John Fletcher · O Retrato de São Paulo · Parte I, traços XXXIV a XL

A firmeza, o martírio e o triunfo de São Paulo

A firmeza de Paulo diante dos magistrados, a coragem em consolar os perseguidos, os selos do seu ministério, a prontidão para o martírio, a escolha entre a vida e a morte, a constância até o fim e o triunfo sobre a morte.

Traço XXXIV

A sua firmeza modesta diante dos magistrados

Sustentado pela forte convicção de que Deus e a verdade estão do seu lado, o ministro fiel é elevado acima de todos aqueles temores desanimadores que agitam o coração dos pastores mundanos. Confiando na verdade daquela solene predição: “Eles os entregarão aos tribunais, e por minha causa vocês serão levados à presença de governadores e de reis, para lhes servir de testemunho, a eles e aos gentios”, ele espera, em tempos de perseguição, comparecer diante de magistrados, e talvez diante de reis, pela causa de Cristo e do seu evangelho. Nem se perturba com essa perspectiva. Confiando na promessa daquele Redentor compassivo que um dia compareceu por ele diante de Anás e Caifás, de Herodes e de Pôncio Pilatos, sem premeditar ansiosamente o que há de responder, e certo de que lhe será dada sabedoria em cada hora de necessidade, ele exclama com a santa determinação do salmista: “Também falarei dos teus testemunhos na presença dos reis e não me envergonharei” (Sl 119.46).

Quando é levado como malfeitor diante do juiz, enquanto os seus acusadores, movidos por um zelo malicioso, combinam dizer: “Verificamos que este homem é uma peste e promove desordens” entre o povo, e que é um dos cabeças de uma seita nova e perigosa, ele se justifica respondendo: As testemunhas que hoje comparecem contra mim nem me encontraram pisando a autoridade dos meus superiores, nem semeando sedição entre o povo; “nem podem provar as acusações que agora fazem contra mim. Porém confesso que, segundo o Caminho, a que chamam seita, assim eu sirvo ao Deus de nossos pais, acreditando em todas as coisas que concordam com a lei e os escritos dos profetas, tendo esperança em Deus, como também estes a têm, de que haverá ressurreição, tanto de justos como de injustos.” E, supondo que os seus acusadores não sejam apenas deístas, mas professantes da fé cristã, ele acrescentará: Também confesso que, de acordo com aqueles princípios que os pretensos filósofos chamam supersticiosos e que os cristãos mornos chamam entusiastas, “creio” não só “em Deus Pai todo-poderoso”, mas também em Jesus Cristo, seu único Filho, a quem reconheço como “Rei dos reis e Senhor dos senhores, o qual, depois de ter sofrido pelos nossos pecados, ressuscitou para a nossa justificação”. Mais ainda: subscrevo com alegria aquela confissão de fé que está frequentemente na boca de vocês: “Creio no Espírito Santo”, que regenera e santifica todo verdadeiro membro da “santa igreja católica”; e participo com esses membros dos benefícios comuns da nossa santíssima fé, que são uma humilde consciência da “remissão dos pecados”, uma esperança viva da “ressurreição do corpo” e uma doce antecipação da “vida eterna”. “Por isso, também me esforço por ter sempre uma consciência pura diante de Deus e dos homens” (At 24.5, 13-16). Se o seu juiz, já prevenido contra ele, se puser indevidamente do lado dos acusadores e o acusar de extravagância e fanatismo, ele responderá, como São Paulo, com todo o devido respeito: “Não estou louco! Pelo contrário, digo palavras de verdade e de bom senso.” “Peço a Deus que não apenas o senhor, mas todos os que hoje me ouvem venham a ser alguém como eu, mas sem estas correntes” (At 26.25, 29).

Depois que um pastor passou pela experiência dessas provações difíceis, está então em condições de fortalecer os ministros mais jovens à maneira de São Paulo: “sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar aquilo que me foi confiado até aquele Dia.” “Na minha primeira defesa, ninguém foi a meu favor; todos me abandonaram. Mas o Senhor esteve ao meu lado e me revestiu de forças, para que, através de mim, a pregação fosse plenamente cumprida, e todos os gentios a ouvissem. E fui libertado da boca do leão. O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu Reino celestial. A ele, glória para todo o sempre” (2Tm 1.12; 4.16-18).

Eis os incômodos e perigos a que estarão expostos, não só os pastores cristãos, mas todos os que seguem os passos do apóstolo Paulo, em todo lugar onde os fanáticos ou os incrédulos ocupam os primeiros postos na igreja ou no Estado! E, quer sejamos chamados a suportar tormentos, quer apenas a sofrer opróbrio pela causa da verdade, procuremos suportar os sofrimentos que nos couberem com aquela resolução e mansidão de que São Paulo e o seu adorável Mestre nos deixaram exemplos tão memoráveis.

Traço XXXV

A sua coragem em consolar os irmãos perseguidos

Convencido de que “todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus”, e particularmente os seus ministros, “serão perseguidos” (2Tm 3.12), o bom pastor espera oposição de todos os lados; e, sempre que sofre pelo testemunho que dá às verdades do evangelho, sofre não só com resolução, mas com alegria.

Quanto mais o deus deste mundo degenerado se exalta em oposição à verdade, tanto mais dispõe todo coração sincero para recebê-la. O evangelho é aquela rocha eterna sobre a qual a igreja está fundada e contra a qual as portas do inferno jamais prevalecerão; e, embora essa rocha seja assaltada por inumeráveis exércitos de inimigos visíveis e invisíveis, os seus repetidos ataques só servem para demonstrar, com certeza cada vez maior, a sua firmeza inabalável e a sua absoluta impenetrabilidade. Uma visão clara do bem supremo, tal como o evangelho no-lo apresenta, basta para torná-lo desejável a todos. O véu da desatenção, porém, encobre em grande parte esse bem supremo, e as névoas do preconceito o escurecem inteiramente. Mas, pela conduta desumana dos perseguidores do cristianismo, pelas suas falsas acusações, pelas suas tramas secretas e pela sua crueldade sem exemplo, essas névoas muitas vezes se dissipam, e esses véus se rasgam em dois, de alto a baixo. Por esses meios o erro fica, sem querer, exposto à vista do mundo, enquanto todo observador imparcial, atraído pelos encantos da verdade perseguida, examina a sua natureza, reconhece a sua excelência e por fim triunfa na posse daquela pérola inestimável que antes desprezava. Assim, as lágrimas dos fiéis e o sangue dos confessores costumam espalhar e nutrir a semente do Reino.

Zelosos defensores da verdade! Não deixem que as perseguições mais severas alarmem os seus receios ou enfraqueçam a sua confiança, pois toda provação desse tipo há de terminar necessariamente em proveito de vocês, assim como na consolidação e na glória da fé cristã. O erro, sempre acompanhado de contradições e carregado de consequências absurdas, logo se mostrará sustentado por nenhum outro apoio senão o preconceito ou a paixão, ou o despotismo de uma autoridade usurpada, que se torna odiosa pelos próprios meios empregados para sustentá-la. Quanto mais os partidários de qualquer doutrina falsa dão o alarme contra vocês, tanto mais se parecem com uma multidão violenta que se opõe aos esforços de uns poucos empenhados em apagar o fogo que consome as casas dos seus vizinhos: a conduta diferente de uns e de outros há de revelar, mais cedo ou mais tarde, quem são os incendiários. O erro pode ser comparado a um vaso de barro, e a verdade a um vaso de ouro maciço. Em vão a calúnia se esforça por tornar a verdade desprezível cobrindo-a de tudo o que é abominável; em vão o preconceito quer dar ao erro uma aparência amável escondendo com artifício os seus defeitos: pois, sempre que a mão da perseguição arremessar furiosamente este contra aquela, o ouro maciço suportará o choque sem dano, enquanto o barro envernizado se fará em pedaços. A experiência de dezessete séculos, porém, não bastou para demonstrar aos perseguidores uma verdade tão evidente; nem faltam na igreja crentes inexperientes, prontos a pô-la em dúvida, e que, “quando chega a perseguição por causa da palavra”, infelizmente se veem perder a sua resolução cristã. Mas “por que se enfurecem as nações e os povos imaginam coisas vãs? Os reis da terra se levantam, e as autoridades conspiram contra o Senhor e contra o seu Ungido. Aquele que habita nos céus dá risada; o Senhor zomba deles”, e faz a malícia deles servir ao cumprimento dos seus grandes desígnios (Sl 2.1-4).

Assim, os judeus, ao crucificar Cristo, contribuíram para lançar o grande fundamento da igreja cristã; e depois, ao perseguir o apóstolo Paulo até a morte, deram-lhe ocasião de levar a tocha da verdade a Roma, e até aos palácios dos seus imperadores. E foi da própria Roma, como da boca de um leão devorador, que ele consolou os fiéis, que estavam a ponto de desfalecer diante das suas aflições, e os animou a agir de acordo com a sua gloriosa vocação: “Estou sofrendo até algemas, como malfeitor. Mas a palavra de Deus não está algemada. Por esta razão, tudo suporto por causa dos eleitos, para que também eles obtenham a salvação que está em Cristo Jesus, com glória eterna. Fiel é esta palavra: ‘Se já morremos com ele, também viveremos com ele; se perseveramos, também com ele reinaremos; se o negamos, ele, por sua vez, nos negará.'” “Portanto, não se envergonhe do testemunho de nosso Senhor, nem do seu prisioneiro, que sou eu. Pelo contrário, participe comigo dos sofrimentos a favor do evangelho, segundo o poder de Deus, que nos chamou conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, o qual não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho. Para este evangelho eu fui designado pregador e apóstolo e, por isso, estou sofrendo estas coisas. Mas não me envergonho.” “Participe dos meus sofrimentos como bom soldado de Cristo Jesus” (2Tm 2.9-12; 1.8-12; 2.3).

Feliz é o ministro fiel de Cristo em meio a todas as duras aflições a que às vezes está exposto! Embora “atribulado em tudo”, não está “angustiado”; embora “perplexo”, não está “desanimado”; embora “perseguido”, não está “abandonado”; embora “derrubado”, não está “destruído”. Todos os ataques violentos dos seus inimigos hão de contribuir, por fim, para a honra do seu triunfo, enquanto a injustiça flagrante deles dá duplo brilho à causa gloriosa pela qual ele sofre.

Traço XXXVI

A sua humilde confiança em apresentar os selos do seu ministério

Um pastor há de converter pecadores, mais cedo ou mais tarde, se os chamar sincera e ardentemente ao arrependimento para com Deus e à fé em nosso Senhor Jesus Cristo. Contudo, ainda que, cheio de indignação contra o pecado, de compaixão para com os impenitentes e de gratidão para com Cristo, ele lute como São Paulo, na medida das suas forças, com Deus pela oração, com os pecadores pela exortação e com a carne pela abstinência, mesmo assim, sendo tão desigual a esse apóstolo quanto esse apóstolo era desigual ao seu Mestre, ele pode razoavelmente perder a esperança de ver com frequência os efeitos felizes dos seus trabalhos evangélicos. Mas, se não puder adotar esta linguagem apostólica: “Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta a fragrância do seu conhecimento em todos os lugares”, poderá ao menos dizer, na sua pequena esfera: “Porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo, tanto entre os que estão sendo salvos como entre os que estão se perdendo. Para com estes, cheiro de morte para morte; para com aqueles, aroma de vida para vida” (2Co 2.14-16). Se não plantou, como São Paulo, vinhas novas, está empenhado com Apolo em regar as que já estão plantadas; está arrancando alguns troncos secos que ocupam inutilmente a terra, podando alguns ramos infrutíferos e escorando os brotos tenros que a tempestade derrubou.

Ele seria o mais infeliz de todos os ministros fiéis se não tivesse na sua congregação alguns a quem pudesse dirigir-se com propriedade nestes termos: “Será que temos necessidade de cartas de recomendação para vocês? Vocês manifestam que são carta de Cristo, produzida pelo nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações” (2Co 3.1-3). “Por acaso vocês não são fruto do meu trabalho no Senhor? Se não sou apóstolo para outros, certamente o sou para vocês! Porque vocês são o selo do meu apostolado no Senhor.” “Porque, ainda que vocês tivessem milhares de instrutores em Cristo, não teriam muitos pais, pois eu gerei vocês em Cristo Jesus, pelo evangelho” (1Co 9.1-2; 4.15).

Quando um ministro do evangelho, depois de trabalhar vários anos no mesmo lugar, não conhece ninguém do seu rebanho a quem possa modestamente dirigir a linguagem acima, é de temer que tenha trabalhado demais à maneira da maioria dos pastores dos dias de hoje, uma vez que “a palavra de Deus”, quando anunciada com ardor e sem adulteração, costuma ser “viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas” (Hb 4.12). “Aquele em quem está a minha palavra fale a minha palavra com verdade. O que é que a palha tem a ver com o trigo?, diz o Senhor. Não é a minha palavra como fogo, e como um martelo que despedaça a rocha? Eis que eu sou contra os que com as suas mentiras e leviandades fazem o meu povo andar errante. E eles não trazem nenhum proveito a este povo, diz o Senhor” (Jr 23.28-32).

Os ministros que se preocupam em pregar e em se conduzir de modo a não perturbar a paz dos formalistas nem despertar os temores dos impenitentes são, sem dúvida, as pessoas a que se refere particularmente esta solene passagem da profecia de Jeremias: “O meu coração está partido dentro de mim por causa dos profetas. Todos os meus ossos estremecem por causa do Senhor e por causa das suas santas palavras. Pois tanto o profeta como o sacerdote estão contaminados; até na minha casa achei a sua maldade, diz o Senhor. Andam com falsidade [seja na prática, seja na doutrina] e fortalecem as mãos dos malfeitores, para que não se convertam da sua maldade. Dos profetas de Jerusalém se derramou a impiedade sobre toda a terra. Falam as visões do seu coração, não o que vem da boca do Senhor. Dizem continuamente aos que [em secreto] me desprezam: ‘O Senhor disse: Vocês terão paz’; e a todos os que andam segundo a dureza do seu coração dizem: ‘Nenhum mal lhes sobrevirá.’ Não mandei esses profetas, mas eles foram correndo; não lhes falei, mas eles profetizaram. Mas, se tivessem estado no meu conselho, teriam anunciado as minhas palavras ao meu povo e o teriam feito voltar do seu mau caminho e da maldade das suas ações” (Jr 23.9-22).

Eis a razão por que nada pode afligir tanto um ministro fiel quanto não ver, de tempos em tempos, conversões sinceras operadas no meio do povo por meio do seu ministério. O lavrador que, depois de preparar com diligência e semear com fartura os seus campos, vê a esperança da sua colheita varrida de uma só vez por uma tempestade furiosa, fica sensivelmente aflito; mas não sente uma tristeza tão viva quanto o pastor cheio de amor que, depois de espalhar generosamente ao seu redor as sementes da sabedoria e da piedade, vê a sua paróquia ainda tomada pelas ervas daninhas da vaidade e do vício. Se os Nabais ainda se embriagam; se os Cains ainda são implacáveis; se os Ananias ainda são enganadores, e as Safiras ainda estão prontas a favorecer o seu engano; se as Martas ainda andam sobrecarregadas de cuidados terrenos; se as Dinás ainda se expõem à tentação, até com prejuízo da sua honra e com a perda daquele pequeno gosto pela piedade que antes demonstravam; e se o povo ainda continua a aproximar-se de Deus com os lábios enquanto o coração está longe dele, um bom pastor, à vista dessas coisas, é traspassado de muitas dores e sente, em certa medida, o que Elias sentiu quando, acabrunhado de cansaço e desgosto, “sentou-se debaixo de um zimbro e orou: Basta, Senhor! Tira a minha vida, porque eu não sou melhor do que os meus pais” (1Rs 19.4).

A indiferença, num assunto de tão grande importância, é um dos sinais mais seguros pelos quais se pode reconhecer um pastor indigno. Que importa a um ministro mundano que o rebanho com que se dá tão pouco trabalho seja composto de ovelhas ou de bodes? Ele não procura tanto beneficiar o seu povo quanto cumprir os deveres meramente exteriores do seu ofício de modo a não incorrer na censura dos seus superiores na igreja, que talvez não sejam nem um pouco menos mornos do que ele. E, se uma parte razoável do seu rebanho impuro apenas se disfarçar três ou quatro vezes por ano para comparecer à mesa sacramental, ele fica perfeitamente satisfeito com a boa ordem da sua paróquia, sobretudo quando os vícios mais detestáveis, como a extorsão, o roubo, o adultério ou o assassinato, não são praticados abertamente nela. Essa espécie exterior de decência, que tanto satisfaz o ministro mundano e que ordinariamente é produzida pela força coercitiva das leis civis, mais do que pelas verdades do evangelho, dá pouco consolo ao pastor fiel. Ele anseia por ver o seu povo com fome e sede de justiça, desenvolvendo a sua salvação com temor e tremor e entregando-se a todos os deveres do cristianismo com tanto empenho quanto os filhos do mundo perseguem os seus prazeres vergonhosos ou os seus divertimentos frívolos. E, se ainda não teve essa satisfação, humilha-se diante de Deus e pergunta com ansiedade pela razão de tão grande infelicidade. Ele sabe que, se o seu ministério não produz bons frutos, a esterilidade da palavra há de proceder de uma ou outra das seguintes causas: ou ele não anuncia o evangelho em toda a sua amplitude e pureza, de maneira suficientemente animadora, ou com simplicidade e fé. Talvez não tenha o cuidado de apoiar os seus discursos zelosos com uma conduta exemplar; talvez seja negligente em implorar a bênção de Deus sobre os seus trabalhos públicos e particulares; ou talvez os seus ouvintes tenham concebido contra ele preconceitos inveterados, que os tornam desatentos às suas exortações mais solenes, de modo que, em vez de ser recebido no meio deles como embaixador de Cristo, ele pode aplicar a si mesmo o provérbio citado outrora pelo seu Mestre rejeitado: “Nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra”, onde todos se acostumaram a vê-lo sem cerimônia e a ouvi-lo sem curiosidade. Se a falta parece estar do seu lado, ele procura aplicar os remédios mais rápidos e eficazes, redobrando os seus trabalhos públicos e renovando as suas súplicas secretas com um fervor de espírito fora do comum. Mas se, depois de repetidas tentativas, se convence de que a sua falta de êxito procede principalmente do ódio invencível do seu rebanho às verdades do evangelho, ou do soberano desprezo que os seus paroquianos manifestam tanto pela sua pessoa quanto pelos seus trabalhos, está então justificado em seguir o exemplo do seu Mestre infalível, que se recusou a exercer o seu ministério naqueles lugares onde o preconceito tinha fechado o coração do povo à recepção dos seus preceitos evangélicos.

Quando, em tal situação, um pastor tem medo de seguir o exemplo do nosso Senhor, para não ficar sem sustento, em que estado deplorável há de arrastar os dias cansativos de uma vida inútil! Se todo cristão sincero está pronto a tomar a sua cruz, a deixar amigos e bens, e até a renunciar à própria vida por causa do evangelho, podemos considerar como homem realmente consagrado ao serviço de Cristo o ministro que não tem resolução suficiente para abrir mão de uma casa, de um jardim e de um salário, quando o bem da sua própria alma e os interesses da igreja exigem esse sacrifício?

Quando um pregador do evangelho conta menos com as promessas do seu Mestre do que com as rendas do seu benefício, não podemos razoavelmente concluir que ele anda nas pegadas de Balaão, e não nas de São Paulo? E cabe a esse homem “repetir os meus preceitos e ter nos lábios a minha aliança” (Sl 50.16)? Não está ele tentando anunciar as verdades do evangelho antes de crer nelas de fato? E não tem ele uma testa de bronze quando, com as disposições de um Demas, sobe ao púlpito para celebrar a bondade daquele Deus que supre as necessidades dos “pardais”, que “dá o alimento aos filhos dos corvos, quando clamam”, que abre a mão e satisfaz com abundância todos os viventes? Considere esse homem que o caráter de um preceptor virtuoso ou de um comerciante honesto é muito mais honroso que o de um sacerdote mercenário.

Em geral, pode-se razoavelmente supor que, se um pastor exerce fielmente o seu ministério em qualquer lugar para o qual foi designado pela providência de Deus, ou trará benefício àqueles entre os quais é chamado a trabalhar, ou os seus ouvintes endurecidos acabarão por se unir para expulsá-lo do meio deles, como os habitantes de Nazaré forçaram Jesus a sair da sua cidade ingrata. Ou, se não for removido à força do seu posto, como aconteceu ao nosso Senhor na terra dos gadarenos, julgando ser seu dever retirar-se daquela região, procurará algum outro lugar na vinha do seu Mestre que recompense melhor o esforço do cultivo, custe-lhe o que custar essa mudança no juízo do mundo. E, de fato, essa forma de proceder foi expressamente prescrita pelo nosso Senhor aos seus primeiros ministros, nesta solene incumbência: “E, em qualquer cidade ou aldeia em que vocês entrarem, perguntem quem nelas é digno. Se alguém não quiser recebê-los nem ouvir as palavras de vocês, quando, [desprezados e insultados pelos seus habitantes indignos,] vocês [forem constrangidos a] sair daquela casa ou daquela cidade, sacudam o pó dos pés”, como testemunho contra aqueles que preferem as máximas do mundo aos preceitos do evangelho (Mt 10.11, 14).

Se algum pastor se recusa a adotar esse modo de proceder depois que a paciência teve a sua ação completa; se ainda tem medo de abandonar uma posição, como os genros de Ló tiveram medo de deixar os seus bens em Sodoma, ele age então em oposição direta ao mandamento de Cristo; ocupa obstinadamente o lugar de um ministro contra quem, muito provavelmente, haveria menos preconceito e cujo ministério, por consequência, teria mais probabilidade de produzir algum efeito salutar; perde o seu tempo lançando pérolas aos porcos; e, em vez de converter os seus paroquianos, apenas agrava a condenação devida à sua obstinação.

O pastor fiel, porém, não desanima depressa, ainda que não veja nenhuma consequência benéfica do seu ministério. O seu amor sem limites sofre, espera e trabalha longamente sem desfalecer. Quanto mais estéril parece o solo que é chamado a cultivar, tanto mais o rega com as suas lágrimas e com o suor do seu rosto, e tanto mais implora para ele o orvalho do céu e as influências daquele divino Sol que espalha luz e vida por todas as partes da igreja. Não é, portanto (repita-se), senão depois que a paciência teve a sua ação completa que um ministro consciencioso toma a resolução final de deixar o seu posto, a fim de procurar alguma outra situação em que os seus trabalhos possam ser acompanhados de maior proveito.

Traço XXXVII

A sua prontidão em selar com o seu sangue as verdades do evangelho

Quem ainda não está preparado para morrer pelo seu Senhor ainda não recebeu aquele “perfeito amor” que “lança fora o medo”; e é duvidoso que seja digno de subir ao púlpito o pregador cuja confiança nas verdades do evangelho não é bastante forte para dispô-lo, em certas situações, a selar essas verdades com o seu sangue. Se ele realmente recua diante da ideia de morrer pela causa do cristianismo, cabe-lhe anunciar um Salvador que é “a ressurreição e a vida”? E não se pode dizer que ele brinca com a sua consciência, com os seus ouvintes e com o seu Deus se, sendo escravo do pecado e do medo, se apresenta como testemunha da salvação daquele Redentor onipotente que, “por sua morte, destruiu aquele que tem o poder da morte” e que, pela sua ressurreição, livrou “todos os que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida” (Hb 2.14-15)? O amor, na linguagem de Salomão, “é tão forte como a morte”; mas o verdadeiro ministro arde com um amor fervoroso a Cristo e aos seus irmãos, muito mais forte do que os temores da morte que o impediriam, em tempos de perseguição, de cumprir fielmente as suas funções ministeriais. Tal era o amor de São Paulo quando exclamou àqueles que queriam dissuadi-lo do caminho perigoso do dever: “O que estão fazendo, ao chorar assim e partir o meu coração? Pois estou pronto não só para ser preso, mas até para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus” (At 21.13). “E, agora, impelido pelo Espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que ali vai me acontecer, exceto que o Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura que prisões e sofrimentos estão à minha espera. Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, desde que eu complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus” (At 20.22-24). “Porque estou certo de que, pela súplica de vocês e com a ajuda do Espírito de Jesus Cristo, isso resultará em minha libertação. Minha ardente expectativa e esperança é que Cristo será engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte. Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro.” “Entretanto, mesmo que eu seja oferecido como libação sobre o sacrifício e serviço da fé que vocês têm, fico contente e me alegro com todos vocês” (Fp 1.19-21; 2.17).

Assim, “o bom pastor dá a vida pelas ovelhas. O mercenário, que não é pastor, vê o lobo chegando, abandona as ovelhas e foge; então o lobo as arrebata e dispersa” (Jo 10.11-12). Feliz a igreja cujo pastor está preparado para seguir os passos do “grande Pastor e Bispo das almas”! São Paulo não se teria envergonhado de reconhecê-lo como seu companheiro e cooperador na obra do Senhor.

Traço XXXVIII

A doce suspensão da sua escolha entre a vida e a morte

Por maior que seja o desejo do pastor fiel de estar com Cristo e de descansar dos seus trabalhos, ele suporta com alegria a separação da pessoa do seu Salvador, pelo prazer sagrado que experimenta no serviço dos membros dele. O doce equilíbrio em que o seu desejo ficava suspenso entre a vida e a morte é assim expresso pelo apóstolo Paulo: “Pois sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos humanas, eterna, nos céus. E, por isso, neste tabernáculo gememos, desejando muito ser revestidos da nossa habitação celestial”, sabendo “que, enquanto no corpo, estamos ausentes do Senhor” (2Co 5.1-6). “Assim, não sei o que devo escolher. Estou cercado pelos dois lados, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor. Mas, por causa de vocês, é mais necessário que eu continue a viver. E, convencido disto, estou certo de que ficarei e permanecerei com todos vocês, para que progridam e tenham alegria na fé” (Fp 1.22-25).

É principalmente quando os crentes têm o amor invencível de São Paulo que “todas as coisas cooperam para o bem” deles. Quer vivam, quer morram, todo acontecimento se converte em favor. Se vivem, é para sustentar os seus companheiros de tribulação e garantir para si uma recompensa maior, mantendo por longo tempo o combate vitorioso da fé. Se morrem, é para descansar dos seus trabalhos e chegar a um gozo mais perfeito da presença do seu Mestre. “Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor: descansam das suas fadigas, pois as suas obras os acompanham” (Ap 14.13). E, enquanto isso, bem-aventurados os vivos que vivem no Senhor, pois estão honrosamente empenhados naqueles importantes combates que dia a dia hão de acrescentar à sua força espiritual e aumentar o brilho do seu triunfo final.

Traço XXXIX

A constância do seu zelo e da sua diligência até o fim da sua carreira

Vivendo ou morrendo, o servo fiel de Cristo nunca age de modo indigno do seu caráter. “Irrepreensível e puro, filho de Deus inculpável no meio de uma geração pervertida e corrupta”, ele brilha, até o fim da sua carreira, “como luzeiro no mundo” (Fp 2.15). Encara a morte, seja natural, seja violenta, sempre sem medo e geralmente com prazer, considerando-a como um mensageiro designado para conduzi-lo em segurança àquele estado glorioso em que se alegram juntos os que permaneceram fiéis até o fim. Só deseja que o seu Senhor o encontre ocupado na grande tarefa que recebeu a incumbência de realizar; e, quanto mais se aproxima a sua hora, tanto mais anseia por concluir o seu ministério com alegria. Se já não pode exortar pessoalmente os irmãos, escreve-lhes à maneira de São Pedro: “Por esta razão, sempre estarei pronto para fazer com que vocês se lembrem destas coisas”, as doutrinas, os preceitos, as ameaças e as promessas do evangelho, “embora já as conheçam e tenham sido confirmados na verdade que receberam. Também considero justo, enquanto estou neste tabernáculo, despertar essas lembranças em vocês, certo de que estou prestes a deixar o meu tabernáculo, como efetivamente nosso Senhor Jesus Cristo me revelou” (2Pe 1.12-14). Deseja, nessa hora, dirigir-se aos fiéis, e especialmente aos ministros jovens, como São Paulo se dirigiu aos coríntios e a Timóteo: “Meus amados irmãos, sejam firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o trabalho de vocês não é vão” (1Co 15.58). “Mas você”, Timóteo, “tem seguido de perto o meu ensino, a minha conduta, o meu propósito, a minha fé, a minha paciência, o meu amor, a minha perseverança, as minhas perseguições e os meus sofrimentos, os quais tive de enfrentar em Antioquia, Icônio e Listra. Quantas perseguições sofri! Porém o Senhor me livrou de todas elas. Na verdade, todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.” “Mas você seja sóbrio em todas as coisas, suporte as aflições, faça o trabalho de um evangelista, cumpra plenamente o seu ministério. Quanto a mim, já estou sendo oferecido por libação, e o tempo da minha partida chegou” (2Tm 3.10-12; 4.5-6).

Assim São Paulo avançou triunfante para o fim da sua carreira. E assim o ministro fiel, pondo azeite novo na sua lâmpada à medida que a noite avança, sai ao encontro do seu Deus que se aproxima, a quem a sua fé já considera como Juiz misericordioso, e a sua esperança, como Galardoador generoso.

Traço XL

O seu triunfo sobre os males da vida e os terrores da morte

A fé viva que sustenta um bom pastor, ou um crente em Cristo, em meio a todas as dificuldades e aflições da vida, o faz triunfar mais especialmente à aproximação da morte, em todas as suas aparências terríveis. Sempre cheio de humilde confiança naquele que é a ressurreição e a vida, ele muitas vezes exprime, nessa hora solene, a certeza da sua fé vitoriosa à maneira de São Paulo: “Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo” (2Co 2.14). “Sabendo que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos ressuscitará com Jesus e nos apresentará juntamente com vocês”, “não desanimamos. Pelo contrário, mesmo que o nosso ser exterior se desgaste, o nosso ser interior se renova dia a dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um eterno peso de glória, acima de toda comparação” (2Co 4.14, 16-17). Erguendo assim o escudo da fé para apagar os dardos inflamados do Maligno e receber as flechas penetrantes do anjo da morte, ele espera a sua última hora sem medo nem impaciência, deixando de bom grado o tempo, o lugar, o modo e as circunstâncias dessa provação final à disposição daquele Deus cuja sabedoria, bondade e poder se combinam todos para lhe garantir a vitória. Quer seja chamado pela providência de Deus, num quarto ou num cadafalso, a provar o cálice amargo de que o seu Mestre bebeu tão profundamente, ele se prepara para acompanhar um Salvador sofredor, animado pela esperança de que não será tentado além das suas forças e de que, se sofrer e morrer com o Rei da glória, também ressuscitará e reinará com ele.

Por fim, a flecha fatal é lançada; seja por acidente, por doença ou pela mão de um carrasco, pouco importa: o verdadeiro cristão, preparado para todos os acontecimentos, vê a ordem da Providência e a ela se submete. Recebe o golpe mortal, ou com humilde resignação, ou com santa alegria. No primeiro caso, a sua alma se desprende docemente do seu tabernáculo terreno enquanto ele exala as palavras suplicantes do feliz Simeão: “Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo, porque os meus olhos já viram a tua salvação.” Mas, no segundo caso, ele deixa o mundo num estado de santo triunfo, exclamando na plena certeza da fé: A minha convicção toma o lugar da vista e, sem o auxílio da visão, permaneço firme como quem vê aquele que é invisível, tão efetivamente sustentado como se, contemplando com Estêvão os céus abertos, eu visse o Filho do Homem em pé à direita de Deus, pronto para salvar e glorificar a minha alma. Dessas duas maneiras de morrer santamente, a mais invejável parece ter sido a sorte de São Paulo, se podemos julgar pelo triunfo antecipado que ele descreve em várias das suas epístolas, e particularmente na última que dirigiu a Timóteo, de Roma, onde recebeu a coroa do martírio: “Tenho o desejo de partir e estar com Cristo”, por causa de quem “perdi todas as coisas e as considero como lixo”, para “conhecer Cristo e o poder da sua ressurreição, tomar parte nos seus sofrimentos e me tornar como ele na sua morte” (Fp 1.23; 3.8-10). “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Desde agora me está guardada a coroa da justiça, que o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia. A ele, glória para todo o sempre” (2Tm 4.7-8, 18). “Quem nos separará do amor de Cristo? Será a tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a espada? Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem os poderes, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus” (Rm 8.35-39). “Onde está, ó morte, a sua vitória? Onde está, ó morte, o seu aguilhão? Graças a Deus, que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Co 15.55-57).

Assim o grande apóstolo saiu ao encontro da sua última provação, considerando uma honra sofrer pela causa da verdade e gloriando-se na esperança da glória de Deus. Os inimigos do cristianismo o tornaram, por fim, semelhante a Cristo na sua morte;1 mas, enquanto separavam a cabeça do corpo, uniram mais intimamente o seu espírito feliz àquele Jesus exaltado que um dia o encontrara no caminho e que agora o esperava para recebê-lo no fim da sua carreira. Felizes os fiéis que, como esse apóstolo fiel, vivem para o Senhor! Mais felizes ainda os que, como ele, recebem a graça de morrer para o Senhor! “As suas obras os acompanham, enquanto descansam das suas fadigas”, e aguardam em paz a ressurreição e as sublimes recompensas dos justos.

Notas

1. A tradição nos informa que São Paulo, na segunda viagem que fez a Roma, recebeu a coroa do martírio sob o imperador Nero, cerca de trinta e cinco anos depois da crucificação do nosso bendito Senhor. São Clemente, contemporâneo de São Paulo, fala desse apóstolo nos seguintes termos, na sua primeira epístola aos Coríntios: “Por causa do ciúme, Paulo recebeu o prêmio da perseverança. Tendo estado sete vezes em cadeias, tendo sido maltratado e apedrejado, tendo pregado no oriente e no ocidente, obteve o glorioso prêmio da sua fé. Depois de ter ensinado a justiça ao mundo inteiro, chegando ao ocidente, sofreu o martírio sob os que governam; e assim, deixando o mundo, depois de ter dado nele um grande exemplo de paciência, foi para o lugar santo.”

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Portrait of St. Paul: or, The True Model for Christians and Pastors, versão inglesa de Joshua Gilpin (1790) do manuscrito francês do autor, na edição de Nova York (B. Waugh e T. Mason, 1834), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Por isso esta é tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.