John Fletcher · O Retrato de São Paulo · Ministros mornos e falsos apóstolos

O retrato dos ministros mornos e dos falsos apóstolos (capítulos I a V)

O retrato dos ministros mornos e dos falsos apóstolos, em contraste com o de São Paulo, e as respostas às primeiras objeções contra esse modelo.

O Retrato dos ministros mornos e dos falsos apóstolos

Capítulo I

A essência da pintura consiste numa feliz mistura de luz e sombra, de cujo contraste nasce um efeito admirável e a figura animada parece saltar da tela. Seguindo esse princípio, oporemos ao Retrato de São Paulo o dos ministros mornos e dos falsos apóstolos, cujos traços sombrios formarão um fundo particularmente apropriado para realçar o caráter do pastor evangélico.

Se a igreja primitiva foi perturbada e desencaminhada por ministros infiéis, pode-se presumir com razão que, neste período mais degenerado de sua existência, a igreja de Deus esteja miseravelmente infestada de mestres do mesmo caráter. Há, porém, um número nada pequeno de ministros que formam uma espécie de meio-termo entre os pastores zelosos e os falsos apóstolos. Esses evangelistas indecisos são sinceros até certo ponto. Têm algum desejo das coisas de Deus, mas se preocupam muito mais com as coisas do mundo; tomam boas resoluções pela causa do Mestre que reconhecem, mas são tímidos e infiéis quando chamados ao serviço efetivo. Às vezes se movem por um zelo momentâneo, mas em geral os governa um temor servil. Não têm experiência daquele afeto ardente e daquela coragem invencível que animavam São Paulo. A sabedoria deles ainda é carnal (2Co 1.12); ainda vão “consultar outras pessoas” (Gl 1.16). Assim foi Arão, que cedeu, por uma fraqueza indigna de um homem, às ímpias solicitações do seu povo. Assim foi Jonas, quando se recusou a exercer seu ministério em Nínive. Temos toda razão para crer que esse profeta possuía uma santa confiança em Deus e o desejo da salvação de seus semelhantes; mas vemos que nem uma coisa nem outra teve força bastante para levá-lo a um serviço que parecia pôr em risco a sua reputação entre os homens. Assim eram também os apóstolos antes de serem revestidos do poder que vem do alto. A todo pastor desse caráter se pode aplicar, de modo muito particular, aquela palavra de Cristo dirigida outrora ao mais corajoso dos seus discípulos: “Você é para mim uma pedra de tropeço, porque não leva em consideração as coisas de Deus, e sim as dos homens” (Mt 16.23).

A mornidão, a falsa prudência e a timidez são as principais características pelas quais se distinguem os ministros dessa classe. Como enxergam a excelência do evangelho de um ponto de vista obscuro e pouco conhecem por experiência os seus efeitos assombrosos, não podem de modo algum mostrar aquele zelo religioso que é indispensável ao caráter que pretendem sustentar.

O piedoso bispo Massillon faz o seguinte retrato desses mestres despreparados e dos maus efeitos da sua infidelidade: “Os costumes se tornam a cada dia mais corrompidos entre nós, porque o zelo dos ministros se torna a cada dia mais frio, e porque há entre nós poucos homens apostólicos que se oponham, como um muro de bronze, à torrente do vício. Na maior parte das vezes, vemos os ímpios inteiramente à vontade nos seus pecados, por não ouvirem com mais frequência aquelas vozes de trovão que, acompanhadas do Espírito de Deus, os despertariam de fato do seu terrível sono. A falta de zelo, tão claramente perceptível entre os pastores, deve-se principalmente àquela timidez vil que não tem ousadia suficiente para resistir com firmeza ao preconceito comum e que põe a desprezível aprovação dos homens acima dos interesses eternos deles. Há de ser uma consideração mundana e culpável aquela que nos faz mais ansiosos pela nossa própria glória do que pela glória de Deus. Há de ser verdadeiramente sabedoria carnal aquela que consegue apresentar o zelo religioso sob as falsas ideias de excesso, indiscrição e temeridade: pretexto este que quase apaga toda centelha de zelo na maioria dos ministros. A essa falta de coragem eles dão os nomes enganosos de moderação e prudência. Sob o pretexto de não levar o zelo ao excesso, contentam-se em não ter zelo nenhum. E, enquanto se esforçam para evitar os rochedos da imprudência e da precipitação, correm sem medo contra os bancos de areia da indolência e da covardia. Desejam ser úteis aos pecadores e, ao mesmo tempo, ser estimados por eles. Anseiam por mostrar um zelo tal que o mundo esteja disposto a aplaudir. Procuram opor-se às paixões dos homens de tal modo que ainda conquistem os seus elogios; condenar os vícios que eles amam de tal modo que ainda sejam aprovados por aqueles a quem condenam. Mas, quando sondamos uma ferida até o fundo, devemos esperar que o paciente fique um tanto irritado, se não lhe arrancarmos algum grito amargo.”

“Não nos enganemos”, continua o mesmo autor; “se este zelo apostólico, que outrora converteu o mundo, se tornou tão raro entre nós, é porque, no exercício das nossas funções sagradas, buscamos a nós mesmos, e não a glória de Cristo e a salvação das almas. O apóstolo olhava a glória e a infâmia com igual indiferença, enquanto cumpria os deveres do seu importante ofício. Sabia ser impossível agradar aos homens e salvá-los; ser servo do mundo e servo de Cristo. No entanto, há muitos entre nós que procuram unir esses serviços diferentes, que o apóstolo julgava inconciliáveis.”

O sr. Roques concorda com o piedoso bispo em condenar os ministros que deixam de copiar o exemplo de São Paulo. “A pouca piedade que se encontra entre os ministros”, diz esse excelente escritor, “é o obstáculo mais eficaz ao progresso do evangelho. Por piedade entendo aquele amor sincero e ardente pela religião que faz o homem interessar-se profundamente por tudo o que lhe diz respeito, assim como por tudo o que se refere à glória de Deus e de nosso Senhor Jesus Cristo. Se esse amor divino reinasse no coração dos que proclamam a Cristo; se cada pregador do evangelho pudesse dizer, com a sinceridade de Pedro: ‘O Senhor sabe todas as coisas; sabe que eu o amo’ (Jo 21.17); o Senhor sabe que não tenho outra ambição senão a sua glória, e que o meu maior prazer está em ver crescer o seu reino; então veríamos a espada de Deus nas mãos deles como uma espada de dois gumes, cortando as raízes mais profundas do pecado. Mas, como o evangelho é pregado mais por contenda, por vanglória e pelo desejo de ganhar a vida servindo ao altar do que por um zelo ardente em promover a glória de Deus, daí vem que os ministros caem em vários erros e dão provas evidentes daquela indolência e indiferença que servem antes de escândalo do que de edificação.” (O Pastor Evangélico.)

O sr. Ostervald fala a mesma linguagem na sua Terceira Fonte da Corrupção que reina entre os Cristãos. “Grande parte dos nossos eclesiásticos”, diz esse escritor, “pode com justiça ser acusada da corrupção do povo, pois há entre eles muitos que se opõem ao restabelecimento de uma santa disciplina, enquanto outros tornam o seu exercício totalmente inútil por uma brandura fora de hora e uma condescendência vergonhosa.”

“Excetuo aqueles”, continua esse venerável pastor, “que devem ser excetuados. Mas, de modo geral, em que os eclesiásticos diferem dos outros homens? Distinguem-se por uma vida exemplar? O exterior deles, de fato, é um tanto diferente: levam uma vida mais recolhida; em certa medida, salvam as aparências, embora nem todos cheguem a tanto. Mas, além disso, não são eles igualmente apegados ao mundo, tão envolvidos com as coisas terrenas, tão inteiramente tomados por interesses seculares, tão constantemente movidos pelo interesse e pela paixão quanto a maioria dos homens?”

A prudência cristã exigia que esses retratos dos ministros mornos fossem apresentados como desenhos de pastores eminentes pela piedade, pela posição e pela experiência, e que, por isso mesmo, tinham um direito particular de declarar verdades que poderiam ofender mais se viessem de pessoas menos respeitáveis.

Capítulo II

O retrato dos falsos apóstolos

Entre o estado dos ministros descuidados e o dos falsos apóstolos não há, na realidade, uma diferença tão grande quanto muitos costumam imaginar. O trabalhador indigno na vinha espiritual logo dá provas de um ânimo morno no serviço do seu Senhor; pouco depois, seu coração se torna inteiramente frio quanto à piedade; e, o que é ainda mais lamentável, muitas vezes ele mostra pelo erro e pelo vício um zelo tão ardente quanto o que o verdadeiro ministro possa mostrar pela causa da verdade e da virtude. Tal é o estado daqueles que podem ser propriamente chamados pregadores da terceira classe, e de quem São Paulo fala sob o título de “falsos apóstolos” (2Co 11.13).

Esses ministros indignos são conhecidos pelas suas obras. Como muitos dos colaboradores infiéis de São Paulo (2Tm 1.15), preferem o repouso e o prazer do mundo ao serviço e ao opróbrio de Cristo. Como Judas e Simão, o mágico, amam as honras e as rendas dos ministros, ao passo que detestam as cruzes e os trabalhos do ministério. Como Hofni e Fineias, são homens malignos e “não se importam com o Senhor”. O pecado deles é muito grave diante do Senhor, pois, por causa deles, muitos “desprezam a oferta do Senhor” (1Sm 2.12, 17). Como o mau servo descrito por aquele a quem eles chamam de Mestre, em vez de “dar o sustento a seu tempo” aos de casa, “começam a espancar”, isto é, a perseguir os companheiros de serviço que se aplicam a cumprir os seus deveres, enquanto passam o tempo em alegria e festa com os desordeiros e “os bêbados” (Mt 24.45, 48, 49). Com justiça podem ser comparados a lâmpadas apagadas no templo de Deus. “Em vez de brilharem ali para o seu louvor”, diz o bispo Massillon, “lançam negras nuvens de fumaça que escurecem tudo ao seu redor e se tornam cheiro de morte para os que perecem. São colunas do santuário que, derrubadas e espalhadas pelas praças públicas, se tornam pedras de tropeço para todo transeunte desatento. São o sal da terra e foram designados para preservar as almas da corrupção. Mas, tendo perdido todo o sabor, começam a corromper aquilo que deviam preservar.” São médicos que levam aos doentes a infecção em vez da saúde. Retêm dos enfermos espirituais a palavra de Deus que sara (Sl 107.20), ao mesmo tempo que distribuem entre eles o perigoso veneno de uma moral frouxa, dando-lhes o exemplo de um zelo amargo contra a verdade e enchendo-os daquela sabedoria que é “terrena, animal e demoníaca” (Tg 3.14, 15).

“O falso pastor”, diz o sr. Roques (ou o falso apóstolo), “é um ministro cujo coração não é reto diante de Deus e que não vive de modo a edificar o seu rebanho. Conhece o santo modo de vida a que são chamados os cristãos em geral e os ministros em particular; mas, apesar de todo o seu conhecimento e do seu aparente zelo, não teme pisar aquelas mesmas máximas do evangelho que estabeleceu publicamente e pregou com a maior energia. Todos os dias pratica atos da mais detestável hipocrisia. Cada vez que prega e repreende, dá testemunho aberto contra a sua própria conduta. Mas acusa em público sem nunca ter a intenção de corrigir a si mesmo. No púlpito, declama constantemente contra o vício; mas, quando se ocupa dos negócios comuns da vida, é um protetor especial dele. Enquanto exorta os ouvintes ao arrependimento, ou se imagina acima das leis que propõe aos outros da parte de Deus, ou julga não ter outra obrigação de apresentá-las senão o compromisso que assumiu com essa obra e o salário que recebe por realizá-la.”

O sr. Ostervald, numa obra já mencionada, refere-se a esses pastores nos seguintes termos: “Quantos vemos que não consideram a sua santa vocação senão como um meio de conseguir para si um sustento confortável! Não há muitos que trazem escândalo à sua profissão pela licenciosidade dos seus costumes? Não os vemos coléricos e violentos? Não observamos neles um apego extremo aos próprios interesses? Têm eles o cuidado de governar bem a sua família? Não tem sido motivo de queixa que são inchados de orgulho e implacáveis no seu ódio? Nada digo de muitos outros vícios e defeitos igualmente escandalosos no clero, como a conversa vã e licenciosa, o apego às diversões e aos prazeres, a disposição mundana, a preguiça, a astúcia, a injustiça e a calúnia.”

“É impossível encontrar uma pessoa”, acrescenta o sr. Ostervald, “cercada de motivos mais fortes para a piedade do que um homem cuja ocupação ordinária é meditar nas coisas da religião, falar delas aos outros, repreender o vício e a hipocrisia, celebrar o culto divino, ministrar os santos sacramentos, visitar os aflitos e os moribundos, e que um dia terá de prestar contas a Deus das almas confiadas ao seu cuidado. Não sei se é possível encontrar sinais mais fortes de impiedade e de hipocrisia do que os que se podem descobrir no caráter de uma pessoa que, no meio de todas essas circunstâncias favoráveis, é, no entanto, um homem injusto. Pode-se dizer que tal pessoa se diverte com as coisas mais sagradas da religião e passa a vida inteira representando o papel de impostor. E faz isso para o seu próprio prejuízo, pois não há profissão no mundo que assegure com mais certeza uma sentença de condenação do que a do sacerdócio, quando exercida de maneira tão infiel.”

Mas é sobretudo nas Sagradas Escrituras que esses pastores indignos são retratados com traços tão fortes que todo investigador atento pode facilmente discernir as suas feições características. “Filho do homem”, diz o Senhor, “profetize contra os pastores de Israel e diga-lhes: Vocês comem a gordura, vestem-se da lã e matam as melhores ovelhas para comer, mas não apascentam o rebanho. Vocês não fortaleceram as fracas, não curaram as doentes, não enfaixaram as quebradas, não trouxeram de volta as desgarradas e não buscaram as perdidas, mas dominam sobre elas com força e tirania. Assim diz o Senhor Deus: Eis que estou contra os pastores e lhes pedirei contas das minhas ovelhas” (Ez 34.2-4, 10). “E do mesmo modo que Janes e Jambres resistiram a Moisés, também estes resistem à verdade. São homens que têm a mente totalmente corrompida, reprovados quanto à fé” (2Tm 3.8). “Ai deles! Porque seguiram o mesmo caminho de Caim e, movidos por ganância, caíram no erro de Balaão, e foram destruídos na revolta de Corá. São nuvens sem água impelidas pelos ventos; são árvores que, em plena estação dos frutos, continuam sem frutos, duplamente mortas e arrancadas pela raiz; são ondas bravias do mar, que espumam as suas próprias sujeiras; são estrelas sem rumo, para as quais está reservada a mais profunda escuridão, para sempre” (Jd 11-13).

São João não só traçou o caráter, mas também nos deu o nome de certo mestre tirânico que começou a perturbar a paz da igreja primitiva: “Escrevi algumas palavras à igreja”, diz ele a Gaio, a respeito da acolhida aos evangelistas de fora, “mas Diótrefes, que gosta de exercer a primazia entre eles, não nos dá acolhida. Por isso, quando eu for aí, farei com que se lembre das obras que ele pratica, proferindo contra nós palavras caluniosas. E, não satisfeito com isso, ele não recebe os irmãos, impede os que querem recebê-los e os expulsa da igreja” (3Jo 9, 10). Eis uma descrição impressionante dos eclesiásticos orgulhosos e perseguidores!

Mas talvez a descrição mais completa deles seja a que o próprio Senhor nos dá, quando trata dos pastores indignos em geral sob o nome particular de escribas e fariseus. Aqui uma mão divina e imparcial desenha o ciúme, o orgulho, a moral fingida, a malícia e o espírito perseguidor que caracterizam essa classe de homens em todas as épocas do mundo. “Não os imitem em suas obras”, diz Cristo, “porque dizem e não fazem. Praticam todas as suas obras a fim de serem vistos pelos outros. Gostam das primeiras cadeiras nas sinagogas e das saudações nas praças. Ai de vocês, hipócritas, porque vocês fecham o Reino dos Céus diante das pessoas; pois vocês mesmos não entram, nem deixam entrar os que estão entrando! Vocês desprezam a justiça, a misericórdia e a fé. Por fora, parecem justos aos olhos dos outros, mas, por dentro, estão cheios de hipocrisia e de maldade. Porque enfeitam os túmulos dos justos”, vocês imaginam em vão estar livres do espírito de perseguição, ao passo que, em outras coisas, como “filhos dos que mataram os profetas”, trabalham para “terminar aquilo que os pais de vocês começaram. Por isso, eis que eu lhes envio profetas” e pregadores zelosos da palavra, “a uns vocês matarão e a outros perseguirão de cidade em cidade” (Mt 23.3-34).

Basta um rápido olhar sobre o Novo Testamento para provar suficientemente que esses escribas de mentalidade mundana e esses fanáticos furiosos acima retratados foram exatamente as pessoas que perseguiram os primeiros evangelistas com um rancor tão mortal. Mais ainda: não fossem Anás e Caifás, Herodes e Pilatos teriam permitido em silêncio a pregação do próprio Jesus. Estes, que eram os principais homens do Estado, depois de se recusarem a abraçar a palavra de Deus, muito provavelmente se teriam contentado em negar as suas verdades e ridicularizar os seus seguidores. Mas nunca teriam pronunciado sentença de morte contra pessoas de caráter tão admirável quanto Cristo e o seu precursor.

Os opositores declarados de Jesus e dos seus discípulos eram fortemente movidos por um orgulho ciumento; e da mesma disposição maligna está profundamente contaminado todo falso apóstolo na igreja cristã. O prelado cuja pena já tomamos emprestada faz a seguinte descrição viva desse temperamento infeliz: “Esse ciúme desprezível não apenas desonra o zelo, mas supõe que ele já se apagou no coração. É uma disposição infame que se aflige até com a conversão dos pecadores e com o progresso do evangelho, quando é pelo ministério de outros que Deus se agrada de operar essas maravilhas. A glória de Deus raramente nos interessa tanto como quando a nossa própria glória parece estar misturada com a dele. Suportamos com certa contrariedade que Deus seja glorificado; e ouso acrescentar que alguns de nós prefeririam ver com prazer os irmãos perecerem a vê-los resgatados da morte por outros trabalhos e outros talentos que não os nossos. São Paulo se alegrava de ver o evangelho espalhar-se, ainda que fosse pelo ministério dos que procuravam desacreditá-lo entre os fiéis; e Moisés desejava que todos os seus irmãos recebessem o dom de profecia. Nós, porém, queremos estar sozinhos e não repartir com ninguém a glória e o êxito do santo ministério. Tudo o que eclipsa o nosso brilho, ou brilha perto demais de nós, torna-se insuportável, e parece que olhamos os dons de Deus nos outros apenas como vergonha e censura para nós mesmos.” Observe-se aqui a verdadeira fonte daqueles pretextos enganosos que se diz tirar da ordem, dos costumes e até dos preconceitos do mundo. Pretextos sob os quais ousamos opor-nos ao zelo dos nossos irmãos, resistir à palavra de Deus no seu curso e tornar a cruz do ministério mais pesada para aqueles que a levam mais longe do que nós estamos dispostos a levá-la. Um sinal distintivo desses evangelistas turbulentos é serem espinhos cravados no flanco dos verdadeiros ministros, a quem nunca deixam de apresentar como enganadores ou novatos, fazendo a piedade mais verdadeira tomar a aparência de entusiasmo e loucura. Eles falam “mal daquilo que não entendem” (2Pe 2.12); e, com os discursos mais maliciosos, que sempre têm aparência de zelo pela religião e pela ordem, vão pouco a pouco despertando de novo aquele espírito de perseguição que tanto desonrou o nome de Cristo no mundo.

Na primeira época da igreja cristã, esses falsos apóstolos, inchados de inveja diante do êxito de ministros mais fiéis, empregavam todo esforço para torná-los desprezíveis, dando falsas representações do seu santo zelo e das suas ações exemplares. Assim acusavam São Paulo de andar “segundo a carne” e afirmavam que, embora “as cartas” dele fossem “graves e fortes”, “a presença pessoal dele é fraca e a sua palavra é desprezível” (2Co 10.2, 10). E tanto se empenhavam em buscar motivos de escândalo na conduta desse apóstolo que, por fim, ele se viu obrigado a desmascará-los publicamente. “Porque esses tais”, diz ele, “são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, disfarçando-se em apóstolos de Cristo. E não é de admirar, porque o próprio Satanás se disfarça de anjo de luz. Portanto, não deveria surpreender que os seus próprios ministros se disfarcem em ministros de justiça. O fim deles será conforme as suas obras” (2Co 11.13-15). Como nosso Senhor previu que esses obstinados opositores da verdadeira religião levariam a sua igreja à beira da ruína, exortou continuamente os discípulos a estarem em guarda contra eles (Mt 7.15). E os apóstolos, depois de seguirem fielmente esse importante conselho do Mestre, foram diligentes em transmiti-lo aos últimos dos seus seguidores (At 20.28, 30; 2Pe 2.1).

Uma observação necessária concluirá este capítulo. No Retrato de São Paulo vimos o de um pastor evangélico. No capítulo anterior assinalamos o caráter de um ministro descuidado; e neste contemplamos a representação fiel de um falso apóstolo. Lembremo-nos de que um desses três retratos há de corresponder, mais ou menos, a todo pregador do evangelho. Digo mais ou menos porque os diversos traços aqui assinalados podem variar a um grau quase inconcebível. Além disso, o homem é tão inconstante que um ministro que hoje tem zelo suficiente para figurar entre os pregadores da primeira classe pode amanhã, por um infeliz relaxamento, descer à segunda, como fez certa vez João, chamado Marcos; ou até à terceira, como Himeneu e Fileto, Diótrefes e Demas. Ao contrário, um homem que agora mostra muitos dos traços pelos quais Saulo, o fariseu, outrora se distinguia pode, em breve, tornar-se um humilde imitador do zelo e do amor de Paulo, o apóstolo.

Capítulo III

Resposta à primeira objeção que se pode fazer contra o Retrato de São Paulo

As objeções são as armas ordinárias com que o erro guerreia contra a verdade, e às vezes são tão poderosas que, até serem eficazmente repelidas, vemos a verdade privada dos seus direitos. A primeira que provavelmente se levantará contra o Retrato de São Paulo é esta: “O modelo posto diante de nós é elevado demais para os que não são dotados dos dons miraculosos de São Paulo.”

A esta e a todas as outras objeções daremos várias respostas, da maneira mais concisa possível. À presente objeção um autor verdadeiramente respeitável já deu resposta suficiente. “Essa desculpa”, diz o sr. Roques, “poderia ter algum peso se, ao propormos o exemplo de Cristo às pessoas honradas com o santo ministério, exigíssemos que acompanhassem o passo do Salvador dos homens. Mas essa desculpa é inteiramente fútil quando nada mais se exige dos ministros senão que ponham continuamente Cristo diante dos olhos como modelo e o imitem com toda a exatidão de que são capazes.” “Essa desculpa”, continua ele, “é ainda menos razoável quando aplicada aos profetas e apóstolos, que eram homens sujeitos às mesmas paixões que nós e que, por consequência, podem ser postos diante de nós como modelos, cujas perfeições são alcançáveis por meio dos mesmíssimos socorros que os sustentaram, e que nunca são negados aos que têm intenções sinceras e apostólicas.” (O Pastor Evangélico.)

À resposta desse piedoso teólogo acrescentaremos algumas observações.

1. No Retrato de São Paulo não se encontra nenhuma longa descrição de dons miraculosos, mas uma representação fiel daquelas virtudes cristãs que se encontram em todo crente, segundo a sua vocação, e sem as quais nos é impossível cumprir os nossos diversos deveres, como a humildade, a fé, o amor, o zelo e a assiduidade.

2. A moral praticada por São Paulo não era outra senão a moral do evangelho, que é a mesma em todas as épocas e para todas as condições. Daí se segue que o caráter moral desse apóstolo pertence não só a todos os verdadeiros pastores, mas até a todo crente sincero. Se São Paulo era verdadeiramente humilde, caridoso e piedoso, a sua humildade, o seu amor e a sua piedade são tão essenciais à religião de todo cristão quanto três ângulos são essenciais à natureza de todo triângulo. Admite-se que a piedade desse apóstolo era maior que a de mil outros ministros, assim como um triângulo pode ser maior que mil outros. Mas, assim como os ângulos do menor triângulo são da mesma natureza que os de um triângulo de tamanho incomum, assim também o caráter moral de São Paulo é, quanto ao essencial, o caráter moral de todo verdadeiro cristão.

3. Esse apóstolo nos informa que era obrigado a “reduzir o seu corpo à escravidão”, “para que, tendo pregado a outros”, não viesse ele mesmo “a ser desqualificado” (1Co 9.27). Essa única confissão prova suficientemente que ele estava exposto a todos os perigos que costumam cercar os cristãos e que não via outro meio de escapar deles senão o uso daquelas mesmas precauções que se ensinam ao crente mais fraco. Ora, se São Paulo temia tanto cair; se São Pedro foi de fato visto tropeçar e cair; e se Judas, um apóstolo escolhido, se precipitou sem remédio nas profundezas da perdição, é bem razoável supor que, pelo uso fiel dos nossos privilégios, podemos alcançar um bom grau daquela piedade elevada da qual um apóstolo caiu por algum tempo, e outro para sempre.

4. Em todo o Retrato de São Paulo não há traço mais forte que o décimo oitavo, que descreve o ardor do seu amor pelos judeus, que o perseguiam até a morte: amor que o tornava disposto a ser anátema, morrendo por eles, como o seu bondoso Mestre o fora ao morrer pelo mundo. Ora, esse amor está tão longe de ser uma conquista elevada demais para os verdadeiros ministros que é exigido sem distinção de todo aquele que professa ser cristão. “Nisto conhecemos o amor”, diz São João: “que Cristo deu a sua vida por nós; portanto, também nós devemos dar a nossa vida pelos irmãos” (1Jo 3.16). E o próprio Senhor disse: “Nisto todos conhecerão que vocês são meus discípulos: se tiverem amor uns aos outros” (Jo 13.35). É por um novo mandamento nesse sentido que a moral do evangelho se distingue de modo particular da moral da lei. E haveremos nós de tentar, impiamente, enfraquecer a moral evangélica? Antes, declaremos em todas as ocasiões que “quem não ama não conhece a Deus” (1Jo 4.8). Clamemos com o apóstolo: “Se alguém não ama o Senhor, seja anátema. Maranata!” (1Co 16.22). E, se um homem não ama os seus irmãos, não ama o Senhor Jesus, pois “quem não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4.20).

Por outro lado, quando amamos os nossos irmãos “intensamente” e “de coração puro” (1Pe 1.22), quando, dispostos a uma benevolência universal, podemos olhar os nossos próprios inimigos com sentimentos de compaixão e afeto, então possuímos com certeza aquele amor cristão que forma o traço mais brilhante do caráter moral de São Paulo.

5. São Paulo foi durante três anos o pastor residente de uma única igreja. A cidade de Éfeso era a sua paróquia. E, enquanto residiu ali, deu um exemplo que todo ministro, pelos compromissos mais solenes, está obrigado a seguir, quer seja encarregado de trabalhar numa cidade, quer numa aldeia. Durante outros dois anos da sua vida, esse apóstolo esteve confinado a limites mais estreitos que os de qualquer pastor de paróquia. Encerrado em Roma numa casa que lhe servia de prisão, e constantemente vigiado por um soldado, não podia ampliar a esfera dos seus trabalhos. Mesmo nessas circunstâncias, porém, continuou no exercício diligente do santo ministério, pregando o Reino de Deus a “todos os que o procuravam” e ensinando “as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo” (At 28.30, 31).

Certamente nada pode parecer mais perfeitamente razoável do que todo pastor mostrar na sua paróquia particular tanto zelo quanto São Paulo costumava manifestar no Império Romano, quando estava em liberdade, e no seu próprio aposento, quando carregado de correntes.

6. Se o amor ardente e os trabalhos incessantes de São Paulo foram felizmente imitados por Timóteo, por que não podem ser copiados por todo pastor nos dias de hoje? Aquele jovem ministro se empenhava em andar nos passos desse apóstolo; e os que pensam de outra maneira incorrem, sem dúvida, naquelas censuras apostólicas que assim se exprimem indiretamente na Epístola aos Filipenses: “Espero no Senhor Jesus enviar-lhes Timóteo o mais breve possível. Porque não tenho ninguém com esse mesmo sentimento e que se preocupe tão sinceramente por vocês. Todos os outros buscam os seus próprios interesses e não os de Jesus Cristo. Quanto a Timóteo, vocês conhecem o seu caráter provado, pois serviu ao evangelho, junto comigo, como um filho trabalha ao lado do pai” (Fp 2.19-22).

7. A destruição das igrejas do Oriente começou com a decadência dos seus pastores, que foram aos poucos perdendo o fervor daquele santo zelo com que haviam começado a trabalhar na vinha do seu Senhor.

Desses mestres infiéis Cristo se queixou comovidamente no período mais antigo da sua igreja, e acompanhou as queixas das mais terríveis ameaças. “Ao anjo da igreja em Éfeso escreva”, disse ele a São João: “Conheço as suas obras de antes, tanto o seu esforço como a sua perseverança. Sei que você não pode suportar os maus e que pôs à prova os que se declaram apóstolos e não são, e descobriu que são mentirosos etc. Tenho, porém, contra você o seguinte: você abandonou o seu primeiro amor. Lembre-se, pois, de onde você caiu. Arrependa-se e volte à prática das primeiras obras. Se você não se arrepender, virei até você e tirarei o seu candelabro do lugar dele” (Ap 2.1-5).

A advertência não foi atendida, e por fim caiu o golpe ameaçado. Assim caiu a igreja de Éfeso, e assim caiu toda igreja sobre a terra, abrindo caminho para aquele “mistério da iniquidade” e aquela apostasia geral preditos há tanto tempo. Tanto é verdade que o amor apostólico, aquele amor que se acendeu pela primeira vez no dia de Pentecostes, continua absolutamente necessário a todo pastor, a toda igreja e, por consequência, a todo crente.

Da força combinada dessas sete observações argumentativas temos o direito de concluir que as virtudes de São Paulo estão longe de ser inimitáveis, e que a primeira objeção contra o seu retrato não tem solidez.

Capítulo IV

Discussão de uma segunda objeção

Os que seguem o exemplo de Diótrefes, e não o de São Paulo, acrescentam à anterior outra objeção, para desacreditar, se possível, os imitadores desse grande apóstolo. “Vocês pretendem”, dizem eles, “ser os sucessores de São Paulo e dos outros apóstolos, que citam com presunção como seus modelos?”

A esses objetores as reflexões seguintes servirão de resposta suficiente:

1. Ouvimos São Paulo, como crente, propor-se como exemplo a todos os crentes; e, como ministro do evangelho, exortar todo pastor a andar nos seus passos (1Co 11.1; Fp 3.17).

2. João Batista pregou o arrependimento. Os apóstolos proclamaram a remissão dos pecados em nome de Jesus Cristo, “o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou para a nossa justificação” (Rm 4.25); e todo verdadeiro ministro continua a insistir nessas importantes doutrinas. Ora, assim como quem ocupa o lugar de uma pessoa falecida é considerado seu sucessor, assim também esses pastores fiéis devem ser vistos como mestres designados para suceder tanto ao precursor quanto aos apóstolos de Cristo. É preciso admitir que os apóstolos, como os mais velhos na família de nosso Senhor, possuíam privilégios que não nos é dado desfrutar. Mas, se o evangelho é imutável, e se o Reino de Deus continua sob a sua antiga forma de governo, o sacerdócio, na maior parte, há de continuar necessariamente o mesmo.

3. Houve um tempo em que os sacerdotes judeus tinham perdido o Urim e o Tumim de que Arão e os seus filhos foram revestidos no princípio. Houve um tempo em que Deus já não se manifestava aos sacerdotes que ele mesmo designara, como costumava fazer. Mas, assim como, apesar da perda daquela glória que antes repousava sobre a igreja judaica, todo sacerdote piedoso, como Zacarias, era um verdadeiro sucessor de Arão, assim também, durante o eclipse daquela glória que outrora iluminou a igreja cristã, todo ministro piedoso pode com justiça ser considerado um verdadeiro sucessor de São Paulo.

4. A palavra apóstolo significa aquele que é enviado e corresponde ao termo anjo ou mensageiro. “Quanto aos nossos irmãos”, diz São Paulo, referindo-se aos que acompanhavam Tito, “são mensageiros”, ou apóstolos, “das igrejas” (2Co 8.23). Portanto, todo ministro que leva com sinceridade as mensagens do seu Senhor pode, com propriedade, ser contado entre os seus anjos ou mensageiros. E esses não perdem imediatamente o título quando deixam de cumprir os deveres do seu ofício. Podem, como Judas, levar o nome de apóstolos até a morte, embora sejam totalmente indignos de tão honrosa designação. Assim, depois que os pastores de Éfeso e de Laodiceia sobreviveram ao fervor passageiro do seu amor e do seu zelo, continuaram a ser chamados anjos das suas respectivas igrejas. E assim São Paulo deu o título de apóstolos aos ministros mundanos do seu tempo. Na qualidade de ministros, eram apóstolos; mas, na qualidade de ministros mundanos, eram falsos apóstolos.

5. Assim como o nome de César se aplica ordinariamente aos doze primeiros imperadores romanos, assim o nome de apóstolo se aplica ordinariamente aos doze primeiros ministros do evangelho, a quem foi permitido conversar com o seu Senhor mesmo depois da ressurreição, e a São Paulo, que foi favorecido com uma gloriosa manifestação do seu Salvador exaltado. Nesse sentido restrito, reconhece-se que o nome de apóstolo pertence de modo especial aos que foram enviados por Cristo depois de receberem dele diretamente a sua consagração e a sua comissão. Mas, assim como o nome de César, num sentido mais geral, pode ser dado a todos os imperadores de Roma, assim também o nome de apóstolo pode ser aplicado a todo ministro do evangelho eterno. Assim, Barnabé, Andrônico e Júnias, que não eram do número dos doze nem dos setenta, foram chamados apóstolos tanto quanto São Paulo (At 14.14; Rm 16.7).

6. É opinião invariável dos cristãos preguiçosos que o zelo dos ministros e a piedade dos crentes nos dias de hoje devem necessariamente ficar muito abaixo do que eram no tempo dos apóstolos, como se as promessas de Cristo estivessem infelizmente limitadas à igreja primitiva. Esse erro tem sido refutado muitas vezes, em vão, por vários escritores cristãos, pois nada pode ser mais conforme ao espírito de incredulidade que reina entre nós do que renunciar de uma vez às mais importantes promessas do Novo Testamento. Se as mesmas promessas tivessem sido feitas a respeito de honras e lucros temporais, veríamos adotar-se outra maneira de proceder, “porque os filhos do mundo são mais espertos na sua própria geração do que os filhos da luz” (Lc 16.8).

O sr. Roques dá o seguinte testemunho da verdade aqui defendida: “Os ministros do evangelho se consideram, e com razão, sucessores dos apóstolos. A ocupação deles é essencialmente a mesma, embora os apóstolos tenham sido honrados com muitas prerrogativas gloriosas, por serem os primeiros a lançar o fundamento da igreja.”

“Não se pode dizer”, afirma o mesmo escritor, “que o ministro de Cristo se iluda em vão quando conta com a graciosa assistência do seu Mestre. Ele toma a promessa desse Mestre como o fundamento sólido da sua esperança. ‘E eis que estou com vocês todos os dias’, disse Cristo aos seus apóstolos e, na pessoa deles, a todos os que haveriam de sucedê-los no ministério, ‘até o fim dos tempos'” (Mt 28.20).

“Foi essa promessa divina”, continua ele, “promessa mais firme que a terra e o céu, que encheu os apóstolos de um zelo tão ardente que os tornava capazes de se alegrar sempre; que os punha acima da fúria dos tiranos e fora do alcance do medo; que os ajudava a suportar a fadiga excessiva e as viagens penosas, a inclemência das estações e a resistência dos corações endurecidos.” Impressionado com um justo senso dessa importante promessa, o venerável escritor conclui com esta oração fervorosa: “Santo Jesus, que prometeste permanecer para sempre com os teus apóstolos e dar-lhes uma sabedoria a que ninguém jamais poderá resistir, concede-me participar desses favores insignes, para que, animado pelo mesmo espírito que inspirou os teus primeiros discípulos, eu possa conduzir alguma alma, como feliz cativa, à obediência da tua palavra.” Essas belas citações justificarão por si mesmas a sua presença neste lugar.

7. Se alguns estão dispostos a condenar o sr. Roques como entusiasta neste ponto, não consideram quantos nomes grandes e honrados desonram com um juízo tão precipitado, pois todos aqueles piedosos pais que são vistos como reformadores das doutrinas corrompidas e dos costumes degenerados eram unânimes nessa mesma opinião.

Das reflexões precedentes parece bem razoável concluir que todos os verdadeiros ministros de Cristo, em todas as nações, devem ser considerados verdadeiros sucessores dos apóstolos, e particularmente de São Paulo, que por excelência é chamado o apóstolo dos gentios e que, por isso mesmo, com maior propriedade lhes pode ser proposto como modelo.

Capítulo V

Resposta a uma terceira objeção

Os que não querem permitir que nem crentes nem pastores se tornem imitadores de São Paulo raramente se esquecem de propor uma terceira objeção contra essa imitação. “Se vocês pretendem”, dizem eles, “ser sucessores dos apóstolos, provem a sua missão realizando milagres iguais aos deles.”

A essa objeção respondemos:

1. Que não se faz menção dos milagres de Andrônico, Júnias e Barnabé, que eram apóstolos de verdade, nem se atribui milagre algum a Tito ou a Timóteo, embora fossem sem dúvida sucessores dos apóstolos. Mais ainda: diz-se expressamente que João Batista, embora fosse maior que os profetas, “não fez nenhum sinal” (Jo 10.41). Por outro lado, alguns dons miraculosos eram comuns na igreja de Corinto, mesmo entre os que não eram apóstolos nem evangelistas; e esses dons estavam tão longe de ser essenciais ao zelo apostólico que muitos irmãos indignos e muitos falsos apóstolos, assim como o traidor Judas, os possuíam. Isso nos ensina, nos termos mais expressos, o próprio Senhor (Mt 7.22).

2. Se algum dos pastores que professam seguir São Paulo for visto publicando outro evangelho, ou afastando-se da ordem estabelecida pelos apóstolos, então o mundo terá razão para exigir deles milagres como demonstração de que as suas doutrinas são divinas e de que os seus costumes recentes são preferíveis aos que antes se adotavam na igreja de Cristo. Mas, se eles simplesmente proclamam aquele evangelho glorioso que já foi confirmado por mil milagres, e não se veem adotar outro método senão o dos apóstolos, é absurdo no mais alto grau insistir em milagres como as únicas provas suficientes da sua missão. Dos pastores mundanos é que se poderiam exigir, com propriedade, tais atestados da sua comissão sagrada. São essas as pessoas que se desviam do caminho trilhado por Cristo e pelos seus discípulos, tanto em doutrina como em disciplina; e a esses a igreja deveria exigir provas incontestáveis de que os seus costumes novos são melhores que os de São Paulo e dos antigos evangelistas.

3. Não se pode dar razão suficiente para exigir que os humildes imitadores de São Paulo comprovem a sua missão espiritual por ações extraordinárias. De um lado, eles não fazem mais que declarar simplesmente as verdades religiosas de que tiveram a experiência mais convincente; e, de outro, solicitam com insistência aos ímpios que se tornem participantes das mesmas bênçãos inestimáveis que eles possuem. Ora, a certeza de tal declaração e a sinceridade de tal convite podem estabelecer-se solidamente sobre dois tipos de provas: as primeiras, aquelas provas que sustentam o evangelho em geral; e as segundas, a conduta santa dos que dão esse testemunho e repetem esses convites, pela qual demonstram a eficácia da sua doutrina e provam de modo indiscutível que os verdadeiros cristãos estão de fato mortos para o pecado, mas vivos para Deus (Rm 6.11). O pastor que é incapaz de apresentar as primeiras provas não pode de modo algum ser considerado verdadeiro sucessor do grande apóstolo; e aquele cuja conduta constante é insuficiente para fornecer as segundas não passa de um falso apóstolo.

4. Os milagres exteriores, que não operam mudança alguma no coração nem resgatam a alma de um estado de cegueira e morte espiritual; milagres que servem apenas para reparar os órgãos de um corpo que em breve será entregue à sepultura; milagres que tendem simplesmente a modificar a matéria, como fazer secar árvores verdes, brotar árvores secas e jorrar águas da rocha de pederneira; milagres dessa natureza são muito menos importantes do que aqueles que fazem secar os espinhos do vício, brotar as sementes da graça e correr torrentes de sagrada consolação por aqueles mesmos corações que antes eram estéreis como um deserto e duros como a rocha que Moisés feriu.

5. “Se vocês desejam milagres”, diz um escritor cristão, “se anseiam por experimentá-los em vocês mesmos; se, no segredo do coração, querem tornar-se testemunhas do poder todo-poderoso daquele que formou esse coração, então peçam a ele aquela virtude sublime [o amor], da qual todas as suas inclinações e hábitos os mantêm a uma distância tão grande que vocês não estão em condições de formar dela nenhuma ideia justa, nem mesmo de conceber a possibilidade da sua existência.” (Sermão do professor Crousaz sobre 1Co 13.13.)

6. Aquele amor divino e aquelas consolações sagradas que eram como “uma fonte a jorrar para a vida eterna” no coração dos primeiros discípulos de Cristo podem abundar também no nosso, pois a fonte dessas graças inestimáveis nunca se esgota (Hb 13.8); e os fiéis que experimentam em si mesmos esse milagre da graça não precisam de nenhum outro prodígio para se firmarem na fé do evangelho.

7. Os milagres mais importantes foram os que os apóstolos operaram quando, como cooperadores de Deus, abriram os olhos dos pecadores, convertendo-os “das trevas para a luz e do poder de Satanás para Deus” (At 26.18). Verdadeiros milagres de misericórdia são esses, e conversões memoráveis, que a palavra de Deus, na boca dos seus ministros, continua operando em todas as épocas!

8. O amor que mostra o pastor fiel que coopera humildemente com Deus na conversão dos seus inimigos inveterados deveria ser visto pelo mundo como a prova mais verdadeira do seu apostolado. “Havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão”; mas “o amor jamais acaba”. “Ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes”, e realize os prodígios mais inauditos, “se não tiver amor, nada serei” (1Co 13.8, 2).

As respostas precedentes bastam amplamente para demonstrar a fraqueza da terceira objeção daqueles que são inimigos declarados do zelo apostólico.

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Portrait of St. Paul: or, The True Model for Christians and Pastors, versão inglesa de Joshua Gilpin (1790) do manuscrito francês do autor, na edição de Nova York (B. Waugh e T. Mason, 1834), conferida com as imagens das páginas; domínio público. Por isso esta é tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.