John Fletcher · O Retrato de São Paulo · Parte I, traços X a XVIII

A fidelidade, a humildade e o amor de São Paulo

A fidelidade com que Paulo anunciava as ameaças e as promessas do evangelho, a sua humildade, a franqueza ao reparar os próprios erros, a aversão ao espírito de partido, a recusa do louvor e o seu amor por todos.

Traço X

A fidelidade com que ele anunciava as severas ameaças e as promessas consoladoras do evangelho

O ministro mundano não tem nem a coragem nem a ternura do verdadeiro pastor. Tem medo de publicar as verdades próprias para alarmar o pecador descuidado, e não sabe de que maneira aplicar as promessas do evangelho para o alívio dos que choram. Se alguma vez tenta discorrer sobre as verdades consoladoras do evangelho, só se esforça por explicar o que para ele mesmo é quase ininteligível; e todos os seus discursos sobre assuntos dessa natureza carecem daquela persuasão ardente e daquela unção de amor que caracterizam os ministros de Cristo. Por outro lado, o medo de ofender não lhe permite dirigir-se aos pecadores de todas as classes com a santa ousadia do profeta Samuel: “Se, porém, vocês não derem ouvidos à voz do Senhor, mas forem rebeldes ao seu mandado, a mão do Senhor será contra vocês. Se, porém, continuarem a fazer o mal, perecerão” (1Sm 12.15, 25). O pastor fiel, ao contrário, consciente de que as verdades mais duras do evangelho são tão necessárias quanto ofensivas, insiste nelas com coragem, à maneira de São Paulo: “E você, que faz o mesmo que eles fazem, pensa que conseguirá se livrar do juízo de Deus?” Saiba disto: “por ser teimoso e ter um coração impenitente, você acumula contra si mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus”, pois “ira e indignação”, “tribulação e angústia virão sobre todo aquele que faz o mal” (Rm 2.3, 5, 8-9). “Se toda transgressão”, sob a primeira aliança, “recebeu justo castigo, como escaparemos nós, se não levarmos a sério tão grande salvação? Esta, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, depois nos foi confirmada pelos que a ouviram” (Hb 2.2-3). “Fiquem sabendo disto: nenhuma pessoa impura ou avarenta tem herança no Reino de Cristo e de Deus. Não se deixem enganar com palavras vazias, porque a ira de Deus vem sobre os filhos da desobediência por causa dessas coisas” (Ef 5.5-6). “Tenham cuidado e não se recusem a ouvir aquele que fala. Pois, se os que se recusaram a ouvir quem divinamente os advertia na terra não escaparam”, isto é, o profeta Moisés, “muito menos escaparemos nós, se nos desviarmos daquele que dos céus nos adverte”, isto é, o Salvador Jesus Cristo. “Por isso, sirvamos a Deus de modo agradável, com reverência e temor. Porque o nosso Deus é fogo consumidor” (Hb 12.25, 28-29).

Mas, embora o verdadeiro ministro anuncie com coragem as declarações mais severas da Palavra aos incrédulos e aos impenitentes, nunca é tão verdadeiramente feliz como quando convida os pobres de espírito a tirar as riquezas da graça do tesouro do amor eterno de Deus. “Deus não nos destinou para a ira”, diz São Paulo, “mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5.9). “Esta palavra é fiel e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores” (1Tm 1.15). “Ora, vocês não chegaram ao fogo palpável e aceso, à escuridão, às trevas, à tempestade. Pelo contrário, vocês chegaram ao monte Sião e à cidade do Deus vivo e a Jesus, o Mediador da nova aliança, e ao sangue da aspersão, que fala melhor do que o sangue de Abel. Portanto, meus irmãos, tendo ousadia para entrar no Santuário, pelo sangue de Jesus, e tendo um grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos com um coração sincero, em plena certeza de fé” (Hb 12.18, 22, 24; 10.19, 21-22). “Porque, se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida! Aquele que não poupou o seu próprio Filho, mas por todos nós o entregou, será que não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu, ou melhor, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós” (Rm 5.10; 8.32-34).

Quando essas declarações tão animadoras não bastam “para vivificar o coração dos contritos”, o pregador evangélico não deixa de multiplicá-las da maneira mais compassiva e afetuosa. “Digo a vocês”, continua ele, “que todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens; pois o sangue de Jesus Cristo nos purifica de todo pecado” (Mt 12.31; 1Jo 1.7). “E, por meio dele, todo o que crê é justificado de todas as coisas das quais vocês não puderam ser justificados pela lei de Moisés” (At 13.39). “Agora, pois, já não existe nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1), “mas onde aumentou o pecado, aumentou muito mais ainda a graça” (Rm 5.20).

Tais são os tônicos que o evangelista fiel ministra aos que estão cansados e sobrecarregados: tônicos preciosos que o pastor mundano nunca consegue aplicar com eficácia, e que ele ou emprega fora de hora, ou torna inúteis com acréscimos de sua própria lavra, contrários ao espírito do evangelho.

Traço XI

Sua profunda humildade

Não há disposição má do coração de que o clero seja acusado com tanta frequência quanto o orgulho. E é com razão que combatemos esse temperamento pecaminoso, sobretudo quando aparece nos pastores, pois ele é tão inteiramente contrário ao espírito do evangelho que o apóstolo Paulo o chama, com ênfase, de “condenação do diabo” (1Tm 3.6).

Não há disposição amável que nosso Senhor tenha recomendado com mais força aos seus seguidores do que a humildade de espírito. Desde o nascimento até a morte, ele mesmo deu um exemplo marcante da mais profunda humildade, unida ao mais ardente amor. Depois de ter lavado os pés de seus primeiros discípulos, isto é, depois de ter tomado o lugar de um escravo aos pés deles, dirigiu-lhes estas palavras: “Vocês compreendem o que eu lhes fiz? Vocês me chamam de Mestre e de Senhor e fazem bem, porque eu o sou. Ora, se eu, sendo Senhor e Mestre, lavei os pés de vocês, também vocês devem lavar os pés uns dos outros. Porque eu lhes dei o exemplo, para que, como eu fiz, vocês façam também. Em verdade, em verdade lhes digo que o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado é maior do que aquele que o enviou” (Jo 13.12-16). E diz ainda, no mesmo sentido: “Vocês sabem que os que são considerados governadores dos povos os dominam e que os seus maiorais exercem autoridade sobre eles. Mas entre vocês não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vocês, que se coloque a serviço dos outros; e quem quiser ser o primeiro entre vocês, que seja servo de todos. Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10.42-45).

O cristianismo verdadeiro é a escola do amor humilde, na qual todo verdadeiro ministro pode dizer com Cristo, na medida do seu crescimento na graça: “Aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração; e vocês acharão descanso para a sua alma.” E ai daqueles que, invertendo o cristianismo, dizem pelo seu exemplo, que fala mais alto do que todos os seus discursos: “Aprendam de nós a ser ferozes e vingativos, à custa da paz dentro e fora de casa.” Os que recebem o sustento de ministros enquanto se esforçam assim por subverter a religião que professam defender tornam-se culpados não apenas de hipocrisia, mas de uma espécie de sacrilégio.

Supõe-se que São Pedro tivesse a primazia entre os apóstolos, ao menos pela idade. O que é certo é que ele falou em nome dos outros apóstolos; que foi o primeiro a confessar Cristo em dois discursos públicos; que nosso Senhor lhe concedeu favores particulares; que lhe foi permitido ser uma das três testemunhas da transfiguração e da agonia do seu Mestre; e que, no dia de Pentecostes, ele provou o poder de sua comissão apostólica introduzindo de uma só vez três mil almas no Reino de Cristo. Longe, porém, de arrogar-se por esses motivos uma supremacia espiritual sobre seus irmãos, não assumiu outro título senão o que era dado em comum a todos os seus companheiros de trabalho no ministério: “Aos presbíteros que há entre vocês”, diz ele, “eu, presbítero como eles, peço que pastoreiem o rebanho de Deus que há entre vocês, cuidando dele não por ganância, mas de boa vontade; não como dominadores dos que lhes foram confiados, mas sendo exemplos para o rebanho” (1Pe 5.1-3). Eis um conselho muito descuidado por aqueles prelados que se distinguem de seus irmãos ainda mais por um orgulho anticristão do que pelas dignidades eclesiásticas a que chegaram pelas intrigas da ambição.

Todos os pastores devem buscar a humildade com tanto maior empenho, porque alguns deles, seduzidos pelo desejo de se destacar como pessoas eminentes na igreja, depois de criarem certas leis eclesiásticas contrárias à Palavra de Deus, tornaram-se perseguidores dos que se recusavam a submeter-se à sua autoridade tirânica. Observe aqui a injustiça de certos filósofos modernos que, deturpando a religião cristã, religião que só respira humildade e amor, a apresentam como causa de todas as divisões, perseguições e massacres jamais fomentados ou cometidos por seus professos corrompidos. Desastres que, longe de serem fruto do cristianismo verdadeiro, têm sua fonte principal nos vícios de um clero arrogante, sem caridade e anticristão.

A igreja sempre estará exposta a essas acusações enquanto cada eclesiástico não imitar São Paulo, como ele imitou Cristo. Esse apóstolo, sempre ansioso por andar nos passos do seu divino Mestre, distinguia-se de modo particular pela humildade diante de Deus e dos homens. Sempre pronto a confessar sua pobreza natural e a engrandecer as riquezas da graça divina, ele exclama: “Quem, porém, é capaz de fazer estas coisas?” Quem está devidamente habilitado para cumprir todas as funções do santo ministério? “E é por meio de Cristo que temos tal confiança em Deus. Não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa capacidade vem de Deus, o qual nos capacitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; porque a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2Co 2.16; 3.4-6). “Quem é Paulo? E quem é Apolo? São servos por meio de quem vocês creram, e isto conforme o Senhor concedeu a cada um. Eu plantei, Apolo regou, mas o crescimento veio de Deus. De modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1Co 3.5-7). “Porque eu sou o menor dos apóstolos, e nem mesmo sou digno de ser chamado apóstolo. Mas, pela graça de Deus, sou o que sou” (1Co 15.9-10). “Porque Deus resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo. Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que se veja que a excelência do poder provém de Deus, não de nós” (2Co 4.6-7).

Se a humildade de São Paulo transparece de modo marcante nessas passagens notáveis, ela se exprime com mais força ainda nas que se seguem: “Irmãos, vocês veem que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento. Pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes. E Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são, a fim de que ninguém se glorie na presença de Deus” (1Co 1.26-29). “A mim, o menor de todos os santos”, que “nada sou”, que sou o principal dos pecadores, “foi dada esta graça de pregar o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo” (Ef 3.8; 2Co 12.11; 1Tm 1.15).

Leitor, se você tem de si mesmo a opinião expressa nas passagens acima, você é um cristão humilde. Pode declarar-se com sinceridade servo de todos os que o cumprimentam; já o é por suas intenções caridosas, e procura ocasiões de demonstrar, com serviços concretos, que sua língua é o órgão não de uma cortesia insidiosa, mas de um coração sincero. Como verdadeiro discípulo de Cristo, que se escondeu quando a multidão quis elevá-lo a um trono e se apresentou quando vieram arrastá-lo para a cruz, você tem um prazer sagrado em humilhar-se diante de Deus e dos homens, e deseja, sem hipocrisia nem afetação, ocupar o último lugar entre seus irmãos.

O cristão humilde, convencido de suas necessidades e de sua fraqueza, sente que é impossível agir como aqueles pobres orgulhosos e envergonhados que preferem perecer na sua miséria a pedir o socorro de seus irmãos. São Paulo não tinha nada dessa falsa modéstia. Profundamente consciente de sua indignidade e insuficiência, depois de implorar para si o auxílio gracioso de Deus, ele pede com humildade as orações de todos os fiéis: “Irmãos, orem também por nós” (1Ts 5.25). “Irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e também pelo amor do Espírito, peço que lutem juntamente comigo nas orações a Deus a meu favor” (Rm 15.30). “Orem em todo tempo por todos os santos. E orem também por mim, para que, no abrir da minha boca, me seja dada a palavra, para com ousadia tornar conhecido o mistério do evangelho, pelo qual sou embaixador em cadeias, para que eu seja ousado para falar, como me cumpre fazer” (Ef 6.18-20). “Enquanto vocês nos ajudam com orações a nosso favor, para que, por muitos, sejam dadas graças a Deus a nosso respeito, pelo benefício que nos foi concedido por meio da súplica de muitos” (2Co 1.11).

Assim a humildade, ou pobreza de espírito, que Cristo apresenta como a primeira bem-aventurança, nos conduz pela oração a todas as bênçãos do evangelho e àquela viva gratidão que dá origem às ações de graças e à alegria. Amável humildade! Penetre o coração de todos os cristãos, anime cada pastor, dê paz à igreja e felicidade ao universo.

Traço XII

A franqueza com que ele reconhecia e reparava os seus erros

É difícil para o orgulhoso confessar que errou; mas os que possuem humildade e amor fazem essa confissão de bom grado. Quando São Paulo foi chamado a justificar sua conduta perante o tribunal dos judeus, o mesmo espírito de ressentimento que animava seus perseguidores apoderou-se de repente dos mais exaltados entre os juízes, e o sumo sacerdote, ainda mais irritado do que os outros, “mandou aos que estavam perto de Paulo que lhe batessem na boca”. Foi naquele momento de surpresa e indignação que o apóstolo, sem saber quem era o autor de procedimento tão indecoroso, e sem imaginar que o presidente de uma assembleia tão augusta pudesse esquecer a própria dignidade a ponto de agir com ímpeto tão repreensível, deu esta resposta áspera a uma ordem tão injusta: “Deus há de ferir você, parede branqueada! Você está aí sentado para me julgar de acordo com a Lei e, contra a Lei, ordena que eu seja agredido?” Imediatamente os que estavam ali, censurando-lhe o aparente desrespeito, perguntaram com a maior indignação: “Você está insultando o sumo sacerdote de Deus?” Então o apóstolo, longe de justificar sua reação diante da severidade de um juiz que se degradara por um ato da mais flagrante injustiça, reconheceu de imediato o seu erro. E, para que seu exemplo não animasse alguém a negar o respeito devido a um magistrado, mais respeitável pelo cargo do que censurável pelo rigor do seu procedimento, procurou reparar na mesma hora a ofensa involuntária, citando uma passagem da Lei em tom de arrependimento e respondendo com toda a mansidão: “Eu não sabia, irmãos, que ele é sumo sacerdote. Porque está escrito: ‘Não fale mal de uma autoridade do seu povo'” (At 23.2-5).

Há outro exemplo da imprudência e da franqueza deste apóstolo. Paulo e Barnabé, saindo a anunciar o evangelho, levaram como companheiro João Marcos, sobrinho de Barnabé. O jovem evangelista, porém, abalado pelos perigos que aqueles apóstolos eram obrigados a enfrentar sem cessar, abandonou-os na Panfília, no meio de seus penosos trabalhos. Mais tarde, arrependido de sua antiga indecisão, ofereceu-se para acompanhá-los em outra viagem. Barnabé, que tinha caridade bastante para esperar tudo do sobrinho, quis dar-lhe uma segunda oportunidade; Paulo, cuja prudência o fazia temer tudo de um jovem que já dera prova indiscutível de sua inconstância, recusou o consentimento. Por fim, os dois apóstolos, não conseguindo resolver a questão de modo que satisfizesse a ambos, decidiram separar-se. Paulo foi pregar o evangelho na Síria com Silas, enquanto Barnabé, acompanhado do sobrinho, foi anunciar Cristo na ilha de Chipre. Assim a separação de verdadeiros cristãos, sem produzir cisma algum na igreja, muitas vezes contribui para a propagação do evangelho.

Só o tempo podia decidir se Barnabé se enganara por excesso de caridade ou São Paulo por excesso de prudência. O resultado fez a balança pender a favor do juízo de Barnabé: a conduta de João Marcos nessa segunda missão foi irrepreensível. Desde então, São Paulo, com sua habitual franqueza, esquecendo a antiga instabilidade de Marcos, depositou nele toda a confiança, recebeu-o com alegria como companheiro de trabalho, revogou a ordem que antes dera a respeito dele e recomendou-o às igrejas como ministro fiel. É o que se pode deduzir desta passagem da sua epístola aos Colossenses: “Aristarco, que está preso comigo, manda saudações; e também Marcos, primo de Barnabé. A respeito dele vocês já receberam instruções; se ele for até aí, recebam-no bem” (Cl 4.10). [N. do T.: a versão inglesa do Rei Tiago diz “filho da irmã de Barnabé”, de onde o autor chama Marcos de sobrinho; a NAA traz “primo”.]

Assim os seguidores sinceros de Cristo estão sempre ansiosos por reparar suas faltas involuntárias: faltas a que nós, tanto quanto os apóstolos, estamos sempre expostos, e que deveriam obrigar-nos a dizer com São Paulo: “Agora meu conhecimento”, das coisas e das pessoas, “é incompleto”. Essa imperfeição em nosso conhecimento às vezes produzirá erros de juízo, e esses erros provavelmente influirão em nossa conduta. Mas, se não houver malícia nessas falhas, se pecarmos por ignorância e na integridade do coração, Deus não nos imputa esses erros, contanto que estejamos sempre prontos, como São Paulo, a confessá-los e repará-los. Errar é próprio da humanidade; obstinar-se no erro é próprio de um demônio; mas reconhecer humildemente um erro e repará-lo com empenho é mostrar uma virtude mais rara e mais preciosa do que a própria inocência, quando esta vem acompanhada de algum grau de presunção e orgulho.

Os que pintam os retratos dos santos das lendas costumam representá-los sem uma única falha. Mas os que desejam imitar fielmente os autores sagrados são obrigados a empregar sombras e luzes, mesmo em suas obras mais célebres. Se esta parte do retrato de São Paulo não parecer brilhante, servirá ao menos para mostrar a realidade do original, a nobreza do apóstolo e a fidelidade do pintor.

Traço XIII

Sua aversão ao espírito de partido e às divisões

Enquanto o espírito do mundo é, reconhecidamente, um espírito de interesse particular, de orgulho e de divisão, o espírito da verdadeira religião se manifesta, entre os que a professam com sinceridade, como espírito de concórdia, de humildade e de amor fraternal. O verdadeiro ministro, animado de modo especial por esse Espírito divino, perde de vista a própria reputação e honra e se ocupa incansavelmente em buscar a glória de Deus e a edificação do próximo. Plenamente satisfeito com o último lugar, e tão notável pela condescendência para com os irmãos quanto pelo respeito aos superiores, ele está sempre em guarda contra o espírito de partido que procura continuamente perturbar a união da igreja, seja por um apego excessivo a costumes particulares, seja por um zelo obstinado por algum sistema de doutrinas, seja por uma ligação apaixonada demais a algum mestre eminente.

Sem perseguir os que são levados por espírito tão perigoso, o bom pastor emprega todos os esforços para reuni-los de novo sob o grande Cabeça da igreja. Argumentando contra a insensatez dos que estão prontos a separar-se da companhia de seus irmãos, ele toma a linguagem de São Paulo e diz: “Ó cristãos insensatos! Quem foi que os enfeitiçou para que vocês não obedeçam à verdade? Não foi diante dos olhos de vocês que Jesus Cristo foi exposto como crucificado? Será que vocês são tão insensatos que, tendo começado no Espírito, agora querem se aperfeiçoar na carne?” (Gl 3.1, 3). “Porque vocês”, de fato, “foram chamados à liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à carne; pelo contrário, sejam servos uns dos outros, pelo amor. Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: ‘Ame o seu próximo como a você mesmo.’ Mas, se vocês ficam mordendo e devorando uns aos outros, tenham cuidado para que não sejam mutuamente destruídos. Ora, as obras da carne são conhecidas”, e entre elas estão estas: “inimizades, rixas, ciúmes, iras, discórdias, divisões, facções. Declaro a vocês, como antes já os preveni, que os que praticam tais coisas não herdarão o Reino de Deus. Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito. Não nos deixemos possuir de vanglória, provocando uns aos outros” (Gl 5.13-26). “Há somente um corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança para a qual vocês foram chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.” Façam, portanto, “tudo para preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Ef 4.3-6).

Quando o povo procura honrar um verdadeiro ministro pondo-o à frente de algum partido na igreja, ele recusa a dignidade oferecida com humilde e santa indignação. Sua alma está sempre penetrada dos sentimentos sob cuja influência o apóstolo Paulo se exprimiu com tanta nobreza: “não buscando o meu próprio interesse, mas o de muitos, para que sejam salvos” (1Co 10.33). “Irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, peço-lhes que todos estejam de acordo naquilo que falam e que não haja divisões entre vocês; pelo contrário, que vocês sejam unidos no mesmo modo de pensar e num mesmo propósito. Pois fui informado de que há brigas entre vocês. Refiro-me ao fato de cada um de vocês dizer: ‘Eu sou de Paulo’, ‘Eu sou de Apolo’, ‘Eu sou de Cefas’, ‘Eu sou de Cristo’. Será que Cristo está dividido? Será que Paulo foi crucificado por vocês ou será que vocês foram batizados em nome de Paulo?” (1Co 1.10-13). “Quem é Paulo, senão um servo por meio de quem vocês creram? Portanto, ninguém se glorie nos homens”, “seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas” (1Co 3.5, 21-22), mas antes em nosso Senhor Jesus Cristo, “de quem toda a família, nos céus e na terra, recebe o nome” (Ef 3.14-15).

É com exortações como essas, e mantendo ao mesmo tempo uma conduta conforme à natureza delas, que todo ministro fiel procura levar os cristãos de todas as denominações a andarem juntos “em amor”, como também Cristo andou (Ef 5.2), “tratando de descobrir o que é agradável ao Senhor” (Ef 5.10) e sujeitando-se “uns aos outros no temor de Cristo” (Ef 5.21), até chegar o tempo prometido em que toda a companhia dos fiéis terá um só coração e uma só alma.

Mas, depois de todos esses esforços para extirpar da igreja o espírito sectário, os que se contentam com o exterior do cristianismo, como os fariseus se contentavam com as cerimônias do culto mosaico, acusarão mais cedo ou mais tarde todo pastor evangélico de tentar formar uma seita particular. Quando os fariseus modernos observam a estreita união que reina entre os verdadeiros crentes, união que todo ministro fiel se esforça por estabelecer em seu povo tanto pelo exemplo quanto pelo preceito; quando veem pecadores arrependidos, profundamente conscientes de sua culpa, reunindo-se com frequência para implorar as bênçãos da “sabedoria, justiça, santificação e redenção”, alarmam-se de imediato e gritam: “Estes homens perturbam a nossa cidade, propagando costumes que não podemos aceitar”, e mantendo uma conduta que é muito incômoda para nós seguirmos (At 16.20-21).

Felizes as cidades em que o ministro de Cristo consegue descobrir um Nicodemos, um Gamaliel, ou alguns adoradores dotados de tanta franqueza quanto os judeus de Roma, que desejaram ouvir o que o perseguido Paulo tinha a dizer em defesa daquela seita recém-surgida que “em todos os lugares” era “contestada” (At 28.22). Enquanto essa amável franqueza não prevalecer universalmente entre os membros nominais da igreja, o cristianismo verdadeiro, mesmo no centro da cristandade, sempre encontrará contradição perversa e, às vezes, perseguição cruel.

Traço XIV

Sua recusa do louvor

O ministro de hoje trabalha principalmente em vista da própria vantagem e honra. Esforça-se por agradar para ser admirado pelos homens. Gosta “das primeiras cadeiras nas sinagogas”, das saudações em público e dos títulos honrosos (Mt 23.6-7), reivindicando assim tacitamente, por suas pretensões descabidas ao respeito e às homenagens dos homens, uma parte da glória que pertence só a Deus.

Um caráter totalmente diferente é o do verdadeiro ministro. Seus discursos, suas ações, seu olhar, seu porte, tudo concorda em dizer: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua misericórdia e da tua fidelidade” (Sl 115.1). Se o braço do Onipotente o capacita a realizar alguma obra extraordinária que a multidão não atribui de imediato ao Autor de “toda boa dádiva e todo dom perfeito”, ele exclama com São Pedro: “Por que vocês estão com os olhos fixos em nós como se pelo nosso próprio poder ou piedade” tivéssemos feito o que parece causar-lhes tanto espanto? “O Deus dos nossos pais glorificou”, nesta ocasião, “o seu Servo Jesus”, e “a fé que vem por meio de Jesus” realizou esta obra extraordinária “na presença de todos vocês” (At 3.12-13, 16). Em todas as ocasiões ele pode dizer com o grande apóstolo: “Ou procuro agradar pessoas? Se ainda estivesse procurando agradar pessoas”, a não ser para a edificação delas, “eu não seria servo de Cristo” (Gl 1.10). “Mas a mim pouco importa ser julgado por vocês ou por um tribunal humano” (1Co 4.3). “Visto que fomos aprovados por Deus, a ponto de ele nos confiar o evangelho, assim falamos, não para agradar as pessoas, e sim para agradar a Deus, que prova o nosso coração. A verdade, como vocês sabem, é que nunca usamos de linguagem de bajulação. Também jamais andamos buscando elogios das pessoas, nem de vocês, nem de outros” (1Ts 2.4-6). Com tal conduta ele se distingue como embaixador fiel do bendito Jesus, que se exprimiu nestes termos humildes diante dos que o acusavam de buscar a própria exaltação: “Nada faço por mim mesmo; mas falo como o Pai me ensinou. Eu não procuro a minha própria glória; há quem a busque e julgue. Se eu glorifico a mim mesmo, a minha glória não é nada. Quem me glorifica é o meu Pai, o qual vocês dizem que é o Deus de vocês” (Jo 8.28, 50, 54).

Pode haver casos especiais em que se permita a um servo de Deus no ministério pedir aos cristãos um testemunho público de sua aprovação; e, quando este lhe é recusado, ele tem razão em chamar com modéstia a atenção deles para todas as provas passadas de sua integridade e de seu zelo. Assim São Paulo, como meio legítimo de manter sua autoridade entre os coríntios, que haviam mostrado uma parcialidade injusta para com mestres de categoria muito inferior, fez um longo relato das revelações e dos trabalhos que lhe davam um direito mais que comum ao respeito de todas as igrejas. Mas, sempre que se recomendava, fazia-o com a maior relutância, como quem é forçado pela singularidade das circunstâncias a agir em direta contradição com sua verdadeira disposição. Por isso, sempre que relata os favores particulares com que Deus o honrara, fala na terceira pessoa, como de outro homem: “Desse eu me gloriarei; não, porém, de mim mesmo, a não ser nas minhas fraquezas” (2Co 12.5). “Porque não ousamos nos classificar ou comparar com alguns que louvam a si mesmos”, “medindo-se consigo mesmos”, sem nenhuma referência às excelentes graças e dons dos outros. “Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no Senhor. Porque não é aprovado quem recomenda a si mesmo, e sim aquele que o Senhor recomenda” (2Co 10.12, 17-18).

Nada dá maior satisfação aos falsos apóstolos do que a recomendação e o louvor, ao passo que o verdadeiro ministro recua com horror diante das mesmas honras que eles, para obtê-las, assumem todas as formas de Proteu. Quando a multidão, levada pela admiração por um pregador fiel, o segue com aplausos impróprios, ele a enfrenta com indignação não fingida, detém seus aplausos ímpios e rejeita suas adulações idólatras, exclamando com São Paulo: “Senhores, por que estão fazendo isto? Nós também somos seres humanos como vocês, sujeitos aos mesmos sentimentos, e anunciamos o evangelho a vocês para que se convertam destas coisas vãs ao Deus vivo” (At 14.15). Nós não somos o caminho, nem a verdade, nem a vida; mas mostramos a vocês o caminho que a verdade revelou e pelo qual se pode alcançar a vida eterna, e suplicamos que andem nele com toda a simplicidade e mansidão. E lembrem-se de que, em vez de afetar em nossos discursos a sabedoria vã que o mundo tanto admira, proclamamos fielmente Cristo; e, para nos humilhar ainda mais diante de Deus e dos homens, “nós pregamos o Cristo crucificado” (1Co 1.23).

É sobretudo por esse porte humilde que se reconhecem os discípulos de Cristo que exercem o ministério. Por ele copiam o amável exemplo de João Batista, que se humilhava de bom grado para que Cristo fosse exaltado, e exclamam na linguagem desse mestre que renunciava a si mesmo: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! No meio de vocês está alguém que vocês não conhecem”, de quem não somos dignos “de desamarrar as correias das suas sandálias”. Nós batizamos com água, mas ele “batiza com o Espírito Santo”. Cuidado, pois, para não fazerem uma ideia elevada demais do nosso ministério; e lembrem-se de que “convém que ele cresça” na estima de vocês “e que” nós diminuamos (Jo 1.29, 26-27, 33; 3.30).

Depois de ver João Batista, tido por maior que qualquer dos profetas, rebaixar-se na presença de Cristo, e depois de ouvir São Paulo, muito superior ao Batista, exclamar na humildade de sua alma: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim”, como exprimir suficientemente nosso espanto diante da conduta desses apóstolos titulares que ou põem uma filosofia vã no lugar de Cristo, ou usam a cruz de seu Senhor como uma espécie de pedestal para sustentar os monumentos esplêndidos com que o seu orgulho procura perpetuar a memória de sua eloquência? Oradores cheios de si! Quando poderemos contá-los entre os ministros fiéis do humilde Jesus? Quando veremos o caráter que vocês assumiram e a conduta que mantêm em doce harmonia um com o outro? Quando os ouviremos dirigir-se a seus rebanhos com a simplicidade sem afetação e a condescendência do grande apóstolo: “Porque não pregamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo como Senhor e”, longe de nos elevarmos acima de vocês por causa da comissão que recebemos, “a nós mesmos como servos de vocês, por causa de Jesus” (2Co 4.5)? Então poderíamos com justiça saudá-los como humildes imitadores de São Paulo, como zelosos ministros do evangelho e como servos fiéis daquele Salvador condescendente que “não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20.28).

Traço XV

Seu amor universal

Os verdadeiros cristãos se distinguem dos judeus, dos maometanos e de todos os outros adoradores por aquele espírito de amor universal que é o principal ornamento e a glória de sua profissão. Mas entre os pastores evangélicos essa santa disposição aparece em grau mais eminente. Eles sentem pelos irrefletidos e pelos pecadores aquela terna compaixão de que Cristo nos deixou o exemplo. Sua conduta corresponde à bela descrição do amor que Paulo apresentou à igreja de Corinto, e que pode ser considerada uma representação emblemática do seu próprio caráter desde o tempo de sua conversão à fé cristã. O amor universal é a seiva revigorante que, passando da videira verdadeira para os seus diversos ramos, os torna fecundos em toda boa obra. Mas esse princípio divino circula pelos ministros escolhidos com força particular e em abundância mais que comum, como por outros tantos galhos principais, através dos quais se abre a comunicação entre a raiz e os ramos menores.

O pastor fiel guarda uma lembrança comovida das palavras benevolentes que o bom Pastor dirigiu ao apóstolo Pedro e, na pessoa desse apóstolo, a todos os seus sucessores no ministério, repetindo-as até a terceira vez: “Você me ama? Apascente as minhas ovelhas.” Como se dissesse: A maior prova que você pode me dar do seu apego sincero é cuidar com carinho das almas que eu remi e torná-las objeto da sua mais terna atenção. Tal é o preceito afetuoso que todo ministro fiel recebeu juntamente com a sua sagrada comissão, e ao qual ele presta obediência tanto mais pronta e alegre por confiar firmemente nesta declaração solene de seu bondoso Mestre: “Quando o Filho do Homem vier na sua majestade”, dirá a todos os filhos do amor: “Em verdade lhes digo que, sempre que o fizeram a um destes meus pequeninos irmãos”, fossem suas necessidades corporais ou espirituais, “foi a mim que o fizeram” (Mt 25.31, 40).

O amor do pastor evangélico, como o de São Paulo, não tem limites. Deus, diz esse caridoso apóstolo, “deseja que todos sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade”. Por isso, “peço que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças em favor de todas as pessoas”, pois “isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador” (1Tm 2.4, 1, 3). Mas, não contente em se submeter à exortação de São Paulo quanto ao dever da oração universal, ele procura copiar o exemplo desse apóstolo, trabalhando pela salvação de todos: “Fiz-me tudo para com todos, a fim de, por todos os modos, salvar alguns” (1Co 9.22). Tendo-se tornado pela regeneração “coparticipante da natureza divina” (2Pe 1.4), ele traz uma semelhança amável, embora imperfeita, com seu Pai celestial, cuja principal perfeição é o amor. Como o Sumo Sacerdote da sua confissão, não respira senão amor; e, como o Pai das luzes, faz o sol de sua beneficência nascer sobre todos. Descrever esse sol menor em seu curso ilimitado, e mostrar a admirável variedade com que ele distribui sua luz e seu calor, é traçar com precisão o caráter de um pastor fiel.

Traço XVI

Seu amor particular pelos fiéis

O amor universal do verdadeiro ministro se manifesta de modo particular segundo as diferentes situações dos que são objeto dele. Quando ele vê toda a conduta dos cristãos professos conforme à natureza de sua sagrada profissão, ele os ama intensamente, “de coração puro” (1Pe 1.22) e, dando vazão às efusões de uma santa alegria, exprime seu afeto com palavras como estas: “Irmãos, ficamos animados a respeito de vocês, pela fé que vocês têm, apesar de toda a nossa necessidade e tribulação. Porque, agora, vivemos, se vocês estão firmes no Senhor.” E: “que ação de graças podemos render a Deus no que se refere a vocês, por toda a alegria com que nos regozijamos por causa de vocês, diante do nosso Deus?” (1Ts 3.7-9). Nessas expressões de São Paulo descobre-se um grau espantoso de afeto. “Agora, vivemos”: como se dissesse: Temos uma vida dupla, a vida principal, que recebemos diretamente de Cristo, e uma vida acessória, que recebemos de seus membros por meio do amor fraternal. E somos tão profundamente interessados no que diz respeito aos nossos irmãos que somos afetados de modo sensível pelas variações que eles experimentam em seu estado espiritual, pelo poder daquela simpatia cristã que não conseguimos descrever. Assim, quando o pecado desliga algum de nossos irmãos de Cristo e o separa do corpo dos fiéis, ficamos tomados da mais sincera aflição; e, ao contrário, sempre que eles se ligam a nós com mais afeto e se unem mais intimamente a Cristo, nossa Cabeça comum, nosso espírito se sente então revigorado, com novos graus de vida e de alegria.

Leitor, você entende essa linguagem? Já sentiu o poder dessa simpatia cristã? Ou a sua fé nunca produziu esses sentimentos genuínos de amor fraternal? Então você falou como pessoa igualmente destituída de sensibilidade e de verdade todas as vezes que ousou dizer: “Creio na comunhão dos santos.”

Traço XVII

Seu amor pelos que vacilavam na fé

Quando um ministro, depois de ter sido instrumento da conversão de pecadores, percebe que a fé deles diminui e que o seu amor esfria, sente por eles o que o Redentor sentiu quando chorou sobre Jerusalém. Não menos preocupado com a negligência de seus ouvintes crentes do que São Paulo se afligia com a instabilidade de seus convertidos da Galácia e de Corinto, ele os exorta nos mesmos termos afetuosos: “E vocês sabem”, vocês que são o selo do meu ministério, “que eu lhes preguei o evangelho a primeira vez. Vocês não me trataram com desprezo nem desgosto. Pelo contrário, me receberam como anjo de Deus. O que aconteceu com a felicidade que vocês tinham? Porque posso dar testemunho de que, se fosse possível, vocês teriam arrancado os próprios olhos para me dar! Será que, por dizer a verdade, me tornei inimigo de vocês? Meus filhos, por quem, de novo, estou sofrendo as dores de parto, até que Cristo seja formado em vocês”, digo-lhes com tristeza que, depois de toda a minha confiança em vocês, “estou perplexo com vocês” (Gl 4.13-20). “Temos falado com toda a franqueza e estamos de coração aberto para vocês. Nosso afeto por vocês não tem limites; vocês é que estão limitados em seu afeto por nós. Ora, como justa retribuição, e falo a vocês como a filhos, peço que também vocês abram o seu coração para nós. Não se ponham em jugo desigual com os descrentes. Pois que sociedade pode haver entre a justiça e a iniquidade? Ou que união existe entre o crente e o descrente? Por isso, o Senhor diz: ‘Saiam do meio deles e separem-se deles. Não toquem em coisa impura, e eu os receberei.’ ‘Serei o Pai de vocês, e vocês serão meus filhos e minhas filhas’, diz o Senhor Todo-Poderoso.” “Também exortamos a que vocês não recebam em vão a graça de Deus” (2Co 6.1, 11-18).

Essa linguagem do pastor cristão é quase ininteligível para o ministro que só foi constituído pelos homens. Nunca tendo convertido uma única alma a Cristo, ele não tem filho nem filha espiritual e desconhece por completo aquelas penosas dores de parto de que fala São Paulo. Seu afeto é limitado para com Cristo e seus membros; e, tendo-se unido estreitamente aos homens do mundo, considera a assembleia dos fiéis um bando de entusiastas ignorantes. Mas, apesar da insensibilidade espiritual desses mestres mal instruídos, que nunca estudaram na escola de Cristo, não há outro sinal pelo qual se possam reconhecer os cristãos sinceros ou os verdadeiros ministros senão aquele amor ardente que os gálatas tinham por São Paulo antes de sua queda, e que esse apóstolo nunca deixou de ter por eles. “Nisto”, diz nosso Senhor, “todos conhecerão que vocês são meus discípulos: se tiverem amor uns aos outros” (Jo 13.35).

Traço XVIII

Seu amor pelos compatriotas e pelos inimigos

São Paulo, como seu Mestre rejeitado, foi perseguido até a morte pelos judeus, seus compatriotas, enquanto se expunha generosamente a inúmeras privações trabalhando para o bem deles. Esses devotos furiosos, inspirados pela inveja, pela vingança e por um zelo perseguidor, caçaram o apóstolo de lugar em lugar como a uma peste pública. E quando, numa certa ocasião, os gentios o livraram de suas mãos, quarenta dos mais endurecidos dentre eles se comprometeram por juramento a não comer nem beber enquanto não o tivessem assassinado. Mas, apesar das provas mais indubitáveis de suas intenções sanguinárias para com ele, seu amor ardente lançou um véu sobre a crueldade deles e o fez desejar morrer por seus perseguidores. “Digo a verdade em Cristo”, diz ele, “não minto, e a minha consciência confirma isso por meio do Espírito Santo: sinto grande tristeza e tenho incessante dor no coração. Porque eu mesmo desejaria ser amaldiçoado, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus compatriotas segundo a carne” (Rm 9.1-3). Como se dissesse: Está escrito: “Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro” (Gl 3.13). Assim o próprio Cristo se fez maldição por nós, e eu também daria a vida por meus irmãos, para “tomar parte nos seus sofrimentos e me tornar como ele na sua morte” (Fp 3.10), e para preencher “o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja” (Cl 1.24). É com expressões tão caridosas, e com ações que demonstram a sinceridade dessas expressões, que os cristãos se vingam de seus inimigos e tocam o coração de seus compatriotas.

Se os sentimentos de todo discípulo sincero de Cristo se exprimem na linguagem de São Paulo que acabamos de citar, quão deplorável deve ser o estado daqueles cristãos cuja preocupação com a própria salvação, ou com a de seus parentes mais próximos, não guarda proporção alguma com o ardente cuidado que esse apóstolo mostrou pela salvação de seus mais encarniçados perseguidores! E, se os bons pastores sentem um desejo tão ardente de ver todos os homens movidos pelo espírito de Cristo, sem excetuar sequer os inimigos mais maldosos, que diremos dos ministros que nunca derramaram uma só lágrima, nem jamais fizeram uma única oração fervorosa pela conversão de seus paroquianos, de seus amigos ou de suas famílias?

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Portrait of St. Paul: or, The True Model for Christians and Pastors, versão inglesa de Joshua Gilpin (1790) do manuscrito francês do autor, na edição de Nova York (B. Waugh e T. Mason, 1834), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Por isso esta é tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.