John Fletcher · O Retrato de São Paulo · Parte II (continuação)

O amor cristão

O verdadeiro ministro prega o amor cristão.

O verdadeiro ministro prega o amor cristão

Se o pastor evangélico proclama o arrependimento, a fé e a esperança, é com o propósito de conduzir os pecadores àquele amor cristão que com razão é tido como a coroa de todas as graças. Pregando o arrependimento, ele põe o machado à raiz de toda árvore corrompida. Anunciando a fé evangélica, planta a árvore da vida. Quando proclama a esperança do evangelho, faz essa árvore lançar uma bela floração. Mas, quando prega o amor cristão, faz brotar o fruto abundante de cada ramo vigoroso. E, enquanto se ocupa em realizar as diversas partes dessa importante obra, pronuncia os anátemas do evangelho contra o arrependimento, a fé e a esperança que são superficiais, estéreis e ilusórios.

O ministro dos nossos dias se orgulha de pregar a moral, o que costuma fazer à maneira de um filósofo pagão. Desconhecendo a importância e o poder das doutrinas do cristianismo, envergonha-se de andar nas pegadas de São Paulo. Se consegue pintar com alguma habilidade as serpentes da inveja, as inquietações da avareza e as delícias do amor, imagina que logo disporá os seus vizinhos a amar-se como irmãos. Não sabe que só “a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus” pode livrar alguém “da lei do pecado e da morte”, libertando-o da inveja, da avareza, da ambição, da indiferença e dos temores mundanos, que são incompatíveis com o amor evangélico. “Aquilo que a lei não podia fazer, por causa da fraqueza da carne”, isto é, da nossa natureza degenerada, que precisa de motivos mais fortes e de apoios mais poderosos do que aqueles que a lei propõe, “isso Deus fez, enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no que diz respeito ao pecado. E assim Deus condenou o pecado na carne”, a fim de que, pelos novos motivos e pelo auxílio divino oferecidos no evangelho, “a exigência da lei se cumprisse em nós”, que, sendo regenerados, “não vivemos segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8.2-4).

O pastor judicioso, observando entre a moral e as doutrinas do cristianismo a mesma ligação que há entre a raiz e o fruto de uma árvore vigorosa, sente-se impelido a pregar sem cessar aquelas verdades importantes que naturalmente dão origem às três graças mencionadas primeiro; e está plenamente seguro de que, onde quer que se permita a essas verdades criar raízes, logo se alegrará com os frutos inestimáveis do amor cristão. Esse modo de agir é igualmente conforme à razão e à revelação. Anunciando as doutrinas em que se funda a necessidade do arrependimento, ele extermina o orgulho e o amor-próprio desordenado, que são os maiores obstáculos ao amor. Pregando as doutrinas da fé, dá origem àquele amor universal que se estende a Deus e aos homens. Assim, quando um pecador crê sinceramente que “Deus é amor” (1Jo 4.16); quando, penetrado de admiração e gratidão, pode dizer com o apóstolo: “vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2.20), nesse momento sente necessariamente certo grau de afeto pelo Pai que o criou e pelo Filho que o remiu, a quem anseia imitar e a quem se alegra em obedecer. Esse amor é tão ilimitado quanto ardente, e alcança as mais indignas das suas criaturas semelhantes, capacitando-o, a exemplo de Cristo, a sacrificar pelos próprios inimigos não apenas os confortos exteriores, mas até a própria vida. Por isso se diz que a fé cristã atua pelo amor. Ora, se essa persuasão viva das bênçãos indizíveis que Deus já nos deu em Cristo Jesus basta para produzir na alma um alto grau de amor bíblico, é evidente que uma esperança bem fundada de bênçãos ainda maiores por vir deve necessariamente servir para avivar e aumentar esse amor. E, se estamos plenamente persuadidos de que os nossos trabalhos de amor jamais serão esquecidos, e de que até um copo de água fria, dado por amor de Cristo, não ficará sem recompensa, quão vasta influência se pode esperar que tal esperança exerça para abrir o coração à benevolência universal e para produzir todos os frutos do amor evangélico!

Convencido de que defender o amor sem insistir nas doutrinas pelas quais ele deve ser sustentado seria construir uma casa sem lançar um alicerce sólido, o verdadeiro ministro trabalha com diligência para explicar a natureza, expor os motivos e representar os efeitos dessa graça admirável da maneira mais clara. Para alguns, de fato, tais discursos são vãos; mas há outros entre os seus ouvintes que, arrebatados pela beleza dessa virtude e impelidos pelos motivos que o evangelho propõe, se entregam à sua prática com tanto ardor quanto os voluptuosos correm aos seus divertimentos sensuais.

As trevas não diferem mais da luz do que o amor do ministro fiel difere do amor de um escriba mal instruído nos mistérios do Reino. O amor do bom pastor “não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade” (1Co 13.6), verdade que muitas vezes vem humilhar o orgulho humano. Ao contrário, o amor que todo falso apóstolo prega não passa do fantasma de uma virtude, que consola o coração em meio ao pecado, se alegra com a mentira e repousa numa certeza inteiramente contrária à palavra de Deus. Ser caridoso, segundo as noções desses homens, é alimentar a persuasão de que há muito a descontar das ameaças contidas no evangelho, e de que São Paulo está muito longe da verdade quando declara que “nenhuma pessoa impura ou avarenta tem herança no Reino de Cristo” (Ef 5.5). É crer que o Espírito Santo foi severo demais quando ditou a São Tiago que quem “quiser ser amigo do mundo se torna inimigo de Deus” e viola o seu voto batismal em sentido tão pleno quanto os adúlteros violam o voto sagrado da fidelidade conjugal (Tg 4.4). É insinuar que o próprio Cristo ultrapassou os limites da razão quando clamou publicamente: “quem o chamar de tolo estará sujeito ao inferno de fogo” (Mt 5.22). “Não julguem”, diz o Redentor, “para que vocês não sejam julgados” (Mt 7.1). Mas, segundo o sentir desses guias extraviados, ser divinamente caridoso é concluir desse preceito que um homem pode até revogar os juízos do próprio Cristo; e assim, sob pretexto de não julgar os que evidentemente andam no caminho da perdição, julgam indiretamente contra o Redentor, como se ele desse falso testemunho. É em erros como esses que o mundo insiste em pôr a maior parte do amor.

O verdadeiro ministro ataca essa falsa graça como inimiga da verdade do evangelho, enquanto defende aquele amor semelhante ao de Cristo que pode, com propriedade, ser chamado irmão da verdade. Afirma a dignidade e o poder da verdade, apresentando-a à veneração e ao amor dos que não querem ofender deliberadamente o Deus da verdade. “Seguindo a verdade em amor”, prossegue ele, “cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” (Ef 4.15); e, tendo primeiro “purificado a alma pela obediência à verdade”, “amemos intensamente uns aos outros de coração puro” (1Pe 1.22). Entre essas companheiras bíblicas ele não admite nenhuma separação; e, quando os insensatos as tratam como coisas de entusiastas e de hereges, ele ousará levantar-se em defesa dessas duas virtudes aliadas.

Outra opinião que prevalece em geral entre os que professam o cristianismo é a de que o amor consiste em dar esmolas aos pobres. E muitos defendem essa opinião com empenho, embora os fariseus, que nosso Senhor considerava “serpentes” e “raça de víboras” (Mt 23.33) pela falta de amor não fingido, fossem notáveis pela generosidade nas esmolas. São Paulo se opõe claramente a essa noção errônea quando declara que é possível a alguém “distribuir todos os seus bens entre os pobres” e, ainda assim, estar desprovido de amor (1Co 13.3). O pastor fiel sustenta, é verdade, que toda pessoa caridosa se sente impelida a socorrer os pobres segundo a sua capacidade; mas acrescenta que dar esmolas é sinal tão incerto de amor quanto a presença constante à mesa da ceia é prova equívoca de fé, visto que é tão possível socorrer os pobres por fraqueza ou vaidade quanto receber a santa comunhão por timidez ou costume.

Se alguma vez o amor dos homens mundanos vai além do que acabo de descrever, ainda assim se limitará às necessidades do corpo. Como não sabem quanto o espírito imortal é superior ao corpo perecível, que em breve se misturará ao pó de mil cadáveres, não é de admirar que este último ocupe a sua principal atenção. Cuidam do bem da própria alma com bem pouca solicitude; e, sendo assim, não se pode imaginar que manifestem afeição extraordinária pela alma dos seus vizinhos. Veem sem tristeza esses partidários iludidos que fazem guerra uns aos outros por causa dos seus erros particulares. Podem até contemplar sem piedade as almas endurecidas que se precipitam desesperadamente de um abismo de pecado em outro. Quão diferentes eram os sentimentos de Davi quando, como verdadeiro penitente, não somente chorava pelas próprias ofensas, mas “vertia rios de lágrimas” pelos que transgrediam a lei de Deus (Sl 119.136). E quão contrário era o caráter de São Paulo, que passava por uma espécie de “dores de parto” espirituais até que os degenerados nascessem de novo (Gl 4.19). Do mesmo modo, os cristãos primitivos se expunham a perigos iminentes para dar provas do amor mais elevado, arrancando almas do pecado e da morte. E, quando não conseguiam fazê-lo com os seus trabalhos exteriores, lutavam então nos seus quartos, com orações e lágrimas secretas, pela conversão dos ímpios. Onde não há desejo da salvação dos outros, ali o amor cristão é desconhecido. Pois, enquanto um homem despreza a alma do seu próximo, todo o interesse que demonstra pelos negócios temporais dele não pode revelar mais do que o amor de um discípulo de Epicuro, que está tão abaixo do amor dos discípulos de Cristo quanto o materialismo é inferior ao cristianismo.

Em oposição a todas as noções errôneas que prevalecem com demasiada frequência sobre esse importante assunto, o ministério do Novo Testamento ensina que o amor evangélico é a imagem de Deus, e que o amor eterno e infinito não é outra coisa senão o próprio Deus. Um apóstolo declara que “Deus é amor”; e outro nos assegura que somos chamados a nos tornar “coparticipantes da natureza divina” (2Pe 1.4); donde o pregador sagrado conclui que a “nova criatura”, de que São Paulo faz menção (2Co 5.17), deve necessariamente consistir no amor. Quando um cristão está cheio de amor, está então regenerado e nascido de Deus. Cristo está então formado no seu coração, o Espírito Santo repousa sobre ele, e ele fica “cheio de toda a plenitude de Deus” (Ef 3.16, 19). Ele guarda o primeiro mandamento da lei, entregando plenamente o seu coração a Deus, na consciência de que ele é em si mesmo o Bem soberano; mas o ama sobretudo na pessoa de Cristo, por meio de quem o Pai se compraz em resplandecer de modo particular como um Deus de amor. Num sentido secundário, ama as obras de Deus em toda a sua maravilhosa variedade, porque elas espelham as suas perfeições incomparáveis e as põem ao alcance do entendimento humano. E a sua estima por essas produções admiráveis é proporcional à relação mais próxima ou mais distante em que estão com aquela Sabedoria eterna que as formou todas. Guiado por esse princípio, ama toda a humanidade com um grau extraordinário de afeto. A alma do homem lhe é particularmente querida, porque foi criada à imagem de Deus e remida com o sangue do seu Filho amado; ao passo que admira e ama o corpo perecível como o instrumento organizado da alma. Como as almas dos pobres e dos ricos são igualmente imortais, ele nunca tem a mesquinhez de favorecer os segundos; ao contrário, está sempre pronto a preferir um mendigo pobre e piedoso a um nobre sensual e arrogante. Assim o verdadeiro cristão estima os fiéis não somente por amor do Criador e do Redentor, mas também por amor do Espírito santificador, a quem as almas deles estão consagradas como altares vivos, e os corpos como templos santificados (1Co 6.19-20). Desse amor divino procedem boas obras de toda espécie, como de uma fonte inesgotável; uma fonte que faz, por assim dizer, esforços contínuos para enriquecer o solo estéril ao seu redor. Mas, onde ele falta, todas as aparências exteriores ficam sem nenhum valor real. O doador pródigo perde o seu mérito diante dos homens piedosos, e o mártir zeloso a sua recompensa diante de um Deus justo.

Unindo no próprio coração o amor de Deus e o amor do próximo, o verdadeiro ministro se empenha com cuidado em demonstrar a insensatez dos que procuram separar essas virtudes irmãs. Sustenta que o amor sem piedade não passa de uma virtude natural, que se manifesta tantas vezes entre os animais quanto entre os homens não regenerados. Assim, a andorinha e o morcego cuidam dos seus filhotes; o castor e a formiga trabalham pelas respectivas sociedades de que fazem parte, e a ursa está pronta a enfrentar a morte em defesa das suas crias. Por isso o bom pastor fornece ao seu rebanho aqueles motivos elevados ao amor cristão que, dando um princípio evangélico ao amor mútuo, o enobrecem no homem e o tornam divino.

Assim como o amor sem piedade não passa de uma virtude natural e pode ser efeito de um orgulho farisaico ou diabólico, assim a devoção sem amor fraternal deve ser considerada uma espécie de hipocrisia. É o que o próprio nosso Senhor ensina na seguinte passagem: “Se você estiver trazendo a sua oferta ao altar e lá se lembrar que o seu irmão tem alguma coisa contra você, deixe diante do altar a sua oferta e vá primeiro reconciliar-se com o seu irmão; e então volte e faça a sua oferta”, a qual, de outro modo, seria rejeitada como abominação pelo Deus de amor (Mt 5.23-24). O verdadeiro amor abraça todos os homens, porque, sendo feitos de um só sangue, eles formam uma única e vasta família, da qual o próprio Deus é o grande Pai. E aqui nosso Senhor não nos permite excetuar nem mesmo o nosso inimigo mais cruel. “Vocês ouviram o que foi dito”, diz ele: “Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo. Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos, abençoem os que os amaldiçoam, façam o bem aos que os odeiam e”, mostrando cuidado pela alma deles tanto quanto atenção à sua pessoa, “orem pelos que os maltratam e perseguem, para demonstrarem que são filhos do Pai de vocês, que está nos céus. Porque ele faz o seu sol nascer sobre maus e bons” (Mt 5.43-45). [N. do T.: a NAA traz apenas “amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês” (Mt 5.44); as expressões “abençoem os que os amaldiçoam”, “façam o bem aos que os odeiam” e “maltratam” vêm do texto da King James citado por Fletcher, cujo comentário se encaixa entre elas.]

O amor consiste em duas partes: a paciência e a benevolência. Pela primeira, suportamos toda espécie de afronta sem nutrir um só pensamento de vingança; pela segunda, cumulamos os nossos inimigos de favores que eles não pediram. O nosso adorável Mestre, cuja conduta nos deu os exemplos do amor mais perfeito, mostra-nos a extensão dessa virtude nas seguintes passagens. O mundo “odiou tanto a mim como o meu Pai” (Jo 15.24); no entanto, “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). “Vocês ouviram o que foi dito: Olho por olho, dente por dente”; e vem o tempo em que se dirá: um golpe de espada por uma palavra ofensiva; um tiro de pistola por uma expressão satírica. “Eu, porém, lhes digo: Não resistam”, segundo as máximas daqueles por quem vocês são maltratados; mas, “se alguém lhe der um tapa na face direita, ofereça-lhe também a face esquerda”, isto é, sofra dois insultos antes de vingar um. Siga também a mesma regra quanto aos seus bens terrenos: “Se alguém quer processar você e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa”, isto é, longe de exigir com rigor, esteja pronto a abrir mão de muito do seu direito para manter a paz, pois é melhor sofrer uma injustiça dobrada do que faltar com a condescendência e o amor. “Se alguém obrigar você a andar uma milha, vá com ele duas”, isto é, não basta apenas ceder aos outros nas coisas boas ou indiferentes; o seu amor deve antes antecipar-se a eles e surpreendê-los com atos inesperados de cortesia e bondade. Dessas expressões se vê que nosso Senhor queria que os seus discípulos possuíssem um amor não somente extraordinário em certo grau, mas inteiramente divino. Quanto à qualidade, ele exige que seja igual ao amor inexprimível do Pai, assim como uma gota tirada do oceano é da mesma natureza que as ondas poderosas que rolam sobre o abismo insondável. “Se vocês amam aqueles que os amam”, diz ele, “que recompensa terão? Os publicanos também não fazem o mesmo? Portanto, sejam perfeitos [no amor] como é perfeito o Pai de vocês, que está no céu” (Mt 5).

A fé, por mais indizivelmente excelente que seja, ficaria sem nenhum valor real se não produzisse essa feliz disposição. “Em Cristo”, diz o apóstolo, “todo o corpo [dos fiéis], bem-ajustado e consolidado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio crescimento para a edificação de si mesmo em amor” (Ef 4.15-16). “Em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor” (Gl 5.6). “Ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei” (1Co 13.2). Essa graça celestial percorre todo o círculo das virtudes cristãs. Assim, quando São Paulo enumera os frutos ou efeitos do Espírito, aponta o amor como o primeiro do cortejo. E, quando São Pedro enumera as virtudes que o cristão deve acrescentar à sua fé, conclui com as graças que coroam todas as outras: “a fraternidade” e “o amor” (Gl 5.22; 2Pe 1.7). Essas duas ideias são depois unidas pelo grande apóstolo quando exorta os colossenses a se revestirem do amor, “que é o vínculo da perfeição” (Cl 3.14), sem o qual o caráter cristão ficaria incompleto, e que se pode dizer que inclui todas as graças do Espírito, como mil espigas de trigo se unem no mesmo feixe por um único laço.

Foi com essas visões sublimes do amor que São Paulo se dirigiu assim aos seus convertidos: “Sejam servos uns dos outros, pelo amor. Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Ame o seu próximo como a você mesmo” (Gl 5.13-14). “Não fiquem devendo nada a ninguém, exceto o amor de uns para com os outros. Pois quem ama o próximo [em obediência ao mandamento de Cristo] cumpre a lei” (Rm 13.8). “O amor jamais acaba”, porquanto é a fonte da alegria celestial. “Agora, pois, [na igreja militante,] permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior deles é o amor”, que certamente animará a igreja triunfante (1Co 13.8, 13).

Mesmo aqui na terra, conhecer pela fé que “Deus é amor”, e que ele procura ganhar os nossos afetos com bênçãos sem número, é tido como o começo da vida eterna (Jo 17.3). Uma descoberta dessas não pode deixar de despertar na alma alguma resposta de gratidão, pois é impossível crer firmemente nessas verdades arrebatadoras sem exclamar como os primeiros cristãos: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19). Se Deus, na sua misericórdia, deu os primeiros passos em direção às suas criaturas rebeldes; se, embora a distância entre ele e nós seja infinita e os obstáculos à nossa união sejam inúmeros, ele ainda assim, com bondade, se põe ao nosso alcance apesar de tudo; se ainda se inclina a perdoar os culpados e busca reconciliar consigo o mundo por meio de Jesus Cristo (2Co 5.18), que coração consciente pode ficar insensível a essas provas do seu amor, ou que língua pode calar-se no seu louvor?

Esse Deus de amor dirigiu-se assim, com ternura, a uma antiga classe dos seus servos: “Com amor eterno eu a amei; por isso, com bondade a atraí” (Jr 31.3). O favor aqui expresso para com a igreja judaica é grande; mas o que o mesmo adorável Jeová testemunha à igreja cristã é ainda mais espantoso. O seu Filho, a imagem viva e eterna do seu Pai, humilha-se até o pó e se reveste da nossa natureza para que, erguendo-nos da nossa baixa condição, possa por fim colocar-nos à direita da Majestade nas alturas. “Cristo amou a igreja”, diz São Paulo, “e se entregou por ela, para que a santificasse” e purificasse, “para a apresentar a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha, nem ruga, nem coisa semelhante” (Ef 5.25-27). Assim ele deu aos crentes um exemplo do amor que devem ter por todos os seus irmãos cristãos, e aos maridos um modelo da afeição que devem sentir pelas suas esposas, visto que deixou o seio do seu Pai com o propósito expresso de sofrer com a sua igreja e por ela, a qual, na linguagem da Escritura, é chamada sua noiva (Ap 19.7). Mas, acrescenta o apóstolo, “grande é este mistério” (Ef 5.32). Ora, o verdadeiro ministro está felizmente iniciado nesse grande mistério do amor. Pode dizer com Pedro: “Senhor, tu sabes todas as coisas; tu sabes que eu te amo.” Pode testemunhar com Paulo: “O amor de Cristo me domina.” E, em outras ocasiões, quando as emoções do seu coração são ternas demais para se exprimirem em palavras, lágrimas de gratidão e de alegria clamam em silêncio, como as de Maria desfeita em pranto: “Senhor, tu és digno de todo o meu amor, pois perdoaste com bondade todo o meu pecado.” Animado por esse amor, ele insiste publicamente no amor universal, com todo o ardor de São João, testemunhando que ele flui do conhecimento de Deus e deve ser considerado a raiz da obediência cristã. “Nisto conhecemos o amor de Deus”, diz ele: “que Cristo deu a sua vida por nós; portanto, também nós devemos dar a nossa vida pelos irmãos. Filhinhos, não amemos de palavra, nem da boca para fora, mas [segundo o exemplo de Cristo] de fato e de verdade” (1Jo 3.16-18). Pois, “se Deus nos amou de tal maneira, nós também devemos amar uns aos outros”; e lembremos: “quem não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor” (1Jo 4.11, 8).

Embora Cristo tenha vindo, evidentemente, para derrubar o muro de separação entre judeus e gentios pregando a doutrina do amor universal, ele quis que os crentes se amassem uns aos outros com um grau particular de afeto. Somos chamados a tratar os não regenerados com um amor de benevolência; mas os crentes devem estar ligados uns aos outros por laços tão ternos e fortes que o mundo os reconheça como homens de um só coração e uma só alma. “Nisto”, diz nosso Senhor, “todos conhecerão que vocês são meus discípulos: se tiverem amor uns aos outros” (Jo 13.35). E quem pode descrever a generosidade, a doçura, a força e a constância dessa graça vivificante? Ela é mais ativa do que a chama penetrante; é mais forte do que a morte. A comunhão dos santos é recebida entre os cristãos como um artigo do seu credo estabelecido. Feliz seria se fizesse parte da sua experiência religiosa! Quanto à diferença entre o amor cristão e o que se exigia sob a lei, parece que São João a mostra de modo satisfatório na seguinte passagem: “Amados, não lhes escrevo um mandamento novo, mas um mandamento antigo, que vocês tiveram desde o princípio”; pois o próprio Moisés exortou com insistência o seu povo a manter entre si o fogo santo do amor fraterno. “Por outro lado, o que lhes escrevo é um mandamento novo” (1Jo 2.7-8); novo em relação a Cristo, que nos amou não somente como a si mesmo, mas até mais do que a si mesmo, pois ofereceu a sua vida em resgate pelos rebeldes. Moisés não provou a morte por Faraó, como Jesus a provou por Pilatos, Herodes e Caifás. Só o Legislador cristão exige um amor de natureza tão perfeitamente desinteressada; e, para sustentar um preceito tão elevado, ele o reforçou com o seu próprio grande exemplo. “Nisto consiste o amor”, prossegue o apóstolo: “não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados.” O amor, então, procede sem dúvida de Deus, fluindo dele como de uma fonte inesgotável; “e todo aquele que ama [da mesma maneira pura e fervorosa] é nascido de Deus e conhece a Deus” (1Jo 4.7, 10).

São Paulo apresenta esse amor como fonte de consolação. “Se existe alguma consolação de amor”, diz ele aos filipenses, “tenham o mesmo modo de pensar, tendo o mesmo amor [uns pelos outros]; tenham entre vocês o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus” (Fp 2.1-2, 5). E em outra epístola exclama: “Quero que saibam quão grande tem sido a nossa luta por vocês, pelos que moram em Laodiceia, para que o coração deles seja consolado e para que eles estejam vinculados em amor” (Cl 2.1-2).

1. O amor pode ser considerado uma fonte de conforto porque nos livra do medo da morte e nos liberta de mil outros terrores que perturbam a paz dos homens mundanos. “No amor não existe medo; pelo contrário, o perfeito amor”, que tudo espera, “lança fora o medo. Porque o medo envolve castigo, e quem teme não é aperfeiçoado no amor” (1Jo 4.18).

2. O amor é consolador porque nos ajuda e nos anima no cumprimento dos nossos diversos deveres. Quando ardemos de afeto por Deus e pelo próximo, as obras de piedade e de caridade se realizam não somente sem esforço penoso, mas com sensações de secreto deleite no fundo do coração. “Este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos”; e, para os que o amam sinceramente, “os seus mandamentos não são difíceis de guardar” (1Jo 5.3). Assim, uma mãe terna perde o sono sem se queixar para atender às necessidades do seu bebê inquieto; assim, um pai afetuoso trabalha com prazer pelo sustento e pela educação dos filhos; e assim, com toda demonstração de alegria, os cristãos primitivos se socorriam e se sustentavam uns aos outros. Os efeitos admiráveis produzidos por esse amor não fingido são descritos por São Lucas nos seguintes termos: “Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; [perdendo de vista todo interesse próprio,] tudo, porém, lhes era comum” (At 4.32).

Aqui vemos plenamente realizado por Cristo aquilo que antigamente fora prefigurado a Moisés no deserto, quando o maná era distribuído entre o povo com tanta igualdade que “não sobrava para quem havia recolhido muito, nem faltava para quem havia recolhido pouco” (Êx 16.18).

Felizes foram aqueles dias passageiros de comunhão cristã! Dias que Deus havia prometido muito tempo antes, e dos quais se dera uma antecipação na terra de Canaã, quando se ordenou que, durante o ano do Jubileu, os pobres pudessem partilhar os confortos dos seus vizinhos mais ricos. É preciso reconhecer que a multidão de professos insinceros que cobre a igreja nestes tempos tristes não permitirá que esse método seja adotado de modo geral entre nós, embora ele fosse inteiramente praticável num país habitado por seguidores afetuosos de Jesus. Mas, ao mesmo tempo, não é menos verdade que todo indivíduo que possui amor verdadeiro ainda anda nas pegadas dos seus irmãos mais velhos e só espera a volta de tempos favoráveis para provar que “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre” (Hb 13.8), e que o amor não fingido, nas mesmas circunstâncias, sempre produzirá o mesmo efeito.

É impossível exaltar demais esse amor, que brota de um senso agradecido da redenção que há em Jesus. Quem desconhece essa graça é estranho a toda virtude verdadeira e está inteiramente desprovido daquela “santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). Por isso vemos o apóstolo Paulo ligar tantas vezes a santidade ao amor, ou antes, apresentar este como o fundamento daquela. “Deus nos escolheu, nele”, diz ele, “para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Ef 1.3-4). “Que Cristo habite, pela fé, no coração de vocês, para que, enraizados e alicerçados em amor, vocês possam compreender, com todos os santos, qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que vocês fiquem cheios de toda a plenitude de Deus” (Ef 3.17-19). “O Senhor faça com que cresça e aumente o amor de uns para com os outros e para com todos, a fim de que o coração de vocês seja fortalecido em santidade, isento de culpa, na presença de nosso Deus” (1Ts 3.12-13).

“O conhecimento [sozinho] leva ao orgulho, mas o amor [somado ao conhecimento] edifica” (1Co 8.1), e conduz a alma de graça em graça, até “a medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.13). Felizes os que chegaram a esse alto grau de espiritualidade, do qual, com um olhar de pura beneficência, podem sorrir para todos ao seu redor! Esses podem unir-se aos primeiros que professaram o cristianismo e dizer: “Nós conhecemos o amor e cremos neste amor que Deus tem por nós”; e, penetrados de um profundo senso do seu afeto, declaramos, por feliz experiência, que “Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele” (1Jo 4.16). O amor desses discípulos perseverantes pode, em sentido bíblico, ser chamado “perfeito”, pois os capacita a ter uma semelhança justa, embora pálida, com o Deus de amor (1Jo 4.17). O seu coração está tão cheio de amor quanto as faíscas estão cheias de fogo; e, sem dúvida, pode-se dizer que a menor faísca brilha com certo grau de perfeição na sua pequena esfera, tanto quanto o sol mais brilhante no seu curso mais vasto.

São Paulo, que pregou esse amor com tanto fervor, declara que ele foi aceso no seu coração pelo amor de Cristo; e por isso se esforça por fundá-lo naquelas doutrinas que são universalmente desprezadas por toda classe de deístas. Na sua Epístola aos Romanos, que contém dezesseis capítulos, ele emprega onze para lançar esse alicerce sólido, ao passo que os deveres do amor são expostos apenas nos cinco capítulos restantes. Como sábio construtor, antes de tentar levantar esse edifício sagrado, procura remover do caminho as ruínas da natureza corrompida e o entulho do amor-próprio. Mas, se tivesse tentado fazer isso sem chamar em seu auxílio as doutrinas do evangelho, teria agido de modo tão ridículo quanto Arquimedes, se esse filósofo tivesse tentado deslocar a terra sem antes garantir um ponto de apoio sólido, adequado ao seu propósito.

Os motivos mais poderosos que esse apóstolo emprega para nos impelir à prática do amor cristão são o amor de Deus e a compaixão de Cristo. “Deus prova o seu próprio amor para conosco”, diz ele, “pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando ainda éramos pecadores” (Rm 5.8); e: “vocês conhecem a graça do nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vocês, para que, por meio da pobreza dele, vocês se tornassem ricos” (2Co 8.9). Ora, todo aquele que sente o poder e prova a doçura dessas duas grandes verdades sente-se ao mesmo tempo levado a toda boa obra, da mesma forma que o avarento é levado às ações que servem para aumentar o seu tesouro. Pois, “pela graça” somos “salvos, mediante a fé” nessas mesmas verdades, e somos “criados em Cristo Jesus para boas obras” (Ef 2.8, 10). “Ele deu a si mesmo por nós”, com este único propósito, “a fim de nos remir de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, dedicado à prática de boas obras” (Tt 2.14). A doutrina consoladora de um perdão gratuito oferecido aos pecadores como prova do amor insondável de Deus é outro motivo empregado com frequência para o mesmo fim. “Portanto”, prossegue o mesmo apóstolo, “como eleitos de Deus, revistam-se de profunda compaixão, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência. Suportem-se uns aos outros e perdoem-se mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outra pessoa. Assim como o Senhor perdoou vocês, perdoem também uns aos outros” (Cl 3.12-13). “Acima de tudo, porém, tenham muito amor uns para com os outros, porque o amor cobre a multidão de pecados” (1Pe 4.8). Sim, ele não somente cobre os pecados dos outros, considerando as suas ações duvidosas pelo ângulo mais favorável e passando por alto as mais imperdoáveis das suas falhas, mas pode, em certa medida, dizer-se que cobre as nossas próprias ofensas, visto que Deus, por amor de Cristo, prometeu passar por alto as nossas transgressões à medida que damos prova de um espírito perdoador para com os nossos irmãos. A discórdia entrou no mundo pelo pecado. Por isso vemos os homens não regenerados não somente separados de Deus, mas divididos entre si; e por isso, pela rebelião das suas paixões crescentes contra a sua razão enfraquecida, todo homem injusto está em guerra consigo mesmo. Por terríveis que sejam esses males, aqui se nos apresenta um remédio perfeito para todos eles. Aquele que criou o homem reto enviou o seu Filho para restabelecer a harmonia no mundo, para submeter as nossas paixões ao domínio da benevolência universal, para sujeitar a nossa razão à autoridade da verdade e para subjugar o homem inteiro ao doce jugo do amor manifestado na carne; aquele Amor destinado a reinar para sempre, cujo feliz império se chama “Reino dos Céus”. “O Pai da glória”, diz São Paulo, “sujeitou todas as coisas debaixo dos pés de Cristo e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1.17, 22-23). “Vocês, que antes estavam longe, foram aproximados pelo sangue de Cristo. Porque ele é a nossa paz”, entre judeus e gentios, entre homem e homem; “de dois povos ele fez um só e derrubou a parede de separação que estava no meio, para que reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por meio da cruz, destruindo a inimizade” por aquele amor perfeito do qual deu tantas provas maravilhosas. “Assim”, nós, que somos movidos pelo mesmo espírito de amor, “não somos mais estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular. Nele, todo o edifício, bem-ajustado, cresce para ser um santuário dedicado ao Senhor. Nele também vocês estão sendo edificados, junto com os outros, para serem morada de Deus no Espírito” de amor (Ef 2.13-22).

O ministro que sente a força desses motivos irresistíveis não pode deixar de pô-los continuamente diante dos seus ouvintes. As diversas partes dos seus discursos públicos tendem a esse grande ponto tão naturalmente quanto as várias partes de um edifício sólido repousam todas sobre o alicerce comum. “Há somente um corpo e um só Espírito”, diz ele com o apóstolo, “como também é uma só a esperança para a qual vocês foram chamados; há um só Senhor, um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos” (Ef 4.4-6). “Assim como num só corpo temos muitos membros, assim também nós, embora sejamos muitos, somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros. Portanto, o amor seja sem hipocrisia. Amem uns aos outros com amor fraternal. Quanto à honra, deem sempre preferência aos outros. Alegrem-se com os que se alegram e chorem com os que choram. Tenham o mesmo modo de pensar de uns para com os outros. Não façam justiça com as próprias mãos, mas deem lugar à ira. Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem” (Rm 12.4-21). Numa palavra: “Façam todas as coisas com amor” (1Co 16.14).

Para concluir. O pastor evangélico mostra a excelência do amor e insiste em todo motivo que possa levar à sua prática, até que os homens mundanos sejam obrigados a exclamar, com toda a admiração dos pagãos antigos: “Vejam como esses cristãos se amam uns aos outros!” Luciano, é verdade, pôde olhar com escárnio para o zelo com que os cristãos primitivos se socorriam uns aos outros: “Pois”, diz ele, “o seu legislador os fez crer que são todos irmãos; e por isso têm todas as coisas em comum entre si, desprezando até a própria morte pela esperança da imortalidade.” O bom pastor, porém, anseia por fazer exatamente aquilo que esse escritor pagão foi ímpio o bastante para censurar em Cristo. Exorta os crentes a se dirigirem ao Todo-Poderoso como ao seu Pai comum (Lc 11.2), consciente de que, assim que recebem poder para clamar “Aba”, isto é, Pai, pelo Espírito Santo, esquecerão necessariamente toda distinção escrupulosa entre o meu e o teu e farão, com sinceridade não fingida, aquela oração universal: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje.” Essa petição é usada habitualmente por todos os membros da nossa igreja degenerada, enquanto o seu coração permanece relativamente insensível às carências dos irmãos necessitados. Mas, se o amor dos dias antigos revivesse entre nós, não somente pediríamos ao alto as bênçãos comuns, mas nos alegraríamos em reparti-las uns com os outros, como irmãos que participam de uma refeição preparada para eles à mesa do seu pai comum.

Dias felizes, quando se via o evangelho de Cristo florescer na terra! Sem dúvida, aquela época sagrada poderia, com razão, ser chamada a idade de ouro da igreja. Ah, se pudéssemos recuperar a felicidade que perdemos e ver as alegrias da unanimidade restituídas a um mundo dividido! Mas, enquanto damos vazão aos nossos lamentos, não nos deixemos afundar no desespero, pois, por mais deploráveis que sejam as nossas circunstâncias atuais, elas não são de todo irremediáveis. Embora por tantos séculos o amor-próprio tenha usurpado o trono do amor; embora a humanidade esteja inclinada a ferir-se mutuamente, na reputação pela calúnia, nos bens pela injustiça e na pessoa pelo homicídio, seja cometido na figura de um assassino, seja na de um duelista; embora se fomentem guerras pelos pretextos mais leves e príncipes cristãos pareçam ansiosos por lavar as mãos no sangue de milhares; embora “os lugares tenebrosos da terra” estejam “cheios de moradas de violência” (Sl 74.20), ainda assim não abandonaremos a nossa esperança. Esses tempos infelizes foram preditos pelo nosso Mestre cheio de graça (Mt 24.12). E, assim como ele teve presciência bastante para predizer o declínio do amor cristão e as calamidades dele decorrentes, assim também possui poder suficiente para restabelecer o império do amor no mundo. Os crentes, portanto, em meio a todas as suas aflições, podem esperar com paciência e confiança aqueles “tempos de refrigério” que certamente virão “da presença do Senhor”, aguardando aquela prometida “restauração de todas as coisas, de que Deus falou por boca dos seus santos profetas desde a antiguidade” (At 3.20-21). Enquanto isso, que os que apressam com as suas orações essa desejável transformação cuidem de preservar no próprio coração aquelas faíscas de amor que um dia incendiarão o universo numa chama sagrada. E que os ministros do evangelho exponham constantemente aquelas verdades evangélicas que outrora bastaram para acender esse fogo glorioso, para que, avivando as brasas moribundas da graça, a pequena luz que ainda resta na igreja seja preservada da extinção total.

Se aqui se objetar: “Não devem todos os ministros da nossa Igreja ser considerados pregadores do amor cristão?”, respondemos: De modo nenhum. O amor de que falamos tem de brotar da união com Cristo, união que os ministros de hoje costumam tratar como entusiasmo e coisa vã. Esta graça excelente “é derramada em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi dado” (Rm 5.5). Mas quem ousa defender abertamente essa verdade das Escrituras é tido por tais pregadores como nada melhor que um fanático iludido. É verdade que esses pregadores sem sinceridade falam com frequência do amor cristão; mas, longe de se esforçarem para espalhá-lo pelo mundo, empregam todo o empenho em destruir as próprias sementes dessa graça na Igreja de Deus. Se, numa paróquia que tem a infelicidade de ter um pastor desse tipo, algumas pessoas se convertem felizmente a Deus e se unem em Jesus Cristo; se, tendo um só coração e uma só alma, se reúnem com frequência para orar e louvar, exortando-se e estimulando-se mutuamente ao amor e às boas obras, o ministro mundano logo se alarma e imagina que essas pessoas, para formar uma nova seita, estão destruindo a unidade da Igreja, quando, ao contrário, estão apenas começando a experimentar a comunhão dos santos. E, se ele tiver zelo, ou espírito de partido, trabalhará para fazer parecer que esses cristãos, que começam a amar-se como irmãos, estão formando conventículos para perturbar a ordem da Igreja e do Estado. Um ministro assim dará mais incentivo a companhias de saltimbancos, dançarinos e beberrões do que tolerará uma sociedade que tenha o amor cristão por objetivo e fundamento.

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Portrait of St. Paul: or, The True Model for Christians and Pastors, versão inglesa de Joshua Gilpin (1790) do manuscrito francês do autor, na edição de Nova York (B. Waugh e T. Mason, 1834), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Por isso esta é tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.