Manual do Pastor Metodista Livre · Parte II · Capítulo 6

O culto metodista livre

No culto, a igreja se reúne para se encontrar com Deus e responder a ele: Deus está no centro, e o povo participa. A Igreja Metodista Livre recebeu de Wesley um culto de Escritura, oração e Ceia, e nasceu defendendo os bancos livres e a liberdade do Espírito no culto. O Manual pede equilíbrio entre liberdade e forma, a língua do povo e alguns elementos em todo culto de domingo, e põe sobre o pastor a responsabilidade por tudo o que nele acontece.

Deus no centro, o povo participa

O Manual define o culto como encontro: “Na adoração, a Igreja se reúne para se encontrar com o Deus Santo e responder em obediência e amor” (§6020). A iniciativa é de Deus, que chama, fala pela Palavra e se dá nos sacramentos; o povo responde com louvor, confissão, fé e entrega. Jesus disse: “Deus é Espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.24).

Ninguém assiste ao culto como plateia: “A adoração exige uma atitude correta com Deus e envolve a participação ativa do crente” (§3230). As Orientações Pastorais dizem que a liturgia “só deixa de ser um show ou um mecanismo frio quando o povo de Deus deixa de ser espectador para se tornar participante ativo da Aliança Renovada” (A Centralidade da Palavra e do Sacramento da Ceia do Senhor). E o Bispo dá a pergunta que avalia cada culto: “A pergunta do adorador não é ‘o culto me agradou?’, mas ‘Deus foi honrado?’” (Ministério de Adoração).

A herança: Palavra, oração e Ceia

O Manual descreve a Igreja como a comunidade dos remidos, “pregando a Palavra de Deus e ministrando os sacramentos conforme a instrução de Cristo” (§121). Assim Wesley quis o culto metodista. Em 1784, quando os metodistas da América ficaram sem ministros que lhes dessem os sacramentos, preparou para eles uma revisão abreviada do Livro de Oração Comum, que o site traz na edição de 1788: O Culto Dominical dos Metodistas (1788). Aconselhou os pregadores a usar aquela liturgia “no Dia do Senhor, em todas as congregações”, lendo a ladainha só às quartas e sextas e orando “de improviso em todos os outros dias” (carta aos irmãos na América, 1784, tradução nossa). Na mesma carta, aconselhou a Ceia em todo Dia do Senhor (capítulo 9). No prefácio, avisou que o culto do Dia do Senhor, “de cuja extensão muitos já se queixaram, foi consideravelmente abreviado” (Prefácio e orações do Dia do Senhor).

Palavra e mesa andam juntas. As Orientações Pastorais (A Centralidade da Palavra e do Sacramento da Ceia do Senhor) falam de duas mesas: “Sem a Palavra, o Sacramento corre o risco de se tornar uma ‘mágica’ incompreensível; sem o Sacramento, a Palavra pode se tornar meramente uma ‘aula’ intelectual.” O Manual não fixa a frequência da Ceia, mas a Aliança compromete cada membro a participar “do culto público e da Santa Ceia” (§157). Quando e como celebrá-la está nos capítulos 9 e 16.

As liberdades do nome

A Disciplina de 1860 resume a origem da Igreja: “A questão pela qual foram expulsos era a disputa entre o formalismo morto e a vida e o poder da piedade.” Um sinal do desvio: em 1852, a regra que mandava construir as casas de culto “simples e com bancos gratuitos” foi anulada na prática pelo acréscimo de “sempre que possível” (Disciplina de 1860: Abertura. Origem da Igreja Metodista Livre).

Algumas igrejas daquele tempo pagavam os templos alugando ou vendendo os bancos; as primeiras fileiras ficavam com quem pagava mais, e os pobres iam para o fundo ou ficavam em pé. Um jornal de Buffalo, citado por Roberts, descreveu o efeito: “Numa igreja onde uns poucos têm os seus bancos, ocupados por direito, os muitos não se sentirão à vontade para entrar, nem consentirão em anunciar a sua pobreza, domingo após domingo, ocupando assentos reservados aos pobres” (Por Que Outra Denominação?, cap. 6). O nome “Livre” significava, entre outras coisas, “liberdade das discriminações a favor dos ricos e aristocratas na casa de Deus, geradas pelo aluguel ou venda dos bancos” (História de Hogue: Volume I · Capítulo XXXII. A Igreja Metodista Livre organizada). Na palestra aos pastores, o Bispo resume: “Bancos livres: nenhum banco era alugado, para que o pobre não fosse humilhado à porta do templo” (Identidade Metodista Livre: palestra aos pastores e líderes).

Hoje, bancos livres quer dizer que ninguém compra lugar nem prestígio na casa de Deus. “Meus irmãos, vocês não podem ter fé em nosso Senhor Jesus Cristo, o Senhor da glória, e ao mesmo tempo tratar as pessoas com parcialidade” (Tg 2.1). O Manual lembra que “a obra que coroa o ministério autêntico é este: o Evangelho levado aos pobres” (§6060). Nada de lugares reservados a doadores, autoridades ou convidados ilustres, nem de salas VIP (Salas VIP nas Igrejas); reserva-se lugar só por necessidade, para idosos, gestantes, pais com bebês e pessoas com deficiência.

O culto livre é também culto para todos. A criança que ainda não entende tudo, o visitante que não conhece a ordem e a pessoa com deficiência ou autismo pertencem à assembleia. O que fazer por eles está nos capítulos 38 (crianças e adolescentes), 31 (deficiência e autismo) e 7 (recepção de visitantes).

Liberdade no Espírito e ordem

A Igreja Metodista Livre “é formada nas duas visões Protestantes: litúrgica e não litúrgica”; por isso, “O correto é buscar equilíbrio entre a ordem e a espontaneidade” (§9000). O culto público “mantém um equilíbrio entre a liberdade e a formalidade” (§6900).

A liberdade está no nome. Hogue escreve que “Livre” significava também “a liberdade do Espírito na experiência pessoal, acompanhada da liberdade de todos, no culto público a Deus, para dar a expressão exterior a uma profunda emoção religiosa que o Espírito Santo inspirar ou suscitar”. Roberts não temia a emoção: “Os homens devem sentir. Deus nos dá sensibilidade para que sintamos” (Pescadores de Homens: B. T. Roberts (1878), cap. 12). Mas ensinava a provar as manifestações pelos frutos, porque o que é valioso costuma ser imitado. O amém, as lágrimas, o silêncio, a oração espontânea e a ida ao altar cabem no culto metodista livre.

A ordem também vem do Espírito. O Bispo exorta: “a ação do Espírito produz ordem e decência, e não bagunça e confusão” (Uma exortação para que haja ordem e decência nos cultos). Paulo fecha as instruções sobre o culto de Corinto com a regra: “Tudo, porém, seja feito com decência e ordem” (1Co 14.40), pois Deus “não é Deus de confusão, e sim de paz” (1Co 14.33). A palestra do Bispo põe os dois lados numa frase: “Nem rigidez que apaga o Espírito, nem espontaneísmo sem discernimento.”

Quem discerne é a liderança, à luz da Escritura. Os bispos e os superintendentes orientam que “Toda profecia deve ser submetida à Palavra de Deus” e também “à liderança espiritual da igreja” (Orientações para o Uso do Dom de Profecia). Os dons, diz o Manual, “são exercidos debaixo do senhorio de Cristo, com Seu amor e compaixão, e não podem ser causa de divisão na Igreja” (§3240). Se alguém interrompe, fala demais ou contradiz a Escritura, o pastor retoma a ordem com mansidão e conversa depois, em particular.

O Dia do Senhor

Os discípulos se reuniam no primeiro dia da semana, o dia da ressurreição (At 20.7; 1Co 16.2), o dia do Senhor (Ap 1.10). O Manual pede: “Observando o princípio sabático no dia do Senhor, participamos da adoração coletiva na comunidade cristã como atividade indispensável do domingo” (§3320). Pede também que nos abstenhamos “de trabalhos desnecessários e comércio neste dia”, lembrando que a salvação vem pela graça, “enquanto descansamos em Deus”. Na Aliança, cada membro se compromete “a observar o Dia do Senhor separando-o para adoração, renovação e serviço” (§157). E Hebreus dá a razão pastoral: “Não deixemos de nos congregar, como é costume de alguns. Pelo contrário, façamos admoestações, ainda mais agora que vocês veem que o Dia se aproxima” (Hb 10.25).

Tudo isto sem legalismo: “não devemos fazer do domingo um sábado judaico” (O Cristão e o Sábado). O pastor ensina o valor do domingo sem julgar quem trabalha nele por necessidade, em hospitais, na segurança ou nos transportes; o §3320 encoraja essas pessoas, e também o pastor, a guardar o princípio sabático em outro dia (capítulo 5). Para elas, o culto de meio de semana e o pequeno grupo são portas abertas. E o pastor protege o domingo da igreja, sem enchê-lo de reuniões que tiram das famílias o descanso.

Os elementos do culto

O culto principal de domingo, diz o Manual, deve buscar quatro alvos:

  1. oferecer oportunidades para o louvor a Deus;
  2. dar aos participantes o discernimento quanto à vontade de Deus;
  3. levar as pessoas a se entregarem pessoalmente à vontade de Deus revelada;
  4. fortalecer o fiel para que realize a vontade de Deus.

Para isso, “cada culto deverá incluir hinos pela congregação, leitura das Escrituras, oração pastoral, a Oração Dominical e pregação. Recomenda-se a Bênção Apostólica para despedir a congregação.” Os outros cultos têm cânticos, oração, leitura das Escrituras e pregação; em certas ocasiões, pode-se usar “o compartilhamento, a ministração da cura e outras formas de adoração”. E a ordem “deve evitar a rotina” (§6900). Esses elementos vêm de longe:

Elemento O que o Manual pede Na herança
Hinos Em todo culto, cantados pela congregação A Disciplina de 1860 queria toda a congregação cantando
Leitura das Escrituras Em todo culto Duas leituras, do Antigo e do Novo Testamento (1788 e 1860)
Oração pastoral No culto principal A oração “por todas as condições de pessoas” do Culto Dominical
Oração Dominical (Pai-Nosso) No culto principal Dita “ao concluir a primeira oração” (1860)
Pregação Em todo culto, como “um meio de edificar os crentes e converter os pecadores” Em todos os cultos de domingo (1860)
Bênção apostólica Recomendada para despedir a congregação Mandada “ao despedir a congregação” (1860)
Ceia do Senhor Frequência não fixada; rito no §9110 Wesley a aconselhava em todo Dia do Senhor (1784)

O pastor responde pelo todo: “O pastor é o líder, o dirigente e principal responsável por tudo o que acontece no culto.” Pode delegar tarefas, “mas sempre recairá sobre ele a responsabilidade final”, e deve insistir, “por ensino e exemplo”, na reverência “antes, durante e depois do culto” (§6900). Os rituais do Manual dão uniformidade aos cultos especiais, mas o culto em volta deles fica a critério do pastor (os textos dos ritos estão nos capítulos 12 a 21). Como montar a ordem, com tempos e papéis, está no capítulo 7.

O altar

O Manual do Pastor de 1998 explica: “O altar, tal como o conhecemos na Igreja Metodista Livre, simboliza, em parte, o ‘banco dos penitentes’ dos avivamentos em acampamentos dos tempos da fronteira americana. Ele atende à necessidade prática de um lugar para oração, confissão e comunhão com Deus diante da congregação.” Cabe ao pastor fazer dele um lugar acolhedor, aonde o povo venha livremente buscar graça para ajuda em momento oportuno (Hb 4.16).

O altar serve à oração de pequenos grupos, à oração dos membros durante a oração pastoral, à recepção de membros, à Ceia, ao compromisso depois do sermão e aos cultos de oração pela cura (Manual do Pastor (1998): O uso do altar, a música e os introdutores). Os ritos do Manual também o supõem: nele os pais apresentam os filhos para o batismo, e nele os noivos se ajoelham (§9050, §9210). A graça vem de Cristo; o altar é um lugar de encontro, sem poder próprio. Como fazer o convite ao altar sem manipulação e cuidar de quem vem à frente está no capítulo 7.

A linguagem do culto

“O culto público, a oração e a ministração dos sacramentos devem ser numa linguagem compreensível ao povo” (§122). O Manual acrescenta que “na adoração pública, falar ou ensinar a falar com sons não inteligíveis não é coerente com tal ordem” e que “A linguagem do culto deve ser a linguagem do povo” (§3240). Paulo pergunta: “se com a língua não disserem palavra compreensível, como se entenderá o que é dito?” (1Co 14.9). Isto vale também para o português do púlpito: termos que só os de dentro entendem deixam o visitante de fora.

O Bispo pediu cuidado com a linguagem sobre cura, unção e bênção, pois expressões como “liberar unção” podem sugerir “que a unção está sob controle humano”. E lembrou: “O ministro não controla o Espírito; submete-se a Ele. O pastor não libera a graça; anuncia a graça” (Cuidado com a linguagem que usamos no ministério). Ele propõe:

Em vez de dizer Diga
“vamos liberar unção de cura” “vamos orar pelos enfermos, pedindo que o Senhor manifeste sua graça, cura, consolo e fortalecimento”
“vamos liberar multiplicação” “vamos clamar para que Deus frutifique nossa missão, multiplique discípulos, desperte generosidade e supra as necessidades do seu povo”

A razão é pastoral: “Linguagem forma mentalidade. Mentalidade forma espiritualidade. Espiritualidade forma a igreja.”

O culto não é espetáculo

O risco do espetáculo é antigo: Roberts já opunha o canto de toda a congregação aos “cantores profissionais” das igrejas elegantes do seu tempo (capítulo 10). O Bispo descreve o mesmo perigo hoje: “O perigo do ‘show’ surge quando o púlpito se torna um palco e o pregador um performer” (A Centralidade da Palavra e do Sacramento da Ceia do Senhor). E conclui noutro estudo: “A adoração genuína não é um espetáculo, mas uma rendição incondicional ao Senhor” (Adoração ou Entretenimento? O Risco de Confundir Emoção com Devoção).

Há espetáculo quando a congregação vira plateia, quando o volume abafa a voz do povo e quando o pregador ou o cantor ocupa o centro (Jo 3.30). A qualidade, porém, faz parte da adoração: o Bispo pede “bom planejamento e ensaio para apresentar o melhor para o Senhor” (Uma exortação para que haja ordem e decência nos cultos).

Na prática

Para aprofundar

Base deste capítulo: Manual da Igreja, §121, §122, §157, §3230, §3240, §3320, §6020, §6060, §6900, §9000, §9050, §9110 e §9210; Manual do Pastor (EUA, 1998), O uso do altar, a música e os introdutores; Wesley, carta aos irmãos na América (Bristol, 10 de setembro de 1784, Letters, ed. Telford, vol. VII, p. 238-239, tradução nossa), e O Culto Dominical dos Metodistas (1788); Disciplina de 1860, Abertura e cap. IV; W. T. Hogue, História da Igreja Metodista Livre, vol. I, cap. XXXII; B. T. Roberts, Por que outra denominação?, caps. 5 e 6, e Pescadores de Homens, cap. 12; Orientações Pastorais, Tema V; estudos e páginas do Bispo citados no texto.

Organização: Bispo Ildo Mello. Baseado no Manual do Pastor da Igreja Metodista Livre dos EUA (Junta de Bispos, 1998), no Manual da Igreja Metodista Livre do Brasil e em pesquisa nova. Texto preparado com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do organizador. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA).