Manual do Pastor Metodista Livre · Parte II · Capítulo 8
Pregar é tarefa principal do pastor metodista livre e merece o melhor do seu tempo e das suas forças. O método de Wesley pede que cada sermão convide, convença, ofereça Cristo e edifique, e que a santidade seja pregada como promessa de Deus. O sermão nasce do texto bíblico lido no seu contexto e da oração, e chega ao povo em palavras simples, como numa conversa. O pastor que prega também forma outros pregadores.
O Manual do Pastor de 1998 afirma que a igreja, no que tem de melhor, sempre deu prioridade à pregação. Jesus veio pregando, o primeiro ato dos apóstolos depois do Pentecostes foi pregar, e o avivamento metodista foi um avivamento da pregação, em que até convertidos sem preparo especial nem ordenação passaram a anunciar a Palavra. Daí a conclusão: “O árduo trabalho da pregação deve ter prioridade no tempo e nas energias do pastor metodista livre” (Manual do Pastor (1998): Uma perspectiva metodista livre sobre a pregação). A pregação clara, bíblica e ungida leva salvação aos incrédulos e maturidade à igreja, e sob ela “moços e moças serão levados a seguir o chamado de Deus para pregar o evangelho”.
O Manual da Igreja diz o mesmo. Os ordenados são separados para “o estudo e a proclamação da Palavra de Deus” (§8000). No culto, “A pregação é enfatizada como um meio de edificar os crentes e converter os pecadores” (§6900), e todo culto deve incluí-la. Paulo pergunta: “E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm 10.14).
A primeira Disciplina da Igreja Metodista Livre conservou a resposta de Wesley sobre o melhor método geral de pregar: “1. Convencer. 2. Oferecer Cristo. 3. Convidar. 4. Edificar. E fazer isso, em alguma medida, em cada sermão” (Disciplina de 1860: Capítulo III. Dos oficiais e ministros, Seção XI). Nas Atas de Wesley de 1789, a ordem é outra: “Convidar, convencer, oferecer Cristo, edificar; e fazer isso, em alguma medida, em cada sermão” (P. 36, tradução nossa). As duas formas concordam no essencial: os quatro movimentos, em alguma medida, em cada sermão.
| Movimento | O que o sermão faz | Pergunta para o preparo |
|---|---|---|
| Convidar | Anuncia o amor de Deus e chama a voltar para ele. | Quem ouvir saberá que Deus o procura e o recebe? |
| Convencer | Mostra, pela lei e pela consciência, o pecado e a necessidade de mudança. | O que este texto revela de errado em nós? |
| Oferecer Cristo | Apresenta Cristo como perdão e poder, para hoje. | Onde está Cristo neste texto, e o que ele oferece? |
| Edificar | Alimenta os crentes e os leva adiante na santidade. | O que o crente leva para viver nesta semana? |
A Disciplina diz também como pregar Cristo: “pregá-lo em todos os seus ofícios, e anunciar a sua lei, tanto quanto o seu evangelho, aos crentes e aos incrédulos. Insistamos com firmeza e de perto na santidade interior e exterior em todos os seus ramos” (Seção XI). Numa carta de 1751, Wesley explica o equilíbrio: “Não que eu aconselhe pregar a lei sem o Evangelho, tanto quanto não aconselho o Evangelho sem a lei. Sem dúvida, ambos devem ser pregados cada um por sua vez; sim, ambos de uma vez, ambos em um” (Pescadores de Homens: B. T. Roberts (1878), cap. 8).
Os conselhos menores das regras do pregador completam o método: adaptar sempre o assunto aos ouvintes, escolher os textos mais claros, não divagar, apegar-se ao texto e evitar o que é afetado nos gestos, nas frases ou na pronúncia (Seção VIII). As Atas de 1789 acrescentam: “Seja comedido em alegorizar ou espiritualizar” e “Evite palavras rebuscadas, por mais que estejam na moda” (tradução nossa).
Para Wesley, Deus levantou os pregadores metodistas para “espalhar a santidade bíblica pela terra” (Atas, 1789, P. 3, tradução nossa). O código de conduta do capítulo 3 inclui o compromisso de pregar a salvação e a inteira santificação com amor e paciência. O alvo é o de Paulo: “Este Cristo nós anunciamos, advertindo a todos e ensinando a cada um em toda a sabedoria, a fim de que apresentemos cada pessoa perfeita em Cristo” (Cl 1.28).
Wesley ensinou também o tom. Na conferência de 1745, perguntou-se de que maneira pregar a santificação, e a resposta foi: “Quase nada aos que não avançam; aos que avançam, sempre em forma de promessa; sempre atraindo, mais do que empurrando” (Uma Clara Explicação da Perfeição Cristã, seção 17). Na carta de 1751, lembrou que “os mandamentos são alimento, tanto quanto as promessas” (Pescadores de Homens, cap. 8), e mandou apresentar a lei aos que crescem na graça “à luz do evangelho, não só como mandamento, mas também como privilégio” (tradução nossa). A Igreja Metodista Livre dos Estados Unidos resume: “O chamado de Deus à santidade nunca foi um fardo, mas um dom que nos liberta para a vida verdadeira, livrando-nos do poder destrutivo do pecado” (tradução nossa).
Roberts insistia na lei, mas apontou o erro de muitos pregadores sinceros: tentam “consertar os homens atacando em detalhe cada coisa, pequena ou grande, que lhes parece errada”. O remédio é levar o pecador a Cristo, que purifica o coração, pois “Nenhuma quantidade de pregação franca reformará os homens, se não os levar a Cristo”. E pede que o cristianismo não pareça “uma necessidade pesada, um dever enfadonho” (cap. 8).
Na prática, pregar a santidade sem legalismo é:
O estudo Pregação expositiva, das Orientações Pastorais, parte da definição de E. K. Bailey, pastor fundador da Igreja de Concord, em Dallas: “Um sermão expositivo é a mensagem que focaliza uma porção da Escritura para estabelecer claramente o sentido preciso do texto e motivar criativa e diretamente os ouvintes a ações e atitudes ditadas pelo texto no poder do Espírito Santo.” Das dez razões que o estudo apresenta, algumas pesam muito numa igreja pequena: a pregação expositiva cria uma congregação que traz a Bíblia ao culto e a ama, obriga o pregador a proclamar todo o conselho de Deus e permite ao povo ouvir a palavra de Deus, e não os pensamentos do pregador.
O modelo é antigo. No tempo de Esdras, os levitas liam a Lei diante do povo e davam explicações, para que todos entendessem (Ne 8.8). As Orientações Pastorais dão a regra: “O sermão deve ser uma explicação e aplicação das Escrituras, não um repositório de opiniões pessoais, anedotas excessivas ou autoajuda” (A Centralidade da Palavra e do Sacramento da Ceia do Senhor). Roberts dizia o mesmo: “Um texto claro prova mais do que uma dúzia de argumentos” (cap. 8).
Pregar de modo expositivo não obriga a percorrer um livro versículo por versículo durante anos. Pede que o sermão diga o que o texto diz. Pode seguir um livro em série, tratar de um parágrafo ou reunir textos sobre uma doutrina, desde que cada texto seja lido no seu contexto. Os sermões de Wesley, que partem de um texto e desenvolvem uma doutrina, são bom modelo.
Um exemplo de esboço está nas Orientações Pastorais, em Fala, que Teu Servo Ouve: duas perguntas abrem o tema, o chamado de Samuel e o exemplo de Cristo dão as lições, uma experiência do pastor ilustra, e a conclusão pede resposta.
O preparo pede horas marcadas na agenda, guardadas como compromisso. O pastor de dedicação integral pode reservar as manhãs. O bivocacional distribui o trabalho em blocos: o texto lido no começo da semana, a meditação nos deslocamentos, o esboço no meio da semana, a revisão na véspera. O sábado à noite é tarde para começar. O estudo contínuo que alimenta a pregação está no capítulo 5.
Guarde cada sermão num arquivo, com data, lugar, texto, título e ideia central, e anote depois o que funcionou e o que faltou. Um índice por livro da Bíblia e por tema evita repetições involuntárias, mostra os textos nunca pregados e ajuda a planejar séries. Os Sermões do Bispo Ildo Mello estão organizados assim, com busca por título, tema e referência bíblica. O arquivo não guarda confidências: o que veio do aconselhamento não vira ilustração.
Wesley escreveu um folheto inteiro sobre a voz e o gesto do pregador, as Orientações sobre a pronúncia e o gesto (1749). O defeito que mais combatia era o tom artificial: “O maior e mais comum dos defeitos é falar com um tom artificial. (…) A única regra é esta: procure falar em público exatamente como fala na conversa comum. Preste atenção ao assunto e apresente-o como se estivesse falando dele a um amigo” (tradução nossa). Pedia uma voz ouvida sem esforço, apontava os defeitos de falar alto ou baixo demais, depressa, embolado ou de modo irregular, e mandava variar a voz conforme o assunto. E mostrava a fonte de tudo: “Que aquilo que você vai dizer esteja profundamente impresso no seu próprio coração; quando você mesmo estiver tocado, tocará os outros com facilidade.”
Sobre o gesto, mandava olhar os ouvintes um a um “com ar de afeto e consideração”, nunca bater palmas nem esmurrar o púlpito e evitar o movimento contínuo das mãos, a que os antigos chamavam “a tagarelice das mãos”. O conselho mais útil talvez seja este: “Peça a um amigo hábil e fiel que observe todos os seus movimentos e lhe diga quais são adequados e quais não são.” Hoje, grave o sermão, assista a ele e peça opinião franca. A voz também se educa: no Discurso ao Clero (1756), Wesley conta de uma voz fraca que se tornou forte e agradável “com aplicação constante” e de gagos que aprenderam a falar com clareza (tradução nossa).
Clareza. Ao jovem Samuel Furly, de estilo rebuscado, Wesley escreveu: “Devemos usar sempre as palavras mais comuns, pequenas e fáceis (…) que a nossa língua oferece” (Cartas de Wesley de correção a pregadores). Roberts acrescenta: “A pregação deve ser simples. O povo nunca deve ficar sem saber aonde o pregador quer chegar” (cap. 9). Clareza é também ordem: uma ideia central, poucos pontos, transições claras e uma aplicação concreta.
Fervor sem espetáculo. Roberts pede fervor, mas avisa que voz alta e gesticulação constante não o provam: “O melhor modo de parecer fervoroso é ser fervoroso e sincero.” E resume a postura: “O pregador deve manter-se fora de vista” (cap. 9). Paulo escreveu: “Porque não pregamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo como Senhor” (2Co 4.5). O estudo do Bispo sobre a música de fundo durante a pregação aponta a falta de base bíblica, o risco de manipular as emoções e a distração que causa ao povo, ao pregador e ao músico (Música de Fundo na Pregação: Uma Avaliação Teológica).
Duração. Ao receber um pregador, a Disciplina de 1860 perguntava: “Vai esforçar-se para não falar longo demais nem alto demais?” (Seção VII). Roberts é direto: “Não pregue tempo demais”, e “Quando você já não conseguir manter a atenção do auditório, pare” (cap. 9). As Orientações Pastorais lembram que “Um sermão curto é geralmente preferível por produzir melhores resultados” (Uma exortação para que haja ordem e decência nos cultos). Combine com a igreja uma duração habitual (no modelo do capítulo 7, de 25 a 35 minutos), mais curta no domingo de Ceia, e respeite-a.
Pregar em séries ajuda o povo e o pregador: o povo sabe de onde vem e para onde vai, e o pregador não passa a semana à procura de um texto. Uma série pode percorrer um livro da Bíblia, os Dez Mandamentos, o Pai-Nosso, os Artigos de Religião (§101 a §130) ou o caminho da salvação descrito no Manual (§3100 a §3170). Planeje o semestre e entregue o plano a quem escolhe os cânticos (capítulo 10). As grandes festas, o ano cristão, o lecionário e as datas brasileiras estão no capítulo 11. A pregação em casamentos e funerais tem orientações próprias nos capítulos 17, 18 e 24.
Manipular emoções, prometer prosperidade, fazer política partidária, expor pessoas, apresentar como seu o sermão alheio ou pregar sem exame o que uma inteligência artificial produziu: tudo isto fere a confiança do povo e o nome de Cristo, e está tratado nos capítulos 3 (ética e exposição de pessoas) e 7 (o apelo sem manipulação).
O metodismo cresceu com pregadores leigos. Wesley escreveu que, se tivesse cem pregadores que nada temessem senão o pecado, não lhe importaria “nem um fio de palha que sejam clérigos ou leigos” (Cartas de Wesley de correção a pregadores). A Disciplina de 1860 previa exortadores licenciados pela junta oficial, com a recomendação da sociedade (Seção XVIII), e pregadores locais cujos dons, trabalhos e utilidade se examinavam “pelo nome” (Seção XVII). Pedia que “os pregadores jovens muitas vezes exortem sem tomar um texto” (Seção VIII) e, na falta de pregador, que se nomeasse “alguma pessoa capaz para cantar, orar e ler um dos sermões do Sr. Wesley” (Seção X). Numa congregação pequena, a leitura de um sermão de Wesley na linguagem de hoje continua sendo um recurso digno.
O Manual atual não cria um ofício de pregador leigo. O pastor pode delegar a pregação “a pessoas que julgar qualificadas, mas sempre recairá sobre ele a responsabilidade final” (§6900). A equipe ministerial dá assistência ao pastor “na seleção de pregadores suplentes na ausência dele” (§6320), e os pastores ordenados se comprometem a “equipar todo o corpo de crentes” (§8000). Do candidato à ordenação, a Igreja espera “transformações comprovadas por sua pregação, seu ensino e liderança” (§8400); o discernimento do chamado e o caminho até a ordenação estão no capítulo 1.
Paulo mandou Timóteo transmitir o que ouvira a pessoas fiéis, capazes de ensinar outros (2Tm 2.2). O pastor que forma pregadores:
O Manual prevê a avaliação da eficácia do ministério (§8800). Entre uma avaliação e outra, o pastor pode examinar-se uma vez por mês, ouvindo a gravação de um sermão ou conversando com alguém de confiança:
Uma semana de preparo para quem prega no domingo. O bivocacional ajusta os dias, mas não pula as etapas.
Base deste capítulo: Manual da Igreja, §101 a §130, §3100 a §3170, §6320, §6900, §8000, §8400 e §8800; Manual do Pastor (EUA, 1998), Uma perspectiva metodista livre sobre a pregação; Disciplina de 1860, cap. III; John Wesley, Uma Clara Explicação da Perfeição Cristã e cartas a Samuel Furly (1764) e Alexander Mather (1777), nas traduções do site, e Atas (1789), Orientações sobre a pronúncia e o gesto (1749), Discurso ao Clero (1756) e carta de 20 de dezembro de 1751, em tradução nossa; B. T. Roberts, Pescadores de Homens, caps. 8 e 9; Free Methodist Church USA, The Free Methodist Way (tradução nossa); Orientações Pastorais, Tema V; estudos Pregação expositiva e Música de Fundo na Pregação.
Organização: Bispo Ildo Mello. Baseado no Manual do Pastor da Igreja Metodista Livre dos EUA (Junta de Bispos, 1998), no Manual da Igreja Metodista Livre do Brasil e em pesquisa nova. Texto preparado com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do organizador. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA).