Walker, História da Igreja Cristã · Período V

Período V, seções VIII a XI

VIII. Os místicos; IX. Missões e derrotas; X. O papado no auge e em declínio; XI. O papado em Avignon, a crítica. O cisma.

Seção VIII. Os místicos

Além da tendência intelectual, a tendência mística esteve fortemente representada em muitos dos escolásticos. Hugo de São Vítor e Boaventura podem ser contados com igual direito entre os místicos e entre os escolásticos. Tomás de Aquino mostrou acentuadas inclinações místicas, derivadas de Agostinho e do Pseudo-Dionísio. Aristóteles nunca venceu por completo as influências neoplatônicas. O próprio neoplatonismo teve certo renascimento nos séculos XII e XIII, em parte por meio dos comentários árabes a Aristóteles, de forte tendência neoplatonizante, mas ainda mais por meio do muito lido Liber de Causis, falsamente atribuído a Aristóteles, mas que continha excertos do filósofo neoplatônico Proclo (410-485), e, por fim, por meio de traduções feitas diretamente das obras reconhecidas de Proclo.

Um importante representante desse espírito místico foi o “Mestre” Eckhart (1260-1327), dominicano alemão que estudou em Paris, serviu como prior provincial da região da Saxônia, viveu algum tempo em Estrasburgo e ensinou em Colônia. No fim da vida, Eckhart foi processado por heresia. Ele mesmo declarou estar pronto a submeter suas opiniões ao juízo da igreja, mas, dois anos depois de sua morte, vários de seus ensinamentos foram condenados pelo papa João XXII. À maneira genuinamente neoplatônica, Eckhart ensinava que o que há de real em todas as coisas é o divino. Na alma do homem há uma centelha de Deus. Essa é a verdadeira realidade em todos os homens. Todas as qualidades individualizantes são essencialmente negativas. O homem deve, portanto, despojar-se delas. Seu esforço consiste em ter Deus nascido em sua alma, isto é, em entrar em plena comunhão com o Deus que nele habita e ficar sob o seu domínio. Nesse esforço, Cristo é o modelo e o exemplo, nele a Divindade habitou na humanidade em toda a sua plenitude. Quando Deus domina, a alma se enche de amor e de justiça. As observâncias da igreja podem ter algum valor, mas as fontes da vida mística são muito mais profundas, e sua união com Deus é mais direta. As boas obras não tornam justo. É a alma já justa que pratica boas obras. O que importa acima de tudo é que a alma entre no pleno privilégio da união com Deus.

Talvez o mais eminente dos discípulos de Eckhart tenha sido João Tauler (?-1361), pregador dominicano que trabalhou longamente em Estrasburgo, de onde provavelmente era natural, em Colônia e em Basileia. Os tempos na Alemanha eram particularmente difíceis. A longa disputa pelo império entre Frederico da Áustria e Luís da Baviera, e as interferências papais nela, produziram confusão religiosa e também política. A peste bubônica de 1348-1349, conhecida na Inglaterra como a “morte negra”, devastou a população. Para a sua época aflita, Tauler foi um pregador de auxílio, cujos sermões têm sido amplamente lidos desde então. Neles há muitos pensamentos “evangélicos”, que despertaram a admiração de Lutero e muitas vezes levaram a afirmar que ele foi um protestante antes do protestantismo. Ele enfatizava o interior e o vital na religião e condenava a confiança em cerimônias externas e em obras mortas. Sua posição real era a de um seguidor de Eckhart, com a mesma ênfase mística na união com o divino, no “nascimento de Deus no interior”, embora evitasse as afirmações extremas que haviam levado a igreja a condenar as opiniões de Eckhart. Representante menos prático, mas de grande influência, das mesmas tendências foi o dominicano asceta Henrique Suso (?-1366), cujos escritos muito fizeram para difundir esse ponto de vista místico.

Por meio dessas influências, surgiu no sudoeste da Alemanha e na Suíça todo um grupo de simpatizantes místicos, que se chamavam a si mesmos “Amigos de Deus”. Entre eles havia não só muitos clérigos, mas também freiras e um número considerável de leigos. Entre os leigos, o mais influente foi Rulman Merswin, de Estrasburgo (1307-1382). Originalmente banqueiro e comerciante, era íntimo de Tauler, cujas ideias partilhava, e dedicou toda a parte final de sua vida a trabalhos religiosos. Ele mistificou seus contemporâneos e a posteridade com cartas e livros que divulgou como se viessem de um “grande Amigo de Deus” das Terras Altas (isto é, da Suíça), cuja existência foi por muito tempo tida como real, mas que hoje está praticamente provado ter sido uma ficção do próprio Merswin. A obra mais importante desses Amigos de Deus foi a Teologia Alemã, escrita no fim do século XIV por um sacerdote da Deutsch-Herrn Haus de Frankfurt, de resto desconhecido e anônimo, a qual viria a influenciar Lutero e seria impressa por ele em 1516 e 1518.

Todos esses místicos alemães pendiam fortemente para o panteísmo. Todos eles, porém, representavam uma visão da vida cristã que via sua essência numa união pessoal e transformadora da alma com Deus, e todos davam pouco peso aos métodos mais externos da vida eclesiástica comum.

Esse movimento místico foi promovido nos Países Baixos por João de Ruysbroeck (1294-1381), que foi influenciado pelos escritos de Eckhart e gozou da amizade pessoal de Tauler e de outros Amigos de Deus. O amigo de Ruysbroeck, por sua vez, foi Gerhard Groot (1340-1384), brilhante erudito que, depois de sua conversão, por volta de 1374, se tornou o pregador popular mais influente dos Países Baixos. Pensador eclesiástico mais conservador que Ruysbroeck, Groot era muito menos radical em seu misticismo. Groot era homem de grandes dons práticos, e sua obra levou, pouco depois de sua morte, à fundação dos Irmãos da Vida Comum por seu discípulo Florentius Radewyn (1350-1400). Essa associação, cuja primeira casa foi estabelecida em Deventer, nasceu da união dos convertidos de Groot em busca de uma vida religiosa mais fervorosa. Agrupavam-se em casas de irmãos e de irmãs, que levavam uma vida essencialmente monástica sob regras comuns, mas sem votos perpétuos, e se ocupavam de exercícios religiosos, da cópia de livros de edificação e, especialmente, do ensino. O trabalho era exigido de todos. Essas casas se espalharam pelos Países Baixos e pela Alemanha e muito fizeram para promover a piedade popular no século XV.

Os Irmãos da Vida Comum não eram monásticos quanto aos votos. A pregação de Groot deu origem a um movimento influente para os que preferiam a vida monástica, embora também ele só tenha tomado forma plena pouco depois de sua morte. Foi a fundação do famoso mosteiro de Windesheim, que logo reuniu ao seu redor vários conventos filiados e se tornou uma poderosa influência reformadora na vida monástica dos Países Baixos e da Alemanha. Em ambos os movimentos a influência mística esteve fortemente presente, embora numa forma muito mais eclesiástica do que entre os discípulos imediatos de Eckhart.

O produto mais nobre dessa piedade simples, mística e eclesiástica é a Imitação de Cristo, livro cuja circulação superou a de qualquer outro produto da Idade Média. Embora sua autoria tenha sido tema de acalorada controvérsia, foi sem dúvida obra de Tomás de Kempis (1380?-1471). Aluno dos Irmãos da Vida Comum em Deventer, passou a maior parte de sua longa vida no mosteiro do Monte Santa Inês, perto de Zwolle. Essa fundação era membro da congregação de Windesheim, da qual João, irmão mais velho de Tomás, fora um dos fundadores. A vida de Tomás foi, exteriormente, a mais desprovida de acontecimentos que se possa conceber; mas poucos entenderam como ele a linguagem da devoção simples e mística a Cristo.

O movimento místico teve seu reverso num panteísmo que rompia com todo ensino eclesiástico e até com todo ensino moral. Tal foi o de Amalrico de Bena (?-1204), professor em Paris, que foi levado pelos escritos de João Escoto Erígena (ver Período IV, seção VI) e pelas opiniões neoplatônicas extremas do comentador muçulmano espanhol de Aristóteles, Averróis (1126-1198), às conclusões de que Deus é tudo, de que ele se encarna no crente como em Cristo e de que o crente não pode pecar. Sustentava também que, assim como a lei e o ritual judaicos haviam sido abolidos pela vinda de Cristo, assim também os do cristianismo anterior estavam agora abolidos pela vinda do Espírito Santo. Amalrico foi obrigado pelo papa Inocêncio III a retratar-se, mas deixou vários seguidores.

Extravagâncias semelhantes continuaram a surgir nas regiões da Alemanha e dos Países Baixos onde o misticismo já descrito tinha seus principais seguidores. Em muitos aspectos, era simplesmente esse misticismo levado a um extremo panteísta. Era em geral quietista, crendo que a alma podia tornar-se uma só coisa com Deus pela contemplação e que, em consequência dessa união, seus atos já não podiam ser pecaminosos, visto que ela é governada por Deus. Todos os sacramentos e penitências, e até a oração, tornam-se supérfluos. Essas ideias não estavam reunidas num sistema compacto, nem seus adeptos constituíam uma seita, embora muitas vezes tenham sido assim considerados e chamados de “Irmãos e Irmãs do Livre Espírito”. Sem dúvida, porém, tais noções se encontravam com bastante frequência em mosteiros e conventos de freiras, onde o misticismo era praticado de modo extravagante, e entre as beguinas, a quem trouxeram reputação duvidosa. Foram não apenas reprimidas pela inquisição, mas também combatidas pelos maiores líderes místicos de quem já se fez relato.

Seção IX. Missões e derrotas

O período entre as Cruzadas e a Reforma foi de ganhos e perdas para a cristandade. Na Espanha, as forças cristãs lutaram com êxito crescente contra os muçulmanos. Gradualmente, quatro Estados cristãos passaram a dominar a península. Castela conquistou Toledo em 1085, derrotou os muçulmanos em Las Navas de Tolosa em 1212 e uniu-se a Leão, formando um Estado forte, em 1230. O pequeno reino de Navarra estendia-se pelos dois lados dos Pireneus. Enquanto isso, Aragão a leste e Portugal a oeste conquistavam sua independência, de modo que, por volta de 1250, o poder muçulmano na península estava confinado ao reino de Granada, de onde seria expulso em 1492. Os reinos cristãos espanhóis eram fracos. O verdadeiro poder da Espanha só se manifestaria quando o reinado conjunto de Fernando e Isabel uniu Castela e Aragão em 1479.

No Oriente, o grande império mongol, que começou com a conquista do norte da China em 1213, estendeu-se pelo norte da Ásia, conquistando a maior parte do que é hoje a Rússia europeia entre 1238 e 1241 e chegando às fronteiras da Palestina em 1258. Com essa devastação, a florescente Igreja nestoriana da Ásia central (ver Período III, seção IX) foi quase aniquilada. Contudo, passado o primeiro ímpeto da conquista, a Ásia central sob domínio mongol tornou-se acessível como nunca fora antes e como não voltaria a ser até o século XIX. Por volta de 1260, dois mercadores venezianos, Nicolò e Maffeo Polo, fizeram a longa viagem por terra até Pequim, onde foram bem recebidos pelo cã mongol Kublai. Tendo voltado em 1269, partiram novamente em 1271, levando o filho de Nicolò, o mais famoso Marco, que entrou ao serviço do cã. Só em 1295 os Polo estavam de volta a Veneza. Já antes do retorno deles, um franciscano italiano, João de Montecorvino, partira em 1291 para Pequim, onde estabeleceu uma igreja por volta de 1300. O cristianismo floresceu por algum tempo. O papa Clemente V (1305-1314) nomeou João arcebispo, com seis bispos subordinados a ele. A obra chegou ao fim, porém, quando os mongóis e outros estrangeiros foram expulsos da China pela vitoriosa dinastia nativa Ming, em 1368.

Fizeram-se esforços para alcançar os muçulmanos, mas com pouco êxito. O próprio Francisco de Assis pregou ao sultão no Egito em 1219 (ver Período V, seção IV). Mais famoso como missionário foi Raimundo Lúlio (1235?-1315), natural da ilha de Maiorca. De uma vida inteiramente mundana, converteu-se em 1266 e passou a estudar árabe como preparação missionária, escrevendo também sua Ars Major, que pretendia ser uma demonstração irrefutável do cristianismo. Em 1291 começou o trabalho missionário em Túnis, só para ser expulso ao fim de um ano. Empenhou-se em convencer o papa a estabelecer escolas para a formação missionária. Foi mais uma vez à África e de novo foi expulso. Sua eloquência persuadiu o Concílio de Vienne, em 1311, a determinar o ensino de grego, hebraico, caldeu e árabe em Avignon, Paris, Salamanca, Bolonha e Oxford, embora isso tenha ficado como um piedoso desejo. Voltou a Túnis como missionário em 1314 e, no ano seguinte, sofreu a morte de mártir por apedrejamento. Teve pouco a mostrar em realizações missionárias, mas muito em inspiração missionária.

A característica predominante desse período foi a perda de territórios antes cristãos. A última das conquistas dos cruzados na Palestina saiu de suas mãos em 1291. Uma nova força muçulmana surgia nos turcos otomanos. Originários da Ásia central, alcançaram posição independente na Ásia Menor em 1300. Em 1354 invadiram a porção europeia do império do Oriente, capturando Adrianópolis em 1361 e estendendo gradualmente seu domínio sobre as terras balcânicas. Só um fragmento do império permaneceu até 1453, quando Constantinopla caiu e o império do Oriente chegou ao fim. A carreira vitoriosa dos turcos os levaria, na época da Reforma, a atravessar quase metade da Europa. Os cristãos sob seu domínio foram privados de direitos políticos, embora o culto e a organização cristãos continuassem, em condições de muita opressão. A Igreja grega, que estivera em nível cultural superior ao da latina, certamente até o século XIII, ficou então em grande parte despojada de importância. Sua filha na Rússia, porém, não foi conquistada e crescia rapidamente em força e importância. Com ela estava o futuro da Igreja do Oriente.

Seção X. O papado no auge e em declínio

A disputa entre o papado e o império de modo algum terminou com a Concordata de Worms (ver Período IV, seção XIII). O interesse religioso na luta foi, daí em diante, muito menor. A contenda de Hildebrando envolvera uma grande questão de purificação da igreja. As disputas posteriores foram simples lutas pela supremacia.

Frederico “Barba-Roxa” (1152-1190), da casa de Hohenstaufen, foi um dos mais hábeis imperadores do Sacro Império Romano. Seu modelo era Carlos Magno, e ele aspirava a um controle semelhante dos assuntos eclesiásticos. Governante vigoroso em seus domínios, nenhum soberano fora mais completamente senhor da Alemanha do que ele. A despeito da Concordata de Worms, controlava na prática a nomeação dos bispos alemães. Por outro lado, suas pretensões encontraram enérgica resistência das cidades do norte da Itália, que se fortaleciam com o comércio estimulado pelas Cruzadas. A princípio, ele venceu com êxito essa hostilidade. Com Alexandre III (1159-1181), o mais hábil inimigo de Frederico subiu ao trono papal. Os cardeais se dividiram na escolha, e uma minoria imperialista elegeu um papa rival, que se chamou Vítor IV e a quem Frederico e os bispos alemães prontamente apoiaram. A posição de Alexandre foi por muito tempo difícil. Em 1176, porém, Frederico foi derrotado em Legnano pela liga lombarda das cidades italianas e obrigado a reconhecer Alexandre. A tentativa de Frederico de controlar o papado fora destroçada, mas sua autoridade sobre os bispos alemães mal diminuiu.1 Frederico obteve um novo êxito sobre o papado em 1186, com o casamento de seu filho Henrique com a herdeira da Sicília e do sul da Itália, ameaçando assim os Estados papais pelo norte e pelo sul.

Alexandre III obteve também um êxito pelo menos aparente sobre Henrique II (1154-1189), um dos mais hábeis reis da Inglaterra. Esse monarca, a fim de fortalecer seu domínio sobre a igreja inglesa, conseguiu a eleição de seu chanceler, aparentemente complacente, Thomas Becket, como arcebispo de Cantuária, em 1162. Uma vez no cargo, Becket mostrou-se um defensor resoluto das pretensões eclesiásticas. Henrique, então, em 1164, obteve a promulgação das Constituições de Clarendon,2 que limitavam o direito de apelação a Roma nas causas eclesiásticas, restringiam o poder de excomunhão, sujeitavam o clero aos tribunais civis e punham a eleição dos bispos sob o controle do rei, a quem deviam prestar homenagem. Becket rompeu então abertamente com o rei. Em 1170 chegou-se a uma trégua, mas ela durou pouco, e uma precipitada expressão de ira da parte de Henrique levou ao assassinato de Becket bem no fim do ano. Alexandre usou o fato com habilidade. Em 1172 Becket foi canonizado e continuou sendo, até a Reforma, um dos santos mais populares da Inglaterra. Henrique foi obrigado a abandonar as Constituições de Clarendon e a fazer penitência junto ao túmulo de Becket. Contudo, a despeito dessa aparente vitória papal, Henrique continuou a controlar os assuntos eclesiásticos ingleses quase como antes.

Frederico “Barba-Roxa” morreu em 1190, na Terceira Cruzada. Foi sucedido por seu filho, Henrique VI (1190-1197), que, em 1194, obteve plena posse da herança de sua esposa na Sicília e no sul da Itália e concebeu ambiciosos planos de ampliar grandemente seu domínio imperial. O papado, com as duas extremidades da Itália em poder do soberano alemão, corria grande perigo político; mas a situação foi aliviada pela morte prematura de Henrique VI, em 1197, e pela ascensão ao papado, em 1198, de um de seus mais hábeis representantes medievais, Inocêncio III (1198-1216).

Inocêncio III foi, sem dúvida, um homem de humildade e piedade pessoais, mas nenhum papa teve concepções mais elevadas do ofício papal, e sob ele o papado alcançou seu maior poder efetivo. A morte de Henrique VI deixou a Alemanha dividida. Um partido apoiava as pretensões do irmão de Henrique, Filipe da Suábia; o outro, as de Oto de Brunswick, da casa rival dos Welf (guelfos). Dessa situação confusa Inocêncio procurou, com grande habilidade, tirar vantagem para o papado. Obteve de Oto grandes concessões na Itália e na Alemanha; contudo, quando Filipe foi aos poucos levando a melhor, Inocêncio conseguiu um acordo pelo qual as pretensões rivais seriam submetidas ao julgamento de um tribunal controlado pelo papa. O assassinato de Filipe em 1208 frustrou esse plano e pôs Oto IV de novo em primeiro plano. Inocêncio obteve então de Oto a desejada garantia da extensão dos Estados papais e a promessa de abandonar o controle das eleições episcopais alemãs e, com base nessas concessões, coroou Oto imperador em 1209. Oto prontamente esqueceu todas as suas promessas. O papa, irritado, apresentou então Frederico II (1212-1250), o jovem filho do falecido imperador Henrique VI, que foi escolhido para o trono alemão pelos elementos contrários a Oto, em 1212, e renovou todas as promessas quebradas por Oto. Em 1214 Oto foi completamente derrotado pelo rei francês Filipe II (1179-1223) no campo de Bouvines, e o império ficou assegurado a Frederico. Assim, Inocêncio III parecia ter defendido plenamente as pretensões papais e ter ditado a sucessão imperial. A supremacia mundial do papado parecia realizada.

Nem foi Inocêncio III menos bem-sucedido em humilhar os soberanos de outras terras. Obrigou o poderoso Filipe II da França, pela proibição dos serviços religiosos (um interdito), a aceitar de volta a rainha Ingeborg, de quem Filipe se divorciara injustamente. Separou o rei Afonso IX de Leão de uma esposa com quem tinha parentesco próximo demais. O rei Pedro de Aragão recebeu seu reino como feudo do papa. A maior vitória aparente de Inocêncio, porém, foi no caso da Inglaterra. O cruel e impopular rei João (1199-1216), numa eleição dividida, tentou fazer de seu candidato arcebispo de Cantuária. A disputa foi levada em apelação a Roma. O escolhido do rei foi posto de lado, e o amigo de Inocêncio, Stephen Langton, recebeu o cargo. João resistiu. Inocêncio lançou interdito sobre a Inglaterra. O rei expulsou seus opositores clérigos. O papa então o excomungou, declarou-o privado do trono e proclamou uma cruzada contra ele. O rei derrotado não apenas fez humilhante submissão ao papa, em 1213, mas reconheceu seu reino como feudo do papado, comprometendo-se a pagar ao papa um tributo feudal de mil marcos por ano.3 Contudo, quando os barões e o clero arrancaram de João a Magna Carta, em 1215, Inocêncio a denunciou como uma ofensa ao seu vassalo.

Nos assuntos internos da igreja, a política de Inocêncio foi fortemente centralizadora. Reivindicou para o papado o direito de decisão em todas as eleições episcopais disputadas. Afirmou ter autoridade exclusiva para sancionar a transferência de bispos de uma sé para outra. Sua cruzada contra os cátaros já foi mencionada (ver Período V, seção III). O grande Quarto Concílio de Latrão, de 1215, no qual a transubstanciação foi declarada artigo de fé e se exigiram a confissão e a comunhão anuais, foi também um triunfo papal. A conquista de Constantinopla pela Quarta Cruzada (ver Período V, seção I), embora não aprovada por Inocêncio, parecia prometer a sujeição da Igreja grega à autoridade papal.

Em Inocêncio III o papado atingiu o ápice de seu poder mundano. Os papas seguintes continuaram a mesma luta, mas com êxito decrescente. O imperador Frederico II, soberano da Alemanha, bem como do norte e do sul da Itália e da Sicília, homem de grande habilidade política e de uma piedade nada medieval, embora tivesse sido posto no cargo em grande parte por Inocêncio III, logo se revelou o principal adversário das pretensões mundiais do papado. Sob Gregório IX (1227-1241), organizador da inquisição e protetor dos franciscanos (ver Período V, seção IV), e Inocêncio IV (1243-1254), a luta papal contra Frederico II foi travada com o máximo de amargura e com armas muito mundanas. Frederico foi excomungado, e por influência papal suscitaram-se rivais contra ele na Alemanha. O papado parecia convencido de que só a destruição da linhagem dos Hohenstaufen, à qual Frederico pertencia, lhe asseguraria a vitória. Com a morte de Frederico, em 1250, perseguiu seu filho, Conrado IV (1250-1254), com a mesma hostilidade e deu a herança dele no sul da Itália e na Sicília a Edmundo da Inglaterra, filho do rei Henrique III. Uma nova influência, a da França, fazia-se sentir nos conselhos papais. Urbano IV (1261-1264) era francês e nomeou cardeais franceses. Ele deu então, em 1263, o sul da Itália e a Sicília a Carlos de Anjou, irmão do rei Luís IX da França (1226-1270). Foi um ponto de virada na política papal, e com ele começou de fato a dependência do papado em relação à França. O papa seguinte foi também francês, Clemente IV (1265-1268). Durante seu pontificado, Conradino, o jovem filho de Conrado IV, fez valer pelas armas suas pretensões hereditárias ao sul da Itália e à Sicília. Foi excomungado por Clemente IV e derrotado por Carlos de Anjou, por cujas ordens foi decapitado em Nápoles, em 1268. Com ele terminou a linhagem dos Hohenstaufen, à qual os papas se haviam oposto tão tenazmente, embora não haja razão para pensar que o papa tenha sido de algum modo responsável pela execução de Conradino.

Essas longas disputas e a consequente confusão haviam enfraquecido grandemente o poder do Sacro Império Romano. Daí em diante, até a Reforma, ele foi muito mais um conjunto de Estados fracos do que uma soberania única e efetiva. Pouca resistência pôde opor às exigências papais. Surgiam, porém, outras forças que inevitavelmente tornariam impossível uma soberania mundial como a que Inocêncio III exercera. Uma dessas forças era o novo sentimento de nacionalidade, que levava os homens a sentir que, como franceses ou ingleses, tinham interesses comuns contra todos os estrangeiros, até contra o próprio papa. Tal sentimento de unidade não existira no início da Idade Média. Desenvolvia-se rapidamente, sobretudo na França e na Inglaterra, na segunda metade do século XIII. Uma segunda causa foi o crescimento da classe média, sobretudo nas cidades, em instrução, riqueza e influência política. Essas pessoas se impacientavam com a interferência eclesiástica nos assuntos temporais. Estreitamente ligado a esse desenvolvimento estava o surgimento de um corpo de juristas leigos e o estudo renovado do direito romano. Esses homens iam aos poucos substituindo os eclesiásticos como conselheiros reais e aumentando a eficácia do poder real com precedentes tirados de um corpo de leis, o romano, que nada sabia das condições eclesiásticas medievais. Havia também uma convicção crescente entre homens ponderados e religiosos de que objetivos tão mundanos como os que o papado recente seguira eram incompatíveis com os verdadeiros interesses da igreja. Eram forças crescentes com as quais o papado teria de contar. A fraqueza do papado, de um ponto de vista mundano, estava em que não dispunha de forças físicas adequadas. Tinha de contrabalançar um competidor com outro, e a ruína causada na Alemanha deixou a porta aberta à França, sem forças que se pudessem opor a ela.

A interferência papal na Alemanha continuou. O papa Gregório X (1271-1276) ordenou aos eleitores alemães, em 1273, que escolhessem um rei, sob ameaça de que o próprio papa faria a nomeação se não o fizessem. Escolheram Rodolfo I de Habsburgo (1273-1291), que prontamente renovou as concessões ao papado feitas outrora por Oto IV e Frederico II.

Muito diferente se deu, e logo, com a França. O poder dessa monarquia vinha crescendo rapidamente, e em Filipe IV, “o Belo” (1285-1314), a França teve um rei de absoluta falta de escrúpulos, obstinado e com elevadas concepções da autoridade real. Em Bonifácio VIII (1294-1303) o papado esteve nas mãos de um homem com aspirações ao domínio mundial tão altas quanto as de qualquer outro que ali já estivera. Nenhum dos participantes da luta inspira muita simpatia. Irrompera a guerra entre a França, a Escócia e a Inglaterra, o que obrigou o rei inglês, Eduardo I (1272-1307), a reunir o apoio de todos os seus súditos convidando os representantes dos Comuns a tomar lugar no Parlamento, em 1295, dando-lhes assim participação permanente nos conselhos nacionais ingleses. A luta levou também os reis da França e da Inglaterra a tributar seu clero para cobrir as despesas. O clero queixou-se ao papa Bonifácio, que, em 1296, publicou a bula Clericis Laicos,4 impondo excomunhão a todos os que exigissem ou pagassem tais impostos sobre propriedades clericais sem permissão papal. Filipe respondeu proibindo a exportação de dinheiro da França, atingindo assim as rendas do papa e dos banqueiros italianos. Estes levaram Bonifácio a modificar sua atitude, de modo que o clero pudesse fazer contribuições voluntárias, e ele chegou a admitir que, em grandes necessidades, o rei poderia lançar um imposto. Foi uma vitória real.

Durante alguns anos reinou relativa paz entre Filipe e Bonifácio. Em 1301 a luta recomeçou. Filipe mandou prender Bernard Saisset, bispo de Pamiers, que o papa lhe enviara pouco antes como núncio, e acusá-lo de alta traição. O papa ordenou a libertação de Bernard e citou os bispos franceses e, por fim, o próprio rei Filipe a Roma. Em resposta, Filipe convocou os primeiros Estados Gerais franceses, nos quais estavam representados o clero, os nobres e os plebeus. Essa assembleia, em 1302, apoiou o rei em sua atitude de resistência. O papa respondeu com a famosa bula Unam Sanctam,5 o ponto mais alto da pretensão papal à supremacia sobre os poderes civis. Ela afirmava que os poderes temporais estão sujeitos à autoridade espiritual, a qual, na pessoa do papa, é julgada só por Deus. Declarava, seguindo a opinião de Tomás de Aquino (ver Período V, seção VII), “que é absolutamente necessário à salvação de toda criatura humana estar sujeita ao pontífice romano”, afirmação cujo alcance exato tem dado lugar a muita discussão posterior. Filipe respondeu com uma nova assembleia, na qual o papa foi acusado de uma série absurda de crimes, que incluíam heresia e depravação moral, e se lançou um apelo a um concílio geral da igreja, diante do qual o papa pudesse ser julgado. Filipe estava decidido a que isso não fosse mera ameaça. Forçaria o papa a consentir. Enviou, por isso, seu hábil jurista e vice-chanceler, Guilherme de Nogaret, que se associou a Sciarra Colonna, antigo inimigo da família de Bonifácio. Juntos reuniram uma força e fizeram Bonifácio prisioneiro em Anagni, em 1303, exatamente quando ele estava para proclamar a excomunhão de Filipe. Bonifácio foi corajoso. Não faria concessão alguma. Seus amigos logo o libertaram, mas um mês depois ele morreu.

Esses acontecimentos foram um golpe esmagador para as pretensões temporais do papado. Não foi principalmente pelo fato de os representantes de Filipe terem mantido Bonifácio prisioneiro por pouco tempo. Surgira uma nova força, a do sentimento nacional, à qual o rei apelara com êxito e contra a qual as armas espirituais do papado de pouco tinham valido. A esperança papal de domínio mundial nos assuntos temporais revelara-se impossível de realizar de forma permanente.

Coisa pior para o papado não tardaria a seguir-se. Depois da morte do sucessor de Bonifácio, o excelente Bento XI (1303-1304), os cardeais escolheram um francês, Bertrand de Gouth, que tomou o título de Clemente V (1305-1314). Homem de caráter fraco e de graves faltas morais, estava inteiramente sob a influência do rei Filipe IV da França. Declarou Filipe inocente do ataque a Bonifácio VIII e anulou os interditos e excomunhões de Bonifácio, modificando a bula Unam Sanctam para agradar ao rei. Prova do domínio francês, patente ao mundo inteiro, foi a transferência da sede do papado, em 1309, para Avignon, às margens do rio Ródano, cidade que, na verdade, não pertencia ao reino francês, mas que na avaliação popular equivalia ao estabelecimento do papado na França. Sem dúvida, a situação conturbada da política italiana teve algo a ver com essa mudança. Em Avignon o papado teria sua sede até 1377, período tão próximo da duração tradicional do exílio dos judeus que mereceu o nome de Cativeiro Babilônico. Nem estava ainda cheio o cálice da humilhação de Clemente. O rei, de sangue-frio, obrigou-o a participar da cruel destruição dos templários (ver Período V, seção I).

O pontificado de Clemente V é interessante por marcar o encerramento, até o presente, das coleções oficiais do direito da igreja, ou direito “canônico”. Esse grande corpo de autoridade era produto da história da igreja desde os primeiros concílios e abrangia as decisões destes e os decretos de sínodos e de papas. A Idade Média vira muitas coleções, das quais a mais famosa foi a reunida, provavelmente em 1148, por Graciano, professor de direito canônico em Bolonha. O papa Gregório IX (1227-1241) mandou formar uma coleção oficial, em 1234, que incluía os novos decretos até o seu tempo. O papa Bonifácio VIII (1294-1303) publicou um acréscimo semelhante em 1298, e Clemente V (1305-1314) o ampliou em 1314, embora sua obra só tenha sido publicada em 1317, sob seu sucessor, João XXII (1316-1334). A grande estrutura, assim laboriosamente erguida ao longo dos séculos, é uma massa de jurisprudência eclesiástica que abrange todos os domínios da vida da igreja. Embora as coleções oficiais tenham cessado de Clemente V até o século XX, a criação do direito eclesiástico continuou em todas as épocas, e o papa recente Pio X (1903-1914), em 1904, ordenou a codificação e simplificação de todo o corpo do direito canônico por uma comissão especial.

Seção XI. O papado em Avignon, a crítica. O cisma

Os papas, enquanto o papado esteve em Avignon, foram todos franceses. Parecia que o papado se tornara uma instituição francesa. Essa associação provocou inquietação muito maior diante das pretensões papais, especialmente em nações que, como a Inglaterra, estiveram em guerra com a França durante boa parte desse período, ou como a Alemanha, sobre a qual pesava duramente a interferência ainda contínua do papado. O mais hábil dos papas de Avignon foi, sem dúvida, João XXII (1316-1334). A eleição imperial dupla na Alemanha, em 1314, dividira o país entre os partidários de Luís, o Bávaro (1314-1347), e os de Frederico da Áustria. João XXII, apoiado pelo rei Filipe V da França (1316-1322), julgou a ocasião madura para diminuir a influência alemã na Itália em benefício dos Estados da Igreja. Recusou-se a reconhecer qualquer dos pretendentes e declarou que o papa tinha o direito de administrar o império durante as vacâncias. Quando Luís interferiu nos assuntos italianos, o papa o excomungou, e seguiu-se uma luta com o papado que durou até a morte de Luís. No curso dela, os eleitores alemães publicaram a famosa declaração de 1338, em Rense, confirmada pela dieta imperial em Frankfurt no mesmo ano, de que o chefe eleito do império não precisa de nenhuma aprovação do papado para entrar plenamente nas funções de seu cargo ou continuar nelas.

Esses ataques ao Estado despertaram defensores literários de considerável importância. Um deles foi o grande poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321). Seu tratado latino Sobre a Monarquia não tem data segura, mas foi composto entre 1311 e 1318. Dante sustenta que a paz é a melhor condição da humanidade. Ela é assegurada com a máxima eficácia por um imperador. O poder do império passou legitimamente a Roma. Ele é tão necessário à felicidade temporal do homem quanto o papado o é para guiar os homens à bem-aventurança eterna. Cada um vem diretamente de Deus, e nenhum deve interferir na esfera do outro. Dante refuta cuidadosamente a interpretação papal dos textos bíblicos e dos exemplos históricos em que se baseavam as pretensões de controle sobre o Estado. Tudo isso impressiona ainda mais porque Dante não era livre-pensador, mas, em teologia, da mais irrepreensível ortodoxia.

Muito mais radicais do que Dante, e de enorme influência sobre as teorias políticas posteriores, foram vários tratados produzidos na França. O dominicano João de Paris (1265?-1306) ensinava que tanto o poder papal quanto o real se baseiam na soberania do povo e que nenhum deles tem o direito de interferir na esfera do outro. A mais importante dessas obras foi o Defensor Pacis, de Marsílio de Pádua (?-1342?) e João de Jandun (?-1328). É o tratado mais espantosamente moderno que a época produziu. Seu principal autor, Marsílio, foi por muito tempo professor em Paris, onde foi reitor da universidade em 1313, e era tido como versado em medicina. O Defensor Pacis foi escrito em 1324, na controvérsia entre o papa João XXII e o imperador Luís, o Bávaro. Suas ideias radicais levaram os autores a buscar a proteção do imperador, de que gozaram, embora com alguma hesitação, pelo resto da vida. Foram excomungados por João XXII em 1327, e o papa Clemente VI declarou, em 1343, que nunca lera livro mais herético.

Segundo Marsílio, profundo conhecedor de Aristóteles, a base de todo poder é o povo: no Estado, o conjunto dos cidadãos; na igreja, o conjunto dos crentes cristãos. Eles são o poder legislativo; por eles são designados os governantes na igreja e no Estado, e perante eles esses funcionários executivos são responsáveis. A única autoridade final na igreja é o Novo Testamento; mas os sacerdotes não têm poder de força física para obrigar os homens a obedecer-lhe. Seu único dever é ensinar, advertir e repreender. O Novo Testamento ensina que bispos e sacerdotes são designações equivalentes; contudo, é bom, como disposição puramente humana, nomear alguns clérigos superintendentes sobre outros. Essa nomeação não confere poder espiritual superior, nem tem um bispo autoridade espiritual sobre outro, ou o papa sobre todos. Pedro não teve posição mais alta que os outros apóstolos. Não há prova no Novo Testamento de que ele tenha estado alguma vez em Roma. O Novo Testamento não dá nenhum apoio à posse de senhorios e propriedades terrenas por clérigos. Nenhum bispo ou papa tem autoridade para definir a verdade cristã contida no Novo Testamento, nem para fazer leis obrigatórias. Esses atos só podem ser praticados pelo corpo legislativo da igreja, o conjunto dos crentes cristãos, representado num concílio geral. Tal concílio é a autoridade suprema na igreja. Visto que o Estado cristão e a igreja cristã têm a mesma extensão, o executivo do Estado cristão, como representante de um corpo de crentes, pode convocar concílios, nomear bispos e controlar a propriedade da igreja.6 Eram ideias que dariam fruto na Reforma e até na Revolução Francesa; mas eram radicais demais para impressionar muito a sua época. Seu tempo veio depois, e algo faltava ao próprio Marsílio. Era um pensador frio, mais do que um homem capaz de traduzir a teoria em ação de modo a criar uma grande liderança.

Graças a um zelo que faltava a Marsílio, e a ideias não demasiado avançadas para a época, maior autoridade exerceu Guilherme de Occam, cuja influência teológica e enérgica defesa da doutrina franciscana mais extremada da pobreza absoluta de Cristo e dos apóstolos já foram mencionadas (ver Período V, seção V). Occam, como Marsílio, encontrou refúgio junto a Luís, o Bávaro. Para ele, como para Dante, o papado e o império foram ambos fundados por Deus, e nenhum é superior ao outro. Cada um tem sua própria esfera. A igreja tem funções puramente religiosas. Sua autoridade final é o Novo Testamento.

Levantaram-se vozes em defesa das pretensões papais. Uma das mais célebres, embora típica mais do que original, foi a do monge agostiniano italiano Agostinho Triunfo (1243-1328). Em sua Suma sobre o Poder Eclesiástico, escrita por volta de 1322, ele sustenta que todos os príncipes governam como súditos do papa, que pode depô-los a seu bel-prazer. Nenhuma lei civil obriga se for desaprovada por ele. O papa não pode ser julgado por ninguém; nem se pode sequer apelar do papa para Deus, “visto que a sentença e o tribunal de Deus e do papa são um só”. Contudo, se o papa cair em heresia, perde o ofício.

Essas opiniões dos partidários do papa estavam longe de ser compartilhadas pelos alemães empenhados numa luta contra o papado pela autonomia política do império, ou pelos ingleses em guerra com a França, que consideravam o papado de Avignon instrumento do soberano francês. O papa Clemente V (1305-1314) afirmara o direito do papado de prover todos os cargos eclesiásticos. Esses nomeados eram chamados “provisores”, e a intrusão de favoritos papais na Inglaterra levou o rei e o Parlamento a promulgar, em 1351, o Estatuto dos Provisores. As eleições para bispados e outros cargos eclesiásticos deviam ser livres de interferência papal. Caso a nomeação fosse feita pelas autoridades regulares e também pelo papa, o provisor seria preso até renunciar à sua pretensão. Essa lei levou inevitavelmente a disputas entre a autoridade papal e a real, e um novo estatuto de 1353, conhecido como o de Praemunire, proibiu as apelações para fora do reino sob pena de proscrição.7 Na aplicação, esses estatutos foram em grande parte letra morta, mas mostram o crescimento de um espírito na Inglaterra que se manifestou ainda quando o Parlamento, em 1366, se recusou a continuar reconhecendo o direito do rei João de sujeitar seu reino ao papa como feudo, em 1213 (ver Período V, seção X).

Nenhum aspecto do papado de Avignon contribuiu tanto para a crítica que ele sofreu quanto sua ofensiva tributação da vida da igreja. As Cruzadas haviam sido acompanhadas de uma circulação de dinheiro muito mais fácil e de grande aumento do comércio. A Europa passava rapidamente da troca de mercadorias para os pagamentos em dinheiro. Os impostos em dinheiro, em lugar das receitas em espécie, aumentavam por toda parte. Era natural que essa mudança ocorresse também na administração da igreja; mas a extensão a que os papas dos séculos XIII e XIV levaram a tributação foi um escândalo, agravado em muito quando a transferência do papado para Avignon cortou em grande parte as rendas dos domínios papais na Itália, sem diminuir o luxo nem os gastos da corte papal. Esse período viu o amplo desenvolvimento, à imitação da prática feudal secular, das anatas, isto é, um imposto de aproximadamente a renda de um ano, cobrado de cada nova nomeação. Como a reserva de cargos à nomeação exclusiva do papa foi ao mesmo tempo imensamente ampliada, isso se tornou uma grande fonte de renda. A renda dos benefícios vagos também se tornou fonte significativa de receitas papais. As taxas por bulas e outros documentos papais também cresceram rapidamente em valor e rendimento. Essas eram apenas parte das exações papais, e o efeito total foi a impressão de que a administração papal pesava muito, e cada vez mais, sobre o clero e, por meio dele, sobre o povo. Esse sentimento era aumentado pela maneira implacável com que as censuras eclesiásticas, como a excomunhão, eram impostas aos contribuintes inadimplentes. O papado parecia extravagante nos gastos e ofensivo na tributação, e sua reputação em ambos os aspectos iria piorar até a Reforma.

O colapso do poder imperial na Itália, pelo qual o papado era em grande parte responsável, e a transferência para Avignon deixaram a Itália na mais selvagem confusão política. Em parte alguma a situação era pior do que em Roma. Em 1347, Cola di Rienzi encabeçou uma revolução popular contra os nobres e estabeleceu uma paródia da antiga república. Logo foi expulso, mas em 1354 estava de novo no poder, só para ser assassinado nas lutas partidárias. Inocêncio VI (1352-1362) enviou o cardeal espanhol Albornoz (?-1367) como seu legado à Itália. Graças às habilidades militares e diplomáticas de Albornoz, os interesses papais em Roma e na Itália em geral melhoraram muito, a ponto de Urbano V (1362-1370) ter de fato voltado à Cidade Eterna em 1367. A morte de Albornoz privou-o de seu principal apoio, e em 1370 o papado estava outra vez em Avignon. Urbano V foi sucedido por Gregório XI (1370-1378), a quem Santa Catarina de Sena (1347-1380) instou, em nome de Deus, a voltar a Roma. O estado conturbado da cidade também aconselhava sua presença, se os interesses papais haviam de ser preservados. Assim, ele transferiu o papado para Roma em 1377, e ali morreu no ano seguinte.

A morte repentina de Gregório XI encontrou os cardeais em Roma. A maioria era francesa e de bom grado teria voltado a Avignon. O povo romano estava decidido a manter o papado em Roma e, para isso, a ter um papa italiano. Em meio a tumultos, os cardeais escolheram Bartolomeo Prignano, arcebispo de Bari, que tomou o nome de Urbano VI (1378-1389). Homem sem tato, que desejava pôr fim à influência francesa sobre o papado e realizar algumas reformas na corte papal, logo atraiu a hostilidade de todos os cardeais. Estes então se reuniram, quatro meses depois da eleição, declararam nula sua escolha, por ter sido ditada pela violência da multidão, e elegeram o cardeal Roberto de Genebra como papa Clemente VII (1378-1394). Poucos meses depois, Clemente VII e seus cardeais estavam instalados em Avignon. Houvera antes muitos papas rivais, mas tinham sido escolhidos por grupos diferentes. Aqui estavam dois papas, cada um devidamente eleito pelo mesmo colégio de cardeais. A objeção de que Urbano VI fora escolhido por medo tinha pouca força, já que os cardeais o haviam reconhecido sem protesto durante vários meses; mas eles tinham feito tudo o que podiam para desfazer a escolha. A Europa viu dois papas, cada um condenando o outro. Não havia poder que pudesse decidir entre eles, e os diversos países seguiram um ou outro conforme ditavam suas afinidades políticas. O papa romano foi reconhecido pelo norte e centro da Itália, pela maior parte da Alemanha, pela Escandinávia e pela Inglaterra. Ao papa de Avignon aderiram a França, a Espanha, a Escócia, Nápoles, a Sicília e algumas partes da Alemanha. Foi uma divisão bastante equilibrada. O grande cisma começara. A Europa ficou aflita e escandalizada, enquanto os abusos papais, sobretudo os da tributação, aumentaram, pois agora era preciso manter duas cortes. Acima de tudo, ofendia-se o profundo sentimento de que a igreja devia ser visivelmente una. O papado decaiu enormemente na estima popular.

Em Roma, Urbano VI foi sucedido por Bonifácio IX (1389-1404), e este por Inocêncio VII (1404-1406), a quem seguiu Gregório XII (1406-1415). Em Avignon, Clemente VII foi seguido por um espanhol, Pedro de Luna, que tomou o nome de Bento XIII (1394-1417).

Notas

1. Ver Paz de Veneza, Henderson, Select Historical Documents [Documentos históricos selecionados], pp. 425-430.

2. Gee e Hardy, Documents Illustrative of English Church History [Documentos ilustrativos da história da Igreja inglesa], pp. 68-73.

3. Henderson, pp. 430-432.

4. Henderson, pp. 432-434; Robinson, 1:488-490.

5. Henderson, pp. 435-437; Robinson, 1:346-348.

6. Ver, para alguns excertos, Robinson, 1:491-497.

7. Gee e Hardy, Documents, pp. 103, 104, 113-119.

Tradução para o português a partir de Williston Walker, A History of the Christian Church (Nova York, Charles Scribner’s Sons, 1918), 1ª edição, conferida com as imagens das páginas; domínio público. As notas são de Walker; as que eram só referência bíblica passaram para o texto. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.