Manual do Pastor Metodista Livre · Parte IV · Capítulo 23

Princípios do aconselhamento pastoral

Aconselhar é aplicar a Palavra e a graça às lutas concretas de uma pessoa, ouvindo antes de falar e orando com ela. O pastor não é psicólogo nem médico: acolhe, discerne, orienta, encaminha quando a dor passa da sua competência e continua presente. Atende em lugar visível, avisa logo no início os limites do sigilo e registra pouco.

O que é e o que não é

Para o Bispo, “O pastor cuida de almas, e isso inclui ouvir, orientar e aplicar a verdade de Deus às lutas concretas da vida” (O Ministério de Aconselhamento Pastoral: Fundamentos Bíblicos e Uso Sábio de Ferramentas como Collins e Jay Adams). A pregação alcança a congregação; a conversa pastoral atenta alcança “o coração de uma pessoa de modo mais direto e específico”. Por isso o aconselhamento não é tarefa opcional. O Bispo adverte também contra o erro oposto, o dos pastores que, “por medo de errar, acabam encaminhando tudo para outros profissionais e deixam de exercer uma parte essencial do seu chamado”.

Aconselhamento pastoral, porém, não é psicoterapia: é “função privativa do Psicólogo” o uso de métodos e técnicas psicológicas para o “diagnóstico psicológico” e a “solução de problemas de ajustamento” (Lei 4.119/1962, art. 13, § 1º). Ao médico cabe a “indicação de internação e alta médica nos serviços de atenção à saúde” (Lei 12.842/2013, art. 4º, XI). Exercer uma profissão, ou anunciar que a exerce, sem preencher as condições da lei é contravenção (Decreto-Lei 3.688/1941, art. 47). As leis deste capítulo valem no Brasil; no Concílio Angolano, seguem-se as de Angola. Na prática, o pastor:

Fundamentos bíblicos e wesleyanos

“O aconselhamento pastoral não é uma invenção moderna. Ele faz parte do próprio pastoreio cristão”, escreve o Bispo. A Escritura fala de irmãos aptos para admoestar uns aos outros, da restauração com brandura de quem caiu e da Palavra útil para ensinar e corrigir (Rm 15.14; Gl 6.1-2; 2Tm 3.16-17), e Paulo descreve os modos do cuidado: “Também exortamos vocês, irmãos, a que admoestem os que vivem de forma desordenada, consolem os desanimados, amparem os fracos e sejam pacientes com todos” (1Ts 5.14). Cada situação pede um gesto: quem vive em desordem precisa de admoestação; quem está desanimado, de consolo; quem é fraco, de amparo; e todos, de paciência. Daí o princípio do Bispo: “distinguir entre sofrimento, pecado e limites humanos”, para “não consolar quando deveria confrontar, nem confrontar quando deveria primeiro acolher e tratar com mansidão”.

Wesley pedia o mesmo discernimento. Criticava os guias espirituais que aplicam a todos o mesmo remédio: “Supor que o tratamento seja idêntico em todos os casos é um erro grave e perigoso.” E concluía: “A primeira tarefa é descobrir a causa” (Sermão 46 · O estado de deserto, III.1). O cuidado também se fazia em comunidade: B. T. Roberts lembra que Wesley instituiu as reuniões de classe, “nas quais se podem dar a cada indivíduo, por sua vez, as direções que a sua condição espiritual parece exigir” (Pescadores de Homens: B. T. Roberts (1878), cap. 14). A conversa pastoral continua na classe, na banda e na visita (capítulos 22 e 37).

A teologia arminiano-wesleyana dá ao aconselhamento outro traço: “Deus trata a todos como pessoas livres e responsáveis” (§3110). A graça alcança a pessoa antes da conversa, e é a esta graça que ela responde. O pastor não decide por ela nem a move pelo medo; ajuda-a a enxergar e a escolher o caminho de Deus. O alvo, diz o Bispo, é “cooperar para que a pessoa seja restaurada, amadurecida e conformada à vontade de Deus”. Por isso “o pastor é pastor, não salvador”: aponta para Cristo e não cultiva dependência emocional da própria figura.

O Bispo avalia dois autores muito lidos por pastores, Gary Collins e Jay Adams. Collins ajuda a ouvir, a perguntar e a perceber a complexidade da pessoa; Adams insiste na centralidade da Palavra, na responsabilidade moral e no arrependimento. Usado sozinho e sem vigilância, o primeiro pode levar a psicologizar questões espirituais e morais; o segundo, a tratar apressadamente dores complexas e a parecer duro em situações delicadas. A conclusão do Bispo é que o pastor pode aprender com ambos, sem tornar nenhum deles “medida final da verdade”, pois “A autoridade final pertence às Escrituras”. E resume: “Nem dureza sem compaixão, nem acolhimento sem direção.”

A postura de quem aconselha

O caminho de Emaús mostra a ordem do bom cuidado: “o próprio Jesus se aproximou e ia com eles” (Lc 24.15). Perguntou o que conversavam, deixou que contassem a história inteira, inclusive a esperança frustrada, e só depois abriu as Escrituras (Lc 24.17-27). Aproximar-se, caminhar junto, perguntar, ouvir e, no tempo certo, abrir a Palavra: esta é a ordem que o capítulo 3 de Porque tu estás comigo propõe (Manual de aconselhamento pastoral: A postura de quem aconselha), que vale para todo aconselhamento.

Escutar vem primeiro: “Responder antes de ouvir é tolice e vergonha” (Pv 18.13).

Em vez de perguntar Pergunte
“Está tudo bem?” “Como você está, de verdade?”
“Você está orando?” “Como está a sua fé no meio de tudo isso?”
“Por que você fez isso?” “O que aconteceu? Como chegou a este ponto?”
“Você já conversou com ele?” “O que você já tentou até agora?”
“Precisa de alguma coisa?” “O que tem pesado mais nestes dias?”

Há palavras que ferem justamente porque querem consolar depressa: “Como quem se despe num dia de frio e como vinagre sobre feridas, assim é o que entoa canções para quem está aflito” (Pv 25.20).

Evite Por quê Prefira
“Eu sei como você se sente.” Cada dor é única, e a frase desvia a atenção para quem fala. “Não sei bem o que você está sentindo, mas estou aqui.”
“Deus quis assim” ou “Tudo acontece por um motivo.” Atribui a Deus o gosto de afligir (Lm 3.33) e promete uma explicação que ninguém tem. “Não tenho todas as respostas, mas Deus não abandonou você.”
“Isso é falta de fé” ou “É só orar mais.” Culpa quem sofre e ignora outras causas. “Vamos orar e buscar também a ajuda de que você precisa.”
“Seja forte” ou “Crente não chora.” Contraria o choro de Jesus e a ordem de chorar com os que choram (Jo 11.35; Rm 12.15). “Pode chorar. Jesus também chorou.”
“Pelo menos…” Todo “pelo menos” diminui a dor. “Isso é muito pesado.”
“Se precisar, é só ligar.” Joga sobre quem sofre o peso de pedir. “Posso ligar para você na quinta-feira?”
“Pode contar, fica só entre nós.” O sigilo tem exceções (capítulo 3). “Guardo o que você disser, com as exceções que vou explicar.”

Acolher não é concordar com tudo. O pastor fala “seguindo a verdade em amor” (Ef 4.15): não mente para consolar, não esconde o pecado que precisa ser confessado e não humilha quem errou. Quando é preciso confrontar, faz isto em particular, com mansidão e com a esperança da graça (Gl 6.1).

Na oração e no uso da Escritura:

O ambiente e os limites

Os oito cuidados no trato pastoral com o outro sexo e com pessoas fragilizadas estão no capítulo 3. No aconselhamento, eles se traduzem assim:

O sigilo e o que dizer no início

O sigilo pastoral tem sede no capítulo 3: o que o Manual manda (§7170), o que a lei protege e quando a lei obriga a comunicar. Aqui, o que avisar no começo de uma conversa delicada, para não prometer o que não se pode cumprir:

“Eu sou seu pastor; não sou psicólogo nem médico. Posso ouvir, orar, acompanhar e ajudar você a encontrar outra ajuda, se for preciso. O que você me disser fica comigo. Só não posso guardar segredo se houver risco para a sua vida ou para a de outra pessoa, ou violência contra criança, adolescente, pessoa idosa ou pessoa com deficiência. Nesses casos, tenho o dever de proteger e de pedir ajuda. Se eu precisar do conselho de um colega, não direi quem você é.”

O sigilo vale também em casa: o cônjuge do pastor não recebe os detalhes.

As anotações

Nenhuma lei fixa prazo para as anotações pastorais. A orientação abaixo é de prudência e deve ser confirmada com um advogado.

Quando e como encaminhar

“Encaminhar não é abandonar: é reconhecer que algumas dores pedem também o cuidado de médicos, psicólogos e psiquiatras, enquanto o pastor continua presente” (Manual de aconselhamento pastoral: Quando e como encaminhar). O Bispo inclui entre os casos de atuação conjunta com profissionais os “transtornos mentais graves, risco à vida, dependência severa, violência doméstica, abuso ou crises psiquiátricas”, e acrescenta: “Isso não diminui o pastor. Pelo contrário, revela prudência e responsabilidade.”

Monte a rede antes de precisar dela: endereços e telefones da UBS e do CAPS da cidade, da UPA, do Conselho Tutelar, do CRAS, da Defensoria Pública e da delegacia, e nomes de psicólogos e psiquiatras de confiança, pelo plano de saúde ou particulares, com registro no conselho profissional. Reveja a lista uma vez por ano, sem nomes de pessoas atendidas. Escolha pela competência técnica; a sensibilidade à fé é um valor a mais.

Situação Onde buscar ajuda
Risco imediato de vida: tentativa, plano ou meios à mão, intenção de agir ou recusa em se manter em segurança SAMU 192, UPA ou pronto-socorro; polícia 190 se houver violência
Pensamentos de suicídio ou crise emocional CVV 188, gratuito, 24 horas, e serviço de saúde no mesmo dia
Depressão, ansiedade intensa, trauma, luto prolongado UBS ou CAPS; psicólogo ou psiquiatra
Álcool e outras drogas CAPS AD, UBS e grupos de apoio
Crianças e adolescentes em sofrimento UBS ou CAPS infantojuvenil; orientação à escola
Violência contra criança ou adolescente Conselho Tutelar, Disque 100 ou polícia
Violência doméstica; violência contra pessoa idosa ou com deficiência Ligue 180, Disque 100, polícia 190
Necessidades sociais e benefícios CRAS
Questões jurídicas Defensoria Pública ou advogado

Respeite a ética do profissional. O psicólogo cristão não pode conduzir o paciente à fé dentro da terapia: o Código de Ética veda ao psicólogo “Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas” (Resolução CFP 10/2005, art. 2º, b). Não o pressione: cada um cuida da sua parte.

  1. Explique o motivo com carinho: “O que você está vivendo merece um cuidado que eu sozinho não consigo dar.”
  2. Ajude no primeiro contato: marquem juntos, acompanhe a pessoa ao serviço se ela quiser, ligue depois.
  3. Com autorização escrita da pessoa, converse com o profissional e partilhe só o necessário.
  4. Continue as visitas e a oração: o encaminhamento acrescenta um cuidado e não substitui o da igreja.
  5. Não indique “tratamento” que prometa cura por método único, internação forçada ou suspensão de remédio.

Diante de risco de suicídio, aja no mesmo dia: pergunte com clareza, não deixe sozinha a pessoa em risco imediato (plano ou meios à mão, intenção de agir), chame o SAMU (192) e apresente o CVV (188); o protocolo está no capítulo 29. Violência contra criança ou adolescente segue o capítulo 27; violência doméstica e contra pessoa idosa ou com deficiência, o capítulo 28; dependências, o capítulo 30.

Casais e famílias

Com casais, valem os mesmos princípios e uma regra a mais: ouça antes cada um em separado e pergunte, a sós, sobre medo, agressão, ameaça e controle. Havendo violência, não há aconselhamento conjunto nem mediação, e ninguém é mandado de volta para casa (capítulo 28). O Manual encoraja os membros em crise conjugal a procurar o pastor e lembra que “Um conselheiro profissional pode ser necessário” (§3440). O roteiro dos encontros com casais está no capítulo 26; a preparação dos noivos, no 25.

Quem aconselha também precisa de cuidado

Ouvir dores todos os dias cansa e fere. O pastor que aconselha precisa de descanso, de alguém que o pastoreie e de supervisão nos casos difíceis, sempre sem identificar a pessoa atendida; os sinais de esgotamento e os caminhos de ajuda estão no capítulo 5. Ao sair de cada atendimento, entregue a Deus em oração a pessoa e o que ouviu, anote o necessário e feche o caso por aquele dia (Manual de aconselhamento pastoral: Quem cuida também precisa de cuidado). E continue a aprender, pois “O dom pastoral não elimina a necessidade de aperfeiçoamento”, como escreve o Bispo, que recomenda bons livros, estudo de casos e conversa com pastores experientes.

Na prática

Roteiro do primeiro encontro

  1. Antes: ore pela pessoa, prepare uma sala visível, desligue o celular e avise alguém de que está atendendo.
  2. Receba com calma, agradeça a confiança e combine quanto tempo terão.
  3. Diga quem você é e quais são os limites do sigilo, com as palavras deste capítulo.
  4. Convide a pessoa a contar a sua história, com perguntas abertas, e escute sem interromper.
  5. Se houver sinais de risco, pergunte diretamente sobre pensamentos de morte e sobre a segurança em casa (capítulos 28 e 29).
  6. Devolva o que entendeu e pergunte o que a pessoa espera desta conversa.
  7. Se for o momento, abra a Escritura com cuidado e, com permissão, ore.
  8. Combinem um passo concreto e pequeno para os dias seguintes.
  9. Marque o próximo encontro e diga como e quando ela pode procurá-lo até lá.
  10. Depois, anote o mínimo e guarde. Se houver risco de vida ou dever de comunicar, aja no mesmo dia.

Sinais de que é preciso encaminhar

Para aprofundar

Base deste capítulo: Manual da Igreja, §3110, §3440, §6330 e §7170; Orientações Pastorais, Tema VII; Porque tu estás comigo, caps. 3, 11 e 12; John Wesley, Sermões 46 e 98; B. T. Roberts, Pescadores de Homens, cap. 14; Lei 4.119/1962, art. 13; Lei 12.842/2013, art. 4º; Decreto-Lei 3.688/1941, art. 47; Código Penal, art. 111; LGPD (Lei 13.709/2018), art. 5º; Resolução CFP 10/2005 (Código de Ética do Psicólogo), art. 2º; legislação conferida em novembro de 2026.

Organização: Bispo Ildo Mello. Baseado no Manual do Pastor da Igreja Metodista Livre dos EUA (Junta de Bispos, 1998), no Manual da Igreja Metodista Livre do Brasil e em pesquisa nova. Texto preparado com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do organizador. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA).