Manual do Pastor Metodista Livre · Parte I · Capítulo 2
Antes de ser pastor, o pastor é discípulo, e nenhum ministério resiste muito tempo à falta de comunhão com Deus. Wesley chamou de meios de graça os caminhos ordinários em que Deus se encontra conosco: a oração, a Escritura, a Ceia, o jejum e a conversa cristã, com a vigilância e as obras de misericórdia. O pastor precisa deles para a própria alma antes de precisar deles para o púlpito. Precisa também de uma regra simples de vida, de irmãos a quem prestar contas e de perseverança quando a fonte parece seca.
Jesus “designou doze, aos quais chamou de apóstolos, para estarem com ele e para os enviar a pregar” (Mc 3.14). A ordem importa: primeiro estar com ele, depois ir. Como diz o estudo Santidade no Século XXI, “Fomos chamados primeiramente para estar com Jesus.”
O risco do pastor é a familiaridade profissional com as coisas santas. Ele ora em público, lê a Bíblia para preparar mensagens, fala de Deus o dia inteiro, e pode deixar de falar com Deus. As Orientações Pastorais contam entre as lutas de cada geração de pastores “a tentação do ativismo sem oração”. Roberts foi direto: “Se você quer, portanto, ter êxito em salvar almas, precisa você mesmo ser salvo” (Pescadores de Homens, cap. 5). E Paulo aconselhou Timóteo: “Cuide de você mesmo e da doutrina” (1Tm 4.16).
O pastor não tem uma espiritualidade de outra categoria. Como membro, assumiu a mesma Aliança de todos, com os hábitos da devoção, a mútua prestação de contas, a oração, as Escrituras, o culto e a Ceia (§157). A Disciplina de 1860 perguntava como um pregador se torna apto para o seu cargo e respondia: “Andando intimamente com Deus e tendo a sua obra muito a peito” (Disciplina de 1860: Capítulo III. Dos oficiais e ministros, Seção IX).
Wesley definiu: “Por ‘meios da graça’, entendo sinais exteriores, palavras ou ações instituídos por Deus e destinados a ser canais ordinários pelos quais ele comunica às pessoas graça preveniente, justificadora ou santificadora” (Sermão 16 · Os meios da graça, II.1). Os meios não têm poder em si nem compram o favor de Deus: o mérito é de Cristo, e a eficácia vem do Espírito. Mas quem os abandona se afasta do caminho em que Deus normalmente se encontra conosco. A regra é esta: “Utilize os meios como meios: eles foram instituídos não por causa de si mesmos, mas para a renovação da alma em justiça e verdadeira santidade” (Sermão 16, V.4).
O Manual pede o mesmo: “A oração e o estudo da Bíblia devem ser habituais, sem se transformarem em meros rituais” (§3210). E o crescimento espiritual, lembra o estudo Vida Devocional na Tradição Wesleyana, “não se dá a despeito da nossa vontade e dedicação”. O quadro traz as perguntas de Wesley aos pregadores sobre os meios instituídos (Disciplina de 1860, Seção IX).
| Meio | O que Wesley perguntava | Para o pastor hoje |
|---|---|---|
| Oração | “Planeja todos os dias, onde quer que esteja, como garantir tempo para a devoção particular?” | Horário fixo e oração em família. Na oração pública, falar com Deus, e não discursar ao povo. |
| Escritura | “Leitura: constante, uma parte de cada dia; regular, toda a Bíblia em ordem; cuidadosa, com notas; séria, com oração antes e depois; frutífera, praticando imediatamente o que ali aprende?” | Ler a Bíblia inteira em ordem, sem confundir a leitura para a alma com o preparo do sermão. |
| Ceia do Senhor | “você participa dela em toda oportunidade? Com oração solene antes?” | Comungar também quando preside. O pastor prometeu tomar a Ceia “toda vez que ela for oferecida” (§9710). |
| Jejum | “você pratica tanta abstinência e jejum a cada semana quanto a sua saúde, as suas forças e o seu trabalho permitem?” | Jejum moderado a cada semana, conforme a saúde. O pastor prometeu recomendar jejum e oração “tanto pelo ensino como pelo exemplo” (§9710). |
| Conversa cristã | “Não seria bom ter sempre um fim determinado em vista? E orar antes e depois?” | Conversas que edificam, com colegas e com a banda. |
Wesley falava também dos meios prudenciais, que a sabedoria cristã escolhe, como regras particulares de vida e a participação fiel na classe. E acrescentava: “Esses meios podem ser usados sem fruto. Mas há alguns meios que não podem: a saber, vigiar, negar a nós mesmos, tomar a nossa cruz, exercitar-nos na presença de Deus” (Disciplina de 1860, Seção IX).
As obras de misericórdia completam o quadro: “Certamente existem obras de misericórdia, assim como obras de piedade, que são verdadeiros meios da graça” (Sermão 98 · Sobre visitar os enfermos). Para o pastor, visitar é dever do ofício e corre o risco de virar rotina. Feita com os olhos em Deus, a visita ao doente, ao preso e ao pobre alimenta também quem visita.
Wesley se dizia homem de um só livro e, mesmo assim, mandava os pregadores lerem cinco horas por dia.
Ele conta que buscava a perfeição cristã desde 1725, e mais decididamente “desde 1730, quando comecei a ser homo unius libri, ‘um homem de um só livro’, sem dar valor, em comparação, a nenhum outro que não a Bíblia” (Uma Clara Explicação da Perfeição Cristã, seção 10). A Bíblia é a medida, e os outros livros servem a ela. Por isso Wesley exigia leitura constante dos pregadores e chamava de fanatismo a desculpa de ler só a Bíblia; as regras e as cartas em que insistia nisto estão no capítulo 5.
O pastor brasileiro, muitas vezes bivocacional, não tem as manhãs livres que Wesley pedia aos pregadores itinerantes. Mas o princípio vale: regularidade, bons livros e a Bíblia em primeiro lugar. Para quem não estudou as línguas originais, Wesley indicava o remédio: conhecer com exatidão as Escrituras na própria língua (Discurso ao Clero, 1756, tradução nossa). Algumas adaptações:
A Disciplina de 1860 perguntava ao pregador: “que regras particulares você tem para crescer na graça? Que práticas de vida santa?” (Seção IX). Uma regra de vida é a resposta escrita a esta pergunta: poucas práticas, em horários conhecidos, cumpridas também nas semanas difíceis, para o dia, a semana, o mês e o ano. Não é lei para ganhar o favor de Deus, mas meio prudencial, que se ajusta à vida real e se revê de tempos em tempos.
O descanso semanal também faz parte da regra: combine o dia com a Junta Administrativa Local e guarde-o. O que o Manual pede sobre o descanso, as férias e a saúde do pastor está no capítulo 5.
O pastor bivocacional precisa de uma regra que caiba na semana real. É melhor fazer pouco, sempre, do que planejar muito e desistir no segundo mês. Wesley disse, a propósito do ensino das crianças, uma frase que serve aqui: “Faça como puder, até poder fazer como gostaria” (Atas das conferências de Wesley, 1789, P. 33, tradução nossa).
Quem pastoreia o pastor? Com quem ele fala das próprias tentações, antes que cresçam no escuro?
O Manual afirma que “A participação em grupos pequenos é um meio de graça e de crescimento” (§3230), espera do candidato que cultive relações de confissão e prestação de contas (§8400.B) e pede ao superintendente que seja “um pastor para os pastores” (§5110.D). O Manual do Pastor de 1998 já dizia que os pastores precisam ter “um ‘pastor’ ou conselheiro com quem possam construir um relacionamento, para buscar conselho em tempos de estresse” (Manual do Pastor (1998): Educação continuada e preparação para o sucessor).
As Orientações Pastorais insistem: “O coração do pastor precisa de um pastor” (Depressão de pastores e líderes). E também: “Todo pastor e toda pastora precisam de alguém maduro, confiável, espiritual e discreto, com quem possam falar honestamente” (Oito cuidados que pastores e pastoras devem tomar no trato pastoral com pessoas do sexo oposto).
Wesley deu a estes grupos uma forma precisa. Os grupos menores, ou bandas, reuniam toda semana poucos crentes do mesmo sexo e estado de vida, para obedecer ao mandamento: “confessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros, para que vocês sejam curados” (Tg 5.16). Cada um falava com franqueza do estado da própria alma e respondia a quatro perguntas: “Que pecados conhecidos você cometeu desde a nossa última reunião?”, “Que tentações você enfrentou?”, “Como você foi livrado?” e, por fim, o que pensou, disse ou fez sem saber se era pecado (Regras e orientações dos grupos menores). Como nas classes wesleyanas, o grupo não é tribunal religioso: é lugar de graça, onde quem lidera também confessa (Classes e bandas wesleyanas).
Para começar uma banda de pastores:
O pastor prega a santidade e precisa buscá-la. Ao ser recebido como membro do Concílio, respondeu a esta pergunta: “Você experimenta pureza de coração e vida e poder para o serviço através da plenitude do Espírito, e continuará a crescer nesta experiência para assim liderar o povo aos seus cuidados?” (§9710).
O que é esta experiência? Wesley a descreveu assim: “Sob um aspecto, é pureza de intenção, dedicar toda a vida a Deus; é dar a Deus todo o coração”; e, sob ainda outro, “é amar a Deus de todo o coração, e ao próximo como a nós mesmos” (Uma Clara Explicação da Perfeição Cristã, seção 27). O Manual acrescenta que os purificados “não se tornam perfeitos em desempenho, mas em amor” (§3170). Este amor não livra da ignorância, do erro, das fraquezas do corpo nem da tentação; pode ser perdido; e depende de Cristo a cada instante.
O estudo Santidade no Século XXI lembra que a santidade é relacionamento e amor, e adverte contra o legalismo, que gera elitismo e hipocrisia. Usa a imagem do motorista experiente: na curva fechada, ele não fixa os olhos na margem de fora, que quer evitar, mas na de dentro, de que quer ficar perto. Assim é a vida santa, pois “quanto mais perto de Jesus, mais distante nos encontraremos do mal”. E lembra a todo pastor: “Deus não se impressiona com a nossa capacidade de fazer uma igreja crescer. Deus quer que você seja como Ele.”
O pastor busca este amor pela fé, nos meios de graça, e não pelo esforço de parecer santo. Testemunha com humildade o que Deus fez, sem exagerar nem esconder. E sabe onde a santidade se prova: na paciência em casa, na verdade quando ninguém vê, no perdão a quem o feriu.
Há tempos em que a oração parece não passar do teto, a Bíblia fica muda e o culto que o pastor dirige já não o alimenta.
Wesley chamou de estado de deserto a escuridão do crente que perde a alegria e a certeza da fé (Sermão 46 · O estado de deserto). Não a atribuía a um capricho de Deus, mas a causas que se podem examinar: pecados praticados ou deveres negligenciados, pecados interiores, preguiça espiritual, ignorância e tentações. A nota que abre o sermão resume: “O tratamento deve corresponder à causa.”
Nem toda secura é espiritual: o cansaço, o luto e a depressão podem parecer abandono de Deus. Se o desânimo se prolonga, com o sono, o apetite e a esperança abalados, procure ajuda médica (capítulos 5 e 29).
Há também crises que vêm da queda. Pedro negou o Senhor, chorou, foi restaurado e só então recebeu o encargo de pastorear as ovelhas (Jo 21.15-17). Daí a lição de Resgatando a Cruz na Espiritualidade Cristã: “do outro lado da peneira pode surgir o verdadeiro pastor”. No deserto, o pastor não abandona os meios de graça, simplifica a oração, examina se há pecado a confessar e fala com a banda ou com o mentor. Descansa. E espera em Deus (Sl 42.5), cujas misericórdias se renovam cada manhã (Lm 3.22-23).
Samuel disse ao povo: “longe de mim que eu peque contra o Senhor, deixando de orar por vocês” (1Sm 12.23). Deixar de interceder era, para ele, pecado. Quando a obra cresceu, os apóstolos guardaram a prioridade: “Quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra” (At 6.4). E o Manual diz que os ordenados são separados, entre outras coisas, para “a oração intercessória” (§8000).
O bom pastor chama as ovelhas pelo nome (Jo 10.3), e o pastor deve conhecer as suas ovelhas pelo nome (As 10 Atribuições Pastorais no Cuidado do Rebanho de Deus). Roberts conta de um ministro que, à beira da morte, tirou de sob o travesseiro uma lista: vinte e cinco homens da sua paróquia, ainda não convertidos. “Tenho orado muito por eles, nome por nome”, disse. Algum tempo depois, o sucessor contou que todos tinham se convertido (Pescadores de Homens, cap. 13).
Um método simples: tome o rol de membros e acrescente os visitantes, as crianças, os doentes, os afastados e os que pediram oração. Divida a lista pelos dias da semana ou do mês, para que ninguém fique esquecido. Anote pedidos e respostas, ore antes de cada visita e guarde o caderno com discrição, pois ele contém confidências.
Uma regra de vida simples para começar. Escreva a sua em meia página, mostre-a à banda ou ao mentor e reveja-a depois de três meses: o que se cumpriu, o que pesou demais, o que faltou.
Base deste capítulo: Manual da Igreja, §157, §3170, §3210, §3230, §5040, §5110, §5220, §8000, §8400 e §9710; Manual do Pastor (EUA, 1998), Educação continuada e preparação para o sucessor; Disciplina de 1860, cap. III; Wesley, Sermões 16, 46 e 98, Uma Clara Explicação da Perfeição Cristã, carta a Trembath (1760), regras e orientações dos grupos menores (1738 e 1744), Atas (1789) e Discurso ao Clero (1756), estes em tradução nossa; B. T. Roberts, Pescadores de Homens; Orientações Pastorais, Temas I, II e III; estudos Santidade no Século XXI, Vida Devocional na Tradição Wesleyana e As 10 Atribuições Pastorais.
Organização: Bispo Ildo Mello. Baseado no Manual do Pastor da Igreja Metodista Livre dos EUA (Junta de Bispos, 1998), no Manual da Igreja Metodista Livre do Brasil e em pesquisa nova. Texto preparado com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do organizador. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA).