John Fletcher · O Retrato de São Paulo · Parte II (continuação)

A esperança viva

O verdadeiro ministro anuncia uma esperança viva.

O verdadeiro ministro passa a anunciar uma esperança viva

“Grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento” (1Tm 6.6). E o pastor que possui uma bênção de tão inestimável valor não pode deixar de solicitar a todos, no círculo das suas relações, que a partilhem com ele. Feliz no gozo daquele precioso segredo que o capacita a alegrar-se sem cessar, ele o comunica de bom grado aos aflitos, conduzindo-os àquela esperança viva que consola e sustenta o coração de todo crente.

Numa palavra, num mundo onde a amargura do mal cresce continuamente; onde descobrimos os flagelos de um Deus que não deixará de castigar as suas criaturas rebeldes; onde a decepção e a morte nos privam, uma após outra, dos nossos consolos mais queridos, e onde os precursores da morte vão continuamente enfraquecendo todos os nossos gozos imperfeitos; num mundo assim, é evidente que o prazer mais elevado de que somos capazes deve brotar de uma esperança bem fundada naquelas alegrias imortais que estão reservadas aos justos. A linguagem dos mortais é fraca demais para descrever o poder ou a doçura de tal esperança. Aqui só podemos exclamar com o salmista: “Provem e vejam que o Senhor é bom” (Sl 34.8), por ter provido um cordial tão poderoso para os que atravessam um vale de lágrimas.

A esperança viva, que dá origem à felicidade do crente, é um dos frutos mais animadores da sua fé e está inseparavelmente ligada a ela, visto que “a verdadeira fé é a certeza de coisas que se esperam”. Na proporção em que as verdades e promessas sobre as quais a fé se fundamenta são evidenciadas e apreendidas, assim será a esperança que acompanha essa fé. Se, então, Moisés, pela fé que professava, foi capaz de renunciar à perspectiva de uma coroa terrena, com a esperança de obter uma herança mais gloriosa; se ele entendeu que “ser desprezado por causa de Cristo era uma riqueza maior do que os tesouros do Egito, porque contemplava a recompensa” (Hb 11.26), o que não se pode esperar de uma esperança fundada naquelas preciosas promessas que foram seladas com o sangue daquele Salvador condescendente que “trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho” (2Tm 1.10)? “A lei”, diz o apóstolo, “nunca aperfeiçoou coisa alguma; mas se introduz esperança superior, pela qual nos chegamos a Deus” (Hb 7.19). “Tendo, pois, tal esperança”, prossegue o mesmo apóstolo, “todos nós, com o rosto descoberto, contemplando a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem” (2Co 3.12, 18).

Vemos todos os dias os homens do mundo exultarem na esperança de alguma vantagem temporal. A perspectiva de um título honroso, de um aumento de fortuna, de um casamento vantajoso, ou até de uma pobre festa de diversão, basta para seduzi-los, animá-los, extasiá-los. Chegam mesmo a reconhecer que a esperança lisonjeira de um prazer futuro é mais doce do que o próprio gozo. Quem, então, tentará descrever os arrebatamentos que fluem da esperança viva de um cristão triunfante? Uma esperança que se funda na Rocha eterna e que tem por objeto múltiplo riquezas, honras e prazeres tão superiores aos dos homens mundanos quanto a alma é superior ao corpo, o céu à terra, e a eternidade ao momento fugaz do presente.

O verdadeiro ministro anuncia publicamente essa esperança ao mundo, persuadido de que, se a humanidade tivesse um dia a felicidade de possuí-la, trocaria um fardo de miséria por uma perspectiva de bem-aventurança. Mas, como sabe que essa esperança jamais pode ser admitida em corações cheios de pecado, o seu primeiro cuidado é derrubar a vã confiança dos impenitentes, minar a presunção dos farisaicos e mostrar a verdadeira diferença entre a expectativa sem fundamento do pecador e a esperança bem fundada do crente em Cristo.

Em toda parte se encontram muitos que, sem “fé nem esperança evangélica”, estão cheios de uma presunção tão cega quanto a dos fariseus e tão fatal quanto a dos pagãos endurecidos no seu pecado. A todos esses o verdadeiro ministro declara invariavelmente que estão “sem Cristo”, “não tendo esperança e sem Deus no mundo” (Ef 2.12). É provável que esses mesmos homens ofereçam à Divindade um culto formal e alimentem grandes expectativas da misericórdia de um Mediador divino, embora estejam totalmente desprovidos de um sincero “arrependimento para com Deus e da fé em nosso Senhor Jesus Cristo” (At 20.21). Até aqui os não convertidos podem avançar num caminho aparentemente religioso. Mas só os regenerados podem dizer com verdade: “A graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos. Ela nos educa para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos neste mundo de forma sensata, justa e piedosa, aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo” (Tt 2.11-13).

A esperança dos injustos se funda no orgulho, em noções falsas da Divindade, na ignorância da sua lei e nos preconceitos que os irreligiosos transmitem uns aos outros. Ao contrário, a esperança dos crentes tem por base a palavra daquele “que não pode mentir” (Tt 1.2). “Tudo o que no passado foi escrito”, diz o apóstolo, “para o nosso ensino foi escrito, a fim de que [nós, os filhos de Deus], pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança” (Rm 15.4). Ela se funda não somente na palavra, mas igualmente no juramento de Deus.

“As pessoas juram pelo que lhes é superior, e o juramento, servindo de garantia, põe fim a toda discussão. Por isso, Deus, quando quis mostrar com mais clareza aos herdeiros da promessa que o seu propósito era imutável, confirmou-o com um juramento, para que, mediante duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta [a saber, a sua palavra e o seu juramento], nós, que já corremos para o refúgio, tenhamos forte alento, para tomar posse da esperança que nos foi proposta. Temos esta esperança por âncora da alma, segura e firme” (Hb 6.16-19).

Depois de arrancar toda falsa esperança, o ministro fiel anuncia então Jesus Cristo, que introduziu uma esperança melhor do que a dos pagãos ou dos judeus. Observe aqui a razão por que os pastores que não pregam Cristo são incapazes de fazer qualquer coisa em favor daquela fé viva da qual Cristo é o grande objeto, e daquela esperança viva da qual ele é a fonte inesgotável. “Jesus Cristo”, diz São Paulo, “é a nossa esperança” (1Tm 1.1); e nós lhes anunciamos “o mistério que esteve escondido durante séculos”, e que ainda está escondido dos homens mundanos, “que é Cristo em vocês, a esperança da glória” (Cl 1.26-27). Assim o Filho eterno do Pai se torna, para os seus verdadeiros seguidores, o princípio e a consumação da esperança, bem como “o Autor e Consumador da fé” (Hb 12.2).

Pela misericórdia de Deus e mediante a redenção que há em Jesus Cristo, o crente já recebeu a promessa do perdão gratuito das ofensas passadas; do contrário, não merece ser chamado crente: no mínimo, está desprovido da fé evangélica. Ora, quando o crente recebe com sinceridade as boas-novas da graça redentora, ele então recebe com certeza Jesus Cristo, em quem “todas as promessas de Deus têm o sim” e o amém (2Co 1.20); e agiria de modo contrário ao que a razão e a Escritura prescrevem se se recusasse a alegrar-se em Deus, seu Salvador. Agindo assim, provaria a sua falta de gratidão pelo que Cristo já fez e de esperança no que ele prometeu ainda realizar. Mas, quando se entrega a uma alegria tão razoável quanto revigorante, corresponde aos desígnios cheios de graça do seu benévolo Senhor. Continuamente ocupado com gozos mais satisfatórios, ele despreza os prazeres sedutores do pecado. Leva no próprio peito uma fonte de prazer celestial, enquanto o homem do mundo inquieta o coração na busca vã de alegrias terrenas. A diferença entre os gozos dessas duas espécies de pessoas é tão grande quanto a que há entre o prazer sensato dos que recolhem o trigo no celeiro e a alegria pueril das crianças ocupadas em juntar palhas e espinhos espalhados: os primeiros garantem um tesouro inestimável, ao passo que os segundos não têm em vista outra coisa senão dançar em volta de uma labareda de vida curta, o emblema mais fiel da satisfação do pecador.

Nas Sagradas Escrituras dizem-se coisas excelentíssimas da esperança que produz essa santa alegria. (1.) É uma esperança divina, pois tem por objeto o gozo de Deus e porque tira o seu vigor daquele Espírito Santo que revela aos crentes a grandeza e a firmeza das promessas do evangelho. Assim São Paulo nos ensina que “o Pai da glória” nos concede “espírito de sabedoria e de revelação”, iluminando “os olhos do coração”, para que saibamos “qual é a esperança da vocação” e “qual é a riqueza da glória da sua herança nos santos” (Ef 1.17-18).

2. Ela honra a fidelidade e o poder de Deus. Abraão, diz São Paulo, contra toda probabilidade humana, creu “esperando” e “não duvidou, por incredulidade, da promessa de Deus; mas, pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus, estando plenamente convicto de que Deus era poderoso para cumprir o que havia prometido” (Rm 4.18-21). “Justificados, pois”, como Abraão, “mediante a fé”, prossegue o apóstolo, com uma confiança semelhante à dele, “nos gloriamos na esperança da glória de Deus. Ora, a esperança não nos deixa decepcionados” (Rm 5.1-5). Quão diferente da esperança enganosa dos homens mundanos, que muitas vezes são envergonhados pelas suas expectativas frustradas!

3. Diz-se que essa esperança nos enche de santa alegria. “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”, diz São Pedro, “que nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos. Nisso vocês exultam” (1Pe 1.3, 6). E foi por isso que o apóstolo Paulo orava com tanto ardor por um aumento da esperança entre os crentes: “E o Deus da esperança encha vocês de toda alegria e paz na fé que vocês têm, para que sejam ricos de esperança no poder do Espírito Santo” (Rm 15.13).

4. Ela de fato nos salva, como o próprio São Paulo declara nestas palavras: “Tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós. E”, sustentados por essa doce persuasão, “aguardamos a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo. Porque”, nesse sentido, “na esperança fomos salvos” (Rm 8.18, 23-24).

5. Ela é tão doce quanto sólida, pois repousa sobre o direito que os filhos de Deus podem reivindicar à herança do seu Pai celestial; direito sagrado, que lhes é confirmado com a máxima solenidade no Novo Testamento. Ora, todo homem que recebe com sinceridade o Senhor da vida e da glória recebe com ele um título a possessões eternas e se coloca, desde esse momento, entre os “filhos de Deus” (Jo 1.12). De modo que a esses se podem aplicar com propriedade as seguintes passagens: “Ele nos concedeu gratuitamente a sua graça no Amado; nele também vocês, depois que ouviram a palavra da verdade, o evangelho da salvação, tendo nele também crido, receberam o selo do Espírito Santo da promessa. O Espírito é o penhor da nossa herança, até o resgate da sua propriedade” (Ef 1.6, 13-14).

6. Ela nos purifica. “Agora somos filhos de Deus”, diz São João, “mas ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é. E todo o que tem essa esperança nele purifica a si mesmo, assim como ele é puro. Todo aquele que é nascido de Deus [ou regenerado por uma fé verdadeira e uma esperança viva] não vive na prática de pecado, porque nele permanece a semente divina; esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (1Jo 3.2-3, 9). A verdade dessa afirmação é clara aos olhos da razão. Caímos no pecado porque nos deixamos seduzir pelos atrativos de algum bem passageiro que se apresenta aos nossos sentidos ou à nossa imaginação. Mas, quando estamos persuadidos de que gozos infinitos nos aguardam, podemos então olhar com desprezo para essas aparências enganosas; e, depois que o nosso coração se anima com a esperança confiante de possuir essas realidades invisíveis, o encanto do pecado se quebra. Nesse estado, rompemos as tentações com tanta resolução quanto um príncipe que vai tomar posse de um reino renuncia aos pequenos divertimentos que lhe ocupavam os pensamentos antes de serem absorvidos por um interesse de tão grande importância. “Quem é o que vence o mundo”, senão o homem que crê com aquela fé que lhe dá uma representação viva das coisas que se esperam? Compare 1Jo 5.5 com Hb 11.1.

7. Essa esperança viva produz amor na alma. “Damos sempre graças a Deus”, diz o apóstolo, “quando oramos por vocês, desde que ouvimos do amor que vocês têm por todos os santos, por causa da esperança que está guardada para vocês nos céus. Desta esperança vocês ouviram falar anteriormente por meio da palavra da verdade do evangelho” (Cl 1.3-5). Mais ainda: tão poderosa é a influência dessa esperança sólida que o apóstolo dá a entender, no mesmo capítulo, que os crentes serão apresentados diante de Deus santos e irrepreensíveis, contanto que não se deixem “afastar da esperança do evangelho” (v. 22-23). “Porque”, prossegue ele, “temos nos tornado participantes de Cristo, se, de fato, guardarmos firme, até o fim, a confiança que, desde o princípio, tivemos” (Hb 3.14). “Desejamos que cada um de vocês continue mostrando, até o fim, o mesmo empenho para a plena certeza da esperança, para que não se tornem preguiçosos, mas imitadores daqueles que, pela fé e pela paciência, herdam as promessas” (Hb 6.11-12).

8. Essa esperança é cheia de consolação. “Nós, os vivos, os que ficarmos”, diz o apóstolo, “seremos arrebatados para o encontro com o Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor. Portanto, consolem uns aos outros com estas palavras” (1Ts 4.17-18). “Que o próprio Jesus Cristo, nosso Senhor, e Deus, o nosso Pai, que nos amou e nos deu eterna consolação e boa esperança, pela graça, console o coração de vocês” (2Ts 2.16-17). Quando vemos entre nós pessoas inquietas e abatidas, a quem falta coragem para suportar a aflição sem impaciência e para cumprir os seus deveres com alegria, vemos então pessoas que nunca desfrutaram, ou que infelizmente perderam, a esperança viva dos verdadeiros cristãos. Se todos os ministros do evangelho tivessem experimentado a doçura e o poder dessa esperança, com que prazer a anunciariam aos aflitos! E com que perseverança juntariam aos seus discursos as orações mais ardentes, para que todos os seus ouvintes chegassem ao gozo de uma bênção tão inestimável!

Quando o verdadeiro ministro conduz o seu rebanho a essa esperança viva e alegre, ele segue as pegadas do seu divino Mestre. Cristo, é verdade, começou o seu ministério pregando o arrependimento (Mt 4.17). Mas logo em seguida o vemos pôr diante dos olhos do crente bem-aventuranças e promessas da natureza mais consoladora (Mt 5.1ss). Numa grande variedade de passagens comoventes, ele exorta os seus seguidores ao exercício de uma esperança alegre nas provações mais severas, fazendo um dever indispensável daquilo que é, na verdade, um privilégio glorioso. “Não temam os que matam o corpo, mas não podem matar a alma”, diz ele. “Todo aquele que me confessar diante dos outros, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus” (Mt 10.28, 32). “Não tenha medo, ó pequenino rebanho; porque o Pai de vocês se agradou em dar-lhes o seu Reino” (Lc 12.32). “Eu dou às minhas ovelhas a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo 10.27-28).

Ele se mostra desejoso de que o seu povo participe da sua paz, da sua alegria e da sua esperança, até chegar à posse da bem-aventurança consumada. “Falei essas coisas”, diz ele, “para que em mim vocês tenham paz. No mundo, vocês passam por aflições; mas tenham coragem: eu venci o mundo” (Jo 16.33). “Que o coração de vocês não fique angustiado. Vou preparar um lugar para vocês. E, quando eu for e preparar um lugar, voltarei e os receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, vocês estejam também” (Jo 14.1-3). “Agora vocês estão tristes. Mas eu os verei outra vez, e o coração de vocês ficará cheio de alegria, e ninguém poderá tirar essa alegria de vocês” (Jo 16.22). Exorta-os continuamente a esperar a sua volta (Lc 12.40) e chega a dignar-se mencionar as próprias palavras com que, naquele tempo, saudará cada crente que o estiver aguardando.

As orações de Cristo, assim como as suas exortações e promessas, tendem a produzir e sustentar a mais elevada esperança na alma dos crentes. Ele intercedeu por eles com bondade; continua ainda a interceder, e a sua oração é sempre atendida. Observe algumas frases daquela memorável oração que ele um dia elevou por todos os seus seguidores e que forma o capítulo dezessete do Evangelho de São João: “Pai! Não peço pelo mundo, mas por aqueles que me deste. Pai santo! Guarda-os em teu nome, aqueles que me deste, e santifica-os na verdade. Não peço somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por meio da palavra que eles falarem, a fim de que todos sejam um, como nós o somos. Pai! A minha vontade é que, onde eu estou, também estejam comigo os que me deste, para que vejam a minha glória.”

Uma esperança viva, fundada nessas orações e declarações do bendito Jesus, capacitou os cristãos primitivos a triunfar sobre toda aflição. Em meio às perseguições mais terríveis, podiam felicitar-se uns aos outros pela sua bem-aventurança comum e dizer: “A nossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus. Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então nós também seremos manifestados com ele, em glória” (Cl 3.3-4). Pois ele ainda virá “para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram” (2Ts 1.10).

Os apóstolos, seguindo o exemplo do seu Mestre, foram unânimes em anunciar essa gloriosa esperança; e São Paulo insiste nela com muita frequência, como num dever importantíssimo. “Nós, porém, que somos do dia”, diz ele, “sejamos sóbrios, revestindo-nos da couraça da fé e do amor e tomando como capacete a esperança da salvação” (1Ts 5.8). “Peço, irmãos, que ofereçam o seu corpo como sacrifício vivo a Deus; alegrem-se na esperança” (Rm 12.1, 12). “Alegrem-se sempre no Senhor; outra vez digo: alegrem-se!” (Fp 4.4). Essa esperança evangélica será sempre experimentada como fonte inesgotável de consolação e de gratidão; e por isso, onde quer que se pregue a esperança do evangelho, ali os crentes continuam cheios de uma alegria indizível (At 13.52). Quão verdadeiramente felizes seriam os cristãos se tal esperança florescesse entre eles! Longe de continuar disputando as ninharias do tempo e dos sentidos, renunciariam a todas com alegria, na expectativa de uma herança eterna; e, em vez de correr aos divertimentos frívolos do mundo em busca de uma recreação momentânea, cada dia que passa lhes pareceria curto demais para os deveres revigorantes do louvor e da ação de graças.

Muitos afirmam que essa esperança divina é habitualmente pregada por todo ministro. Que os pregadores em geral costumam exortar os seus ouvintes, de maneira fria e lânguida, a esperar na misericórdia divina, prontamente se concede. Mas que esses não anunciam a verdadeira esperança evangélica dos cristãos, facilmente se pode provar acima de qualquer dúvida. Vimos, nas seções anteriores, que o ministro dos dias atuais desconhece essa esperança; que lhe faltam até ideias justas daquele verdadeiro arrependimento e daquela fé viva dos quais unicamente essa esperança pode brotar. Por isso, pela própria natureza das coisas, é impossível que ele a anuncie na igreja de Deus. Em vão o próprio Cristo declarou que o caminho largo conduzirá multidões à perdição e que “se alguém não nascer de novo, não pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3.3, 5). Apesar dessas declarações solenes, o pastor mundano ainda imagina que esse mesmo caminho o conduzirá à vida e que será contado entre os habitantes daquele Reino sem a regeneração bíblica. Supõe, pelo menos, que está suficientemente santificado, embora a sua justiça não exceda a dos fariseus, nem a sua devoção a da igreja de Laodiceia. Assim, alimentando uma esperança vã no próprio coração e nutrindo uma confiança que contradiz os testemunhos concordes de todos os escritores sagrados, ele necessariamente leva os seus ouvintes às mesmas ilusões perigosas.

Assim como, para fundar solidamente as nossas esperanças num benfeitor ou num fiador, é necessário conhecer a pessoa que se apresenta numa dessas qualidades, assim também a esperança viva de que falamos deve fluir de um conhecimento experimental de Deus, por meio de Jesus Cristo. “E a vida eterna é esta: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3). Mas os filhos deste mundo, sejam leigos ou eclesiásticos, estão desprovidos desse conhecimento. Não conhecem nem o Pai nem o Filho; e, se fosse de outro modo, o amor do mundo não teria domínio sobre eles.

Essa esperança viva jamais pode habitar num coração não regenerado. A criança que ainda não nasceu não pode de modo algum alegrar-se na esperança de possuir a herança do seu pai, pois desconhece igualmente o pai e o patrimônio que provavelmente lhe está reservado. É, portanto, absolutamente necessário nascer de Deus antes de podermos exercer essa esperança tão animadora. Ora, o homem nasce assim quando é regenerado por aquele espírito de adoção que Deus prometeu aos que creem sinceramente em Jesus Cristo. Mas os que se conformam às máximas do mundo não são capazes de receber esse espírito vivificante. “Eu pedirei ao Pai”, disse Cristo aos seus discípulos, “e ele lhes dará outro Consolador, a fim de que esteja com vocês para sempre: é o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece. [Já regenerados em parte,] vocês o conhecem, porque ele habita com vocês e estará em vocês”, quando vocês tiverem nascido plenamente do Espírito (Jo 14.16-17). Só depois de se ter experimentado o cumprimento dessa promessa é que se podem entender plenamente as seguintes expressões: “Será que vocês não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo?” (1Co 6.19). “E o Deus da esperança encha vocês de toda alegria e paz na fé que vocês têm, para que sejam ricos de esperança no poder do Espírito Santo” (Rm 15.13).

Longe de pregar essa esperança primitiva, o ministro mundano se alarma com a simples menção dela. Observe-se aqui de novo que essa planta celestial só pode florescer nos corações em que a palavra de Deus, mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, cortou toda aparência estéril de esperança farisaica. Ora, quando um verdadeiro ministro está empenhado nesse trabalho preparatório, cortando os membros mortificados do velho homem e arrancando ao orgulho os seus apoios inúteis, o ministro inexperiente se escandaliza absurdamente com o seu santo zelo e censura essa severidade necessária, como se levasse as almas aos horrores do desespero. Lento de entendimento nas coisas espirituais, não compreende que os que se apoiam numa cana quebrada precisam abandonar toda a confiança que tolamente depositam num esteio tão frágil antes de poderem escolher de fato a Rocha eterna como seu apoio.

O verdadeiro caráter desses falsos apóstolos não é conhecido em geral. Encobrindo a sua impiedade com o manto da religião, muitos supõem que agem em favor de Cristo, e com frequência são tidos como colunas da igreja. Mas há ocasiões em que, sem querer, deixam cair a máscara e revelam abertamente os seus pensamentos secretos. Encontram-se no mundo algumas poucas pessoas que, recusando-se a frequentar reuniões de jogo, se alegram em estar presentes naquelas reuniões menos elegantes que se formam com o propósito de orar. Ali é costume que vizinhos de um mesmo sentir se aconselhem com doçura e lutem com ardor pela esperança do evangelho, com palavras como estas: “Pai cheio de graça! Perdoa os pecados dos teus filhos que voltam para ti e concede-nos aumento de força espiritual. Conscientes da nossa indignidade, ajuda-nos a pôr toda a nossa confiança na tua misericórdia sem limites, manifestada por meio de Jesus Cristo. Aumenta a nossa fé no Filho do teu amor e confirma a nossa esperança nas tuas promessas imutáveis. Ó Salvador divino! Desce hoje ao nosso coração, como desceste um dia sobre os teus primeiros discípulos. Consagra-nos como teus templos vivos, enche-nos das tuas graças e, durante o tempo da nossa peregrinação terrena, digna-te conduzir-nos com a destra do teu poder. Que o teu Espírito de iluminação e santidade, o teu Espírito de consolação e alegria, não nos abandone um só momento enquanto atravessamos este vale de lágrimas. Que as suas operações poderosas subjuguem em nós o poder do pecado e produzam no nosso procedimento exterior os frutos felizes da justiça, da paz e da alegria. Permite que, desta vez, voltemos para as nossas casas com a consciência do teu amor e a certeza do teu favor; e concede que, depois de termos sido templos do teu Espírito na terra, sejamos um dia recebidos no templo da tua glória eterna nos céus.”

Certa vez, um ministro mundano, entrando numa reunião desse tipo, ouviu a oração desses crentes humildes; e, tão surpreso de ver o ardor com que faziam as suas petições quanto de observar o tempo e o lugar em que as apresentavam, retirou-se da companhia deles com tanta indignação quanto um bom pastor se retiraria de uma trupe de saltimbancos. Mas, sabendo que um dos seus próprios paroquianos era do grupo religioso, aproveitou a primeira oportunidade para lhe mostrar a mais completa reprovação da sua conduta. “O que você estava fazendo”, disse ele, “com aquela gente outro dia, em tal lugar? Conventículos desse tipo são contrários à ordem e indignos de tolerância. A igreja é o único lugar próprio para a celebração do culto divino. Além disso, ouvi você orando tolamente por não sei que consolação, luz e poder do Espírito Santo. Receba de bom grado o conselho que lhe dou. Considere inspirações e iluminações desse tipo como nada mais que fantasias ociosas de visionários e entusiastas. Renuncie à certeza imaginária com que você só engana a si mesmo e descanse na esperança que eu sempre lhe preguei; uma esperança com a qual você e os seus vizinhos podem muito bem se dar por satisfeitos.” Confundido por um discurso desses, um cristão fraco e inexperiente poderia ter sido desviado do caminho estreito da verdade. Mas a pessoa a quem aqui se alude, citando Ef 1.17-18, conseguiu provar que a mesma iluminação e o mesmo poder, tratados com tanto desprezo pelo seu opositor, eram, no entanto, absolutamente necessários como fundamento de uma esperança sólida. Mais ainda: levou a questão adiante e afirmou que a oração contra a qual o zeloso pastor havia clamado com tanta irritação estava em exata conformidade com as mesmas petições que ele próprio era ouvido oferecer sem cessar na festa de Pentecostes e em outras ocasiões solenes.

Se este pequeno relato descreve fielmente a maneira de pensar que é comum demais entre o clero dos nossos dias, não é evidente que eles estão mais dispostos a ridicularizar do que a pregar a esperança cristã, e muito mais empenhados em impedir do que em promover os seus paroquianos na busca da bem-aventurança eterna?

Quando a aurora dessa gloriosa esperança começou a despontar; quando, na descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos começou a louvar a Deus em alta voz, estendendo vestes e ramos de árvores no caminho por onde o seu Senhor havia de passar e clamando diante dele: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!”, alguns dos fariseus que se haviam misturado à multidão exclamaram com grosseria: “Mestre, repreenda os seus discípulos!” E, quando ele entrou no templo, “os principais sacerdotes e os escribas [esses modelos pelos quais a maioria dos ministros parece ansiosa por se formar], vendo as maravilhas que Jesus fazia e as crianças que gritavam Hosana, ficaram indignados e perguntaram a Jesus: Você está ouvindo o que estão dizendo?” E Jesus lhes respondeu: “Sim! Vocês nunca leram: Da boca de pequeninos e crianças de peito tiraste o perfeito louvor? Eu afirmo a vocês que, se eles se calarem, as próprias pedras clamarão” (Mt 21; Lc 19). Ainda existe a mesma oposição entre os que abraçam o evangelho de coração e os que o rejeitam com ingratidão. Sempre que se percebe que os primeiros dão livre curso aos arroubos da sua gratidão, gloriando-se na esperança da glória de Deus, o ministro mundano, desgostoso de ver qualquer coisa que pareça censurar a sua própria mornidão, está pronto a sufocar os impulsos daquela esperança alegre, que ele julga não ser melhor do que a confiança de fanáticos presunçosos. Já o ministro fiel, que imita São Paulo, ao observar tal cena, exclamará com aquele grande apóstolo: “E o Deus da esperança encha vocês de toda alegria e paz na fé que vocês têm, para que sejam ricos de esperança no poder do Espírito Santo” (Rm 15.13).

Se não se mostra aos penitentes a bem-aventurança dessa esperança, eles se esforçarão, como Caim, por sufocar o remorso entregando-se apaixonadamente aos negócios e prazeres do mundo presente; ou, como os israelitas, que não achavam na religião prazer bastante para afastar a lembrança das vaidades do Egito, cederão àquele espírito de frivolidade que o apóstolo assim descreve: “O povo assentou-se para comer e beber e levantou-se para se divertir” (1Co 10.7). Ao contrário, quando o cristão é dirigido à esperança da sua alta vocação, encontra nela uma fonte de consolação indizível; e, tendo descoberto o tesouro escondido no campo do evangelho, “transbordante de alegria, vende tudo o que tem” para comprar aquele campo. Agora renuncia sem dor ao que antes o impedia de correr a carreira celestial, não tendo nada por precioso para si, contanto que complete com alegria a sua carreira e assegure a coroa da vida eterna. Os primeiros cristãos eram sustentados com tanto poder por essa esperança do evangelho que permaneciam inabaláveis em meio às mais duras calamidades da vida e sofriam a própria morte com uma coragem que espantava os perseguidores. Mas, quando perdiam a sua confiança, como Demas, começavam a ceder às esperanças vãs e aos temores tolos do mundo presente, tornando-se inteiramente fracos, como os outros homens. E assim é a maioria dos cristãos nos dias de hoje. O amor de muitos está esfriando, enquanto a igreja de Deus está visivelmente caindo em ruínas. E como ajudaremos a reacender esse amor, ou a reparar essa igreja, senão proclamando com zelo, por toda parte, a “esperança do evangelho”?

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Portrait of St. Paul: or, The True Model for Christians and Pastors, versão inglesa de Joshua Gilpin (1790) do manuscrito francês do autor, na edição de Nova York (B. Waugh e T. Mason, 1834), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Por isso esta é tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.