John Fletcher · O Retrato de São Paulo · Parte III
O ensaio sobre a ligação entre as doutrinas e a moral: os filósofos contra o evangelho, a insuficiência da religião natural, a influência das doutrinas sobre a conduta e o Credo Apostólico.
Ensaio sobre a ligação entre as doutrinas e a moral
Alguns teólogos, ocupados quase inteiramente com as doutrinas do evangelho, não têm o cuidado suficiente de insistir na moral, ao passo que os filósofos, na maioria, igualmente absorvidos pela moral, tratam as doutrinas do evangelho com descaso e desdém. É para reconciliar, se possível, essas duas classes de homens equivocados que apresentamos aqui algumas observações sobre a importância dessas doutrinas e a sua ligação imediata com a moral.
A moral é a ciência que regula os nossos costumes, ensinando-nos a conhecer e a praticar a justiça, dando a cada um o que lhe é devido: amor, honra, obediência, tributo etc. Toda essa moral está contida nestas máximas da religião natural e revelada: “Tudo o que vocês querem que os outros façam a vocês, façam também vocês a eles” (Mt 7.12). “Deem, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22.21). Daí se segue que a moral pura tem de manter alguma forma de culto divino.
Alguns moralistas, é verdade, imaginam que é possível ser estritamente justo sem fazer profissão alguma de piedade. Mas, se a justiça consiste em fazer aos outros o que desejamos que nos façam, é claro que todo homem que não honra o Ser Supremo tem de ser injusto, além de ímpio, visto que nós, quando somos pais ou benfeitores, mostramos sentir tão profundamente a injustiça dos nossos filhos ou dependentes quando eles retribuem a nossa bondade com insolência e ingratidão.
As doutrinas são, em geral, preceitos; mas por doutrinas entendemos aqui, particularmente, as instruções que Cristo e os seus apóstolos deram a respeito das diferentes relações em que estamos com Deus e uns com os outros, juntamente com os diversos deveres que decorrem dessas relações.
As instruções que se transmitem de geração em geração com o nome de máximas ou doutrinas, sejam verdadeiras ou falsas, têm um efeito prodigioso sobre a conduta dos que as admitem. No mundo antigo, quantas infelizes crianças foram sacrificadas, entre os gregos e os romanos, àquela máxima bárbara segundo a qual os pais têm direito de vida e de morte sobre os filhos recém-nascidos! No mundo moderno, que imenso número de crianças por nascer, e quantos heróis imaginários, caem todos os anos como vítimas infelizes destas máximas da falsa honra: mais vale destruir o fruto de um amor ilícito, ou cravar uma espada no peito de um amigo, do que viver sem aquilo que constitui a honra dos sexos! Derrube essas máximas de um falso ponto de honra, e você destruirá os princípios pelos quais se cometem mil ações ímpias.
Os homens não conseguem despojar-se de toda predisposição em favor das máximas gerais, assim como não conseguem perder de vista os motivos determinantes. O ateu e o incrédulo têm as suas doutrinas particulares, tanto quanto o justo e o cristão. Merece nota aqui a incoerência de alguns filósofos nesse ponto: começam os seus discursos depreciando as máximas em geral e terminam expondo e sustentando as doutrinas mais perigosas. “O caminho da felicidade permanente”, dizem eles, “é ao mesmo tempo cômodo e espaçoso. O Todo-Poderoso dá pouca atenção às nossas ações e nos dotou de paixões justamente para que as satisfaçamos.” Insinuam que, se um homem é rico o bastante para sustentar várias mulheres, pode gozar inocentemente de todo o prazer que a companhia delas lhe proporcione, e que, quando já não tiver gosto pela vida, pode com a mesma inocência estourar os próprios miolos. Tais são as doutrinas, e tal é a moral, que muitos mestres mal instruídos estão pregando entre nós nos dias de hoje, dando amplo testemunho de que nenhum homem está mais pronto a fazer-se dogmático do que os que rejeitam as doutrinas do evangelho.
Os chamados filósofos se levantam sem razão contra as doutrinas do evangelho
Assim como os que ostentam atos exteriores de devoção nem sempre possuem a piedade mais sólida, também os que estão sempre à frente para exaltar a filosofia nem sempre devem ser considerados os mais sábios dos homens. É preciso confessar, porém, que muitos cristãos deram aos filósofos motivo de escândalo bem justo, opondo continuamente a fé à razão, como se, para possuir a mais rica graça cristã, fosse necessário renunciar à nobre faculdade que principalmente nos distingue dos animais irracionais. Como o grande apóstolo, podemos racionalmente opor a fé aos sentidos; mas nunca podemos, sem a maior imprudência, opô-la à razão. Devemos até ter cuidado em dizer, com o sr. de Voltaire e São Luís: “Cuidado ao seguir a direção da sua fraca razão.”1 Reconhece-se que a razão do homem é fraca quando comparada com a inteligência dos seres superiores. Mas, seja qual for a sua fraqueza, convém que a sigamos com gratidão como nossa guia, pois numa noite escura é melhor aproveitar a menor vela que se possa conseguir do que fechar obstinadamente os olhos e andar a esmo. Se os crentes preferem a revelação de Cristo à filosofia dos incrédulos, é porque a razão mais esclarecida guia a sua escolha.
O verdadeiro crente não tem medo de pleitear contra os filósofos modernos diante do tribunal da razão. “Vocês me acusam de superstição”, pode ele dizer, “porque, ao buscar as honras, as riquezas e os prazeres que são eternos, escolhi o caminho áspero e incômodo da piedade. Mas, agindo assim, não ajo menos conforme os princípios da razão do que o homem que, para expelir um veneno doce, toma um antídoto amargo e se submete de bom grado a um regime desagradável até ser restabelecido em perfeita saúde. Se o sacrifício de alguns prazeres insignificantes no presente me garante a posse da felicidade eterna, não faço mais do que imitar o lavrador prudente, que hoje se priva de alguns alqueires de grão para, depois de alguns meses de paciente expectativa, colher dessa pequena perda uma colheita abundante. E é insensato da minha parte adotar tal modo de agir, sobretudo quando a doce esperança das bênçãos prometidas me dá, já agora, uma alegria tão sólida e constante quanto a de vocês é passageira e vã?”
Homens de sabedoria tão alardeada! Ousamos afirmar que as molas secretas da moral de vocês são fracas e grosseiras em comparação com as nossas. Vocês sustentam que, para ligar uma criatura racional à prática da moral, nada mais é necessário do que a consideração dos seus próprios interesses. Afirmam, além disso, com igual confiança, que toda tentativa de levar os homens ao exercício da virtude pela consideração de motivos evangélicos não passa de confiar na força de laços fracos demais para prender. Mas não percebem que o método pelo qual procedem com tanta satisfação consigo mesmos é inteiramente indigno de verdadeiros moralistas, pois apenas combate um mal com outro igualmente detestável, dando ao orgulho o que arranca das outras inclinações viciosas. E você, preceptor sem discernimento de Emílio e de Sofia! Você, que diz na sua profissão de fé: “Não sabendo como decidir, nem admito a revelação nem a rejeito; rejeito apenas a obrigação de recebê-la”, se você removeu os poderosos motivos para a verdadeira virtude que se extraem do evangelho, o que nos deu em troca? “Ame, para que seja amado. Torne-se amável, para que seja feliz. Faça-se estimar, para que seja obedecido. Que felicidade maior pode possuir uma alma nobre do que a que nasce do orgulho da virtude unido à beleza?” Como são pueris e insuficientes esses motivos, comparados com os que o evangelho apresenta! Conduzir os homens à virtude por um caminho como esse não é inspirar-lhes, ao mesmo tempo, todo o orgulho de um fariseu e toda a vaidade de uma Jezabel?
Quando lançamos um véu sobre os objetos sublimes da fé e pomos diante dos homens apenas a consideração de alguma vantagem presente para influenciar a sua conduta, tratamos de fato a parte racional da criação como costumamos lidar com os animais mais brutos. Veja aquele porco que se aproxima de um monte de trigo. Jogue no caminho dele um único punhado desse monte, e ele não passará adiante, porque cinquenta grãos espalhados bem diante do focinho o atrairão com mais força do que outros tantos alqueires amontoados à distância. Ainda que fosse possível oferecer-lhe todas as colheitas do universo dali a uma hora, ele não sacrificaria por todas elas o pobre gozo do momento presente. Quem fixa assim a atenção nos objetos temporais e sensíveis esquece que a sua alma é imaterial e imortal. Quem não pode ser levado à prática da virtude senão por motivos tão indignos, pode-se dizer que mistura a moral na taça de Circe, para não se ver obrigado a recebê-la da mão de Cristo.
Por que vemos os incrédulos e os cristãos instáveis caírem diante da tentação? A única razão que se pode dar é que, afetados de modo vivo demais pelas coisas que estão imediatamente diante deles, não têm condições de contemplar os objetos mais distantes, por maior que seja a sua importância. Por isso os objetos inestimáveis da fé lhes aparecem como as estrelas fixas se mostram ao vulgo: despojados da sua real grandeza e glória, e aparentemente de pouca monta para merecer muita atenção. Com o cristão sincero o caso é inteiramente diferente. A sua fé, que é dom de Deus, pode ser comparada a um telescópio divino, pelo qual os objetos mais distantes são trazidos ao alcance da sua vista. E ele se vale alegremente desse auxílio sagrado até que, plenamente certificado da natureza e da importância das coisas celestiais, adquire necessariamente ideias à altura de tão grande descoberta.
Observe aqui o fundamento da definição de fé dada por São Paulo (Ef 2.8; Hb 11.1). Privado do mesmo auxílio, que admira que o incrédulo permaneça completamente estranho às visões sagradas e aos sentimentos elevados do cristão? Ele se contenta tolamente com o olho nu da sua razão, sem atentar para a ignorância e os preconceitos que com tanta frequência a obscurecem. Assim, enganado por si mesmo, despreza o instrumento divino descrito acima e zomba dos que, como se sabe, o usam, exatamente como os iletrados costumavam outrora desprezar os astrônomos mais profundos e olhar com escárnio para os seus misteriosos aparelhos.
Quanto ao poder dessa fé, a única pela qual se pode fazer alguma descoberta espiritual, é maravilhoso demais para ser acreditado, seja pelos ignorantes, seja pelos ímpios. Ela “remove montes”, e para quem a possui “nada será impossível” (Mt 17.20). Dá ao crente uma completa “vitória” sobre o mundo presente (1Jo 5.4), pondo-lhe na mão um “escudo” impenetrável a “todos os dardos inflamados do Maligno” (Ef 6.16). Eis a segurança do cristão! Atrás desse broquel de têmpera celestial ele permanece em tranquilidade imperturbável, enquanto o filósofo incrédulo, junto com o sensual devasso, arremessam contra ele os fracos dardos do ridículo e da malícia.
É preciso reconhecer que se encontram muitos preceitos excelentes de moral no Alcorão e nas obras dos filósofos modernos; mas é preciso afirmar, ao mesmo tempo, que os inimigos de Cristo devem principalmente à revelação toda concepção justa da verdade religiosa. Os autores do Alcorão, do Emílio e do Dicionário filosófico, antes mesmo de começarem a dogmatizar, já sabiam que há um Deus a quem é nosso dever amar acima de todas as coisas e que nos ordenou amar o próximo como a nós mesmos. Não é de surpreender, portanto, que um belo sentimento desse tipo ilumine aqui e ali uma página dos seus volumes sombrios. A moeda falsa deles nunca teria circulado no mundo se não tivessem misturado a ela, com astúcia, um pouco do ouro puro da verdade bíblica.
Concluiremos este capítulo com uma bela passagem de Tertuliano, na qual ele mostra a diferença entre um verdadeiro cristão e um chamado filósofo. Depois de falar dos vícios de que os filósofos gregos estavam contaminados, ele responde assim a uma objeção muito comum: “Objeta-se que também alguns de nós são culpados de violar as leis da virtude. Mas é preciso lembrar que esses transgressores já não passam entre nós por cristãos, ao passo que entre vocês, depois de cometerem muitas ações viciosas, os filósofos conservam a sua reputação e continuam a ser honrados. Que semelhança há, então, entre o cristão e o filósofo? Um é discípulo da Grécia; o outro, do céu. Um procura firmar uma boa reputação; o outro aspira a desenvolver a sua salvação. Um diz palavras admiráveis; o outro pratica boas ações. Um destrói, o outro edifica. Um negocia com o erro, o outro com a verdade.” (Apolog., cap. 46.)
As doutrinas da religião natural e da filosofia são insuficientes para produzir no coração o verdadeiro amor
As doutrinas da religião natural, como a existência de Deus, uma providência que governa e um juízo vindouro, são as primeiras doutrinas do evangelho; mas até hoje nunca se mostraram suficientes para levar os homens ao amor e à prática da virtude sólida.
Assim como a terra, privada da sua fecundidade primitiva, não precisa apenas da influência benfazeja do sol, mas tem de ser enriquecida e ajudada por muitos outros meios para recuperar a fertilidade perdida, também as verdades da religião natural nunca podem restaurar a alma degenerada à perfeição perdida sem o poderoso auxílio de um evangelho revelado. Por isso o Pai da humanidade dignou-se instruir-nos em doutrinas mais eficazes do que as que a natureza sem auxílio pode descobrir, e muito mais adequadas à nossa fraqueza, para que a árvore da moral, tendo raízes mais numerosas e vigorosas, fosse ajudada a dar frutos de qualidade mais excelente, e em maior abundância, do que antes se sabia produzir. “Porque aquilo que a lei não podia fazer [a lei natural ou mosaica], por causa da fraqueza da carne [isto é, da nossa natureza corrompida, que precisa de auxílios maiores do que os que a lei pode dar], isso Deus fez: enviando o seu próprio Filho, condenou o pecado na carne, a fim de que a exigência da lei se cumprisse em nós”, diz São Paulo, por um poder que vem dele (Rm 8.3-4). Por isso esse Salvador prometido foi chamado “o desejado de todas as nações” (Ag 2.7). [N. do T.: a NAA traz “as coisas preciosas de todas as nações”.] E daí aquela declaração pública de Cristo sobre a natureza da sua missão junto aos filhos dos homens: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10.10).
Sem a revelação, ficamos à mercê da mais cruel incerteza. O Todo-Poderoso criou o homem para que participasse da sua própria felicidade; e, depois de pôr no seu coração um ardente desejo do bem supremo, revelou-se benignamente a ele como a única e inesgotável fonte da verdadeira bem-aventurança. Mas, desde que as trevas do pecado se espalharam sobre o nosso entendimento, perdemos de vista esse bem supremo e o procuramos onde é impossível encontrá-lo. Como Íxion na fábula, enquanto abraçamos uma nuvem, imaginamos estar de posse de uma realidade sublime. E, mesmo depois de repetidas convicções da nossa loucura, sem aprender com a decepção, partimos de novo em busca de objetos tão frívolos quanto aqueles que já nos enganaram. Os filósofos, incapazes de guiar a humanidade à verdadeira felicidade, procuram-na eles mesmos em vão, nas trevas e na incerteza. Divididos em várias seitas, sustentam cem opiniões diferentes sobre um assunto de tão grande importância. De modo que, depois de todas as pesquisas dos seus mestres, a filosofia deixou o mundo num estado de perplexidade igual ao de um homem que, tendo uma única flecha para apontar ao alvo, tem diante de si cem alvos diferentes ao mesmo tempo.
Em meio a toda essa incerteza, que felicidade é descobrir um livro que decide a questão capital de maneira tão clara que a própria razão nada pode objetar à decisão! Esse livro, o mais antigo que se pode apresentar, nos informa que Jeová apareceu certa vez ao pai dos fiéis “e disse: Eu sou o Deus poderoso,2 suficiente para tudo; ande na minha presença e seja perfeito”. Assim “farei uma aliança entre mim e você”, e você se tornará alegre possuidor do bem supremo (Gn 17.1-2). Quando essas verdades são aceitas de coração, a perplexidade do crente termina docemente, e a sua alta vocação fica plenamente indicada. Desde então ele sente a importância daquelas doutrinas que, como luzes firmes, eclipsam mil meteoros bruxuleantes e revelam, entre os perigos que o cercam, um caminho seguro, embora estreito, para a felicidade. E aqui se deve observar que, sobre essas verdades importantes, como sobre todo outro ponto essencial, os cristãos de todas as denominações estão perfeitamente de acordo.
O que significa “andar na presença de Deus e ser perfeito” está plenamente explicado nos seguintes termos: “Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração”, e “o seu próximo como você ama a si mesmo” (Mt 22.37, 39). Ora, o homem não regenerado, longe de cumprir esses deveres, negligencia o Ser Supremo e prefere o seu interesse particular ao da sociedade em geral, dando a prova mais forte de que não possui nem piedade genuína nem caridade sem fingimento. Por isso, antes que tal homem possa tornar-se verdadeiramente virtuoso, é evidente que os seus princípios têm de ser aperfeiçoados e as suas inclinações corrigidas. E, até que essas mudanças salutares aconteçam na sua alma, sempre vicioso, inquieto e egoísta, ele estará continuamente acrescentando algo aos seus erros exteriores e à sua miséria interior.
Os deístas, embora reconheçam que somos obrigados a amar a Deus e aos homens, presumem que a sua própria capacidade basta para o devido cumprimento desses deveres tão amplos. Se, porém, desejassem sinceramente praticar essas virtudes de modo tão irrestrito quanto até a religião natural exige, logo perceberiam a fraqueza da natureza humana e reconheceriam a mais profunda necessidade do auxílio divino. Mas, enquanto a piedade dessas pessoas consistir em honrar a Deus “com os seus lábios”, enquanto o “coração está longe” dele (Is 29.13), e enquanto se gabarem de mostrar para com a humanidade um amor tão universal que só os seus inimigos são excluídos dele (Mt 5.43), não precisarão de nenhum outro auxílio para cumprir esses deveres miseráveis além do que a natureza corrompida pode amplamente fornecer.
Afirma-se com frequência que os mistérios da redenção são inteiramente inúteis para a moral, e que a benignidade de Deus, tal como se mostra na nossa criação e preservação, é motivo suficiente para o afeto e a obediência por parte do homem. Mas, desde que o homem se tornou uma criatura pecadora e desobediente, todo motivo de retidão que se possa tirar da sua criação e preservação perdeu muito da sua antiga força constrangedora. Quantas pessoas podemos encontrar no mundo que, em vez de se sentirem penetradas de gratidão por essas bênçãos, lamentam, com o desesperado Jó e com Jeremias, ter nascido! E, quando as misérias da vida a tornaram quase insuportável, podemos razoavelmente imaginar que quem a possui, queixando-se dela, arda de amor pela Divindade apenas como autora e preservadora da sua existência infeliz? Certamente nada pode ser mais absurdo do que tal suposição. E, no entanto, quantos raciocinadores presunçosos sustentam com confiança que o mesmíssimo dom que sofredores desgraçados, em todas as épocas, devolveram ao doador com angústia e desprezo é, apesar disso, um motivo suficientemente poderoso para levar todo transgressor da lei do Todo-Poderoso a amá-lo de todo o coração e a servi-lo com todas as suas forças!
Mas suponhamos que o homem, sem o auxílio das doutrinas do evangelho, tenha algum conhecimento do bem supremo e dos meios de alcançá-lo. Ainda assim, como é superficial esse conhecimento! Poderíamos apresentar aqui um sombrio catálogo dos erros capitais em que os filósofos antigos caíram a respeito desses pontos importantes. É preciso admitir, sem dúvida, que os mestres modernos corrigiram muitos desses erros; mas é preciso lamentar, ao mesmo tempo, que infelizmente adotaram outros, nem um pouco menos gritantes ou fatais. Passando em silêncio os sistemas horríveis dos escritores ateus, ouçamos filósofos de maior estima, entre os quais Rousseau e Voltaire podem figurar como as personagens mais notáveis. O primeiro adquiriu considerável reputação pelas suas observações sobre a educação da juventude; o segundo, pela coragem com que lutou pela tolerância.
“Estabeleça-se como máxima incontestável”, diz Rousseau, “que os primeiros movimentos da natureza são sempre retos, e que não existe pecado original no coração humano.” Que grande passo em direção às ideias de La Mettrie, cuja moral inteira se resumia nesta única frase: “Satisfaça os seus desejos; eles são a voz de Deus e da natureza”! Ampliar essa pequena citação de J.-J. Rousseau seria tarefa supérflua. Deve ser evidente a todo leitor sem preconceito, pela afirmação acima, que as máximas desse admirado filósofo tendem mais a favorecer a satisfação de si mesmo do que a promover a benevolência universal no mundo.
Passemos agora à tolerância do sr. de Voltaire. Na sua epístola a Boileau, vemo-lo escrever assim: “Consagrei a minha voz a cantar os louvores da virtude; vencendo os preconceitos que os ignorantes idolatram, ouso pregar a tolerância aos perseguidores.”3 Ora, quando um homem se apresenta desse modo público para defender a causa da franqueza e da liberalidade, somos naturalmente levados a admirar a generosidade da sua conduta. E seria bom se o sr. de Voltaire merecesse de fato todo o crédito que um estranho se sente disposto a dar-lhe quando ele assume aparência tão duvidosa. Mas, apesar dos louvores que esse escritor célebre prodigalizou à sua própria humanidade, e a despeito de todas as belas coisas que disse sobre a tolerância, podem-se descobrir nas suas obras muitos sentimentos pouco generosos, que tendem a renovar as perseguições mais sangrentas. Tomemos um ou dois exemplos.
1. “Nunca é necessário levantar-se contra a religião do príncipe.” Segundo esse princípio, Jesus Cristo e São Paulo foram altamente censuráveis por resistirem à hipocrisia e à idolatria que compunham a religião de Caifás e de Tibério.
2. “O que se chama jansenista é na verdade um louco, um mau cidadão e um rebelde. É mau cidadão porque perturba a ordem do Estado; é rebelde porque desobedece. Os molinistas são loucos de uma espécie mais inofensiva.” Essas duas belas máximas de tolerância encontram-se num pequeno escrito do sr. de Voltaire intitulado A voz do filósofo e do povo.
Se o rei da França tivesse dado ouvidos a essa voz, teria considerado todo jansenista, e pela mesma razão todo protestante, como mau cidadão ou rebelde; toda centelha de moderação religiosa se teria apagado no seu peito real, e uma porta larga se teria aberto aos terríveis excessos do poder tirânico. Esses pretensos rebeldes poderiam então ter perecido sem compaixão e sem serem ouvidos, enquanto o príncipe intolerante, convencido de que um homem tem de deixar de ser fanático antes de merecer tolerância, poderia ter-se gloriado da retidão da sua conduta pública. Tal príncipe poderia ter mandado as suas tropas sedentas de sangue avançarem sob as bandeiras da filosofia moderna, deixando ao sr. de Voltaire o encargo de animá-las contra os inocentes com o que ele chama A voz do filósofo.
Parece, então, segundo o sr. de Voltaire, que todo súdito deve professar a religião do seu príncipe. E essa opinião não é defendida com menos empenho por J.-J. Rousseau, que nos diz no seu Emílio que “toda filha deve ter a religião da mãe, e toda mulher deve professar a religião do marido”. De modo que, se um homem se desviar da religião verdadeira e abraçar uma falsa, a sua mulher e os seus filhos são obrigados a apostatar com ele; e, caso se recusem, J.-J. Rousseau, enquanto finge defender a causa da liberdade, pronuncia contra eles uma sentença de condenação. Segundo esses princípios de tolerância, o pai de família está autorizado a perseguir a mulher e os filhos que não se conformam com ele, e um príncipe pode licitamente pegar em armas contra aqueles dos seus súditos que forem tidos por fanáticos. Se a benevolência e a moral desses filósofos tão francos fossem postas no lugar da liberalidade e do amor que o evangelho exige (Mc 9.38 e seguintes), que dilúvio de misérias isso não provocaria, tanto nas famílias como nos Estados! Os reis tiranizariam a consciência dos súditos, os maridos a das esposas, e os pais a dos filhos; e nenhuma classe de homens gozaria da menor liberdade religiosa, a não ser os príncipes da terra. Tal é a caridade imperfeita, e tal a liberdade limitada, pelas quais os filósofos modernos têm lutado com igual empenho e aplauso.
Os princípios perigosos desses dois oráculos sobre a tolerância bastarão para mostrar com quanta razão o primeiro deles podia dizer: “Odeio as máximas falsas, mas detesto ainda mais as más ações.” Ai! As ações horríveis de um inquisidor assassino terminam com a sua vida; mas as doutrinas intolerantes desses supostos sábios podem continuar a espalhar miséria e morte pelo mundo muito depois de os seus túmulos esquecidos se terem desfeito em pó.
A grande influência das doutrinas sobre a moral
Para verificar a importância das doutrinas em geral, consideremos a influência que exercem sobre a nossa conduta. Os nossos deveres na vida dependem das diferentes relações que nela mantemos, e essas relações só nos afetam na medida em que são compreendidas. Assim, é necessário que o filho conheça o pai antes de poder amá-lo verdadeiramente como tal. Esse conhecimento é efeito de certas instruções ou máximas que influenciam os nossos costumes na proporção em que são aceitas. Amo com afeto particular o homem de quem recebi o nascimento e a educação; mas esse amor se funda, primeiro, nesta doutrina geral: “Todo filho, nascido honradamente, deve reverenciar e amar o seu pai”; e, em segundo lugar, nesta verdade particular: “Aquele homem é meu pai.” Se me fazem duvidar dessa doutrina geral ou dessa verdade particular, as molas morais do respeito, do amor, da gratidão e da obediência devidos a meu pai necessariamente se enfraquecerão; e, se uma ou outra perder toda a influência sobre o meu coração, meu pai se tornará para mim uma pessoa indiferente.
O conhecimento das afinidades que existem entre um ser e outro é, portanto, essencial à moral. Por que não se pode descobrir nenhum traço de moral entre os animais do campo? Porque são incapazes de compreender tanto a relação em que as criaturas estão com o Criador quanto as afinidades que existem entre as próprias criaturas. Assim como convém ao soldado conhecer exatamente os seus oficiais, para dar a cada um, segundo a sua patente, a honra e a obediência a que cada um tem direito, também, como preparação para a prática da moral, convém-nos ter uma percepção clara dos nossos diversos deveres, juntamente com o objeto próprio desses deveres. Se alguma doença desesperadora nos privou desse conhecimento, passamos a contar entre os idiotas e não temos condições de violar as regras da moral. Por isso o louco que mata o pai não é punido entre nós como parricida, porque não conhece estas máximas gerais: “Ninguém deve matar outro homem; todo filho deve honrar o pai”; nem tem qualquer noção desta verdade particular: “O homem que você está para matar é seu pai.”
Tire todas as doutrinas, e você aniquilará todas as relações que existem entre as criaturas racionais; destruirá toda a moral e reduzirá o homem à condição de um animal irracional, deixando-o mover-se pela paixão e pelo capricho, como os animais mais inferiores são movidos pelo apetite e pelo instinto. Admita apenas algumas poucas doutrinas, e você admitirá apenas uma parte dos seus deveres, assim como dos seus privilégios. Um exemplo pode pôr essa verdade em plena luz. Suponha que você tenha um pai rico, inteiramente desconhecido para você, e que o mundo nunca tenha considerado seu pai: se você nunca receber nenhuma notícia certa a respeito dele, é claro que não poderá nem prestar-lhe obediência filial nem herdar os seus bens.
Muitos filósofos, que não se podem razoavelmente suspeitar de fanatismo, nem mesmo de parcialidade para com os princípios evangélicos, insistiram contudo com vigor na importância das doutrinas como próprias para influenciar a conduta dos homens. Um escritor refinado dessa classe parece ter tido a ideia de que, se todos os homens possuíssem um entendimento esclarecido, os crimes de toda espécie seriam desconhecidos no mundo. Observe, ao menos, em que termos ele fala da guerra, um mal de natureza tão complexa que pode com justiça ser considerado o conjunto de todos os vícios possíveis: “Qual é a causa desse furor destruidor que, em todas as épocas, como uma doença contagiosa, infectou a raça humana? A ignorância é, sem dúvida, a fonte das nossas calamidades: a ignorância das relações, dos direitos e dos deveres da nossa espécie. Por isso os povos mais ignorantes e incultos sempre foram os mais belicosos, e as épocas do mundo particularmente marcadas pelas trevas e pela barbárie foram invariavelmente as mais férteis em guerras mortíferas. A ignorância prepara o caminho para a devastação, e a devastação, por sua vez, reproduz a ignorância. Com um conhecimento claro dos seus direitos e dos seus deveres recíprocos, que formam o verdadeiro e único interesse das nações, é uma contradição supor que essas nações se precipitassem voluntariamente num abismo de males inevitáveis.”4 Esse autor, se supusermos que ele fala das nossas relações e deveres para com Deus tanto quanto dos que dizem respeito ao próximo, tinha razão; sobretudo se tinha em vista o conhecimento de todos os motivos poderosos que devem constranger-nos a cumprir esses deveres.
Segundo esses princípios, de que negligência fatal são culpados os que, encarregados da instrução religiosa de príncipes e povos, deixam uns e outros mergulhados numa deplorável ignorância, que traz consigo os horrores da guerra, com todas as diversas calamidades que se espalham pela face da cristandade!
Como as doutrinas do evangelho vêm em socorro da moral
Se pregar o evangelho é ensinar aos pecadores as relações que mantêm com Deus como Criador, Redentor e Santificador; se é anunciar as vantagens que decorrem dessa tríplice relação, até que os homens, penetrados de gratidão e amor, se dediquem a cumprir os diversos deveres a que estão obrigados, podemos desafiar o mundo a apontar algum conhecimento de importância igual à daquele que se descobre no evangelho. Privar-nos, então, das doutrinas contidas nesse evangelho não é suprimir as instruções mais importantes que podemos receber e esconder de nós um testamento feito inteiramente a nosso favor? Para decidir essa questão, consideraremos aqui a influência que essas doutrinas têm sobre a moral.
As virtudes dos homens mundanos, assim como os seus vícios, pouco mais são do que uma espécie de comércio movido por um amor-próprio desordenado. Dessa fonte impura brotam as mais amáveis das suas ações; e por isso, em vez de referirem todas as coisas primeiramente a Deus, agem sempre de olho na sua vantagem imediata. Cristo ofereceu remédio a esse grande mal ensinando-nos que amar a Deus “de todo o seu coração” é o “primeiro mandamento” da lei, e que amar a nós mesmos, e amar “o seu próximo como você ama a si mesmo”, é apenas um mandamento secundário aos olhos de Deus, conduzindo-nos assim ao amor divino como a única fonte da virtude pura. Quando o amor-próprio é reduzido a essa ordem salutar e se move em exata obediência à lei do Criador, torna-se então verdadeiramente louvável no homem e serve como a regra mais segura do afeto fraterno.
A moral evangélica enobrece as nossas ações mais comuns, como as de comer e beber, exigindo que façamos “tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31), isto é, celebrando a sua indizível bondade. Preceito justo, este, e fundado na seguinte doutrina: “tudo provém de Deus” (2Co 5.18), a quem, por consequência, tudo deve finalmente referir-se. Se você perde de vista essa doutrina, a sua aparente gratidão não passa de uma virtude fingida, que não tem outros motivos nem fins senão os que nascem do amor-próprio e nele se perdem. Nessas circunstâncias, você não pode de modo algum reconhecer a justiça do grande preceito citado acima. Antes, expondo-o ao ridículo, como o autor do Dicionário filosófico, talvez você faça troça dos sentimentos de um homem consciencioso a respeito desse mandamento, assim como o comediante costuma divertir-se com a figura de uma mulher recatada. Desse modo, muitos filósofos estão imitando a moral e a benevolência daqueles religiosos censuradores a respeito dos quais nosso Senhor declarou de modo significativo: “Em verdade lhes digo que eles já receberam a sua recompensa.”
Como reconduziremos um pecador à ordem moral? Bastará insistir com ele nestas exortações: ame a Deus de todo o seu coração, encha-se de benevolência para com todos os homens, faça o bem até aos seus inimigos? Tudo isso seria apenas mandar um rebelde buscar a felicidade na presença de um príncipe cuja indignação ele justamente mereceu. Seria instar um avarento a sacrificar os seus interesses não só a pessoas indiferentes, mas aos seus inimigos implacáveis. Para efetuar no coração humano uma mudança tão desejável, os motivos e o auxílio são tão absolutamente necessários quanto os conselhos e os preceitos.
É aqui que as doutrinas do evangelho vêm em socorro da moral. Pois como adoraremos suficientemente aquele Ser incompreensível que nos demonstrou, pela missão do seu Filho amado, que a natureza divina é amor? Ou como recusaremos alguma coisa a esse Redentor misericordioso, que se revestiu de mortalidade para sofrer em nosso lugar? Todas as doutrinas do evangelho tendem diretamente a promover a prática da moral. A da encarnação, que serve de base ao Novo Testamento, exprime a benevolência do Ser Supremo de modo tão impressionante que todo pecador que recebe de coração essa doutrina se vê constrangido a entregar sem reservas o seu coração a Deus. O seu temor servil se transforma em reverência filial, e a sua aversão inveterada em amor fervoroso. Ele se sente esmagado pela grandeza dos benefícios recebidos e, como única retribuição adequada a misericórdias tão estupendas, sacrifica de uma vez todos os seus vícios queridos. “Se o Filho de Deus se uniu à minha natureza caída”, dirá naturalmente esse crente humilde, “não descansarei enquanto não me sentir unido a esse Mediador divino. Se ele vem pôr fim à minha miséria, nada jamais porá fim à minha gratidão. Se ele me visitou com os raios da sua glória, daqui em diante a minha principal preocupação será refletir esses raios sobre todos à minha volta, para o seu eterno louvor.”
O memorável sacrifício oferecido uma vez na pessoa de Cristo, como propiciação pelos nossos pecados, é maravilhosamente próprio para produzir os mesmos efeitos extraordinários. Essa oferta misteriosa mostra a malignidade das nossas ofensas e apresenta a compaixão da Divindade de maneira tão avassaladora que, ao mesmo tempo que nos enche de horror pelo pecado, triunfa completamente sobre a dureza do nosso coração. Desde o momento em que chegamos a uma percepção real desse sacrifício meritório, desde esse momento morremos para o pecado, até que, “ressuscitados juntamente com Cristo” para uma vida nova (Cl 3.1), somos por fim inteiramente “renovados no espírito do nosso entendimento” (Ef 4.23). Aponte-me um homem que crê sinceramente num Salvador crucificado, e você terá descoberto um homem que abomina toda espécie de vício e no qual toda virtude lançou raízes. Esse pode unir-se com gratidão a toda a multidão dos fiéis e dizer: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio do nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1), e, “gloriando-nos na esperança da glória de Deus” (Rm 5.2), “viemos a obedecer de coração à forma de doutrina a que fomos entregues”. Outrora, é verdade, quando não conhecíamos Cristo, éramos “escravos do pecado”; “agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, o fruto que colhemos é para a santificação. E o fim é a vida eterna” (Rm 6.17, 22).
Se você arrancar de um homem assim essas doutrinas consoladoras e santificadoras, você o deixará ou na estúpida insensibilidade dos que se entregam à segurança carnal, ou na perplexidade de outros que clamam: “Que faremos para ser salvos?” Um ou outro desses estados, em diferentes graus, há de ser experimentado por todo homem que desconhece a eficácia das doutrinas evangélicas. E, se o primeiro moralista do mundo pagão (Sócrates) foi visto triunfar sobre essa estupidez e essa confusão, foi apenas pela esperança regeneradora que ele nutria de que um Deus restaurador, de cujas operações interiores ele já fora favorecido com alguma tênue percepção, lhe daria um dia uma luz mais clara e perfeita.
Que contém reflexões sobre o Credo Apostólico
Para a prova mais completa de que existe uma ligação estreita entre as doutrinas do evangelho e a moral mais perfeita, lancemos os olhos sobre um conjunto dessas doutrinas conhecido pelo nome de Credo Apostólico, credo que todo verdadeiro cristão subscreve conscienciosamente e ao qual os hipócritas batizados fazem solene demonstração de assentir. O nosso preconceito contra essas santas doutrinas há de necessariamente desaparecer depois que considerarmos devidamente a influência que elas naturalmente exercem sobre a conduta dos verdadeiros crentes.
Essa confissão de fé tem três partes. A primeira contém as principais doutrinas do deísmo, ou religião natural, expondo a relação em que estamos com Deus como Criador. A segunda parte desse credo inclui as principais doutrinas contidas nos quatro Evangelhos e põe diante de nós a relação que temos com Deus considerado no caráter de Redentor, isto é, vindo salvar o mundo por aquela pessoa extraordinária que é chamada o Filho unigênito de Deus. As doutrinas aqui enumeradas são aquelas com que os discípulos de nosso Senhor estiveram inteiramente ocupados até o dia do seu batismo espiritual. A terceira parte nos apresenta uma recapitulação das principais doutrinas expostas nos Atos e nas Epístolas dos apóstolos. Essa última parte do credo cristão nos instrui sobre a nossa relação com Deus como Santificador, isto é, vindo regenerar o homem por aquele Espírito de verdade, de consolação e de poder que Cristo prometeu aos seus seguidores: um Espírito cuja função é instruir e santificar a igreja de Cristo, manter uma comunhão constante entre os seus membros, selar na consciência deles o perdão dos pecados, dar-lhes a certeza de uma ressurreição futura e prepará-los para uma vida de bem-aventurança eterna. Passemos em revista essas três partes do credo apostólico e observemos a relação necessária que têm com a moral.
O primeiro artigo desse credo nos informa que há um Deus todo-poderoso, Criador de todas as coisas no céu e na terra. É evidente que ninguém pode renunciar a essa doutrina sem renunciar à religião natural e precipitar-se no ateísmo. Se não há Deus, não pode haver lei divina, e a moral se torna um mero termo sem significado. As leis humanas podem, de fato, conter o infeliz que nutre uma convicção dessa natureza; mas, não fosse a autoridade dessas leis, ele lançaria fora a máscara da decência e zombaria da distinção entre a virtude e o vício.
Se você admite, com Epicuro, a existência de um Deus sem admitir uma providência que governa; se não crê que o Criador é um Pai todo-poderoso e, como tal, particularmente atento aos interesses da sua imensa família, então destrói toda confiança no Ser Supremo: tira aos justos a sua principal consolação na adversidade, e aos ímpios o seu principal freio na prosperidade.
Mutile essa doutrina importante, admitindo apenas uma providência geral, e você destruirá a confiança particular que os homens santos nutrem de que Deus dispensa aos seus filhos, segundo a sua insondável sabedoria, tanto a prosperidade como a adversidade; de que ele ouve as suas súplicas e por fim os livrará de todas as suas aflições. Você pisa os motivos mais poderosos para a resignação e a paciência; alimenta o descontentamento no coração e espalha as sementes do desespero entre os infelizes. E, no entanto, tudo isso é feito por muitos defensores incoerentes da moral.
Os próprios pagãos estavam perfeitamente convencidos de que a prática da moral estava estreitamente ligada às doutrinas mencionadas acima. Cícero, no seu livro sobre a natureza dos deuses, parece recear que todo o edifício da moral viesse abaixo se fosse suprimida a doutrina de uma providência particular. “Pois”, diz ele, “se os deuses não observassem o que se passa aqui embaixo, que seria da religião e da santidade, sem as quais a vida humana estaria cheia de perturbação e confusão? Estou persuadido de que, banindo o temor dos deuses, baniríamos ao mesmo tempo do nosso meio a boa-fé, a justiça e todas as outras virtudes que são consideradas a base da sociedade.”
1. A ta foible raison, garde toi de rendre.
2. Veja o original.
3. A chanter la virtu j’ai consecre ma voix; / Vainquer des prejuges que l’imbecile essence, / J’ose aux persecuteurs precher la tolerance.
4. Principes de la Legislation Universelle.
Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Portrait of St. Paul: or, The True Model for Christians and Pastors, versão inglesa de Joshua Gilpin (1790) do manuscrito francês do autor, na edição de Nova York (B. Waugh e T. Mason, 1834), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Por isso esta é tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.