Manual de aconselhamento pastoral · Capítulo 1 de 14
A Bíblia não pede ao cristão que finja diante da morte: ela a chama de inimiga, dá lugar ao choro de quem perde alguém e firma a esperança na ressurreição de Cristo. O cuidado pastoral precisa segurar essas verdades juntas, pois quem esquece a primeira banaliza a dor, quem esquece a segunda culpa quem chora e quem esquece a terceira deixa o enlutado sem chão.
A morte é parte natural da vida ou é inimiga? Chorar é falta de fé? Onde estão os que morreram em Cristo? E onde está Deus quando a cura não vem? Estas perguntas aparecem no quarto do hospital e no velório, e a resposta pastoral começa na Escritura, não no consolo improvisado.
A morte não fazia parte do bom projeto de Deus na criação. Ela entrou no mundo com o pecado (Gn 2.17; 3.19; Rm 5.12), e Paulo a chama sem rodeios de inimiga: “O último inimigo a ser destruído é a morte” (1Co 15.26). Por isto o pastor não precisa apresentar a morte como algo bonito ou simplesmente natural. Ela rompe o que Deus uniu, e o luto é a reação justa diante desse golpe.
Mas a inimiga já foi vencida. O Filho de Deus assumiu carne e sangue para destruir, pela sua morte, aquele que tinha o poder da morte, e para livrar os que viviam escravizados pelo pavor dela (Hb 2.14-15). A ressurreição de Cristo é o início da colheita (1Co 15.20), e por isto a igreja pode perguntar com Paulo: “Onde está, ó morte, a sua vitória?” (1Co 15.55).
O Manual da Igreja resume esta esperança ao afirmar que “para o cristão a morte não é o fim da vida, mas a transição para a eternidade” (§3420). Os nossos dias estão nas mãos de Deus (Sl 31.15). Esta convicção sustenta duas atitudes que o capítulo 4 desenvolve: não abreviamos a vida, e também não somos obrigados a prolongar a qualquer custo um morrer que já chegou.
Diante do túmulo de Lázaro, Jesus “agitou-se no espírito e se comoveu” (Jo 11.33), e logo depois “Jesus chorou” (Jo 11.35). Ele sabia que, em poucos minutos, chamaria o amigo para fora do sepulcro, e ainda assim chorou. Se o próprio Senhor, com a ressurreição nas mãos, derramou lágrimas, nenhum crente precisa provar a sua fé segurando o choro.
A Escritura dá tempo e forma ao luto. Abraão chorou Sara (Gn 23.2); José pranteou seu pai durante sete dias (Gn 50.10); Israel pranteou Moisés durante trinta dias (Dt 34.8); homens piedosos sepultaram Estêvão e fizeram grande lamentação por ele (At 8.2). As viúvas de Jope choraram Dorcas mostrando as roupas que ela havia feito (At 9.39), e esse gesto ensina que lembrar quem partiu faz parte do luto saudável. Há “tempo de chorar” (Ec 3.4).
Os salmos de lamento dão palavras a quem sofre. “Até quando, Senhor, te esquecerás de mim?” (Sl 13.1) é uma oração inspirada, não um desabafo proibido. O Salmo 88 termina sem nenhuma palavra de alívio e, mesmo assim, faz parte da Bíblia: Deus acolhe a oração de quem ainda não enxerga a saída. O pastor pode orar esses salmos com o enfermo e com o enlutado, sem pressa de chegar ao final feliz.
Jesus também pediu companhia na hora da angústia. No Getsêmani disse aos discípulos: “A minha alma está profundamente triste até a morte; fiquem aqui e vigiem comigo” (Mt 26.38). Ele não pediu explicações, pediu presença. Na cruz, orou com as palavras do Salmo 22: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mc 15.34).
Paulo não proíbe a tristeza. Ele escreve “para que não fiquem tristes como os demais, que não têm esperança” (1Ts 4.13): a diferença está na esperança, não na ausência de dor. Observe também que, quando Jesus disse à viúva de Naim “Não chore!” (Lc 7.13), estava prestes a devolver-lhe o filho vivo. A frase não é modelo para quem não pode fazer o mesmo.
Wesley tratou do assunto no Sermão 47, ao distinguir a tristeza das provações das trevas espirituais. Falando da morte de um pai, de um filho ou de um amigo, ele afirma que nesses casos não só podemos, mas devemos sentir a dor, porque Deus não quer transformar-nos em pedras, e conclui: “Pode existir tristeza sem pecado”. O luto, portanto, não é sinal de fé fraca nem de santidade incompleta.
O consolo cristão não é um vago “ele está num lugar melhor”. A Escritura dá à esperança um conteúdo preciso, que o pastor deve conhecer bem para falar com segurança e sem exageros.
Esta esperança é anunciada com cuidado. Ela pertence aos que “morrem no Senhor” (Ap 14.13), e o Manual lembra que o destino eterno “é determinado pela graça de Deus e nossa resposta a ela” (§130). Por isto o pastor anuncia a esperança com firmeza aos que creem e, quando não sabe se o falecido creu, não declara quem está salvo ou perdido. O capítulo 8 trata desta situação no culto fúnebre.
A tradição wesleyana acrescenta uma palavra preciosa para o leito de morte: a certeza da salvação. “O próprio Espírito confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16), e “o perfeito amor lança fora o medo” (1Jo 4.18). O crente pode morrer descansado na misericórdia que já experimentou, e não agarrado à dúvida sobre se foi aceito. Charles Wesley escreveu uma coleção inteira para esse momento, a Preparação para a Morte (1772), que pode ser lida junto ao leito.
A primeira resposta de Deus ao sofrimento humano é a presença. O Filho se chama Emanuel, “Deus conosco” (Mt 1.23), e o salmista diz no vale da sombra da morte: “porque tu estás comigo” (Sl 23.4). O Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado (Sl 34.18), recolhe as lágrimas de quem chora (Sl 56.8) e promete estar junto quando passarmos pelas águas e pelo fogo (Is 43.2). Temos um sumo sacerdote que se compadece das nossas fraquezas (Hb 4.15).
Paulo chama Deus de “Pai de misericórdias e Deus de toda consolação”, que nos consola para que possamos consolar os outros (2Co 1.3-4). O Manual tira a consequência: “Assim como somos confortados, somos chamados para estender o conforto de Deus aos que sofrem” (§3420). A ordem bíblica é simples: “chorem com os que choram” (Rm 12.15) e “levem as cargas uns dos outros” (Gl 6.2). Tiago chega a definir a religião pura como “visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições” (Tg 1.27).
Wesley via nessa visita mais que um dever. No Sermão 98 ele ensina que as obras de misericórdia são “verdadeiros meios da graça”, tanto quanto a oração e a Ceia, e que “enfermos” são todos os que estão em sofrimento, da mente ou do corpo. Quem visita leva graça e também a recebe. Por isto a visita não pode ser terceirizada: “Não podem ser feitas por procuração”, diz ele.
Três ideias muito repetidas ferem quem sofre e não resistem ao texto bíblico.
Organizador: Bispo Ildo Mello. Texto preparado com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do organizador. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA).