John Fletcher · O Retrato de São Paulo · Parte I, traços XXVII a XXXIII
A resposta a uma objeção, o perfeito desinteresse de Paulo, o trabalho com as próprias mãos, o respeito pelo matrimônio, o ardor do seu amor, os seus temores e consolações e a sua paciência nas provações.
Antes de passarmos à consideração de outro traço do caráter de São Paulo, será necessário refutar uma objeção a que o traço anterior pode parecer sujeito. “Você ousa”, talvez se pergunte, “propor-nos como modelo um homem que foi capaz de ferir Elimas de cegueira e de entregar a Satanás o corpo de um pecador?”
Resposta. O excelente motivo e o feliz resultado da conduta do apóstolo nesses dois casos o justificam inteiramente. Ele considerava a aflição não apenas como o crisol em que Deus frequentemente se agrada de purificar os justos, mas também como o último remédio a empregar para a restauração dos pecadores obstinados. Eis a razão por que o amor da igreja primitiva pedia, em favor de Deus, que não se poupasse a vara quando a impiedade dos homens já não podia ser contida por meios mais brandos: ela julgava que era muito melhor ser levado ao arrependimento, ainda que pelos sofrimentos mais agudos, do que viver e morrer em estado de pecado. Exercer esse alto grau de severidade santa e caridosa para com um pecador era, de algum modo misterioso, “entregar o seu corpo a Satanás”, que era visto como o executor da justa vingança de Deus nos casos criminais. Assim Satanás destruiu os primogênitos no Egito, feriu com a peste os súditos de Davi e exterminou o vasto exército de Senaqueribe. São João lançou alguma luz sobre esse profundo mistério ao afirmar: “Há pecado que leva à morte” (1Jo 5.16); e o caso de Acabe vem bem a propósito, pois, quando esse rei cometeu tal pecado, um espírito de engano recebeu ordem imediata de conduzi-lo à execução nas planícies de Ramote-Gileade (1Rs 22.20, 22). Essa doutrina terrível é confirmada ainda por São Lucas, quando relata que, no mesmo instante em que o povo, em honra de Herodes, gritava: “É voz de um deus, e não de um homem!”, “um anjo do Senhor feriu Herodes, por ele não haver dado glória a Deus; e, comido de vermes, morreu” (At 12.22-23). O castigo assim infligido, por ordem imediata de Deus, era sempre proporcional à natureza da ofensa. Se o pecado “não levava à morte”, seguia-se a ele alguma aflição temporária, como nos casos de Elimas e do coríntio incestuoso. Se o crime cometido era de tal natureza que a morte do pecador se tornava necessária, quer para a salvação da sua alma, quer para a reparação do seu crime, quer para alarmar aqueles que provavelmente seriam corrompidos pelo seu exemplo pernicioso, ele era então ferido de alguma doença incurável, como no caso de Herodes, ou fulminado de morte imediata, como no caso de Ananias e Safira, que procuraram encobrir a sua hipocrisia com aparências de piedade e a sua duplicidade com uma mentira. Se o sr. Voltaire tivesse considerado a igreja cristã como uma espécie de teocracia bem ordenada, teria visto a insensatez de todo o seu raciocínio a respeito da autoridade dessa igreja no seu estado primitivo. E, convencido de que Deus tem muito mais direito de pronunciar, por meio dos seus ministros, uma justa sentença de castigo corporal, e até de morte, do que qualquer príncipe temporal pode reivindicar para pronunciar tal sentença por meio dos seus oficiais, esse filósofo atrevido, em vez de apontar os seus sarcasmos contra uma instituição tão razoável e santa, teria sido constrangido a tremer diante do Juiz de toda a terra.
Finalmente, deve-se observar que, quando esse tipo de jurisdição era exercido na igreja, os seguidores de Cristo, não tendo magistrados da sua própria religião, viviam sob o governo daqueles governantes pagãos que toleravam justamente os crimes mais ofensivos ao espírito puro do evangelho. E por essa razão Deus se agradou de permitir aos mais eminentes do seu povo, em algumas ocasiões extraordinárias, exercer aquele poder terrível que humilhou a igreja culpada de Corinto e derrubou o feiticeiro Elimas na sua carreira perversa. Se se perguntar: “Que seria da humanidade se o clero dos nossos dias possuísse o poder extraordinário de São Paulo?”, respondemos: a maneira terrível com que São Paulo às vezes exerceu a autoridade que tinha recebido, em relação aos pecadores impenitentes, não foi deixada como exemplo aos eclesiásticos dos dias de hoje, a menos que eles venham a se encontrar (o que é quase impossível) em circunstâncias semelhantes e alcancem graus iguais de discernimento, de fé e de amor aos desse mesmo apóstolo.
O seu perfeito desinteresse
Se o amor “não busca os seus interesses”, e se se exige que a vida dos fiéis seja “isenta de avareza”, convém ao verdadeiro ministro, de modo especial, manter no mundo uma conduta reta e desinteressada.
Embora seja verdade que “os que servem ao altar participam do que é oferecido sobre o altar”, nada é tão detestável ao pastor fiel quanto a ideia de enriquecer com os despojos sagrados desse altar. Observe como São Paulo se expressa sobre esse assunto: “Porque nada trouxemos para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Mas os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos insensatos e nocivos, que levam as pessoas a se afundar na ruína e na perdição. Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e atormentaram a si mesmos com muitas dores. Mas você, homem de Deus”, que foi separado como ministro do evangelho eterno, “fuja de tudo isso. Siga a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança, a mansidão” (1Tm 6.7-11). Quanto a mim mesmo, “aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Em todo lugar e em todas as coisas, aprendi o segredo, tanto de estar alimentado como de ter fome, tanto de ter em abundância como de passar necessidade” (Fp 4.11-12). “A verdade, como vocês sabem, é que nunca usamos de linguagem de bajulação, nem de pretextos gananciosos. Deus é testemunha disso. Pois vocês com certeza se lembram do nosso esforço e fadiga, para não vivermos à custa de nenhum de vocês. Vocês e Deus são testemunhas de como nos portamos de maneira piedosa, justa e irrepreensível em relação a vocês, os que creem” (1Ts 2.5, 9-10). “Eis que, pela terceira vez, estou pronto para visitá-los e não serei um peso para vocês. Pois não estou interessado nos bens de vocês, e sim em vocês mesmos. Não são os filhos que devem juntar riquezas para os pais, mas os pais, para os filhos. Eu de boa vontade gastarei e me deixarei gastar em favor de vocês” (2Co 12.14-15). Eis o desinteresse do pastor fiel, que está sempre menos pronto a receber do rebanho o alimento e a roupa do que a trabalhar pela sua proteção e sustento! Eis o espírito de Cristo! E que o pastor movido por um espírito diferente tire, quanto ao seu estado, a conclusão alarmante que esta expressão de São Paulo o ensina a tirar: “Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9).
Feliz seria a igreja cristã se fosse abençoada com pastores desinteressados! Ministros avarentos, mais ocupados com as coisas da terra do que com as coisas do céu, mais dispostos a enriquecer as suas famílias do que a suprir as necessidades dos pobres, mais ansiosos por multiplicar os seus benefícios eclesiásticos ou aumentar os seus salários do que por fazer render os seus talentos e aumentar o número dos fiéis: esses ministros, em vez de beneficiarem a igreja, endurecem os impenitentes, agravam a sua própria condenação e forçam os incrédulos a crer que o santo ministério é usado, pela maioria dos que o professam, como um meio cômodo de garantir para si o pão perecível, se não as honras passageiras, da vida presente.
A sua condescendência em trabalhar às vezes com as próprias mãos, para pregar a diligência tanto pelo exemplo quanto pelo preceito
Tal é o desinteresse do verdadeiro ministro que, embora pudesse reivindicar o sustento do ofício sagrado para o qual foi solenemente consagrado, ele generosamente prefere sacrificar os seus direitos quando não pode desfrutá-los sem dar alguma ocasião de censura. Para suprir as suas necessidades diárias, não se envergonha de trabalhar com as próprias mãos quando é chamado a anunciar o evangelho entre os pobres ou naqueles países onde a lei não lhe designou sustento, como entre as nações pagãs e as tribos selvagens. Nem se recusará a fazê-lo quando a sua sorte cair no meio de um povo preguiçoso, animando-o, pela sua prudente condescendência, à diligência nas suas diversas ocupações, para que o evangelho não seja censurado. Em tais circunstâncias, se o seu patrimônio não bastar para o seu sustento, nenhum discípulo de Jesus se envergonhará de seguir o exemplo de São Paulo, que descreve assim a sua própria conduta em casos semelhantes: “Será que cometi algum pecado pelo fato de viver humildemente, para que vocês fossem exaltados, visto que lhes anunciei o evangelho de Deus sem cobrar nada? E, estando entre vocês, ao passar privações, não me fiz pesado a ninguém. Em tudo, me guardei e me guardarei de ser pesado a vocês. Pela verdade de Cristo que está em mim, garanto que esta glória não me será tirada nas regiões da Acaia. Por quê? Será que é porque não amo vocês? Deus o sabe. Mas é para não dar oportunidade àqueles que a buscam”, e que não deixariam de me apresentar como alguém interesseiro se pudessem me acusar de desfrutar entre vocês dos meus justos direitos (2Co 11.7-12). “De ninguém cobicei prata, nem ouro, nem roupas; vocês mesmos sabem que estas minhas mãos serviram para o que era necessário a mim e aos que estavam comigo. Em tudo tenho mostrado a vocês que, trabalhando assim, é preciso socorrer os necessitados e lembrar das palavras do próprio Senhor Jesus: ‘Mais bem-aventurado é dar do que receber'” (At 20.33-35). “Porque vocês mesmos sabem como devem nos imitar, visto que nunca vivemos de forma desordenada quando estivemos entre vocês, nem jamais comemos pão à custa dos outros. Pelo contrário, trabalhamos com esforço e fadiga, de noite e de dia, a fim de não sermos pesados a nenhum de vocês. Não que não tivéssemos o direito de receber algo, mas porque tínhamos em vista apresentar a nós mesmos como exemplo, para que vocês nos imitassem. Porque, quando ainda estávamos com vocês, ordenamos isto: ‘Se alguém não quer trabalhar, também não coma.’ Pois, de fato, ouvimos que há entre vocês algumas pessoas que vivem de forma desordenada. Não trabalham, mas se intrometem na vida dos outros” (2Ts 3.7-11). Felizes eram aqueles tempos de simplicidade cristã, quando os apóstolos de Cristo não consideravam desonra dedicar-se a alguma ocupação útil para aliviar as suas necessidades temporais; quando, em vez de comer o pão da ociosidade, lançavam a rede ora para peixes, ora para homens; quando deixavam as tendas em que costumavam trabalhar pela sagrada recreação de pôr diante dos pecadores “da parte de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos humanas, eterna, nos céus”. Quanto mais valiosas eram as redes de São Pedro do que os cães de caça, e as ferramentas de trabalho de São Paulo do que aquelas mesas de jogo em que muitos dos seus indignos sucessores hoje buscam divertimento!
Mas, apesar de toda a circunspecção e prudência do pastor fiel, ainda que julgue necessário pregar a diligência tanto pelo exemplo quanto pelo preceito, se as suas exortações forem mais frequentes que as dos seus irmãos mornos, ele será censurado pela parte irreligiosa do mundo como defensor indireto da preguiça. Os inimigos da piedade e da verdade estão sempre prontos a renovar as velhas objeções de Faraó contra o serviço de Deus: “Por que estão afastando o povo das suas tarefas? O povo da terra já é muito e vocês ainda querem que eles descansem de suas tarefas! Eles estão desocupados e, por isso, gritam: ‘Vamos e sacrifiquemos ao nosso Deus.’ Imponham mais serviço a esses homens, e que não deem ouvidos a palavras mentirosas” (Êx 5.4-9). Tal é o juízo errôneo que geralmente se forma a respeito dos mais zelosos servos de Deus. Mas, enquanto sentem a amargura dessas censuras imerecidas, eles tiram consolo ainda mais abundante das palavras animadoras do seu bondoso Mestre: “Bem-aventurados são vocês quando, por minha causa, mentindo, disserem todo mal contra vocês. Alegrem-se e exultem, porque é grande a sua recompensa nos céus; pois assim perseguiram os profetas que viveram antes de vocês” (Mt 5.11-12).
Os adversários declarados da religião, porém, não são os únicos que acusam um ministro trabalhador de desviar o povo dos seus afazeres com a volta frequente demais da exortação e da oração públicas. Há outros, não inteiramente destituídos de piedade, que muitas vezes dão peso a essas acusações injustas. Tais são os meio convertidos, que, não compreendendo ainda o valor inestimável do pão que nutre a alma para a vida eterna, se ocupam principalmente em trabalhar pelo pão que perece. Homens desse caráter, metendo-se numa vastíssima variedade de negócios terrenos, “em vão se inquietam” sem cessar e consideram desperdiçadas as horas em que um pastor zeloso os afasta das preocupações mundanas e dos prazeres frívolos. Enquanto ele ensina que “[só] uma coisa é [absolutamente] necessária”, eles estão agarrando todo bem aparente que solicita os seus afetos; e, enquanto ele insiste na necessidade de escolher “a boa parte, e esta não lhe será tirada”, esses professantes formais estão prontos a argumentar com ele, como Marta com Jesus: Você não sabe quanto andamos sobrecarregados com uma multidão de negócios aborrecidos? E “não se importa” de que os nossos ajudantes e dependentes sejam desviados das suas ocupações necessárias por uma frequência ociosa ao seu ministério?
Esses falsos sentimentos, tanto a respeito dos ministros quanto da palavra de Deus, que prevalecem de modo tão geral entre os cristãos nominais, têm a sua fonte na oposição direta que sempre há de existir entre a grande máxima dos filhos de Deus e o princípio distintivo dos homens mundanos. “Busquem em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça”, diz o bendito Jesus, “e todas estas coisas”, que além disso são necessárias ao bem-estar de vocês, “lhes serão acrescentadas” (Mt 6.33). Não, responde o príncipe deste mundo; busquem em primeiro lugar os prazeres do tempo e dos sentidos, e todas as outras coisas necessárias ao seu bem-estar lhes serão acrescentadas por cima. Desses dois princípios opostos resulta a completa contrariedade que se observa em todas as épocas entre os que ajuntam tesouros na terra e os que puseram o seu afeto nas coisas lá do alto. Felizes os fiéis, e duplamente felizes os pastores, que, imitando constantemente o grande apóstolo, cada um segundo a sua vocação, oram e trabalham ao mesmo tempo, tanto pelo pão de cada dia quanto pelo pão da vida eterna! Observando assim o duplo mandamento de Moisés e de Cristo, pode-se nutrir alguma esperança razoável de que as suas boas obras acabarão por vencer a aversão dos seus inimigos, como as dos primeiros cristãos venceram os preconceitos profundamente arraigados do mundo pagão.
O respeito que demonstrou pelo santo estado do matrimônio, enquanto a prudência cristã o levava a viver no celibato
Alguns ministros levaram o seu desinteresse a tal ponto que se recusaram a entrar no estado do matrimônio unicamente com este objetivo: livres de todo cuidado e despesa supérfluos, poderem consagrar a sua pessoa mais inteiramente ao Senhor, e os seus bens com menos reserva ao sustento dos pobres, a quem consideravam como seus filhos e adotavam como seus herdeiros. Mas nem todos os pastores são chamados a seguir esses raros exemplos de abstinência e de piedade desinteressada.
Quando examinamos a vida de um homem célebre, costumamos perguntar se ele passou os seus dias no casamento ou no celibato, e o que o levou a escolher um ou outro desses estados. Essa pergunta é particularmente necessária no caso de São Paulo, já que muitos dos fiéis, nas primeiras eras da igreja, iludidos pela aparência amável do celibato, abraçaram a vida monástica, estado ao qual o clero e os religiosos da igreja romana ainda se dedicam. Daí as acusações vergonhosas que diversos filósofos levantaram contra a religião cristã, como destruidora da sociedade na sua própria origem, que é o laço conjugal. Mas, deixando de lado os devaneios da lenda, se buscarmos o cristianismo no puro evangelho de Cristo, veremos que essa acusação é totalmente infundada, pois um dos propósitos do Legislador cristão, ao publicar esse evangelho, foi fortalecer o laço nupcial: declarando que um olhar impuro é uma espécie de adultério, revogando a permissão dada antes ao marido de repudiar a mulher por qualquer motivo passageiro de descontentamento e proibindo absolutamente o divórcio, exceto em caso de adultério (Mt 5.28, 32). Mais ainda: esse divino Legislador levou tão longe a sua condescendência em honra do estado matrimonial que esteve presente a uma das festas solenes que costumavam realizar-se nessas ocasiões, acompanhado da santa virgem e dos seus doze discípulos. E, não contente em dar esse testemunho público do seu respeito por uma instituição tão honrosa, acompanhou-o com a primeira prova miraculosa do seu poder onipotente.
É verdade que São Paulo passou toda a vida no celibato; mas nunca o impôs a ninguém. E, se ocasionalmente o recomendou a alguns, para os quais era indiferente casar-se ou não, foi principalmente por causa da angústia e da perseguição daqueles tempos (1Co 7.26). Levar as pessoas mais piedosas a viver ordinariamente no celibato não é menos contrário à natureza e à razão do que ao espírito do evangelho. É opor-se à multiplicação dos melhores cristãos e dos súditos mais fiéis. É supor que as pessoas que unem o exemplo ao preceito na causa da virtude, e que por isso mesmo estão especialmente qualificadas para a educação dos filhos, são as únicas no mundo que não deveriam ter nenhum. O absurdo dessa opinião levou o apóstolo Paulo a combatê-la publicamente, declarando aos hebreus: “Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito conjugal sem mácula” (Hb 13.4). Afirmou também que é necessário que o bispo seja “esposo de uma só mulher” e “que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito” (1Tm 3.2, 4). E, se desejava que os coríntios continuassem no estado que ele mesmo havia escolhido, por causa das vantagens particulares que dele resultavam, naquela época, para os membros perseguidos da igreja cristã, ainda assim, “por causa da imoralidade”, aconselhava que “cada homem tenha a sua esposa, e cada mulher tenha o seu próprio marido” (1Co 7.2). “Quero”, diz ele a Timóteo, “que as viúvas mais novas casem, criem filhos, sejam boas donas de casa” (1Tm 5.14). E, por fim, preveniu esse mesmo bispo cristão contra o erro daqueles que, nos últimos tempos, “apostatarão da fé, por obedecerem a ensinos de demônios”, e que “proíbem o casamento”, exortando com insistência o seu jovem sucessor a guardar os irmãos de uma doutrina tão fatal à igreja em particular e tão destrutiva da sociedade em geral (1Tm 4.1-3, 6).
Mas pode-se alegar: se São Paulo realmente tinha ideias tão elevadas do casamento, e o apresentava como o emblema mais perfeito da estreita união que existe entre Cristo e a sua igreja, por que não o recomendou pelo seu exemplo? Respondo: embora São Paulo nunca tenha se casado, afirmou expressamente o seu direito a esse privilégio, assim como São Pedro e alguns outros apóstolos (1Co 9.5), dando a entender, ao mesmo tempo, que a prudência e o amor o inclinavam a renunciar a esse direito. Quando um homem é continuamente chamado a viajar de um lugar para outro, a prudência exige que não se sobrecarregue com aqueles cuidados domésticos que inevitavelmente causariam muitos atrasos no andamento do seu trabalho. Ou, se tira o seu sustento da generosidade dos pobres, o amor deve constrangê-lo a pesar-lhes o menos possível. Esse zeloso apóstolo não podia decidir-se a expor uma mulher e filhos aos inúmeros perigos que ele era constantemente obrigado a enfrentar. O primeiro perigo de que escapou foi aquele que o obrigou a descer pela muralha de Damasco num cesto. Ora, se uma família tivesse partilhado com ele o mesmo perigo, quanto não teria acrescentado à sua aflição e ao seu cuidado! Não é evidente que, em tais circunstâncias, todo homem que não está obrigado a casar-se por razões físicas ou morais é chamado a imitar o exemplo desse apóstolo desinteressado, pelos mesmos motivos de prudência e de amor? Esse pregador incansável, sempre em missão, julgou conveniente permanecer solteiro até o fim dos seus dias. Mas, se tivesse sido fixado numa igreja em particular; se ali tivesse sentido quanto importa a um ministro não tentar os outros nem ser ele mesmo tentado; e se tivesse sabido quanta ajuda uma mulher modesta, previdente e piedosa é capaz de prestar a um pastor, cuidando das mulheres do seu rebanho, provavelmente teria aconselhado todo pastor residente a entrar no estado do matrimônio, contanto que escolhesse pessoas regeneradas, capazes de edificar a igreja, à imitação de Febe, diaconisa de Cencreia, e de Pérside, tão querida de São Paulo por causa dos seus trabalhos no Senhor (Rm 16.1, 12); ou seguindo o exemplo daquelas quatro virgens, filhas de Filipe, que edificavam, exortavam e consolavam os fiéis com os seus discursos piedosos (At 21.9).1 A doutrina cristã sobre esse ponto pode ser reduzida aos seguintes tópicos. 1. Em tempos de grande aflição e de perseguições cruéis, os seguidores de Cristo devem abster-se do casamento, a menos que a ele sejam obrigados por razões particulares e fortes (Mt 24.19). 2. Os fiéis que pretendem abraçar o estado nupcial devem ter o cuidado de não se unir, de modo algum, a pessoas que não se distingam pela seriedade e pela piedade (2Co 6.14). 3. Se um homem se casou antes de se converter, ou se, já convertido, se enganou ao escolher uma mulher que supunha piedosa mas descobre ser mundana, em vez de separar-se da esposa, em qualquer desses casos, é chamado antes a empregar toda a diligência para levá-la a conhecer a verdade que está em Jesus (1Co 7.16). 4. Os missionários não devem casar-se, a menos que haja necessidade absoluta. 5. O bispo, ou pastor residente, é geralmente chamado ao estado do matrimônio (1Tm 3.12; Tt 1.6). Por fim, o ministro do evangelho que é capaz de viver no celibato “por causa do Reino dos Céus”, para não ter outro cuidado senão o de pregar o evangelho e atender aos membros do corpo místico de Cristo, esse é sem dúvida chamado a permanecer solteiro. Pois, tendo obtido o dom da continência, está dispensado de dar filhos à igreja segundo a carne, porque gera para ela filhos e filhas espirituais. E esse, em vez de ser honrado como cabeça de uma família particular, deve ser considerado digno de dobrada honra, como pai espiritual na família do seu Senhor (Mt 19.12).
O ardor do seu amor
As paixões são as molas que ordinariamente nos movem. A razão sozinha é fraca demais para nos pôr em movimento tantas vezes quantas o dever exige; mas, quando o amor, essa paixão sagrada dos fiéis, vem em seu auxílio, somos então docemente constrangidos a agir de acordo com as diversas relações que mantemos na vida civil e religiosa. Assim, o Deus da natureza enraizou no coração das mães um terno afeto, que as mantém ansiosamente atentas às necessidades dos filhos. E assim o Espírito de Deus implanta no peito de um bom pastor aquele amor ardente que o leva a velar pelo seu rebanho com a atenção mais afetuosa e incansável. O amor de um pai pelo filho, o apego de uma ama ao menino que cria, a terna afeição de uma mãe pelo seu bebê são outros tantos emblemas empregados nas Santas Escrituras para mostrar a doçura e o ardor desse amor cristão que anima o verdadeiro ministro no cumprimento dos seus diversos deveres. “Vocês sabem muito bem”, diz São Paulo, “que tratamos cada um de vocês como um pai trata os seus filhos, exortando, consolando e admoestando; preferimos ser carinhosos quando estivemos aí com vocês, assim como uma mãe que acaricia os próprios filhos. Assim, com muito afeto, estávamos prontos a lhes oferecer não somente o evangelho de Deus, mas até mesmo a própria vida, porque vocês se tornaram muito amados por nós” (1Ts 2.7-8, 11). “Pois Deus é testemunha da saudade que tenho de todos vocês, no profundo afeto de Cristo Jesus” (Fp 1.8). “Acolham-nos em seu coração, pois vocês estão em nosso coração para, juntos, morrermos e vivermos” (2Co 7.2-3). Os pastores mundanos não podem fazer ideia desse amor ardente que dita uma linguagem tão benevolente e a acompanha de ações que demonstram a sua sinceridade. Essa é uma daquelas coisas misteriosas que são perfeitamente incompreensíveis ao homem natural e que muitas vezes lhe parecem a maior das loucuras. Esse amor fervoroso nos transforma em novas criaturas, pela doce influência que exerce sobre todas as nossas disposições. Essa santa paixão faz o pastor fiel interessar-se profundamente pelas coisas dos seus irmãos em Cristo e o ensina a alegrar-se com os benefícios que eles recebem, como se a sua própria prosperidade estivesse inseparavelmente ligada à deles. “Dou graças ao meu Deus”, escreve o grande apóstolo ao benfeitor dos seus irmãos, “lembrando sempre de você nas minhas orações, porque tenho ouvido falar da fé que você tem no Senhor Jesus e do seu amor por todos os santos. Oro para que a comunhão da sua fé se torne eficaz no pleno conhecimento de todo o bem que há em nós, para com Cristo. Pois, irmão, o seu amor me trouxe grande alegria e consolo, visto que o coração dos santos tem sido reanimado por você” (Fm 4-7). A tristeza e a alegria desse zeloso imitador de Cristo dependiam geralmente das condições variáveis dos fiéis. Quando alguns que antes corriam bem eram vistos a demorar-se pelo caminho ou a desviar-se da senda da vida, ele expressava a mais sincera aflição por causa deles. Há alguns, “dos quais repetidas vezes eu lhes dizia e agora digo, até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo” (Fp 3.18). Por outro lado, o progresso dos crentes era como tutano para os seus ossos e como bálsamo de vida para o seu coração: “Porque nos alegramos quando nós estamos fracos e vocês estão fortes; e a nossa oração é esta: que vocês sejam aperfeiçoados” (2Co 13.9). “Portanto, meus amados irmãos, de quem tenho muita saudade, vocês que são a minha alegria e coroa, sim, meus amados, permaneçam, deste modo, firmes no Senhor.” “Sejam irrepreensíveis e puros, filhos de Deus inculpáveis, preservando a palavra da vida, para que, no Dia de Cristo, eu possa me gloriar de que não corri em vão, nem me esforcei inutilmente” (Fp 4.1; 2.15-16).
Leitor, quem quer que você seja, permita-me fazer-lhe uma pergunta importante. Você conhece esse amor ardente que movia o apóstolo Paulo? Se o amor cristão dele era como um rio rápido e profundo, é o seu ao menos como um riacho corrente cujas águas não faltam? As suas alegrias e as suas tristezas correm no mesmo leito e tendem para o mesmo ponto que as paixões santificadas desse homem benevolente? Diga-me as principais causas da sua satisfação e do seu desgosto, e eu lhe direi se você, como Demas, é filho deste mundo presente, ou concidadão do céu com São Paulo.2
Os seus temores generosos e as consolações que se lhes seguiam
Quando a igreja é ameaçada por uma tempestade, o pastor mundano não teme senão por si mesmo e pelos seus parentes. Mas o verdadeiro ministro, se chega a inquietar-se de temor quando a nau do Senhor é batida pelos ventos, ou parece correr perigo pela conduta imprudente de irmãos falsos ou sem amor, sente muito menos pela sua própria segurança do que pela dos seus companheiros de tribulação. Teme especialmente pelos fracos do rebanho e pelos fiéis expostos a tentações violentas. E esses temores generosos, que provam igualmente o seu santo zelo e o seu amor fraterno, sem lhe roubar toda a alegria, lhe dão frequentes ocasiões de exercitar a sua fé, a sua resignação e a sua esperança. “Em tudo fomos atribulados”, diz São Paulo: “lutas por fora, temores por dentro.” “Temo que, assim como a serpente, com a sua astúcia, enganou Eva, assim também a mente de vocês seja corrompida e se afaste da simplicidade devida a Cristo.” “Tenho receio de que, indo até aí, eu não os encontre na forma em que gostaria de encontrá-los” (2Co 7.5; 11.3; 12.20). “Não podendo esperar mais, enviamos Timóteo para fortalecer e animá-los na fé, a fim de que ninguém se inquiete com essas tribulações. Porque vocês mesmos sabem que fomos designados para isto. Pois, quando ainda estávamos com vocês, predissemos que íamos passar por aflições, o que de fato aconteceu. Foi por isso que, já não me sendo possível continuar esperando, mandei perguntar a respeito da fé que vocês têm, temendo que vocês fossem provados pelo tentador e o nosso trabalho se tornasse inútil” (1Ts 3.1-5).
Embora essas “lutas por fora” e esses “temores por dentro” sejam sempre dolorosos para a carne, são também constantemente proveitosos para a alma. Se por algum tempo sujeitam o verdadeiro ministro à aflição mais aguda, preparam-no no fim para um “forte alento”. Observe como o grande apóstolo se expressa sobre esse ponto: “Porque não queremos, irmãos, que vocês fiquem sem saber que tipo de tribulação nos sobreveio na província da Ásia. Foi algo acima das nossas forças, a ponto de perdermos a esperança até da própria vida. De fato, tivemos em nós mesmos a sentença de morte, para que não confiássemos em nós mesmos, e sim no Deus que ressuscita os mortos, o qual nos livrou e ainda livrará de tão grande morte. Nele temos esperado que ainda continuará a nos livrar” (2Co 1.8-10). “Quero ainda, irmãos, que saibam que as coisas que me aconteceram têm até contribuído para o progresso do evangelho, de maneira que toda a guarda pretoriana e todos os demais sabem que estou preso por causa de Cristo. E os irmãos, em sua maioria, estimulados no Senhor por minhas algemas, ousam falar a palavra com mais coragem” (Fp 1.12-14). Por isso, “nos gloriamos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança, a perseverança produz experiência e a experiência produz esperança. Ora, a esperança não nos deixa decepcionados, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi dado” (Rm 5.3-5). “Bendito seja Deus, o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação! É ele que nos consola em toda a nossa tribulação, para que, pela consolação que nós mesmos recebemos de Deus, possamos consolar os que estiverem em qualquer espécie de tribulação. Porque, assim como transbordam sobre nós os sofrimentos de Cristo, assim também por meio de Cristo transborda o nosso consolo” (2Co 1.3-5).
Se os que são honrados com a comissão de anunciar o evangelho estivessem plenamente convencidos de quão bondoso e poderoso é o Mestre a quem servem, em vez de se alarmarem à vista dos trabalhos e perigos que os aguardam no exercício do seu ministério, estariam preparados para correr todos os riscos ao seu serviço, como soldados corajosos que, combatendo sob os olhos de um príncipe generoso, estão prontos a expor a vida para aumentar a glória dele. Pode convir a bons pastores mostrar menos interesse pela salvação dos seus irmãos do que guerreiros mercenários pela destruição dos inimigos do seu príncipe? E, se os romanos se expunham generosamente à morte para salvar a vida de um concidadão, pela recompensa insignificante de uma coroa cívica, quanto maior grandeza de alma não deveria mostrar um pastor cristão ao resgatar as almas dos seus irmãos de um estado de perdição, pela gloriosa recompensa de uma coroa que não murcha?
O grande motivo da sua glória, e a maneira evangélica com que manteve a sua superioridade sobre os falsos apóstolos
A disposição de um pastor fiel é, em todos os aspectos, diametralmente oposta à de um ministro mundano. Se você observar a conversa de um eclesiástico movido pelo espírito do mundo, vai ouvi-lo insinuar que tem, ou que não lamentaria ter, a precedência entre os seus irmãos, viver na abundância e no esplendor e garantir para si nomeações distintas que aumentassem tanto a sua dignidade quanto a sua renda, sem acrescentar nada de extraordinário aos seus trabalhos pastorais. Vai encontrá-lo ansioso por ser admitido nas melhores rodas e organizando de vez em quando grupos para a caça ou algum outro divertimento vão. Já o verdadeiro pastor exclama, na linguagem de renúncia de si mesmo do grande apóstolo: “Mas longe de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu estou crucificado para o mundo” (Gl 6.14).
Se o ministro realmente formado para presidir na igreja fosse escolhido dentre os seus irmãos e colocado numa cadeira apostólica, ele se tornaria tanto mais humilde quanto mais elevado. Se fosse desprezado e difamado por falsos apóstolos, não apelaria, em defesa da honra do seu caráter, à superioridade dos seus talentos, da sua posição ou da sua missão, mas antes à superioridade dos seus trabalhos, dos seus perigos e dos seus sofrimentos. Assim, pelo menos, São Paulo defendeu a dignidade do seu caráter contra as insinuações injustas dos seus adversários no ministério: “São ministros de Cristo? Falando como se estivesse fora de mim, afirmo que sou ainda mais.” Mas de que maneira procurou provar isso? Foi dizendo: “Tenho um benefício mais rico que a maioria dos ministros; sou doutor, professor de teologia, uso a mitra e moro num palácio episcopal”? Não; em vez disso, usou esta linguagem apostólica: “em trabalhos, muito mais; em prisões, muito mais; em açoites, sem medida; em perigos de morte, muitas vezes. Em viagens, muitas vezes; em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre gentios, em perigos entre falsos irmãos; em trabalhos e fadigas, em vigílias, muitas vezes; em fome e sede, em jejuns, muitas vezes; em frio e nudez. Além das coisas exteriores, ainda pesa sobre mim diariamente a preocupação com todas as igrejas. Quem enfraquece, que eu também não enfraqueça? Quem se escandaliza, que eu não fique indignado? Se tenho de me gloriar, vou me gloriar no que diz respeito à minha fraqueza” (2Co 11.23-30). “Quanto ao mais, ninguém me moleste; porque eu trago no corpo as marcas de Jesus” (Gl 6.17). Tais são os apelos dos santos prelados. Mas um homem gloriar-se de ter obtido um decanato, uma cátedra de professor ou um bispado é, na realidade, vangloriar-se da sua infidelidade à vocação e provar-se indigno da posição a que foi imprudentemente elevado.
Vocês que presidem a casa de Deus, aprendam com o apóstolo Paulo a mostrar a sua verdadeira superioridade. Superem os seus subordinados em humildade, em amor, em zelo, nos seus penosos trabalhos pela salvação dos pecadores, na sua coragem invencível para enfrentar os perigos que ameaçam os seus irmãos e na sua paciência incansável em suportar as perseguições que os discípulos fiéis de Cristo são continuamente chamados a sofrer de um mundo corrompido. Assim vocês substituirão com honra os primeiros prelados cristãos e restituirão felizmente à igreja a sua dignidade primitiva.
A sua paciência e fortaleza nas provações mais duras
O amor “não se irrita”, mas, ao contrário, “não se ressente do mal”. Cheio de paciência e mansidão, Cristo se distinguiu pelo seu amor abundante para com aqueles de quem recebeu o tratamento mais cruel. Assim também se distinguem os ministros de Cristo, que, conforme são mais ou menos corajosos e incansáveis na obra do ministério, podem adotar com mais ou menos propriedade esta declaração de São Paulo: “Quando somos insultados, bendizemos; quando somos perseguidos, suportamos; quando somos caluniados, procuramos conciliação. Até agora, temos chegado a ser considerados lixo do mundo, escória de todos” (1Co 4.12-13). “Não queremos dar nenhum motivo de escândalo em coisa alguma, para que o ministério não seja censurado. Pelo contrário, em tudo nos recomendamos a nós mesmos como ministros de Deus: na muita paciência, nas aflições, nas privações, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns, na pureza, no saber, na paciência, na bondade, no Espírito Santo, no amor não fingido, na palavra da verdade, no poder de Deus; pelas armas da justiça, tanto para atacar como para defender”, que nos capacitam a atacar o erro e o vício enquanto nos protegem dos seus assaltos; “por honra e por desonra, por infâmia e por boa fama; como enganadores e sendo verdadeiros; como desconhecidos, mas sendo bem-conhecidos; como se estivéssemos morrendo, mas eis que vivemos; como castigados, porém não mortos; como entristecidos, mas sempre alegres; como pobres, mas enriquecendo a muitos; como nada tendo, mas possuindo tudo” (2Co 6.3-10).
Longe de se desanimar com as provações que lhe sobrevêm, o verdadeiro ministro se dispõe, em tais circunstâncias, a orar com maior fervor; e, conforme o ardor e a constância das suas orações, assim são os graus de fortaleza e paciência que alcança. “Porque não recebemos”, diz São Paulo, “um espírito de escravidão, para vivermos outra vez atemorizados, mas recebemos o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: ‘Aba, Pai.’ O próprio Espírito”, no meio de todas as nossas angústias, “confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus. Da mesma maneira, também o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza. Porque não sabemos orar como convém, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.15-16, 26). “Três vezes pedi ao Senhor que afastasse de mim esta provação. Então ele me disse: ‘A minha graça é o que basta para você, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza.’ Por isso, sinto prazer nas fraquezas, nos insultos, nas privações, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então é que sou forte” (2Co 12.8-10). “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.13).
Que vantagem, que honra é trabalhar a serviço de um Mestre tão bondoso e poderoso! Pelo poder com que governa o mundo, ele dispõe todas as coisas para que cooperem “para o bem daqueles que amam a Deus”. As suas tristezas mais pungentes são seguidas de consolações especiais; o opróbrio da cruz os prepara para as honras de uma coroa; e as chamas em que às vezes são vistos arder tornam-se como aquele carro de fogo que levou Elias triunfalmente para longe da fúria de Jezabel.
1. O cuidado dos ministros em escolher companheiras que não atrapalhem o êxito do seu ministério é de tão grande importância que, em alguns países, se supõe que a conduta da esposa do pastor, assim como a do próprio pastor, edifica ou desencaminha o rebanho. Mais ainda: o próprio ministro é muitas vezes condenado pelas faltas da esposa. Assim, nas igrejas protestantes da Hungria, depõem o pastor cuja esposa se entrega às cartas, à dança ou a qualquer outro divertimento público que revele a leviandade de quem ama o mundo, e não a gravidade de uma matrona cristã. Essa severidade nasce da suposição de que a mulher, tendo prometido obediência ao marido, nada pode fazer senão o que ele ordena ou aprova. Daí concluem que, como o exemplo tem mais influência que o preceito, a esposa de um ministro, se for inclinada ao mundo, pregará a condescendência com o mundo com mais êxito pela sua conduta do que o marido pode pregar a renúncia ao mundo pelos discursos mais solenes. E a incredulidade do rebanho escandalizado será sempre a consequência dessa infeliz incoerência que se observa entre as instruções sérias de um ministro bem-intencionado e a conduta frívola de uma mulher a quem ele está tão intimamente ligado. Nem faltam ordenanças apostólicas suficientes para apoiar o exercício dessa disciplina severa: Do mesmo modo, é necessário que as esposas deles sejam respeitáveis, não maldizentes, moderadas e fiéis em tudo. Que o bispo ou o diácono governe bem a própria casa, criando os filhos, e toda a sua família, sob disciplina, com todo o respeito. Pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus? (1Tm 3.4-5, 11) [N. do T.: no versículo 11, a NAA traz “quanto a mulheres”, onde a versão inglesa traz “their wives” (as esposas deles)].
2. Você tem mais alegria quando a sua pregação aumenta a sua renda do que quando vê uma ovelha desgarrada conduzida ao caminho certo? Então conclua que você prega mais por Mamom do que por Cristo. Sr. Roques.
Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Portrait of St. Paul: or, The True Model for Christians and Pastors, versão inglesa de Joshua Gilpin (1790) do manuscrito francês do autor, na edição de Nova York (B. Waugh e T. Mason, 1834), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Por isso esta é tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.