John Fletcher · O Retrato de São Paulo · Parte II (conclusão)

A dispensação do Espírito Santo e a sua defesa

A dispensação do Espírito Santo está agora em vigor, quem a prega não é entusiasta, e o pastor evangélico a defende contra os seus adversários.

A dispensação do Espírito Santo está agora em vigor, e o ministro que prega essa dispensação não pode, com justiça, ser tido por entusiasta

Rejeitar o Filho de Deus manifestado no Espírito, como se vê fazerem universalmente os cristãos mundanos, é um crime de igual gravidade ao dos judeus que rejeitaram Cristo manifestado na carne. No entanto, em vão o apóstolo Paulo nos informou que Jesus Cristo é “sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb 7.17), “o mesmo ontem, hoje e para sempre” (Hb 13.8). Em vão João Batista declarou que “ele nos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3.11). Em vão o próprio Cristo ofereceu graciosamente esse batismo a todas as nações (Mt 28.19). A despeito de todas essas declarações, a nossa incredulidade ainda procura alguma razão plausível para rejeitar a dispensação do Espírito.

Enquanto durarem os tempos difíceis preditos por São Paulo (2Tm 3.1), podemos esperar ver multidões de professos extraviados que, como os antigos fariseus, não só se recusam a entrar no reino de Deus, como resistem com firmeza a todos os que se esforçam por entrar. Esses cristãos sem fé, semelhantes aos espias medrosos de outrora, estão sempre prontos a desanimar todo israelita perseverante, espalhando má fama do descanso prometido. Apegados a este mundo degenerado como a mulher de Ló estava apegada à sua cidade corrompida, insinuam sempre que há pouco perigo a temer na sua situação atual. E, quanto àquela dispensação plena do Espírito, da qual se dizem tantas coisas excelentes, afirmam com segurança que não se pode esperá-la no tempo presente sem ceder à mais alta presunção e loucura. Por essas razões, torna-se absolutamente necessário que o verdadeiro ministro esteja preparado para dar uma resposta sólida “a todo aquele que pedir razão da esperança” que há nele (1Pe 3.15).

Admitimos de bom grado que os dons extraordinários do Espírito Santo eram particularmente necessários aos apóstolos e que eles foram efetivamente postos de posse desses dons. Mas, ao mesmo tempo, consideramos esses dons inteiramente distintos do próprio Espírito. Quando o Espírito da graça toma plena posse de uma pessoa, pode, se a edificação da Igreja o exigir, conceder-lhe instantaneamente algum dom extraordinário, assim como o príncipe que honra um súdito com uma comissão importante o investe do poder suficiente para executá-la. Mas os presentes de um príncipe nem sempre demonstram a sua presença efetiva, pois é bem possível que um príncipe se hospede na casa de um dos seus súditos, a quem não conferiu nenhum favor de grande valor, enquanto dá um presente magnífico a outro, a quem nunca se dignou visitar pessoalmente. Assim, o Espírito Santo desceu sobre Maria, mãe de Jesus, e sobre várias outras mulheres santas, bem como sobre os apóstolos, com os quais elas perseveravam em súplica e oração fervorosa; no entanto, não consta que nenhuma delas tenha recebido sequer o dom de línguas. Por outro lado, sabemos bem que muitas pessoas que nunca receberam o Espírito de santidade se distinguiram exteriormente por vários dons extraordinários do Espírito Santo. O primeiro rei de Israel deu origem ao memorável provérbio: “Está também Saul entre os profetas?” (1Sm 10.12). Jonas, embora não tivesse nem a fé nem o amor comuns a muitos cristãos desta época, foi encarregado de levar a Nínive uma mensagem extraordinária do céu. E somos informados de que Judas foi dotado do poder de operar milagres, como Balaão antes fora honrado com o dom de profecia. Mas, apesar dessas aparências exteriores, podemos ter a certeza de que nem Saul, nem Balaão, nem Judas experimentaram plenamente aquele estado feliz que o mais humilde dos cristãos primitivos teve permissão de desfrutar. Portanto, quando afirmamos que todo crente sincero se torna “santuário do Espírito Santo” (1Co 6.19), não se deve entender por essa expressão que ele tenha recebido o poder de operar milagres, pois nesse sentido nem o próprio São Paulo estava sempre cheio do Espírito. Deve-se antes entender que o mesmo Espírito de humildade, de zelo, de fé e de amor que habitava de modo tão eminente em Cristo flui continuamente dele para o mais humilde dos seus membros espirituais, como a seiva passa do tronco da videira para o menor dos seus ramos (Jo 15.5).

O Antigo e o Novo Testamento provam suficientemente que as influências especiais do Espírito devem ser experimentadas universalmente pelos fiéis em todas as épocas. Isaías promete essa bênção inestimável aos que têm sede de Deus (Is 44.3). Ezequiel anuncia a mesma bênção, em várias passagens, a todos os que desfrutam dos privilégios da nova aliança. O profeta Joel promete mais diretamente o derramamento extraordinário do Espírito Santo aos “velhos” e aos “jovens” [do povo de Deus], aos seus “filhos e filhas”, aos “servos” e às “servas” (Jl 2.28-29). João Batista repete expressamente a mesma promessa a todos os que participam do seu batismo inferior (Lc 3.16). Nosso Senhor convida todo crente a vir livremente e receber a bênção há tanto tempo esperada (Jo 7.37, 39). São Pedro a oferece sem reservas aos verdadeiramente arrependidos (At 2.38); e São Paulo declara em toda parte que é privilégio comum dos cristãos “encher-se do Espírito” (Ef 5.18; 1Co 6.19). Mais ainda: dá a entender que o nome de cristão deve ser recusado aos que não receberam a promessa do Pai (Rm 8.9). Essas poucas passagens testificam abundantemente quão estranhamente se enganam os professos que afirmam com segurança que o Espírito Santo foi prometido somente aos apóstolos.

Uma vez admitida a revelação, a própria razão confirma a verdade que defendemos. Por que o Espírito Santo havia de ser derramado na sua plena medida sobre os primeiros seguidores de Cristo? Se foi para a santificação deles, temos nós menos necessidade de santidade do que os apóstolos tinham? Se foi para derramar no coração deles o amor de Deus, esse amor é menos necessário para nós do que para eles? Se foi para interceder por eles com gemidos inexprimíveis, supunha-se que os apóstolos precisassem dessa intercessão mais do que todos os outros homens? Por fim, se o Espírito Santo foi dado para que os crentes pudessem clamar: “Quem nos separará do amor de Cristo? Será a tribulação, ou a perseguição”, ou a morte? “Onde está, ó morte, o seu aguilhão? Onde está, ó sepultura, a sua vitória?” “Graças a Deus, que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo”, se é assim, então pareceria que só os apóstolos foram chamados a sofrer e morrer de maneira tão perfeitamente digna de cristãos.

Quanto mais meditarmos nas Escrituras da verdade, tanto mais nos convenceremos de que a experiência dos verdadeiros cristãos e a razão dos homens naturais concordam com o volume sagrado em demonstrar que a grande promessa de um Consolador tem de dizer respeito a todo crente sincero, tanto quanto aos primeiros discípulos de Jesus. Rejeitar, pois, esse dom precioso é pisar a pérola de grande valor e desprezar o próprio Redentor naquela manifestação espiritual que é para nós de importância muito maior que a sua manifestação exterior na Judeia. Mais ainda: insinuar entre os cristãos que a promessa da vinda espiritual de Cristo já não está em vigor é enfraquecer o glorioso evangelho de Deus e manter na sua Igreja aquela detestável mornidão que, no fim, será a causa da sua condenação. É superar os judeus na sua obstinada rejeição do nosso único Senhor e Salvador. “Não havia necessidade”, diz o judeu incrédulo, “de que o Messias sofresse e morresse pelos nossos pecados.” “Nem há necessidade”, diz o cristão carnal, “de que o Salvador venha de modo espiritual para reinar no meu coração.” Um destrói o corpo do cristianismo; o outro, a alma; e ambos são igualmente estranhos ao poder renovador do evangelho.

O verdadeiro ministro, impressionado com a gravidade desse pecado, tão comum nos dias de hoje, trabalha sem cessar pela restauração dos que estão profundamente mergulhados num erro tão destrutivo.

O pastor evangélico defende a dispensação do Espírito contra todos os seus adversários

Qualquer que seja a dispensação da graça que o verdadeiro ministro anuncie, ele se vê obrigado, como São Paulo, a brandir as suas armas espirituais à direita e à esquerda. Se publica a dispensação do Pai, acha necessário defender as suas verdades importantes contra os ousadamente profanos, de um lado, e contra os vãmente supersticiosos, do outro. Quando prega a dispensação do Filho, tem ainda mais motivo para armar-se por inteiro em defesa da doutrina que sustenta. À esquerda, é atacado pelos deístas, que rejeitam inteiramente toda ideia de um Salvador, ou pelos socinianos, que despojam esse Salvador da sua maior glória; à direita, é assaltado por cristãos mal instruídos que, a pretexto de exaltar o Filho, olham com desprezo para a dispensação do Pai, sem considerar que por esse erro se opõem a um dos principais propósitos da vinda de Cristo, que era que adorássemos o Pai em espírito e em verdade. Mas é principalmente com respeito à terceira dispensação que o pregador cristão se vê obrigado a empunhar sem cessar aquela “espada do Espírito” e aquele “escudo da fé” (Ef 6.16-17) com que São Paulo tanto desejava ver armado todo cristão. Como essa doutrina é muito mais elevada que as dispensações anteriores, está também mais exposta aos dardos de inumeráveis inimigos. À esquerda, é atacada sem cessar pelos professos carnais; à direita, pelos zelotes fanáticos. Essas duas classes de adversários, embora estejam continuamente em guerra uma com a outra, infelizmente concordam em opor-se, direta ou indiretamente, ao progresso dessa gloriosa dispensação, obrigando o ministro fiel a combater ambas com igual intrepidez.

Observe o grande argumento com que os cristãos carnais sustentam essa oposição. “O Consolador”, dizem eles, “graciosamente prometido aos primeiros discípulos do nosso Senhor, foi sem dúvida recebido por aqueles missionários tão favorecidos e os conduziu a todas as verdades do evangelho. Desse Espírito divino receberam assistência contínua para espalhar esse evangelho, e por ele foram dotados dos dons miraculosos que serviram de outras tantas marcas incontestáveis da sua missão sagrada. Mas, como o cristianismo está hoje firmemente estabelecido no mundo, a letra das Sagradas Escrituras é agora mais que suficiente para todos os fins, e já não há nenhuma necessidade daquele batismo e daquela iluminação do Espírito que eram evidentemente indispensáveis entre os cristãos primitivos.”

Assim como os judeus enganados, plenamente satisfeitos com a lei de Moisés inscrita em tábuas de pedra, rejeitaram com obstinação o Messias prometido, assim também esses cristãos carnais, contentes com a letra do Novo Testamento, rejeitam perversamente o “Espírito Santo da promessa” (Ef 1.13). “Examinem as Escrituras, pois são elas que testificam de mim” (Jo 5.39) [N. do T.: a NAA traz, no indicativo, “Vocês examinam as Escrituras, porque julgam ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim”]: essa foi a exortação do nosso Senhor a esses formalistas iludidos. E o verdadeiro ministro continua a insistir na mesma exortação junto aos que se opõem cegamente à vinda do reino espiritual de Cristo. Deseja, com o seu Mestre celestial, levar a questão a esse terreno, plenamente consciente de que os que lerem aquelas páginas sagradas com a mente sem preconceito hão de perceber logo que, longe de dispensar a necessidade de um batismo espiritual, elas dão amplo testemunho de que esse batismo deve ser considerado um privilégio oferecido gratuitamente a toda a multidão dos crentes.

Quando os cristãos afirmam que a manifestação do Espírito já não deve ser buscada senão naquele volume misterioso que promete essa manifestação à Igreja, os judeus modernos poderiam com igual razão declarar que não esperam outra manifestação do seu Messias além da que se encontra nos livros de Moisés e dos profetas, onde a vinda desse Messias é repetidamente prometida. Mas, se se disser: “O Espírito de Cristo foi dado plenamente aos seus primeiros discípulos, e isso nos basta”, esse argumento encerra tanto absurdo quanto o seguinte modo de raciocinar: “Moisés nos ensina que Deus criou o sol e que os patriarcas foram felizmente iluminados por ele; mas a iluminação suprema desse sol já não se encontra senão nos escritos de Moisés; e são completos entusiastas os trabalhadores que imaginam precisar de outros raios desse astro além dos que se refletem sobre eles a partir do livro de Gênesis. A Escritura nos informa que Deus ordenou à terra que produzisse uma variedade de frutos e plantas para o sustento dos seus habitantes, comprometendo-se, da sua parte, a enviar chuvas refrescantes e estações apropriadas. ‘Mas não vivemos’, exclama um lavrador racional, ‘no tempo dos milagres, nem sou entusiasta a ponto de esperar que a chuva seja enviada sobre a terra. É verdade que a história antiga menciona a chuva temporã e a serôdia, e os livros que falam dessas chuvas fecundas e prometem a sua continuação até a mais remota posteridade são sem dúvida autênticos; mas toda a chuva que podemos razoavelmente esperar agora tem de vir só desses livros e das especulações que a nossa razão pode fazer sobre as verdades que contêm.'” Quem não sorrirá diante de semelhante modo de raciocinar?

Nas coisas que dizem respeito aos nossos interesses temporais, não somos tolos a ponto de nos deixar enganar por sofismas tão miseráveis, embora muitas vezes enganemos a nós mesmos e aos outros, nas coisas espirituais, com argumentos não menos palpavelmente absurdos. “Deus”, diz o professo ortodoxo, “fez sem dúvida o Sol da justiça brilhar tão eficazmente sobre os crentes no dia de Pentecostes que eles foram instantaneamente batizados ‘com o Espírito Santo e com fogo’. Uma chuva celestial refrescou então a Igreja; e a videira mística, amadurecida de repente pelos raios diretos de tão glorioso astro, foi capacitada a produzir interiormente todas as graças e exteriormente todos os frutos do Espírito. Mas os fenômenos extraordinários que acompanharam aquele sol deslumbrante e aquelas chuvas benfazejas desapareceram há muito tempo. Mais ainda: o próprio sol está totalmente eclipsado para nós; e o livro que dá testemunho da influência constante desse sol e da duração sem fim dessas chuvas agora ocupa inteiramente o lugar de ambos.” Que teologia ridícula! E serão chamados de entusiastas os que se opõem a absurdos como esses? Então o fanatismo consistiria em fazer uma distinção racional entre a pérola de grande valor e o testamento que a lega; entre o volume sagrado em que o Consolador é apenas prometido e a presença real desse Consolador no coração. Pretender que já não temos nenhuma necessidade do Espírito de Cristo porque possuímos um livro incomparável que declara que, “se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9), não é destruir de uma só vez a letra e o espírito do evangelho? E, quando vemos cristãos que professam o máximo respeito pela revelação zombarem sem temor da manifestação daquele Espírito, o único pelo qual “o amor de Deus [pode ser] derramado em nosso coração” (Rm 5.5), que juízo podemos fazer dessas pessoas, senão que estão dispostas a tratar o evangelho do nosso Mestre glorificado como Judas tratou outrora o seu Autor perseguido? Qualquer ar de devoção que assumam enquanto saúdam o exterior do evangelho, a sua intenção secreta é entregar a própria vida do evangelho ao escárnio e à infâmia. É com argumentos dessa natureza que os ministros cristãos muitas vezes se veem obrigados a defender a dispensação do Espírito dos ataques violentos dos cristãos de mentalidade carnal.

Mas há ocasiões em que o pastor fiel acha igualmente necessário defender essa parte da sua doutrina contra professos exaltados e fanáticos. Em todo país cristão não faltam os que tornaram desprezível a dispensação desse Espírito com as suas pretensões ridículas e ímpias. Os protestantes se envergonharam dos profetas das Cevenas, e os católicos, dos convulsionários de Paris. Para se opor com êxito ao avanço do entusiasmo, o pastor contrasta publicamente os dois caracteres diferentes do fanático presunçoso e do cristão esclarecido, mais ou menos nos seguintes termos. Um apaga a tocha da razão para ter ocasião de exibir em seu lugar os vãos lampejos das suas pretensas inspirações; o outro tem pela razão um justo respeito e a segue como o guia mais seguro, até onde ela é capaz de orientá-lo na busca da verdade, e, sempre que implora uma luz superior, é apenas para suprir as deficiências da razão. Um destrói o sentido claro da linguagem das Escrituras, para abrir caminho às suas manifestações particulares; o outro refere tudo “à lei e ao testemunho”, plenamente convencido de que, se os que alardeiam santidade “não falarem segundo esta palavra, jamais verão a luz do alvorecer” (Is 8.20). O primeiro se ilude pensando que, desprezando os meios, poderá alcançar o fim, presumindo que Deus o iluminará de modo milagroso, sem a ajuda da oração, do estudo, da meditação, dos sermões ou dos sacramentos. O segundo espera sem presunção os socorros da graça no uso constante dos meios estabelecidos e, sabendo que as “sagradas letras” “podem torná-lo sábio para a salvação” (2Tm 3.15), faz delas o assunto da sua meditação frequente, o fundamento das suas orações e a grande regra da sua conduta. O fanático se julga independente das autoridades superiores, tanto na Igreja como no Estado. O verdadeiro cristão, amigo constante da verdade e da ordem, considerando-se servo de todos, não só reconhece o respeito devido aos seus superiores, como está pronto a dar-lhes conta da sua fé ou da sua conduta com mansidão e submissão, desejoso de ver os seus princípios sustentados por apelos à razão e à consciência dos seus adversários, bem como pelo testemunho da revelação. O fanático dá pouca importância à graça inestimável do amor. Como Simão, o mágico, aspira aos dons extraordinários do Espírito e, seduzido por uma imaginação vã, abandona a substância para correr atrás da sombra. O verdadeiro cristão, sem desprezar os menores dons espirituais, pede apenas os que possam ajudá-lo a cumprir os seus vários deveres, e particularmente o do amor, que deve ser posto tão acima da realização de milagres quanto os milagres estão acima dos truques de saltimbancos. O fanático se julga animado pelo Espírito de Deus quando o seu corpo é agitado por um movimento rápido dos espíritos animais, excitado pelos arroubos de uma imaginação superaquecida e aumentado por vapores histéricos ou hipocondríacos. O cristão judicioso detesta esse entusiasmo, que, cobrindo a religião com um véu de ilusão e frenesi, a torna desprezível aos olhos dos que estão sempre prontos a tratar a devoção como fanatismo.

Quando o verdadeiro ministro tem a infelicidade de cair entre pessoas que mostram inclinação para o entusiasmo, levando a mortificação a um excesso injustificável e proferindo em público orações longas e apaixonadas, produzidas com os esforços mais violentos, ele chama a atenção delas para aquela bela passagem da história de Elias em que Deus é apresentado manifestando-se não no vento, nem no terremoto, nem no fogo, mas no “som de um suave sussurro”. Para inspirar-lhes um justo horror por esse tipo de fanatismo, aponta-lhes as figuras desprezíveis cuja conduta elas estão copiando sem perceber e exorta-as a deixar o horrível costume de clamar “em altas vozes”, com toda outra espécie de extravagância religiosa, para os sacerdotes supersticiosos de Baal. Se for necessário, aplica até aquelas expressões sarcásticas de Elias: “Gritem mais alto” etc. Ao cumprir essa parte do seu dever, procura, contudo, agir com a máxima discrição, não ridicularizando os fanáticos com uma leviandade irreverente, mas exortando-os com todo o afeto e solenidade possíveis. Parece, pelos escritos de São Paulo, que o entusiasmo chegou certa vez a tal ponto na igreja de Corinto que a comunhão foi profanada pelos membros daquela igreja e as suas reuniões públicas lançadas na maior desordem. Ora, se o próprio apóstolo fosse um entusiasta, teria visto essas desordens sem pesar; ou, se fosse como os ministros de hoje, ter-se-ia alegrado com o pretexto que os coríntios fanáticos lhe ofereciam para ridicularizar a devoção e o zelo, o poder da oração e o dom da exortação. Mas, igualmente apegado à ordem e ao zelo, escreveu-lhes nestes termos: “Eu quero que vocês todos falem em línguas, mas muito mais que profetizem”, pois “o que profetiza edifica a igreja”. “Assim, também vocês, visto que desejam dons espirituais, procurem progredir, para a edificação da igreja.” “Irmãos, não sejam meninos no entendimento”; “quanto ao entendimento, sejam pessoas maduras.” “Todos poderão profetizar, um após outro, para que todos aprendam e sejam consolados.” E observem isto: “Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas, porque Deus não é Deus de confusão, e sim de paz. Como em todas as igrejas dos santos.” “Se alguém se considera profeta ou espiritual, reconheça que é mandamento do Senhor o que estou escrevendo para vocês.” “Tudo, porém, seja feito com decência e ordem” (1Co 14). É adotando o admirável método desse apóstolo que o bom pastor procura arrancar o joio do entusiasmo sem danificar o trigo inestimável da devoção.

Talvez se pergunte aqui: “Se se admitem manifestações particulares do Espírito, como será possível fechar a porta às ilusões perigosas? Não seria mais sábio rejeitar inteiramente a dispensação do Espírito, já que ela vem reconhecidamente acompanhada de tantas dificuldades? E não contribuiria para a felicidade da Igreja que cada um dos seus membros se contentasse em ter todas as Sagradas Escrituras explicadas segundo as melhores regras da razão e da crítica?” Respondemos: De modo nenhum. É verdade que muitas vezes nos passam moeda falsa; mas será necessário, por isso, impedir a livre circulação da que é intrinsecamente boa? E seria razoável recusar a um príncipe soberano o direito de cunhar moeda para o Estado, com receio de que ela fosse falsificada ou adulterada? Assim como, na sociedade, depois de advertir o público do perigo, nos contentamos em prender o homem que tenta nos enganar desse modo, assim também podemos ficar plenamente satisfeitos em adotar a mesma conduta com respeito à Igreja de Deus.

Observe-se aqui que as operações do Espírito Santo no coração dos crentes se distinguem dos efeitos do entusiasmo na imaginação dos visionários tão facilmente quanto distinguimos a saúde da doença, a sabedoria da loucura e a verdade da mentira. Os crentes de Roma podiam dizer: “O próprio Espírito confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16). “Em um só Espírito, todos nós fomos batizados”, dizem os coríntios, “e a todos nós foi dado beber de um só Espírito” (1Co 12.13). E São Paulo podia testificar que muitos dos efésios tinham sido “selados” pelo “Espírito Santo de Deus” “para o dia da redenção” (Ef 4.30). “Todos esses eram entusiastas”, diz um doutor moderno, “a não ser que pudessem restituir a vista aos cegos, ressuscitar os mortos dos seus túmulos e conversar fluentemente em várias línguas que nunca se deram ao trabalho de estudar.” Não, insinua o apóstolo, você troca o essencial pelo acessório e funda o seu sistema em suposições falsas. “São todos operadores de milagres? Todos têm dons de curar? Todos falam em línguas?” Tem de haver, então, algum método mais indubitável de distinguir aqueles cujo corpo se tornou santuário do Espírito Santo; e “eu passo a mostrar-lhes um caminho ainda mais excelente” (1Co 12.29-31). O que se entendia por esse caminho excelente pode ser descoberto satisfatoriamente por uma leitura atenta do capítulo seguinte, no qual o apóstolo quer que o exame recaia não sobre o dom de profecia, e muito menos sobre o de línguas, mas essencialmente sobre todos os traços do amor. Esse era o raciocínio de Agostinho, assim como de São Paulo, quando usou a seguinte expressão: “Você fala, pois, pelo Espírito de Deus quando fala de um coração ardente de amor.”1 Esse era também o método com que o próprio Cristo costumava argumentar sobre esse ponto. “Cuidado com os falsos profetas”, disse ele. “Toda árvore boa produz frutos bons.” “Assim, pois, pelos seus frutos vocês os conhecerão” (Mt 7.15, 17, 20). E “o fruto do Espírito”, continua São Paulo, “é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl 5.22-23). Ora, nunca se viu o fanatismo produzir frutos como esses. Ao contrário, produz divisões, alegria tola ou melancolia estúpida, perturbação, impaciência e excessos de vários tipos. Mais ainda: vê-se com frequência que produz afirmações diametralmente opostas à Escritura e à razão, juntamente com pretensões absurdas a novas revelações.

Pode-se perguntar aqui, com alguma aparência de razão: “Se Cristo continua a revelar-se pelo seu Espírito a todo verdadeiro crente, não devem essas manifestações ser consideradas outras tantas novas revelações?” A isso respondemos que, quando o apóstolo dos gentios pedia para os seus convertidos de Éfeso “espírito de sabedoria e de revelação” (Ef 1.17), não se deve entender que pedia a Deus que lhes comunicasse um novo evangelho, mas antes que os ajudasse a descobrir toda a glória e a experimentar todo o poder daquele evangelho inestimável que já lhes tinha sido anunciado. “Desvenda os meus olhos”, disse Davi, “para que eu contemple as maravilhas da tua lei” (Sl 119.18). E, quando Deus se dignou responder a essa oração do rei profeta, sem dúvida o visitou com a iluminação do seu Espírito Santo. Mas esse Espírito foi concedido não para lhe revelar uma nova lei, mas apenas para capacitá-lo a sondar as profundezas daquela lei santa que fora dada muito antes. Assim também os crentes cristãos estão constantemente unidos em súplicas para que Deus os fortaleça “mediante o seu Espírito, no íntimo de cada um”, não para terem a experiência de novas revelações, mas para que, “com todos os santos”, possam compreender o insondável amor de Cristo e fiquem “cheios de toda a plenitude de Deus” (Ef 3.16-19).

Depois de defender o cristianismo interior contra os cristãos carnais e os fanáticos iludidos, o pastor fiel se vê obrigado, por outro lado, a resistir aos ataques dos filósofos contraditores. E procura fazê-lo raciocinando com eles sobre esse importante assunto da seguinte maneira.

Consideramos o Ser Supremo como um Sol divino, cujo centro está em toda parte e cuja circunferência não está em parte alguma: um Sol cuja luz é a verdade e cujo calor é o amor. As verdades do cristianismo, nós as consideramos outros tantos raios que saem desse Sol glorioso para a iluminação da alma; e, assim como os raios do sol natural podem ser concentrados e tornados mais poderosos pela interposição de um meio devidamente construído, assim também os raios desse Sol divino são concentrados e tornados mais eficazes pela humanidade de Cristo. Quando algum desses raios, passando pelo entendimento, começa a ferir com força o coração, derrete a sua dureza, refina a sua natureza e acende nele um fogo de amor a Deus e ao próximo. Mais ainda: cremos que essas mudanças são efetuadas na alma por aquela energia secreta que muitos chamam de “inspiração do Espírito Santo”, alguns de “influência” desse Espírito e outros de “graça de Deus”.

Há algum absurdo nessa doutrina? Pode-se supor que o mundo intelectual mereça a atenção do Criador em menor grau que o mundo material? Se se supõe que os raios de luz que saem incessantemente do sol percorrem muitos milhões de milhas num único instante, para a iluminação e o sustento do mundo material, deveria parecer incrível que os socorros mais rápidos e eficazes possam ser concedidos às almas santas por aquele Sol mais glorioso que ilumina e vivifica o mundo intelectual? Do cedro do Líbano ao musgo que cobre a sua casca, nenhuma planta pode vegetar; do astrônomo que mede os céus ao animálculo que se perde no cálice de uma violeta como num vasto abismo, nenhuma criatura pode existir senão pela influência do sol natural, que tudo penetra. Debaixo desse astro maravilhoso não se encontra um único animal que traga em si mesmo o grande princípio da sua luz, do seu calor e do seu movimento. E, se todos os corpos organizados dependem desse astro indescritível para a sua existência, o seu crescimento e a sua perfeição, não podemos razoavelmente argumentar, pelas regras da analogia, que, tão certamente quanto existe um mundo espiritual, também tem de existir um Sol espiritual que leva vida e luz aos habitantes desse mundo?

Você age de modo racional, continua o verdadeiro ministro, se, por não compreender como se pode dizer que esse Sol age sobre os espíritos, fecha os olhos à sua luz e nega obstinadamente a sua própria existência? Você consegue compreender como o sol material, sem sofrer nenhum desgaste, lança continuamente ao seu redor raios suficientes para iluminar e alegrar mundos que giram? Consegue explicar como esses raios são impelidos a uma velocidade tão espantosa através do espaço imenso que separa esse sol desses mundos? Ou consegue descrever os meios pelos quais despertam em nós a sensação da vista? Além disso, não é absurdo supor que o Todo-Poderoso esteja mais empenhado em que percebamos a diferença entre o branco e o preto do que em que descubramos as distinções mais importantes entre a virtude e o vício, a verdade e o erro?

Se você objetar que o sol material é percebido claramente e que o poder dos seus raios é sentido universalmente pela humanidade, pode-se responder que ele nem sempre é visível. Às vezes está eclipsado; muitas vezes está envolto em nuvens espessas; e outras vezes os seus raios nos atingem de modo tão oblíquo que a sua influência mal se percebe. Também é possível excluir a sua luz por meio de cortinas ou paredes, e a catarata bloqueia eficazmente os seus raios mais diretos. No mundo moral há obstáculos de natureza semelhante, que muitas vezes obstruem o curso da luz celestial. Nuvens de erro e de vício se levantam constantemente ao nosso redor e, obscurecendo o Sol da justiça, dão aos incrédulos ocasião de duvidar da sua existência. O olho, em geral, fica tão ofuscado pelo brilho dos objetos materiais que não consegue discernir o fulgor de uma luz diferente. Às vezes um preconceito invencível, como uma catarata consolidada, intercepta os raios mais fortes da verdade; e outras vezes estamos tão encerrados nos estreitos limites do amor-próprio que os raios mais penetrantes do amor incriado não conseguem entrar no nosso retiro sombrio, onde aquela centelha de razão que poderia ter-nos conduzido a uma luz mais alta acaba por se apagar totalmente.

A luz do evangelho nunca é rejeitada de modo absoluto senão pela influência do pecado, segundo aquelas palavras de Cristo: “Todo aquele que pratica o mal detesta a luz e não se aproxima da luz, para que as suas obras não sejam reprovadas” (Jo 3.20). E aqui vemos a causa por que tantas pessoas se lançam de cabeça no materialismo, negando a inspiração do Espírito Santo e tratando toda impressão do seu poder como produto de um cérebro desordenado. Mas, assim como o testemunho dos cegos nunca poderá persuadir uma pessoa sensata de que está iludida enquanto ela vê, sente e admira o sol material, assim também o testemunho conjunto de todos os incrédulos do mundo pode, com justiça, ser considerado de tão pouca força quando querem provar que a iluminação bíblica é puro fanatismo. Apesar de todos os argumentos impotentes que se possam levantar contra ele, o crente cristão não merece ser tido por entusiasta quando declara que a fé é “a convicção de fatos que não se veem”, pois tem a seu favor a razão e a revelação, a sua própria experiência e a dos seus irmãos, juntamente com o testemunho universal da Igreja primitiva.

Como você não se alinha entre os ateus declarados, é provável que de vez em quando ore ao Ser Supremo. Entre outras bênçãos, você lhe implora, de modo particular, paciência para suportar as aflições necessárias ao aperfeiçoamento da virtude. Ora, se você está persuadido de que Deus é capaz não só de ouvi-lo, mas também de fortalecê-lo com o seu poder, e se, além disso, crê que, quando ele assim o fortalecer para o dia da aflição, você terá alguma percepção desse poder que age em você, então estamos perfeitamente de acordo. Mas, se você ora sem a confiança de que Deus atende à sua oração, e sem jamais esperar receber o auxílio que lhe implora, age como quem foi privado da razão. Por medo de orar como os entusiastas, você ora à maneira dos idiotas, e dá um sinal tão manifesto de extravagante loucura como se suplicasse às tempestades que se acalmassem, ou rogasse aos rios que voltassem às suas nascentes. É com esse tipo de raciocínio que o verdadeiro ministro resiste aos ataques dos filósofos preconceituosos, empenhado em mostrar que as operações santificadoras e consoladoras do Espírito Santo são tão conformes à razão quanto correspondem às nossas necessidades urgentes.

Mas, se os inimigos da inspiração ainda insistirem em que não temos nenhuma ideia distinta do modo como algum conhecimento é transmitido à alma, a não ser por meio da razão ou dos sentidos, e em que falar de coisas que não admitem explicação clara é cair no mais desvairado entusiasmo, não, responde o pastor fiel: ninguém costuma considerar entusiasta o homem que se ocupa em dar esmolas aos pobres, embora ele não saiba nos explicar como o seu ouro se formou na mina, como a sua vontade move a sua mão, ou como os sentimentos de caridade se acendem no seu peito. Se a natureza opera todas as coisas de maneira misteriosa, não é razoável esperar que as operações da graça se conduzam de maneira menos misteriosa. Esse é um dos argumentos que nosso Senhor propôs a Nicodemos: “Quem não nascer do Espírito não pode entrar no Reino de Deus.” Mas talvez você não tenha nenhuma compreensão das coisas espirituais. Não se admire disso, porém, pois há muitas coisas acima da sua compreensão no mundo natural. “O vento sopra onde quer, você ouve o barulho que ele faz, mas não sabe de onde ele vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito”: esses provam as operações daquele Espírito por efeitos incontestáveis, embora desconheçam muitas coisas a respeito do modo como esses efeitos são produzidos (Jo 3.5, 8).

Podemos aplicar aqui, com toda a propriedade, o que o professor Vernet disse sobre o modo como Deus muitas vezes manifestou a verdade aos seus profetas. “É fácil conceber”, diz esse judicioso teólogo, “que Aquele que criou a alma assim como o corpo, e que por essa razão é chamado o Pai dos espíritos, nunca terá falta de meios adequados para nos comunicar, quando o julgar necessário, ideias e descobertas inteiramente diferentes das que somos capazes de adquirir, seja pelas nossas próprias forças, seja com o auxílio de outras pessoas. Se as classes mais ignorantes dos homens conhecem a arte de comunicar reciprocamente os seus pensamentos umas às outras, quanto mais podemos imaginar que Deus é capaz de agir sobre a alma, tanto de fora como de dentro, ele que já pôs dentro de nós algumas noções confusas da verdade primitiva, ele que tem nas mãos as causas segundas e anima toda a natureza.” (Verite de la Religion Chretienne, tomo I.)

Mas, se alguém perguntar: “Não são os profetas, propriamente ditos, as únicas pessoas a quem Deus se agrada de favorecer com as impressões formadas pelo selo do seu Espírito?”, poder-se-ia perguntar, com igual propriedade, se só os apóstolos foram favorecidos com aquela fé evangélica que diz respeito às coisas invisíveis e incompreensíveis (Hb 11.1). “Uma alma”, diz o ilustre Crousaz, “sobre a qual o Espírito de Deus se moveu, medita no seu Criador com inefável deleite e contempla o seu Redentor com uma mistura de gratidão, admiração e arrebatamento. Ó meu Deus!, clama sem cessar uma alma assim, quando verei a tua face? Quando a tua luz me iluminará sem uma só nuvem que a escureça? Aproximar-me de ti é a minha única felicidade. Felizes os que te louvam sem cessar.”

“Reconheço”, continua esse filósofo cristão, “que esses podem ser os efeitos naturais da atenção com que o Espírito de Deus graciosamente fixou a nossa mente nos objetos que a revelação apresenta à nossa vista e nos quais ela nos manda ocupar os pensamentos. Mas não tenho medo de ir além da verdade quando acrescento que o Espírito de Deus, por sua própria ação imediata, pode inspirar à alma esse gosto sagrado e esses sentimentos elevados. Os objetos corpóreos agem sobre os órgãos dos sentidos por um poder que sem dúvida recebem de Deus. Isso se pode, em certa medida, entender; mas de que modo a ação deles passa dali para a alma é um mistério obscuro demais para admitir explicação. Os filósofos cristãos conceberam que a vontade de Deus, e alguma ordem estabelecida por ele, são a única causa dos sentimentos interiores dos quais essas impressões nos órgãos exteriores não passam de ocasião. Sendo assim, com que pretexto podemos recusar-nos a crer que o Espírito de Deus possa fazer nascer na alma sentimentos muito mais conformes à natureza da sua santa causa do que aqueles sentimentos comuns que, no entanto, atribuímos à vontade de Deus como a sua causa primeira e verdadeira? Tais são os sentimentos que São Paulo pedia com tanto empenho para os seus discípulos de Éfeso, e para cujo crescimento implorava sobre eles a influência do Espírito Santo” (Ef 3.14-21). (Veja o sermão do professor Crousaz sobre 2Co 13.14.)

Tais são também as impressões, os impulsos e os auxílios do Espírito Santo, tanto mediatos como imediatos, pelos quais elevamos tantas súplicas ardentes em diversas partes do nosso culto público. Toda liturgia cristã está cheia de petições dessa natureza, petições igualmente conformes aos princípios do cristianismo, à voz da razão e às necessidades dos homens pecadores, embora costumem parecer aos filhos deste mundo mero jargão ininteligível de entusiasmo. O ministro que segue rigorosamente o exemplo de São Paulo nesse ponto será, muito provavelmente, tido por visionário pelos ignorantes e pelos profanos. Mas, enquanto exala essas orações ardentes com fé humilde, acompanhando-as dos discursos e da conduta que correspondem a tais pedidos, ele tem pelo menos a consciência tranquila de nunca ter praticado as artes de um impostor com a liturgia na mão, nem representado o papel de comediante num púlpito cristão.

Quanto às vantagens reais que se podem esperar da nossa doutrina das dispensações, embora já tenham sido mencionadas em várias passagens desta obra, não parece desnecessário passar-lhes aqui uma breve revista.

1. Pelo conhecimento exato dessas dispensações, todo pregador evangélico pode tornar-se um obreiro aprovado, que “maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15), e um servo fiel, que distribui a cada um dos domésticos da casa do seu Senhor a porção de alimento espiritual adequada às suas diversas circunstâncias (Mt 24.45).

2. Distinguindo com exatidão as dispensações da graça, tornamo-nos capazes de demarcar os limites dos estados particulares que vemos desfrutar os crentes das diferentes classes. Verificamos o grau de vida espiritual que nós mesmos alcançamos. Distinguimos as diversas graças que nos foram concedidas, descobrimos qualquer grande promessa que ainda esteja diante de nós e pedimos sem cessar o cumprimento dessa promessa. Quem prega o evangelho sem traçar as linhas que separam as três dispensações da graça pode-se dizer que exibe um relógio de sol em que as horas não estão marcadas, e do qual não se pode esperar muito mais do que confusão, se não erros perigosos.

3. À luz dessa doutrina, os verdadeiros adoradores de todas as classes podem aprender a reconhecer-se e estimar-se uns aos outros, segundo os seus diferentes graus de fé. Nada é mais comum num país cristão do que ver os rigidamente ortodoxos tratarem sem caridade, como réprobos sem esperança, não só os deístas virtuosos que ainda não conhecem o Filho, mas até os socinianos piedosos, que se contentam com aquele estado pouco glorioso em que os primeiros discípulos de nosso Senhor ficaram detidos por tanto tempo e que não conseguem reconhecer nele mais do que a sua humanidade. Que esses professos ortodoxos conheçam as diversas dispensações da graça e, deixando de ofender os deístas virtuosos ou os socinianos piedosos com os seus furiosos anátemas, tratarão os primeiros com toda a benevolência que São Pedro um dia mostrou para com Cornélio, e os segundos com a bondade fraterna que Áquila manifestou no seu trato com Apolo. Por outro lado, se os cristãos que ainda são carnais tivessem alguma ideia correta dessas diferentes dispensações; se pudessem crer que o mesmo Jesus que outrora se manifestou exteriormente entre os judeus continua a manifestar-se no Espírito, em todas as partes do mundo, aos que se esforçam ansiosamente por entrar no Reino de Deus; se pudessem admitir, ainda que só em teoria, essa eminente dispensação da graça, já não argumentariam contra os que falam da influência do Espírito em termos bíblicos, como se fossem entusiastas.

Enquanto essa luz gloriosa continuar na obscuridade, podemos esperar ver entre os cristãos as disputas mais hostis. E, ainda que nunca mais acendam fogueiras para a destruição mútua, as palavras amargas que trocam entre si, como outras tantas flechas envenenadas, continuarão a declarar duramente que há guerra no coração deles. Os que se imaginam de posse da fé cristã mais pura tratarão os que pensam de outro modo como infiéis e hereges, e estes, por sua vez, estigmatizarão os seus irmãos sem caridade com os epítetos injuriosos de entusiastas e fanáticos.

Mas, quando cada ministro do evangelho, iluminado pela verdade e ardendo de caridade, conduzir fielmente o rebanho de Cristo de graça em graça e de força em força, então os primeiros desse rebanho manifestarão a sua superioridade religiosa dando provas da afeição mais sincera para com os mais humildes e os mais fracos dos seus companheiros espirituais. Imitando a humilde cortesia de São Paulo, esses anciãos sem presunção clamarão entre os seus irmãos mais novos: “Todos quantos temos o mesmo modo de pensar, esquecendo-nos das coisas que ficam para trás e avançando para as que estão diante de nós, prossigamos com empenho para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus; e, se em alguma coisa vocês pensam de modo diferente”, aquele amor perfeito, que tudo espera, nos leva a crer que “também isto Deus revelará para vocês. Seja como for, andemos de acordo com o que já alcançamos”, e tenhamos o mesmo sentimento (Fp 3.13-16).

Não será fora de propósito concluir estas observações sobre as três grandes dispensações da graça mostrando como os adoradores imperfeitos se enganam a si mesmos quando se recusam a avançar de fé em fé. Muitos deístas sinceros, zelosos pela dispensação do Pai, pensam que, se abraçassem a dispensação do Filho, teriam necessariamente de diminuir a honra devida ao Deus incompreensível. Esse preconceito, porém, nasce evidentemente da falta de discernimento espiritual, pois a Sagrada Escritura nos ensina que, quando “ao nome de Jesus se dobrar todo joelho e toda língua confessar que Jesus Cristo é Senhor”, essa adoração religiosa será considerada como algo que, em última instância, engrandece a “glória de Deus Pai” (Fp 2.10-11). Pois, se o Pai nos conduz ao Filho pelas atrações da sua graça, como aprendemos nas passagens seguintes: “Ninguém pode vir a mim se o Pai não o trouxer” (Jo 6.44); “Respondendo, Simão Pedro disse: O senhor é o Cristo, o Filho do Deus vivo. Então Jesus lhe afirmou: Bem-aventurado é você, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que revelaram isso a você, mas meu Pai, que está nos céus” (Mt 16.16-17), não é menos certo que, quando chegamos a Cristo, ele nos ensina a conhecer e a adorar o Pai. Observe a linguagem de nosso Senhor a esse respeito: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6). “Glorifica o teu Filho, para que o Filho glorifique a ti. E a vida eterna é esta: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. Pai justo, o mundo não te conheceu. Eu, porém, te conheci, e também estes reconheceram que tu me enviaste”, para fazer uma exibição pública da tua glória na terra. “Eu lhes fiz conhecer o teu nome e ainda o farei conhecer”, de modo ainda mais perfeito (Jo 17). Dessas passagens fica evidente que a fé no Filho nunca pode diminuir a profunda veneração devida ao Pai. E o que aqui se observa a respeito da fé no Filho não é menos verdadeiro quanto à fé no Espírito Santo. Pois, se sob a dispensação de Jesus aprendemos a dirigir-nos ao nosso “Pai, que estás nos céus” com certo grau de humilde confiança, só sob a dispensação do Espírito nos tornamos capazes de fazer essas súplicas com toda a reverência filial e todo o fervor vivo que o evangelho exige. Esse “Espírito de adoção”, que “confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.15-16), nos ajuda a prostrar-nos diante do nosso Pai celestial com a inefável veneração e o amor devidos ao Ser Supremo. Se os filósofos refletissem devidamente sobre essas verdades importantes, já não tremeriam com o vão receio de se tornarem idólatras e triteístas ao admitir as doutrinas do evangelho. Ao contrário, poderíamos nutrir a esperança de ver um dia esses orgulhosos raciocinadores, em companhia dos crentes humildes, aproximando-se do Deus dos seus pais pela intercessão do Filho e com a energia do Espírito Santo, clamando com São Paulo: “Há um só Deus e um só Mediador entre Deus e a humanidade, Cristo Jesus, homem” (1Tm 2.5), “e, por meio dele, temos acesso ao Pai em um só Espírito” (Ef 2.18).

Há outra classe de adoradores, zelosos pela dispensação do Filho, que, inteiramente ocupados com o “Verbo manifestado na carne”, imaginam que a dispensação dele se torna desprezível quando é apresentada apenas como o começo do cristianismo, ao passo que se declara que a perfeição do evangelho consiste na dispensação do Espírito Santo. À consideração desses propomos a seguinte expressão de São Paulo: “Nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, se antes conhecemos Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo” (2Co 5.16). E, embora se reconheça que nosso Senhor falou assim: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida”, é preciso confessar também que ele acrescentou logo em seguida: “O Espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita” (Jo 6.54-55, 63).

As observações seguintes, assim esperamos, dissiparão inteiramente os temores dessas pessoas piedosas. “Quando vier o Espírito da verdade”, diz nosso Senhor, “ele os guiará em toda a verdade”, e especialmente nas verdades que dizem respeito à fé em mim e ao arrependimento para com meu Pai. “Ele me glorificará, porque vai receber do que é meu e anunciará” a vocês os méritos da minha justiça, a eficácia da minha morte e o poder do meu evangelho (Jo 16.13-14). “O Pai lhes dará outro Consolador”, que vocês já conhecem em parte, “porque ele habita com vocês”, mesmo agora, na minha presença corporal, “e estará em vocês” depois, quando eu os tiver batizado com o Espírito Santo enviado do céu. “Não deixarei que fiquem órfãos; voltarei para junto de vocês. O mundo não me verá mais; vocês, no entanto, me verão”, nos efeitos do meu poder que habitará em vocês; e “porque eu vivo, vocês também viverão. Naquele dia vocês saberão que eu estou em meu Pai, que vocês estão em mim e que eu [pelo meu Espírito] estou em vocês” (Jo 14.16-20, 23). Essa morada espiritual de Cristo na alma do seu povo é o mistério mais glorioso do evangelho; e, “se alguém não tem o Espírito de Cristo” (Rm 8.9), esse é, quando muito, discípulo de Moisés ou de João Batista: não está num estado espiritual, mas num estado carnal.

“Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20). “Cristo é a vida de vocês” (Cl 3.4). “O mistério que esteve escondido durante séculos é Cristo em vocês, a esperança da glória” (Cl 1.26-27). “Meus filhos, por quem estou sofrendo as dores de parto, até que Cristo seja formado em vocês” (Gl 4.19). Essas e mil outras expressões das Escrituras devem ser totalmente incompreensíveis para os que, contentando-se com um conhecimento literal do Verbo encarnado, não admitem a manifestação interior de Cristo pelo seu Espírito de revelação, de sabedoria e de poder. As “profundezas de Deus” nos são reveladas “por meio do Espírito” (1Co 2.10); e, sem esse Espírito, permaneceremos estranhos às verdades mais elevadas do evangelho e ficaremos privados das fontes mais puras de consolação religiosa. “Este é aquele”, diz São João, “que veio por meio de água e sangue, Jesus Cristo. Ele não veio somente com a água, mas com a água e com o sangue. E o Espírito é o que dá testemunho, porque o Espírito é a verdade” (1Jo 5.6). Como se o apóstolo dissesse: “Cristo, na primeira parte do seu ministério, proclamou de fato aquele arrependimento para com Deus que os seus próprios discípulos, assim como João Batista, costumavam selar com um batismo de água. E a essa cerimônia sagrada ele mesmo condescendeu em submeter-se. Mas depois foi além, quando, como Salvador visível, selou a sua própria dispensação da graça com um batismo de sangue na cruz. Além disso, é o Espírito que dá testemunho das verdades insondáveis do evangelho, pelo seu batismo ainda mais excelente, aprofundando o nosso arrependimento para com Deus e acrescentando uma plena certeza (Hb 10.22) à nossa fé em Jesus Cristo. Que ninguém suspeite, então, que a manifestação do Espírito tenha necessariamente de obscurecer a glória do Filho, sobretudo porque está expressamente declarado que “ninguém pode dizer: ‘Senhor Jesus!’, senão pelo Espírito Santo” (1Co 12.3).

Antes de encerrar esta seção, temos de lamentar que essa parte importante do evangelho seja tão raramente anunciada entre os que professam o cristianismo. A maior parte do clero deve ser contada entre os mais violentos opositores da religião espiritual. Insultam os seus seguidores, condenam os seus defensores sem ouvi-los e, com presunção, “difamam tudo o que não entendem” (Jd 10). Assim como houve um tempo em que a igreja judaica perdeu de vista a promessa mais importante da dispensação do Pai, também foi anunciado que viria um tempo em que a igreja cristã, mergulhada num estado de indolência e incredulidade, haveria de negligenciar a grande promessa da dispensação do Filho. “Quando o Filho do Homem vier”, diz nosso Senhor, “será que ainda encontrará fé sobre a terra?” (Lc 18.8). Encontrará bem pouca, se pudermos confiar nas nossas próprias observações ou dar crédito às afirmações mais solenes de um apóstolo que predisse o futuro (2Tm 3.1, 5).

Nem todos os nossos eclesiásticos, porém, são dessa espécie. Entre os milhares dessa ordem sagrada, encontramos muitos que possuem o temor piedoso, a fé bíblica e a caridade cristã. Esses evangelistas piedosos se preocupam com a salvação dos que lhes foram confiados. Trabalham para estender o Reino de Deus entre os homens, embora nunca tenham experimentado esse Reino segundo a plenitude da promessa. E, embora desconheçam a abundante plenitude do evangelho, não deixam de anunciá-lo por toda parte com afeto e zelo. Pregam a cruz de Cristo, mas não proclamam a vinda espiritual de um Salvador ressuscitado. Assim como os seus irmãos negligentes se recusam a anunciar a vinda do Espírito por incredulidade e preconceito, esses ministros retos deixam de pregá-la por incerteza e irresolução. Ainda que tenham uma opinião correta da doutrina que defendemos, são impedidos de falar sobre o assunto com frequência e liberdade porque, assim como muitos falsos cristãos tornaram a dispensação do Filho desprezível aos olhos dos deístas, muitos zelotes de inspiração vã fizeram a dispensação do Espírito parecer ridícula aos cristãos sensatos. Mas, apesar do opróbrio que muitos fanáticos de várias seitas lançaram sobre essa parte sublime do evangelho, misturando-a com os devaneios de uma imaginação exaltada, ela será sempre considerada por todo cristão bem instruído como a quintessência da nossa santa religião.

Parece haver pouca probabilidade de que essa doutrina negligenciada venha a ser universalmente recebida ou pregada nos nossos dias degenerados. Mas, como a verdade nunca ficou inteiramente sem testemunhas, e como a maioria dos ministros ainda tem coragem suficiente para sustentar, diante de um mundo incrédulo, a dispensação do Filho, podemos esperar razoavelmente que continuem a mencionar a dispensação do Espírito, ao menos em cada comemoração da glória de Pentecostes. Desse modo poderemos conservar entre nós uma preciosa centelha do fogo sagrado, até que o nosso Senhor, ao voltar, rompendo as nuvens da incredulidade, faça dessa centelha uma chama eterna. Naquele dia, as pretensões vazias dos entusiastas não levarão mais os crentes a rejeitar o Espírito Santo do que as vãs pretensões dos falsos cristos que outrora apareceram entre os judeus puderam levar os fiéis a rejeitar o seu único Senhor e Salvador. A dispensação do Espírito parecerá então tão gloriosa aos olhos dos cristãos maravilhados quanto a dispensação do Filho pareceu outrora ao arrebatado Simeão; e todo pastor apostólico conduzirá o seu rebanho da dispensação do Pai, passando pela do Filho, à do Espírito Santo, tão rapidamente quanto São Pedro, segundo se relata, o fez no seu primeiro sermão.

Notas

1. De Spiritu dicis, si dicis ardens igne caritatis [Falas pelo Espírito, se falas ardendo no fogo do amor]. Agostinho.

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Portrait of St. Paul: or, The True Model for Christians and Pastors, versão inglesa de Joshua Gilpin (1790) do manuscrito francês do autor, na edição de Nova York (B. Waugh e T. Mason, 1834), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Por isso esta é tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.