “Não deixarão de objetar”, diz esse venerável autor, “que, se ninguém fosse admitido às ordens sagradas senão os que possuem todas as qualificações necessárias, não se conseguiria de modo algum um número suficiente de pastores para prover as nossas igrejas. A isso respondo que seria muito melhor expor-nos a esse inconveniente do que violar as leis expressas da palavra escrita. Um pequeno número de pastores escolhidos é preferível a uma multidão de mestres despreparados. [Um só Elias foi mais poderoso que todos os profetas de Baal.] Custe o que custar, devemos ater-nos ao mandamento de Deus e deixar o resultado à providência. Mas, na realidade, essa escassez de pastores não é tão de temer. Rejeitar os candidatos às ordens sagradas cujos trabalhos na igreja seriam inteiramente infrutíferos é sem dúvida uma obra de piedade; e só esses seriam afastados pelo receio de um exame severo e de uma disciplina exata. Outros, ao contrário, que estão em condições de cumprir os deveres do ofício sagrado, seriam animados por essa exatidão e severidade; e o ministério se tornaria a cada dia mais respeitável no mundo.” Eis uma resposta verdadeiramente digna de um homem apostólico!
Se a maioria dos pastores ainda objetar que o que exigimos é tão absurdo quanto inusitado, permitam-me perguntar-lhes, meus irmãos mornos, se não é necessário que vocês empreguem na sua profissão sagrada a mesma diligência com que os seus vizinhos costumam trabalhar nas suas vocações e ocupações mundanas.
O pescador prepara uma variedade de linhas, anzóis e iscas; conhece os lugares, as estações e até as horas mais favoráveis ao seu trabalho; e não se recusa a lançar a linha várias centenas de vezes por dia. Se não tem êxito num lugar, passa alegremente a outro; e, se o seu insucesso dura muito, associa-se aos que são mestres maiores na sua arte. Digam-me, então, pastores que fazem do ofício do pescador o passatempo de tantas horas ociosas: imaginam realmente que é preciso menos ardor e perseverança para preparar almas para o céu do que para pescar trutas para a sua mesa? O caçador se alegra na expectativa da caçada prometida. Priva-se de algumas horas do repouso habitual para sair depressa em busca da presa. Procura-a com atenção incansável e segue-a de campo em campo com ardor crescente. Sobe a custo a montanha, desce correndo o precipício, embrenha-se nos bosques mais cerrados e salta os obstáculos mais ameaçadores. Faz os gestos mais desenfreados e usa a linguagem mais extravagante, esforçando-se por todos os meios possíveis para animar cães e homens na perseguição furiosa. Conta as fadigas da caçada entre os seus prazeres; e, em todo o insignificante negócio do dia, age com tanta resolução e fervor como se tivesse empreendido uma das mais nobres empresas do mundo.
O caçador de aves persegue a sua caça com igual avidez. De restolho em restolho, de moita em moita, abre caminho. Força passagem pelo matagal resistente e segue pela ravina sem trilhas. Atravessa a montanha sombria ou vagueia ao acaso pela charneca estéril; e, depois de carregar a arma o dia inteiro, se algumas aves insignificantes recompensam o seu esforço, volta para casa alegre.
Venham, pescadores de gente, que, apesar da sua consagração a Deus, são vistos muitas vezes participando dessas diversões desprezíveis; venham e respondam, com a sua conduta, às seguintes perguntas: o rebanho confiado aos seus cuidados vale menos que as aves que vocês perseguem com tanto esforço? Ou estão menos interessados na salvação do seu povo do que na destruição daqueles infelizes quadrúpedes que lhes dão tanta fadiga tola e lhes proporcionam tanto prazer brutal?
Permitam-me levar ainda mais longe o meu argumento. Se o animal ofegante que costuma acompanhar os seus passos neste último exercício se precipitasse descuidadamente num poço perigoso, embora vocês estivessem cansados do trabalho do dia e já voltando para casa, iriam deixá-lo perecer sem se importar? Não fariam antes todo esforço para livrá-lo de uma morte evidente? Conseguiriam sequer dormir ou comer antes de lhe prestar toda a ajuda possível? E, no entanto, vocês comem, dormem, fazem visitas; e talvez até dancem, cacem, atirem, e isso sem a menor inquietação, enquanto os seus rebanhos se precipitam de pecado em pecado e caem de precipício em precipício. Ah! Se mil almas valem tanto quanto o mais vil dos animais, e se elas se extraviam descuidadas pelos caminhos da perdição, não podemos razoavelmente exortá-los a fazer todo esforço para preservá-las do perigo mais alarmante e livrá-las dos horrores da morte eterna?
Mas, deixando de lado os divertimentos que tanto ocupam a sua atenção, permitam-me argumentar com vocês a partir de uma das ocupações mais laboriosas da vida. Vocês são chamados a ser “bons soldados” de Cristo Jesus (2Tm 2.3). E podem imaginar que se exige menos firmeza e paciência de um guerreiro espiritual do que de um soldado terreno? Vejam o mercenário que, por pouco mais que comida e roupa, se prepara para partir para a sua vigésima campanha! Seja chamado a congelar junto ao polo ou a derreter sob o equador, empreende a expedição designada com ar de intrepidez e zelo. Carregado com as armas da sua milícia, é exaurido por marchas penosas; e, depois de suportar as fadigas excessivas do dia, faz a cama sobre a terra áspera ou talvez passe a noite sem conforto, de armas na mão. No dia da batalha avança contra o inimigo sob uma chuva de balas e procura, nas cenas mais terríveis, dar provas de uma firmeza invencível. Se escapa ileso dos perigos do dia, é apenas para correr o risco de outro combate, talvez para tomar uma trincheira ou forçar uma brecha. Nada, porém, o desanima; coberto de feridas, segue sem se queixar ao encontro do golpe mortal. Tudo isso ele sofre, e tudo isso realiza a serviço dos seus superiores, com pouca esperança de promoção para si mesmo.
Contemplem esse veterano moribundo, soldados medrosos de um Príncipe todo-poderoso, e corem da sua falta de intrepidez espiritual! Não estão vocês empenhados na causa da humanidade e no serviço de Deus? Não estão encarregados de resgatar almas cativas de todos os poderes das trevas? Não combatem sob o olhar perscrutador daquele que é Rei dos reis e Senhor dos senhores? Não lutam à vista de recompensas eternas e com a esperança de uma herança que não murcha? E vão queixar-se das dificuldades ou tremer diante do perigo? Não só evitarão o ardor do combate, mas até ousarão abandonar o estandarte do seu soberano Senhor? Deixem-me conduzi-los de novo ao campo; deixem-me levá-los outra vez ao ataque; ou, antes, deixem-me envergonhar a sua covardia apontando-lhes os comandantes resolutos que outrora se distinguiram sob as bandeiras do seu Príncipe. Imitem o exemplo deles e partilharão as suas recompensas.
Mas, se até agora vocês não contemplaram a beleza nem experimentaram a energia das verdades que animaram São Paulo a tais atos de heroísmo, é em vão que os exortamos a brilhar nas primeiras fileiras dos cristãos como luzeiros inextinguíveis, erguendo contra todo inimigo, como “espada de dois gumes” (Hb 4.12), “a palavra da vida” eterna (Fp 2.15, 16). Em vez disso, será necessário pôr diante de vocês a excelência e a eficácia das doutrinas desse apóstolo, juntamente com as vantagens infinitas que elas proporcionam aos que as abraçam de coração. E é isso que procuraremos fazer na segunda parte desta obra. Enquanto isso, concluiremos esta primeira parte com uma breve exortação tirada do quinquagésimo nono sermão de São Crisóstomo sobre São Mateus: “Visto que a vida presente é uma guerra contínua; visto que estamos sempre cercados por uma multidão de inimigos, oponhamo-nos a eles com vigor, como o nosso régio Comandante se agrada de ordenar. Não temamos nem o trabalho, nem as feridas, nem a morte. Conspiremos todos para nos ajudarmos e defendermos uns aos outros. E seja a nossa magnanimidade tal que dê firmeza aos mais resolutos e coragem aos mais covardes.”
1. É muito razoável que os pastores deem instrução à noite aos que estiveram ocupados, durante o dia, nas suas diferentes vocações. Essa hora, seja na parte mais sombria, seja na mais agradável do ano, é particularmente apropriada às obras de devoção. Tal costume poderia, pelo menos, impedir que muitos jovens se misturassem com certo tipo de companhia e frequentassem lugares que tenderiam a afastar o seu espírito da religião e da virtude.
Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Portrait of St. Paul: or, The True Model for Christians and Pastors, versão inglesa de Joshua Gilpin (1790) do manuscrito francês do autor, na edição de Nova York (B. Waugh e T. Mason, 1834), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Por isso esta é tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.