John Fletcher · O Retrato de São Paulo · Parte II (continuação)

O arrependimento dos mundanos

Observações sobre o arrependimento superficial dos mundanos, em contraste com o arrependimento evangélico.

Observações sobre o arrependimento dos mundanos

Se alguém perguntar: Não pregam todos os ministros o arrependimento?, respondemos que, em geral, somente os verdadeiros ministros pregam o verdadeiro arrependimento. Os pregadores da moda, assim como se conformam ao mundo em outras coisas, também se contentam perfeitamente em praticar o arrependimento dos mundanos. Ora, assim como quem só recebe moeda falsa não pode pôr em circulação dinheiro bom, quem satisfaz o próprio coração com uma tristeza passageira pelo pecado não pode dar livre curso ao arrependimento evangélico que o evangelho exige. E é de notar que os ouvintes de tais escribas mal instruídos geralmente põem ao seu arrependimento os limites que satisfazem os seus pastores impenitentes.

O arrependimento que aqui condenamos pode ser reconhecido pelos seguintes sinais:

1. É superficial e fundado apenas nas ideias mais vagas da nossa corrupção. Por isso não pode, como o de Davi e de Jeremias, remontar o pecado à sua fonte e lamentar a depravação de todo o coração (Sl 51.5; Jr 17.9).

2. É farisaico, pois só considera os pecados exteriores. A justiça dos fariseus repousava nas observâncias mais insignificantes, enquanto eles desprezavam os preceitos mais importantes da lei, que dizem respeito ao amor a Deus e ao próximo (Mt 23.23). Afligiam-se quando não tinham pago escrupulosamente o dízimo das suas ervas, mas não batiam no peito quando tinham rejeitado o glorioso evangelho de Jesus Cristo. Na mesma situação perigosa estão os penitentes de hoje que se entristecem menos por terem ofendido a Deus e rejeitado a Cristo do que por se terem tornado objeto de zombaria, desprezo ou castigo, ao cometerem alguma ação ímpia ou desonrosa. Ouvimos muitas vezes esses falsos penitentes lamentarem a condição a que se reduziram e darem vazão às mais apaixonadas expressões de tristeza. Mas quando são vistos afligir-se por não terem sido inteiramente dedicados a Deus? Ou quando derramam uma única lágrima ao lembrar que não amaram o próximo como a si mesmos? Alguma vez os ouvimos lamentar a falta daquela fé em Cristo “que atua pelo amor” (Gl 5.6)? Alguma vez se empenham em buscar aquela comunhão dos santos pela qual os crentes se tornam um só coração e uma só alma? Ah! Tão longe estão disso que permanecem igualmente tranquilos sob as maldições do evangelho e sob as da lei. Ouvem sem terror aquelas palavras terríveis do apóstolo: “Se alguém não ama o Senhor Jesus Cristo, seja anátema. Maranata!” (1Co 16.22) [N. do T.: a NAA traz “Se alguém não ama o Senhor”]. E, embora não o amem nem o conheçam, consideram-se em vão pranteadores piedosos e penitentes sinceros.

3. Esse arrependimento é infrutífero, porque os que se arrependem dessa maneira são inteiramente estranhos à compunção de coração. Nenhum deles se vê obrigado a clamar: “Que faremos, irmãos?” (At 2.37). Não vêm ao Redentor entre os que estão “cansados e sobrecarregados” (Mt 11.28). Não têm experiência daquela tristeza segundo Deus pela qual o verdadeiro penitente morre para o pecado; e tão longe estão de nascer de novo do Espírito que nem esperam nem desejam semelhante regeneração. Em suma, esse arrependimento raramente é tão sincero quanto o de Judas, que confessou o seu pecado, inocentou o justo, venceu a sua paixão dominante e devolveu o dinheiro que lhe custara tão caro.

O arrependimento evangélico é uma obra incompreensível para a maioria dos ministros. Onde quer que apareça, estão prontos a censurá-lo, e exortam com empenho os homens a fugir dele, em vez de pedi-lo a Deus como um dom. Assim, quando veem alguém realmente aflito sob o sentimento do pecado, batendo no peito com o publicano, despojando-se, com São Paulo, do manto da própria justiça e perguntando, com o carcereiro convencido: “Que devo fazer para que seja salvo?” (At 16.30), supõem que esses são sinais certos de uma profunda melancolia. Imaginam que a conversa de algum entusiasta levou o homem ao desespero e não hesitam em afirmar que ele perdeu o uso normal da razão. Tanto é verdade que “a pessoa natural não aceita as coisas do Espírito de Deus” (1Co 2.14), nem é sequer capaz de formar uma ideia justa daquele arrependimento que é o primeiro dever que o evangelho nos impõe e o primeiro passo para aquela santificação sem a qual ninguém verá o Senhor.

Os moralistas do nosso tempo reconhecem que todos os homens são pecadores, mas deixam de tirar as justas consequências de tão triste verdade. Ser achado pecador diante de um Deus infinitamente santo e justo é perder de uma vez a felicidade e a existência. Aparecer como ofensor aos olhos do nosso Juiz que tudo vê é estar na condição de um vaso quebrado, que o oleiro joga fora como refugo; é estar na situação de um criminoso condenado por violar as leis mais sagradas do seu príncipe. As duas leis mais importantes de Deus são as que exigem piedade para com ele mesmo e amor para com o próximo. Ora, se violamos tanto uma como outra dessas leis, e isso vezes sem conta, convém-nos não só confessar a nossa transgressão, mas considerar o nosso perigo. Quando um traidor é condenado por traição, ou um assassino por homicídio, espera imediatamente ouvir pronunciar a sua sentença. Assim também, quando o pecador confessa que o é, reconhece tacitamente que a sentença de morte poderia ser pronunciada com justiça contra ele.

Algumas pessoas são por natureza tão míopes que só conseguem perceber os objetos mais chamativos à sua volta. Muitos, no mundo moral, estão em situação semelhante: nada lhes parece pecado senão as impiedades mais grosseiras. Se julgarmos os mandamentos de Deus segundo os preconceitos dessas pessoas, a idolatria não passa do ato de nos prostrarmos diante de um ídolo, e o homicídio é apenas o ato pelo qual alguém tira a vida do seu semelhante. Mas, se essas pessoas iludidas pudessem contemplar o pecado à luz das Escrituras, se pudessem servir-se da lei de Deus como de um observatório erguido para a meditação sagrada, a sua vista moral se fortaleceria o bastante para descobrir as seguintes verdades:

1. Se nem sempre depositamos no Criador mais confiança do que em qualquer das suas criaturas, se tememos ou amamos alguém mais do que ao nosso Pai celeste, então de fato erguemos outro deus em oposição ao Senhor do céu e da terra.

2. Se, deixando de adorar o Todo-Poderoso em espírito e em verdade, nos deixamos seduzir por alguma vaidade esplêndida do século, pecamos no mesmo grau como se nos tivéssemos prostrado diante de uma imagem de fundição.

3. Se em nossas conversas, leituras ou orações alguma vez pronunciamos sem reverência o “nome de Deus”, então tomamos esse “nome sagrado em vão”; e o próprio Deus declara que não terá por inocente quem assim procede.

4. Se nos recusamos a trabalhar com diligência, durante a semana, na obra da nossa vocação particular, ou se alguma vez fizemos do sábado um dia de indolência espiritual e de diversões frívolas, então desprezamos e quebramos aquela lei que nos é ordenado de modo especial “lembrar e guardar”.

5. Se em algum momento faltamos com obediência, respeito ou amor para com nossos pais, nossos pastores, nossos magistrados ou qualquer dos nossos superiores, ou se deixamos de cumprir algum dos deveres que nossas relações na sociedade ou nossa vocação particular nos impuseram, merecemos que Deus nos corte da terra dos viventes.

6. Se enfraquecemos a nossa saúde por qualquer espécie de excesso; se ferimos o próximo num momento de paixão; se alguma vez dissemos uma palavra injuriosa; se alguma vez lançamos um olhar movido pela malícia; se alguma vez formamos no coração um único mau desejo contra qualquer pessoa, ou se alguma vez deixamos de amar o nosso irmão, então, aos olhos de Deus, cometemos uma espécie de homicídio (1Jo 3.15).

7. Se alguma vez olhamos para uma mulher com outros sentimentos que não os da castidade (Mt 5.28), ou se em algum momento lançamos um olhar cobiçoso para as honras e os prazeres do mundo, provamos suficientemente a impureza da nossa natureza e devemos ser considerados como vivendo em inimizade com Deus (Tg 4.4).

8. Se recebemos o proveito ligado a algum cargo ou emprego sem cumprir cuidadosamente os deveres que nos cabiam nessa posição, ou se tiramos vantagem da ignorância ou da necessidade alheia para nos enriquecermos à custa dos outros, podemos com justiça colocar-nos entre os que violam abertamente o oitavo mandamento.

9. Se alguma vez ofendemos a verdade em nossa conversa comum, se deixamos de cumprir nossas promessas ou se alguma vez quebramos nossos votos, feitos a Deus ou aos homens, temos razão, nesse aspecto, para nos declarar culpados diante do tribunal da verdade imutável.

10. Se alguma vez estivemos descontentes com a nossa sorte na vida, se alguma vez alimentamos desejos inquietos ou cedemos a anseios invejosos e desordenados, então certamente admitimos no coração aquela cobiça que é a raiz de todos os males.

Quando São Paulo considerou a lei desse ponto de vista, exclamou: “A lei é espiritual. Eu, porém, sou carnal, vendido à escravidão do pecado” (Rm 7.14). E quando Isaías, passando da letra ao espírito, descobriu a vasta extensão do decálogo, exclamou: “Ai de mim! Porque sou homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de lábios impuros” (Is 6.5). Se os nossos moralistas, tão satisfeitos consigo mesmos, se deixassem persuadir a pesar a sua piedade na mesma balança, achá-la-iam pelo menos tão deficiente quanto a de Isaías e de São Paulo.

Aqui talvez algum fariseu objete: “Se pequei em certa medida, não cometi crimes como muitos outros cometeram, e confio que Deus não será severo em reparar em pecados insignificantes.” Mas: (1) Esses pretensos pecados insignificantes são ordinariamente tão numerosos que a multidão deles equivale à enormidade dos crimes raramente cometidos; assim também as montanhas e os mares não passam de ajuntamentos de grãos de areia e de gotas de água.

2. Toda transgressão voluntária revela um verdadeiro desprezo pela autoridade do legislador; e nesse desprezo se encontra a semente de todo pecado que se possa cometer contra o seu mandamento expresso. Todos os mandamentos de Deus, grandes ou pequenos, não têm outra sanção além da sua autoridade divina, e essa autoridade é pisada tanto pelo pequeno delinquente quanto pelo transgressor ousado.

3. Os pecados que costumamos considerar triviais são os mais perigosos, justamente porque lhes damos menos atenção. São cometidos sem temor, sem remorso e, em geral, sem interrupção. Assim como há mais navios de guerra destruídos pelos vermes do que pelos tiros do inimigo, a multidão dos que se perdem por pecados comuns excede o número dos que perecem por ofensas enormes.

4. Temos mil provas de que os pequenos pecados levam o homem, por graus imperceptíveis, a cometer outros maiores. Nada é mais comum entre nós do que o costume de jurar e de se irar sem motivo; e essas faltas costumam ser tidas por ofensas de pouca monta. Mas há toda razão para crer que os que contraíram esses hábitos viciosos estariam igualmente dispostos ao perjúrio e ao homicídio, se fossem assaltados por uma tentação forte e não fossem contidos pelo medo de perder a honra ou a vida. Assim como julgamos uma mercadoria por uma pequena amostra, pelos pequenos pecados, bem como pelos pequenos atos de virtude, podemos formar um juízo sobre o coração. Por isso as duas moedinhas da viúva pareceram uma oferta considerável aos olhos de Cristo, que por elas julgou quão rica oferta a mesma mulher teria feito, se tivesse os meios. Pela mesma razão, aquelas frequentes exclamações em que o nome de Deus é tomado em vão, aquelas zombarias mordazes e aquelas mentiras frívolas que surgem na conversa comum revelam a verdadeira disposição das pessoas que, sem afronta nem tentação, são capazes de violar as leis sagradas da piedade e do amor. As mesmas sementes produzem fruto mais ou menos perfeito conforme a esterilidade ou a fertilidade do solo em que são lançadas. Assim, o mesmo princípio de malícia que leva uma criança a atormentar um inseto age com mais força no coração da mulher maldizente, cuja maior alegria é despedaçar a reputação do próximo; e não é movido por princípio diferente o tirano cruel que encontra um prazer bárbaro em perseguir os justos e derramar o sangue dos inocentes.

Se o preconceito não admitir que essas observações sejam justas, a razão declara o contrário. A mesma ação que em certos casos seria tida por falha torna-se, em algumas circunstâncias, uma ofensa e, em outras, um crime enorme. Por exemplo: se desprezo um inferior, cometo uma falta; se o ofendido é meu igual, a minha falta cresce; se é meu superior, é maior ainda; se é um magistrado respeitável, um príncipe benfeitor; se esse príncipe é o meu soberano senhor, cuja clemência experimentei depois de repetidos atos de rebelião, que me cumulou de muitas bondades e que pretende conceder-me favores ainda maiores; e se, depois de tudo isso, fui levado a negá-lo e a opor-me a ele, o meu crime é sem dúvida agravado por todas essas circunstâncias a um grau extraordinário. Mas, se esse benfeitor ofendido é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis, o Criador do homem, o Monarca dos anjos, o Ancião de Dias, diante de quem a majestade de todos os monarcas da terra desaparece, como o brilho de mil estrelas é eclipsado pela presença do sol; se esse Ser glorioso entregou o seu Filho amado à infâmia e à morte para me obter a vida eterna e a glória celeste, então o meu crime deve ser agravado na proporção da minha própria pequenez, da grandeza dos benefícios recebidos e da dignidade do meu exaltado Benfeitor. Mas a nossa imaginação se perde quando tentamos medir a enormidade que essas circunstâncias acumuladas acrescentam aos atos de rebelião a que chamamos pecados.

Os que não desenvolvem a sua “salvação com temor e tremor” (Fp 2.12) vivem necessariamente na prática de algum pecado de temperamento; e essa condescendência consigo mesmos, por mais secreta que seja, não lhes permite perceber o demérito das suas transgressões diárias. Um velho devasso, cujo maior prazer foi seduzir mulheres, ou um assassino infame, que derramou sangue humano como água, poderiam com a mesma facilidade conceber o horror que o adultério e o homicídio despertam nas almas virtuosas.

Antes de podermos formar um juízo racional sobre o pecado e o castigo que ele merece, convém-nos ter ideias justas da ordem moral, notar a obrigação que pesa sobre o supremo Legislador de manter essa ordem por meio de leis salutares, e descobrir, em certa medida, a santidade, a excelência e a extensão desses mandamentos absolutos. É necessário compreender a dependência da criatura em relação ao Criador, pois a imagem formada pela presença de um objeto diante de um espelho não depende mais desse objeto do que todas as ordens de seres criados dependem do Criador: se ele retira a sua mão protetora, deixam de existir; se estende o braço da sua vingança, são lançados de uma vez num abismo de miséria. Devemos refletir sobre todas as diversas obrigações que temos para com o Todo-Poderoso, como Criador, Preservador, Redentor e Consolador. Devemos considerar os exemplos da sua justiça vingadora, que ele pôs diante dos nossos olhos de propósito para despertar o nosso temor, juntamente com os favores imerecidos com que constantemente procurou conquistar a nossa gratidão. Convém-nos também observar a vaidade de todas as aparências com que somos atraídos ao pecado; e, por fim, é necessário lembrar que “Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas” (Ec 12.14). Enquanto não dermos a devida atenção a cada uma dessas circunstâncias, formaremos necessariamente um juízo imperfeito sobre a natureza do pecado, sobre a severidade com que Deus determinou puni-lo e sobre a grandeza do sacrifício expiatório em virtude do qual a sua justiça e a sua misericórdia se unem para perdoar o penitente.

Quando a lei de Deus é transgredida deliberadamente, é ridículo alguém tentar justificar-se alegando que não cometeu crimes enormes, ou que, se alguma vez foi culpado de tais ofensas, as suas boas ações sempre bastaram para contrabalançar o demérito delas. Desculpas frívolas! Não basta um só ato de traição para marcar o traidor? Não é punido como desertor o soldado que abandona a sua bandeira uma única vez? E não perde a mulher a sua honra por um só momento de fraqueza?

Ainda que admitamos haver pecados de natureza particularmente atroz, assim como o homicídio sempre aparecerá diante de um tribunal terreno segundo a sua natureza horrível, o pecado sempre será considerado como tal diante de um Deus infinitamente santo. Suponha que um homem, acusado de ter envenenado deliberadamente um semelhante, se dirigisse ao juiz nestes termos: “A acusação contra mim é justa; mas considere-se que a pessoa que matei era apenas uma criança, que era filho de um mendigo qualquer, e que este é o único homicídio que cometi em toda a minha vida. Por outro lado, fui sempre benfeitor dos pobres; e certamente mil atos de caridade compensarão de sobra uma pequena dose de arsênico.” “Não”, responderia o juiz; “quando você prolongou com as suas esmolas a vida dos indigentes, apenas cumpriu um dever exigido universalmente de todo cidadão digno, e a lei não lhe concede nada por isso. Mas, se você deu a menor dose de veneno a qualquer criatura humana com intenção de lhe tirar a vida, a lei o declara homicida e o punirá como tal.”

Depois que os nossos primeiros pais ofenderam comendo o fruto proibido, em vão se teriam desculpado dizendo: “Só colhemos o que nos pareceu de pouco valor; provamos dele uma única vez; além disso, o nosso trabalho no jardim vale muito mais que o fruto que tomamos. Senhor, não nos condenes à morte por uma ofensa tão insignificante!” Tais são, porém, as desculpas frívolas com que todo moralista cego contenta a sua consciência cauterizada e com que espera satisfazer o seu Juiz onisciente. Quando São Paulo era um deles, praticava consigo mesmo as mesmas ilusões. Capaz apenas de sentimentos naturais, as verdades ocultas de uma lei espiritual eram para ele não só incompreensíveis, mas coisas vãs e tolas. Isso aprendemos da seguinte passagem da sua Epístola aos Romanos: “Houve um tempo em que, sem a lei, eu vivia”, dando pouca atenção à espiritualidade dos seus preceitos ou à severidade das suas ameaças, e sem suspeitar nem da minha corrupção nem da minha condenação. “Mas, quando veio o mandamento”, na sua energia espiritual, “o pecado reviveu”, assumindo uma aparência condizente com a sua natureza infernal, e, recebendo em mim mesmo a sentença de morte, “eu morri. Eu não teria conhecido o pecado, a não ser por meio da lei. Porque eu não teria conhecido a cobiça”, que é a fonte de todo mal e a primeira causa da nossa condenação, “se a lei não tivesse dito: ‘Não cobice'” (Rm 7.9, 7).

Todo cristão sincero, imitando esse apóstolo, pode dizer com propriedade: Há vários pecados que eu nunca teria visto como tais, senão à luz do evangelho. Por exemplo, eu vivia tranquilo quanto ao abuso da faculdade da fala e nunca teria sabido que o Todo-Poderoso pretende julgar-me sobre esse ponto, se o próprio Cristo não tivesse declarado abertamente: “No Dia do Juízo, as pessoas darão conta de toda palavra inútil que proferirem; porque, pelas suas palavras, você será justificado e, pelas suas palavras, você será condenado” (Mt 12.36-37). Se os que confiam na própria justiça se examinassem seriamente pela dupla lei de Moisés e de Cristo, formariam um novo juízo sobre a sua situação espiritual e passariam, com São Paulo, do estado do fariseu para o do publicano.

Mais ainda: os pecados de omissão, tanto quanto os de comissão, bastam para atrair sobre nós as maldições da lei, que igualmente nos manda fazer o bem e abster-nos do mal. Ofensas desse tipo raramente são vistas como pecados pela maioria das pessoas, e por isso elas não se alarmam nem um pouco ao lembrá-las. Faltar com diligência nos deveres, com moderação nas alegrias, com atenção nas orações e com zelo na devoção; viver sem gratidão para com o nosso divino Benfeitor, sem resignação nas perdas, sem paciência na aflição, sem confiança em Deus nos tempos de perigo e sem contentamento no estado a que ele nos chamou; carecer de humildade para com os superiores, de cortesia para com os iguais, de afabilidade para com os inferiores, de mansidão para com os que nos desagradam, de fidelidade à palavra dada, de estrita veracidade na conversa ou de caridade no juízo que fazemos dos outros: tudo isso nunca perturba o sossego do homem mundano, nem ele o considera ofensa real aos olhos de Deus. Ele não considera que uma ama descuidada pode matar uma criança negando-lhe o alimento devido tão eficazmente quanto se a obrigasse a beber uma poção venenosa; que um soldado seria condenado à morte se o inimigo surpreendesse uma cidade enquanto ele dormia no seu posto, exatamente como se estivesse ocupado em abrir-lhes as portas; e que Cristo apresenta a falta de um santo fervor como a grande razão por que os cristãos mornos lhe causam a maior aversão e repugnância (Ap 3.16). Um capítulo inteiro do evangelho é dedicado a nos ensinar que os pecados de omissão serão a principal causa da condenação do pecador no último dia. O servo preguiçoso é lançado nas trevas exteriores, não por ter roubado os talentos de outro, mas por não ter feito render o seu; as virgens insensatas são excluídas da festa de casamento, não por terem traído o noivo, mas porque não estavam preparadas para recebê-lo; e todo cristão conhece a terrível sentença que um dia será pronunciada sobre os ímpios: “Afastem-se de mim, malditos; porque tive fome, e vocês não me deram de comer” etc. (Mt 25). Para termos a religião “pura e sem mácula para com o nosso Deus”, não basta “guardar-se incontaminado do mundo”; é preciso também “visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições” (Tg 1.27), socorrendo os infelizes até o limite das nossas possibilidades e empregando todas as nossas forças para espalhar a verdade e a felicidade entre todos os que nos cercam.

Assim acuados, afinal, em muitos esconderijos perigosos, os pecadores não humilhados ainda ousam apresentar esta defesa: “Oramos, jejuamos, damos esmolas, recebemos o santo sacramento; que mais vocês exigem?” Esse era o fundamento da esperança dos antigos fariseus; mas Cristo e os seus apóstolos derrubaram essa vã confiança com os mesmos argumentos que os ministros evangélicos ainda são obrigados a voltar contra multidões de professantes religiosos que alimentam uma opinião elevada dos seus desprezíveis méritos.

O evangelho exige, dizem esses pastores fiéis, que aos sinais exteriores da religião você tenha o cuidado de acrescentar a humildade e o amor; e, se faltam essas duas graças capitais, a sua religião não passa de um corpo sem alma. Você recebeu os santos sacramentos da nossa Igreja; mas que efeitos salutares produziram na sua vida e no seu procedimento? A circuncisão que salvava os judeus não era a da carne, mas a do coração (Rm 2.29); e o batismo que salva os cristãos não é aquele pelo qual o corpo é aspergido com água, mas o que purifica a alma (1Pe 3.21). Assim, a páscoa que era aceitável a Deus da parte dos judeus não consistia simplesmente em comer o cordeiro pascal, mas em encher a alma de gratidão ao recordar os muitos livramentos maravilhosos que o Todo-Poderoso operara em favor do seu povo. E a comunhão que é aceitável da parte dos cristãos não consiste apenas em receber os elementos consagrados, como costumam fazer várias classes de pecadores, mas em unir-se ao Senhor por uma fé viva e a todos os seus membros por um amor ardente. Você ora; e os fariseus não oravam? Sim, eram notáveis por suas orações longas e zelosas; mas, ah!, enquanto reconheciam a Deus “com os seus lábios”, “o seu coração” estava “longe” dele (Is 29.13). Você dá esmolas; mas, se pretende com elas comprar o céu, apenas engana a própria alma, e a sua pretensa caridade degenera em insolência; ou, se busca apenas a reputação de pessoa caridosa, já recebeu a sua recompensa. Você jejua; mas, se o faz principalmente por costume ou por respeito às ordens do seu príncipe, o seu jejum não pode ser tido por religioso mais do que o regime que um médico lhe prescreve. E, se esses jejuns não produziram em você um arrependimento sincero e uma verdadeira conversão, por mais que você os considere atos de devoção, na realidade não passam de atos de hipocrisia. Além disso, os fariseus jejuavam duas vezes por semana, ao passo que você talvez esteja entre os que imaginam ter feito a Deus um sacrifício valioso abstendo-se de uma única refeição por ano.

Como os moralistas farisaicos “buscaram tantas invenções” (Ec 7.29) [N. do T.: a NAA traz “se meteu em muitos problemas”] para escapar da necessidade de um arrependimento sincero, e como os cristãos filosofantes se levantam de comum acordo contra essa doutrina do evangelho, concluiremos este assunto expondo as fontes do seu erro comum.

1. Há fantasmas de virtude, ou virtudes puramente naturais, que passam no mundo por divinas. Mas quem jamais imaginou que a pomba seja realmente virtuosa porque não a vemos, como a águia, lançar-se sobre aves mais fracas do que ela? Ou quem supõe que as vespas sejam insetos generosos porque as vemos defender-se mutuamente quando o seu ninho é atacado? A ternura conjugal e materna da espécie humana não aparece, em grau eminente, em várias espécies de aves? E não vemos entre as abelhas e as formigas aquele patriotismo ardente tão exaltado entre os romanos? Não exibe a aranha provas tão claras de engenho e vigilância quanto o artífice mais industrioso? E não mostram os animais carnívoros toda aquela intrepidez destemida de que tanto se gabam os heróis vaidosos? Não nos enganemos num assunto de tamanha importância: assim como só o amor pode dar às nossas esmolas o valor de boas obras, nada menos que o temor de Deus e a sincera intenção de agradá-lo pode dar às nossas inclinações mais valiosas o cunho de virtudes sólidas. Se pudéssemos expor por completo a liga sem valor que os mundanos costumam fazer passar por virtude de lei, muitos dos que hoje se julgam ricos em boas obras seriam obrigados a dizer: “me abomino e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42.6).

2. Muitas pessoas fazem uma ideia favorável demais do coração humano, por ignorarem a pureza sem mancha que Deus exige das suas criaturas inteligentes. Julgam a si mesmas e aos outros como um camponês julga uma redação cheia de solecismos: longe de mostrar o discernimento de um crítico, admira a vasta erudição do jovem autor. Assim, certos atos exteriores de devoção são aplaudidos por cristãos sem discernimento como obras louváveis, quando, aos olhos de Deus e diante dos espíritos santos, parecem inteiramente manchados e dignos de castigo.

3. Se às vezes somos enganados pela nossa própria ignorância, com mais frequência enganamos os outros pela nossa hipocrisia inata. Os não regenerados, depois de lançar um manto sobre os seus vícios dominantes, empenham-se em ostentar virtudes que não possuem. Vê-se às vezes o orgulhoso vestir o traje da humildade e, com a mais profunda reverência, declarar-se humílimo servo de um estranho que se aproxima. A imodéstia muitas vezes se mascara com um ar afetado de castidade e recato; o ódio, a inveja e a duplicidade se encobrem sob as aparências da boa índole, da amizade e da simplicidade; e essa hipocrisia universal contribui para tornar os que a praticam menos ofensivos por fora do que seriam de outro modo, assim como uma mulher sem beleza parece menos defeituosa a quem a olha de longe, depois de ter disfarçado com cuidado as manchas do rosto.

4. Acontece com frequência que um vício põe termo ao progresso de outro. Assim, a vaidade às vezes nos obriga a agir contra as máximas da avareza, a avareza contra as da preguiça, e a preguiça contra as da ambição. Um orgulho refinado geralmente basta para vencer os vícios desprezíveis e pode levar quem o possui a praticar muitas ações aparentemente virtuosas: por isso o fariseu ímpio e mesquinho ia regularmente ao templo, orava, jejuava, dava esmolas e, com todas essas aparências de piedade e benevolência, ganhava o elogio do mundo. A sociedade tira uma espécie de proveito desses atos de dissimulação, que são como a homenagem que o vício presta à virtude e a impiedade à devoção. Mas, apesar de toda aparência plausível que se possa assumir, quando o ministro do evangelho declara a queda do homem e a absoluta necessidade da regeneração, ele tem a seu favor, ao mesmo tempo, a revelação, a razão e a experiência.

5. Se a desordem moral de que a natureza humana está infectada nem sempre aparece no seu ponto mais alto, é porque, tendo a regeneração começado em muitas pessoas de todas as classes, os ímpios são contidos pela influência do seu exemplo. Acrescente-se a isso que Deus os refreia, como com um freio, pela sua providência e pelos movimentos da consciência que eles em vão procuram sufocar. É notório que o medo do desprezo público e do castigo às vezes consegue deter os mais devassos na sua carreira de vícios, pois não podem mostrar o que realmente são sem armar contra si o poder secular. Assim, o terror que as prisões e as forcas inspiram obriga lobos vorazes a se apresentarem em pele de ovelhas inofensivas. Mas é possível que uma inocência assim forçada tenha algum valor, mesmo entre os próprios pagãos? É impossível, pois vemos um dos seus poetas declarar:

Oderunt peccare mali, formidine pœnæ.

Os maus se abstêm de fazer o mal por medo do castigo. E toda a recompensa que ele julga devida a esses inocentes consiste em não virarem comida de corvos numa forca:

Non pasces in cruce corvos.

6. Se o temor servil é às vezes a causa da nossa inocência, a necessidade é mais comumente a causa das nossas virtudes aparentes. Um jovem com algum recato costuma ser cauteloso entre os seus superiores, que não lhe dão nem dinheiro para satisfazer as suas inclinações nem liberdade para revelá-las. Ora, se essa discrição forçada acabar por se tornar nele um hábito, poderá, nessas circunstâncias, julgar-se um homem virtuoso, por não ter mergulhado, como o filho de um cortesão dissoluto, em toda espécie de impiedade; quando, se tivesse gozado da mesma liberdade que o libertino desregrado, talvez o tivesse superado em todo excesso pecaminoso. Por outro lado, quando um devasso infame, enfraquecido pela idade ou por suas frequentes orgias, acha absolutamente necessário viver de modo mais sóbrio e ordenado, logo se toma por outro Catão, sem considerar que só a necessidade é a fonte da sua temperança. O menor excesso lhe transtorna a saúde, e a fraqueza do estômago o obriga a abster-se dos banquetes luxuosos de que ainda é capaz de falar com tanto prazer. Se alguém assim é virtuoso porque já não pode lançar-se aos excessos de antes, então poderemos provar que o ladrão mais incorrigível é homem honesto enquanto tem as algemas nas mãos, ou quando, assustado pelos oficiais da justiça, foge para algum esconderijo. Tem a mulher alguma razão para se gabar da sua conduta virtuosa, se nunca foi solicitada pelos homens que mais provavelmente teriam triunfado sobre o seu pudor? E, no entanto, muitas assim, cheias de aprovação de si mesmas, aplaudem frequentemente a própria inocência, pondo na conta da virtude o que se deveu apenas a circunstâncias providenciais, ou talvez à falta de atrativos pessoais. Tais aparências plausíveis não merecem o louvor devido à virtude sólida mais do que o lobo doente, que passa tranquilamente junto a um rebanho de ovelhas, mereceria os afagos que o pastor dá ao seu cão fiel.

7. Para enganar eficazmente os outros com um belo exterior, praticamos um engano mais profundo contra o nosso próprio coração; e muitas vezes conseguimos esconder de nós mesmos as nossas más disposições tão bem quanto ocultamos dos outros as nossas ações indignas. Se pudéssemos descobrir tudo o que se passa em segredo no mundo, não nos faltariam provas demonstrativas da depravação do coração humano. Mas por que ir buscar fora uma verdade que facilmente se comprova em casa? Se nós mesmos tivéssemos ousado executar abertamente o que praticamos na imaginação, quando as nossas paixões irascíveis ou concupiscíveis se agitaram, onde teríamos escondido a nossa cabeça culpada, ou como teríamos escapado da espada da justiça? Convencidos tarde demais da nossa natureza degenerada, talvez tivéssemos batido no peito com o publicano arrependido, adotando há muito tempo, na angústia da alma, a sua humilhante confissão. Toda pessoa que reflete há de admitir que, se as más intenções caíssem sob a alçada das leis humanas, e se o poder secular tivesse a mesma capacidade de puni-las que tem de punir as ações de que elas são a própria raiz e alma, a terra inteira se teria tornado um imenso cadafalso, como é hoje um lugar de sepulturas. Será necessário multiplicar observações sobre esse ponto, quando o Todo-Poderoso, cuja misericórdia e justiça são infinitas, declara suficientemente a depravação universal da humanidade pela variedade de flagelos com que se vê obrigado a punir tanto os indivíduos como as nações?

8. Se os filhos deste mundo são incapazes de formar uma ideia justa do coração humano e das suas más inclinações, é porque estão no número daquelas pessoas naturais de que fala o apóstolo Paulo (1Co 2.14). E essas, tendo uma antipatia natural pelo evangelho, ao mesmo tempo que estão sempre prontas a lançar opróbrio sobre os fiéis, estão igualmente dispostas a favorecer os que têm disposição semelhante à sua. Assim Herodes, Caifás e Pilatos fizeram vista grossa às faltas uns dos outros, enquanto se uniam para acusar e perseguir a Cristo.

É comum que muitos, desprovidos de verdadeira religião, considerem alguns dos seus companheiros pecadores como homens morais e bem-intencionados. Mas, se eles mesmos se convertessem de verdade, o seu erro nesse ponto logo se tornaria evidente. Ao ousarem opor-se a alguma torrente de impiedade com o zelo do seu Mestre celestial, em vez de encontrarem nos seus companheiros alguma disposição natural para a verdadeira virtude, deparariam com provas indiscutíveis, apesar de mil qualidades amáveis, de que todos os não regenerados se parecem uns com os outros na sua “inimizade contra Deus” (Rm 8.7). Sim, quer habitem às margens do Tâmisa ou do Sena, do lago de Genesaré ou do de Genebra, eles são, aos olhos de Deus, como porcos imundos que pisam as pérolas do evangelho (Mt 7.6), ou como “lobos vorazes” (Mt 7.15) que despedaçam com fúria o Cordeiro de Deus.

Talvez se pudesse objetar que este retrato está carregado demais, se o próprio Cristo, que é a Verdade imutável e o Amor insondável, não tivesse desenhado os traços mais sombrios que nele se observam. Seguindo tal guia, ainda que causemos muito escândalo, jamais podemos errar.

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Portrait of St. Paul: or, The True Model for Christians and Pastors, versão inglesa de Joshua Gilpin (1790) do manuscrito francês do autor, na edição de Nova York (B. Waugh e T. Mason, 1834), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Por isso esta é tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.