John Fletcher · O Retrato de São Paulo · Parte III (conclusão)
O lado obscuro das doutrinas cristãs, os benefícios da redenção estendidos a todos os tempos e o perigo a que se expõem os deístas modernos.
As doutrinas do cristianismo têm um lado obscuro. As razões dessa obscuridade. O erro de alguns filósofos a esse respeito
“O evangelho”, diz J. J. Rousseau, “traz marcas de verdade tão grandes, tão impressionantes, tão perfeitamente inimitáveis, que o seu inventor parece muito mais admirável do que o seu herói. Mas, afinal, esse evangelho está cheio de coisas incríveis, de coisas que repugnam à razão e que nenhum homem sensato pode conceber nem admitir.” “Removam todas as dificuldades”, continuam os admiradores desse filósofo, “dissipem toda a obscuridade que cerca as suas doutrinas, e abraçaremos de bom grado o evangelho.”
As coisas extraordinárias sempre parecem incríveis na proporção da nossa ignorância. Assim, um negro ignorante da Guiné tomaria por enganador o homem que afirmasse haver lugares no mundo onde a superfície dos rios se torna tão sólida, em certas estações, que exércitos inteiros podem atravessá-los a pé enxuto, sem ponte nem barco. E sabe-se bem que a doutrina dos antípodas não escandalizou menos os célebres geógrafos de uma época passada do que a doutrina de uma Trindade divina escandaliza, infelizmente, os sábios deístas dos tempos modernos.
À medida que nos familiarizarmos melhor com as coisas espirituais, em vez de desprezarmos as verdades do evangelho como totalmente incríveis, ficaremos verdadeiramente convencidos de que J. J. Rousseau fez sobre as doutrinas do cristianismo o mesmo tipo de juízo que se poderia esperar de um selvagem sobre algumas descobertas recentes da filosofia natural. As ciências apresentam cem dificuldades à mente dos jovens estudantes. Entrando por um caminho obscuro, chegam por fim a graus superiores de esclarecimento; mas, depois de todos os trabalhos incansáveis do professor mais erudito, o mais alto conhecimento que ele pode adquirir estará misturado com trevas e erro. Se, porém, os homens sábios não olham com desprezo para as ciências que habitualmente se ensinam entre nós, pelo fato de todas terem as suas dificuldades e de a maioria ser abstrusa demais para permitir uma investigação completa, que absurdo seria de nossa parte rejeitar, por essas razões insuficientes, aquela revelação que pode ser considerada a ciência das coisas celestiais!
Desprezar as doutrinas do evangelho porque são acompanhadas de certo grau de obscuridade é agir em completa contradição tanto com os ditames da filosofia quanto com os da revelação. Nenhum seguidor de J. J. Rousseau poderia nos censurar sem se censurar a si mesmo, se, raciocinando a partir dos princípios errôneos do seu mestre, fizéssemos as seguintes declarações: “A filosofia natural está cheia de coisas incríveis que nenhum homem sensato pode conceber nem admitir. Tenho artérias, dizem, que levam o meu sangue, com uma pulsação sensível, do coração às extremidades do corpo; e veias que, sem pulsação alguma, reconduzem esse sangue ao coração. Mas, como a união das artérias e das veias é para mim um mistério inconcebível, não posso admitir a opinião geralmente aceita sobre a circulação do sangue. Vejo que a agulha da bússola se volta perpetuamente para o polo, e observei que o ímã lhe comunica essa disposição; mas, como não se pode determinar como tudo isso se produz, considero todas as viagens de Anson e de Cook, que dizem ter sido feitas por meio da bússola, exatamente como os incrédulos costumam considerar o evangelho. Não aumentarei mais o número daqueles idiotas que passam sem pensar por uma ponte sem conhecer perfeitamente o projeto segundo o qual foi construída, e que vulgarmente confiam nos seus relógios para regular o tempo sem serem versados a fundo no mecanismo dos relógios. Nunca mais me deixarei persuadir a tomar um preparado medicinal enquanto não tiver penetrado nos mistérios mais profundos da medicina e da química. Em suma, resolvo não comer nem beber, não semear os meus campos nem olhar para o sol, enquanto não for capaz de compreender perfeitamente tudo o que há de misterioso na vegetação, na luz e na digestão.” Se as declarações acima poderiam razoavelmente ser tidas como sinais evidentes de um juízo fraco e pueril, a seguinte afirmação merece, sem dúvida, ser considerada do mesmo ponto de vista: “Admito que a ciência da física tem os seus mistérios insondáveis; mas, como filósofo de primeira linha, insisto em que nada de natureza misteriosa seja tolerado na religião, essa profunda ciência metafísica que tem por objetos o Pai dos espíritos, a relação em que esses espíritos estão para com o seu Pai incompreensível, as suas propriedades, a sua luz, o seu alimento, o seu crescimento, as suas enfermidades e os seus remédios, a sua degeneração e a sua perfeição.” Vocês, que tanto desejam ser saudados como amantes da sabedoria, se tal é o absurdo das suas objeções comuns contra o evangelho de Deus, nosso Salvador, que pobres pretensões vocês têm ao alardeado nome de filósofos!
Esta resposta pode ser apoiada pelas seguintes observações.
No mundo presente fazemos uma espécie de aprendizado espiritual da “verdade segundo a piedade” (Tt 1.1); e não é costume revelar às pressas os segredos de uma arte aos que há pouco se comprometeram com algum ofício. Esse privilégio fica justamente reservado aos que, pelo empenho e pela obediência, mereceram tão valioso testemunho da aprovação do seu mestre (veja Jo 14.21).
A impossibilidade física de descobrir, no presente, certas verdades obscuras forma o véu que as oculta eficazmente da nossa vista. Para formar um juízo perfeito do sol material, é preciso, antes de tudo, examiná-lo de perto; mas isso não é possível com corpos de constituição semelhante à nossa. O mesmo se pode dizer do Pai das luzes. Deus, como Sol espiritual, ilumina já agora a alma dos justos; mas, enquanto permanecem presos em tabernáculos de barro, a sua visão da glória incomparável de Deus é necessariamente indistinta, visto que só podem vê-lo “como num espelho, de forma obscura” (1Co 13.12). Por isso argumentamos com São Paulo que, como as coisas espirituais se discernem espiritualmente, o homem natural nunca pode compreendê-las e abraçá-las de verdade, senão na medida em que se torna espiritual pela regeneração.
O sábio Autor da nossa existência não nos inicia de imediato nos mistérios que se escondem sob muitas das nossas doutrinas, pela mesma razão que leva um matemático a ocultar as partes mais abstrusas da sua ciência aos alunos menos inteligentes. Se um preceptor pretendesse familiarizar crianças com todas as dificuldades da álgebra antes que tivessem passado pelas primeiras regras da aritmética, tal tentativa seria com razão tida por ridícula e vã. E não é igualmente absurdo esperar que os mistérios mais profundos do evangelho nos sejam abertos antes de termos digerido como convém as suas verdades introdutórias, ou atendido devidamente aos seus preceitos mais elementares?
O Todo-Poderoso nunca fará uma obra inútil nem oferecerá uma revelação fora de tempo. Para a prática de uma piedade sólida, de modo nenhum é necessário que nos seja permitido sondar a profundidade de todo mistério espiritual. Basta que as verdades fundamentais sejam reveladas com clareza suficiente para produzir em nós aquela fé que é a mãe do amor. Quando o evangelho nos propôs as verdades que dão origem a essa fé humilde e nos apresentou os motivos que evidentemente conduzem ao amor mais desinteressado, então nos forneceu tudo de que precisamos para desenvolver a nossa gloriosa salvação. Dos seguidores de Cristo se exige que andem nos passos do seu Mestre, e não que especulem profundamente sobre as coisas secretas do seu reino invisível.
Se um conhecimento claro do lado misterioso das nossas doutrinas não é mais necessário ao homem no seu estado presente do que o conhecimento de tudo o que diz respeito à arte da impressão é necessário a uma criança que estuda o alfabeto, por que, então, nos queixamos com irritação dos escritores sagrados por não terem lançado luz suficiente sobre alguns pontos particulares para satisfazer uma curiosidade desmedida? Os nossos escrúpulos a esse respeito deveriam ser silenciados pelas declarações constantes desses mesmos escritores: que o tempo da perfeição ainda não chegou; que eles próprios conheciam apenas em parte os mistérios do reino; e que a linguagem dos mortais não é adequada à sublimidade das coisas divinas. O mar tem abismos insondáveis e uma extensão desconhecida dos navegadores mais experientes; mas, apesar de toda essa incerteza, o comerciante fica perfeitamente satisfeito se puder deslizar com segurança pela sua superfície até o porto a que se destina.
Se estamos aqui num estado de prova, é razoável que o nosso entendimento, assim como a nossa vontade, seja posto à prova. Mas como há de o Todo-Poderoso provar a presunção ou a desconfiança do nosso entendimento? Certamente nenhum método mais feliz poderia ser adotado do que o de nos apontar verdades em parte manifestas e em parte ocultas, para que as investiguemos com diligência, se houver possibilidade de compreendê-las, ou, se estiverem acima do maior alcance das nossas faculdades, esperemos com paciência uma revelação futura delas.
Adquirir e manifestar disposições de natureza verdadeiramente divina só é possível sob uma economia religiosa cujas doutrinas sejam em certo grau misteriosas e cuja moral tenha algo de penoso para a natureza humana. Por que, então, os que pretendem ser mais sábios do que os seus vizinhos se escandalizam universalmente com tal religião? Se um véu misterioso cobre as operações da natureza e as obras da Providência, por que haveríamos de esperar que as operações mais maravilhosas da graça fossem abertas sem reserva a todos os olhos? A filosofia, supõe-se, não ousará destruir tão loucamente as regras da analogia. A humildade não é menos necessária à perfeição do nosso entendimento do que a sagacidade e a penetração; por isso Deus se agrada de pôr à prova a nossa humildade. E o faz descobrindo-nos tanto da verdade quanto baste para que a reconheçamos ao primeiro aparecer, permitindo ao mesmo tempo que os objetos da fé sejam cercados de dificuldades suficientes para deixar espaço ao exercício daquela humilde confiança na sua veracidade e daquela verdadeira pobreza de espírito que os filósofos se comprazem em apresentar como justos objetos de zombaria. O conhecimento sólido, porém, e a humildade sem fingimento andarão sempre juntos. Daí aquela memorável confissão de Sócrates: “Tudo o que sei é que nada sei.” E daí aquela notável declaração de São Paulo: “Se alguém julga conhecer alguma coisa, ainda não conhece como deveria conhecer.”
Nada pode ter maior tendência a manter o homem distante de Deus do que aquela arrogante presunção de que os modernos livres-pensadores costumam estar inflados. Essa disposição infeliz precisa ser inteiramente vencida antes que possamos chegar à fonte da inteligência pura (Tg 1.5). E, para isso, o Todo-Poderoso permite que o nosso entendimento seja embaraçado e confundido até ser constrangido a curvar-se diante da sua sabedoria suprema, reconhecendo a própria fraqueza. Mas é sempre com a maior dificuldade, e só depois de experimentados mil expedientes inúteis, que a natureza humana pode ser forçada a esse estado de rebaixamento de si mesma. Aqui Sócrates e São Paulo podem ser vistos como felizes companheiros, experimentando em comum aquela mansidão submissa e aquela profunda humildade que tanto aterrorizam muitos que professam a sabedoria. E é bem razoável que a piedade de um e a filosofia do outro se tenham assentado sobre a base dessas virtudes raras, que formavam o fundamento destas palavras de Cristo ao seu Pai: “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11.25).
Convém-nos tanto mais moderar os ímpetos de uma curiosidade impaciente, quanto às verdades de natureza misteriosa, porque o próprio Cristo nos deu exemplo da obediência devida a este preceito apostólico: “Que ninguém pense de si mesmo além do que convém. Pelo contrário, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um” (Rm 12.3). Este Salvador condescendente contentou-se, como Filho do Homem, em permanecer na humilde ignorância de que falamos. Se, para satisfazer a sua curiosidade quanto ao dia do juízo, ele tivesse procurado explorar os conselhos secretos do Todo-Poderoso, não há dúvida de que o seu Pai gracioso o teria admitido naquele santuário impenetrável. Mas ele preferiu deixar entre os seus seguidores um exemplo do mais perfeito respeito e da mais perfeita submissão à vontade desse Pai.
O que São Paulo disse a respeito das heresias pode com propriedade aplicar-se à obscuridade que acompanha as doutrinas do evangelho: “É necessário que haja heresias entre vocês, para que também os aprovados se tornem conhecidos” (1Co 11.19) [N. do T.: a NAA traz “partidos” em lugar de “heresias”]. O sr. de Voltaire, que não via utilidade alguma na prova aqui mencionada pelo apóstolo, costumava censurar a revelação porque as doutrinas que ela propõe não admitem uma evidência tão incontestável quanto a dos problemas matemáticos. Não considerava que linhas, círculos e triângulos, caindo imediatamente sob os sentidos, são objetos de investigação especialmente adequados ao homem natural. Não se lembrava de que muitas das demonstrações de Euclides são tão incompreensíveis para a maior parte da humanidade quanto os mistérios da nossa santa religião são incompreensíveis para a generalidade dos filósofos. E, por fim, não percebia que, se todos os homens se gabassem da sua habilidade em matemática e estivessem tão interessados nas proporções de círculos, quadrados e triângulos quanto nas relações que existem entre o homem caído e um Deus incompreensível, surgiriam entre matemáticos ignorantes tantas disputas acaloradas quantas surgem continuamente entre cristãos mal instruídos.
A justeza destas observações ficará mais evidente se considerarmos a importância daquela virtude que, na linguagem da Escritura, se chama “a obediência da fé” (Rm 16.26). O homem deixou-se seduzir, no princípio, pela esperança de efeitos maravilhosos que seriam produzidos pelo fruto de uma árvore misteriosa, fundando a sua frágil esperança na simples declaração do tentador. Deus, para humilhar a alma, se agrada de nos restaurar pela esperança de efeitos poderosos que serão produzidos pelas verdades de uma revelação misteriosa, esperança doce cuja única base é a simples declaração do Deus da verdade. E é, sem dúvida, razoável em todos os aspectos que a causa da nossa restauração seja assim diretamente oposta à causa da nossa queda. A obediência que não encontra dificuldades nunca pode ser considerada uma prova razoável da nossa fidelidade a Deus. Se ele nos tivesse simplesmente ordenado crer que “o todo é maior do que a parte”, ou que “dois e dois são quatro”, nesse caso não haveria espaço para uma distribuição razoável de recompensas e castigos. A Divindade não poderia ser desobedecida, pois não podemos recusar o nosso assentimento a essas verdades evidentes, assim como não podemos negar a existência do sol enquanto nos alegramos no seu esplendor do meio-dia. Parece, portanto, perfeitamente necessário que toda verdade proposta à fé do homem no seu estado de prova tenha um lado obscuro além de um lado luminoso, para que deixe lugar à deliberação madura e, por consequência, ao mérito ou demérito dos que são chamados à “obediência da fé”.
Desejar uma revelação sem obscuridade alguma é desejar um dia sem noite, um verão sem inverno, um céu sem nuvem. E o que ganharíamos com tal troca? Ou antes, o que não perderíamos, se aquelas obscuridades intencionais que ocultam algumas partes da verdade celestial fossem tão necessárias ao homem na sua situação presente quanto são benéficas à terra as nuvens que muitas vezes desfiguram a face dos céus? A fé que não é acompanhada de nada misterioso não merece o nome de fé, assim como a tranquilidade de um homem que nunca esteve diante do perigo não merece o nome de bravura. Uma palavra de nosso Senhor a um dos seus discípulos que duvidavam basta para lançar a luz mais convincente sobre este assunto: “Tomé”, disse ele, “você creu porque me viu”; mas que recompensa ou louvor pode ser devido a tal fé? “Bem-aventurados são os que não viram e creram” (Jo 20.29).
Para concluir: que ocasião haveria para o exercício da sabedoria ou da virtude, se o único bom caminho nos fosse apresentado tão claramente que seria difícil escolher qualquer outro? Ou para que bom fim serviria a verdadeira filosofia, que não tem outro uso senão o de nos ensinar a regular os nossos princípios e governar as nossas ações de um modo mais adequado à perfeição da nossa natureza do que é costume entre os que são guiados pelo preconceito e pela paixão?
De todas estas observações se pode com justiça concluir que insistir em ter doutrinas religiosas sem obscuridade e uma revelação sem mistério é destruir o propósito do Ser Supremo, que nos colocou aqui num estado de prova. É confundir a meta com a corrida, o combate com o triunfo, a terra com o céu. Mais ainda: é confundir a criatura com o Criador. O que é finito jamais deve esperar compreender as alturas e as profundezas do infinito. Os próprios arcanjos, embora dotados de graus inconcebíveis de sabedoria e pureza, encontrarão continuamente abismos insondáveis na natureza divina. E, se é assim, não é abjurar o bom senso, assim como a revelação, dar as costas ao templo da verdade porque nele se encontra um “Santo dos Santos”, onde os profanos nunca têm permissão de entrar, e cuja mobília nem mesmo os verdadeiros adoradores podem explicar com clareza nem compreender plenamente?
Em resposta à grande objeção dos filósofos contra as doutrinas do evangelho, demonstra-se que os benefícios da redenção se estendem, em diferentes graus, a toda a humanidade, em todas as épocas do mundo
Assim como os raciocinadores sofistas tinham cem objeções a propor contra a doutrina de Sócrates, que era um verdadeiro filósofo, assim também os filósofos desta época se ocupam diligentemente em forjar objeções contra as doutrinas daquele evangelho que a Sabedoria infalível anunciou ao mundo. Para determinar se essas objeções são ou não justas e irrespondíveis, consideraremos aqui aquela que parece pesar mais na balança daqueles dois companheiros de erro, o sr. de Voltaire e J. J. Rousseau. “Se a sua doutrina da redenção”, dizem eles, “é realmente tão importante quanto vocês afirmam, por que foi pregada apenas nestes últimos dezoito séculos? Se era de tanta importância para a humanidade, Deus sem dúvida a teria publicado mais cedo e de modo mais universal.”1
Resposta. A doutrina da redenção não foi necessária à humanidade desde o princípio, pois houve um tempo em que o homem, ainda inocente, não tinha mais necessidade de um Redentor do que uma pessoa sadia tem necessidade de médico. Nesse tempo a religião natural era adequada ao estado do homem, e as doutrinas do deísmo eram o alimento espiritual da sua alma. Mas, assim como o remédio não é menos necessário do que o alimento a uma pessoa doente, assim também o homem caído tem necessidade do evangelho, além da religião natural.
E, assim como um alimento forte seria uma espécie de veneno para um homem enfraquecido por uma febre violenta, assim também os princípios do teísmo, ministrados sozinhos a um pecador que arde com os fervores desordenados do orgulho, hão de ser inevitavelmente fatais à saúde da sua alma. Assim a presunção de alguns filósofos é aumentada pelas doutrinas do deísmo, como a febre de um doente debilitado é redobrada pelos mesmos tônicos que aumentariam as forças de uma pessoa vigorosa. E isso pode servir de prova de que a religião natural do homem sem pecado é tão pouco adequada ao homem no seu estado corrompido quanto a doce familiaridade de uma criança afetuosa convém ao caráter de um filho ousado e desobediente.
É preciso observar aqui que há duas espécies de deísmo: o do pecador humilde, que ainda não conhece o evangelho, e o do raciocinador presunçoso, que o rejeita com desprezo. O centurião Cornélio, que vivia na prática da piedade antes de conhecer perfeitamente a Cristo, e o publicano arrependido mencionado por nosso Senhor eram deístas da primeira classe, e tais que bem podiam ser estimados como irmãos mais novos dos cristãos. A segunda classe compõe-se daqueles teístas que pisam a revelação sob os pés e que podem propriamente ser chamados os fariseus presunçosos dos nossos dias. É o deísmo altivo desses homens que uma falsa filosofia gostaria de pôr no lugar do evangelho. O judicioso autor do Novo Dicionário Teológico caracterizou essas duas espécies de deísmo com uma exatidão que lhe é peculiar. “O deísmo”, diz ele, “estava outrora no caminho que vai do ateísmo ao cristianismo; mas hoje se encontra habitualmente na estrada que vai do cristianismo ao ateísmo.”
Afirmar que a doutrina da redenção foi anunciada há não mais de dezoito séculos é supor que não pode haver nenhum sinal de luz antes que o sol tenha subido acima do horizonte. Assim que a obra da redenção se tornou necessária, naquele mesmo dia foi anunciada ao homem. Quando os nossos primeiros pais receberam do seu Juiz misericordioso a sentença que os condenava à miséria e à morte, ele lhes deu imediatamente a promessa de que, em algum dia futuro, nasceria da mulher um reparador dos seus males, que “feriria a cabeça” da serpente, isto é, que esmagaria de uma vez todo o poder do tentador e o orgulho do pecador. Em consequência dessa aliança graciosa, que foi de fato a primeira promulgação do evangelho, Deus implantou no homem um princípio interior de redenção, uma semente de graça regeneradora, que haveria de brotar, por fim, para a vida eterna. Ora, esse princípio não era nada menos do que um raio daquele Verbo vivo que mais tarde haveria de unir-se visivelmente à nossa natureza, a fim de levantar o homem da sua queda vergonhosa e, por fim, obter para ele um estado superior àquele de que originalmente gozava. Nada pode ser mais explícito sobre este ponto do que a seguinte declaração de São João: “A vida estava nele [no Verbo vivo] e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas [em geral] não a compreenderam. [Esta era, porém,] a verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina [mais ou menos] toda a humanidade” (Jo 1.4-5, 9) [N. do T.: no versículo 5, a NAA traz “e as trevas não prevaleceram contra ela”]. Quando, portanto, um livre-pensador vaidoso exclama com desdém: “Se a doutrina da redenção fosse necessária, teria sido publicada nas primeiras eras do mundo”, essa objeção deveria servir de sinal manifesto da sua ignorância neste assunto, visto que essa importante doutrina foi misericordiosamente anunciada ao primeiríssimo transgressor. Se essa doutrina foi mais tarde corrompida pela tradição; se o homem rebelde começou a exaltar-se como o seu próprio salvador; ou se, por impaciência, levantou falsos mediadores, em vez de esperar com paciência o cumprimento da promessa de Jeová, tudo isso prova evidentemente a sua extrema necessidade de um Redentor. Em suma, se a maior parte da nação judaica rejeitou este divino Salvador nos dias da sua manifestação exterior, e se deístas preconceituosos continuam ainda a rejeitar o auxílio que ele oferece, tudo o que essa obstinação implacável pode provar é a grandeza da sua culpa e a profundidade da sua depravação, assim como a conduta de um doente que insulta o seu médico só serve para demonstrar o excesso do seu delírio.
Podem-se apresentar aqui várias razões que talvez tenham levado o Pai das misericórdias a adiar por um período de quatro mil anos a manifestação exterior do Redentor prometido.
1. É provável que, assim como se vê que tudo opera gradualmente no mundo natural, a mesma ordem tenha sido estabelecida no mundo moral. Mesmo depois da manifestação exterior de Cristo, a influência do seu poder redentor só gradualmente se revelou neste mundo ainda envolto em trevas. Ele mesmo comparou o evangelho a um pouco de fermento que se espalha lentamente por uma grande massa de farinha, e a uma pequena semente da qual se produz uma planta magnífica. A isso podemos acrescentar que um período de tempo que a nós parece longo e enfadonho parece inteiramente diferente aos olhos do eterno EU SOU, diante de quem mil anos não são mais do que um dia passageiro.
2. Se, imediatamente depois de cometido o pecado, Deus tivesse enviado o seu Filho ao mundo para nos levantar da queda, antes que tivéssemos experimentado os tristes efeitos dessa queda, tal ato apressado, em vez de manifestar as perfeições da Divindade, teria estendido um véu de obscuridade entre nós e elas. A misericórdia divina revelada em Jesus Cristo poderia então ter-nos parecido tão insignificante quanto parece ao deísta arrogante que, apesar dos crimes com que o mundo tem sido poluído por quase seis mil anos, e apesar daqueles que ele mesmo acrescentou a essa soma prodigiosa, ainda tem a audácia de afirmar que não há necessidade de um Redentor, que o homem é bom no seu estado presente e que pode conduzir-se honradamente nele sem o auxílio da graça regeneradora. Daí se vê que a manifestação exterior do Messias foi sabiamente adiada para um tempo muito distante do começo da queda.
3. Enquanto a manifestação visível de Jesus era adiada, todas as coisas eram devidamente preparadas para tão grande acontecimento. E, nesse meio-tempo, a semente da regeneração, recebida pelo homem depois que Deus pronunciou a primeira promessa evangélica, era tão suficiente para salvar todo pecador arrependido quanto o alvorecer é suficiente para guiar todo viajante extraviado.
Isso merece uma explicação. O primeiro homem, a quem foi feita a promessa da redenção, continha em si toda a sua posteridade; e essa promessa, maravilhosamente poderosa, por ser “a palavra de Deus” (Hb 4.12), teve um efeito indescritível sobre todo o gênero humano, implantando no homem uma semente de regeneração, um Logos, uma razão, uma consciência, uma luz, em suma, um bom princípio, que em todo aquele que busca sinceramente a verdade tem sido nutrido pela graça de Deus e apoiado pelas tradições piedosas dos patriarcas, profetas, apóstolos, evangelistas ou verdadeiros filósofos. Infelizes são os que, sufocando em si mesmos todo sentimento de graça, trataram esse princípio interior como os judeus outrora trataram o seu Senhor condescendente, e como os pecadores obstinados continuam ainda a tratar o evangelho pregado. Se esses não são salvos, não é por falta de um Salvador oferecido, mas porque fecharam voluntariamente os olhos ao crepúsculo, ao primeiro alvorecer ou ao esplendor do meio-dia do dia do evangelho.
Nada pode ser mais insensato do que a objeção a que agora respondemos. Argumentar que Deus seria injusto se, tendo dado um Salvador ao mundo, não revelasse esse Salvador em grau igual a toda a humanidade é argumentar que Deus é injusto porque, tendo dado um sol à terra, não determinou que esse sol iluminasse e aquecesse igualmente todas as partes do globo. Além disso, insinuar que Cristo não pode ser propriamente considerado o Salvador da humanidade porque multidões inumeráveis de homens nem sequer conhecem o seu nome é insinuar que o sol é totalmente inútil para os surdos, porque nunca ouviram descrever as propriedades do sol, e para os cegos, porque nunca viram os seus raios animadores. Por fim, concluir que o evangelho é falso porque não se espalhou rapidamente pelo mundo inteiro, ou porque não se vê que opere de modo mais rápido as felizes mudanças que dizem que ele produz, argumentar assim é raciocinar de modo tão inconsistente quanto um homem que dissesse: “A árvore que produz a casca-dos-jesuítas [N. do T.: a quina, remédio contra a febre] é uma árvore insignificante e inútil, pois: (1) não cresce em todos os países; (2) nem sempre foi conhecida; (3) há pessoas no país onde ela cresce que não a consideram coisa extraordinária; e (4) muitos que aparentemente fizeram uma prova adequada desse remédio não encontraram nele os efeitos salutares tão geralmente alardeados.”
Voltando os argumentos dos nossos filósofos contra o seu próprio sistema, afirmamos que o Messias foi manifestado num tempo e num lugar especialmente adequados a tão grande acontecimento. Quanto ao tempo, ele viveu e morreu quando a espécie humana tinha chegado ao mais alto grau de refinamento e de saber. Se tivesse aparecido dois ou três mil anos antes, teria visitado o mundo no seu estado de infância, quando a ignorância e a barbárie reinavam entre as nações; mas, nos dias de Augusto e de Tibério, pode-se dizer que a humanidade tinha alcançado o mais alto grau de maturidade quanto ao conhecimento e à civilização. Ora, assim como é necessário que aquele que dá testemunho de algum acontecimento memorável seja um homem e não uma criança, assim também era necessário que Cristo aparecesse no período mais polido do mundo, como o único Mediador entre Deus e os homens.
Os deístas às vezes nos dizem que a força da evidência histórica diminui muito com o passar do tempo, assim como uma vela colocada longe demais perde muito do seu brilho. Se Cristo, então, se tivesse oferecido em resgate por todos muitas eras antes do que a Sabedoria infalível tinha determinado, os incrédulos poderiam alegar que a história de um acontecimento miraculoso, ocorrido num tempo tão remoto, muito provavelmente teria sido corrompida por uma tradição incerta e se tornado indigna de crédito.
Por outro lado, se o cumprimento da promessa tivesse sido adiado alguns milhares de anos mais, a fé e a paciência dos crentes teriam sido submetidas a uma prova incompatível com a fraqueza humana. E os piedosos poderiam ter dito da primeira vinda de Cristo o que há muito se diz com escárnio da segunda: “Onde está a promessa da sua vinda? Porque, desde que os pais morreram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação” (2Pe 3.4).
O que aqui se observa quanto à época em que o Messias foi morto não é menos verdadeiro quanto à estação, ao dia e à hora. Ele se ofereceu em sacrifício pelos pecados do povo em pleno dia, na solene festa da Páscoa, e naquela estação do ano que naturalmente convidava os judeus dispersos a visitar a cidade santa. O lugar, como o tempo, era especialmente adequado a tal acontecimento: um país onde a promessa da vinda de Cristo tinha sido repetida muitas vezes. Além disso, ele se fez obediente até a morte no tempo predito pelos profetas; diante de um povo que possuía os oráculos de Deus; sob os olhos do sumo sacerdote; diante do rei Herodes e do grande conselho da nação; diante de Pilatos, que era lugar-tenente do maior príncipe da terra; às portas de Jerusalém, no centro da Judeia e quase no centro do mundo então conhecido. Assim, a manifestação exterior do nosso glorioso Redentor pode ser comparada a um sol cujo nascer foi precedido por uma aurora que se abriu benigna sobre os primeiros habitantes da terra, e cujo ocaso é seguido por um belo crepúsculo, que deve necessariamente continuar até que ele suba de novo acima do nosso horizonte, para nunca mais se pôr. É desse ponto de vista que as Escrituras representam uniformemente o sacrifício de Cristo. São Paulo declara expressamente que, “com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados”, isto é, todos aqueles que, em qualquer nação, temem a Deus e fazem o que é justo (Hb 10.14; At 10.35). Argumentamos, portanto, com este apóstolo, que, “assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os seres humanos para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos para a justificação que dá vida” (Rm 5.18).
Destas observações concluímos: primeiro, que o evangelho tem sido anunciado com maior ou menor clareza desde o tempo em que um Redentor se tornou necessário ao homem. Segundo, que Jesus Cristo se manifestou abertamente no tempo mais próprio para tal revelação. Terceiro, que a obra da redenção é tão necessária à humanidade quanto o auxílio do remédio é necessário aos que lutam com alguma doença perigosa. Quarto, que um conhecimento explícito do Redentor e da sua salvação é tão desejável para os que se sentem arruinados pelo pecado quanto o conhecimento seguro de um médico que possui remédios soberanos é consolador para o doente que vê a sua vida em perigo iminente. Quinto, que, assim como crianças enfermas podem ser restabelecidas pelos remédios de um médico que lhes é totalmente desconhecido, assim também judeus, maometanos e pagãos, contanto que andem segundo a luz de que desfrutam, são sem dúvida salvos por Jesus Cristo, embora não tenham uma concepção clara dos meios assombrosos empregados para livrá-los da perdição. E, por último, que o grande argumento apresentado contra o evangelho pelo sr. de Voltaire e por J. J. Rousseau é muito mais especioso do que sólido.
Reflexões sobre o perigo a que se expõem os deístas modernos
Ao refutar a objeção dos moralistas superficiais proposta no capítulo anterior, talvez lhes tenhamos dado base para outra, igualmente especiosa e sólida.
Objeção. “Se se admite que em todas as épocas a salvação se estendeu a todos os verdadeiros adoradores de Deus, fossem judeus piedosos, como José, Ezequias e Josias; homens justos entre os gentios, como Melquisedeque e Aristides; ou filósofos pagãos que andaram no temor de Deus, como Pitágoras, Sócrates e Platão; e se esses homens virtuosos foram salvos sem subscrever as doutrinas do evangelho, por que não se permitiria aos deístas e aos filósofos modernos gozar da mesma salvação enquanto rejeitam essas doutrinas?”
Resposta. Há três grandes dispensações da graça. Sob a primeira deve ser colocada toda nação pagã e não esclarecida; os judeus, sob a segunda; e os cristãos, sob a terceira, que é uma dispensação muito mais perfeita do que qualquer das anteriores. Os seguidores de Maomé podem ser classificados com os judeus modernos, visto que são deístas da mesma ordem e igualmente se enganaram a respeito daquele grande Profeta que veio para a restauração de Israel.
Aqueles judeus, maometanos e pagãos que “temem a Deus e fazem o que é justo” são de fato salvos por Jesus Cristo. Cristo é a Verdade e a Luz; e esses adoradores sinceros, recebendo todos os raios de verdade com que são visitados, dão prova suficiente de que admirariam e adorariam com afeto o próprio Sol da justiça, se fossem removidas as névoas interpostas que o ocultam da sua vista. Mas é inteiramente diferente com aqueles que, contemplando esse Sol divino tal como se revela no evangelho, fecham deliberadamente os olhos para ele e levantam com desprezo uma nuvem de objeções para escondê-lo, se possível, da vista dos outros. Todo pagão virtuoso manifestou amor pela verdade, enquanto muitos dos nossos filósofos, no orgulho do seu coração, a rejeitam e desprezam. Os primeiros desenvolveram a sua salvação, embora favorecidos apenas com o tênue alvorecer de um dia evangélico; os segundos, cercados do esplendor do meio-dia desse dia, procuram ansiosamente os esconderijos sombrios da incerteza e do erro. Os primeiros foram salvos segundo aquela declaração apostólica: “Haverá glória, honra e paz a todo aquele que pratica o bem, ao [cristão e ao] judeu primeiro e também ao grego. Porque Deus não trata as pessoas com parcialidade” (Rm 2.10-11). E desse número foi o apóstolo Paulo, que “alcançou misericórdia” porque era perseguidor da verdade por ignorância, vivendo ao mesmo tempo “com a consciência limpa diante de Deus” (1Tm 1.13). Nem se pode duvidar de que a mesma graça com que São Paulo foi visitado nessas circunstâncias iluminará e purificará, em vários graus, toda alma que se assemelhe a ele em retidão e sinceridade. Os segundos serão condenados em virtude destas declarações: “A condenação é esta: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más” (Jo 3.19). Deus dará “ira e indignação para os egoístas, que desobedecem à verdade”; “tribulação e angústia virão sobre todo aquele que faz o mal, ao [cristão e ao] judeu primeiro e também ao grego” (Rm 2.8-9).
Destas citações podemos inferir que, em várias proporções, a salvação dos pagãos virtuosos diferirá da salvação dos cristãos fiéis tanto quanto o brilho de uma ágata difere do de um diamante. “Muitas moradas” e diferentes graus de glória estão preparados “na casa de nosso Pai” (Jo 14.2). “Uma é a glória do sol; outra, a glória da lua; e outra, a das estrelas. Porque até entre estrela e estrela há diferenças de glória. Pois assim também é a ressurreição dos mortos”, quando Deus retribuirá a cada um segundo as suas obras (1Co 15.41-42).
Os graus mais altos de glória são reservados pelo justo Juiz de toda a terra aos mais fiéis dos seus servos. O honroso privilégio de assentar-se à direita de Cristo será conferido aos que andaram nas pegadas do seu Mestre pelas veredas mais estreitas e difíceis da submissão e da obediência. Por outro lado, Deus mostrará os efeitos mais terríveis da sua justa ira sobre aqueles que pisaram as maiores e mais frequentes ofertas da graça divina, segundo aquela exclamação do apóstolo: “Como escaparemos nós, se não levarmos a sério tão grande salvação?” (Hb 2.3); visto que desprezar assim obstinadamente os mais altos graus de glória que se podem alcançar sob o evangelho, e afrontar com ousadia as ameaças pronunciadas contra os que rejeitam esse evangelho, revela no coração uma fria indiferença à verdadeira virtude, junto com um soberano desprezo pelo seu divino Autor.
Assim como a verdadeira virtude, à semelhança de uma bela planta, cresce continuamente para um estado de maturidade, assim também a verdadeira filosofia aspira constantemente aos mais altos graus alcançáveis de sabedoria e de pureza. Se alguém despreza os meios que conduzem à perfeição da virtude, quando lhe são propostos, dá prova evidente de que não tem nem aquele instinto da virtude nem aquela verdadeira filosofia que não pode deixar de escolher o fim mais excelente, junto com os meios mais seguros de alcançá-lo. Que diriam os nossos filósofos de um homem que, dizendo aspirar às riquezas e sendo chamado a receber uma grande quantidade de ouro, a recusasse incoerentemente nestes termos: “Muitas pessoas foram bastante ricas com um pouco de dinheiro para não morrerem de fome, e não tenho vontade alguma de superá-las em fortuna!”? A objeção proposta neste capítulo funda-se num sofisma semelhante e equivale a um argumento igual: “Judeus e pagãos virtuosos receberam auxílio suficiente para garantir eficazmente a sua salvação, e não temos presunção bastante para desejar nenhuma vantagem extraordinária acima deles.”
É difícil formar uma ideia justa da vaidade daqueles moralistas alardeados que desprezam todo auxílio oferecido pelo evangelho porque alguns pagãos, sem esse auxílio, foram aceitáveis a Deus. Podemos compará-la à suposta presunção de um desprezível oficial subalterno que, recebendo do seu príncipe uma patente mais honrosa, a rejeitasse, exclamando: “A patente é falsa, e os que a apresentam não passam de enganadores. Não tenho nenhuma ânsia de deixar o meu posto atual. Não aspiro a honras maiores do que as que possuo. Muitos milhares serviram fielmente Sua Majestade na condição de subalternos; mais ainda, simples soldados receberam testemunhos da sua real aprovação; e por que os meus serviços haveriam de lhe dar menos satisfação do que os deles?” Se um cabo, na minha presença, desculpasse assim a sua recusa da bondade que um monarca lhe oferecia, eu suporia ou que ele não tinha uma ideia justa da honra que se lhe destinava, ou que era impedido de aceitar essa honra por motivos indignos demais para serem confessados. Mas essa desculpa seria tão insolente quanto lamentável, se os termos da patente fossem estes: “Ou sirva com fidelidade o seu príncipe no posto a que ele o eleva, ou espere ser tratado com a máxima severidade.”
Ora, tal é o caso de todos os que rejeitam obstinadamente o evangelho e pisam com perseverança as mais ricas ofertas da graça imerecida. Ou rejeitam as verdades da revelação por altivez de espírito, ou são impedidos de abraçá-las pela satisfação secreta de algum apetite desordenado. Vejam aqui o fundamento daquelas memoráveis declarações do nosso bendito Senhor: “Preguem o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado” (Mc 16.15-16). “Quem se mantém rebelde contra o Filho [depois de ouvi-lo anunciado segundo o evangelho] não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus.” Esse “já está condenado”, “pois todo aquele que pratica o mal detesta a luz [do evangelho] e não se aproxima da luz, para que as suas obras não sejam reprovadas” (Jo 3.36, 18, 20).
Por este princípio, tão conforme à experiência quanto à sã razão, o evangelho só é rejeitado de modo absoluto pelos que são visivelmente corrompidos, como Pilatos e Félix, ou secretamente depravados, como Judas e Caifás. E foi a pessoas desse caráter que Cristo se dirigiu nestes termos: “Como podem crer, vocês que aceitam glória uns dos outros e não procuram a glória que vem do Deus único?” (Jo 5.44). “Se alguém quiser fazer a vontade de Deus [e seguir a luz que lhe é comunicada], conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por mim mesmo” (Jo 7.17). Por isso, quando vemos alguns que foram consagrados a Cristo pelo batismo se afastarem do estrado dos pés do seu Mestre para as escolas da filosofia, ou ao menos não fazerem progresso algum na verdadeira santidade, podemos estar certos de que o seu declínio é causado, ou o seu crescimento espiritual impedido, pela satisfação secreta de alguma inclinação viciosa. Esses moralistas filosofantes e esses discípulos mornos podem ser comparados ao fruto que cai antes de atingir a perfeição da sua espécie: examinem esse fruto, e vocês encontrarão, sob uma bela aparência, ou um verme destruidor ou uma podridão repugnante. Assim é o deísta apóstata sob as formas mais especiosas que possa assumir.
Quando J. J. Rousseau se exprimiu nestes termos: “Se Deus julga a fé pelas obras, então ser homem bom é ser verdadeiro crente”, não estava longe da verdade, contanto que por homem bom entendesse aquele que vive em temperança, justiça e temor de Deus, visto que todo homem em quem se descobrem essas virtudes tem certamente por princípio a verdadeira fé. Esse é um verdadeiro crente, segundo aquela economia da graça sob a qual Jó, Josias e Sócrates brilharam para a glória de Deus; homens que ou possuíam princípios de fé, ou cujas melhores ações não são mais dignas de admiração do que as dos nossos animais domésticos.
Esse escritor teve uma visão menos distinta da verdade quando acrescentou: “O verdadeiro cristão é o homem justo; os incrédulos são os maus”, visto que há homens justos que ainda não são cristãos, assim como há pessoas estudiosas que ainda não podem ser tidas por eruditos profundos. Além disso, há muitos que, como o centurião Cornélio, ainda não creem no evangelho porque nunca o ouviram explicar com precisão e fidelidade; e certamente esses não merecem ser chamados homens absolutamente injustos. A segunda proposição, “os incrédulos são os maus”, aproxima-se de fato mais da verdade; contudo é falsa, a não ser que o termo incrédulo seja tomado no sentido de alguém que obstinadamente descrê do evangelho, pois um homem bom, que recebe a primeira parte do Credo Apostólico, pode ainda, como Natanael e Nicodemos, ser tão fortemente retido por um preconceito involuntário a respeito das outras partes do mesmo credo, que hesite por muito tempo entre a verdade e o erro. É por proposições tão vagas e insidiosas que os nossos filósofos se iludem a si mesmos e enganam os seus discípulos.
“Mas”, replica J. J. Rousseau, “temos nós o poder de crer ou de não crer? Não saber argumentar bem é-nos imputado como crime? A consciência não nos diz o que devemos pensar, mas o que devemos fazer; não nos ensina a raciocinar bem, mas a agir bem.” E todas as faculdades do homem, exceto a consciência, devem ser consideradas inteiramente inúteis nesta matéria tão importante? Admitamos, porém, que uma pessoa má e altiva não tenha o poder de crer; ainda assim é muito necessário que ela tema a verdade, enquanto se entrega a ações ou inclinações manifestamente más. Assim, o ladrão que tem consciência do seu crime nunca consegue vencer o medo da justiça enquanto está disposto a continuar as suas práticas iníquas. Mas se, depois de fazer plena restituição, se tornar sinceramente reto, mantendo uma consciência sem ofensa diante de Deus e dos homens, não tremerá mais à ideia de juízes, tribunais ou execuções.
Se se perguntar que vício secreto não permitia a um homem tão honesto como J. J. Rousseau abraçar o evangelho, sem investigar as anedotas da sua vida, podemos nos contentar com a revelação que ele mesmo fez do seu coração numa única frase: “Que pode haver de mais arrebatador para uma alma nobre do que o orgulho da virtude!” Tal foi o orgulho que o fez presumir vãmente que tinha poder suficiente para vencer a si mesmo sem invocar o auxílio de Deus, e que o encorajou a afirmar que as doutrinas do evangelho eram tais que “nenhum homem sensato poderia conceber nem admitir”. Tal foi o “orgulho virtuoso” que não permitiu aos fariseus receber as verdades humilhantes do evangelho, e que encheu o coração de Caifás de inveja e de ódio contra Cristo.
Não há espécie de orgulho mais insolente do que aquela que dá origem à seguinte linguagem: “Afirma-se que ‘Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna’. Essa notícia, seja verdadeira ou falsa, é muito bem recebida por muitos; mas, de minha parte, declaro abertamente que rejeito com desprezo a ideia de semelhante favor. Leio com atenção os escritos que procuram desvendar os mistérios da natureza, mas resolvo nunca folhear os autores que tentam em vão estabelecer a verdade do evangelho. Esse assunto, embora tenha ocupado os pensamentos e as penas de estudiosos curiosos durante estes mil e setecentos anos, sempre o considerarei indigno da minha atenção. Deixo-o ao vulgo, que facilmente se persuade da sua importância. As minhas virtudes bastam para expiar os meus crimes, e nelas confiarei resolutamente, como meus únicos mediadores diante de Deus.” Se esta é implicitamente a linguagem de todo homem que rejeita obstinadamente as doutrinas do evangelho, que alturas de presunção e que profundezas de depravação devem estar abertas, na alma desses homens, aos olhos do Onisciente! A razão e a revelação concordam em condená-los. Vejam o fundamento da sua sentença: “Todo o que se exalta será humilhado; e o que se humilha será exaltado”, porque “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Lc 14.11; 1Pe 5.5).
A própria razão basta para descobrir que, diante do Ser Supremo, nada pode parecer mais detestável do que o orgulho de uma criatura degenerada e ingrata. E, se é assim, os deístas do tempo de Sócrates devem ter sido muito menos culpados do que os dos nossos dias. Aqueles, conscientes da incerteza que os cercava, usavam com assiduidade incansável todos os auxílios que podiam obter na busca da verdade. Estes, confiando na própria suficiência, decidem contra doutrinas da maior importância sem considerar com imparcialidade as provas apresentadas em seu favor. Aqueles, examinando cuidadosamente todo sistema de moral proposto à sua deliberação, mostravam uma franqueza e uma largueza de espírito dignas dos que ansiosamente buscavam a Deus “se, porventura, tateando, o possam achar” (At 17.27). Estes, condenando a revelação sem atender com calma aos argumentos dos seus defensores, manifestam um grau de preconceito que seria imperdoável num juiz, mas que se torna execrável num réu a quem as razões mais fortes pressionam a buscar a verdade.
Platão, no sexto livro da sua República, apresenta o seu mestre descrevendo as disposições necessárias a um homem virtuoso. “Comecemos”, diz Sócrates, “por enumerar as qualidades necessárias àquele que um dia quiser tornar-se homem honesto e verdadeiro filósofo. A primeira qualidade é o amor à verdade, que ele deve buscar em todas as coisas e por todos os meios, pois a verdadeira filosofia é absolutamente incompatível com o espírito de engano. Quem deseja sinceramente obter a sabedoria não pode limitar-se às coisas daqui de baixo, das quais só pode adquirir um conhecimento incerto. Ele nasceu para a verdade e tende para ela com um ardor que nada é capaz de conter.” Vocês, que opõem a filosofia à revelação e rejeitam sem investigar a fundo as doutrinas do evangelho, pode-se dizer que mostram um apego à verdade tão sincero quanto o de Sócrates? Não consideram antes como amor excessivo à verdade, ou até como uma perigosa espécie de entusiasmo, aquilo que os pagãos mais sábios consideravam a primeira disposição exigida de um homem honesto?
Platão e o seu mestre, que reconheciam escrupulosamente a verdade onde quer que a descobrissem, estavam certamente num estado de aceitação diante de Deus, sem um conhecimento explícito de Jesus Cristo; pois onde o Todo-Poderoso não espalhou, ali nunca esperará recolher; e onde espalhou apenas as primícias do evangelho, ali nunca exigirá aquele fruto precioso que espera ver produzido pelas verdades mais altas da revelação. Assim, o lavrador se contenta em colher apenas cevada num campo onde só se semeou cevada; mas se, depois de semear o mesmo campo com o trigo mais puro, ele produzisse apenas joio, com algumas espigas esparsas de cevada, o lavrador sem dúvida mostraria certo grau de surpresa e de desagrado ao ver a sua expectativa razoável tão estranhamente frustrada.
No Novo Testamento encontramos uma notável parábola a esse respeito, em que a humanidade é considerada como os servos da imensa casa de Deus. Nessa parábola, o Todo-Poderoso é representado reunindo os seus servos e confiando aos cuidados de cada um uma soma diferente, para ser empregada no interesse comum das partes contratantes. A um dos seus servos entrega cinco talentos; a outro, dois; e ao terceiro confia apenas um talento; mas de todos se exige que negociem de modo que os seus ganhos sejam proporcionais às diversas somas confiadas à sua fidelidade. Ora, se o cristão, com cinco talentos de conhecimento espiritual, não obtém vantagem alguma sobre o judeu, que recebeu apenas dois, não é evidente que agiu como servo infiel? Mais ainda, deve ser considerado mais inútil até do que o pagão que deixa o seu único talento sem render, pois, em meio a todos os seus ganhos insignificantes, escondeu preguiçosamente três talentos valiosos, enquanto o outro enterrou apenas um. Mas, se o primeiro e o último tirassem vantagens iguais dos privilégios desproporcionais que lhes foi permitido gozar, enquanto o último seria recebido como servo bom e fiel, o primeiro poderia com razão ser tratado com uma severidade incomum pelo seu Senhor ultrajado. Esta parábola pode nos ajudar a compreender que um filósofo que é chamado pelo batismo à perfeição evangélica, e todavia se contenta em praticar a moral de um pagão, não tem, na realidade, tanta virtude sólida quanto um deísta sincero criado no seio do paganismo.
O nosso progresso na moral, como o nosso avanço na ciência, deve ser avaliado considerando as circunstâncias em que estamos colocados e os privilégios de que gozamos. Uma peça dramática composta por uma criança ou por um negro poderia ser recebida com aplausos, quando com justiça seria vaiada e expulsa do palco se tivesse sido produzida por um Shakespeare ou um Corneille. Um viajante que manifesta admiração pela destreza com que os selvagens manejam um machado de pedra manifestaria igual espanto pela fraqueza dos seus compatriotas, se os visse lançar fora os seus machados de ferro e derrubar as suas árvores com instrumentos de sílex mal formados. Assim, depois de admirar os esforços bem-sucedidos de Sócrates, que tirou muitas verdades sagradas do caos do paganismo, que espanto é ver os filósofos modernos remendando um sistema confuso de moral deísta, para pô-lo no lugar das doutrinas mais sublimes e da moral mais pura do evangelho! Onde quer que se descubram tais raciocinadores retrógrados, os seus trabalhos insignificantes hão de ser universalmente deplorados pelos amantes da verdade. Mas, quando esses campeões de uma falsa sabedoria procuram enterrar sob as ruínas do cristianismo aquelas verdades importantes que os próprios pagãos descobriram outrora, é impossível contemplar os seus esforços ímpios sem sentir todo o calor de uma honesta indignação.
Concluiremos este Ensaio transcrevendo uma parte daquele antigo testemunho que Lactâncio deu ao poder das doutrinas que defendemos.
“Aquilo que muitos descobriram, com o auxílio da religião natural, ser o seu dever indispensável, mas que nunca puderam praticar eles mesmos nem ver exemplificado na conduta dos filósofos, tudo isso as sagradas doutrinas do evangelho nos ajudam a realizar, porque esse evangelho é a sabedoria na sua mais alta excelência. Como persuadirão os filósofos os outros, enquanto eles mesmos continuam num estado de perplexidade? Ou como reprimirão as paixões dos outros, enquanto, cedendo às suas próprias, confessam tacitamente que a natureza, apesar de todos os seus esforços, continua triunfante? Mas a experiência diária testemunha quão grande influência as ordenanças de Deus têm sobre o coração. Deem-me um homem colérico, maldizente, implacável; e, pelo poder do nosso evangelho, eu o devolverei a vocês manso como um cordeiro. Deem-me um avarento, cuja ganância não lhe permite desfazer-se de nada; e eu o devolverei a vocês tão generoso que dará o seu dinheiro aos punhados. Tragam-me um homem que treme diante da aproximação da dor e da morte; em breve olhará com desprezo para as cruzes, as fogueiras e até o próprio touro de Fálaris. Apresentem-me um devasso, um adúltero, um homem inteiramente perdido para os bons costumes; logo o verão exemplo de sobriedade, retidão e continência. Deem-me um homem cruel e sanguinário; à sua disposição feroz sucederá de repente uma verdadeira clemência. Deem-me um homem injusto, um estúpido, um pecador extravagante; logo o verão escrupulosamente justo, verdadeiramente sábio e levando uma vida de inocência. Tal é o poder da sabedoria celestial, que, tão logo é derramada no coração, expulsa de um só golpe a loucura, mãe do pecado. Para alcançar esses fins inestimáveis, ninguém precisa pagar salários a mestres de filosofia nem passar noites inteiras meditando nas suas obras. Todo auxílio necessário é concedido sem demora, com facilidade e sem custo, contanto que não falte um ouvido atento e um coração desejoso de sabedoria. A fonte sagrada que apontamos é abundante, transbordante e aberta a todos; a luz celestial que anunciamos nasce indistintamente sobre todos os que abrem os olhos para contemplá-la.
“Que filósofo jamais fez tanto? Quem dentre eles é capaz de realizar tais maravilhas? Depois de passarem a vida no estudo da filosofia, vê-se que não tornaram melhores nem a si mesmos nem aos outros, quando a natureza lhes opõe alguma grande resistência. A sua sabedoria serve antes para encobrir do que para arrancar os seus vícios. Ao passo que as nossas instruções divinas [isto é, as doutrinas do evangelho] mudam o homem tão totalmente que vocês já não o reconheceriam como a mesma pessoa.” (Lactâncio, livro III, cap. 26.)
1. O sr. de Voltaire, no seu Dicionário Filosófico, ataca o cristianismo, sob o nome de maometismo, nestas palavras: “Se ela fosse necessária ao mundo, teria existido desde o princípio do mundo; teria existido em toda parte. A religião maometana, portanto, não pode ser essencialmente necessária ao homem.” J. J. Rousseau era perfeitamente da mesma opinião. “Nego”, diz esse escritor no seu Emílio, “a necessidade de receber a revelação, porque essa pretensa obrigação é incompatível com a justiça de Deus. Se se encontrasse no universo uma única pessoa a quem Cristo nunca tivesse sido pregado, a objeção seria tão forte da parte desse indivíduo esquecido quanto da quarta parte do gênero humano.”
Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Portrait of St. Paul: or, The True Model for Christians and Pastors, versão inglesa de Joshua Gilpin (1790) do manuscrito francês do autor, na edição de Nova York (B. Waugh e T. Mason, 1834), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Por isso esta é tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.