John Fletcher · O Retrato de São Paulo · Parte I, traços I a IV

A piedade, a união com Cristo e a vocação de São Paulo

A piedade de Paulo na juventude, a sua piedade cristã, a sua união íntima com Cristo pela fé e a sua vocação extraordinária ao santo ministério, com reflexões sobre a vocação ordinária.

Primeiro traço do caráter moral de São Paulo

Sua piedade na juventude

O grande apóstolo dos gentios não se parecia em nada com aqueles que rejeitam o serviço de Deus até ficarem incapazes de satisfazer suas paixões desordenadas. Ele se lembrou do seu Criador desde a primeira juventude e, como observante dos ritos religiosos, ultrapassou os mais exatos e rigorosos professos de seu tempo, de modo que a regularidade de sua conduta, o fervor de sua devoção e a vivacidade de seu zelo atraíam em toda parte a atenção de seus superiores. Observe como ele mesmo fala a esse respeito diante do tribunal de Festo: “Quanto à minha vida, desde a mocidade, como decorreu desde o princípio entre o meu povo e em Jerusalém, todos os judeus a conhecem; pois, na verdade, eu era conhecido deles desde o princípio, se assim o quiserem testemunhar, porque, na condição de fariseu, vivi conforme o partido mais rigoroso da nossa religião” (At 26.4-5). Tendo ocasião, mais tarde, de mencionar as mesmas circunstâncias em sua Epístola aos Gálatas, ele escreve assim: “Vocês ouviram qual foi, no passado, o meu modo de agir, como, na minha nação, quanto ao judaísmo, levava vantagem sobre muitos da minha idade, sendo extremamente zeloso das tradições dos meus pais” (Gl 1.13-14). E a que grau extraordinário de excelência ele havia levado a sua moral pode-se inferir desta declaração breve, mas solene, feita na presença de pessoas muito capazes de convencê-lo de falsidade, caso se encontrasse a menor mancha em sua conduta exterior: “Meus irmãos, tenho vivido até o dia de hoje com a consciência limpa diante de Deus” (At 23.1). Tal era a piedade de São Paulo em sua juventude; e tal era a justiça em que ele confiava quando, por zelo pela igreja e pelo Estado de que era membro, perseguia os cristãos como perturbadores da paz pública.

Tendo visto o lado belo do caráter desse apóstolo em sua juventude, consideremos agora os seus defeitos. Como membro da igreja judaica, ele era animado de zelo, mas esse zelo era rígido e severo; como membro da sociedade, suas maneiras eram provavelmente corteses, mas em algumas ocasiões seu comportamento era tirânico e desumano. Numa palavra, possuía toda a religião, exceto aquelas partes essenciais dela, a humildade e o amor. Altivo e impaciente, não suportava contradição. Confiando em sua própria suficiência, não se dava tempo de comparar seus erros com a verdade; e daí, encobrindo a sua crueldade com o nome especioso de zelo, ele respirava “ameaças e morte contra os discípulos do Senhor” (At 9.1). Ele mesmo, falando dessa parte de seu caráter, faz esta humilhante confissão: “Era blasfemo, perseguidor e insolente” (1Tm 1.13). “Na verdade, eu pensava que devia fazer muitas coisas contra o nome de Jesus, o Nazareno; e foi exatamente o que fiz em Jerusalém. Havendo eu recebido autorização dos principais sacerdotes, encerrei muitos dos santos na prisão; e, quando os condenavam à morte, eu dava o meu voto contra eles. Muitas vezes, os castiguei por todas as sinagogas, obrigando-os até a blasfemar. E, demasiadamente enfurecido contra eles, eu os perseguia até em cidades estrangeiras” (At 26.9-11).

Contudo, esse fariseu rígido, que levava a devoção até o fanatismo e o zelo até o furor, tinha um coração reto aos olhos de Deus. “Alcancei misericórdia”, diz ele depois de sua conversão, “pois fiz isso na ignorância, na incredulidade” (1Tm 1.13), imaginando que, quando perseguia os discípulos de Jesus, estava resistindo a uma torrente dos erros mais perigosos.

A piedade é aquele conhecimento de Deus e de suas várias relações com o homem que nos leva a adorá-lo, amá-lo e obedecer-lhe em público e em particular. Essa grande virtude é o primeiro traço do caráter moral de São Paulo, e é absolutamente necessária ao caráter cristão em geral, pois é a mãe de todas as virtudes, à qual Deus deu a promessa da vida presente e da que há de vir. Mas é necessária de modo particular àqueles que se consagram ao santo ministério, pois, sendo obrigados por seu ofício a dar ao rebanho o exemplo da piedade, se eles mesmos forem destituídos de piedade, necessariamente agirão sem nenhuma conformidade com o caráter sagrado que ousaram assumir.

Se o pagão Quintiliano estabeleceu como princípio geral que é impossível tornar-se bom orador sem ser homem de bem, certamente ninguém negará que a piedade deve ser considerada a primeira qualificação essencial de um orador cristão. O sr. Roques, em seu Evangelical Pastor, observa que “o ministro, por sua posição, é um homem retirado do mundo, consagrado a Deus e chamado à santidade evangélica. Ele é”, prossegue, “segundo São Paulo, ‘homem de Deus’, isto é, uma pessoa inteiramente consagrada a Deus; um homem de excelência superior; um homem, em certo sentido, divino; e, para corresponder em algum grau ao sentido desse título, é necessário que a sua piedade seja ilustre, sólida e universal.” Sem dúvida esse piedoso autor colheu essas belas ideias nos escritos de São Paulo, que assim se dirige a Tito sobre o mesmo assunto: “É indispensável que o bispo, por ser encarregado das coisas de Deus, seja irrepreensível, não arrogante, alguém que não se irrita facilmente, não apegado ao vinho, não violento, nem ganancioso. Pelo contrário, o bispo deve ser hospitaleiro, amigo do bem, sensato, justo, piedoso, deve ter domínio de si, ser apegado à palavra fiel, que está de acordo com a doutrina, para que possa exortar pelo reto ensino e convencer os que contradizem este ensino” (Tt 1.7-9). “No ensino, mostre integridade, reverência, linguagem sadia e irrepreensível, para que o adversário seja envergonhado, não tendo nada de mau a dizer a nosso respeito” (Tt 2.7-8).

Um pastor sem piedade desonra a santa profissão que escolheu, muito provavelmente pelos mesmos motivos temporais que levam outros a abraçar o estudo das leis ou a carreira das armas. Se aqueles que eram chamados a servir às mesas deviam ser homens “de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria” (At 6.3), é evidente que as mesmas disposições e graças devem ser possuídas, em grau mais eminente, por aqueles que são chamados a ministrar nas coisas santas.

“Quando voltar para mim”, disse Cristo a Pedro, “fortaleça os seus irmãos” (Lc 22.32).

Nenhum espetáculo pode ser mais absurdo do que o de um incrédulo impenitente ocupado em chamar os pecadores ao arrependimento e à fé. Até os homens do mundo olham com desprezo para um ministro dessa espécie, cuja conduta contradiz perpetuamente seus discursos e que, enquanto insiste com os outros sobre a necessidade da santidade, se entrega aos prazeres de um pecado habitual. Tal pregador, longe de ser instrumento de verdadeiras conversões entre o seu povo, geralmente levará os seus ouvintes à mesma hipocrisia que distingue o seu próprio caráter, pois o que se disse nos tempos antigos é igualmente verdadeiro em nossos dias: “Tal povo, tal sacerdote” (Os 4.9). Pastores mornos fazem cristãos descuidados; e o pregador mundano conduz os seus ouvintes mundanos à segurança carnal tão necessariamente quanto um guia cego conduz os cegos ao buraco. E a essa fonte infeliz podem-se atribuir os costumes degenerados da época presente, o descrédito que pesa sobre a nossa santa religião e os triunfos crescentes da incredulidade.

“Ora, a pessoa natural”, diz São Paulo, “não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura. E ela não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1Co 2.14). Ora, se um ministro destituído da piedade bíblica é tido por incapaz de compreender as doutrinas do evangelho, quanto menos será capaz de publicá-las e explicá-las? E se aqueles que vivem segundo os vãos costumes do mundo não têm sequer a justiça dos fariseus, com que propriedade se pode chamá-los, não digo verdadeiros ministros, mas mesmo deístas piedosos?

Embora nem todo candidato ao santo ministério esteja em condições de declarar com São Paulo: “Tenho vivido até o dia de hoje com a consciência limpa diante de Deus”, todos os que aspiram a esse importante ofício deveriam, ao menos, poder dizer com sinceridade: “Por isso, também me esforço por ter sempre uma consciência pura diante de Deus e dos homens” (At 24.16). Tais eram a moral e a conduta de um Sócrates e de um Epiteto; e adoradores como esses, vindos “do Oriente e do Ocidente”, entrarão no Reino dos Céus, enquanto “os filhos do Reino serão lançados para fora, nas trevas” (Mt 8.11-12).

Traço II

Sua piedade cristã

Ficou bastante claro, no artigo anterior, que São Paulo possuía um bom grau de piedade desde a infância. Criado no temor de Deus por seu pai, que se supõe ter sido um fariseu zeloso, foi depois instruído aos pés de Gamaliel, piedoso doutor da lei, a cuja sabedoria e moderação São Lucas deu honroso testemunho (At 5.34). E tanto havia aproveitado em sua juventude esses privilégios inestimáveis que, “quanto à justiça que há na lei”, era “irrepreensível”. Mas essa piedade não era suficiente sob o Novo Testamento.

Para tornar-se cristão e verdadeiro ministro do evangelho, é necessário ter não apenas a piedade de um deísta sincero ou de um judeu devoto, como a que São Paulo tinha antes de sua conversão, mas também aqueles graus mais elevados de piedade que esse apóstolo possuiu depois de ter recebido o duplo dom de um profundo arrependimento para com Deus e de uma fé viva em Jesus Cristo. A base da piedade entre os judeus era o conhecimento de Deus como Criador, Protetor e Galardoador; mas, para ter a piedade cristã, é necessário que a esse conhecimento de Deus como Criador etc. se acrescente o de Deus Redentor, Deus que destrói todos os males, Deus nosso Salvador; ou, em outras palavras, o conhecimento de Jesus Cristo. “E a vida eterna é esta: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3).

Mas quem pode conhecer de verdade, não digo o seu Salvador, mas simplesmente a sua necessidade de um Salvador, sem antes conhecer o próprio coração e receber nele uma impressão viva tanto do seu pecado como do seu perigo? Um estudante de teologia que ainda não se submeteu à máxima de Sólon, “Conhece-te a ti mesmo”, e que nunca gemeu sob aquele sentimento de nossa ignorância e depravação naturais que obrigou Sócrates a confessar a falta de um instrutor divino; um candidato, digo, que não conhece nada de si mesmo, em vez de solicitar ansiosamente a imposição das mãos, deveria antes procurar entender de verdade a censura que Cristo fez outrora ao pastor da igreja de Laodiceia: “Você é infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu” (Ap 3.17).

Se um jovem se insinua no ministério sem esse conhecimento, longe de ser capaz de pregar o evangelho, não compreenderá sequer este primeiro princípio evangélico: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5.3). E, em vez de oferecer devotamente a Deus as orações da congregação reunida, começará invariavelmente o ofício sagrado com um ato de hipocrisia, ao dizer: “Pai Todo-Poderoso, nós erramos e nos desviamos dos teus caminhos como ovelhas perdidas. Ofendemos as tuas santas leis. Não há saúde em nós. Mas tu, ó Senhor, tem misericórdia de nós, miseráveis pecadores.” Depois de fazer essas confissões em público, quando é interrogado em particular a respeito daquela miséria e condenação sob cujo peso há pouco parecia gemer, não hesitará em contradizer de imediato o que expressou tão claramente. Assim revela a todo observador imparcial que, quando ora em público, ora ou como uma criança que não entende o que repete, ou como um enganador que aparenta crer naquilo em que realmente não dá crédito algum, e isso apenas para desfrutar do salário de ministro e de sua posição na sociedade.

O que aqui se diz dos ministros aplica-se igualmente aos cristãos em geral. Se alguém ousa aproximar-se da mesa sacramental, para ali professar que foi resgatado da morte eterna pela morte de Cristo, antes de estar profundamente humilhado pelo sentimento da condenação devida ao seu pecado, pode-se dizer que pratica um ato de piedade? Não está antes praticando, na presença de Deus, um ato de cerimônia vã e de dissimulação presunçosa? A humilhação fingida de tal comungante seria semelhante à de um súdito rebelde que, sem nenhuma consciência de que suas ações tinham merecido a morte, se lançasse por interesse aos pés do seu príncipe e fingisse alegrar-se com a clemência imerecida que lhe permitiu viver. Todas as nossas profissões de fé em Cristo estão tingidas, mais ou menos, de hipocrisia, se não forem precedidas por aquela dolorosa convicção dos erros passados, única fonte de onde podem brotar com sinceridade as confissões humilhantes com que costumamos começar os nossos cultos sagrados.

O verdadeiro cristão, e, por conseguinte, o verdadeiro ministro, é levado a clamar com São Paulo, quando este descobriu a pureza da lei de Jeová e a grandeza de sua própria culpa: “A lei é espiritual”, e exige uma obediência correspondente à sua natureza; “eu, porém, sou carnal, vendido à escravidão do pecado, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum. Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.14-24).

Desse modo, o verdadeiro penitente, cansado e sobrecarregado, se aproxima do Salvador; e, enquanto continua a implorar a sua graça e o seu favor, opera-se em sua alma uma mudança incompreensível. Seus gemidos se transformam de repente em cânticos de libertação, e ele pode adotar a linguagem triunfante do grande apóstolo: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor! Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte. Agora, pois, já não existe nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 7.25; 8.1-2).

Todo verdadeiro seguidor de Cristo, portanto, e especialmente todo verdadeiro ministro do evangelho, experimentou realmente o mal do pecado, a incapacidade do homem de livrar-se de tal mal e a eficácia do remédio que dotou os primeiros cristãos de um grau tão extraordinário de pureza, de poder e de alegria. E, em testemunho da virtude desse remédio soberano, todo seguidor assim tem o direito de declarar com os seus felizes predecessores: “Damos graças ao Pai, que nos capacitou a participar da herança dos santos na luz. Ele nos libertou do poder das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado, em quem temos a redenção, a remissão dos pecados” (Cl 1.12-14).

Quando um pregador possui a piedade cristã, ou, em outras palavras, quando fez a sua paz com Deus por meio daquele profundo arrependimento que nos capacita a morrer para o pecado e daquela fé viva que nos une a Cristo, ele naturalmente convida o mundo a abraçar o Salvador que operou em seu favor tão maravilhoso livramento; e reforça esse convite com toda a força e todo o calor que sempre acompanham uma sensibilidade profunda. Depois de ter crido com o coração para alcançar a justiça, está preparado para confessar com os lábios e dar testemunho da sua salvação, exclamando com a mesma sinceridade de Simeão, mas num sentido muito mais completo: “Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra; porque os meus olhos já viram a tua salvação.” “Aqui”, diz o sr. Ostervald, “pode-se aplicar o que disse o nosso bendito Senhor: ‘A pessoa boa tira o bem do bom tesouro do coração.’ Erasmo diz o mesmo: Nihil potentius ad excitandos bonos affectus, quam piorum affectuum fontem habere in pectore. Si vis me flere, dolendum est, etc.; isto é, seguindo a ideia do autor, você nunca conquistará outros para a vida religiosa se você mesmo não possuir antes a piedade. É ela que inspira pensamentos, disposições e palavras que nada mais pode produzir. É ela que anima a voz, o gesto e cada ação do pregador cristão. Quando ele está assim firmado na piedade, é difícil imaginar com que facilidade e com que êxito trabalha, desfrutando sempre em si mesmo de uma doçura indizível. Então é que ele sente de verdade a sua vocação; então fala na causa de Deus, e só então está em condições de tocar os outros.”

Pareceu tão necessário aos pais que compuseram o sínodo de Berna que todo ministro possuísse uma piedade sólida, que eles julgaram impossível alguém ser bom catequista sem ela. Depois de recomendar aos pastores que explicassem aos jovens a Oração do Senhor e o Credo Apostólico, acrescentam: “Isso será muito mais eficaz se, antes de tudo, cuidarmos de que Jesus Cristo se levante em nosso próprio coração. O fogo de que estaríamos então animados logo despertaria e aqueceria a mente dócil das crianças. Do contrário, aquilo que só a razão tira dos livros, e que é ensinado por outros homens, não passa de obra humana, e será ineficaz até que o grande Mestre, o próprio Espírito Santo, tome parte na obra, criando, renovando e regenerando para uma vida celestial e eterna.” (Atas do Sínodo, cap. 34.)

Reflexões sobre o segundo traço do caráter de São Paulo

1. O conhecimento experimental de nossa miséria como pecadores e de nossa salvação como pecadores resgatados é a porção de todo crente sob o evangelho. Se nos falta esse duplo conhecimento, ainda estamos num estado de perigosa ignorância e em vão somos chamados cristãos. Porque a humildade cristã tem a sua fonte no conhecimento de nossa corrupção, assim como o amor cristão flui do conhecimento da grande salvação que Cristo nos alcançou; e, se essas duas graças não residem em nosso coração, nossa religião não passa de sombra do cristianismo.

2. Assim como há pessoas cuja fisionomia é fortemente marcada e que têm algo de particularmente impressionante em todo o contorno do rosto, assim também há algumas cujos traços de caráter moral são igualmente marcantes e cuja conversão se distingue por circunstâncias incomuns. Tal foi o apóstolo Paulo. Mas uma série de acontecimentos maravilhosos não é de modo algum necessária à conversão. Por exemplo: não é necessário que todos os crentes sejam literalmente lançados por terra, nem que, gemendo sob o peso dos seus pecados e sob a convicção de uma dupla cegueira, permaneçam em oração três dias e três noites, sem comer nem beber. Mas é absolutamente necessário que sintam uma tristeza extrema por terem ofendido um Deus bondoso; que condenem a si mesmos e os seus vícios por um arrependimento não fingido; e que, confessando a depravação de todo o seu coração, se entreguem àquela aflição sincera que recusa toda consolação, exceto a que vem do alto. Também não é necessário que ouçam uma voz do céu, que vejam uma luz mais brilhante que o sol, ou que contemplem em visão o ministro escolhido para lhes trazer consolo em nome do Senhor Jesus. Mas é absolutamente necessário que ouçam a palavra de Deus, que sejam iluminados pelo evangelho e recebam orientação de algum mensageiro enviado para socorrê-los, até que, depositando toda a sua confiança em Deus por meio de um Redentor bondoso, sintam uma natureza nova e celestial produzida dentro de si. Esse arrependimento sincero e essa fé viva, ou, o que vem a ser o mesmo, essa piedade cristã, é rigorosamente exigida de todo crente sob o Novo Testamento.

3. A piedade cristã constitui a grande diferença que se observa entre os verdadeiros ministros e os pastores indignos. Estes pregam sobretudo para obter benefícios eclesiásticos ou para conservá-los, ou talvez para se revezarem no cumprimento de deveres que consideram pesados e penosos. Mas o desejo de comunicar aos pecadores aquele conhecimento espiritual que é mais precioso do que os rubis é o grande motivo da pregação dos verdadeiros ministros de Deus. Eles anunciam Cristo, como São Paulo, por convicção e por inclinação, expondo-se até à perseguição por pregarem o evangelho, como aqueles fiéis evangelistas que, quando lhes ordenaram que não ensinassem mais em nome de Jesus, responderam com igual respeito e resolução: “Os senhores mesmos julguem se é justo diante de Deus ouvirmos antes aos senhores do que a Deus; pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (At 4.19-20).

4. É digno de nota que São Paulo pede, não só para todos os mestres públicos, mas para cada crente particular na igreja, os mais altos graus de graça e de experiência cristã. “Não cesso”, diz ele aos efésios, “de mencioná-los nas minhas orações. Peço ao Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, que conceda a vocês espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele. Peço que ele ilumine os olhos do coração de vocês, para que saibam qual é a esperança da vocação de vocês, qual é a riqueza da glória da sua herança nos santos e qual é a suprema grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos” (Ef 1.16-19). E o mesmo fim que esse apóstolo se propunha em suas súplicas particulares, São João também se propunha ao escrever suas epístolas públicas: “O que vimos e ouvimos anunciamos também a vocês, para que também vocês tenham comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho, Jesus Cristo. E escrevemos estas coisas para que a nossa alegria seja completa” (1Jo 1.3-4). Como se dissesse: Escrevemos para ver se, porventura, conseguimos estimulá-los a buscar graus mais elevados de fé, de amor e de obediência, para que, “enraizados e alicerçados em amor”, vocês possam “compreender, com todos os santos”, o “amor de Cristo, que excede todo entendimento”, para que fiquem “cheios de toda a plenitude de Deus” (Ef 3.17-19). O leitor atento perceberá facilmente que aquilo que outrora era objeto das orações mais ardentes de São Paulo é hoje considerado, pelos cristãos nominais em geral, um assunto próprio para as zombarias mais mordazes.

5. Os ministros que ainda não têm experiência cristã, e que não a buscam como a pérola de grande valor que nos é oferecida no evangelho, ainda não estão verdadeiramente convertidos à fé cristã; e (repito-o depois do sr. Ostervald) destituídos de piedade cristã, longe de estarem em condições de pregar o evangelho, não são sequer capazes de compreendê-lo. São esses os que têm “forma de piedade, mas negando o poder dela” (2Tm 3.5). E o maior elogio que se pode fazer a tais pessoas é aquele com que São Paulo honrou os zelotes incrédulos do seu tempo: “Dou testemunho a favor deles de que têm zelo por Deus”; mas esse zelo não vem acompanhado de nenhum conhecimento verdadeiro, nem da fraqueza do homem, nem do poder do Redentor; “desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça que vem de Deus. Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.2-4).

6. Quem não experimentou aquela convicção de pecado e aquele arrependimento que São Paulo descreve no capítulo 7 de sua Epístola aos Romanos, ainda que seja, como Nicodemos, “mestre em Israel”, jamais verá o Reino de Deus. Inteiramente carnal, e satisfeito em continuar assim, não entende nem deseja a regeneração que o evangelho propõe e exige. Não procura sondar o sentido destas palavras importantes: “Em verdade, em verdade lhe digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus” (Jo 3.3). Considera os que nasceram do Espírito como rematados entusiastas e desdenha fazer qualquer investigação séria sobre o fundamento da esperança deles. Se o seu conhecimento da letra da Escritura não o contivesse, ele dirigiria com zombaria a pergunta ingênua de Nicodemos a todo ministro que prega a doutrina da regeneração: “Como pode um homem nascer, sendo velho? Será que pode voltar ao ventre materno e nascer uma segunda vez?” (Jo 3.4). E, se não fosse retido pelas boas maneiras, repetiria grosseiramente a todo seguidor zeloso de São Paulo a expressão descortês de Festo: “Você está louco! Ficou louco de tanto estudar coisas ‘místicas’!” (At 26.24).

7. Pelo contrário, um ministro que se distingue pelo segundo traço do caráter de São Paulo possui, ao mesmo tempo e na devida proporção, todas as disposições necessárias para formar um pastor evangélico, pois não é possível existir piedade cristã sem a luz brilhante da verdade e o zelo ardente do amor. E todo ministro que tem essa luz e esse amor está enriquecido com aqueles dois poderosos recursos que capacitaram os primeiros cristãos a agir como cidadãos do céu, e os primeiros ministros, como embaixadores de Cristo.

Traço III

Sua união íntima com Cristo pela fé

“Eu vim”, disse o bom Pastor, “para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10.10, 11). “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8.12). “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14.6). “Eu sou a videira, vocês são os ramos” (Jo 15.5). O ministro fiel entende o significado dessas expressões misteriosas. Anda nesse caminho, segue essa luz, abraça essa verdade e desfruta dessa vida em toda a sua rica abundância. Constantemente unido ao seu Senhor por uma fé humilde, uma esperança viva e um amor ardente, ele pode dizer com São Paulo: “O amor de Cristo nos domina, porque reconhecemos isto: um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2Co 5.14-15). “Nós morremos, e a nossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus. Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então nós também seremos manifestados com ele, em glória” (Cl 3.3-4). “Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente o seremos também na semelhança da sua ressurreição. Sabemos que, havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre, mas vive para Deus. Assim também nós nos consideramos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus” (Rm 6.5, 9, 11).

Essa fé viva é a fonte de onde deriva toda a santidade do cristão e todo o poder do verdadeiro ministro. É o canal por onde fluem perpetuamente aquela seiva de graça e de consolação e aquelas correntes de paz e de alegria que enriquecem a alma que crê e a tornam fecunda em toda boa obra; ou, para falar sem metáfora, dessa graça poderosa procede aquele amor a Deus e ao próximo que nos leva a pensar e agir como membros ou como ministros de Jesus Cristo. O caráter do cristão se determina segundo a força ou a fraqueza de sua fé. Se a fé de São Paulo tivesse sido fraca ou vacilante, seu retrato seria indigno de nossa contemplação: ele teria necessariamente caído na dúvida e no desânimo; provavelmente teria afundado no pecado, como São Pedro afundou no mar; cedo ou tarde teria perdido o vigor espiritual e feito na igreja a mesma figura daqueles ministros e cristãos que se deixam guiar pelas máximas do mundo. Os efeitos da fé são ainda verdadeiramente misteriosos, embora o nosso Senhor os tenha explicado de maneira tão inteligível quanto a natureza deles permite: “Quem permanece em mim”, por uma fé viva, “e eu, nele”, pela luz da minha palavra e pelo poder do meu Espírito, “esse dá muito fruto; porque sem mim vocês não podem fazer nada. Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam. Nisto é glorificado o meu Pai: que”, unidos a mim como os ramos à videira, “vocês deem muito fruto; e assim mostrarão que são meus discípulos” (Jo 15.5, 6, 8).

Penetrado dessas grandes verdades, e unindo-se cada dia mais firmemente à sua Cabeça viva, o verdadeiro ministro exprime aquilo que o homem natural não pode receber e que poucos pastores da época presente são capazes de compreender, embora São Paulo não só o tenha experimentado em seu próprio coração, mas o declare abertamente nesta passagem notável: “Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. E esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2.19-20).

Traço IV

Sua vocação extraordinária para o santo ministério, e em que consiste principalmente esse ministério

Todo professo do cristianismo conhece a honra que o nosso Senhor concedeu ao apóstolo Paulo, não só chamando-o a participar da fé cristã, mas designando-o também para anunciar o evangelho eterno. O justo sentimento dessa dupla honra penetrou o coração desse apóstolo da mais viva gratidão: “Dou graças”, diz ele, “a Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério, a mim, que, no passado, era blasfemo, perseguidor e insolente. Mas alcancei misericórdia, pois fiz isso na ignorância, na incredulidade. Transbordou, porém, a graça de nosso Senhor com a fé e o amor que há em Cristo Jesus. Mas, por esta mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim, que sou o principal pecador, Cristo Jesus pudesse mostrar a sua completa longanimidade, e eu servisse de modelo para todos os que hão de crer nele para a vida eterna” (1Tm 1.12-14, 16). O ministério evangélico, para o qual São Paulo foi chamado diretamente, é em geral o mesmo em todas as épocas iluminadas pelo evangelho, e consiste em anunciar a verdade de tal maneira que os ímpios se convertam e os fiéis sejam edificados. A comissão que esse grande apóstolo recebeu de Cristo não contém, essencialmente, nada além do dever reconhecido de todo ministro do evangelho. Deixe de lado a aparição miraculosa do nosso Senhor; passe por alto a circunstância de uma comissão dada de modo extraordinário; ponha a palavra pecadores no lugar de gentios e, em vez de judeus, leia professos hipócritas; e você perceberá que, com essas alterações sem importância, a comissão de São Paulo é a comissão de todo ministro fiel da igreja. Observe o teor dela. Pessoalmente, ou por meio dos meus embaixadores, de maneira extraordinária ou ordinária, “eu o constituo ministro e testemunha, tanto das coisas em que você me viu [ou que experimentou] como daquelas pelas quais ainda lhe aparecerei. Vou livrar você do seu próprio povo e dos gentios”, isto é, das mãos dos professos hipócritas e dos pecadores ignorantes, “para os quais eu o envio, para abrir os olhos deles e convertê-los das trevas do erro para a luz da verdade e do poder de Satanás para Deus”, isto é, do pecado, que é a imagem de Satanás, para a santidade, que é a imagem de Deus, “a fim de que eles recebam remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim” (At 26.16-18). Tal foi o ofício para o qual São Paulo foi designado, mais especialmente entre as nações gentias; e tal é, sem dúvida, o ofício de todo pastor, ao menos dentro dos limites de sua paróquia. Quanto a vestir o hábito eclesiástico, ler algumas páginas de uma liturgia, celebrar casamentos, batizar crianças, manter registros e receber salários, essas coisas são meramente acidentais; e todo ministro deveria poder dizer com São Paulo: “Cristo não me enviou [principalmente] para batizar, mas para pregar o evangelho” (1Co 1.17).

É evidente, por várias passagens dos diferentes ofícios da nossa igreja, que os nossos piedosos reformadores eram unânimes em pensar que o próprio Cristo designa e, de certo modo, inspira todos os verdadeiros pastores; que lhes confia o rebanho e que o principal cuidado deles é o mesmo dos primeiros evangelistas, a saber, “a conversão das almas”. E, de fato, o mesmo Senhor que designou os seus discípulos como apóstolos, ou testemunhas oculares de sua ressurreição, designou também outros como pastores, ou testemunhas de segunda ordem e auxiliares dos primeiros evangelistas. Se às testemunhas de ordem mais elevada foi permitido ver Cristo depois de sua ressurreição, as de segunda ordem sentiram a eficácia dessa ressurreição, tendo sido “ressuscitados juntamente com Cristo”, ou regenerados ao receberem “uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” (1Pe 1.3; Cl 3.1). De modo que todo verdadeiro ministro que dá testemunho das verdades do evangelho, seja do púlpito, seja diante dos tribunais, apoia-se em sua própria experiência particular da ressurreição de Cristo, bem como numa convicção fundada nos depoimentos das primeiras testemunhas. Ora, essa convicção e essa experiência não estão de modo algum restritas aos servos de Deus que exercem o ministério; também o coração dos fiéis, em suas diversas gerações, foi movido por ambas, se é verdade que eles estiveram sempre prontos a selar com o próprio sangue estas duas verdades importantes: Jesus Cristo “morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa justificação”. Milhões de leigos foram chamados a dar essa última prova de sua fé, e, sem dúvida nenhuma, é muito mais difícil dar testemunho da verdade num cadafalso do que num púlpito.

Se São Paulo e os outros apóstolos forem considerados pessoas de condição muito superior à nossa, eles mesmos exclamam: “Senhores, nós também somos seres humanos como vocês, sujeitos aos mesmos sentimentos” (At 14.15). Se se disser que Deus inspirou aos apóstolos toda a sabedoria e todo o zelo necessários para cumprirem os deveres de sua alta vocação, pode-se responder que as nossas igrejas imploram para os seus pastores estabelecidos a mesma sabedoria e o mesmo zelo, fundando tais orações na autoridade de muitas passagens claras das Sagradas Escrituras. “Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre” (Ef 3.20-21).

Além disso, é um erro supor que os apóstolos não precisassem de nenhum aumento daquela luz divina pela qual se discernem os objetos espirituais. São Paulo, que foi favorecido com uma inspiração extraordinária, e suficiente para compor livros sagrados nos quais se encontra a infalibilidade, escreve assim aos crentes: “Porque agora vemos como num espelho, de forma obscura; depois veremos face a face. Agora meu conhecimento é incompleto; depois conhecerei como também sou conhecido” (1Co 13.12). Confissão humilde, mas feliz! Por um lado, ela não nos deixa desanimar quando mais sentimos a insuficiência da nossa luz; por outro, ensina-nos quão necessário é recorrer incessantemente ao “Pai das luzes”, guardando-nos igualmente do orgulho de alguns, que imaginam ter apreendido toda a verdade, e da ignorância voluntária de outros, que declaram o conhecimento espiritual inteiramente inalcançável.

Ora, se o apóstolo Paulo só imperfeitamente podia discernir as profundezas da verdade evangélica, e se os próprios anjos “desejam contemplar” essas coisas (1Pe 1.12), quem poderá admirar-se suficientemente da presunção daqueles homens que estão tão persuadidos de sua própria infalibilidade que consideram todas as verdades que não conseguem sondar como meros devaneios do fanatismo? Mas, desviando agora os olhos do erro pernicioso desses cristãos que se exaltam a si mesmos, consideremos um assunto que nos interessa mais do que a vocação extraordinária de São Paulo para o santo ministério.

Reflexões

Sobre a vocação ordinária para o santo ministério

“A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Por isso, peçam ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara” (Mt 9.37-38). Guardando na memória essas notáveis palavras do nosso Senhor, o homem consciencioso é incapaz de se lançar ao santo ministério sem antes ser devidamente chamado a ele pelo Senhor da seara, o grande “Pastor e Bispo” das almas.

O ministro da época presente ordinariamente não é chamado ao santo ministério senão por motivos carnais, como a sua própria vaidade ou o seu gosto particular por uma vida tranquila e ociosa. Talvez a sua vocação para o ministério venha principalmente de seu pai e de sua mãe, que decidiram que o filho entraria nas ordens sagradas. Muitas vezes, se o candidato às ordens sagradas tivesse sinceridade bastante para revelar a verdadeira inclinação do seu coração, poderia apresentar-se aos dignitários da nossa igreja e dizer: “Peço que os senhores me deem um dos cargos sacerdotais, para que eu tenha um pedaço de pão para comer” (1Sm 2.36).

Não é assim com o verdadeiro crente que se consagra ao santo ministério. Ele não ignora que “Cristo não glorificou a si mesmo para se tornar sumo sacerdote”, e está perfeitamente certo de que ninguém tem o direito de tomar para si a dignidade sacerdotal, “a não ser quando chamado por Deus”, seja de modo extraordinário, como Arão e São Paulo, seja ao menos de modo ordinário, como Apolo e Timóteo (Hb 5.4-5). Como é da maior importância entender por que sinais se pode reconhecer essa vocação ordinária para o santo ministério, as reflexões seguintes sobre um assunto tão interessante talvez não sejam de todo supérfluas.

Se um jovem de costumes virtuosos está profundamente penetrado desta verdade humilhante: “Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23); se, além disso, está eficazmente convencido desta verdade consoladora: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16); se os seus talentos naturais foram fortalecidos por uma educação esmerada; se o prazer de fazer o bem lhe é mais doce do que todos os prazeres dos sentidos; se a esperança de “converter o pecador do seu caminho errado” ocupa a sua mente mais agradavelmente do que a ideia de adquirir todas as vantagens da fortuna; se a honra de anunciar o evangelho é maior a seus olhos do que a honra de ser embaixador de um príncipe terreno; enfim, se é levado a consagrar-se ao santo ministério por um desejo que nasce do temor de Deus, do amor a Cristo e do interesse que tem pela salvação do próximo; se, na ordem da Providência, as circunstâncias exteriores concorrem com os seus próprios propósitos; e se ele busca a graça e o auxílio de Deus com mais empenho do que busca a vocação exterior, dada por seus superiores na igreja pela imposição das mãos; então pode ficar certo de que o grande Sumo Sacerdote da profissão cristã o separou para o alto ofício a que aspira.

Quando, depois de sério exame, um estudante de teologia descobre em si mesmo as disposições necessárias acima mencionadas, tendo então recebido com fé e humildade a imposição das mãos dos pastores que presidem na igreja, pode concluir com solidez que foi favorecido com a vocação ordinária. Daí, olhando para a fonte do importante ofício com que foi honrado, pode adotar com propriedade a linguagem de São Paulo: “Dou graças a Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério” (1Tm 1.12). “Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho!”, pois então eu seria achado infiel à minha vocação (1Co 9.16). “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo e nos confiando a palavra da reconciliação. Portanto, somos embaixadores em nome de Cristo” (2Co 5.19-20). E, se não se tornar semelhante àquele “servo mau e preguiçoso” que se recusou a prover às necessidades da casa do seu senhor, poderá dizer em todo tempo: “Por isso, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi dada, não desanimamos. Pelo contrário, rejeitamos as coisas ocultas que trazem vergonha, não agindo com astúcia, nem adulterando a palavra de Deus. E assim, pela manifestação da verdade, nos recomendamos à consciência de todos na presença de Deus” (2Co 4.1-2).

Uma pessoa assim, que sonda as profundezas do coração humano, do qual adquiriu um conhecimento suficiente pelo estudo do seu próprio coração, que medita com atenção nas provas e com humildade nos mistérios da nossa santa religião, que se entrega ao estudo das coisas divinas e, sobretudo, à oração e às boas obras, um pastor assim pode razoavelmente esperar crescer na graça e no conhecimento daquele poderoso Salvador que anuncia com fervor aos outros. Nem é provável que tal pessoa trabalhe inteiramente em vão. Instruído gradualmente nas coisas que dizem respeito ao Reino de Deus, ele se tornará como o pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas; e, quer fale do velho homem, a natureza terrena de que se despiu com tão extrema dor, quer do novo homem, a natureza celestial de que se revestiu com igual alegria (Ef 4.22, 24), falará com uma convicção tão poderosa e uma persuasão tão constrangedora que os descuidados necessariamente se alarmarão e os fiéis se animarão.

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Portrait of St. Paul: or, The True Model for Christians and Pastors, versão inglesa de Joshua Gilpin (1790) do manuscrito francês do autor, na edição de Nova York (B. Waugh e T. Mason, 1834), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Por isso esta é tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.