John Fletcher · O Retrato de São Paulo · Parte I, traços V a IX

A dedicação, as armas e o empenho de São Paulo no ministério

A inteira dedicação de Paulo a Cristo, a sua força e as suas armas, o poder de ligar, desligar e abençoar, o empenho no ministério e a divisão do seu tempo entre a oração, a pregação e as ações de graças.

Traço V

Sua inteira dedicação a Jesus Cristo

O verdadeiro cristão, chamado a tornar-se discípulo do bendito Jesus, renuncia a tudo o que tem antes de recusar o privilégio oferecido. Se esse sinal de dedicação a Cristo se percebe no caráter de todo verdadeiro cristão, é ainda mais visível no caráter de todo verdadeiro ministro. Tal pessoa, chamada interiormente pela graça de Deus ao discipulado de Cristo e consagrada exteriormente a esse estado pela imposição das mãos, entrega-se sem reservas ao serviço do seu condescendente Mestre. Não resiste mais àquela ordem permanente do nosso exaltado Senhor, à qual os seus primeiros discípulos mostraram uma submissão tão alegre: “Siga-me”. Nem desanima quando Cristo continua: “Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16.24). “Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus” (Lc 9.62). “Quem ama o seu pai ou a sua mãe, o seu filho ou a sua filha mais do que a mim não é digno de mim.” Quem acha a sua vida a perderá; e quem perde a vida por minha causa, esse a achará” (Mt 10.37-39). Se houver algum pastor que não possa fazer seu o solene apelo dos primeiros ministros de Cristo, “Eis que nós deixamos tudo e o seguimos” (Lc 18.28), esse homem não está em condições de copiar o exemplo de seus precursores na igreja cristã e é inteiramente indigno do caráter que ostenta, pois sem esse desapego do mundo e essa dedicação ao Filho de Deus ele se ilude em vão, julgando ser verdadeiro ministro ou membro real de Jesus Cristo. [N. do T.: em Lc 18.28 a NAA traz “deixamos nossa casa”; o autor segue a King James, “deixamos tudo”.]

Observe a declaração de alguém cujo apego ao seu divino Mestre merece ficar em eterna lembrança: “Mas o que para mim era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Na verdade, considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por causa dele perdi todas as coisas e as considero como lixo, para ganhar a Cristo e ser achado nele, tendo a justiça que procede de Deus, baseada na fé” (Fp 3.7-9). “Porque nenhum de nós”, verdadeiros cristãos ou verdadeiros ministros, “vive para si mesmo, nem morre para si. Porque, se vivemos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos” (Rm 14.7-8).

Professar ser ministro ou crente do evangelho sem essa inteira dedicação a Jesus Cristo é viver no estado da mais perigosa hipocrisia; não é nem mais nem menos do que dizer “Senhor, Senhor!” sem ter a firme resolução de fazer o que o nosso bondoso Mestre ordenou.

Traço VI

Sua força e suas armas

Os ministros da época presente estão equipados de modo condizente com o seu propósito. Como desejam mais agradar do que converter os seus ouvintes, empenham-se particularmente em embelezar as invenções de uma imaginação sedutora. Andam continuamente em busca da beleza das metáforas, do brilho das antíteses, da delicadeza das descrições, do arranjo exato das palavras, da propriedade do gesto, das modulações da voz e de todos os demais ornamentos estudados de uma eloquência artificial. Já o verdadeiro ministro, eficazmente convencido da excelência do evangelho, confia unicamente, para o efeito do seu ministério público, na força da verdade e no auxílio do seu divino Mestre.

Observe como São Paulo se exprime sobre esse assunto: “Tendo, porém, o mesmo espírito de fé, como está escrito: ‘Eu cri, por isso falei’, também nós cremos e, por isso, também falamos” (2Co 4.13). “Irmãos, quando estive com vocês, anunciando-lhes o mistério de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vocês, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a fé que vocês têm não se apoiasse em sabedoria humana, mas no poder de Deus” (1Co 2.1-5). “Porque as armas da nossa luta não são carnais, mas poderosas em Deus, para destruir fortalezas. Destruímos raciocínios falaciosos e toda arrogância que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2Co 10.4-5).

O verdadeiro ministro, seguindo o exemplo de São Paulo, depois de ter experimentado o poder dessas armas vitoriosas, exorta todo soldado de Cristo a prover-se das mesmas armas espirituais. “Quanto ao mais, meus irmãos, sejam fortalecidos no Senhor e na força do seu poder. Vistam-se com toda a armadura de Deus, para poderem ficar firmes. Porque a nossa luta não é apenas contra o sangue e a carne, mas contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestiais. Por isso, peguem toda a armadura de Deus, para que vocês possam resistir no dia mau e, depois de terem vencido tudo, permanecer inabaláveis. Portanto, fiquem firmes, cingindo-se com a verdade e vestindo a couraça da justiça. Tenham os pés calçados com a preparação do evangelho da paz, segurando sempre o escudo da fé, com o qual poderão apagar todos os dardos inflamados do Maligno. Usem também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus.” E, para que vocês prestem um serviço heroico com essas armas, “orem em todo tempo no Espírito, com todo tipo de oração e súplica” (Ef 6.10-18).

Enquanto o ministro fiel, ou servo de Cristo, vestir e manejar essas armas bíblicas, será verdadeiramente invencível. Mas ninguém pode cingir-se dessas armas invisíveis se não for “nascido do Espírito”; nem pode soldado cristão algum empregá-las com proveito se antes não for revestido de todo aquele poder divino que flui do amor a Deus e ao próximo. Ele deve sentir pelo menos algumas centelhas daquele fogo de amor que aquecia o peito de São Paulo quando exclamava: “Porque, se enlouquecemos, é para Deus, e, se conservamos o juízo, é para vocês. Pois o amor de Cristo”, e das almas, “nos domina” (2Co 5.13-14).

“Desde o momento em que os olhos de São Paulo se abriram para perceber o evangelho”, diz o sr. Romilly, pastor de uma igreja em Genebra, “já não o encontramos a mesma pessoa. É outro homem, é uma nova criatura, que não pensa em outra coisa senão nas verdades do evangelho, que nada ouve e nada respira senão o evangelho; que não fala de outro assunto e não atende a outra coisa senão à voz do evangelho; que deseja que o mundo inteiro atenda com ele a essa mesma voz e quer comunicar os seus arrebatamentos a toda a humanidade. A partir desse feliz momento, nem os preconceitos da carne e do sangue, nem o respeito humano, nem o medo da morte, nem qualquer outra consideração é capaz de detê-lo em sua carreira. Ele avança com serenidade por um caminho semeado de opróbrios e de dores. Que tem ele a temer? Despreza as máximas do mundo, e até o próprio mundo: seu ódio e seu favor, suas alegrias e suas tristezas, sua mesquinhez e sua pompa. O tempo já não é objeto para ele, nem é por ele que regula a sua vida. Está acima de tudo; é imortal. Ainda que o universo se arme contra ele, ainda que o inferno abra os seus abismos, ainda que a aflição o assalte por todos os lados, ele permanece inabalável em toda tempestade, olhando com desprezo para a morte, consciente de que jamais pode morrer. Superior a todos os seus inimigos, resiste aos seus esforços conjuntos com as armas do evangelho, opondo ao tempo e ao inferno a eternidade e o céu.”

Traço VII

Seu poder de ligar, de desligar e de abençoar em nome do Senhor

A armadura de Deus descrita no artigo anterior é comum a todos os cristãos; mas o verdadeiro ministro está cingido de armas de uma têmpera particular. Como cristão, a sua espada é a palavra de Deus em geral; mas, como ministro, é especialmente aquelas partes do evangelho pelas quais ele é investido de autoridade para pregar a palavra de Deus e exercer as funções de embaixador de Jesus Cristo. “Vão”, disse o nosso bendito Mestre aos seus primeiros discípulos, “e preguem o evangelho a toda criatura. Quem crer na minha doutrina será salvo; quem, porém, não crer será condenado” (Mc 16.15-16). [N. do T.: a NAA traz “Quem crer e for batizado será salvo”; “na minha doutrina” é paráfrase do autor, que não está nem na King James.] “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que tenho ordenado a vocês. E eis que estou com vocês todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28.18-20). “Em verdade, em verdade lhes digo: quem recebe aquele que eu enviar recebe a mim; e quem recebe a mim recebe aquele que me enviou” (Jo 13.20). “Em verdade lhes digo que tudo o que ligarem na terra terá sido ligado nos céus, e tudo o que desligarem na terra”, segundo o espírito do meu evangelho, “terá sido desligado nos céus” (Mt 18.18).

Eis de onde os ministros de Cristo recebem autoridade para absolver os verdadeiros penitentes e excomungar os pecadores obstinados. Autoridade que alguns chamaram de poder do clero; poder de que os pastores injustos tanto abusam e que os fiéis nunca ousam exercer senão com a máxima solenidade; poder que, no entanto, lhes pertence por direito divino, e que não se lhes pode negar com mais razão do que eles poderiam recusar ao povo o cálice sacramental. Tal é, pelo menos, o juízo de muitos teólogos excelentes e eruditos, entre os quais se podem contar o sr. Ostervald e o sr. Roques. Pode-se, contudo, perguntar com propriedade neste lugar: Podem os eclesiásticos justificar-se de continuar a fazer uso de sua autoridade nesses pontos, se não o fazem com prudência e imparcialidade? E não lhes conviria exercer a disciplina eclesiástica de modo especial sobre os pastores indignos, segundo a máxima de São Pedro: “Chegou o tempo de começar o juízo pela casa de Deus!” (1Pe 4.17).

Investido da autoridade que Cristo lhe conferiu, o verdadeiro ministro está pronto para denunciar os justos juízos de Deus contra os pecadores obstinados, consolar os abatidos e proclamar as promessas do evangelho a todo crente sincero, com uma energia desconhecida do pastor mundano e com um poder acompanhado do selo do Deus vivo. Assim, quando tal ministro discerne claramente a malícia profunda de um outro Elimas, é-lhe permitido dizer, com a autoridade de um embaixador de Jesus Cristo: “Ó filho do diabo, cheio de todo o engano e de toda a maldade, inimigo de toda a justiça, por que você não deixa de perverter os retos caminhos do Senhor? Eis que, agora, a mão do Senhor está contra você” (At 13.10-11). Mas o verdadeiro ministro tem o cuidado de nunca abusar desse poder legítimo. “Nada podemos contra a verdade”, diz São Paulo, “senão a favor da verdade. Portanto, escrevo estas coisas, estando ausente, para que, estando presente, não venha a usar de rigor segundo a autoridade que o Senhor me deu para edificação e não para destruição” (2Co 13.8, 10). A denúncia da vingança é para o ministro de Cristo o que a execução do juízo é para o Deus de amor: a sua obra penosa e estranha.

O bom pastor, consciente de que o ministério da misericórdia excede em glória o ministério da condenação, põe a sua principal glória e o seu prazer em espalhar as bênçãos da nova aliança. Sabe que as promessas são sim e amém naquele benfazejo Redentor que deu aos seus primeiros missionários esta ordem: “Ao entrarem numa casa, digam primeiro: ‘Paz seja nesta casa!’ Se houver ali uma pessoa que ama a paz, sobre ela repousará a paz de vocês; se não houver, a paz voltará sobre vocês” (Lc 10.5-6). Os votos e as orações de um ministro que age e fala em conformidade com a intenção dessa ordem benigna comunicam realmente a paz e a bênção do seu bondoso Mestre àqueles que estão aptos a recebê-las; e, conforme o grau de sua fé, ele pode escrever aos fiéis de igrejas distantes com a confiança de São Paulo: Estou persuadido de que, “ao visitá-los, irei na plenitude da bênção de Cristo” (Rm 15.29). Sempre que saúda os seus irmãos, a sua pena ou os seus lábios se tornam o canal daqueles votos evangélicos que brotam do seu coração: “Que a graça e a paz de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo estejam com vocês” (Fp 1.2). “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vocês” (2Co 13.13). Assim o verdadeiro ministro se mostra membro do sacerdócio real, sacerdote do Altíssimo “segundo a ordem de Melquisedeque”, que abençoou o patriarca Abraão; ou, antes, servo ministrante do Filho de Deus, que foi manifestado na carne para que nele fossem “benditas todas as famílias da terra”.

Grande Deus! Concede que todo o corpo dos pastores cristãos seja de homens segundo o teu coração. Deixando aos ignorantes aqueles cumprimentos que uma dependência servil inventou, que os teus ministros levem sempre consigo o amor, a gravidade e a autoridade apostólica que convêm ao seu caráter sagrado. Que todas as bênçãos que lhes deste a missão de pronunciar façam que eles continuem a ser recebidos “como anjo de Deus” (Gl 4.14). Longe de serem desprezados como hipócritas, evitados como hóspedes incômodos ou temidos como homens de disposição cobiçosa e tirânica, seja sempre tido por feliz o momento em que entram na casa de alguém; e, sempre que aparecerem nessas ocasiões de caridade, que os membros da família, cada um procurando ser o primeiro a saudá-los, exclamem: “Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas!” (Rm 10.15).

O poder de pronunciar exortações e bênçãos não é privilégio exclusivo dos pastores, mas pertence a todos os crentes experimentados. Os patriarcas tinham o direito de abençoar os seus filhos; e Jacó abençoou não apenas os seus filhos e netos, mas também o próprio rei do Egito. Se, pois, os seguidores de Cristo estão privados desse poder consolador, os filhos do antigo Israel eram mais privilegiados do que os membros da igreja cristã, que são, no entanto, chamados a receber bênçãos mais preciosas e a ser, como diz o nosso Senhor, “o sal da terra” e “a luz do mundo”. Quando São Paulo escreve aos crentes: “Procurem com zelo os dons espirituais, principalmente o de profetizar, pois o que profetiza fala para as pessoas, edificando, exortando e consolando” (1Co 14.1, 3), sem dúvida os estimula a pedir a Deus aquele amor transbordante e aquela autoridade patriarcal sem os quais lhes é impossível cumprir plenamente esta ordem apostólica: “Abençoem e não amaldiçoem, pois para isto mesmo vocês foram chamados, a fim de receberem bênção por herança”; e sem um alto grau dos quais não podem obedecer sinceramente a estes preceitos distintos do nosso bendito Senhor: “Amem os seus inimigos, façam o bem aos que odeiam vocês e orem pelos que maltratam vocês e os perseguem” (Rm 12.14; 1Pe 3.9; Mt 5.44). [N. do T.: o autor cita a King James; em Mt 5.44 a NAA traz apenas “amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês”.]

Traço VIII

O empenho com que começou e continuou a cumprir os deveres de sua vocação

O verdadeiro penitente, tendo renunciado a si mesmo pela honra de seguir o seu exaltado Senhor, permanece fielmente em sua vocação, seja ela secular ou eclesiástica. Está pronto, em todas as ocasiões, a fazer a vontade do seu bondoso Mestre; e, se recebeu a missão de agir como ministro de Cristo, depois de se revestir de “toda a armadura de Deus”, expõe-se sem medo aos perigos mais ameaçadores, para obrigar os pecadores a entrar para a ceia das bodas do Cordeiro. “Agora me alegro nos meus sofrimentos”, diz São Paulo, “a favor do seu corpo, que é a igreja, da qual me tornei ministro de acordo com a dispensação da parte de Deus, que me foi confiada em favor de vocês, para dar pleno cumprimento à palavra de Deus: o mistério que esteve escondido durante séculos e gerações, mas que agora foi manifestado aos seus santos. A estes Deus quis dar a conhecer a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vocês, a esperança da glória. Este Cristo nós anunciamos, advertindo a todos e ensinando a cada um em toda a sabedoria, a fim de que apresentemos cada pessoa perfeita em Cristo. É para esse fim que eu me empenho, esforçando-me o mais possível, segundo o poder de Cristo que opera poderosamente em mim. Quero que saibam quão grande tem sido a nossa luta por vocês”, e por todos aqueles entre os quais a palavra de Deus é pregada, “para que o coração deles seja consolado e para que eles, vinculados em amor, tenham toda a riqueza da plena convicção do entendimento, para conhecimento do mistério de Deus, que é Cristo, em quem estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Cl 1.24-29; 2.1-3).

Tais são as grandes ideias que o apóstolo Paulo tinha do ministério que recebera; e observe a assiduidade com que cumpria os deveres de um ofício tão importante: “Vocês sabem”, diz ele, falando aos pastores a quem confiou o cuidado de um dos seus rebanhos, “como me conduzi entre vocês em todo o tempo, desde o primeiro dia em que entrei na província da Ásia, servindo o Senhor com toda a humildade, com lágrimas e com as provações que me sobrevieram, e como jamais deixei de anunciar o que fosse proveitoso e de ensinar isso a vocês publicamente e também de casa em casa, testemunhando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, no dia de hoje testifico diante de vocês que estou limpo do sangue de todos, porque jamais deixei de lhes anunciar todo o plano de Deus. Cuidem, pois, de vocês mesmos, porque eu sei que, depois da minha partida, aparecerão no meio de vocês lobos vorazes”, pastores infiéis, “que não pouparão o rebanho. Portanto, vigiem, lembrando que, durante três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, cada um de vocês” (At 20.18-31). Em toda parte ele cumpria as obrigações de ministro com a mesma aplicação e o mesmo zelo, viajando de cidade em cidade e de igreja em igreja, dando testemunho da “redenção que há em Cristo Jesus” e declarando as grandes verdades do evangelho. Quando as sinagogas se fechavam para ele, pregava nas escolas dos filósofos, à beira-mar, a bordo de navios e até nas prisões; e, enquanto morava preso em sua própria casa em Roma, “recebia todos os que o procuravam”, e “desde a manhã até a tarde, lhes fez uma exposição em testemunho do Reino de Deus, procurando persuadi-los a respeito de Jesus, tanto pela Lei de Moisés como pelos Profetas” (At 28.23, 30).

Assim o próprio Filho de Deus trabalhou outrora publicamente pela conversão dos pecadores, ora percorrendo “toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do Reino” (Mt 4.23), ora instruindo as multidões que o seguiam pelos campos ou acorriam à casa onde se hospedava; “visto serem muitos os que iam e vinham”, e “não tinham tempo nem para comer” (Mc 6.31). E quando, pelo prazer de levar os samaritanos ao conhecimento da verdade espiritual, deixou de lado as necessidades da natureza, os seus discípulos, pedindo-lhe que comesse do alimento que haviam preparado, receberam dele esta resposta memorável: “Tenho para comer uma comida que vocês não conhecem. A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra”, a saber, a gloriosa obra de iluminar e salvar os pecadores (Jo 4.32, 34).

Assim São Paulo se ocupava diligentemente, todos os dias, em cumprir os deveres de sua vocação apostólica; e assim todo ministro do evangelho é chamado a trabalhar na esfera que lhe foi designada. Resta saber se todos os que não trabalham segundo a sua capacidade não estão condenados por esta regra geral: “Se alguém não quer trabalhar, também não coma” (2Ts 3.10). Pois essas palavras, aplicadas ao caso presente, significam que os que não querem trabalhar como pastores não devem de modo algum ter permissão de comer o pão dos pastores. Preceito evangélico este que merece a mais estrita atenção, porque o pão dos pastores é, de certo modo, pão sagrado, já que é aquele que a piedade pública separou para o sustento dos que abandonaram toda ocupação mundana a fim de se dedicarem livre e inteiramente ao serviço da igreja.

Traço IX

A maneira como dividia o seu tempo entre a oração, a pregação e as ações de graças

O ministro da época presente raramente se ocupa em anunciar ao seu povo as verdades do evangelho, e mais raramente ainda em suplicar para ele a posse das bênçãos que o evangelho oferece. É sobretudo diante dos homens que ele levanta as mãos e finge derramar uma oração da plenitude do coração; ao passo que o verdadeiro ministro divide o seu tempo entre as duas ocupações importantes e revigorantes da pregação e da oração: pela primeira, faz aos ouvintes uma oferta pública da graça divina; pela segunda, pede para eles, em secreto, a experiência dessa graça. Tal era a maneira do próprio bendito Jesus, que, depois de repreender os seus discípulos pelo baixo grau de sua fé, retirava-se para os jardins ou para os montes, orando para que a fé deles “não desfaleça”. O bom pastor, que imita constantemente o exemplo do seu divino Mestre, está pronto a adotar esta linguagem de São Paulo ao dirigir-se ao rebanho de que foi imediatamente encarregado: “Por essa razão, eu me ponho de joelhos diante do Pai, de quem toda a família, nos céus e na terra, recebe o nome. Peço a Deus que, segundo a riqueza da sua glória, conceda a vocês que sejam fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito, no íntimo de cada um. E assim, pela fé, que Cristo habite no coração de vocês, estando vocês enraizados e alicerçados em amor, para que vocês fiquem cheios de toda a plenitude de Deus” (Ef 3.14-19). “E também faço esta oração: que o amor de vocês aumente mais e mais em conhecimento e toda a percepção, para que vocês aprovem as coisas excelentes e sejam sinceros e inculpáveis para o Dia de Cristo, cheios do fruto de justiça que vem por meio de Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus” (Fp 1.9-11). Com orações como essas, o apóstolo Paulo costumava regar sem cessar a semente celestial que havia espalhado tão amplamente pela vinha do seu Senhor, mostrando um apego crescente àqueles entre os quais em algum tempo anunciara as boas-novas da salvação, e exprimindo, em todas as suas cartas às igrejas distantes, o desejo mais ardente de que Deus “cumpra com poder”, neles, “todo propósito de bondade e obra de fé, a fim de que o nome de nosso Senhor Jesus seja glorificado” neles, e eles “nele” (2Ts 1.11-12).

Os pastores que oram assim pelos seus rebanhos não oram em vão. Suas petições fervorosas são ouvidas; os pecadores se convertem, os fiéis são edificados, e logo a ação de graças se une à súplica. Assim o mesmo apóstolo: “Sempre dou graças ao meu Deus por vocês, por causa da graça de Deus que foi dada a vocês em Cristo Jesus. Porque em tudo vocês foram enriquecidos nele, em toda a palavra e em todo o conhecimento, de maneira que não lhes falta nenhum dom, enquanto aguardam a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Co 1.4-7). “Tendo ouvido a respeito da fé que vocês têm no Senhor Jesus e do amor para com todos os santos, não cesso de dar graças por vocês” (Ef 1.15-16).

Os ministros mundanos não têm nenhuma experiência da santa alegria que acompanha esses sacrifícios secretos de louvor e de ação de graças. Mas isso não pode de modo algum ser motivo de espanto. É o apego deles a Cristo tão sincero quanto o dos seus ministros fiéis? São eles tão solícitos pela salvação dos seus ouvintes? Ensinam e pregam com igual zelo? Oram com o mesmo ardor e a mesma perseverança?

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Portrait of St. Paul: or, The True Model for Christians and Pastors, versão inglesa de Joshua Gilpin (1790) do manuscrito francês do autor, na edição de Nova York (B. Waugh e T. Mason, 1834), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Por isso esta é tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.