John Fletcher · O Retrato de São Paulo · Parte II (continuação)
As três grandes promessas de Deus e as três dispensações da graça (do Pai, do Filho e do Espírito Santo), por que o pastor as estuda e os diferentes pregadores de cada uma.
Vimos, nos capítulos anteriores, que os crentes são salvos por uma fé viva e por uma esperança alegre, que mutuamente servem para despertar e aumentar em sua alma a graça superior do amor. Ora, essa fé e essa esperança têm necessariamente de ter por fundamento alguma promessa de Deus. Uma promessa já cumprida é abraçada só pela fé; mas uma promessa cujo cumprimento se prolonga é igualmente objeto de fé e de esperança. Por isso, aquele que é designado por Cristo pregador do evangelho eterno procura com solicitude ter ideias claras das grandes promessas de Deus. Ocupa-se constantemente em meditar no seu cumprimento passado ou futuro, a fim de manter no próprio coração aquelas graças inestimáveis com que deseja animar a alma dos outros. Observe a ordem em que ele as considera, as abraça e as prega.
Sob a dispensação do Pai, a grande promessa era a que dizia respeito à manifestação exterior do Filho. A promessa original, feita a Adão, foi expressa nestes termos: “O descendente da mulher ferirá a cabeça da serpente” (Gn 3.15). Como o Messias haveria de descender de Abraão segundo a carne, a mesma promessa foi assim renovada a esse patriarca: “Em você serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3). Nos dias de Moisés, foi repetida a todo o Israel desta forma: “O Senhor, seu Deus, fará com que do meio de vocês, do meio dos seus irmãos, se levante um profeta; a ele vocês devem ouvir” (Dt 18.15). Davi e os demais profetas confirmaram poderosamente essa profecia, e Malaquias recapitula assim as promessas dadas antes do seu tempo: “De repente, o Senhor, a quem vocês buscam, virá ao seu templo; e o mensageiro da aliança, a quem vocês desejam, eis que ele vem, diz o Senhor dos Exércitos” (Ml 3.1). “Para vocês que temem o meu nome nascerá o sol da justiça, trazendo salvação nas suas asas. Vocês sairão”, da presente dispensação obscura, “e saltarão”, em força espiritual, “como bezerros soltos da estrebaria” (Ml 4.2). Assim fala o último dos profetas sob a dispensação do Pai.
Logo que essas promessas se cumpriram, enquanto a dispensação do Filho era aberta ainda de modo obscuro pelo seu precursor, outra promessa foi dada para o exercício da fé e da esperança sob essa nova economia: a da plena manifestação do Espírito Santo como Espírito de verdade e de amor. Veja essa grande promessa anunciada por João Batista: “Eu não sou o Cristo”; “Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitem o caminho do Senhor” (Jo 1.20, 23). “Eu batizo vocês com água, para arrependimento”, como preparação para o reino espiritual e o batismo do Messias; “mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de carregar as sandálias”. Ele introduzirá uma dispensação mais espiritual e ministrará um batismo mais eficaz, pois “ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3.11), derramando aqueles dons e graças do seu Espírito que penetrarão e purificarão o coração de vocês, como os metais são penetrados e purificados pelo fogo material. Essa promessa é de tão grande importância que se julgou necessário que fosse repetida pelos quatro evangelistas.
Nosso Senhor, dando continuidade à dispensação que o seu precursor havia aberto, “fazia e batizava mais discípulos do que João, se bem que Jesus mesmo não batizava”, com água, “e sim os seus discípulos” (Jo 4.1-2). O batismo que ele estava para ministrar era tão superior ao batismo de João e ao dos seus próprios discípulos quanto a água de que ele falou à mulher samaritana era superior à água do Jordão ou à do poço de Jacó. “Aquele que beber da água que eu lhe der”, disse ele àquela mulher que o interrogava (todo aquele que vier ao meu batismo e baixar o seu vaso na fonte inesgotável da minha graça), “nunca mais terá sede. Pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte”, uma fonte de justiça, paz e alegria, “a jorrar para a vida eterna” (Jo 4.14).
Para fortalecer a esperança dos que tinham sido batizados com água, nosso Senhor ratificou publicamente a promessa que João Batista lhes repetira tantas vezes. “No último dia, o grande dia da festa, Jesus se levantou e disse em voz alta: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. Isso ele disse a respeito do Espírito que os que nele cressem”, em todas as épocas, “haviam de receber; pois o Espírito até aquele momento não tinha sido”, plenamente, “dado, porque Jesus ainda não havia sido glorificado” (Jo 7.37-39). Promessa inestimável, que merece ser profundamente gravada na mente daqueles que conhecem Cristo apenas segundo a sua aparência exterior no mundo. Observe aqui o método pelo qual o bendito Jesus procura preparar todos esses, em todo país e em toda época, para a sua manifestação no Espírito: “Se vocês me amam, guardarão os meus mandamentos”; sejam fiéis à presente dispensação do meu evangelho, “e eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Consolador, a fim de que esteja com vocês para sempre”. “Naquele dia”, quando vocês experimentarem a plenitude da presença dele, “vocês saberão que eu estou em meu Pai, que vocês estão em mim e que eu estou em vocês.” Pois “aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei”; “e viremos para ele e faremos nele morada” (Jo 14.15-23). Comparando essas palavras com os versículos 17 e 26 do mesmo capítulo, fica evidente que por essa manifestação espiritual do Pai e do Filho não se pode entender nada menos que a plena medida daquele Espírito Santo que “procede” do Pai (Jo 15.26) e que é expressamente chamado “o Espírito de seu Filho” (Gl 4.6).
Nosso Senhor, que conhecia o embotamento dos que estavam sob a dispensação inferior do seu evangelho, e como eles demoravam “para crer” no que os profetas ou ele mesmo tinham dito, julgou conveniente repetir a grande promessa do Espírito vez após vez. “Quando, porém, vier o Consolador”, disse ele, “que eu enviarei a vocês da parte do Pai, esse dará testemunho de mim” (Jo 15.26). “É melhor para vocês que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vocês; mas, se eu for, eu o enviarei a vocês” (Jo 16.7). “Eis que envio sobre vocês a promessa de meu Pai” (Lc 24.49).
O derramamento abundante do Espírito Santo foi chamado por nosso Senhor de promessa do Pai por duas razões. Primeiro, porque, tendo vindo para ensinar a humanidade a adorar o Pai “em espírito e em verdade”, convinha-lhe referir todas as coisas a esse Pai, e era isso que ele costumava fazer rigorosa e constantemente. Segundo, porque “o Pai das luzes” deve ser considerado o autor de “toda boa dádiva e todo dom perfeito”. Foi ele quem amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para morrer pelo mundo, e dele procede o Espírito Santo que Jesus Cristo continua a derramar entre os seus seguidores fiéis. O Pai já havia prometido, sob a lei, que concederia ao seu povo um derramamento geral do seu Espírito sob o reinado do Messias. A memorável profecia de Joel, citada por São Pedro, é bem conhecida; e as promessas seguintes merecem igualmente a atenção dos crentes: “Naquele dia, sobre a casa de Davi e sobre os moradores de Jerusalém derramarei o espírito da graça e de súplicas. Olharão para aquele a quem traspassaram. Prantearão por ele como quem pranteia por um filho único” (Zc 12.10). “Derramarei água sobre o chão sedento e torrentes sobre a terra seca. Derramarei o meu Espírito sobre a sua posteridade e a minha bênção sobre os seus descendentes” (Is 44.3). “Aspergirei água pura sobre vocês, e vocês ficarão purificados. Porei dentro de vocês o meu Espírito e farei com que andem nos meus estatutos” (Ez 36.25-27). “Eu lhes darei um só coração; tirarei deles o coração de pedra e lhes darei coração de carne” (Ez 11.19). Precisa ser preconceituoso em grau extremo quem não percebe que essas graciosas profecias começaram a cumprir-se no dia de Pentecostes, quando “da multidão dos que creram era um o coração e a alma”.
O último dia que o nosso Salvador ressuscitado passou na terra foi empregado em fortalecer a fé dos seus discípulos a respeito dessa promessa. Depois de reuni-los, “deu-lhes esta ordem”: “esperem a promessa do Pai, a qual”, continuou ele, “vocês ouviram de mim. Porque João, na verdade, batizou com água”, e vocês fizeram o mesmo por ordem minha, “mas vocês serão batizados com o Espírito Santo, dentro de poucos dias” (At 1.4-5).
Depois que a grande promessa da dispensação do Filho se cumpriu em parte, quando os discípulos ficaram cheios de fé e do Espírito Santo, outra promessa foi dada para exercitar a sua fé, fixar a sua atenção e aperfeiçoar a sua paciência: a promessa da segunda vinda de Cristo para recolher “o seu trigo no celeiro” e queimar “a palha num fogo que nunca se apaga” (Mt 3.12). “Esse Jesus”, disseram os anjos que apareceram aos discípulos no dia da ascensão do seu Mestre, “esse Jesus que foi levado do meio de vocês para o céu virá do modo como vocês o viram subir” (At 1.11). Essa importante promessa foi depois repetida por São Paulo e pelos outros apóstolos: “Do céu se manifestará o Senhor Jesus com os anjos do seu poder, em chama de fogo, tomando vingança contra os que não obedecem ao evangelho. Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor, quando ele vier, naquele Dia, para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram” (2Ts 1.7-10). “Eis que ele vem com as nuvens, e todo olho o verá, até mesmo aqueles que o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão por causa dele” (Ap 1.7). “O Dia do Senhor virá como um ladrão” (2Pe 3.10).
Essa vinda de Cristo, desprezada por muitos pela razão apontada por São Pedro (2Pe 3.9-10), é tão plenamente esperada pelos que vivem sob a dispensação do Espírito que eles estão constantemente “esperando e apressando a vinda do Dia de Deus” (2Pe 3.12). Segundo São Paulo, os pecadores são convertidos do erro dos seus caminhos para “servir o Deus vivo e verdadeiro e para aguardar dos céus o seu Filho, a quem ele ressuscitou dentre os mortos” (1Ts 1.9-10), “aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo” (Tt 2.13). Essa segunda vinda de Cristo era o objeto das mais altas esperanças desse apóstolo, que se descreve gemendo por ela com o mais fervoroso desejo (Rm 8.23). “Na verdade, considero tudo como perda”, continua ele, para “conhecer Cristo e o poder da sua ressurreição”. “Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas” (Fp 3.8, 10, 20-21).
Assim como Deus concedera aos crentes do Antigo Testamento uma visão em perspectiva tanto da manifestação do Redentor num corpo mortal como da dispensação do Espírito que ele haveria de abrir entre os seus seguidores no Novo Testamento, também predissera pelos seus profetas o glorioso retorno desse Salvador à terra. “Eis que o Senhor vem com milhares de seus santos”, para “exercer juízo” (Jd 14-15). “Eis que ele vem, diz o Senhor dos Exércitos. Mas quem poderá suportar o dia da sua vinda? E quem poderá subsistir quando ele aparecer? Porque ele é como o fogo do ourives e como o sabão dos lavandeiros” (Ml 3.1-2).
Note os termos com que o próprio Senhor anunciou essa dispensação sublime: “O amor se esfriará de quase todos. Muitos falsos profetas se levantarão”, e vocês verão, “situado no lugar santo, o abominável da desolação de que falou o profeta Daniel”. “Logo em seguida à tribulação daqueles dias, os poderes dos céus serão abalados. Então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem. Todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória. Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe. Portanto, vigiem, porque vocês não sabem em que dia virá o Senhor de vocês” (Mt 24). Assim o próprio Jesus deu testemunho da sua segunda vinda; e os seus primeiros discípulos, em conformidade com a declaração do Mestre, dirigiram-se a uma grande assembleia nos seguintes termos, quase imediatamente após a sua ascensão: “Arrependam-se e se convertam, para que sejam cancelados os seus pecados, a fim de que, da presença do Senhor, venham tempos de refrigério, e que ele envie o Cristo, que já foi designado para vocês, a saber, Jesus, ao qual é necessário que o céu receba até os tempos da restauração de todas as coisas, de que Deus falou por boca dos seus santos profetas desde a antiguidade” (At 3.19-21).
Enquanto um ministro abraça essas diferentes promessas; enquanto, com uma fé viva, que é “a convicção de fatos que não se veem”, crê que o Pai enviou o seu Filho para a redenção dos pecadores e o seu Espírito Santo para a santificação dos crentes; enquanto, com uma fé que é “a certeza de coisas que se esperam”, crê que Cristo voltará um dia para a glorificação dos seus santos, por todo esse tempo ele é salvo por aquela fé e esperança que o capacitam a pregar o evangelho em toda a sua maravilhosa extensão. Por todo esse tempo, ele não só compreende, mas experimenta o poder desse evangelho na própria alma, enquanto trabalha para torná-lo manifesto diante do mundo pelos seus discursos públicos e por todo o teor da sua conduta.
O pastor mal instruído nos mistérios da nossa santa religião perde-se a si mesmo e desencaminha as suas ovelhas. O bom pastor, ao contrário, tendo encontrado o caminho da vida eterna, avança por ele à frente do seu rebanho e exorta todo errante descuidado a seguir os seus passos. Ele sabe não só que tem no seu aprisco uma mistura de ovelhas e bodes, mas também que, entre as primeiras, há algumas a cuja condição espiritual o leite genuíno da palavra se adapta muito melhor que o alimento sólido. A todos esses procura dirigir-se de maneira adequada. Aos que estão mortos em delitos e pecados, igualmente desprovidos de amor e de temor, proclama os primeiros princípios do evangelho, como o “arrependimento de obras mortas”, “a fé em Deus” e o “juízo eterno” (Hb 6.1-2). Os que já despertaram das ilusões do pecado, ele os conduz com solicitude pelas veredas da graça; e procura levar à perfeição evangélica os que já provaram “os poderes do mundo vindouro” (Hb 6.5). Distingue facilmente a multidão variada dos seus ouvintes em diversas classes. Os incrédulos e os impenitentes, que devem ser considerados sem Deus e sem esperança no mundo, são os que seguem sem nenhum sinal de temor para o abismo da perdição, seja pela estrada larga do vício, com os notoriamente perdidos, seja pelo atalho da hipocrisia, com os professos farisaicos. Os pecadores convertidos, ou crentes, estão sob a dispensação do Pai, sob a do Filho ou sob a do Espírito Santo, conforme o progresso que tenham feito nas coisas espirituais. E o pastor fiel conhece tão perfeitamente os vários graus que alcançaram quanto um preceptor diligente conhece as diferentes capacidades de cada um dos seus alunos.
Os crentes sob a dispensação do Pai estão comumente cercados por uma noite de incerteza e dúvida, embora visitados, às vezes, por alguns raios esparsos de esperança. Sob a dispensação do Filho, as dúvidas dos crentes se dissipam, como as dos dois discípulos que caminhavam para Emaús, enquanto eles descobrem com mais clareza e experimentam com mais poder as verdades do evangelho. Mas, sob a dispensação do Espírito, eles andam “na luz” (1Jo 1.7) e são guiados em toda a verdade pelo “Espírito da verdade” (Jo 16.13); “a unção que receberam dele permanece” neles e os ensina “a respeito de todas as coisas” necessárias à salvação (1Jo 2.27).
Um pai da Igreja, parafraseando aquelas palavras do apóstolo, “Senhor, salve-nos! Estamos perecendo!”, dirige-se assim aos discípulos que duvidavam: “Vocês têm o seu Salvador consigo; que perigo podem temer? Ainda somos, respondem eles, apenas crianças, e alcançamos só um pequeno grau de força; por isso temos medo. A descida do Espírito Santo, aquele protetor divino que nos foi graciosamente prometido, ainda não nos encheu de plena certeza. Essa tem sido até agora a causa da nossa instabilidade, e é por isso que o Salvador tantas vezes nos repreende pela fraqueza da nossa fé.” (Orígenes, Homilias sobre Mt 8.23-28.) Ora, todos os cristãos que ainda não receberam o batismo espiritual tantas vezes mencionado no Novo Testamento estão encerrados nesse estado de fraqueza e dúvida. Mas, assim que nascem do Espírito, já não clamam com medo e tremor: “Salve-nos! Estamos perecendo!” Antes, clamam em transportes de gratidão: Deus, “segundo a sua misericórdia”, “nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador” (Tt 3.5-6).
Sob a dispensação do Pai, os crentes experimentam constantemente o temor de Deus e, em geral, muito mais temor que amor. Sob a economia do Filho, o amor começa a prevalecer sobre o temor. Mas, sob a dispensação do Espírito Santo, “o perfeito amor lança fora o medo” (1Jo 4.18), porque é ofício próprio do Consolador livrar a alma de tudo o que pode afligi-la e atormentá-la.
Sob a economia do Pai, ouve-se muitas vezes o crente exclamar: “Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24). Sob a do Filho, ele clama agradecido: “Graças a Deus”, que operou eficazmente esse livramento, “por Jesus Cristo, nosso Senhor!” (Rm 7.25). Mas, sob o evangelho perfeito, que é a dispensação do Espírito, todos os crentes podem dizer a uma só voz: “Não recebemos um espírito de escravidão, para vivermos outra vez atemorizados, mas recebemos o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: ‘Aba, Pai.’ O próprio Espírito confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus”, herdeiros de Deus “e coerdeiros com Cristo” (Rm 8.15-17).
São Paulo distingue assim os diferentes graus de adiantamento na fé cristã: “Durante o tempo em que o herdeiro é menor de idade [e tal é o caso dos crentes sob a dispensação do Pai], em nada difere de um escravo, mesmo sendo senhor de tudo. Mas está sob tutores e curadores até o tempo predeterminado pelo pai. Assim, também nós estávamos escravizados; mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao nosso coração, e esse Espírito clama: ‘Aba, Pai!’ Assim, você já não é mais escravo, porém filho; e, sendo filho, também é herdeiro por Deus” (Gl 4.1-7), por meio de Cristo, “pelo qual obtivemos também acesso, pela fé, a esta graça e nos gloriamos na esperança da glória de Deus” (Rm 5.2).
O próprio Senhor indicou claramente o estado progressivo da Igreja quando, voltando-se para os seus discípulos, disse: “Bem-aventurados os olhos que veem as coisas que vocês estão vendo. Pois eu lhes digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que vocês estão vendo, mas não viram; e quiseram ouvir o que vocês estão ouvindo, mas não ouviram” (Lc 10.23-24). No entanto, quando o seu gracioso Mestre falava assim, ainda não tinha sido nem crucificado nem glorificado; e sabe-se bem que a glória do evangelho haveria de seguir-se aos seus sofrimentos e ao seu triunfo.
O mesmo assunto é tratado por São Pedro na sua primeira epístola, onde fala daquela salvação plena que deve ser considerada o fim, ou a recompensa, da fé (1Pe 1.9). “Foi a respeito desta salvação”, diz ele, “que os profetas indagaram e investigaram. Eles profetizaram a respeito da graça destinada a vocês, investigando qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas que eram indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava, ao predizer os sofrimentos que Cristo teria de suportar e as glórias que viriam depois desses sofrimentos. A eles foi revelado que, não para si mesmos, mas para vocês, ministravam as coisas que, agora, foram anunciadas a vocês por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, lhes pregaram o evangelho, coisas essas que anjos desejam contemplar” (1Pe 1.10-12). “Vocês são bem-aventurados, porque o Espírito da glória, que é o Espírito de Deus, repousa sobre vocês” (1Pe 4.14). “Vocês, porém, são geração eleita, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamar as virtudes daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9).
Sem um conhecimento experimental desses diversos estados, um ministro não pode levar os pecadores à perfeição evangélica, assim como um camponês iletrado não pode transmitir aos seus companheiros da roça instrução suficiente para que prestem exame para o mais alto grau de uma universidade.
Talvez seja necessário apontar aqui as grandes verdades que caracterizam cada uma dessas dispensações.
A linguagem comum sob a dispensação do Pai é a seguinte: Deus “de um só homem fez todas as nações para habitarem sobre a face da terra, havendo fixado os limites da sua habitação; para buscarem Deus se, porventura, tateando, o possam achar, ainda que não esteja longe de cada um de nós” (At 17.26-27). “A graça de Deus se manifestou [em diferentes graus], trazendo salvação a todos” (Tt 2.11). “O Deus vivo” é “Salvador de todos, especialmente dos que creem” (1Tm 4.10). “Deus não trata as pessoas com parcialidade; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável” (At 10.34-35). “Sem fé é impossível agradar a Deus, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que recompensa os que o buscam” (Hb 11.6). “Ele já mostrou a você o que é bom; e o que o Senhor pede de você? Que pratique a justiça, ame a misericórdia e ande humildemente com o seu Deus” (Mq 6.8).
Observe a linguagem da dispensação do Filho: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem.” “Estou aqui para lhes trazer boa-nova de grande alegria, que será para todo o povo: é que hoje, na cidade de Davi, lhes nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lc 2.10-14). “A graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (Jo 1.17), que “não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho” (2Tm 1.10). “Vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade” (Jo 4.23). “Vocês creem em Deus, creiam também em mim” (Jo 14.1). “Se, pois, o Filho os libertar, vocês serão verdadeiramente livres” (Jo 8.36). “A obra de Deus é esta: que vocês creiam naquele que ele enviou.” “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer”; “todo aquele que ouviu e aprendeu do Pai, esse vem a mim” (Jo 6.29, 44-45). “Quem crê no Filho tem a vida eterna; quem se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo 3.36).
A dispensação do Espírito, por sua vez, distingue-se pela seguinte linguagem própria: “O que está acontecendo é o que foi dito por meio do profeta Joel: ‘E acontecerá nos últimos dias [isto é, sob as últimas dispensações da minha graça], diz Deus, que derramarei o meu Espírito sobre toda a humanidade’, ‘até sobre os meus servos e sobre as minhas servas’, ‘e profetizarão’. Jesus, exaltado à direita de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto [esta plenitude da graça, cujos efeitos] vocês estão vendo e ouvindo. Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos seus pecados, e vocês receberão o Espírito Santo. Porque a promessa é para vocês e para os seus filhos, e para todos os que ainda estão longe, isto é, para todos aqueles que o Senhor, nosso Deus, chamar” (At 2.16-39).
Se em algum momento há motivo para temer que alguns crentes ainda sejam carnais e não renovados pelo Espírito de Deus, o pastor familiarizado com essas diferentes economias da graça pergunta, com São Paulo: “Vocês receberam o Espírito Santo quando creram?” (At 19.2). Quando outros do seu rebanho demonstram, pela conversa e pela conduta, que são movidos pelo Espírito de Cristo, ele os exorta de modo adequado à gloriosa dispensação sob a qual vivem: “Vocês foram lavados, foram santificados, foram justificados no nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus.” “O corpo de vocês é santuário do Espírito Santo”; “glorifiquem a Deus no corpo de vocês” e no espírito, que pertencem a Deus (1Co 6.11, 19-20). “Não entristeçam o Espírito Santo de Deus, no qual vocês foram selados para o dia da redenção” (Ef 4.30). “Deixem-se encher do Espírito, falando entre vocês com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando com o coração ao Senhor” (Ef 5.18-19). “Estejam sempre alegres. Orem sem cessar. Em tudo, deem graças” (1Ts 5.16-18).
Essa linguagem é elevada demais para os homens naturais, que não a entendem mais do que os iletrados compreendem as partes mais abstrusas da ciência. Por isso é necessário que o ministro fiel conheça as diferentes condições e capacidades de todos os seus ouvintes, se quiser acomodar com acerto as coisas espirituais aos homens espirituais. Sem esse conhecimento, correrá o risco, sob qualquer dispensação, de recusar aos cristãos adiantados o alimento sólido de que precisam e de oferecer ao homem natural aquele maná celestial que a sua própria alma detesta.
Se a luz do evangelho fosse devida por Deus a cada pecador individualmente; se ele não tivesse ficado inteiramente livre, em todos os sentidos da palavra, para concedê-la a quem, quando e no grau que mais lhe agradasse, então a sua justiça imparcial o obrigaria a iluminar igualmente toda a humanidade, e ele teria de fazer o Sol da justiça brilhar, logo depois da queda, em seu esplendor de meio-dia. Nesse caso, teria havido uma só dispensação da graça, e a luz do evangelho não teria avançado para a sua mais alta glória pelas justas gradações que se observam em todas as produções da natureza.
Mas o Todo-Poderoso procedeu na obra da nossa redenção segundo os ditames da sua própria sabedoria infalível, e não segundo os planos dos nossos pretensos sábios. O dia do evangelho, quer seja considerado iluminando o mundo em geral, quer o coração em particular, levanta-se como o dia natural, de um grau de claridade a outro, até que todas as suas glórias se manifestem plenamente.
A confusão que muitos teólogos espalharam sobre esta parte da teologia torna necessário descer a pormenores, para colocarmos sob a devida luz tanto as gradações como a harmonia das três dispensações que, juntas, formam o glorioso evangelho de Deus. Se alguns naturalistas resolvessem limitar suas observações do arco-íris às faixas manifestamente vermelhas; se naturalistas de outra classe se obstinassem do mesmo modo em contemplar as de cor alaranjada; e se outros se empenhassem com igual determinação em destacar as de cor azul, contradiriam uns aos outros e discutiriam entre si de maneira tão ridícula quanto se vê hoje fazerem muitos adoradores ignorantes do Deus triúno. Assim, os deístas disputam pela honra de Deus Criador; e, enquanto alguns cristãos prestam toda a sua homenagem a Deus Redentor, outros se ocupam inteiramente com Deus Santificador. No meio de toda a confusão desses sentimentos discordantes, o pastor prudente admite, cada qual no seu devido lugar, as várias dispensações da luz evangélica, conduzindo os que o seguem de fé em fé, até vê-los iluminados por todas as verdades e experimentando todo o poder da religião cristã.
Reconhecemos que Deus é justo, ainda que a luz do sol natural chegue até nós apenas de modo gradual, produzindo uma variedade constante tanto nos nossos dias como nas estações. Não acusamos o Ser Supremo de injustiça porque não lhe agrada levar os frutos da terra, num instante, à sua plena maturidade, ou porque a mesma espécie de fruta, estimada pelo sabor delicioso num clima, se mostra sem valor e insípida em outro. E, se não se espera que o Soberano do mundo amadureça de repente nem a razão dos indivíduos nem o conhecimento das nações, não deveria causar surpresa vê-lo agir do seu modo habitual com respeito às coisas de natureza espiritual. Os seus planos são todos igualmente sábios; mas é impossível ao homem formar deles um juízo perfeito, a menos que a criatura pudesse ficar por um momento no lugar do Criador e lançar um olhar abrangente sobre a terra e o céu, o tempo e a eternidade. Se “para o Senhor, um dia é como mil anos”, quando lhe agrada cumprir de modo inesperado os seus grandes desígnios, “e mil anos são como um dia” (2Pe 3.8), quando acha bom realizar os seus propósitos de modo mais gradual, por que nos haveria de afligir e espantar tão estranhamente que ele tenha deixado a raça humana em suspenso, com relação aos seus conselhos insondáveis, por quase seis mil anos? Vem o tempo em que ele nos revelará aquele plano estupendo que, nas circunstâncias presentes, contemplamos com toda a desvantagem, exatamente como um animálculo cuja vida se limita a seis horas contemplaria o plano de um palácio imenso que um arquiteto habilidoso tivesse prometido concluir em outros tantos anos. Supondo que tal inseto, dotado de razão e vindo à existência durante a noite, rastejasse às cegas entre os materiais soltos com que o edifício projetado seria construído, que opinião poderia formar do arquiteto ou do seu plano? Não seria essa criaturinha levada a julgar essas coisas como o pretenso filósofo julga irrefletidamente o plano misterioso segundo o qual o Todo-Poderoso está erguendo o templo da verdade e criando um mundo incorruptível? Se o Criador julgou necessário empregar seis dias para completar as belezas do mundo material, e se o Redentor julga conveniente aperfeiçoar progressivamente as belezas mais duradouras de um mundo espiritual durante seis dos seus dias mais amplos, que pouca razão temos para desprezar esse desígnio abrangente, sobretudo quando consideramos que seis mil anos são muito mais insignificantes em comparação com a eternidade do que seis átomos em comparação com este globo terrestre!
Ora, se tal plano não só é razoável, mas foi evidentemente adotado por aquele que “não presta contas de nenhum dos seus atos” (Jó 33.13), é sem dúvida verdade que os que viveram em diferentes períodos não tiveram permissão de desfrutar de todas as várias verdades que Deus revelou sucessivamente ao homem. Não obstante, é igualmente certo que todo homem, em qualquer época e em quaisquer circunstâncias particulares em que se tenha achado, recebeu luz suficiente para descobrir, e poder suficiente para cumprir, o que Deus houve por bem exigir dele.
O dia da verdade evangélica é graciosamente concedido a toda a humanidade para que, por meio dele, os homens sejam ajudados a descobrir, amar e obedecer ao seu Pai celestial, e, finalmente, para que alcancem o alvo do seu elevado destino, que é o gozo dos diferentes graus de bem-aventurança reservados às diferentes classes dos fiéis. Consideremos a manhã desse dia sagrado. Quando o primeiro homem apagou no seu coração a luz da verdade e o fogo do amor; quando se tornou estúpido o bastante para pensar em esconder-se do seu Deus entre as árvores do jardim, e ímpio o bastante para lançar a culpa da sua ofensa sobre a sua companheira de transgressão, em vez de confessar a sua desobediência com todos os seus agravantes, é evidente que o homem estava então sem Cristo, isto é, sem Salvador, “não tendo esperança e sem Deus no mundo” (Ef 2.12). Naquela noite de erro e confusão, e provavelmente de desespero, a promessa de um Redentor poderoso foi dada aos nossos primeiros pais, e dela nasceram certos raios de esperança, que formaram o primeiro crepúsculo do dia do evangelho.
A tradição dessa graciosa promessa, feita a Adão e confirmada a Noé; a lei natural, que não é outra coisa senão os restos da imagem do Criador no coração humano; e a graça secreta do Redentor, que opera mais ou menos em todo homem: tudo isso, junto, formou aquela aurora evangélica que por muito tempo foi experimentada universalmente no mundo e que pode, com propriedade, ser chamada de gentilismo, religião do primeiro patriarca, evangelho dos pagãos ou dispensação do Pai. Nessa dispensação inferior e sob esses tênues lampejos da verdade, a maior parte da humanidade ainda vive, infelizmente. E, embora nuvens de preconceito, juntamente com tradições vãs, privem em parte as nações pagãs dessa luz inestimável, resta entre elas o suficiente para guiar os que buscam a luz de uma dispensação menos obscura.
Quando a humanidade se tornara quase universalmente infiel à graça do gentilismo e esquecida da vingança passada de Deus na destruição do mundo; quando os homens se lançaram aos excessos mais ímpios e se entregaram inteiramente à maior idolatria, o Todo-Poderoso resolveu então separar das nações corrompidas um único povo, que preservasse em seu meio o culto divino em sua pureza; um povo no meio do qual o Messias haveria de nascer e que espalharia ao seu redor tanto a expectativa como a promessa de tão maravilhoso Libertador. Moisés, Arão e Josué foram os representantes dessa Pessoa extraordinária: Moisés, como profeta e legislador; Arão, como sumo sacerdote designado por Deus; e Josué, como conquistador ilustre, repartindo os reinos de Canaã entre os que o haviam seguido pelos perigos de uma guerra prolongada. Assim os judeus se tornaram um povo pregador para o resto do mundo, preservando nele a luz da dispensação do Pai e preparando-o para a dispensação ulterior do Filho, a tal ponto que a expectativa de um Restaurador divino se espalhou por muitas partes da terra, como sabemos por dois historiadores pagãos1 cujo testemunho merece crédito. Mais ainda: as sibilas, e até o próprio Virgílio, aproveitaram essa expectativa geral para aplicar a Augusto as predições de um conquistador sublime que haveria de sair do Oriente e renovar a face das coisas.
O judaísmo, portanto, parece não ter sido mais que a dispensação do Pai, embora sem dúvida mais luminosa do que se mostrara antes do chamado de Abraão. A lei moral, dada por Moisés, era apenas uma nova edição da lei natural, dada muito antes; e a lei cerimonial foi acrescentada a ela como confirmação adicional da promessa original. Foi, contudo, um avanço notável em direção à dispensação do Filho e à do Espírito Santo, pois os mistérios de ambas eram prefigurados pelas partes interiores do templo, pelos sacrifícios, pelas abluções, pelas unções, pelos perfumes, pelas lâmpadas acesas e pelos fogos sagrados.
O credo universal dessa antiga dispensação ainda forma uma parte daquele que é recebido entre os cristãos. E não há verdadeiro adorador sob essa economia que não possa dizer com sinceridade: “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador e Preservador do céu e da terra, Vingador do pecado e Recompensador dos que o servem fielmente. E confio que está chegando o tempo em que algum instrutor divino me capacitará a conhecer e obedecer mais plenamente a esse Pai incompreensível do universo.” “Que esse instrutor apareça logo!” era a oração unânime de Sócrates e Platão. “Que ele apresse a sua vinda”, diz o verdadeiro judeu e o teísta piedoso, “sob qualquer nome com que queira aparecer. Seja chamado Descendente da mulher, Descendente de Abraão ou Filho de Davi; seja o seu nome Messias, Filho de Deus, Logos, Emanuel, Josué, Jesus, Salvador; ou apenas o Profeta, o Anjo da Aliança ou o Mensageiro de Deus: pouco importa. Contanto que ele traga à luz a vida e a imortalidade, eu o receberei com gratidão e alegria.” Tal é a fé pela qual aqueles judeus, maometanos e pagãos cujo coração está formado na humildade, na sinceridade e no temor de Deus foram, e continuam a ser, salvos em todas as partes do mundo. Pois o Pai das misericórdias, que conhece a nossa estrutura, não condenará de modo absoluto esses adoradores pelo respeito extraordinário que demonstraram por Moisés, Maomé e Confúcio, assim como não rejeitará definitivamente alguns cristãos piedosos por causa da veneração excessiva que manifestam por certos santos e reformadores. Nem castigará uns ou outros porque os seus guias misturaram preconceito com verdade e fábulas lendárias com as doutrinas da teologia.
Assim como um médico prudente proporciona os remédios às diferentes idades e constituições dos seus pacientes, assim também o pastor esclarecido, que se sente responsável pela saúde espiritual do seu rebanho, vê a necessidade de agir com igual cuidado e discernimento. Prega a dispensação do Filho aos que, como Sócrates e Platão, anseiam por um instrutor divino, bem como aos que, como Simeão, Nicodemos e Cornélio, esperam a consolação de Israel. Conduz esses ouvintes, seja da lei de Moisés, seja da lei da natureza, ao evangelho de Cristo, explicando com precisão as partes do Novo Testamento que mostram o começo da dispensação do Filho, com tudo o que ele ensinou e sofreu enquanto esteve na terra.
Por fim, aos que abraçaram com devoção essa parte do evangelho, ele anuncia a gloriosa economia do Espírito Santo, que só foi plenamente aberta depois que a presença corporal do Redentor foi retirada do mundo. Foi então que ele desceu na plenitude do Espírito, dirigindo e sustentando os seus discípulos, animando e santificando os seus membros e manifestando aquele reino de Deus, aquela dispensação de justiça, paz e alegria, de que tanto tratam os Atos e as Epístolas dos apóstolos.
Essas três dispensações têm um só fim comum. Todas tendem a manifestar as diferentes perfeições do Ser Supremo, a erguer o homem da sua presente condição rebaixada e a aperfeiçoar a sua natureza. Esse desígnio tríplice é visível sob a dispensação do Pai, desdobra-se mais claramente sob a do Filho e resplandece com brilho crescente sob a do Espírito Santo. Assim como é um e o mesmo sol que anima todas as coisas no mundo natural, assim também é um e o mesmo Deus que opera todas as coisas no reino da graça. Aquele a quem chamamos nosso Pai celestial, na sagrada forma de oração comum entre os cristãos, é o mesmo Deus em cujo nome os antigos patriarcas costumavam abençoar os seus filhos. O Verbo, por meio do qual nos dirigimos a ele, não é outro senão aquela “luz do mundo” pela qual os pais antediluvianos foram iluminados nas suas diversas gerações; e o Espírito Santo, pelo qual a alma dos fiéis é divinamente regenerada, é o mesmo Espírito que no princípio “se movia sobre as águas” (Gn 1.2), e do qual também se disse nos dias de Noé: “O meu Espírito não agirá para sempre no ser humano” (Gn 6.3).
Nunca houve tempo em que o Filho e o Espírito não estivessem ocupados em completar a salvação dos crentes. Mas houve um tempo em que o Filho se manifestou na terra, fazendo uma demonstração visível dos seus trabalhos admiráveis; e foi então que a sua dispensação particular teve início. Do mesmo modo, houve um tempo em que o Espírito Santo, derramado mais abundantemente pelo Pai e pelo Filho, começou a realizar as suas operações misteriosas de modo mais perceptível; e nesse tempo começou a dispensação particular do Espírito, que serve para aperfeiçoar a dispensação do Filho, assim como a do Filho foi dada para aperfeiçoar a dispensação do Pai.
Essas distinções se fundamentam na razão, na revelação e no Credo Apostólico.
1. A razão sugere que a humanidade tem de permanecer para sempre sob a soberania do seu Criador onipotente e de prestar-lhe contas do uso que faz dos seus inumeráveis favores. A razão descobre ainda que, se o homem admitir as trevas do erro no seu entendimento e a influência fatal do pecado na sua vontade, não poderá de modo algum recuperar o seu estado primitivo, senão pela manifestação de uma nova luz e pela ação de uma influência mais forte. Mas quem produzirá a primeira, senão aquele Salvador que é “a luz do mundo” (Jo 8.12)? Ou quem suprirá a segunda, senão aquele Espírito poderoso que “nos ajuda em nossa fraqueza” (Rm 8.26)?
2. Essas distinções se fundamentam na revelação. O livro da verdade nos informa que o Criador predisse a vinda de um Redentor, e que o Redentor, durante a sua manifestação exterior, proclamou a proximidade de “outro Consolador” (Jo 14.16-17). É sem dúvida verdade que alguns penhores da graça redentora, juntamente com as primícias do Espírito, foram experimentados até pelos mais antigos habitantes da terra. É verdade também que, por meio desses penhores e primícias, muitas miríades de seres humanos foram salvas em todas as épocas do mundo. Mas não é menos verdade que a plenitude desses dons sagrados foi reservada para um período muito distante, pois, depois de dada a primeira promessa de um Redentor, passaram-se quase quatro mil anos antes que ele aparecesse publicamente; e, enquanto esteve na terra, diz-se expressamente que “o Espírito até aquele momento não tinha sido dado [na sua plena medida], porque Jesus ainda não havia sido glorificado” (Jo 7.39).
3. Os cristãos são ensinados a distinguir esses diferentes graus da graça evangélica, e a alegrar-se com todas as vantagens dessas três dispensações, quando são solenemente batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. E é isso que professam publicamente fazer todas as vezes que repetem os três artigos principais do Credo Apostólico. Feliz seria se, pela demonstração daquele Espírito Santo em que dizem crer, fossem capacitados a confessar por experiência o seu Pai todo-poderoso e o seu Filho redentor. Cada um deles poderia então acrescentar com gratidão: “Experimento a comunhão dos santos e a remissão dos pecados; espero com alegria e confiança a ressurreição do corpo e a vida eterna.”
Presume-se que nenhuma doutrina pode chegar mais fortemente recomendada à consideração dos cristãos professos do que aquelas que se fundamentam inegavelmente na razão e na revelação, naquela forma exterior do batismo e naquele credo primitivo que são universalmente recebidos no mundo cristão.
O leitor atento perceberá facilmente que a diferença entre essas várias dispensações é formada pelos diferentes graus em que o Redentor é manifestado. Sob o gentilismo e o judaísmo, isto é, sob as dispensações geral e particular do Pai, o Redentor é ao mesmo tempo anunciado e esperado: é anunciado pela promessa original do Pai, pela tradição, pelos tipos, pelas profecias; e é esperado como um Salvador que, mais cedo ou mais tarde, há de aparecer. Sob o batismo de João, e sob aquele cristianismo imperfeito que se recebe por um batismo de água, o Redentor é apreendido, em certa medida, pelos sentidos, ou por uma fé que diz respeito apenas à história do evangelho; mas é apreendido só como um Salvador manifestado na carne para realizar o ato exterior da redenção. É diferente sob aquele cristianismo perfeito no qual somos introduzidos pelo misterioso batismo do Espírito, no qual o Redentor se manifesta de maneira muito mais gloriosa. Agora ele é recebido como vindo no Espírito, depois de ter morrido pelos nossos pecados e ressuscitado para a nossa justificação. Agora ele realiza na alma a obra espiritual da redenção, livrando o seu povo do poder do pecado ao comunicar-lhe a eficácia especial da sua morte, da sua ressurreição e do seu triunfo. Daqui em diante ele é um Consolador não só conosco, mas em nós, onde exerce espiritualmente os seus ofícios reconhecidos, instruindo, purificando e, por fim, sujeitando a si todas as coisas.
Convencido de que a confusão é fonte de mil erros, o ministro prudente procura pôr as verdades do evangelho na sua devida ordem; e, refletindo sobre os pregadores que as proclamaram no passado, consegue extrair dos testemunhos de cada um algo que possa servir para edificar as diferentes classes dos seus ouvintes. Assim, São Paulo, pregando aos atenienses, julgou conveniente citar um dos poetas deles em vez de Moisés; e assim também, ao dirigir-se aos mestres que abandonam o evangelho para estabelecer uma filosofia vã, o verdadeiro ministro pode achar necessário apresentar a descrição que Epicteto fez de um verdadeiro filósofo.
Cada dispensação teve os seus pregadores próprios, e o pastor que é guiado em toda a verdade tem o cuidado de secundar esses pregadores, publicando, cada uma no seu devido lugar, as verdades sagradas que eles respectivamente anunciaram, segundo as diferentes medidas da graça que receberam.
Os pregadores da dispensação do Pai são:
1. As obras da criação. “Os céus”, diz Davi, “proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Sl 19.1). “O que se pode conhecer a respeito de Deus”, acrescenta São Paulo, “é manifesto” mesmo entre os pagãos. “Porque os atributos invisíveis de Deus, isto é, o seu eterno poder e a sua divindade, claramente se reconhecem, desde a criação do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que Deus fez. Por isso, os seres humanos são indesculpáveis. Porque, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus” (Rm 1.19-21).
2. A providência. “O Deus vivo”, diz o apóstolo, que “nas gerações passadas” “permitiu que todos os povos andassem nos seus próprios caminhos. Contudo, não deixou de dar testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-nos chuvas do céu e estações frutíferas, enchendo o nosso coração de fartura e de alegria” (At 14.15-17).
3. Os terríveis flagelos com que um Deus vingador se vê constrangido a corrigir um mundo rebelde, como a fome, a peste, a guerra etc.
4. A razão, que é um raio daquele Verbo divino, daquele Logos eterno, daquela “verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina toda a humanidade”.
5. A consciência. “Quando, pois, os gentios”, diz São Paulo, “que não têm a lei [escrita por profetas e apóstolos]”, “se tornam lei para si mesmos”, “o que é confirmado pela consciência deles e pelos seus pensamentos conflitantes, que às vezes os acusam e às vezes os defendem” (Rm 2.14-15).
6. Enoque, Noé e todos os santos patriarcas que viveram antes do dilúvio.
7. Todas as pessoas piedosas que inculcaram o temor de Deus e divulgaram a promessa tradicional dada aos nossos primeiros pais.
8. Os profetas e sacerdotes entre os judeus, juntamente com os poetas sagrados e os verdadeiros filósofos entre os antigos pagãos.
9. Os sacerdotes que, entre judeus, maometanos e pagãos modernos, recomendam com sinceridade a santidade e o temor de Deus.
E, por fim, todos os pregadores da cristandade que, cegos para as dispensações do Filho e do Espírito, recaem no gentilismo, apresentando apenas ensaios morais como os que os filósofos antigos já superaram em muito.
Assim como essa dispensação sempre teve, e ainda tem, os seus pregadores célebres, também teve muitas vezes, e ainda pode ter, os seus confessores e mártires. Se fosse possível chegar à história de todos os que se distinguiram eminentemente pela piedade sob essa economia e sofreram nobremente pela causa da piedade, provavelmente descobriríamos muitos Abéis e muitos Zacarias, muitos Aristides e muitos Sócrates, em todas as nações debaixo do céu. Na companhia dessas figuras amáveis e honradas se vê constantemente o pastor evangélico, até onde elas avançam pela estrada real da verdade; mas ele vai muito além delas quando quer associar-se aos pregadores da dispensação do Filho.
Os arautos da verdade nessa dispensação são:
1. O sacerdote Zacarias, que anunciou o cumprimento da promessa feita aos patriarcas (Lc 1).
2. O anjo que primeiro trouxe a notícia do nascimento do Messias, juntamente com a multidão do exército celestial que o acompanhou naquela ocasião extraordinária.
3. Os sacerdotes judeus que encaminharam os magos de Jerusalém à cidade onde Cristo nasceu.
4. As vozes celestiais que declararam, no monte Tabor e às margens do Jordão, que Jesus era o Filho amado do Pai.
5. João Batista, que proclamou o Cristo vindo em carne e procurou preparar os penitentes para a dispensação do Espírito.
6. Os setenta discípulos comissionados pelo nosso Senhor para pregar o evangelho.
E, por fim, todos os mestres de hoje que, como Apolo no início do seu ministério, nada percebem além daquela dispensação inferior da qual o batismo exterior é considerado o selo.
Na dispensação do Espírito, os pregadores são:
1. Os apóstolos, que entraram no seu excelente ministério depois de terem sido primeiro revestidos milagrosamente de poder do alto.
2. Todos os ministros do evangelho que, depois de receberem no próprio coração “o Espírito de adoção” (Rm 8.15), proclamam a vinda desse Espírito aos que já experimentaram “o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo” (At 20.21). Só desses ministros se pode dizer que proclamam o reino espiritual de Deus, e só eles podem, por experiência, conduzir os crentes ao cumprimento absoluto de cada promessa do evangelho. Os mestres de hoje, em vez de proclamar a grande promessa do cristianismo, infelizmente renunciam a ela, imaginando que dizia respeito apenas aos primeiros seguidores de Jesus ou, no máximo, que se limitava às primeiras eras da Igreja cristã. Longe de publicar o evangelho na sua abundante plenitude, esses evangelistas inábeis não são capazes de pregar nem todo aquele evangelho imperfeito que, na linguagem da Escritura, se chama “o batismo de João” (At 18.25). João anunciou publicamente o batismo do Espírito Santo e, longe de desprezar esse batismo, declarou abertamente: “Eu é que preciso ser batizado por você” (Mt 3.14). Contudo, João foi morto antes que a promessa do Pai se cumprisse plenamente; e por isso nosso Senhor declarou que “o menor no Reino dos Céus [isto é, o mais humilde na dispensação do Espírito, deve ser considerado] maior do que ele” (Mt 11.11). E até os soldados de Cornélio, depois que o Espírito desceu sobre eles, foram capacitados a publicar os mistérios desse reino com mais clareza e com convicção mais viva do que jamais o fizera o precursor de Jesus.
Esse profeta duvidou antes de morrer, assim como todos os apóstolos antes do dia de Pentecostes. Mas, sob a dispensação do Espírito Santo, as grandes verdades do evangelho são demonstradas pelo poder de uma evidência interior que não deixa no coração mais lugar para a dúvida do que uma demonstração matemática deixa lugar para a hesitação na mente. Mais ainda: João Batista apenas insinuou a necessidade de um batismo espiritual; mas o mais iletrado dos servos do centurião podia dizer: “Cristo me batizou com o Espírito Santo e com fogo; e a promessa que ele já cumpriu em mim, que sou um pobre gentio, ele a cumprirá com a mesma glória em favor de outros, pois a promessa é dada ‘para todos os que ainda estão longe, isto é, para todos aqueles que o Senhor, nosso Deus, chamar'” (At 2.39). Assim, sob essa dispensação sublime, todo servo fiel do Senhor é capacitado a profetizar da plenitude do seu coração e a falar das grandezas de Deus. Assim também, todo ministro zeloso, perseverando na busca da verdade evangélica, passa por fim a fazer parte da mesma sociedade daqueles que foram os primeiros e mais eficazes pregadores do evangelho eterno.
1. Percrebuerat Oriente toto vetus et constans opinio, esse in fatis ut Judea profecti rerum potirentur [Espalhara-se por todo o Oriente uma antiga e constante opinião de que estava nos fados que homens vindos da Judeia se apoderariam do mundo]. Suetônio. Pluribus persuasio inerat, antiquis sacerdotum libris contineri eo ipso tempore fore, ut valesceret Oriens, profectique Judea rerum potirentur [Muitos estavam persuadidos de que nos antigos livros dos sacerdotes estava escrito que, naquele mesmo tempo, o Oriente se fortaleceria e homens vindos da Judeia se apoderariam do mundo]. Tácito.
Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Portrait of St. Paul: or, The True Model for Christians and Pastors, versão inglesa de Joshua Gilpin (1790) do manuscrito francês do autor, na edição de Nova York (B. Waugh e T. Mason, 1834), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Por isso esta é tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.