John Fletcher · O Retrato de São Paulo · Parte II (continuação)
O segundo ponto da doutrina do verdadeiro ministro: a fé viva em Cristo.
Mostrar a necessidade do arrependimento sem anunciar a remissão dos pecados pela fé em Jesus Cristo seria abrir uma ferida sem atá-la. Seria levar os pecadores à beira de um abismo tremendo e cortar-lhes toda possibilidade de retirada. Mas nada pode ser mais contrário à intenção do ministro fiel do que brincar com as misérias do homem ou, no fim das contas, agravar a sua aflição.
Quando ele revelou aos ouvintes aquela inclinação natural para o mal que manifesta a sua existência em todo coração por uma variedade de transgressões exteriores; quando os convenceu, pela palavra de Deus e por um apelo “à consciência de todos” (2Co 4.2), de que são incapazes de se livrar dessa inclinação fatal ou das suas terríveis consequências; depois de ter assim demonstrado a necessidade que têm de um Redentor a quem foi dada “toda a autoridade no céu e na terra” (Mt 28.18); se eles não endurecem “o coração” (Sl 95.8); se estão, como o primeiro pecador, nus e trêmulos diante de Deus (Gn 3.10), tendo em si mesmos “a sentença de morte” (2Co 1.9); numa palavra, quando clamam, como os publicanos e os soldados alarmados pela pregação de João: “O que devemos fazer?” (Lc 3.12), então estão devidamente dispostos a receber “o evangelho da glória de Cristo” (2Co 4.4) e se tornarão capazes de experimentar os seus poderosos efeitos. A partir desse momento, o pastor evangélico prega com afeto a remissão dos pecados pela fé no nome de um Redentor misericordioso.
Esse é exatamente o mesmo método que Cristo e o seu precursor seguiram. “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!”, era o clamor de João Batista (Jo 1.29). E “bem-aventurados”, disse nosso Senhor, “os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5.3). “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). “Quem crê no Filho tem a vida eterna; quem não crê no Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo 3.36) [N. do T.: a NAA traz “quem se mantém rebelde contra o Filho”]. “Aquele que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte [um manancial de consolação sagrada] a jorrar para a vida eterna” (Jo 4.14). E, quando a multidão lhe perguntou: “Que faremos para realizar as obras de Deus?”, “Jesus respondeu: A obra de Deus é esta: que vocês creiam naquele que ele enviou. De fato, a vontade de meu Pai é que todo aquele que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.28-29, 40). Foi assim que o nosso adorável Mestre proclamou a salvação pela fé nele mesmo. E, na verdade, foi só para esse fim que ele apareceu na terra, como aprendemos das últimas palavras que dirigiu aos discípulos: “Assim está escrito”, disse ele, “que o Cristo tinha de sofrer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia, e que em seu nome se pregasse remissão de pecados a todas as nações, começando em Jerusalém”, a morada dos seus assassinos (Lc 24.46-47).
Observe a grande comissão dada àqueles mensageiros da paz: “Vão por todo o mundo e preguem o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado” (Mc 16.15-16). No mesmo sentido foi a comissão com que o apóstolo Paulo foi depois honrado. “Eu apareci a você”, disse Jesus, o perseguido, “para constituí-lo ministro e testemunha diante dos gentios, para os quais agora eu o envio, para abrir os olhos deles e convertê-los das trevas para a luz e do poder de Satanás para Deus, a fim de que eles recebam remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim” (At 26.16-18).
Os apóstolos pregaram unanimemente em obediência às ordens e em conformidade com o exemplo do seu benigno Senhor. E todos os verdadeiros ministros, instruídos pelo mesmo Mestre divino, continuam a proclamar as boas-novas do evangelho pela fé em Jesus Cristo, dando em todos os seus sermões tanta ênfase a essa graça eficaz quanto o apóstolo dos gentios costumava dar em todas as suas epístolas. Vejam-se alguns exemplos do costume habitual de São Paulo nesse ponto. Depois de convencer os romanos da sua corrupção e miséria, ele lhes apresenta “a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus apresentou como propiciação, no seu sangue, mediante a fé. Deus fez isso para manifestar a sua justiça, por ter ele, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos, a fim de que o próprio Deus seja justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3.24-26). “Justificados, pois”, continua ele, “mediante a fé, temos paz com Deus por meio do nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1). Aos coríntios escreve: “Irmãos, venho lembrar-lhes o evangelho que anunciei a vocês, o qual vocês receberam e no qual continuam firmes. Por meio dele vocês também são salvos, a menos que tenham crido em vão” (1Co 15.1-2). Pois vocês “foram justificados no nome do Senhor Jesus” (1Co 6.11). Deus “nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos seres humanos. Pois aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co 5.18-21). Aos gálatas: “Sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Jesus Cristo, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei” (Gl 2.16). “Antes que viesse a fé, estávamos sob a tutela da lei. De maneira que a lei se tornou nosso guardião para nos conduzir a Cristo. Mas, agora que veio a fé, já não permanecemos subordinados ao guardião. Pois todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus” (Gl 3.23-26). Aos efésios: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos concedeu a sua graça gratuitamente no Amado. Nele temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados” (Ef 1.3, 6-7). “Porque pela graça vocês são salvos, mediante a fé; e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8-9). “Quanto ao mais, meus irmãos, vistam-se com toda a armadura de Deus; sobretudo, segurem o escudo da fé, com o qual poderão apagar todos os dardos inflamados do Maligno” (Ef 6.10-11, 16). Aos filipenses: “Fiquem firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé do evangelho” (Fp 1.27). “Nós nos gloriamos em Cristo Jesus, em vez de confiarmos na carne. Sim, considero tudo como perda, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, mas aquela que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé” (Fp 3.3, 8-9). Aos colossenses: “Deus achou por bem que, nele [no Filho], residisse toda a plenitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas. E vocês que, no passado, eram estranhos e inimigos no entendimento pelas obras más que praticavam, agora, porém, ele os reconciliou no corpo da sua carne, mediante a sua morte, para apresentá-los diante dele santos, inculpáveis e irrepreensíveis, se é que vocês permanecem na fé, alicerçados e firmes” (Cl 1.19-23). “Portanto, assim como vocês receberam Cristo Jesus, o Senhor, continuem a viver nele, estando enraizados e edificados nele, e confirmados na fé, como foi ensinado a vocês, crescendo em ação de graças” (Cl 2.6-7). Aos tessalonicenses: “Nós, porém, que somos do dia, sejamos sóbrios, revestindo-nos da couraça da fé. Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós para que, quer vigiemos, quer durmamos, vivamos em união com ele” (1Ts 5.8-10). “Irmãos, devemos sempre dar graças a Deus por vocês, pois a fé que vocês têm cresce cada vez mais. Ora, o Senhor virá para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram. Por isso, oramos para que o nosso Deus cumpra em vocês com poder a obra de fé, a fim de que o nome de nosso Senhor Jesus Cristo seja glorificado em vocês, e vocês nele” (2Ts 1.3, 10-12). A Timóteo: “Esta palavra é fiel e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. Mas, por esta mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim primeiro, Cristo Jesus pudesse mostrar a sua completa longanimidade, e eu servisse de modelo para todos os que hão de crer nele para a vida eterna” (1Tm 1.15-16). “Pois Deus, nosso Salvador, deseja que todos sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade. Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e a humanidade, Cristo Jesus, homem, que deu a si mesmo em resgate por todos” (1Tm 2.3-6). “Grande é o mistério da piedade: Deus foi manifestado na carne, justificado em espírito, visto pelos anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória” (1Tm 3.16) [N. do T.: a NAA traz “Aquele que foi manifestado na carne”]. “Deus nos salvou [isto é, nos pôs de posse da mesma salvação presente que experimentou a mulher pecadora, a qual, prostrada aos pés de Jesus em fé e oração, recebeu dele estas palavras de consolo: ‘Os seus pecados estão perdoados; a sua fé salvou você; vá em paz’ (Lc 7.48, 50)]. Deus nos salvou, não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria graça que nos foi dada em Cristo Jesus, o qual não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho” (2Tm 1.9-10). A Tito: “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, a Tito, verdadeiro filho, segundo a fé comum: graça, misericórdia e paz, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador” (Tt 1.1, 4) [N. do T.: a NAA não traz “misericórdia” e diz “de Cristo Jesus, nosso Salvador”], “o qual deu a si mesmo por nós, a fim de nos remir de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, dedicado à prática de boas obras” (Tt 2.14). “Pois nós também, no passado, éramos desobedientes. Mas quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor por todos, ele nos salvou, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia, a fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna” (Tt 3.3-7). A Filemom escreve: “Que a graça e a paz de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo estejam com vocês. Dou graças ao meu Deus, porque tenho ouvido falar da fé que você tem no Senhor Jesus. A graça do Senhor Jesus Cristo esteja com o espírito de todos vocês” (Fm 3-5, 25). Assim, um Salvador perseguido se tornou o Alfa e o Ômega desse grande apóstolo.
Na Epístola aos Hebreus ele usa a mesma linguagem. Ela começa e termina com aquele que é “o Princípio e o Fim” de todas as coisas (Ap 22.13). “Deus”, diz ele, “nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, pelo qual também fez o universo. O Filho, que é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela sua palavra poderosa, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas” (Hb 1.1-3). “Porque convinha que Deus, por causa de quem e por meio de quem todas as coisas existem, conduzindo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse, por meio de sofrimentos, o Autor da salvação deles. Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, também Jesus, igualmente, participou dessas coisas, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse todos os que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida” (Hb 2.10, 14-15). “Embora fosse Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna” (Hb 5.8-9). “Jesus, no entanto, porque continua para sempre, tem o seu sacerdócio imutável. Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se aproximam de Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb 7.24-25). “E tendo um grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos em plena certeza de fé” (Hb 10.21-22). “Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se veem. Pois, pela fé, os antigos obtiveram bom testemunho; eles, por meio da fé, conquistaram reinos, praticaram a justiça, obtiveram promessas, fecharam a boca de leões, extinguiram a violência do fogo, escaparam de ser mortos à espada, da fraqueza tiraram força, fizeram-se poderosos na guerra, puseram em fuga exércitos estrangeiros” (Hb 11.1-2, 33-34). “Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, corramos com perseverança a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus” (Hb 12.1-2). “Ora, o Deus da paz aperfeiçoe vocês em todo o bem, para que possam fazer a vontade dele. Que ele opere em nós o que é agradável diante dele, por meio de Jesus Cristo, a quem seja a glória para todo o sempre” (Hb 13.20-21).
O mesmo Salvador que São Paulo tanto se empenhava em anunciar nas suas epístolas, ele o pregava com a mesma constância nos seus sermões. Mal se converteu, “logo”, diz São Lucas, “nas sinagogas, proclamava Jesus, afirmando que ele é o Filho de Deus” (At 9.20). Veja-se um resumo do primeiro dos seus sermões que ficou registrado, pregado em Antioquia da Pisídia. Depois de afirmar o cumprimento da gloriosa promessa feita outrora a respeito do nascimento do nosso onipotente Salvador, ele exclama: “Irmãos, descendência de Abraão e todos vocês que temem a Deus, a nós foi enviada a palavra desta salvação.” Pois os moradores e as autoridades de Jerusalém, “não conhecendo Jesus”, nem entendendo o sentido das profecias que são lidas “todos os sábados”, deram-lhes o seu triste cumprimento, condenando o Senhor da vida e da glória. “E, embora não achassem nenhuma causa de morte, pediram a Pilatos que ele fosse morto. Depois de cumprirem tudo o que estava escrito a respeito dele, puseram-no em um túmulo.” Mas Deus, depois de três dias, o ressuscitou triunfante do sepulcro. “E durante muitos dias ele foi visto” pelos seus discípulos maravilhados, a quem continuou a visitar e instruir mesmo depois da sua ressurreição, para que se tornassem “as suas testemunhas diante do povo”. E agora “nós anunciamos a vocês o evangelho da promessa feita aos nossos pais, como Deus a cumpriu plenamente, ressuscitando Jesus. Portanto, meus irmãos, saibam que é por meio de Jesus que a remissão dos pecados é anunciada a vocês; e, por meio dele, todo o que crê é justificado de todas as coisas das quais vocês não puderam ser justificados pela lei de Moisés. Portanto, tenham cuidado para que não lhes aconteça o que os profetas disseram: ‘Vejam, ó desprezadores! Fiquem maravilhados e desapareçam, porque, no tempo de vocês, eu realizo obra tal que vocês não acreditarão se alguém lhes contar'” (At 13). Quando a cruz de Cristo e os seus felizes efeitos são assim anunciados fielmente, a palavra de Deus nunca é pregada inteiramente em vão. É verdade que alguns sempre a rejeitarão e se julgarão indignos da vida eterna (At 13.46). Mas outros se alegrarão na verdade, glorificando a palavra do Senhor; e todos os que, por uma verdadeira pobreza de espírito, estão dispostos para a vida eterna crerão eficazmente (At 13.48).
Algum tempo depois, São Paulo pregou um sermão na prisão de Filipos, capital da Macedônia. São Lucas, seu historiador, não nos deixou esse discurso, mas nos transmitiu o seu assunto. Pecador desesperado, disse o apóstolo ao carcereiro aterrorizado, que tremia aos seus pés, “creia no Senhor Jesus e você será salvo, você e toda a sua casa”. Depois de ouvir isso, o homem, atônito, reuniu a sua família, e o apóstolo continuou o seu discurso, anunciando a todos eles “a palavra de Deus”. Tais são os pequenos restos que podemos recolher desse excelente sermão. Mas, embora não conheçamos as suas diversas partes, sabemos que foi acompanhado dos mais felizes efeitos: antes de raiar o dia, aquele carcereiro convertido, arrancado da própria beira da perdição, foi visto com toda a sua família crente alegrando-se em Deus (At 16).
Quando o mesmo apóstolo foi depois chamado a falar diante do conselho de Atenas, não podia, com propriedade, apresentar àqueles filósofos não humilhados “o mistério do evangelho” (Ef 6.19). Mas, depois de dar testemunho público contra a superstição e a idolatria deles, insistiu na necessidade de um arrependimento sincero, anunciando Cristo como Juiz onisciente, para depois proclamá-lo como Salvador compassivo dos homens (At 17). No mesmo sentido foi aquele outro sermão seu, pronunciado diante do tribunal de Félix, quando se viu o governador romano tremer sob o poder da pregação de um apóstolo (At 24.25). O pouco efeito produzido por esses dois últimos discursos pode servir de prova de que as verdades mais importantes são escondidas “dos sábios e instruídos”, ao passo que são reveladas “aos pequeninos” (Mt 11.25).
Foi proclamando o mesmo Salvador poderoso que Santo Estêvão obteve para si a primeira coroa do martírio entre os cristãos. Eis um resumo da sua célebre defesa: “Irmãos e pais”, vocês me acusam de ter falado blasfêmias contra Moisés. Pelo contrário, eu o reconheço publicamente como o libertador dos nossos pais e aproveito de bom grado esta ocasião para argumentar com vocês a partir do caráter desse profeta favorecido. “Moisés pensava”, por certas ações suas, “que seus irmãos entenderiam que Deus queria salvá-los por meio dele.” Mas estavam tão longe de entender tal coisa que um deles o repeliu, gritando em tom insultuoso: “Quem colocou você como chefe e juiz sobre nós?” Esse Moisés, porém, que eles assim recusaram, foi escolhido por Deus para ser o seu futuro chefe e libertador. “Foi ainda Moisés quem disse aos filhos de Israel: ‘Deus fará com que, do meio dos irmãos de vocês, se levante um profeta semelhante a mim.'” Um profeta que vocês a princípio rejeitarão, como me rejeitaram, mas que, quando o receberem, os livrará do Egito espiritual, como eu outrora os livrei da terra da escravidão, quando deram crédito à minha palavra. Esse Salvador prometido já apareceu entre nós, e vocês o rejeitaram para a sua própria condenação. Assim como os nossos pais rejeitaram Moisés no deserto, repelindo-o e voltando de coração para o Egito, vocês rejeitaram o seu Libertador maior. “Incircuncisos de coração e de ouvidos, vocês sempre resistem ao Espírito Santo. Vocês fazem exatamente o mesmo que fizeram os seus pais. Qual dos profetas os pais de vocês não perseguiram? Eles mataram os que anteriormente anunciavam a vinda do Justo, do qual vocês agora se tornaram traidores e assassinos, vocês que receberam a lei por ministério de anjos e não a guardaram” (At 7).
Que a pregação poderosa do evangelho às vezes se torna “cheiro de morte para morte” (2Co 2.16), fica bastante claro pelo relato seguinte. Depois que Estêvão terminou o seu discurso, o coração dos ouvintes se encheu de fúria, a tal ponto que “rangiam os dentes contra ele”. Enquanto isso, o santo mártir continuava a proclamar Cristo; e, longe de se intimidar com as ameaças deles, fitando os olhos no céu numa espécie de êxtase, produzido pela força da sua fé, pelo vigor da sua esperança e pelo ardor do seu amor, exclamou: “Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem, em pé à direita de Deus.” E, enquanto a multidão avançava contra ele com pedras, depois de entregar a própria alma aos cuidados do seu Salvador exaltado, gritou bem alto: “Senhor, não os condenes por causa deste pecado!” Eis uma defesa que os pregadores daquele tempo consideraram cheia de ignorância e de fanatismo, embora proferida por um evangelista cheio de fé e de poder, e do Espírito Santo!
A mesma doutrina foi pregada pelos evangelistas que se espalharam por causa da perseguição levantada contra Estêvão, e foi acompanhada da bênção do Senhor. Pois lemos que alguns deles, entrando na cidade de Antioquia, falavam também aos gregos que ali estavam, anunciando-lhes o Senhor Jesus; e a mão do Senhor estava com eles, de modo que “muitos, crendo, se converteram ao Senhor” (At 11.19-21).
Passaremos agora a escolher algumas provas de que todos os apóstolos tinham um só coração nesta matéria, pregando Jesus Cristo como o Salvador de todos os que nele creem.
Embora São Tiago tenha escrito a sua epístola declaradamente contra o erro daqueles que haviam destruído a lei do amor por meio de uma fé imaginária em Cristo, ele está tão longe de desprezar a fé substancial dos crentes que, como “servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo”, exorta os falsos irmãos a buscá-la e a manifestá-la pelos frutos que lhe são próprios. Chega a empregar uma espécie de ironia para mostrar a necessidade dessa graça poderosa: “Mostre-me essa sua fé sem as obras, e eu, com as obras, lhe mostrarei a minha fé” (Tg 2.18). Dá a entender que a nossa fé precisa ser provada por “várias provações”, para que nos tornemos “perfeitos e íntegros” diante de Deus. Daí aprendemos que, no juízo dele, a perfeição dos cristãos depende inteiramente da perfeição da sua fé (Tg 1.2-4). Por isso ele nos exorta a pedir sabedoria com fé. E, por fim, declara que a oração da fé será poderosa para obter saúde para o enfermo e perdão para o pecador (Tg 5.15).
Basta uma leitura atenta desta epístola para nos convencer de que São Tiago anuncia uma fé que salva o cristão, produzindo nele esperança, amor e toda boa obra.
A mesma doutrina foi ensinada por São Pedro, tanto nos seus sermões como nas suas epístolas. Três mil almas se converteram quando ele clamou, no dia de Pentecostes: “Israelitas, Jesus, o Nazareno, homem aprovado por Deus diante de vocês com milagres, prodígios e sinais, a este, conforme o plano determinado de Deus, vocês mataram, crucificando-o por meio de homens maus. Porém Deus o ressuscitou, livrando-o da agonia da morte, porque não era possível que aquele que é a ressurreição e a vida (Jo 11.25) fosse retido por ela. Este Jesus, exaltado, pois, à direita de Deus, derramou isto que vocês estão vendo e ouvindo. Portanto, toda a casa de Israel esteja absolutamente certa de que a este Jesus, que vocês crucificaram, Deus o fez Senhor e Cristo.” Ora, quando a multidão, convencida, perguntou na sua angústia: “Que faremos, irmãos?”, Pedro respondeu: “Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado [isto é, primeiro creiam de coração, e depois, pelo batismo, façam confissão pública dessa fé] em nome de Jesus Cristo para remissão dos seus pecados, e vocês receberão o dom do Espírito Santo” (At 2).
O seu segundo discurso foi no mesmo sentido: “O Deus dos nossos pais glorificou o seu Servo Jesus, a quem vocês traíram e negaram diante de Pilatos, quando este já havia decidido soltá-lo. Vocês pediram que fosse solto um assassino e mataram o Autor da vida, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, do que nós somos testemunhas. Pela fé no nome de Jesus é que esse mesmo nome fortaleceu a este homem que vocês estão vendo e bem conhecem. Sim, a fé que vem por meio de Jesus deu a este homem saúde perfeita na presença de todos vocês. E agora, irmãos, arrependam-se e se convertam, para que sejam cancelados os seus pecados, a fim de que da presença do Senhor venham tempos de refrigério” (At 3.13-20).
A sua defesa diante do Sinédrio se apoiou nas mesmas verdades divinas: “Saibam os senhores todos e todo o povo de Israel que, em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, a quem vocês crucificaram e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, sim, em seu nome é que este está curado na presença de vocês. Este Jesus é a pedra que vocês, os construtores, rejeitaram, mas ele veio a ser a pedra angular. E não há salvação em nenhum outro, porque debaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4.10-12). Assim São Pedro, “cheio do Espírito Santo”, anunciava “com ousadia a palavra de Deus”, e “com grande poder” dava “testemunho da ressurreição do Senhor Jesus” (At 4.31, 33). Mesmo depois de receber ordem de não falar mais no nome de Jesus, retirou-se do Sinédrio alegre por ter sido considerado digno de sofrer afrontas por amor do seu Mestre, “e todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessava de ensinar e de pregar Jesus Cristo” (At 5.40, 42).
O quarto sermão deste apóstolo corresponde perfeitamente aos anteriores. Esse discurso foi proferido na casa de Cornélio, o centurião, a quem um anjo havia revelado de antemão que Pedro lhe diria as coisas pelas quais seriam salvos ele e toda a sua casa. De todos os sermões já pregados, este foi talvez o mais eficaz, pois se observa que “caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra”. Eis um resumo desse discurso poderoso. Deus anunciou a paz “aos filhos de Israel, por meio de Jesus Cristo”, a quem eles mataram, “pendurando-o num madeiro. Mas” ele, ressuscitado pelo poder de Deus, “nos mandou pregar ao povo e testemunhar que ele foi constituído por Deus como Juiz de vivos e de mortos. Dele todos os profetas dão testemunho de que, por meio do seu nome, todo o que nele crê recebe remissão dos pecados” (At 10.36-43).
E, como nos seus sermões, assim também nas suas epístolas, São Pedro sempre se empenhou em anunciar a salvação pela fé no nome de Jesus Cristo.
“Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos eleitos de Deus. Bendito seja o Deus que nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança que não pode ser destruída, reservada nos céus para vocês, que são guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação” (1Pe 1.1-5). “Pois isso está na Escritura: Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será envergonhado. Mas, para os desobedientes, ele se tornou pedra de tropeço e rocha de ofensa” (1Pe 2.6-8).
A segunda epístola de São Pedro foi escrita para firmar os fracos e consolidar os fortes. No primeiro versículo, Cristo é apresentado como o autor e consumador da nossa fé; no último, a glória da nossa salvação é atribuída expressamente à mesma Pessoa divina. E esses dois versículos podem ser dados como resumo de toda a epístola.
Essa fé poderosa e esse Salvador adorável foram anunciados com a mesma constância pelo apóstolo João. Embora São Lucas não nos tenha transmitido nenhum trecho dos seus discursos, a sua doutrina se manifesta suficientemente nas suas epístolas.
“Se alguém pecar”, diz esse apóstolo favorecido, “temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo. E ele é a propiciação pelos nossos pecados” (1Jo 2.1-2). “Ele se manifestou para tirar os pecados. E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho, Jesus Cristo” (1Jo 3.5, 23). “Todo aquele que crê é nascido de Deus; todo o que é nascido de Deus vence o mundo. E esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (1Jo 5.1, 4). “Estas coisas escrevi a vocês que creem no nome do Filho de Deus para que saibam que têm a vida eterna e para que” creiam com firmeza ainda maior (v. 13).
“Muitos enganadores”, prossegue o mesmo apóstolo na sua segunda epístola, “têm saído mundo afora, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne; este é o enganador e o anticristo. Todo aquele que não permanece na doutrina de Cristo não tem Deus; o que permanece na doutrina de Cristo, esse tem tanto o Pai como o Filho” (2Jo 7, 9). Aqui São João, prevendo a triste mudança que esses mestres anticristãos um dia produziriam na igreja, apesar da sua mansidão natural, clama contra eles com santa indignação: “Se alguém for até vocês e não levar esta doutrina, não o recebam em casa, nem lhe deem as boas-vindas. Porque aquele que lhe dá boas-vindas se faz cúmplice das suas obras más” (2Jo 10-11).
Na sua terceira epístola, ele expressa a maior alegria por Gaio, por causa da sua firme adesão à verdade, assegurando-lhe que não tinha alegria maior do que ouvir que os seus filhos continuavam a andar nas verdades do evangelho. Elogia o seu amor para com o povo de Deus e o exorta a continuar como cooperador da verdade, dando acolhida hospitaleira aos que andavam de lugar em lugar com o propósito de espalhar essa verdade.
São Judas, na sua breve epístola, escreve assim: “Amados, quando eu me empenhava para escrever-lhes a respeito da salvação que temos em comum, senti que era necessário corresponder-me com vocês, para exortá-los a lutar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. Pois certos indivíduos se infiltraram no meio de vocês sem serem notados, e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo” (Jd 3-4). “Mas vocês, meus amados, edificando-se na fé santíssima que vocês têm, orando no Espírito Santo, mantenham-se no amor de Deus, esperando a misericórdia do nosso Senhor Jesus Cristo, que conduz para a vida eterna” (Jd 20-21).
O livro que encerra o Novo Testamento está cheio de testemunhos marcantes das verdades expostas acima, e foi acrescentado para consolo da igreja em todas as épocas. Ele se abre com um louvor sublime dirigido àquele Salvador incompreensível que é “o Alfa e o Ômega”, “a Fiel Testemunha, o Primogênito dos mortos e o Soberano dos reis da terra”, “àquele que nos ama e, pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados, e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai”, para todo o sempre (Ap 1.5-6).
Os fiéis, que gemem em segredo ao ver o seu Mestre rejeitado pelos deístas e desprezado pela maior parte dos cristãos, contemplam com santo enlevo as cenas que São João aqui descreve. Nelas veem aquele Salvador condescendente, que foi desonrado na terra, reconhecido e adorado pelas hostes do céu. Veem os anciãos prostrados e contemplam a multidão incontável dos remidos reunida diante do trono. Ouvem aquele cântico novo de adoração em que os anjos e os espíritos dos justos aperfeiçoados clamam a uma só voz: “Digno é o Cordeiro que foi morto de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a honra, a glória e o louvor” (Ap 5.12). São cenas que o crente, com o auxílio de uma fé viva, consegue tornar reais para si, e nas quais ele já toma parte humilde, dizendo com os seus irmãos mais exaltados: “Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro sejam o louvor, a honra, a glória e o domínio para todo o sempre” (v. 13).
Esse livro misterioso termina com aquela breve oração de São João que um dia será elevada, com a energia do Espírito Santo, por milhões e milhões de fiéis: “Vem, Senhor Jesus!”, para cumprir plenamente as tuas promessas cheias de graça (Ap 22.20).
Se alguém perguntar aqui: “Não sustentam todos os ministros essa fé bíblica?”, respondo: é raro que a maioria dos ministros trate de um ponto de tão grande importância; e, mesmo quando os ouvimos falar dessa graça poderosa, eles a apresentam como algo claramente diferente daquela fé viva pela qual somos regenerados. Se alguma vez conversam sobre esse assunto com os seus catecúmenos, falam como homens que tentam ensinar o que ainda precisam aprender. Repetem com frequência a palavra fé, mas são incapazes de explicar o seu sentido espiritual. Dão por certo que todos os seus vizinhos possuem essa graça, exceto os que rejeitam abertamente a palavra de Deus; e assim ficam perfeitamente satisfeitos com aquela espécie de fé contra a qual São Paulo e São Tiago tiveram autoridade para pronunciar os anátemas do evangelho. Por isso, um dos últimos textos que um pastor mundano escolheria é aquela solene exortação do apóstolo: “Examinem-se para ver se realmente estão na fé; provem a si mesmos. Ou não reconhecem que Jesus Cristo está em vocês? A não ser que já tenham sido reprovados” (2Co 13.5). A fé com que ele se contenta, e que anuncia aos outros, pode ser possuída igualmente pelos que se conformam com este presente século mau e pelos que “crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos” (Gl 5.24). Ela pertence tanto aos fariseus que se exaltam a si mesmos e se gabam da própria justiça quanto aos crentes humildes que se consideram indignos dos benefícios que receberam.
Mais ainda: o ministro mal instruído está tão longe de pregar a verdadeira fé que está sempre pronto a argumentar contra ela. Para confirmar essa triste verdade, considere o relato seguinte.
Um crente, cujas circunstâncias o levavam com frequência a conversar com um homem mundano da sua vizinhança, aproveitou certa vez a ocasião para lhe dar os conselhos que o amor fraterno lhe sugeria. Depois das cortesias de costume, disse ele: Senhor, somos vizinhos há tempo suficiente para nos conhecermos; e suponho que a intimidade do nosso convívio nos autoriza a falar um ao outro sem nenhuma reserva. Tem-me dado verdadeira satisfação observar a sua presença constante na nossa igreja e a sua atenção rigorosa aos seus ofícios mais solenes. Ainda assim, permita-me expressar o meu receio de que o senhor não esteja buscando o Reino de Deus com aquele empenho e aquela solicitude sem os quais ele jamais pode ser alcançado. Embora seja assíduo na igreja, é igualmente assíduo nas mesas de festa; e um banquete próximo parece lhe dar mais prazer do que uma ceia do Senhor próxima. Vejo regularmente a gazeta sobre a sua mesa, com uma variedade de publicações novas e engenhosas; mas nunca o encontrei lendo as páginas sagradas de um volume mais importante. Já o ouvi falar de modo agradável sobre vinte assuntos diferentes; mas não me lembro de que a sua conversa tenha alguma vez se voltado para aquilo que nosso Senhor chamou de a única coisa “necessária” (Lc 10.42). Em suma, senhor, pela sua conduta, receio que o senhor desconheça por completo a fé evangélica; e, se for assim, a sua esperança é tão ilusória quanto a sua devoção é farisaica.
Vizinho. Fico grato, senhor, pelo interesse que o senhor parece ter pela minha salvação; mas permita-me dizer, com Salomão: “Tudo tem o seu tempo determinado.”
Crente. Sim, senhor, para tudo o que é bom. Mas, se o senhor realmente crê que há tempo para todas as coisas, não é espantoso que, depois de encontrar quatro momentos por dia convenientes para comer e beber com a sua família, não encontre ocasião apropriada, no decorrer de uma semana inteira, para derramar as suas orações diante de Deus junto com essa família?
V. É verdade que não me orgulho da minha piedade; e lhe confesso que frequento a igreja e a santa comunhão mais por decoro do que por gosto. Apesar disso, a minha fé é tão ortodoxa quanto a dos meus vizinhos. Todos nós cremos em Deus como nosso Criador e em Cristo como nosso Redentor, exceto umas poucas pessoas que se gloriam em pisar toda revelação. Quanto a mim, nunca me desviei da fé desde que conheci o Credo Apostólico; e isso foi tão cedo na vida que hoje não consigo lembrar quem primeiro me ensinou.
C. Parece, então, vizinho, que o senhor absorveu a sua fé como sorveu o leite da sua ama; e aprendeu a crer em Cristo, e não em Maomé, porque calhou de lhe ensinarem a língua inglesa, e não a turca.
V. Pode ser. Mas, se eu fosse maometano, creio que também poderia ser um homem honesto. Dou a cada um o que lhe é devido. Esse é o grande princípio pelo qual sempre agi, e por ele deixo que todo homem sensato julgue a minha fé.
C. Ah, senhor! Se esses são os princípios que regem a sua conduta, então entregue plenamente o seu coração a Deus e consagre ao serviço dele as faculdades do corpo e da alma que o senhor recebeu da bondade dele, e às quais ele tem direito tão justo. Mas, infelizmente, sem piedade, a sua estrita justiça é como a fidelidade de um súdito que cumpre os seus compromissos com algumas pessoas em particular, enquanto nega a homenagem devida ao seu legítimo soberano. Se tal súdito pode ser chamado fiel, então o senhor pode, com razão, ser tido por justo, enquanto não oferece a Deus aquele tributo de amor, gratidão, adoração e obediência que é o seu culto racional. O senhor me confessou há pouco que não se orgulhava da sua piedade; não me teria espantado mais se dissesse que não se orgulhava de pagar as suas dívidas e de agir com a honestidade mais comum no mundo. Ah, senhor, os princípios de que se gaba só confirmam os receios que a sua conduta havia despertado. Rogo-lhe, da maneira mais solene, que “examine a si mesmo para ver se realmente está na fé”.
V. O que o senhor chama de fé?
C. As Escrituras nos ensinam que devemos crer com o coração e que “a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se veem” (Hb 11.1). Portanto, quem crê verdadeiramente no Pai, no Filho e no Espírito Santo traz dentro de si uma demonstração viva da presença do Todo-Poderoso, que o penetra de sentimentos de temor, respeito e amor por um Ser tão poderoso, justo e bom. Possui uma evidência interior do afeto daquele Redentor no qual unicamente funda a sua esperança de salvação, saudando-o, com Natanael, como “o Filho de Deus”, “o Rei de Israel” (Jo 1.49). E descobre no próprio coração os testemunhos mais indiscutíveis das operações santificadoras e consoladoras do Espírito Santo. Ora, a partir dessa tríplice demonstração, ele pode dizer, com os devidos sentimentos de gratidão e devoção: “Vejam que grande amor o Pai nos tem concedido, a ponto de sermos chamados filhos de Deus” (1Jo 3.1). “Ele nos concedeu gratuitamente a sua graça no Amado, no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados” (Ef 1.6-7); e “o próprio Espírito confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16). Diga-me, então, já que o senhor se gaba de ter recebido a fé cristã: já experimentou esses efeitos salutares da fé que acabo de descrever?
V. Se essa demonstração e essa representação viva de que o senhor fala são essenciais à fé cristã, devo confessar que sou completamente estranho a tal fé. Mas os escritos de São Paulo, cuja definição de fé o senhor acaba de citar, são em geral considerados notavelmente obscuros e misteriosos; preferia que o senhor tivesse citado São João.
C. Duvido, senhor, que ganhe alguma coisa com esse apelo. “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo”, diz São João, “é nascido de Deus. Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé. Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?” (1Jo 5.1-5). O senhor percebe que, segundo esse apóstolo, a fé é um princípio de graça e de poder bastante forte e vitorioso para nos regenerar e nos fazer participantes da natureza divina, capacitando-nos a triunfar igualmente sobre as circunstâncias mais sedutoras e sobre as mais aflitivas do mundo. O senhor alcançou, ou ao menos buscou, a fé da qual se dizem coisas tão excelentes?
V. O senhor me deixa embaraçado. Nunca ouvi a menor menção de tal fé neste país.
C. Na verdade, senhor, o senhor está enganado, pois essa mesma fé está claramente exposta no capítulo dezesseis da Confissão Helvética. “A fé cristã”, dizem os piedosos ministros que compuseram essa obra, “não é mera opinião ou persuasão humana, mas um estado de plena certeza: ela não só dá um assentimento constante e claro às verdades de Deus, tais como nos são propostas no Credo Apostólico, mas também as compreende e abraça. Por esse ato, a alma se une a Deus, como ao seu único, eterno e soberano bem, e a Jesus Cristo, como ao centro de todas as promessas.” O senhor tem, então, essa persuasão divina, essa plena certeza das verdades da nossa santa religião? E já experimentou esse ato pelo qual a alma se une a Deus, por meio de Cristo, como ao seu soberano bem?
V. Tenho, sem dúvida, a persuasão de que a palavra de Deus é verdadeira. Mas como posso determinar com absoluta certeza se possuo ou não a fé de que o senhor fala?
C. Se o senhor possui a fé, tem algum conhecimento experimental dos felizes efeitos dessa graça, que a mesma confissão enumera assim: “A verdadeira fé restitui a paz à consciência. Ela nos dá livre acesso a Deus, capacitando-nos tanto a nos aproximar dele com confiança como a obter dele aquilo de que necessitamos. Ela nos mantém no caminho da obediência, revestindo-nos de poder para cumprir os nossos diversos deveres, tanto para com Deus como para com o próximo. Ela sustenta a nossa paciência na adversidade e nos dispõe, em todo tempo, a uma confissão sincera da nossa confiança. Para resumir tudo numa só palavra, ela produz toda boa obra.” “Observe-se”, diz a mesma confissão, “que não falamos aqui de uma fé fingida, vã, ineficaz e morta, mas de uma fé viva, eficaz e vivificante. Esta é uma doutrina que não se pode entender que São Tiago combata, visto que ele fala de uma confiança vã e presunçosa, da qual alguns se gabavam, embora não tivessem Cristo vivendo neles por meio da fé.”
V. “Cristo vivendo neles por meio da fé!” Peço-lhe, senhor, o que se deve entender por essa expressão? Não compreendo a coisa. Mas, se eu me lembrar, terei oportunidade, dentro de poucas horas, de mencionar o assunto ao nosso pastor, que espero aqui esta noite para formar uma mesa de cartas. O verdadeiro crente, depois de agradecer ao seu vizinho mundano a paciência com que ouvira a conversa, despediu-se e retirou-se, temendo toda espécie de mal da decisão de um pastor conhecido pelo gosto do jogo e dos divertimentos vãos. Os seus receios eram fundados demais. O ministro, fiel ao compromisso, chegou à hora marcada, e o cavalheiro logo se dirigiu a ele com ansiedade: “Acabo de receber uns conselhos singulares de uma pessoa de feitio muito estranho, que parece concordar com os místicos ou com os pietistas. Falou muito de fé, afirmando que todos os verdadeiros cristãos são realmente regenerados e que têm Cristo vivendo neles pela fé. O que o senhor pensa de afirmações como essas?” “Vou lhe dizer com franqueza”, respondeu o ministro, “que esses pontos abstrusos de doutrina estão entre aqueles mistérios profundos que nem o senhor nem eu fomos designados a sondar. É costume dos entusiastas falar dessa maneira; mas esse jargão místico já está fora de época. Houve tempos em que os teólogos costumavam especular sobre essa fé e insistir nela publicamente nos seus sermões. Mas, numa época como esta, iluminada pela sã filosofia e por descobertas eruditas, já não admitimos o que não podemos compreender. Aconselho-o, como amigo, a deixar essas sutilezas ociosas bem fechadas nos volumes ininteligíveis dos nossos antigos teólogos. A única coisa importante é nos conduzirmos como homens honestos. Se recebemos a revelação em sentido geral e temos boas obras a apresentar, não pode haver dúvida de que a nossa fé é do tipo certo e muito aceitável diante de Deus.” A esse breve discurso seguiu-se a mesa de jogo, que serviu para estreitar os laços de intimidade entre o nosso clérigo descuidado e o seu vizinho iludido, tão perfeitamente semelhantes eram a fé e os costumes de ambos.
As circunstâncias a que se alude no relato acima não são imaginárias; e há todo motivo para temer que circunstâncias da mesma natureza não sejam menos comuns em outros países cristãos do que naquele que deu à luz o autor destas páginas.
Assim, o ministro mundano, em vez de pregar essa importante doutrina na sua pureza, procura destruir até a curiosidade que levaria um homem irreligioso a indagar sobre a necessidade, a natureza, a origem e os efeitos da fé evangélica. E, quando se vê a maioria daqueles que têm o dever de anunciar essa graça vitoriosa rejeitá-la com desprezo, não admira que o verdadeiro ministro se sinta obrigado a lutar por ela com empenho cada vez maior, tanto em público como em particular (Jd 3).
Para encerrar esta seção. Quando o ministro cristão proclama a salvação pela fé, ele se apoia não somente nas Sagradas Escrituras, mas também nas confissões públicas de fé que são de uso comum entre as igrejas de Cristo. “Cremos”, dizem as igrejas da França, “que tudo o que é necessário à nossa salvação nos foi revelado e oferecido em Cristo, o qual se tornou para nós sabedoria, justiça, santificação e redenção” (Art. XIII). “Cremos que somos feitos participantes da justiça somente pela fé, visto que está dito que ele [Cristo] sofreu para nos alcançar a salvação, e que todo o que nele crê não perecerá” (Art. XX). “Cremos que por essa fé somos regenerados para novidade de vida, sendo por natureza escravos do pecado. De modo que a fé, em vez de esfriar em nós o desejo de viver de forma justa e piedosa, tende naturalmente a despertar esse desejo e produz necessariamente toda boa obra” (Art. XXII).
Esta é também a doutrina da Confissão Helvética: “Cremos, com São Paulo, que o homem pecador é justificado somente pela fé em Jesus Cristo, e não pela lei. A fé recebe Jesus, que é a nossa justiça; e por isso a justificação é atribuída à fé. Que por meio da fé recebemos Jesus Cristo, ele mesmo nos ensinou no evangelho, onde usa de modo expressivo os termos próprios do comer para designar o crer: pois, assim como comendo recebemos o alimento do corpo, assim crendo somos feitos participantes de Cristo” (cap. XV). “O homem não é regenerado pela fé para que continue num estado de indolência, mas antes para que se aplique sem cessar à prática das coisas úteis e boas, visto que o Senhor disse: ‘Toda árvore boa produz frutos bons’ (Mt 7.17); ‘quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto’ (Jo 15.5).”
A Igreja da Inglaterra se exprime nos seguintes termos sobre a salvação pela fé e as boas obras produzidas por essa fé: “Somos tidos por justos diante de Deus unicamente pelo mérito de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, pela fé, e não por nossas próprias obras e merecimentos. Portanto, que somos justificados somente pela fé é doutrina muitíssimo salutar e muito cheia de consolo” (Art. XI). “As boas obras brotam necessariamente de uma fé verdadeira e viva, de tal modo que por elas uma fé viva pode ser conhecida com tanta evidência quanto uma árvore se reconhece pelo fruto” (Art. XII).
Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Portrait of St. Paul: or, The True Model for Christians and Pastors, versão inglesa de Joshua Gilpin (1790) do manuscrito francês do autor, na edição de Nova York (B. Waugh e T. Mason, 1834), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Por isso esta é tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.