John Fletcher · O Retrato de São Paulo · Parte I, traços XIX a XXVI

O amor que socorre, a coragem e a prudência de São Paulo

O amor de Paulo pelos que conhecia só de ouvir falar, pelos pobres e pelos pecadores, a sua humilde condescendência, a coragem na defesa da verdade, a prudência diante dos inimigos e o amor que sabia repreender e consolar.

Traço XIX

Seu amor pelos que ele só conhecia de ouvir falar

Embora o verdadeiro ministro tenha um interesse especial por tudo o que diz respeito à salvação de seus compatriotas, sua benevolência cristã está longe de se confinar aos estreitos limites de um país. Ele deseja levar o nome do seu Salvador até os confins da terra; e, se não pode fazê-lo pessoalmente, há de fazê-lo ao menos por seus desejos ardentes e por suas orações constantes. Se a Providência ainda não o fixou numa igreja particular, ele escreve, à maneira de São Paulo, aos habitantes dos países mais distantes: “Quero que vocês saibam, irmãos”, que me considero “devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a insensatos. Por isso, quanto a mim, estou pronto a anunciar o evangelho também a vocês que estão em Roma”, onde o erro e a impiedade fixaram seu trono. “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.13-16). Se escreve a convertidos estrangeiros cuja fé é conhecida publicamente no mundo, declara-lhes seu apego sincero e seu ardente desejo de lhes prestar toda assistência espiritual, em termos como estes: “Pois Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu Filho, é minha testemunha de como nunca deixo de fazer menção de vocês em todas as minhas orações, pedindo que, em algum momento, pela vontade de Deus, surja uma oportunidade de visitá-los. Porque desejo muito vê-los, a fim de repartir com vocês algum dom espiritual, para que vocês sejam fortalecidos, isto é, para que nos consolemos uns aos outros por meio da fé mútua: a de vocês e a minha” (Rm 1.9-12).

Se o apóstolo Paulo, quando conhecia os romanos apenas de ouvir falar, exprimiu um desejo tão ardente de vê-los com o único fim de incentivá-los a buscar graus mais elevados de fé e de piedade, qual será a disposição dos ministros que não sentem desejos dessa natureza nem mesmo pelos membros do seu próprio rebanho? E em que grande erro estão os cristãos que se reúnem com frequência, em suas casas ou em lugares mais públicos, justamente para esquecerem juntos as restrições da piedade, perderem tempo em conversas frívolas e rebaixarem o espírito com divertimentos pueris! Mais ainda: se a nova natureza dos regenerados desperta neles pela salvação do próximo aquele vivo interesse que São Paulo manifestou pela salvação dos que habitavam as partes mais remotas da terra, fica bem aos fiéis sufocar os impulsos desse zelo louvável que só o amor cristão pode inspirar? E, se há entre nós mestres dignitários que, longe de apoiar um zelo tão necessário em nossos dias, estão antes dispostos a apagar as primeiras faíscas dele onde quer que apareçam, a quem se pode dizer que tomam por modelo: Paulo, o apóstolo, ou Saulo, o fariseu? Sem dúvida Saulo, o agente de uma seita fanática e perseguidor declarado dos fiéis.

Traço XX

Seu amor pelos pobres, dando-lhes ou buscando para eles socorro material

Embora nosso Senhor tenha vindo principalmente para salvar as almas dos pecadores, de modo algum se esquecia de seus corpos. “Andou por toda parte, fazendo o bem”, no sentido mais amplo, aliviando a cada dia, com igual cuidado, as enfermidades corporais e espirituais do povo. Assim, depois de distribuir a Palavra de Deus aos que tinham fome e sede de justiça, mostrou-se ansiosamente preocupado com o sustento daqueles seguidores que não sentiam outras necessidades senão as de natureza material: “Tenho compaixão desta gente, porque já faz três dias que eles estão comigo e não têm o que comer”; e, não contente em apenas manifestar sua preocupação com as necessidades corporais deles, operou um milagre espantoso para socorrê-los de imediato (Mc 8.2). O verdadeiro ministro imita de bom grado a conduta de seu bondoso Mestre, com atenção rigorosa e afetuosa às necessidades espirituais e materiais de seu povo. “Tiago, Cefas e João”, diz São Paulo, “estenderam a mim e a Barnabé a mão direita da comunhão, a fim de que nós fôssemos para os gentios. Somente recomendaram que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer” (Gl 2.9-10).

Quando a generosidade de São Paulo para com os irmãos necessitados era tolhida por sua própria pobreza extrema, ele empregava os meios mais eficazes para obter em favor deles as dádivas generosas de seus companheiros mais ricos na fé do evangelho. As passagens seguintes, tiradas de suas epístolas, bastam para prová-lo: “Irmãos”, não posso deixar de informá-los “a respeito da graça de Deus que foi concedida às igrejas da Macedônia. Porque, no meio de muita prova de tribulação, manifestaram abundância de alegria, e a profunda pobreza deles transbordou em grande riqueza de generosidade. Porque posso testemunhar que, na medida de suas posses e mesmo acima delas, eles contribuíram de forma voluntária, pedindo-nos, com insistência, a graça de participarem dessa assistência aos santos. Mas como em tudo vocês manifestam abundância, na fé, na palavra, no saber, em toda dedicação e em nosso amor por vocês, esperamos que também nesta graça vocês manifestem abundância. Digo isto em vista da dedicação de outros, e para provar se o amor de vocês é sincero. Pois vocês conhecem a graça do nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vocês, para que, por meio da pobreza dele, vocês se tornassem ricos. Por isso, diante das igrejas, comprovem o amor de vocês e confirmem o orgulho que temos de vocês” (2Co 8.1-4, 7-9, 24).

Ainda não satisfeito com esses pedidos insistentes em favor dos pobres, o apóstolo prossegue assim, reforçando suas instâncias: “Portanto, julguei necessário recomendar aos irmãos que me precedessem na visita a vocês e preparassem de antemão a oferta que vocês prometeram, para que esteja pronta como expressão de generosidade e não de avareza. E isto afirmo: aquele que semeia pouco também colherá pouco; e o que semeia com fartura também colherá com fartura. Deus ama quem dá com alegria. Deus pode tornar abundante em vocês toda graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, ampla suficiência, vocês sejam abundantes em toda boa obra, como está escrito: ‘Distribuiu, deu aos pobres, a sua justiça permanece para sempre.’ E Deus, que dá semente ao que semeia e pão para alimento, também suprirá e aumentará as sementes e multiplicará os frutos da justiça de vocês. Assim, vocês serão enriquecidos em tudo para toda generosidade, a qual, por meio de nós, resulta em orações de gratidão a Deus. Porque o serviço desta assistência não só supre a necessidade dos santos, mas também transborda em muitas orações de gratidão a Deus. Na prova deste serviço, eles glorificam a Deus pela obediência da confissão que vocês fazem do evangelho de Cristo e pela generosidade com que vocês contribuem para eles e para todos” (2Co 9.5-13). Quem poderia recusar alguma coisa a um ministro piedoso que defende a causa dos pobres com toda essa dignidade, simplicidade e zelo apostólicos?

Depois de obter esmolas para os pobres, o apóstolo Paulo evitava cuidadosamente qualquer suspeita de se apropriar de parte delas para aliviar as próprias necessidades, e tinha igual cuidado para que nunca fossem mal empregadas pela infidelidade dos encarregados de distribuí-las. Um de nossos irmãos, acrescenta o apóstolo, “foi eleito pelas igrejas para ser nosso companheiro” de viagem “no desempenho desta graça ministrada por nós, para a glória do próprio Senhor e para mostrar a nossa boa vontade. Queremos evitar, assim, que alguém nos acuse por causa desta generosa dádiva administrada por nós; pois cuidamos para fazer o que é correto, não só diante do Senhor, mas também diante das pessoas” (2Co 8.19-21). Mencionando outra vez sua ocupação favorita, ele escreve a uma igreja distante: “Mas agora estou de partida para Jerusalém, a serviço dos santos. Porque a Macedônia e a Acaia resolveram levantar uma coleta em benefício dos pobres dentre os santos que vivem em Jerusalém. Tendo, pois, concluído isto e havendo-lhes consignado este fruto, irei à Espanha, passando por aí. Irmãos, peço que lutem juntamente comigo nas orações a Deus a meu favor, para que eu me veja livre dos rebeldes que vivem na Judeia, e que este meu serviço em Jerusalém seja bem-aceito pelos santos” (Rm 15.25-31).

Servir assim às igrejas, e em especial cuidar assim dos pobres, é merecer o nome de ministro fiel.

Traço XXI

Seu amor pelos pecadores, oferecendo-lhes todo socorro espiritual

Pedir esmolas para os que não têm alimento nem roupa e, ao mesmo tempo, negar a Palavra de Deus aos que “têm fome e sede de justiça” é mostrar uma triste incoerência de caráter. Tais incoerências, porém, encontram-se com frequência até entre pastores que se gabam de sua disposição para obras de benevolência e caridade.

O homem tem uma alma imortal. Essa alma, que é propriamente ele mesmo, tornou-se pela desobediência tão inteiramente ignorante e tão completamente miserável que procura enriquecer-se com as vaidades do mundo e satisfazer suas inclinações com as imundícies do pecado. Compadecido da alma nesse estado de miséria, um Deus compassivo lhe propõe as verdades do evangelho como remédio sagrado, adequado à natureza de suas inúmeras necessidades: elas iluminam os cegos com luz e conhecimento espirituais; vestem os nus com o manto da justiça; alimentam os famintos; curam os doentes; rompem as cadeias dos cativos; dão vida eterna aos que estão mortos em delitos e pecados; numa palavra, fazem-nos participantes da grande salvação de Deus. Publicar esse evangelho, portanto, ou providenciar que ele seja pregado aos pecadores, é sem dúvida dar-lhes uma prova importante da mais excelente caridade; ao passo que recusar-lhes a Palavra de Deus, ou evitar qualquer ocasião de ministrá-la, é negar-lhes, de modo absoluto ou ocasional, as esmolas e os socorros espirituais que o Salvador do mundo designou para o seu alívio diário. O pastor que procede dessa maneira imprópria se parece com um médico, ou com um esmoler, que, tendo recebido de seu príncipe o encargo de suprir os pobres de alimento ou os doentes de remédio, não só se recusa a cumprir com diligência e imparcialidade o seu dever reconhecido, mas se opõe tenazmente aos que procuram suprir a sua falta de serviço. Tal ministro parece sustentar um sistema tão absurdo e cruel quanto seria o de um desses personagens a que acabamos de aludir, se pretendesse que ninguém tem autoridade para dar esmola aos pobres ou remédio aos doentes, senão os que recebem pensão do príncipe para esse fim; e que mesmo estes agiriam de modo desordenado se ousassem distribuir esmolas ou remédios fora do domingo, e ainda assim só em horas determinadas.

Enquanto um pastor busca a própria glória, estará sujeito a algum grau daquele ciúme desprezível que não lhe permite ver com prazer os trabalhos mais abundantes e bem-sucedidos de seus irmãos. Mas o ministro fiel de Cristo, cujo principal desejo é a prosperidade da igreja, é movido por um espírito totalmente diferente. Embora tenha especial satisfação em ver o êxito de seus próprios trabalhos espirituais, quando ouve o evangelho anunciado por outros, mesmo por pessoas aparentemente movidas por motivos indignos, alegra-se muito com o êxito delas. Seu amor, que não inveja a prosperidade alheia nem busca a sua vantagem particular, exprime-se sobre assunto tão delicado na linguagem de São Paulo: “É verdade que alguns proclamam Cristo por inveja e rivalidade, pensando que assim podem aumentar meu sofrimento na prisão. Mas que importa? Uma vez que, de uma forma ou de outra, Cristo está sendo pregado, seja com fingimento, seja com sinceridade, também com isto me alegro; sim, sempre me alegrarei” (Fp 1.15-18).

Movidos pela inveja, ou insensibilizados pela mornidão, os ministros mundanos são completamente estranhos ao prazer generoso de que fala aqui o apóstolo; e não têm a menor ideia de agir de modo criminoso quando não permitem que as verdades do evangelho sejam livremente anunciadas por todos os que estão dispostos a proclamá-las.

O bom pastor, seja qual for o nome pelo qual se distinga, vive só para anunciar o evangelho e converter as almas confiadas a seus cuidados. Impedi-lo, então, de se dedicar a esses trabalhos importantes é desviá-lo à força do verdadeiro fim de sua vocação, e deve parecer a todo espírito esclarecido um ato de crueldade maior do que impedir o rico de dar esmolas, ou deter um nadador experiente que vai salvar seus irmãos que se afogam. Se um pastor assim, em algum período de sua vida, agiu como monopolizador do evangelho e, negando aos “pobres de espírito” o que lhes fora dado gratuitamente para o seu sustento, provocou em algum lugar uma “fome” de “ouvir as palavras do Senhor”, ele se considera muito mais culpado do que aqueles mercadores avarentos que, formando um monopólio de cereais nas Índias Orientais, provocaram naquele país uma fome terrível, na qual pereceu uma multidão incontável de seus habitantes. Aqueles homens cobiçosos negaram aos corpos de seus semelhantes um alimento perecível; mas ele negou às almas de seus irmãos o maná precioso que poderia tê-las preservado para a vida eterna. Tal era o crime daqueles a quem nosso Senhor dirigiu estas palavras: “Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas, porque vocês fecham o Reino dos Céus diante das pessoas; pois vocês mesmos não entram, nem deixam entrar os que estão entrando!” (Mt 23.13). Observe o que São Paulo pensava de tais pessoas. A respeito daqueles judeus, diz ele: “os quais não somente mataram o Senhor Jesus e os profetas, como também nos perseguiram, não agradam a Deus e são adversários de todos, a ponto de nos impedirem de falar aos gentios para que estes sejam salvos”, enchendo assim a medida de seus pecados: “A ira, porém, caiu sobre eles, definitivamente” (1Ts 2.15-16).

Se o caráter que o apóstolo descreve aqui era odioso num judeu, sem dúvida o é ainda mais num cristão, e duplamente detestável num ministro do evangelho, cujo coração deveria estar sempre animado de um desejo ardente pela conversão dos pecadores e pela salvação de toda a humanidade. Se os que se distinguem por esse traço do caráter do Anticristo pudessem descobrir a torpeza de sua própria conduta, reconheceriam ser muito mais culpados do que o ladrão que arrancasse de um mendigo faminto o pedaço de pão que ele mendigou na sua aflição. Declarariam sem hesitar que a ama de leite que descuida da criança que se comprometeu a criar, e impede as vizinhas caridosas de lhe dar qualquer alimento, é ainda mais desculpável do que o pastor que, não contente em se recusar a alimentar o rebanho de Cristo, procura dispersar as ovelhas onde quer que as encontre pastando, buscando acusações contra os que as conduziram a um pasto refrescante, e esforçando-se por todos os meios para tirar o evangelho dos pecadores arrependidos que, “como crianças recém-nascidas”, desejam “o genuíno leite espiritual, para que, por ele, lhes seja dado crescimento” (1Pe 2.2).

Feliz a época em que já não se encontrarão pastores cristãos que, como os escribas no tempo de São Paulo, se esforcem por encher a medida de suas iniquidades! Então a verdade e a piedade já não serão tolhidas pelos grilhões do preconceito e do fanatismo! Então os fiéis adorarão a Deus e anunciarão o evangelho com a mesma liberdade com que os dissolutos se entregam aos divertimentos do século, ou os maldosos à difamação do próximo!

Traço XXII

A cativante condescendência do seu amor humilde

O amor evita toda aparência de altivez e nunca é visto agindo de modo inconveniente. Pelo contrário, cheio de cortesia, receia ofender a quem quer que seja; e, cheio de benevolência, trabalha pela edificação de todos. Assim, o pastor que tem amor não pode agir senão com santa condescendência para com todos, e especialmente para com os ignorantes e os pobres, com quem os ministros do século atual mal se dignam conversar; e, sem nunca escorregar para dentro do poço do erro, às vezes se aproxima dele, com feliz mistura de compaixão e prudência, para socorrer os que não conseguem sair dele sozinhos. “Porque, sendo livre de todos”, escreve São Paulo, “fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível. Para com os judeus, fiz-me como judeu, a fim de ganhar os judeus; aos sem lei, como se eu mesmo o fosse, para ganhar os que vivem sem uma lei escrita. Fiz-me fraco para com os fracos, a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, a fim de, por todos os modos, salvar alguns. Tudo faço por causa do evangelho” (1Co 9.19-23). “‘Todas as coisas são lícitas'”, continua ele, “mas nem todas convêm; ‘todas as coisas são lícitas’, mas nem todas edificam” (1Co 10.23). “E, deste modo, pecando contra os irmãos, ferindo a consciência fraca que eles têm, é contra Cristo que vocês estão pecando. E, por isso, se a comida serve de escândalo ao meu irmão, nunca mais comerei carne, para que não venha a escandalizá-lo” (1Co 8.12-13). “Portanto, se vocês comem, ou bebem ou fazem qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus. Assim também eu procuro, em tudo, ser agradável a todos, não buscando o meu próprio interesse, mas o de muitos, para que sejam salvos” (1Co 10.31, 33).

Eis a doce prudência do amor que nosso Senhor recomendou aos discípulos quando mostrou a insensatez de pôr vinho novo em odres incapazes de resistir à força do líquido em fermentação. E ele mesmo lhes deu um exemplo marcante dessa discrição afetuosa quando disse: “Tenho ainda muito para lhes dizer, mas vocês não o podem suportar agora.” Se esse porte condescendente era amável no bendito Jesus, sempre parecerá amável em seus humildes imitadores, que podem dizer com o apóstolo Paulo aos membros mais fracos da igreja: “Eu lhes dei leite para beber; não pude alimentá-los com comida sólida, porque vocês ainda não podiam suportar” (1Co 3.2).

É preciso, porém, ter especial cuidado para que essa condescendência caridosa nunca traia os interesses da verdade e da virtude. “Abstenham-se”, diz São Paulo, “de toda forma de mal” (1Ts 5.22). “Sejam meus imitadores, como também eu sou imitador de Cristo” (1Co 11.1). Pois “me esforço por ter sempre uma consciência pura diante de Deus e dos homens” (At 24.16). E “a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência de que com simplicidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria humana, mas na graça divina, temos vivido no mundo, especialmente em relação a vocês”, entre os quais trabalhamos no evangelho (2Co 1.12).

Se existem pastores a quem falta essa condescendência para com os pobres, ou que são desprovidos daquele amor humilde capaz de se familiarizar com os mais ignorantes para a edificação e o conforto deles; se há ministros que são sempre servilmente complacentes com os ricos e destituídos de santa firmeza na presença dos grandes, em vez de se conduzirem com aquela mistura de humildade e dignidade que convém ao caráter que sustentam, que uns e outros se convençam do grave erro em que caíram, contemplando este traço oposto no caráter de São Paulo.

Em que se funda a distinção humilhante que geralmente se faz entre ricos e pobres? Cristo se manifestou num estado de grandeza terrena? Não andou ele sobretudo com os pobres? Longe de lisonjear os ricos, não deu a entender que eles entrariam no Reino de Deus com a maior dificuldade? Não afirmou que seria melhor alguém ser lançado ao mar com uma pedra de moinho ao pescoço do que escandalizar o mais pobre dos crentes? Não declarou que consideraria a atenção dada ao menor de seus seguidores como se ele mesmo tivesse sido o seu objeto direto? Quando São Tiago nos assegura que “aquele que converte o pecador do seu caminho errado” realiza a melhor de todas as boas obras possíveis, porque, impedindo uma multidão de pecados, põe a alma no caminho de todas as virtudes, pode-se supor que essa declaração perca algo de sua força quando aplicada à alma de um pobre? Não são os mais humildes dos homens tão imortais quanto os mais elevados? Não se humilhou Cristo até a morte de cruz tanto pelos pobres quanto pelos ricos? “Por acaso Deus não escolheu os que para o mundo são pobres para serem ricos em fé e herdeiros do Reino?” E, por fim, os anjos estiveram menos prontos a levar ao paraíso a alma do miserável Lázaro do que a do rico Abraão? Pereça, pois, para sempre esse preconceito anticristão que desonra os pobres, alimenta o orgulho dos ricos e nos leva a violar aquele grande mandamento por cuja transgressão nos tornamos tão culpados como se tivéssemos transgredido toda a lei, cujo espírito é o amor. E lembremo-nos de que só sobre as ruínas de uma parcialidade tão desprezível pode nascer a cativante condescendência de que São Paulo nos deixou exemplo tão amável.

Traço XXIII

Sua coragem na defesa da verdade oprimida

“O amor se alegra com a verdade” (1Co 13.6). Essas duas amáveis companheiras estão estreitamente unidas e se sustentam mutuamente. É possível, porém, quando um erro conta com o apoio de muitas pessoas respeitáveis por sua sabedoria, idade, posição, trabalhos ou piedade, que um cristão sincero seja tentado a sacrificar a verdade à autoridade, ou melhor, a uma caridade mal entendida. Mas o pastor esclarecido, revestindo-se da firmeza de São Paulo, nunca se deixará iludir pela aparência das pessoas ou das coisas; e, ainda que se veja sozinho do lado das verdades evangélicas, não temerá, mesmo só, apresentar-se como seu defensor modesto e zeloso.

Nessas circunstâncias, o ministro morno perde toda a coragem. Eis o seu pretexto habitual para a pusilanimidade de sua conduta: “Estou só; que êxito posso esperar numa empresa tão difícil? Os partidários desse erro são pessoas que amo e honro. Alguns deles me mostraram grande bondade, e outros têm crédito suficiente para indispor o mundo contra mim. Além disso, seria considerado presunção da minha parte, mais fraco que um caniço, opor-me a uma torrente que derruba as colunas mais fortes da igreja.” É assim que ele se desculpa da timidez de sua conduta nas situações em que seu amor à verdade é publicamente posto à prova, sem considerar que raciocinar desse modo é esquecer de uma só vez a onipotência de Deus, a força da verdade e o valor indizível das almas que o erro pode envenenar e destruir.

O ministro fiel, ao contrário, que em todas as ocasiões se alegra com a verdade, sem ir “consultar outras pessoas”, recusa com coragem o jugo de qualquer erro que evidentemente traga consequências más. Nas situações mais difíceis desse gênero, imita a conduta do grande apóstolo que, vendo um erro vergonhoso abrir caminho na igreja, se pôs na brecha e deu vazão aos impulsos do seu zelo honesto, como se conta na passagem seguinte: “Falsos irmãos se haviam infiltrado para espreitar a liberdade que temos em Cristo Jesus e nos reduzir à escravidão. A esses não nos submetemos por um instante sequer, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vocês. Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe face a face, porque havia se tornado repreensível. De fato, antes de chegarem alguns da parte de Tiago, ele comia com os gentios; quando, porém, chegaram, começou a afastar-se e, por fim, separou-se, temendo os da circuncisão. E também os demais judeus se fizeram hipócritas juntamente com ele, a ponto de o próprio Barnabé”, sob o pretexto especioso de não escandalizar o próximo, “ter-se deixado levar pela hipocrisia deles. Quando, porém, vi que não procediam corretamente segundo a verdade do evangelho, eu disse a Cefas, na presença de todos: ‘Se você, que é judeu, vive como gentio e não como judeu, por que quer obrigar os gentios a viverem como judeus?'” (Gl 2.4-5, 11-14).

Essa repreensão justa é, talvez, uma das maiores provas que São Paulo jamais deu da retidão de sua intenção e da firmeza de sua resolução.

Homens íntegros! Vocês que experimentaram quanto custa defender os direitos da verdade quando eles se opõem àquela deferência que o amor condescendente nos obriga a mostrar, em mil ocasiões, à autoridade respeitável, só vocês são capazes de julgar devidamente a santa violência que São Paulo exerceu naquela ocasião. Mas, seja o que for que tenham de sofrer por causa tão honrosa, felizes os cristãos, e duplamente felizes os pastores, que têm tão grande amor pela verdade e tão verdadeiro amor por seus irmãos que estão prontos a todo tempo, com esse apóstolo fiel, a sacrificar aos interesses do evangelho toda consideração inferior, todo temor servil e toda esperança mundana.

Traço XXIV

Sua prudência em frustrar os planos de seus inimigos

Não há espécie de calúnia que os incrédulos não tenham levantado para tornar o cristianismo odioso ou desprezível. Segundo a opinião desses homens, adotar as máximas da paciência evangélica revela falta de sensibilidade, e regular nossa conduta pelos ditames da prudência cristã é fazer papel de hipócrita. O que temos a dizer neste lugar se refere sobretudo à segunda acusação.

Os incrédulos modernos afirmam que a mansidão e a paciência que o evangelho exige de seus seguidores devem necessariamente fazer deles joguetes dos homens ardilosos e levá-los, sem resistência, às armadilhas de seus perseguidores. Mas tirar essa conclusão de umas poucas passagens da Escritura, entendidas em sentido literal demais, é pôr a verdade em contradição consigo mesma, só para atribuir aos cristãos todo o mal que, segundo se presume, eles poderiam ter evitado pela prudência ou vencido pela firmeza. O exemplo de nosso Senhor e o de São Paulo poderiam ter corrigido as ideias dos críticos sobre esse ponto. Quando Cristo exortou seus discípulos a serem “simples como as pombas”, advertiu-os ao mesmo tempo a serem “prudentes como as serpentes”; e ele mesmo deu um exemplo marcante dessa sabedoria inofensiva quando os judeus o interrogaram sobre a licitude de pagar tributo a César. Conhecendo bem os diferentes sentimentos daquele povo a respeito do jugo romano, sem combater diretamente os preconceitos de nenhum partido, deu uma resposta satisfatória a todos, por uma conclusão tirada da “figura” e da “inscrição” gravadas na moeda corrente: “Deem, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22.21).

O cristão sincero e o ministro fiel têm muitas vezes necessidade dessa feliz prudência, assim como São Paulo, que mais de uma vez a empregou com êxito. Os judeus, irritados contra esse apóstolo, procuravam ocasião de matá-lo por causa do zelo com que ele anunciava o evangelho entre os gentios. Esperando abrandar os preconceitos que tinham contra a sua conduta, ele lhes contou como Jesus, ressuscitado dos mortos e aparecendo-lhe de modo extraordinário, o enviara expressamente aos gentios (At 22.21). Os judeus, então, mais irritados do que antes, o teriam despedaçado se ele não tivesse sido arrancado de suas mãos pela guarnição romana. Desse modo Paulo foi preservado para uma audiência mais pacífica. E, no dia seguinte, comparecendo diante do conselho judaico, e percebendo que a assembleia se compunha em parte de saduceus, que dizem “que não há ressurreição, nem anjo, nem espírito”, e em parte de fariseus, que creem igualmente na existência dos espíritos e na ressurreição do corpo, aproveitou-se de imediato dessa circunstância e exclamou: “Irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseus. Estou sendo julgado por causa da esperança e da ressurreição dos mortos!” (At 23.6). Como se dissesse: A grande causa da violenta perseguição levantada agora contra mim é que eu prego “Jesus e a ressurreição”. Nossos pais, é verdade, não tinham plena certeza de uma vida futura; mas a importante doutrina da ressurreição, e do juízo que se seguirá a ela, está agora demonstrada, pois Deus deu uma prova incontestável dela ressuscitando dentre os mortos o seu Filho Jesus. E eu mesmo fui testemunha ocular da sua ressurreição, pois ele me apareceu duas vezes: uma quando eu viajava para Damasco, e outra, depois, quando eu orava no templo. Mas, quando mencionei essa segunda aparição do Salvador ressuscitado, meus acusadores incrédulos começaram a gritar com veemência: “Fora com ele! Ele não merece viver!” Por essa exposição justa dos fatos, e por ter escolhido com prudência “a ressurreição de Cristo” dentre as outras grandes doutrinas do cristianismo, São Paulo conseguiu felizmente dividir os seus juízes. E o resultado correspondeu à sua expectativa, pois “levantando-se alguns escribas que eram do partido dos fariseus, discutiam, dizendo: Não achamos neste homem mal algum. E se, de fato, algum espírito”, isto é, um homem ressuscitado dentre os mortos, “ou anjo falou com ele, não lutemos contra Deus” (At 23.9). Há ainda outro exemplo da sabedoria da serpente conciliada com a inocência da pomba na conduta desse apóstolo, quando, observando a disposição de seus juízes atenienses, aproveitou-se do gosto deles pela novidade, anunciando-lhes o “Deus Desconhecido”, a quem eles já tinham erguido um altar (At 17).

Essa prudência cristã, tão distante da duplicidade dos hipócritas quanto da estupidez dos tolos, merece um lugar entre os traços que caracterizam esse grande apóstolo, não só porque é digna de nossa imitação, mas também porque foi indiretamente apresentada por um Celso moderno como pura astúcia e artifício. O autor a que aqui aludimos, que merece antes o nome de grande poeta do que o de pintor fiel, tendo desfigurado esse traço do caráter de São Paulo com um pincel molhado no fel do preconceito, aproveitamos de bom grado esta ocasião para mostrar a injustiça de suas imputações, lançadas de modo tão mesquinho tanto contra o próprio cristianismo quanto contra o mais eminente de seus defensores. Esse filósofo espirituoso, que disse tantas coisas boas contra o espírito de perseguição, nunca percebeu que ele mesmo era movido por um espírito intolerante: tão verdade é que os mais sagazes estão sujeitos a ser cegados pela paixão ou pelo preconceito. O mesmo espírito de perseguição que levou os atenienses a desaprovar a justiça de Aristides como singularidade perigosa, e a punir a piedade de Sócrates como espécie de ateísmo, levou o autor do Dicionário Filosófico a apresentar a prudência de São Paulo como duplicidade de hipócrita. [N. do T.: alusão a Voltaire, autor do Dictionnaire philosophique (1764).]

Se esse juiz severo tivesse ocupado a cadeira de Ananias, talvez, com uma liberalidade afetada, tivesse feito vista grossa às particularidades do credo do apóstolo; mas, no fim, sua aversão inata à piedade o teria ajudado, segundo o costume geral dos perseguidores, a inventar algum motivo justo para tratá-lo com o máximo rigor. E foi o que ele fez em nossos dias, tanto quanto as circunstâncias lhe permitiram: não podendo desonrá-lo pela mão de um carrasco público, procurou fazê-lo com a pena, roubando-lhe não só a reputação de piedade extraordinária, mas até o direito à honestidade comum.

Perseguidor, seja você quem for, contente-se com o fato de seus predecessores terem tirado a vida dos justos, e poupe-lhes aquilo que eles preferem infinitamente à própria vida: “o testemunho de uma boa consciência”.

Traço XXV

Sua ternura para com os outros e sua severidade para consigo mesmo

Embora completamente insensível às calorosas emoções do amor fraternal, o pastor mundano repete com frequência em seus discursos públicos as expressões afetuosas que brotam tão cordialmente dos lábios dos ministros fiéis: “Meus queridos irmãos em Cristo!” Essas expressões no púlpito são quase inevitáveis em certas ocasiões; mas, em geral, não devem ser vistas de outro modo senão como as fórmulas de cortesia de uma pessoa altiva que termina suas cartas assegurando aos correspondentes que considera uma honra subscrever-se seu criado obediente. Mas, enquanto o ministro mundano afeta um grau de benevolência que não pode sentir, o bom pastor, da abundância de um coração transbordante de amor cristão, dirige-se aos irmãos com o maior afeto e consideração, não só sem nenhum perigo de fingir o que não experimentou, mas sem sequer conseguir exprimir todo o ardor do seu amor fraternal. Suas exortações aos fiéis, como as de São Paulo, são temperadas com uma unção de graça e acompanhadas de uma ternura transbordante que muitas vezes lhes dá um efeito espantoso sobre os irmãos e que sempre revela o interesse que ele tem pelas coisas da igreja. “Não repreenda um homem mais velho”, diz São Paulo; “pelo contrário, exorte-o como você faria com o seu pai. Trate os mais jovens como irmãos, as mulheres mais velhas, como mães, e as mais jovens, como irmãs, com toda a pureza” (1Tm 5.1-2). Tal foi a exortação desse apóstolo a um jovem ministro, e o seu exemplo não destoava do seu conselho. “Portanto, irmãos, pelas misericórdias de Deus, peço que ofereçam o seu corpo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. Meus amados, não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem” (Rm 12.1, 19, 21). “Não escrevo estas coisas para que vocês fiquem envergonhados; pelo contrário, para admoestá-los como a meus filhos amados” (1Co 4.14). “Por isso eu, o prisioneiro no Senhor, peço que vocês vivam de maneira digna da vocação a que foram chamados” (Ef 4.1). “Portanto, se existe alguma exortação em Cristo, alguma consolação de amor, alguma comunhão do Espírito, se há profundo afeto e sentimento de compaixão, então completem a minha alegria, tendo o mesmo modo de pensar, tendo o mesmo amor e sendo unidos de alma e mente. Meus amados, desenvolvam a sua salvação com temor e tremor” (Fp 2.1-2, 12). “Irmãos, pedimos a vocês e os exortamos no Senhor Jesus que, assim como aprenderam de nós a maneira como devem viver e agradar a Deus, vocês continuem progredindo cada vez mais” (1Ts 4.1). “Pois bem, ainda que eu sinta plena liberdade em Cristo para ordenar a você o que convém ser feito, prefiro, no entanto, pedir em nome do amor, sendo o que sou, Paulo, o velho, e agora também prisioneiro de Cristo Jesus. Faço um pedido em favor de meu filho Onésimo, que gerei entre algemas. Antes, ele era inútil para você; atualmente, porém, é útil, para você e para mim. Eu o estou mandando de volta a você, ele, quero dizer, o meu próprio coração. Sim, irmão, que eu receba de você, no Senhor, este benefício. Reanime o meu coração em Cristo” (Fm 8-12, 20). Tal era a ternura e o afeto com que São Paulo costumava dirigir-se aos irmãos que criam. Mas a linguagem desse apóstolo era muito diferente quando falava de si mesmo e daquele corpo de pecado que o obrigava a exclamar: “Miserável homem que sou!”

É próprio de muitas pessoas serem severas com as falhas dos outros, enquanto mostram a maior indulgência para consigo mesmas, tanto em relação às suas fraquezas quanto aos seus vícios. Sempre prontas a pôr as faltas do próximo sob uma luz odiosa e as suas próprias sob o ponto de vista mais favorável, parecem feitas apenas de parcialidade e amor-próprio; ao passo que o verdadeiro ministro reserva para os outros a sua maior indulgência e exerce para consigo mesmo a maior severidade. “Todas as coisas me são lícitas”, escreve São Paulo, “mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas” (1Co 6.12). “Vocês não sabem que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Todo atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível. Assim corro também eu, não sem meta; assim luto, não como desferindo golpes no ar. Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado” (1Co 9.24-27).

Uma reflexão encerra naturalmente este traço do caráter de São Paulo. Se esse homem espiritual, se esse grande apóstolo se julgava obrigado a empregar esforços tão vigorosos para não ser rejeitado diante de Deus no fim, em que grande perigo estão os pastores e cristãos descuidados que, longe de se acostumarem a santos atos de renúncia, satisfazem seus desejos naturais sem nenhum receio, e tratam como entusiastas os que começam a imitar São Paulo, levando a sério o seu voto batismal e renunciando aos seus apetites sensuais!

Traço XXVI

Seu amor nunca degenerou em covardia, mas repreendia e consolava conforme a ocasião pedia

O amor do verdadeiro ministro não se parece em nada com aquele fantasma de virtude, aquela complacência mesquinha, aquela flexibilidade sem hombridade, aquela covardia anticristã ou aquela generosidade afetada que os ministros de hoje gostam de honrar com o nome de caridade. Segundo esses juízes incompetentes, ser caridoso é apenas dar alguma esmola insignificante do que nos sobra em abundância, tolerar os erros mais perigosos sem ousar levantar o estandarte da verdade, e ver o vício transbordar sem tentar opor-se à torrente ameaçadora. Tal seria a caridade equivocada de um cirurgião que, para poupar o braço gangrenado de um amigo, deixasse a gangrena espalhar-se por todo o corpo. Tal foi a caridade do sumo sacerdote Eli para com Hofni e Fineias: caridade ímpia, que lhe permitiu olhar com olhos favoráveis demais as vergonhosas devassidões deles; caridade fatal, que abriu o abismo de males que por fim os engoliu, e para dentro do qual arrastaram consigo o pai, os filhos, o povo de Israel e a igreja que tinham sido designados para presidir.

O bom pastor, consciente de que salvará da morte uma alma se conseguir convencer um pecador a abandonar o seu mau caminho, emprega todos os esforços para realizar obra tão importante. E, entre outros meios prováveis que emprega para isso, experimenta a força da repreensão severa, censurando os ímpios com santa autoridade e, se for necessário, voltando à carga com uma centelha daquele zelo ardente que movia o seu Mestre quando expulsou do templo os infames compradores e vendedores que o haviam profanado com o seu comércio carnal. Assim São Paulo, ao ser informado de que se haviam descoberto erros escandalosos na conduta de um membro da igreja de Corinto, escreveu imediatamente àquela igreja nos seguintes termos severos e solenes: “Ouve-se por aí que entre vocês existe imoralidade. E vocês andam cheios de orgulho, quando deveriam ter lamentado e tirado do meio de vocês quem fez uma coisa dessas. Por acaso vocês não sabem que um pouco de fermento leveda a massa toda?”, e que a peste num único membro de uma sociedade basta para infectar toda a comunidade? “Joguem fora o velho fermento e expulsem o malfeitor do meio de vocês. Não se associem com alguém que, dizendo-se irmão, for devasso; nem mesmo comam com alguém assim. Não se enganem: os imorais não herdarão o Reino de Deus. Vocês não sabem que o corpo de cada um de vocês é membro de Cristo? Fujam da imoralidade sexual”, portanto, e evitem a companhia dos imorais. “Porque vocês foram comprados por preço. Agora, pois, glorifiquem a Deus no corpo de vocês” e no seu espírito, que pertencem a Deus. Além disso, “eu, na verdade, ainda que fisicamente ausente, mas presente em espírito, já sentenciei”, a respeito do devasso que está entre vocês, “que esse tal seja entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no Dia do Senhor” Jesus (1Co 5; 6).

Quando o verdadeiro ministro aplicou aos pecadores as censuras mais severas e vê que elas produziram o efeito desejado, volta-se para as pessoas que acabou de repreender com demonstrações daquele amor sem limites que “tudo sofre” e “tudo espera”. Mais pronto, se possível, a levantar os abatidos do que a humilhar os presunçosos, depois de ter mostrado a coragem de um leão, reveste-se da mansidão de um cordeiro, consolando e animando o ofensor arrependido e não cessando de interceder por ele até que obtenha o perdão de Deus e dos homens. Assim São Paulo, que tão duramente repreendera os coríntios em sua primeira epístola, deu-lhes abundante consolação na segunda e os exortou a receber com bondade a pessoa que antes lhes ordenara excomungar. É fácil reconhecer a ternura de Cristo nesta linguagem do benevolente apóstolo: “Porque lhes escrevi” a minha primeira epístola “no meio de muitos sofrimentos e angústia de coração, com muitas lágrimas, não para que vocês ficassem tristes, mas para que soubessem do amor que tenho por vocês” (2Co 2.4). “Tenho muito orgulho de vocês. Sinto-me grandemente confortado e transbordo de alegria em meio a toda a nossa tribulação. Porém Deus, que consola os abatidos, nos consolou com a chegada de Tito”, meu mensageiro, quando “ele nos falou da saudade, do pranto e do zelo que vocês têm por mim. Porque, mesmo que eu tenha entristecido vocês com a minha carta, não me arrependo, embora já tenha me arrependido. Mas agora me alegro, não porque vocês ficaram tristes, mas porque essa tristeza os levou ao arrependimento. Pois vocês foram entristecidos segundo Deus. Vejam quanto cuidado isso produziu em vocês! Que defesa, que indignação, que temor, que saudade, que zelo, que desejo de punir o culpado! Em tudo vocês se mostraram inocentes neste assunto. Foi por isso que nos sentimos consolados. E, acima desta nossa consolação, muito mais nos alegramos pelo contentamento de Tito, porque todos vocês trouxeram refrigério ao espírito dele. E o grande afeto que ele tem por vocês aumenta cada vez mais, quando ele se lembra da obediência de todos vocês, de como o receberam”, junto com a minha repreensão, “com temor e tremor. Alegro-me porque, em tudo, posso confiar em vocês” (2Co 7). E, quanto à pessoa que nos causou tanta aflição: “Basta-lhe a punição imposta pela maioria. De modo que, agora, pelo contrário, vocês devem perdoar e consolar, para que esse indivíduo não seja consumido por excessiva tristeza. Por isso, peço que vocês confirmem o amor de vocês para com ele. A quem vocês perdoam alguma coisa, eu também perdoo”, e eu já o perdoei “por causa de vocês na presença de Cristo” (2Co 2.6-10).

Grande Deus! Estabelece sobre o teu rebanho pastores vigilantes, caridosos e corajosos, que saibam discernir o pecador através de todas as suas aparências enganosas e separá-lo do teu aprisco pacífico, seja ele um bode imundo ou um lobo voraz. Não permitas que os teus ministros confundam o justo com o injusto, tornando desprezíveis os mistérios mais sagrados ao admitirem a eles pessoas com quem pagãos virtuosos se envergonhariam de conversar. Toca o coração dos pastores que endurecem o teu povo rebelde oferecendo sinais do teu favor aos que são objeto da tua ira; e não permitas mais que o pão da vida, que eles distribuem descuidadamente a todos os que querem profaná-lo, se torne em suas mãos profanas o pão da morte. Mostra-lhes a impiedade de dar aos cães as coisas santas, e desperta neles um santo temor de se tornarem cúmplices daqueles monstros hipócritas que entram à força no teu templo para crucificar de novo o teu Filho e que, por uma contínua profanação dos símbolos da nossa santa fé, acrescentam às suas outras abominações o ato execrável de comer e beber a própria condenação, e isso com a mesma tranquilidade com que alguns deles engolem a bebida que embriaga ou proferem as blasfêmias mais ímpias.

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Portrait of St. Paul: or, The True Model for Christians and Pastors, versão inglesa de Joshua Gilpin (1790) do manuscrito francês do autor, na edição de Nova York (B. Waugh e T. Mason, 1834), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Por isso esta é tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.