John Fletcher · O Retrato de São Paulo · Parte II
O primeiro ponto da pregação do pastor evangélico: o verdadeiro arrependimento para com Deus, como o pecado entrou no mundo e como o pastor fiel conduz os pecadores ao arrependimento.
As doutrinas do pastor evangélico
O ministro da época atual, desprovido de piedade cristã, não é capaz de pregar nem de compreender com clareza as verdades do evangelho. Em geral, contenta-se em declarar superficialmente certos atributos do Ser Supremo, enquanto teme falar demais da graça ou de suas operações, para não ser suspeito de entusiasmo. Declama contra algum vício enorme ou exibe a beleza de alguma virtude social. Pretende firmar as doutrinas dos filósofos pagãos; e seria de desejar que levasse sempre a sua moral a um nível tão alto quanto alguns dos mais célebres daqueles sábios. Se alguma vez anuncia o Senhor Jesus Cristo, é só de passagem, e principalmente quando a volta de certos dias o obriga a isso. Ele mesmo continua o mesmo em todas as estações; e a cruz de Cristo seria inteiramente posta de lado, se o príncipe temporal, mais ortodoxo que o ministro, não tivesse determinado que a paixão de nosso Senhor fosse o tema do pregador durante certas solenidades da Igreja.
Com o pastor evangélico é bem diferente. Ele pode dizer com São Paulo: “Jesus Cristo me enviou para pregar o evangelho, não com sabedoria de palavra, para que não se anule a cruz de Cristo. Certamente a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, ela é poder de Deus. Pois está escrito: ‘Destruirei a vã sabedoria dos sábios e aniquilarei a falsa inteligência dos inteligentes.’ Não é fato que Deus tornou louca a sabedoria deste mundo? Visto que o mundo, por essa sabedoria [essa filosofia tão gabada], não conheceu a Deus [mas ficou no materialismo e na idolatria], Deus achou por bem salvar os que creem por meio da loucura da pregação” (1Co 1.17-21). A pregação do verdadeiro ministro, que num mundo degenerado costuma passar por loucura, é aquela por meio da qual Deus emprega o seu poder para a conversão dos pecadores e a edificação dos crentes. Ela abrange tudo o que está revelado no Antigo e no Novo Testamento; mas os assuntos de que principalmente se ocupa são os preceitos do decálogo e as verdades do Credo Apostólico. Podem ser reduzidos a quatro pontos: (1) O verdadeiro arrependimento para com Deus. (2) Uma fé viva em nosso Senhor Jesus Cristo. (3) A doce esperança que o Espírito Santo derrama no coração dos crentes. (4) O amor cristão, que é a fonte abundante de toda boa obra. Numa palavra, o bom pastor prega o arrependimento, a fé, a esperança e o amor. Essas quatro virtudes incluem todas as outras. São as quatro colunas que sustentam o glorioso templo de que São Paulo e São Pedro fazem a seguinte menção: “Vocês são edifício de Deus. Também vocês, como pedras que vivem, são edificados casa espiritual.”
Examinando a solidez desses quatro suportes, podemos observar quanta diferença há entre os materiais de que são feitos e a argamassa mal preparada com que os ministros de hoje se esforçam por levantar um edifício vistoso sobre um alicerce de areia.
O verdadeiro ministro, convencido pela revelação e pela experiência de que só Jesus Cristo pode curar as almas enfermas, emprega todo esforço para levar os pecadores à presença desse Médico celestial, para que obtenham dele saúde espiritual e salvação. Está plenamente persuadido de que quem não está “cansado e sobrecarregado” nunca há de pedir alívio; de que quem não é “pobre em espírito” desprezará sempre as riquezas do evangelho; e de que os que não conhecem o seu perigo darão ouvido desatento às mais fortes advertências de um Salvador compassivo. Seu primeiro cuidado, portanto, é insistir com os ouvintes na necessidade de um arrependimento sem fingimento, para que, quebrando o caniço da sua confiança, os leve a cair, junto com os “pobres”, os “miseráveis”, os “cegos” e os “nus”, diante do trono da justiça divina. Dali, depois de se verem condenados pela lei de Deus, sem nenhuma capacidade de livrar a própria alma, ele sabe que recorrerão ao trono da graça, pedindo, como o publicano arrependido, para serem “justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (Rm 3.24). É nesse estado de humilhação e de compunção de coração que os pecadores se tornam capazes de experimentar os felizes efeitos do arrependimento evangélico, bem definido no capítulo catorze da Confissão Helvética. “Por arrependimento”, dizem os nossos piedosos reformadores, “entendemos aquela tristeza ou aquele desgosto da alma que a palavra e o Espírito de Deus despertam no pecador etc. Por essa nova sensibilidade, ele é levado primeiro a descobrir a sua corrupção natural e as suas transgressões atuais. Seu coração é traspassado de sincera aflição. Ele as deplora diante de Deus. Confessa-as com vergonha, mas sem reservas; abomina-as com santa indignação; resolve seriamente, desde este momento, reformar a sua conduta e aplicar-se religiosamente à prática de toda virtude pelo resto da vida. Tal é o verdadeiro arrependimento: consiste, ao mesmo tempo, em renunciar resolutamente ao diabo, com tudo o que é pecaminoso, e em apegar-se sinceramente a Deus, com tudo o que é verdadeiramente bom. Mas dizemos expressamente que esse arrependimento é puro dom de Deus e jamais pode ser produzido por nossas próprias forças” (2Tm 2.25).
Por essa definição se vê que os nossos reformadores chamavam de arrependimento aquilo que muitos teólogos chamaram de despertamento da alma do sono da segurança carnal, e que outros frequentemente denominaram conversão. Mas, se os pecadores entenderem e alcançarem a disposição aqui descrita, nenhum verdadeiro ministro fará grande questão de que a expressem com determinada fórmula de palavras.
Observe o relato que o ministro evangélico dá, seguindo Moisés e São Paulo, da maneira como aquela terrível infecção entrou no mundo: aquela natureza corrompida, aquele “velho homem”, aquele “corpo desta morte”, que Cristo, a descendência da mulher, veio destruir. “Vendo a mulher tentada que [o fruto da árvore, que Deus a proibira de tocar] era agradável aos olhos, bom para se comer e desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto e comeu; e deu também ao marido, e ele comeu” (Gn 3.6). Assim entrou na própria fonte da nossa natureza aquele mal moral, aquela enfermidade complexa, “os desejos da carne, os desejos dos olhos e a soberba da vida” (1Jo 2.16), que o segundo Adão veio crucificar na carne, e que ainda é crucificada diariamente nos membros do seu corpo místico.
Se Jesus Cristo nunca discorreu publicamente sobre a entrada do pecado no mundo, foi porque os seus sermões se dirigiam a um povo instruído havia muito tempo num assunto de tamanha importância. Por isso, ele simplesmente se apresentou a Israel como o Messias prometido, o Filho de Deus e Filho do Homem, que vinha reparar o erro do primeiro Adão, tornando-se a ressurreição e a vida de todos os que cressem em seu nome.
Bem diferente era a situação de São Paulo, quando trabalhava entre nações que não conheciam a queda senão por uma tradição incerta e corrompida. Veja com que sabedoria ele expõe aos pagãos aquela doutrina fundamental que entre os judeus não se discutia. “O primeiro homem, Adão”, cabeça da espécie humana, “se tornou um ser vivente”; mas Jesus Cristo, “o último Adão, é espírito vivificante”; e ele também é cabeça da espécie humana, pois “Cristo é o cabeça de todo homem” (1Co 11.3). “O primeiro homem, formado do pó da terra, é terreno; o segundo homem é o Senhor, do céu [N. do T.: a NAA traz “o segundo homem é do céu”]. Como foi o homem terreno, assim também são os demais que são feitos do pó da terra [os mundanos]; e, como é o homem celestial, assim também são os celestiais [os regenerados]. E, assim como trouxemos a imagem do homem terreno, nós [cuja alma já está regenerada] traremos também a imagem completa do homem celestial, quando este corpo mortal se revestir da imortalidade; porque a carne e o sangue [que recebemos do primeiro Adão] não podem herdar o Reino de Deus” (1Co 15.45-53).
Como o orgulho humano está continuamente se levantando contra essa doutrina humilhante, o verdadeiro ministro a repete com a mesma constância, clamando na linguagem desse grande apóstolo: “Todos os não regenerados estão debaixo do pecado; não há quem entenda, não há quem busque a Deus. Todos se desviaram e juntamente se tornaram inúteis. Eles não conhecem o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos. Ora, sabemos que tudo o que a lei [natural ou mosaica] diz é dito aos que vivem sob a lei, para que toda boca se cale, e todo o mundo seja culpável diante de Deus” (Rm 3.9-19). “Não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus [e assim todos precisam igualmente dos méritos e do socorro de] Jesus Cristo, a quem Deus apresentou como propiciação, no seu sangue, mediante a fé” (Rm 3.22-25). Por isso, todos os que, desprezando Cristo, se apoiam nas “obras da lei estão debaixo de maldição”, e todos os seus esforços por se livrarem com sua obediência imperfeita são inteiramente vãos. “Porque está escrito: ‘Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da Lei, para praticá-las.'” Assim, lançando maldições tão terríveis quanto os trovões do monte Sinai contra todo ato de desobediência, “a lei se torna nosso guardião para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados pela fé” (Gl 3.10-24).
Quando um ministro evangélico insiste na queda, na corrupção e no perigo do homem não regenerado, age de acordo com as opiniões reconhecidas das igrejas mais puras. Como escrevo principalmente para os protestantes franceses, citarei aqui a Confissão de Fé hoje em uso nas igrejas da França. “Cremos”, dizem elas nos artigos nono, décimo e undécimo do seu credo, “que o homem, tendo sido criado à imagem de Deus, caiu por sua própria culpa da graça que havia recebido, e assim se alienou de Deus, que é a fonte da santidade e da felicidade; de modo que, tendo a mente cegada, o coração depravado e toda a natureza corrompida, perdeu toda a sua inocência. Cremos que toda a raça de Adão está infectada desse contágio, que na pessoa dele perdemos toda bênção e caímos num estado de miséria e maldição universal. Cremos também que o pecado etc. é uma perversidade que produz os frutos da malícia e da rebelião!”
As Igrejas Reformadas da Suíça fazem uma confissão igualmente humilhante. “O homem”, dizem elas, “abusando da sua liberdade e deixando-se seduzir pela serpente, abandonou a sua integridade primitiva. Assim se tornou sujeito ao pecado, à morte e a toda espécie de miséria; e, tal como o primeiro homem se tornou pela queda, tais são todos os seus descendentes (Rm 5.12). Quando dizemos que o homem está sujeito ao pecado, entendemos por pecado aquela corrupção da natureza que, desde a queda do primeiro homem, tem sido transmitida de pai para filho: paixões viciosas, aversão ao que é bom, inclinação ao que é mau, disposição para a malícia, ousado desafio e desprezo de Deus. Eis os tristes efeitos dessa corrupção, que nos debilitou tão inteiramente que por nós mesmos não somos capazes de fazer, nem sequer de escolher, o que é bom.” (Confissão Helvética, cap. VIII.) Todo homem pode encontrar em si mesmo provas suficientes dessas dolorosas verdades. “Deus é o Criador do homem”, dizem os pais que compuseram o Sínodo de Berna, “e quis que o homem fosse inteiramente dedicado ao seu Deus. Mas essa já não é a sua natureza, pois ele olha para as criaturas, para o próprio prazer, e faz de si mesmo um ídolo.” (Atas do Sínodo, cap. VIII.)
Essa doutrina é exposta também na Confissão de Augsburgo, bem como nos artigos nono e décimo da Igreja da Inglaterra, onde se expressa nestes termos: “O pecado original não consiste em seguir Adão, mas é a falta e a corrupção da natureza de todo homem, pela qual ele está muito afastado da justiça original e é, por sua própria natureza, inclinado ao mal, de modo que a carne sempre cobiça contra o Espírito; e por isso, em toda pessoa nascida neste mundo, merece a ira e a condenação de Deus.” “A condição do homem depois da queda de Adão é tal que ele não pode converter-se nem preparar-se, por sua própria força natural e por boas obras, para a fé e a invocação de Deus. Por isso não temos poder para fazer boas obras agradáveis e aceitáveis a Deus sem a graça de Deus por meio de Cristo, que nos previne para que tenhamos boa vontade e coopera conosco quando temos essa boa vontade.”
Nada menos que uma viva convicção da corrupção, da fraqueza e da miséria descritas nessas confissões de fé pode dispor alguém devidamente para o arrependimento evangélico.
Assim como o conhecimento da nossa depravação é a fonte de onde brotam o arrependimento evangélico e a humildade cristã, é também a única preparação necessária para a fé viva pela qual somos justificados e santificados. Quem fecha obstinadamente os olhos para a própria miséria encerra-se numa situação que não lhe permite receber benefício algum daquele glorioso Redentor a quem Deus “ungiu para evangelizar os pobres”, para curar os “quebrantados de coração”, para “proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e proclamar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.18-19). A própria razão declara que, se o homem pecador tem capacidade suficiente para garantir a sua salvação, não precisa de outro Salvador, e “Cristo morreu em vão” (Gl 2.21). Em suma, na medida em que desconhecemos o nosso estado degenerado, nessa mesma medida a importante doutrina da regeneração há de parecer necessariamente supérflua e absurda.
Aqui podemos perceber uma das grandes razões por que os ministros de hoje, que só superficialmente conhecem a depravação do coração humano, discorrem sobre esse assunto misterioso de modo leviano e insatisfatório.
O verdadeiro ministro, ao contrário, seguindo o exemplo do seu grande Mestre, fala dessa mudança tão importante com afeto e poder. Observe os termos com que o próprio Senhor declara essa doutrina negligenciada: “Em verdade, em verdade lhe digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3.5). Como se dissesse: o homem natural, por mais bela aparência que tenha, possui um coração tão desesperadamente corrupto que, se não for quebrantado pelo arrependimento que João Batista pregou e regenerado pela fé que eu anuncio, jamais se tornará cidadão do céu. Pois as portas do meu reino hão de permanecer eternamente fechadas para aqueles “lobos vorazes” que se disfarçam de ovelhas (Mt 7.15), e para aqueles hipócritas pintados que me saúdam como seu Senhor, sem abraçar as minhas doutrinas nem guardar os meus mandamentos. “Em verdade”, portanto, “lhes digo”, meus primeiros discípulos e amigos, “se vocês não se converterem e não se tornarem como crianças”, alheias a pensamentos de inveja, ambição ou impureza, “de maneira nenhuma entrarão no Reino dos Céus” (Mt 18.3).
Tal é a doutrina que ainda hoje é capaz de converter todo Nicodemos que pergunta. A princípio pode deixá-los perplexos e confusos; mas por fim, submetendo-se à sabedoria do seu Mestre celestial, eles clamarão: “Concede-nos, Senhor, essa fé que regenera”; e, uma vez atendido o pedido, adotarão a oração dos discípulos (Lc 17.5) e avançarão como eles, de fé em fé, até que todas as coisas em seu coração regenerado se tenham feito novas.
Mas, se essa doutrina é aroma de vida para alguns, é também cheiro de morte para outros. Ela escandaliza os fanáticos cegos, enquanto os incrédulos modernos se endurecem contra ela, como Faraó outrora se endureceu contra a autoridade de Jeová. “Assim diz o Senhor”, disse Moisés àquele monarca obstinado: “Deixe o meu povo ir, para que me adore” (Êx 8.1); e o altivo incrédulo respondeu: “Quem é o Senhor para que eu ouça a sua voz e deixe Israel ir? Não conheço o Senhor e não deixarei Israel ir” (Êx 5.2). Saia do Egito místico, diz o Filho de Deus a toda alma pecadora: “Siga-me na regeneração” (Mt 19.28), e eu lhe ensinarei a adorar a Deus “em espírito e em verdade” (Jo 4.24). “E quem é o Filho de Deus?”, replica algum Faraó de pouca monta: “Não conheço nem a ele nem a seu Pai, nem me considero de modo algum obrigado a obedecer aos seus mandamentos.”
Por ímpia que pareça essa linguagem, a conduta de todo cristão sem religião deve ser considerada equivalente a ela, conforme aquelas palavras de nosso Senhor: “Quem rejeita” os meus servos e as minhas doutrinas “é a mim que rejeita; quem, porém, me rejeita está rejeitando aquele que me enviou” (Lc 10.16). Seja qual for a máscara que use esse professante farisaico, ele “ama o mundo”; portanto “o amor do Pai não está nele” (1Jo 2.15). Ele odeia tanto a Cristo como a seu Pai (Jo 15.24); seu arrependimento é superficial, sua fé é vã, e, mais cedo ou mais tarde, suas ações ou suas palavras testemunharão que ele é inimigo declarado de Cristo e dos seus membros.
O que Deus disse a Jeremias pode, de certo modo, aplicar-se ao verdadeiro ministro: “Eu o constituo para arrancar e derrubar, e também para edificar e plantar” (Jr 1.10). Pois, antes que a vinha sagrada possa ser plantada, é preciso arrancar os espinhos do pecado, junto com os cardos da justiça falsificada. E, antes que se possa erguer a torre forte da salvação, é preciso derrubar aquela Babel espiritual com que homens presunçosos ainda se levantam contra o céu.
Para conduzir os pecadores a um estado de arrependimento evangélico, o verdadeiro ministro lhes põe diante dos olhos a corrupção do coração, com todos os tristes efeitos que ela produz no caráter e no procedimento dos não regenerados. Depois de lançar os anátemas da lei contra vícios particulares, como o juramento profano, a mentira, a maledicência, a extorsão, a embriaguez etc., ele mostra a gravidade de dois pecados gerais ou primitivos. A maior ofensa, segundo a lei, declara ele, é aquela pela qual se viola o seu primeiro e grande mandamento; consequentemente, acusa os que não amam a Deus acima de todos os seres criados de viverem no hábito de um pecado condenável, pois transgridem a mais sagrada de todas as leis, que nos obriga a amar a Divindade de todo o nosso coração (Mt 22.37-38). Daí passa a convencer de violarem um mandamento semelhante ao primeiro os que não amam o próximo como a si mesmos (Mt 22.39); e a esses dois pecados, como às suas fontes mortíferas, ele faz remontar todos os crimes proibidos na Lei e nos Profetas (Mt 22.40).
Em seguida, passa a expor, diante dos olhos dos que professam o cristianismo, os dois maiores pecados que se cometem sob a dispensação do evangelho. Se os dois grandes mandamentos de Deus, na nova aliança, se resumem nisto, que creiamos em seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros (1Jo 3.23), é evidente que os dois maiores pecados sob o evangelho são a falta daquela fé viva que nos une a Cristo e daquele amor ardente que nos liga com laços de cordial afeição à humanidade em geral e aos crentes em particular. Assim como as trevas procedem da ausência do sol e da lua, desses dois pecados de omissão brotam todas as diversas ofensas proibidas pela lei evangélica. E, se os que estão mergulhados nesses pecados primitivos são impedidos de cometer de fato ofensas enormes, nem por isso devem ser considerados radicalmente santos, pois possuem aquela mesma natureza de onde todo crime procede. Mais cedo ou mais tarde, a tentação e a oportunidade podem fazer brotar na sua conduta exterior alguns rebentos funestos, testemunhando que uma raiz de amargura jaz lá no fundo e que o menos ímpio dos homens carrega consigo uma natureza degenerada, um corpo de pecado e de morte.
Para dar mais peso a essas observações, ele expõe a grandeza do Ser Supremo, discorre sobre a sua justiça e mostra a severidade das suas leis. Pisa a santidade farisaica dos pecadores, para fazer apreciar as virtudes reais da “nova natureza, criada segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade”. Para despertar os que dormem num estado de segurança carnal, lança as mais alarmantes maldições, chamando contra eles os trovões do monte Sinai, até que sejam obrigados a voltar o rosto para Sião, até que busquem segurança no Mediador da nova aliança e corram “ao sangue da aspersão, que fala melhor do que o sangue de Abel” (Hb 12.24).
Por esse método, ele conduz o seu rebanho errante exatamente ao ponto em que estava o antigo Israel quando Deus o preparou para receber a lei por meio do seu servo Moisés. Ora, depois que o povo ouviu os trovões e “o som da trombeta”, depois que viu “os relâmpagos e o monte fumegante” (Êx 20.18), quando, já não podendo contemplar a cena terrível, “disseram a Moisés: Fale-nos você, e ouviremos; porém não fale Deus conosco”, sem um mediador, “para que não morramos” (Êx 20.19), foi então que Moisés começou a consolá-los com estas palavras: “Não tenham medo; Deus veio para provar vocês e para que o seu temor esteja diante de vocês, a fim de que não pequem” (Êx 20.20). Assim também hoje, somente os que são levados a essa pobreza de espírito estão devidamente dispostos a receber as riquezas da misericórdia divina. Por isso, logo que o ministro evangélico alarmou suficientemente o pecador com os terrores revelados no monte Sinai, ele cuida com empenho de prepará-lo para as consolações do evangelho, mostrando-lhe a cena do sofrimento no Calvário.
Muitos teólogos piedosos supuseram que só com a pregação da cruz de Cristo a humanidade poderia ser levada ao verdadeiro arrependimento. O que os pais do Sínodo de Berna disseram sobre esse ponto merece a atenção dos que desejam usar com êxito aquela arma espiritual que é “mais cortante do que qualquer espada de dois gumes” (Hb 4.12).
“O conhecimento do pecado”, dizem eles, “tem de ser tirado necessariamente de Jesus Cristo. O apóstolo escreve assim: ‘Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando ainda éramos pecadores’ (Rm 5.8). Segue-se que o pecado deve ter-nos tornado abomináveis e extremamente odiosos, já que o Filho de Deus não pôde livrar-nos do seu peso de outro modo senão morrendo em nosso lugar. Daí podemos conceber que abismo de miséria e de corrupção há no coração, pois ele não podia ser purificado senão pelo sacrifício de uma vítima tão preciosa e pela aspersão do sangue de Deus”, isto é, de um homem miraculosamente formado, no qual habitava “corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9). “Os apóstolos manifestaram claramente a pecaminosidade da nossa natureza pela morte de Cristo, ao passo que os judeus, depois de todas as suas penosas investigações, não foram convencidos do pecado pela lei de Moisés. Depois que se tirou da paixão de nosso Senhor um conhecimento sólido do pecado, desse conhecimento brotará naturalmente um verdadeiro arrependimento, isto é, uma viva tristeza pelo pecado, mesclada com a esperança do perdão futuro. Para essa obra necessária o Espírito Santo também contribui poderosamente, trazendo cada vez mais à luz, por suas operações misteriosas, os males ocultos e as corrupções insuspeitadas do coração, e purificando-o diariamente da imundícia do pecado, como a prata é purificada pelo fogo.” (Atas do Sínodo, cap. VIII, IX, XIV.)
Sempre fiel à palavra de Deus, o ministro do evangelho procura humilhar os impenitentes apelando aos escritores sagrados e, em particular, às declarações de Jesus Cristo.
A corrupção do coração é a mais antiga e terrível enfermidade da raça humana. Mal o homem experimentou o pecado, foi por ele expulso de um paraíso terrestre (Gn 3.24). E tão terríveis foram os seus primeiros efeitos que se viu o segundo homem assassinar o terceiro (Gn 4.8). Esse contágio moral cresceu através das eras, em grau tão espantoso que, antes do dilúvio, “o Senhor viu que a maldade das pessoas havia se multiplicado na terra e que todo desígnio do coração delas era continuamente mau” (Gn 6.5). “Depois do dilúvio, Deus ainda declarou que é mau o desígnio íntimo do ser humano desde a sua mocidade” (Gn 8.21). “O coração do homem”, diz ele ainda, muito tempo depois, “é enganoso, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto. Quem poderá entendê-lo? Eu, o Senhor, sondo o coração. Eu provo os pensamentos” (Jr 17.9-10).
O próprio Senhor, que bem “sabia o que era a natureza humana” (Jo 2.25), sendo o Médico que é o único capaz de nos curar e o Juiz que dará a cada um segundo as suas obras, o próprio Senhor descreveu a humanidade alienada do sumo bem, cheia de aversão ao seu povo e inimiga do próprio Deus. “Eis que eu os envio”, diz ele aos discípulos, “como cordeiros para o meio de lobos” (Lc 10.3). “Se o mundo odeia vocês, saibam que, antes de odiar vocês, odiou a mim. Se vocês fossem do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas vocês não são do mundo, pelo contrário, eu dele os escolhi”, para que andem em meus passos, “e, por isso, o mundo odeia vocês. Se perseguiram a mim, também perseguirão vocês” (Jo 15.18-20). “Tudo isso, porém, farão com vocês por causa do meu nome, porque”, apesar do seu deísmo e do seu politeísmo, “não conhecem aquele que me enviou. Pois quem odeia a mim odeia também o meu Pai” (Jo 15.21, 23). “Mas estou falando essas coisas para que, quando” eles os expulsarem das suas igrejas, como demônios expulsariam um anjo de luz, “vocês se lembrem de que eu já tinha dito isto para vocês” (Jo 16.4).
Os judeus eram, sem dúvida, num sentido, o mais esclarecido de todos os povos, pois ofereciam ao verdadeiro Deus um culto público sem mistura de idolatria e possuíam a Lei de Moisés, os Salmos de Davi e os escritos dos outros profetas, nos quais os deveres do homem, tanto para com Deus como para com o próximo, estão traçados da maneira mais exata. Contudo, Jesus Cristo apresenta esse povo esclarecido como universalmente corrompido, apesar de todas essas vantagens. “Não é fato”, diz-lhes ele, “que Moisés deu a Lei para vocês? Contudo, nenhum de vocês a cumpre” (Jo 7.19).
O que parece mais extraordinário nos sermões de nosso Senhor é o zelo com que deu testemunho contra as virtudes daqueles judeus que tinham fama de homens de devoção incomum. Embora se gabassem de ser eminentemente justos, ele declarou aos seus discípulos que, se a justiça deles não excedesse “em muito a dos escribas e fariseus”, eles “jamais” entrariam “no Reino dos Céus” (Mt 5.20). E observe a maneira como ele costumava dirigir-se àqueles impostores religiosos: “Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas, porque vocês limpam o exterior do copo e do prato, mas estes, por dentro, estão cheios de roubo e de glutonaria [cheios de desejos cobiçosos e de paixões desordenadas]! Fariseu cego! Limpe primeiro o interior do copo, para que também o seu exterior fique limpo!” (Mt 23.25-26).
Nada é mais comum do que a cegueira que permite ao homem julgar-se melhor do que realmente é; e essa cegueira é, em todas as épocas e em todos os lugares, a marca distintiva do fariseu. Essa espécie de hipocrisia, com que São Paulo outrora se envaidecia, combina perfeitamente bem com a sinceridade comum dos cristãos nominais, que cegamente consideram as diversões mais frívolas e dispendiosas como prazeres permitidos e inocentes; que veem nos teatros escolas de virtude; na intriga e no engano, prudência e boas maneiras; na pompa e na prodigalidade, generosidade e decoro; na avareza, economia; no orgulho, delicadeza de sentimento; no adultério, galanteria; e no assassinato, questão de honra.
Não podemos, com toda a propriedade, repetir a todos esses cristãos modernos o que nosso Senhor dirigiu abertamente aos seus predecessores? Sem dúvida temos autoridade para clamar contra eles, com santo zelo: “Ai de vocês, hipócritas, porque vocês são semelhantes aos sepulcros pintados de branco, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão!” (Mt 23.27). “Vocês, por fora, parecem justos aos olhos dos outros, mas, por dentro, estão cheios de hipocrisia e de injustiça” [N. do T.: a NAA traz “e de maldade”]. De hipocrisia, porque as suas virtudes têm mais de aparência que de solidez; e de injustiça, porque vocês não dão o que é devido a Deus, a César ou aos seus semelhantes, seja adoração, temor, honra, sustento ou boa vontade (Mt 23.28).
Mas, se a depravação dos judeus em geral, e dos fariseus em particular, parece bem evidente, devemos supor que não houvesse entre eles felizes exceções? É verdade que o real profeta declara: “Do céu o Senhor olha para os filhos dos homens, para ver se há quem tenha entendimento, se há quem busque a Deus. Todos se desviaram e juntamente se corromperam; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Sl 14.2-3). Mas não deviam os discípulos de nosso Senhor ser vistos de outro ponto de vista? Não. Mesmo depois do auxílio extraordinário que lhes deu o Filho de Deus, os próprios apóstolos apenas confirmaram a triste afirmação do salmista. Nosso Senhor, a quem nenhuma aparência podia enganar, testificou certa vez a Tiago e João que, apesar do zelo deles por sua pessoa, não conheciam o seu verdadeiro caráter; e que, em vez de serem movidos pelo seu Espírito, eram impelidos pelo espírito do destruidor (Lc 9.55). “Vocês, que são maus”, disse ele a todos os seus discípulos (Mt 7.11). “Não é fato que eu escolhi vocês, os doze? Mas um de vocês é um diabo” (Jo 6.70). “Um de vocês vai me trair”; Pedro, que é o mais resoluto em me confessar, “me negará três vezes; e serei uma pedra de tropeço para todos vocês” (Mt 26.21, 34, 31). Por fim, nosso Senhor representou constantemente os não regenerados como pessoas doentes e condenadas. “Os sãos”, disse ele, “não precisam de médico, e sim os doentes; eu não vim chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento” (Mc 2.17) [N. do T.: a NAA traz em Mc 2.17 “e sim pecadores”; a expressão “ao arrependimento” está em Lc 5.32]. “Vocês são deste mundo; por isso, eu lhes disse que vocês morrerão em seus pecados. Porque, se não crerem que Eu Sou”, e se recusarem a observar o regime espiritual que eu prescrevo, “vocês morrerão nos seus pecados” (Jo 8.23-24). “Se não se arrependerem, todos vocês também perecerão” (Lc 13.5).
É bem sabido que João Batista preparou o caminho do seu adorável Mestre pregando a mesma doutrina. “Raça de víboras!”, disse ele aos fariseus e saduceus, à parte profana e à parte devota da nação. “Quem deu a entender que vocês podem fugir da ira que está por vir? Produzam fruto digno de arrependimento!” (Mt 3.7-8).
Igualmente conhecido é que os discípulos foram instruídos pelo próprio Cristo a seguir os passos do seu precursor. “O Cristo”, disse ele, “tinha de sofrer, e em seu nome se pregaria arrependimento a todas as nações” (Lc 24.46-47). Por isso se ouviu um apóstolo clamar: “Deus agora ordena a todas as pessoas, em todos os lugares, que se arrependam” (At 17.30). E em outras ocasiões o mesmo mestre divino foi inspirado a escrever: “Nós, judeus por natureza e não pecadores dentre os gentios” (Gl 2.15), “éramos por natureza filhos da ira, como também os demais” (Ef 2.3). “Pois nós também, no passado, éramos insensatos, desobedientes, desgarrados, escravos de todo tipo de paixões e prazeres, vivendo em maldade e inveja, sendo odiados e odiando-nos uns aos outros” (Tt 3.3).
A mesma doutrina foi constantemente apresentada pelos outros apóstolos, bem como por São Paulo. “No passado”, diz São Pedro, “fizemos a vontade dos gentios, andando em práticas libertinas, desejos carnais, bebedeiras” etc. (1Pe 4.3) [N. do T.: a NAA traz “vocês tenham feito”]. “O mundo inteiro jaz no Maligno”, diz o amado João (1Jo 5.19); e São Tiago testifica solenemente que todo aquele que quer “ser amigo do mundo se torna inimigo de Deus” (Tg 4.4).
Essa doutrina humilhante, que o mundo inteiro abomina, é uma luz preciosa demais para ficar escondida debaixo de um alqueire; e, enquanto não for erguida, por assim dizer, sobre um candelabro de ouro, nunca podemos esperar ver a Igreja visível iluminada e reformada.
Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Portrait of St. Paul: or, The True Model for Christians and Pastors, versão inglesa de Joshua Gilpin (1790) do manuscrito francês do autor, na edição de Nova York (B. Waugh e T. Mason, 1834), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Por isso esta é tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.