Manual do Pastor Metodista Livre · Parte II · Capítulo 10

Música e adoração

O metodismo nasceu cantando, e o canto de toda a congregação faz parte do culto tanto quanto a oração e a pregação. O pastor responde pelo que se canta: escolhe com a equipe de louvor cânticos de boa doutrina, bíblicos e fáceis de cantar, e cuida para que os músicos sirvam a voz do povo. Respeita também o direito de quem compõe e tem nos hinos em domínio público um caminho seguro.

O canto na tradição metodista

Charles Wesley escreveu perto de seis mil hinos, e neles cabe a doutrina do metodismo, numa “teologia que primeiro se cantou” (A Teologia de Charles Wesley). Os metodistas aprendiam cantando a Trindade, a cruz, a graça oferecida a todos, a santificação e a esperança final. É o que Paulo pede: “Que a palavra de Cristo habite ricamente em vocês. Instruam e aconselhem-se mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus com salmos, hinos e cânticos espirituais, com gratidão no coração” (Cl 3.16).

A Igreja Metodista Livre nasceu defendendo o canto de todos. B. T. Roberts foi julgado na Conferência de Genesee por um artigo, “O metodismo da nova escola”, em que descreveu os metodistas fiéis à velha escola como os que “favorecem igrejas livres, canto congregacional e espiritualidade, simplicidade e fervor no culto”. Os outros, dizia, providenciavam “órgãos, melodeons, violinos e cantores profissionais para executar peças difíceis de música para uma audiência elegante” (Por Que Outra Denominação?: B. T. Roberts (1879), cap. 5).

O Manual do Pastor de 1998 resume: “O canto dos hinos pela congregação é um meio de graça e um ato de culto divino. O cântico nunca é um aquecimento, um tapa-buraco ou um truque para mudar de posição” (Manual do Pastor (1998): O uso do altar, a música e os introdutores). O Manual da Igreja determina: “O cântico congregacional é uma parte da adoração divina na qual todos os presentes devem se unir” (§6900). E pede equilíbrio entre “músicas de adoração que reconheçam nossa herança Metodista nas suas letras” e “cânticos evangélicos que consideram o estilo musical e composições atuais” (§6900).

Para conhecer e ensinar esta herança, o site da Igreja reúne a obra poética publicada de Charles Wesley: 4.678 hinos e poemas, em 74 obras, com o original inglês ao lado de uma tradução de sentido (Hinos de Charles Wesley). Ali estão os 166 Hinos sobre a Ceia do Senhor (1745), de John e Charles Wesley, para a mesa que Jesus deixou cantando um hino com os discípulos (Mt 26.30). As Partituras: Hinos de Charles Wesley trazem seis hinos clássicos, com a melodia tradicional em domínio público, cifras, áudio e a letra cantável em inglês ao lado da tradução. A seleção Grandes Hinos de Charles Wesley, publicada em livro digital, reúne 54 hinos do cânone, bilíngues, com indicação de melodia. As traduções do site não têm métrica nem rima: servem para o estudo, a leitura e a oração, e não para cantar nas melodias. Para cantar esses hinos em português, use versões métricas publicadas em hinários e confira os créditos de cada uma (quadro adiante).

As Orientações para o canto (1761)

Em 1761, Wesley publicou uma coletânea de hinos com as melodias impressas, Select Hymns: with Tunes Annext, e incluiu nela estas orientações, que servem à congregação e a quem a conduz (tradução nossa).

Para que esta parte do culto divino seja mais aceitável a Deus e mais proveitosa a você e aos outros, observe com cuidado as orientações seguintes.

  1. Aprenda estas melodias antes de quaisquer outras; depois, aprenda quantas quiser.
  2. Cante-as exatamente como estão impressas aqui, sem alterá-las nem “melhorá-las”; e, se aprendeu a cantá-las de outro modo, desaprenda isso o quanto antes.
  3. Cantem todos. Una-se à congregação sempre que puder. Não deixe que um pouco de fraqueza ou de cansaço o impeça. Se isto for uma cruz para você, tome-a, e encontrará uma bênção.
  4. Cante com vigor e bom ânimo. Não cante como se estivesse meio morto ou meio adormecido; levante a voz com força. Não tenha agora mais medo da sua voz, nem mais vergonha de que seja ouvida, do que quando cantava as canções de Satanás.
  5. Cante com modéstia. Não grite a ponto de ser ouvido acima do resto da congregação, para não destruir a harmonia; esforcem-se por unir as vozes num só som claro e melodioso.
  6. Cante no compasso: acompanhe o andamento, sem correr à frente nem ficar para trás; siga de perto as vozes que conduzem; e não cante devagar demais. Esse modo arrastado se insinua em todos os preguiçosos, e já é tempo de bani-lo e cantar as nossas melodias com a vivacidade do princípio.
  7. Acima de tudo, cante espiritualmente. Tenha os olhos em Deus em cada palavra. Procure agradar a ele mais do que a si mesmo ou a qualquer criatura. Para isso, preste atenção ao sentido do que canta e cuide que o seu coração não seja arrebatado pelo som, mas oferecido a Deus continuamente; assim o seu cântico será tal que o Senhor o aprovará aqui e o recompensará quando vier nas nuvens do céu.

As Atas de 1789 trazem outros dois meios contra o formalismo no canto: “Cuidando de dizer só o que sentimos” e “Parando muitas vezes e perguntando ao povo: ‘Agora! Vocês sabem o que acabaram de dizer? Disseram só o que sentiam?’” (P. 39, tradução nossa). A Disciplina de 1860 pedia hinos próprios para a ocasião, “Raramente mais de quatro ou cinco estrofes”, melodia adequada ao sentimento, nada de cantar devagar demais e que se exortasse cada pessoa da congregação a cantar (Disciplina de 1860: Capítulos IV a VI. Meios de graça, vestuário, casamento e julgamentos, Cap. IV, Seção II).

As duas primeiras se referem às melodias impressas no livro de 1761. Para hoje, as orientações dizem o essencial: a congregação canta, e não assiste; nenhuma voz encobre as outras; o andamento é vivo; e cada um presta atenção ao sentido do que canta, com o coração voltado para Deus.

O que cantar

O pastor não precisa ser músico, mas precisa conferir o que a igreja canta, pois o povo aprende doutrina cantando. As Orientações Pastorais pedem que as canções “possuam boa teologia” e que se evitem as que o povo já está cansado de cantar e as que ele “parece não ter muito apetite para cantar” (Uma exortação para que haja ordem e decência nos cultos). Cinco critérios ajudam:

Critério Pergunta Base
Doutrina A letra ensina com verdade sobre Deus, a graça oferecida a todos e a santidade, sem prometer prosperidade nem tratar o Espírito como força que se manipula? §6900; Cuidado com a linguagem que usamos no ministério
Escritura A letra diz o que a Bíblia diz, de preferência com as palavras dela? Cl 3.16; Ef 5.19
Participação O povo consegue cantar: tom, extensão, ritmo, quantidade de músicas novas? Orientações para o canto, 3 e 5
Letra compreensível Quem chega pela primeira vez entende o que canta? §122; 1Co 14.15
Variedade Há hinos da herança metodista e cânticos de hoje, de louvor, confissão, súplica, consagração e envio? §6900

Paulo dá o critério da compreensão: “vou cantar com o espírito, mas também vou cantar com a mente” (1Co 14.15). O Manual aplica o mesmo princípio a todo o culto, que deve ser feito “numa linguagem compreensível ao povo” (§122). Peça ao pregador o tema do sermão com antecedência (capítulo 8) e escolha cânticos que preparem a mensagem e respondam a ela.

A equipe de louvor

O Manual define o propósito: “O propósito da música no culto de adoração é inspirar e apoiar a adoração”, e a música vocal e instrumental deve contribuir para a reverência, “e não para a exibição de talento, mesmo que esse seja excelente” (§6900). Quem dirige o louvor e quem toca precisam ter caráter e vida que demonstrem princípios bíblicos: membresia plena, compromisso de sustentar a Igreja como dizimista e ofertante, frequência aos cultos, modéstia no vestir e, antes de servir, três meses de acompanhamento e discipulado (§6900). Há também diáconos para ministérios de “adoração e música” (§6600), indicados pelo pastor e aprovados pela Junta Administrativa Local (capítulo 20). Seja quem for o dirigente, o pastor continua responsável por tudo o que acontece no culto.

As Orientações Pastorais dão a medida do serviço: “Os músicos e cantores devem saber que a igreja é que tem a prioridade. Eles não estão ali para se apresentarem para a igreja, mas para levarem toda a congregação a adorar em Espírito e em Verdade” (Uma exortação para que haja ordem e decência nos cultos).

Orientações para a equipe, adaptadas do Manual do Pastor de 1998 e das Orientações Pastorais:

Música e crianças

Cada geração conta à seguinte “os louvores do Senhor, e o seu poder, e as maravilhas que fez” (Sl 78.4), e as crianças aprendem a fé também cantando. Quando as crianças aclamaram Jesus no templo, ele defendeu o louvor delas diante dos que se indignaram (Mt 21.15-16). Charles Wesley escreveu cem hinos para crianças, publicados em 1763, que começam pela Trindade: “Salve, Pai, Filho e Espírito Santo, um só Deus em três Pessoas” (Hinos para Crianças · Parte 1, Hino I).

Instrumentos

Os Salmos chamam ao louvor com trombeta, harpas, liras, tamborins, cordas, flautas e címbalos (Sl 150.3-5). A primeira Disciplina da Igreja Metodista Livre, porém, determinava: “Em nenhum caso haja música instrumental ou canto de coral no nosso culto público” (Cap. IV, Seção II). A nota do tradutor explica que a proibição visava preservar o cântico de toda a congregação, em sintonia com a crítica de Roberts aos cantores profissionais. A regra mudou com o tempo. O Livro de Disciplina citado no Manual do Pastor de 1998 já fala de quem toca “onde houver música instrumental”, e o Manual da Igreja de hoje trata da “música vocal e instrumental usada no culto” (§6900). O princípio continua: o instrumento serve o canto do povo e não o substitui.

Na igreja sem músicos, cantar sem acompanhamento é legítimo, e foi o costume dos primeiros metodistas livres. Faixas gravadas comerciais (playback) pedem cuidado com os direitos autorais, sobretudo na transmissão.

Direitos autorais: o essencial

A música protegida não pode ser executada em público sem autorização: sem ela, composições e gravações “não poderão ser utilizadas” em “representações e execuções públicas”, e a cobrança é feita por um escritório central, o ECAD (Lei 9.610/1998, arts. 68 e 99). Os direitos duram setenta anos depois da morte do autor (art. 41), e traduções e arranjos novos também são obras protegidas (art. 7º, XI). O quadro resume a situação em novembro de 2026.

Situação O que dizem a lei e os tribunais O que fazer
Culto comum, de entrada gratuita Não há decisão do STJ específica sobre o culto comum. Em 2011, a 3ª Turma afastou a cobrança numa celebração religiosa gratuita (REsp 964.404/ES); em 2016, a 4ª Turma admitiu a cobrança numa quermesse cuja renda ia para a igreja (linha abaixo). O regulamento de arrecadação do ECAD não menciona cultos. Guarde a lista do repertório e prefira hinos em domínio público.
Show, festival, quermesse, jantar ou evento com ingresso O STJ admitiu a cobrança numa quermesse cuja renda ia para a igreja (AREsp 685.885, 2016). O regulamento do ECAD dá desconto de 15% a evento religioso produzido por entidade religiosa (art. 27) e reduz o valor na proporção das obras em domínio público (art. 23). Licencie no ECAD, peça o desconto e envie o repertório.
Festa de casamento em clube ou salão O STJ considerou devida a cobrança numa festa de casamento em clube (REsp 1.306.907/SP, 2013); para o ECAD, festa de casamento é evento social. Avise os noivos e o responsável pelo salão.
Transmissão pela internet O STJ decidiu que a transmissão pela internet é execução pública (REsp 1.559.264/RJ, 2017), o que alcança, em tese, a transmissão do culto. O YouTube pode trocar a transmissão por imagem fixa, interrompê-la ou encerrá-la. Evite playback comercial e prefira música ao vivo, com repertório livre ou autorizado (capítulo 7).
Projeção de letras, cancioneiros e cópias de partituras Reproduzir obra protegida depende de autorização prévia e expressa (art. 29). O ECAD cuida só da execução pública; para projetar ou copiar letras protegidas, a autorização vem da editora ou do autor. Peça autorização à editora ou ao autor e dê o crédito de autor e tradutor.
Hinos antigos Charles Wesley morreu em 1788, e os seus originais são livres. As versões em português e os arranjos podem ter dono. Confira os créditos de cada versão; na dúvida, consulte a editora.

As traduções de Charles Wesley publicadas no site servem para leitura e estudo; quem quiser fazer a partir delas versões para cantar deve combinar antes com a Igreja. Os versículos da NAA podem ser lidos e projetados no culto, pois a licença da Sociedade Bíblica do Brasil permite o uso em “leituras, cultos, estudos bíblicos, e atividades educacionais sem fins lucrativos”; na projeção e nos impressos, dê o crédito “Nova Almeida Atualizada © 2017 Sociedade Bíblica do Brasil”.

Respeitar quem compõe é também aplicar a regra de ouro (Mt 7.12). Tudo isto vale para o Brasil; no Concílio Angolano, vale a lei de Angola. Os detalhes legais estão no capítulo 44.

Na prática

Para aprofundar

Base deste capítulo: Manual da Igreja, §122, §6600 e §6900; Manual do Pastor (EUA, 1998), O uso do altar, a música e os introdutores; Disciplina de 1860, cap. IV; John Wesley, Orientações para o canto (Select Hymns: with Tunes Annext, 1761) e Atas (1789), em tradução nossa; Charles Wesley, Hinos para Crianças (1763), na tradução do site; B. T. Roberts, Por Que Outra Denominação?, cap. 5; Orientações Pastorais, Tema V; estudo Cuidado com a linguagem que usamos no ministério; Lei 9.610/1998, arts. 7º, 29, 41, 68 e 99; STJ, REsp 964.404/ES (2011), REsp 1.306.907/SP (2013), AREsp 685.885 (2016) e REsp 1.559.264/RJ (2017), conforme notícias de Conjur (1/4/2011 e 12/11/2017), Migalhas (8/6/2013) e do próprio STJ (14/3/2016); ECAD, Regulamento de Arrecadação (abril de 2026), arts. 23 e 27; Sociedade Bíblica do Brasil, Acordo de Licença de Usuário Final; legislação conferida em novembro de 2026.

Organização: Bispo Ildo Mello. Baseado no Manual do Pastor da Igreja Metodista Livre dos EUA (Junta de Bispos, 1998), no Manual da Igreja Metodista Livre do Brasil e em pesquisa nova. Texto preparado com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do organizador. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA).