John Fletcher · O Retrato de São Paulo · Parte III (continuação)

O Credo e a moral; a experiência e as objeções (capítulos VI a XII)

A ligação da moral com o Credo Apostólico, o apelo à experiência e a resposta à objeção tirada da má conduta dos cristãos.

Capítulo VI

A ligação da moral com a segunda parte do Credo Apostólico

As doutrinas mencionadas na última parte do capítulo anterior compõem a religião dos teístas, que creem em Deus como Criador e Preservador, mas não o conhecem como o Restaurador do homem caído. Aqueles, porém, que dão sincero assentimento à primeira parte deste credo jamais se contentarão em ficar no limiar da verdade. Depois de considerar com a devida atenção as bênçãos da criação e da preservação, logo perceberão quanto lhes falta aquele amor, aquela gratidão e aquela obediência que são tão justamente devidos ao Autor de todas as suas misericórdias. Descobrindo assim, pouco a pouco, que mesmo em relação ao próximo estão vazios daquela justiça e daquele amor que deveriam ser praticados mutuamente entre os homens, reconhecerão com humildade as suas transgressões e começarão a compreender as verdades misteriosas que distinguem a religião cristã do deísmo.

Em nossas antigas confissões de fé, não se faz menção da miséria e da depravação do homem. Pois que necessidade havia de fazer de uma verdade tão triste um artigo de fé, se ela foi demonstrada publicamente, em todas as épocas e em todos os países, pela conduta de todas as classes de pessoas? Negar que todos os dias se encontram provas incontestáveis dessa verdade é negar que haja no mundo prisões, forcas, soldados, campos de sangue e leitos de morte.

Se abandonamos a doutrina da queda e, por consequência, a da restauração, desmentimos a experiência geral da humanidade e a do nosso próprio coração; fechamos os olhos à luz da convicção; jogamos fora, no meio de um labirinto, o único fio que pode nos guiar por seus caminhos tortuosos. E, depois de tal loucura, ou desdenharemos, com os filósofos incrédulos, implorar o auxílio do Ser Supremo, ou, como o fariseu arrogante, nos aproximaremos dele com insolência.

Se, em direta oposição à doutrina da nossa depravação, afirmamos que “todas as coisas são boas, e a espécie humana tão livre de imperfeição quanto o Todo-Poderoso a quis desde o princípio”, então desprezamos o único meio provável de vencer o pecado e nos esforçamos obstinadamente por excluir toda possibilidade da nossa restauração. Assim, persuadindo um leproso repugnante de que a sua doença é conveniente e até lhe cai bem, nós o ensinamos a desprezar os remédios mais eficazes e o deixamos, iludido, como presa da deformidade e da corrupção. Mas, uma vez admitido que estamos mergulhados no pecado, sem a menor possibilidade de nos restaurarmos por nós mesmos a um estado de inocência, temos então algum grau daquela humildade que dispôs São Paulo a abraçar um Salvador perseguido, e só pela qual podemos ser levados a abraçar a segunda parte deste sagrado credo.

Rejeitar o que se refere à concepção, ao nascimento, aos sofrimentos, à morte,1 à ressurreição ou à ascensão de Jesus Cristo é rejeitar tudo o que diz respeito a este Salvador condescendente, visto que é um só e o mesmo evangelho que nos instrui em todas essas diferentes doutrinas. Remover uma dessas doutrinas é romper a corrente da verdade evangélica, destruindo um dos elos de que ela se compõe; é, em última análise, negar a autoridade da revelação, se não derrubar de vez aquele grande edifício do qual Jesus Cristo é “a pedra angular”. Numa palavra, na medida em que a doutrina da nossa redenção por um Salvador crucificado é rejeitada, no todo ou em parte, nessa mesma medida rejeitamos, em parte ou inteiramente, os motivos mais constrangedores ao arrependimento e à gratidão, à obediência e à pureza.

Uma conduta ímpia procede de duas causas principais: o orgulho e a rebelião dos sentidos. Do primeiro nasce a desordem das nossas paixões irascíveis; da segunda procedem todos os nossos desejos desregrados. Ora, antes que esses males possam ser perfeitamente remediados, ou que os ímpios se tornem verdadeiramente virtuosos, é necessário arrancar do coração o orgulho e subjugar os apetites desregrados da nossa natureza degenerada. Esta é, sem dúvida, a tarefa mais difícil de realizar na vida; mas o que é impraticável para o deísta incrédulo torna-se realmente possível para o crente sincero. Pelo exemplo do seu Mestre perseguido, ele é animado a pisar todo o orgulho da vida; e na cruz do seu Senhor moribundo ele é crucificado para os deleites sensuais deste mundo presente. “Tomem sobre vocês o meu jugo”, diz o bendito Jesus, “e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11.29). “Cristo sofreu no lugar de vocês”, prossegue São Pedro, “deixando exemplo para que vocês sigam os seus passos” (1Pe 2.21). “Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus”, acrescenta São Paulo, “que, mesmo existindo na forma de Deus”, voluntariamente “assumiu a forma de servo e tornou-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fp 2.5-8).

É preciso conhecer bem o coração humano e ter observado com atenção a influência que o exemplo exerce sobre a humanidade para compreender a grande vantagem que os cristãos têm sobre os deístas, mesmo admitindo que a moral de ambos os lados seja igualmente pura. De que não são capazes aqueles que seguem o Rei dos reis, animados pelo seu exemplo e sustentados pelo seu poder? Assim sustentados, nenhum mandamento parecerá estrito demais para ser obedecido, nenhum fardo pesado demais para ser carregado; mas poderemos triunfar com alegria, como os primeiros imitadores de Jesus, sobre aquele orgulho inato e aqueles desejos sensuais contra os quais os incrédulos, chocando-se continuamente como contra rochas perigosas, fazem naufragar toda a sua tão alardeada moral.

O último artigo enumerado nesta parte do nosso credo deve ter, como se supõe, uma influência prodigiosa sobre o espírito humano. Tirem a doutrina de um dia de juízo, no qual um Deus infinitamente santo e poderoso retribuirá a cada um segundo as suas obras, e vocês tiram dos ímpios aqueles temores salutares que os detêm na carreira do vício, e dos justos aquelas gloriosas esperanças que são o mais forte incentivo a uma vida piedosa.

Capítulo VII

A ligação da moral com a terceira parte do Credo Apostólico

O primeiro artigo da terceira parte desta antiga confissão de fé refere-se à confiança que todo crente deposita na graça divina, ou melhor, naquele Espírito Santo que santifica os pecadores e consola os aflitos. Se, por uma incredulidade obstinada, rejeitamos este sagrado Consolador, recusamos a sabedoria e o poder que resultam de uma união íntima com o Pai das luzes e renunciamos a toda comunhão com aquele divino Mediador cuja humanidade está muito afastada da vista dos homens. Assim como nenhum proveito poderíamos tirar de um sol cujos raios, concentrados nele mesmo, não visitassem nem os nossos olhos com sua luz animadora nem os nossos corpos com seu calor benfazejo, assim também, se o Todo-Poderoso não ilumina a nossa mente pelo Espírito da verdade nem anima a nossa alma pelo Espírito do amor, podemos razoavelmente supor que ele se interessa pelos assuntos humanos tão pouco quanto a estátua de Júpiter Olímpico.

O restante deste credo refere-se à natureza da Igreja e aos privilégios dos seus membros.

Destruir as doutrinas que tratam da santidade daqueles que pertencem verdadeiramente à Igreja de Deus, da universalidade dessa Igreja e da “comunhão dos santos” que a compõem é derrubar as barreiras que formam o cercado da Igreja, confundindo o santo com o profano e o sincero com o hipócrita.

Tirem a doutrina que “se refere à remissão dos pecados”, e vocês nos deixam no estado de incerteza mais cruel. Tiram dos penitentes a expectativa que os sustenta, e dos crentes a gratidão que os leva a amar muito, porque muito lhes foi perdoado (Lc 7.47). Destroem o motivo mais poderoso que temos para perdoar as ofensas do próximo (Ef 4.32) e nos deixam num estado de inquietação incompatível com aquela paz interior que é o privilégio peculiar dos cristãos (Jo 14.27).

Roubem-nos a doutrina de uma ressurreição futura, e vocês nos deixam fracos nos tempos de perigo, alarmados nos tempos de doença e inteiramente escravizados pelo medo da morte. Mas, enquanto permanecemos de posse dessa verdade animadora, podemos seguir sem medo o estandarte da cruz; os tormentos mais cruéis tornam-se suportáveis; e podemos nos submeter sem queixa a uma morte temporária, olhando adiante para uma ressurreição gloriosa e uma imortalidade feliz.

Capítulo VIII

Consequências das observações anteriores

Todos os crimes se fundam em erros que primeiro são abraçados na teoria, antes de serem adotados na prática. Derrubem esses erros, opondo-lhes doutrinas puras e incontestáveis, e vocês destroem o pecado em botão. Por outro lado, a verdadeira virtude é produzida pela verdade. Oponham uma mentira a essa verdade e, se ela for aceita, vocês destroem as sementes da virtude. Enquanto o primeiro homem teve o coração penetrado pela certeza desta doutrina: “Se eu for ingrato a ponto de desobedecer ao meu Criador, morrerei”, permaneceu num estado de inocência. Mas a essa doutrina o tentador opôs as suas falsas promessas. “É certo que vocês não morrerão”, disse ele; pelo contrário, “vocês serão [sábios e felizes] como Deus”. Tão logo Adão deu assentimento a essas doutrinas enganosas, seu entendimento ficou necessariamente obscurecido e sua vontade foi imediatamente seduzida; e assim, seguindo cegamente a tentação, ele caiu num abismo de miséria.

As doutrinas, sejam boas ou más, continuam a exercer a mesma influência sobre a conduta dos homens; e supor o contrário é supor que a luz e as trevas possam deixar de produzir os seus efeitos ordinários. Esta doutrina: “Fora do cercado da Igreja romana não há salvação”, encheu a Europa de fogueiras, cadafalsos e massacres. Arranquem essa doutrina de todo coração preconceituoso e plantem em seu lugar esta verdade da Escritura: “Deus não trata as pessoas com parcialidade; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável”, e, em lugar de sangue correndo, veremos rios de amor fluindo sem interrupção por todos os reinos cristãos.

O avarento imagina que as riquezas são o bem soberano e que o prazer mais alto consiste em contar e recontar os seus tesouros esplêndidos. O jovem devasso está certo de que o bem soberano consiste na satisfação dos sentidos, e a satisfação mais alta no gozo de uma beleza frágil, destinada a ser presa dos vermes. Destruam essas persuasões sem fundamento por meio de doutrinas sólidas: demonstrem a essas criaturas obcecadas que Deus mesmo é o bem soberano, que esse bem nos é oferecido em Jesus Cristo, e que o gozo mais alto consiste em ter o coração penetrado pelo amor divino e em olhar adiante, com esperança viva, para o dia em que estaremos eternamente unidos a Deus. Convençam-nos dessas verdades tão importantes, e os encantos que os mantiveram cativos por tanto tempo se quebrarão imediatamente. Ah, que alegria é ver esses raciocinadores sensuais despertando do seu sono mortal e clamando com Santo Agostinho: “Ó doçura eterna! Grandeza inefável! Beleza sempre nova! Verdade cujos encantos por tanto tempo passaram despercebidos, ai, quanto tempo perdi em não te amar!”

A sã razão tem de se render inevitavelmente à força destas observações, cuja verdade é demonstrada pela conduta geral da humanidade. Mas talvez o melhor método de raciocinar com os incrédulos seja mostrar-lhes as consequências do seu próprio sistema. Imaginem um homem que, em vez de receber as doutrinas do evangelho, ousa fazer publicamente a seguinte declaração: “Não creio em Deus Criador; não confio em mediador algum, nem reconheço nenhum Espírito santificador. E, assim como não creio em Deus, não creio no que se chama a sua Igreja; nem considero a comunhão daqueles que o adoram senão como pura quimera. Não creio na remissão dos pecados. Não espero ressurreição alguma, nem nutro esperança alguma de vida eterna. Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos.” Se alguém repetisse a sério, diante de vocês, semelhante confissão de fé, vocês o escolheriam para administrar os seus bens? Confiariam a ele o cuidado da sua esposa, ou o escolheriam como tutor dos seus filhos? Seria possível a vocês confiar na palavra dele, ou fiar-se na sua honestidade? Agora, imaginem esse mesmo incrédulo, algum tempo depois, convencido dos seus erros anteriores e firmemente persuadido de que age sob o olhar de um Deus onisciente, que “há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas” (Ec 12.14); suponham-no batendo no peito com o publicano arrependido e decidindo, com São Paulo, “nada saber entre vocês, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado” (1Co 2.2): vocês não fariam melhor juízo desse homem no seu estado de crente do que quando rejeitava, com os filósofos modernos, as doutrinas do cristianismo? Não poderia ser de outro modo; tanto é verdade que, em certos casos, a conduta de vocês desmentirá os seus argumentos contra a utilidade das doutrinas evangélicas.

J. J. Rousseau declara ter odiado as más máximas menos do que as más ações, quando, como homem sábio, deveria ter detestado as primeiras como causa das segundas. Não basta professarmos fazer dos princípios da virtude o fundamento da nossa conduta, se essa base não estiver assentada sobre um alicerce inabalável. Sem atender a essa regra, nos parecemos com aqueles indianos que supõem que o mundo está apoiado nas costas de um elefante, enquanto esse elefante se sustenta sobre o casco de uma tartaruga; e que, perfeitamente satisfeitos com tal descoberta, não procuram entender mais nada do assunto.

Um sistema de moral, por mais belo que pareça, se não for sustentado por doutrinas da maior consistência e firmeza, pode ser comparado a um palácio esplêndido construído sobre a areia: em alguma tempestade inesperada será certamente arrastado, revelando ao mesmo tempo a vergonha do seu construtor e a ruína do seu morador.

Capítulo IX

Um apelo à experiência

A experiência pesa muito na decisão de muitas questões difíceis, e diante dela o sofisma mais sutil não consegue manter-se por muito tempo. A ela, portanto, apelamos de bom grado quanto aos felizes efeitos do evangelho. Vocês, sábios incrédulos do nosso tempo, mostrem-nos um único inimigo das doutrinas da revelação que possa com verdade ser chamado homem humilde, que se conduza com sobriedade, justiça e piedade em todas as circunstâncias difíceis da vida. Em todo o círculo dos seus conhecidos incrédulos, vocês procurarão tal homem em vão.

Se disserem que J. J. Rousseau, embora cético declarado, nos apresentou o retrato de um homem perfeitamente honesto, respondemos, em primeiro lugar, que J. J. Rousseau não rejeitou o evangelho como inimigo obstinado, mas antes considerava uma aflição não conseguir abraçar as suas doutrinas. E, em segundo lugar, que esse filósofo era igualmente desprovido de humildade e de religião.

É preciso confessar que há no mundo multidões de pessoas inconsistentes, que constantemente se enganam a si mesmas e frequentemente iludem os outros com suas noções falaciosas de fé e de incredulidade. Encontramos muitos que, enquanto se colocam no número dos crentes, ocupam-se habitualmente nas obras dos incrédulos. E, por outro lado, vemos vários adoradores penitentes que, por excesso de humildade, não se consideram melhores do que incrédulos, enquanto manifestam em sua conduta a fidelidade de cristãos. Mas essas exceções particulares não bastam para destruir a regra geral aqui defendida, pois os primeiros devem ser tidos como crentes, e os segundos como incrédulos, apenas na aparência. Os primeiros não têm sinceridade suficiente para reconhecer a sua incredulidade secreta; os segundos não têm luz suficiente para avaliar com exatidão o seu progresso na fé cristã. Estes merecem a nossa compaixão; aqueles, a nossa indignação.

Mas voltem os olhos para um crente esclarecido. Vejam São Paulo depois da sua memorável rendição ao Jesus perseguido! O amor de Deus possui a sua alma, e ele consagra todas as suas forças ao serviço do seu exaltado Mestre. Designado para instruir os ignorantes, cumpre a sua importante missão com zelo incansável. Levando aos aflitos socorros espirituais e materiais, parece ser levado do oriente ao ocidente como sobre asas de águia. Está pronto a gastar-se e a deixar-se gastar pelos interesses comuns da humanidade. Prova a sua fidelidade e a sua gratidão a Cristo com risco da própria vida. A sua magnanimidade e fortaleza, a sua resignação e paciência, a sua generosidade e franqueza, a sua benevolência e constância são, ao mesmo tempo, o espanto dos seus inimigos e a glória dos seus seguidores. Contemplem este fariseu convertido e reconheçam a admirável eficácia das doutrinas evangélicas.

Escravos do preconceito filosófico! Até quando vocês desconhecerão a natureza de doutrinas tão felizmente adequadas a humilhar o homem altivo, tão perfeitamente próprias para destruir tanto a presunção quanto o desespero, para dobrar os mais endurecidos sob a terna pressão da misericórdia e para elevar os crentes agradecidos ao mais sublime cume da virtude? Vejam três mil judeus rendendo-se, no mesmo instante, ao poder constrangedor dessas doutrinas. Por sua eficácia extraordinária, inúmeros milagres ainda se operam diariamente entre nós. Elas dissipam as névoas da ignorância, destroem as sementes da injustiça, extinguem os desejos desregrados e abrem no coração uma fonte de amor universal! Assim, “da multidão dos que [outrora] creram era um o coração e a alma” etc. Desfrutando juntos o Bem soberano, não lhes era possível disputar uns com os outros os gozos insignificantes do tempo e dos sentidos. Deus lhes tinha dado o seu Filho unigênito; como, então, poderiam recusar qualquer coisa aos seus irmãos necessitados?

Muito tempo depois de São Lucas ter dado testemunho do amor sem igual dos cristãos, encontramos Tertuliano citando o seguinte testemunho, que os pagãos seus contemporâneos eram obrigados a prestar em favor dessa mesma virtude cristã: “Vejam”, dizem eles, “como esses cristãos se amam e estão prontos a morrer uns pelos outros!” “Sim”, acrescenta esse célebre pai da Igreja, “nós, que temos um só coração e uma só alma, não receamos ter uma só bolsa. Entre nós todas as coisas são comuns, exceto as nossas esposas.”2

Se o testemunho aqui apresentado for desconsiderado por ter sido tirado dos escritos de um defensor declarado do cristianismo, passaremos de bom grado a outra prova. Plínio dá testemunho da conduta pura dos cristãos perseguidos do seu tempo. E o próprio imperador Juliano, um dos inimigos mais esclarecidos e também mais implacáveis do cristianismo, exortava os seus súditos pagãos a praticarem entre si os deveres do amor ao próximo, a exemplo dos cristãos, “que abundam”, dizia ele, “em atos de benevolência”. E quanto à alegria com que sacrificavam a vida, quando a ocasião o exigia, “eles vão”, continua ele, “para a morte como as abelhas enxameiam para a colmeia”. Tal é a influência das doutrinas da nossa santa religião sobre a conduta dos que sinceramente a professam, até por confissão dos seus inimigos mais encarniçados.

Parece, pois, que São Paulo agia como um moralista experiente, quando se empenhava em erguer o sagrado edifício da moral sobre o sólido fundamento das verdades evangélicas. E as doutrinas que escolheu, como especialmente adequadas a esse fim, foram as que se referem à misericórdia de Deus em Cristo Jesus. Sobre elas pôs a maior ênfase, e delas tirou os seus argumentos mais persuasivos para a virtude e a piedade. Testemunha disso é aquela memorável exortação dirigida aos seus convertidos de Roma: “Portanto, irmãos, pelas misericórdias de Deus, peço que ofereçam o seu corpo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. Este é o culto racional de vocês” (Rm 12.1).

Esconder dos degenerados esta verdade animadora, de que “foram comprados por preço” (1Co 6.20), é negar-lhes um dos motivos mais poderosos para amar e glorificar “a Deus no seu corpo e na sua alma”, que lhe pertencem pelo terno direito da redenção, assim como por aquele direito original da criação ao qual as aflições e decepções da vida geralmente os tornam insensíveis. Instruam-nos sobre a santidade da lei divina; ponham diante deles a culpa das suas inúmeras ofensas, e os justos temores que tais descobertas naturalmente despertam farão da própria existência um fardo intolerável. Mas, quando o evangelho da nossa redenção começar a dissipar as suas dúvidas e a acalmar a angústia do seu remorso, eles se tornarão capazes de seguir o seu caminho com alegria pelas veredas mais estritas da obediência e da moral.

Capítulo X

Resposta a uma objeção que se pode tirar da má conduta de cristãos ímpios para provar a inutilidade das doutrinas do evangelho

Os que exaltam a filosofia contra a revelação imaginam que, para invalidar as reflexões anteriores, basta darem a seguinte resposta: “Todos os cristãos recebem o Credo Apostólico; mas a fé deles não é acompanhada dos felizes efeitos que você vem enumerando. Crimes de toda espécie são cometidos pelos discípulos de Jesus; e as suas doutrinas, em vez de produzirem amor, geram pouco mais do que disputas e perseguições!” A seriedade desta objeção exige uma resposta à altura.

Nunca se viu um verdadeiro cristão ser perseguidor. As disputas cruéis que surgiram entre cristãos sem fé não brotaram necessariamente da natureza das doutrinas da Escritura, mas antes do orgulho daqueles doutores tirânicos que lutaram por suas explicações particulares dessas doutrinas. Insinuar, então, que as doutrinas do evangelho devem ser inteiramente rejeitadas porque alguns eclesiásticos tomaram ocasião delas para suscitar contendas veementes seria pouco menos absurdo do que sustentar que a anarquia é preferível a um excelente código de leis, porque advogados sem princípios costumam fomentar litígios e têm sempre em seu poder prolongar uma causa. Quanto às explicações extravagantes que a sutileza ou o poder dos homens colocou no lugar das doutrinas evangélicas, elas não provam a falsidade ou a inutilidade dessas doutrinas, assim como a política detestável dos tiranos não pode enfraquecer a força daquele preceito apostólico: “Que todos estejam sujeitos às autoridades superiores” (Rm 13.1). Mas vamos ao nó principal da dificuldade.

Aqueles que abraçaram sem fingimento as doutrinas de Cristo, longe de se entregarem a qualquer espécie de vício, levaram todas as virtudes a um grau de perfeição que quase ultrapassa a imaginação dos outros homens. Rousseau e Montesquieu reconhecem que, mesmo nos países onde o evangelho criou raízes apenas de modo imperfeito, as rebeliões foram menos frequentes do que em outros lugares. O mesmo reconhecimento deve ser feito por todo observador sem preconceito quanto a crimes de toda espécie. Muitas ofensas, é preciso admitir, são comuns em toda parte entre os que professam o cristianismo; mas seriam muito mais frequentes se os filósofos anticristãos tivessem conseguido tirar-lhes o pouco respeito que ainda conservam por um evangelho revelado. Além disso, há muitas virtudes raras que florescem principalmente em segredo; e os que merecem o nome de cristãos poderiam assombrar a própria incredulidade, se Cristo não lhes tivesse ordenado prestar os seus melhores serviços de modo tão discreto que a mão esquerda não soubesse o que fazia a direita.

Nada pode ser mais injusto do que imputar à religião cristã os males que evidentemente procedem da incredulidade e da superstição, do fanatismo e da hipocrisia. Jesus Cristo exige dos seus seguidores um amor ardente a Deus e aos homens, um amor como o que se manifestou em toda a sua própria conduta ao longo da vida. Os incrédulos negam, no todo ou em parte, a dívida de amor agradecido que as inúmeras misericórdias de Deus lhes impõem, visto que, enquanto o ateu se recusa a reconhecê-lo como Criador e Preservador do homem, o deísta o rejeita como Autor da nossa redenção e santificação. Os supersticiosos, é verdade, reconhecem essas dívidas imensas, mas pretendem pagá-las com cerimônias vazias e vãs repetições de fórmulas enfadonhas. O fanático tenta saldá-las com fervores estéreis, e o hipócrita com caretas estudadas. Mas esses erros não podem razoavelmente ser confundidos com a nossa santa religião, que os expõe e condena a todos.

A vida de quem se chama cristão tem necessariamente de se tornar pura quando ele possui de fato a fé cristã, isto é, quando está fortemente persuadido de que anda na presença do Todo-Poderoso, que, sendo seu Pai pela criação, torna-se Pai de modo ainda mais afetuoso e eficaz pelas operações misteriosas da sua graça redentora e santificadora. Essas três operações assombrosas do Ser Supremo são, sem dúvida, três grandes provas do seu amor ao homem, e devem ser consideradas outras tantas fontes abundantes de amor cristão entre os membros da sua Igreja. Por isso, o homem que reconhece apenas uma dessas provas não pode estar unido aos seus irmãos, nem ao seu Deus, com um afeto tão ardente quanto aquele que admite e experimenta as três. O amor divino de que aqui se fala é produzido no coração por meio da fé, e dele procedem todas as virtudes sociais e todas as ações dignas de louvor.

Tudo isso está de acordo com a razão e com a experiência. Um súdito fraco temerá desobedecer a um rei poderoso cujo olhar está fixo sobre ele, ao menos enquanto estiver penetrado por este pensamento: “O rei me observa.” Um filho nunca se levantará contra um bom pai enquanto crer que o seu pai, em todos os sentidos possíveis, é bom para com ele. Irmãos que se reconhecem cordialmente como tais não ousarão maltratar uns aos outros na presença de um pai infinitamente poderoso. E, enquanto ele os conduz a tomar posse de um reino que a sua generosidade repartiu entre eles, não ameaçarão matar uns aos outros, diante dos olhos do pai, pela posse de algum pequeno gozo que se apresente pelo caminho. Os filhos de Jacó jamais teriam vendido o seu irmão José se estivessem firmemente persuadidos de que Israel um dia descobriria o seu crime; e teriam concebido o maior horror, se realmente cressem que o seu Pai celestial estava presente àquela ação ímpia, decidido a chamá-los, em algum tempo futuro, a uma severa prestação de contas diante do mundo. Uma fé que não tem influência sobre a conduta não é outra coisa senão a fé dos hipócritas, contra os quais nosso Senhor pronuncia os juízos mais terríveis, ameaçando-os com o banimento eterno da sua presença, naquelas trevas exteriores onde haverá “choro, lamento e ranger de dentes”. “Eu, com as obras, lhe mostrarei a minha fé”, diz São Tiago (Tg 2.18). “Se alguém disser”, continua São João, “‘Creio em Deus, amo a Deus’, mas odiar o seu irmão, esse é mentiroso” (1Jo 4.20). Os mesmos princípios que num dado momento ganham ascendência no homem dão origem às palavras e às ações desse momento. Daí aquele dito do apóstolo: “Todo aquele que permanece nele [em Cristo] não vive pecando; todo aquele que vive pecando não o viu”, por meio de uma fé verdadeira e viva (1Jo 3.6).

Se há quem professe o cristianismo sem que as verdades do evangelho tenham produzido nele uma conduta santa, podemos dar por certo que tais pessoas são incrédulos disfarçados e desconhecem totalmente o evangelho, a não ser na teoria. A fé comum a esses cristãos de nome é puramente especulativa e não difere menos da fé sólida de um verdadeiro crente do que um sol pintado na tela difere daquele que espalha luz e calor pelos mundos ao seu redor. Assim como uma planta não pode ser nutrida pela aplicação superficial de uma seiva estranha à sua casca, mas por uma seiva própria da sua natureza, que, correndo por baixo da casca, penetra, vivifica e nutre todas as partes da planta, assim também a conduta de um homem não pode ser reformada por noções de doutrinas recolhidas em livros, mas por aquelas que, penetrando além do seu juízo, se insinuam no seu coração e se incorporam ao seu próprio ser.

Esta resposta não pode, com justiça, ser vista como um vão subterfúgio. Para nos convencermos da sua solidez, basta considerar como a alma é afetada segundo os diferentes graus de qualquer impressão que se faz sobre ela. Enquanto Jacó ainda lamentava a suposta morte de José, Rúben lhe informou que o seu filho amado ainda estava vivo e ocupava o segundo lugar em dignidade no Egito. A notícia pareceu de início enganosa ao bom velho, que não foi afetado por ela mais do que por algum relato extravagante. Mas, quando as afirmações de Rúben foram confirmadas pelo testemunho conjunto dos seus outros filhos, a sua atenção foi logo despertada, a sua incredulidade foi pouco a pouco vencida, e o seu coração desfalecido começou a reviver. Quando os carros e os presentes de José apareceram para confirmar o relato dos filhos, as suas dúvidas se dissiparam por completo. “O meu filho”, exclamou ele, “ainda vive! Irei e o verei antes que eu morra.” Essa persuasão animadora, José ainda vive, pareceu devolver ao patriarca abatido todo o vigor dos anos passados. Renunciou a uma Canaã terrestre; deu as costas aos túmulos de Isaque e de Raquel; e, com toda a coragem da juventude, partiu para abraçar no Egito o filho que acabava de reencontrar. Tão certo é que uma verdade pela qual estamos profundamente interessados mudará em certo grau a nossa própria natureza e modificará a própria alma.

Assim o evangelho de Deus, nosso Salvador, afeta todo verdadeiro crente. E por que o Egito haveria de ter mais encantos do que o céu? Ou por que um convite do virtuoso filho de Raquel haveria de ter mais peso do que aquele que vem do divino Filho de Maria? Seriam os frutos que José enviou a seu pai preferíveis aos do Espírito, com que Cristo enche o seu Israel favorecido (Gl 5.22-23)? Ou mereciam os filhos dissimulados de Jacó mais crédito do que os apóstolos do nosso exaltado Senhor, apoiados por aquele nobre exército de mártires que selaram com seu sangue as verdades do evangelho? Ai! Se as doutrinas fundamentais deste evangelho (pois não falamos aqui daqueles acréscimos humanos que com tanta frequência o desfiguram e enfraquecem) tivessem penetrado profundamente o nosso coração, daríamos testemunho, por nossa conduta, da verdade desta afirmação: “Se alguém [é de fato cristão], é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2Co 5.17).

Mas por que haveríamos de voltar aos tempos de Jacó para provar que as doutrinas influenciam a conduta dos homens na proporção do grau de fé com que são recebidas? Voltemos e lancemos um olhar retrospectivo sobre as várias circunstâncias da nossa vida passada. Se em algum momento sentimos uma viva persuasão da verdade do evangelho; se, ao nos aproximarmos pela primeira vez da mesa sacramental, ou depois de ouvir algum sermão comovente, realmente cremos “que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2Co 5.19) e prometendo ao seu povo recompensas eternas em troca dos seus trabalhos passageiros, não sentimos, naquele momento, o amor a Deus e aos homens brotando em nosso coração? Ora, se essa persuasão parcial se tivesse espalhado por toda a alma, a nossa devoção, a nossa humildade e o nosso amor não teriam sido levados a um grau de perfeição muito mais alto do que o que experimentamos até agora? As nossas boas obras, de todo tipo, não teriam sido muito mais excelentes e numerosas do que podemos agora pretender?

Por outro lado, olhemos para trás, para os dias da juventude, e nos lembraremos de um tempo em que as doutrinas do evangelho começaram a perder a pouca influência que antes exerciam sobre a nossa conduta; lembraremos, ao menos, quando os princípios licenciosos dos mundanos e as falsas máximas dos filósofos incrédulos se insinuaram em nosso coração corrompido. E não experimentamos, desde então, que existe a mais estreita ligação entre essas máximas e a imoralidade? Não nos tornamos, desde aquele tempo infeliz, mais devassos nos sentimentos, menos circunspectos no comportamento exterior e mais dispostos a pisar os princípios da religião natural, assim como os preceitos evangélicos? Destas observações passaremos a tirar as seguintes conclusões.

1. Se a moral pode ser comparada a uma árvore cujo fruto serve de alimento à humanidade, as doutrinas verdadeiras podem ser consideradas as raízes dessa árvore. Tirem essas doutrinas, a pretexto de que embaraçam a moral, e vocês cortam ridiculamente as raízes dessa planta sagrada, para que não impeçam a sua crescente perfeição. Ora, quem assim busca a moral do evangelho reprovando as doutrinas evangélicas agiria de modo inteiramente coerente com o seu caráter se plantasse os seus pomares com árvores privadas de raízes, para que produzissem frutos mais excelentes.

2. Assim como, no reino vegetal, os frutos são nutridos e amadurecidos por aquela energia vegetativa que tira a seiva da raiz, refinando-a e distribuindo-a entre os vários ramos, assim também, no mundo moral, o amor e as boas obras só podem ser produzidos por aquela fé viva que primeiro recebe as doutrinas da verdade e depois se torna uma espécie de veículo da sua virtude revigorante. Essa fé foi corretamente caracterizada por Cristo e seus apóstolos, quando a apresentaram como a graça pela qual somos principalmente salvos, visto que só essa graça é capaz de produzir em nós aquela esperança viva, aquele amor ardente e aquela obediência universal que sempre distinguirão o crente do incrédulo. Quem, portanto, discursa contra essa fé bíblica, seja novato ou filósofo, defende indiretamente a causa do vício e dá prova suficiente da sua ignorância espiritual.

3. Do que foi exposto podemos concluir a necessidade de evitar, de um lado, os enganos dos gnósticos e, de outro, o erro dos sábios incrédulos. Os primeiros, defendendo uma fé especulativa, saúdam Cristo como seu Senhor, embora se recusem a obedecer aos seus mandamentos; os segundos, zombando da fé ao extremo e confiando no próprio poder para realizar toda boa obra, contaminam com motivos indignos as mais excelentes das suas ações.

Capítulo XI

Continuação do mesmo assunto

Como muitos se escandalizaram ao observar quão pouco efeito as doutrinas do evangelho têm sobre a vida dos que se chamam cristãos, convém-nos aqui investigar as causas desse grande mal.

As doutrinas que distinguem o cristianismo do teísmo têm esta particularidade: ninguém pode recebê-las sem antes ter abraçado sinceramente as doutrinas do teísmo. É preciso crer em Deus antes de poder crer em Cristo; é preciso ter a sinceridade de um pagão honesto antes de chegar à posse do amor cristão. Toda a multidão dos que professam a fé apenas exteriormente costuma proclamar em seus cultos públicos: “Cremos em Jesus Cristo; cremos no Espírito Santo” etc., embora a sua fé talvez não se iguale à dos demônios, que creem na existência de um Deus que recompensa e castiga, com sinceridade suficiente para tremerem diante dele. Não se pode dizer que esses hipócritas creiam de coração nos últimos artigos do Credo Apostólico, assim como não se pode dizer que crianças que ainda não conhecem o alfabeto tenham lido e digerido os autores mais profundos. As doutrinas mais elevadas do evangelho hão de parecer necessariamente inúteis e absurdas àqueles cuja fé em Deus não é suficiente para penetrá-los de um santo temor; pois, assim como não podemos chegar à idade adulta sem passar primeiro pela infância, assim também não podemos receber cordialmente a última parte do Credo Apostólico enquanto não tivermos primeiro abraçado a primeira parte com uma fé viva e firme. Por que Caifás se recusou a crer em Cristo? Porque não passava de um hipócrita quanto à fé judaica. Pelo contrário, por que Cornélio, o centurião, creu tão prontamente? Foi, sem dúvida, porque a sinceridade da sua fé em Deus tinha preparado o seu coração para receber a fé em Cristo. “Todo aquele”, diz este divino Salvador, “que ouviu e aprendeu do Pai, esse vem a mim” (Jo 6.45). “Vocês creem em Deus, creiam também em mim. E eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Consolador, o Espírito da verdade” (Jo 14.1, 16-17).

Essas doutrinas fundamentais compõem a escada da verdade evangélica, na qual quem se escandaliza com um só degrau corre um duplo risco: o de não subir mais alto e até o de cair do degrau onde obstinadamente resolveu se acomodar. “Quem pratica a verdade se aproxima da luz” (Jo 3.21); mas quem recusa as primeiras verdades coloca-se fora da possibilidade de receber as que são de natureza mais sublime. Se não observou primeiro o alvorecer do dia do evangelho, jamais poderá contemplar o nosso divino Sol quando brilha no seu esplendor do meio-dia.

Os artigos da fé cristã podem ser comparados a uma série de proposições geométricas, das quais as últimas sempre supõem um conhecimento perfeito das primeiras. Exigir de crianças espirituais atos de fé elevados e importantes em Jesus Cristo, ou no Espírito Santo, antes que aprendam a ter noções justas do Ser Supremo, seria tão insensato quanto alguém pretender que é possível fazer de um camponês ignorante um bom geômetra ensinando-o a repetir os termos das últimas proposições de Euclides, sem jamais levá-lo a uma verdadeira compreensão das primeiras. Se, então, a maioria dos cristãos se contenta em aprender apenas a repetir os nossos termos doutrinários, devemos esperar vê-los tão longe de manifestar as virtudes de São Paulo quanto o camponês superficial de possuir a solidez de Euclides.

Capítulo XII

Outras razões para a pouca influência que as doutrinas acima expostas parecem ter sobre os cristãos em geral

Para ensinar com proveito as doutrinas do evangelho, há certas regras que precisam ser observadas; e, onde essas regras são desconhecidas ou negligenciadas, o evangelho passa a ter pouca importância.

1. Uma doutrina verdadeira, para ter o devido efeito, deve ser anunciada com pureza. Não deve ser mutilada por cortes apressados nem corrompida por acréscimos vãos. O príncipe do erro serve aos seus interesses tanto confundindo a verdade quanto espalhando a mentira; e, quando se acrescentam erros às verdades evangélicas, essas verdades podem ser comparadas a excelentes remédios infelizmente misturados com venenos perigosos. Assim, a doutrina dos castigos futuros não só perde a sua utilidade, mas se torna realmente perniciosa, pelo acréscimo de outra doutrina que ensina que uma soma de dinheiro, deixada como preço de orações por uma alma falecida, abrandará eficazmente as suas penas e até lhes porá fim.

2. Não basta que uma doutrina seja transmitida da maneira mais pura; os que a anunciam devem empenhar-se em demonstrar a sua excelência e o seu poder por toda a sua conduta. Se médicos leprosos apregoassem um remédio específico contra a lepra, não se pode imaginar que os leprosos em geral adotariam ansiosamente um remédio que tivera tão pouco efeito sobre os que o recomendam. Dizemos aqui, não sem o mais profundo pesar, que muitos clérigos destroem o efeito das suas doutrinas pela imoralidade da sua conduta.

3. Para dar às doutrinas da Escritura todo o seu efeito, é necessário fazê-las passar do entendimento para a vontade, ou do juízo para o coração dos que as aceitam. Seria inútil conseguir para um doente o remédio mais eficaz se, em vez de aplicá-lo segundo o método prescrito, ele achasse suficiente tocá-lo com os lábios ou se contentasse em aspirar o odor agradável que dele exala. A esse doente, porém, se parece muito a maior parte dos cristãos, que especulam sobre o evangelho sem jamais abraçá-lo com aquela viva “fé que atua pelo amor” (Gl 5.6).

4. Não basta que essas doutrinas sejam pregadas na sua pureza original; é igualmente necessário que sejam conservadas na mesma pureza pelos que as recebem. Nosso Senhor faz aos pecadores esta solene declaração: “Se não se arrependerem, todos vocês também perecerão.” No entanto, como se explica que muitos milhares de cristãos que admitem essa verdade importante permaneçam hoje num estado de impenitência? É porque misturam a ela este erro pernicioso: ainda que eu passe o momento presente no pecado, Deus certamente me dará graça para me arrepender no fim da vida. Daí aquela lamentável desatenção aos deveres da religião, tão generalizada entre nós nos dias de hoje.

5. Muitas vezes as doutrinas do evangelho não produzem efeito considerável sobre os que as admitem, porque a ação salutar dessas verdades é contrariada pela poderosa influência dos desejos terrenos alimentados no coração. Assim, num estômago doente, o alimento mais saudável perde a sua virtude. Para remediar esse mal, é necessário submeter-se a um regime severo demais para ser observado por um doente obstinado, e sobre cuja absoluta necessidade um médico desatento não insistirá com firmeza.

6. Onde as doutrinas de tendência mais humilhante não causaram primeiro uma impressão profunda, ali as doutrinas consoladoras do evangelho só servem para manter o pecador num caminho de impiedade. Os pregadores que favorecem o falso juízo dos mundanos, faltando-lhes coragem ou experiência para administrar com sabedoria as doutrinas do evangelho, de modo a alarmar os impenitentes e consolar os abatidos, esses pregadores, em vez de arrancar o mal que lamentamos, só o aumentam. Não se pode negar, de fato, que oferecem ao mundo muitas verdades sagradas; mas, como não as distinguem com cuidado nem as aplicam aos diferentes estados dos seus ouvintes, e apenas atiram com o arco ao acaso, não admira que as suas flechas caiam tantas vezes fora do alvo. Esses confusores da verdade contribuem tão pouco para a conversão dos pecadores quanto contribuiria para a cura dos doentes um médico que, sem nenhuma escolha prudente, misturasse todas as drogas de uma excelente farmacopeia e oferecesse indistintamente a mesma receita confusa a todos os pacientes.

7. As doutrinas do cristianismo são frequentemente apresentadas como opiniões humanas, e não como declarações de Deus, fundadas em acontecimentos muito mais bem atestados do que os fatos históricos mais certos; e a esse único erro se pode atribuir, em boa medida, a ineficácia dessas doutrinas. Se a razão e a consciência fossem postas à frente do evangelho, a necessidade de um Redentor seria sentida no mundo de modo muito mais universal do que até agora. Mas, enquanto os pregadores desse evangelho deixarem de afirmar a depravação da natureza humana, ou enquanto omitirem, em confirmação de tão triste verdade, os apelos mais solenes à consciência dos homens, podemos esperar ver os seus trabalhos mal dirigidos universalmente malsucedidos. Se esses mestres em Israel tivessem um conhecimento experimental das verdades sobre as quais ousam discorrer em público, a sua palavra logo seria acompanhada de uma eficácia incomum; o seu exemplo lhe daria peso; e, em resposta às suas orações fervorosas, o Deus de toda graça poria o seu selo sobre a verdade do evangelho.

Sempre que os mensageiros da verdade religiosa se tornarem notáveis pela pureza da vida e pelo fervor do zelo, as suas doutrinas logo terão no mundo cristão influência suficiente para derrubar a objeção que estivemos considerando e para tapar eficazmente a boca de todo contraditor.

Notas

1. Não se faz aqui menção da descida de nosso Senhor ao inferno, porque a própria expressão é ambígua: a palavra grega hades de modo nenhum corresponde à palavra inglesa hell [inferno]. São Paulo estava sempre pronto a mencionar tudo o que dizia respeito ao seu divino Mestre; mas, onde fala da morte e da ressurreição dele, não se nota que sequer insinue essa doutrina singular. E se, por omiti-la neste lugar, somos julgados culpados de um erro capital, o grande apóstolo foi ele mesmo culpado nesse ponto (Rm 4.25; 8.34; 1Co 15.4). Mas, se São Paulo e os quatro evangelistas não fizeram menção dessa circunstância extraordinária, ela certamente não pode ser considerada um artigo fundamental da fé cristã.

2. Vide, inquiunt [gentes] ut [isti Christiani] invicem se diligunt, et ut pro alterutro mori sunt parati. Qui animo animaque miscemur, nihil de rei communicatione dubitamus. Omnia indiscreta sunt apud nos, praeter uxores. Apologeticus, cap. 39.

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Portrait of St. Paul: or, The True Model for Christians and Pastors, versão inglesa de Joshua Gilpin (1790) do manuscrito francês do autor, na edição de Nova York (B. Waugh e T. Mason, 1834), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Por isso esta é tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.