Manual do Pastor Metodista Livre · Parte V · Capítulo 37

Classes, bandas e pequenos grupos

Ninguém cresce na graça sozinho. O metodismo organizou o seu povo em classes semanais de cerca de doze pessoas, com um líder que pergunta pela alma de cada um, e em bandas menores, onde poucos irmãos do mesmo sexo confessam os pecados e oram uns pelos outros. O Manual chama a participação em grupos pequenos de meio de graça e manda formá-los na igreja. Ao pastor cabe começar pequeno, formar e acompanhar os líderes, multiplicar os grupos e guardar dois limites: o sigilo e o bom uso da autoridade.

Por que grupos pequenos

Os primeiros cristãos se reuniam no templo e partiam o pão “de casa em casa” (At 2.46). A carta aos Hebreus pede: “Cuidemos também de nos animar uns aos outros no amor e na prática de boas obras. Não deixemos de nos congregar, como é costume de alguns” (Hb 10.24-25). O culto reúne a igreja inteira; o grupo pequeno é o lugar onde cada um é chamado pelo nome, ouvido e animado durante a semana.

O metodismo não nasceu de um projeto. No fim de 1739, oito ou dez pessoas procuraram Wesley em Londres, e assim surgiu a sociedade, unida “a fim de orar em conjunto, receber a palavra de exortação e velar umas pelas outras em amor” (Regras Gerais das Sociedades Metodistas, 2). Em Bristol, uma coleta semanal para pagar uma dívida revelou quem vivia mal, e daí nasceram as classes. O fruto veio logo: “Muitos experimentaram então, com alegria, aquela comunhão cristã da qual antes não tinham sequer ideia” (Explicação sobre o povo chamado metodista, II.3 e II.7).

Wesley chamava estes arranjos de “meramente prudenciais, não essenciais, nem de instituição divina” (II.9). A forma muda com o tempo e o lugar; o mandamento de animar, admoestar e levar as cargas uns dos outros permanece (Gl 6.2). O Bispo resume a lição da história numa frase: “Colheita sem armazém apodrece” (Classes e bandas wesleyanas).

O Manual guarda esta herança: “A participação em grupos pequenos é um meio de graça e de crescimento” (§3230). “Vemos os grupos pequenos e células, dentro do Corpo maior de Cristo, como o melhor ambiente para o nascimento, discipulado, encorajamento e cuidado dos crentes” (§6060). “A Igreja tem uma responsabilidade de discipular cada crente. Isto é mais bem realizado em comunidades que se utilizam do trabalho em grupos pequenos ou células” (§7100). Na Aliança, o membro se compromete com os hábitos da devoção cristã, “submetendo-nos à mútua prestação de contas” (§157).

Neste capítulo, classe é a classe wesleyana. A classe que prepara para a membresia está no capítulo 36, e a da escola dominical, no capítulo 38.

O que o Manual pede

No apêndice das comissões, o Manual tem uma seção sobre “Grupos de Crescimento Espiritual / Grupos Pequenos / Células” (§6900):

Os líderes de grupos pequenos podem compor a equipe ministerial (§6320), e o candidato à ordem de presbítero precisa de experiência comprovada “de pastoreio de grupos pequenos ou ministérios da Igreja” (§8400). O Manual não diz quem escolhe os líderes, não cria o cargo de líder de classe nem trata das bandas; o que este capítulo diz sobre isto vem da herança wesleyana e é orientação pastoral.

Como começar classes hoje

Para o Manual, grupo pequeno, grupo de crescimento espiritual e célula são nomes da mesma coisa, herdeira da classe. O nome importa menos do que a tarefa. As Regras Gerais dividiam cada sociedade “em grupos menores, chamados classes, conforme o lugar em que moram”, e davam ao líder o encargo de ver cada pessoa “pelo menos uma vez por semana” para “informar-se de como vai a alma de cada uma” e “aconselhar, repreender, consolar ou exortar, conforme a ocasião exigir” (Regras Gerais das Sociedades Metodistas, 3).

As perguntas. A pergunta de toda classe é a de Wesley: como vai a sua alma? As que seguem são orientação deste manual, a partir das três Regras Gerais (não fazer o mal, fazer o bem, usar os meios de graça). O líder escolhe duas ou três por encontro e responde primeiro.

  1. Como está a sua vida com Deus desde o último encontro?
  2. Que mal você evitou, e em que caiu?
  3. Que bem você fez, ou deixou de fazer, a alguém?
  4. Como usou os meios de graça: oração, Escritura, culto, Ceia, jejum?
  5. Por que podemos orar por você nesta semana?

O ritmo. Uma vez por semana, no mesmo dia e lugar, de uma hora a uma hora e quinze, com hora para começar e para terminar. O Bispo sugere três blocos de cerca de vinte minutos: a partilha; o estudo bíblico a partir do sermão do domingo anterior, com o líder como facilitador; e a oração, em trios quando o grupo é grande (A Importância das Células). Na classe, a partilha com as perguntas é o coração do encontro, e ninguém sai sem que se tenha orado pelo seu nome.

O líder. Para o Bispo, “a função do líder é a de facilitador”, e “o seu papel não é o de centralizar as ações, mas o de facilitar a participação de todos”. Também se abre: na classe wesleyana, “os líderes também confessam seus pecados”, e é isto que impede o grupo de virar tribunal. O líder:

O pastor. Como o Manual não diz quem escolhe os líderes, este manual sugere, como orientação pastoral: o pastor propõe os nomes depois de orar e ouvir a equipe ministerial, e o grupo os acolhe. Como referência histórica, a Disciplina de 1860 mandava o pregador “Indicar todos os líderes, sujeitos à confirmação pela classe, e examinar cada um deles com toda a exatidão possível, pelo menos uma vez por trimestre, quanto ao seu método de conduzir a classe” (Disciplina de 1860: Capítulo III. Dos oficiais e ministros, Seção X). O Manual do Pastor de 1998 pede ao pastor que se reúna com os grupos, examine cada líder, procure “observar quais líderes são mais úteis” e faça que estes se reúnam com os outros grupos (Manual do Pastor (1998): O pastor no cuidado do rebanho). No tempo de Wesley, os guias recebiam conselho dos ministros toda terça-feira à noite, e os assistentes se reuniam com eles toda semana (Explicação, II.12 e IX.2); hoje, um encontro mensal de oração, avaliação e formação costuma bastar. O líder que não serve é substituído, com brandura e sem exposição; a Disciplina de 1860 já dizia: “Que os líderes inadequados sejam substituídos” (Disciplina de 1860: Capítulos IV a VI. Meios de graça, vestuário, casamento e julgamentos, cap. IV, Seção III).

A multiplicação. A Disciplina de 1860 mandava: “Assim que houver quatro crentes em algum lugar, reuni-los numa classe” (Seção X), e o Manual do Pastor de 1998 pede ao pastor que incentive, “pelo exemplo e pela instrução, a formação de células e a multiplicação delas”. Cada grupo tem um líder e um aprendiz; perto de doze pessoas, divide-se, e cada metade começa a formar o seu próximo aprendiz (2Tm 2.2). A aula do Bispo põe uma cadeira vazia na roda e ora por quem vai ocupá-la. O estudo sobre as células adverte contra “o perigo da Koinonite, que é fazer da comunhão um fim em si mesma”. Os novos convertidos entram num grupo nas primeiras semanas (capítulo 35), e um grupo numa casa pode ser o começo de uma nova igreja (capítulo 40).

As bandas: prestação de contas entre poucos

Os que já tinham paz com Deus sentiam tentações “de tal natureza que não sabiam como falar delas numa classe, onde se reuniam pessoas de todo tipo, jovens e velhos, homens e mulheres”. Wesley os dividiu “em companhias menores, reunindo os homens, casados ou solteiros, e as mulheres, casadas ou solteiras” (Explicação, VI.1-3). Eram as bandas, que a tradução do site chama de grupos menores. O propósito vinha da Escritura: “confessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros, para que vocês sejam curados” (Tg 5.16).

As regras de 1738 pediam reunião semanal, pontualidade e que cada um falasse “com liberdade e franqueza, do verdadeiro estado da própria alma”. Um deles falava primeiro e depois perguntava aos outros; no fim, orava-se por cada um. Toda reunião tinha quatro perguntas: “Que pecados conhecidos você cometeu desde a nossa última reunião?”, “Que tentações você enfrentou?”, “Como você foi livrado?” e “O que você pensou, disse ou fez, do qual você duvida se é […] ou não?”, em que outras edições trazem “pecado” na lacuna (Regras e orientações dos grupos menores). Antes da admissão, faziam-se a cada um perguntas como as onze das regras, uma delas começando por “Pense bem!”. Wesley não queria adesão apressada, observa a aula do Bispo: “Queria consentimento informado.”

Para formar bandas hoje (orientação pastoral):

A banda de pastores está no capítulo 2.

Células e grupos de estudo

O site da Igreja diz que “as nossas células de hoje são as herdeiras diretas dessa prática” (Células: Pequenos Grupos de Discipulado). Na casa, o vizinho que não entraria num templo aceita o convite para um café. O grupo de estudo bíblico, com um livro da Bíblia por vez, também serve (Cursos).

Nem toda reunião pequena, porém, faz o que a classe fazia. A aula do Bispo distingue: a escola dominical transmite conhecimento; muitas células são sobretudo evangelísticas e relacionais; a classe acrescenta a responsabilidade mútua pela santidade, com perguntas sobre a vida. Para a igreja que já tem células, o conselho é: “não é substituir, é acrescentar o que falta”. No grupo de estudo, basta uma pergunta para que o estudo vire discipulado: “o que você fez com o que entendeu na semana passada?”

Classe ou célula Banda Grupo de estudo
Alvo Cuidado mútuo e crescimento na graça Confissão e prestação de contas Conhecer a Bíblia e praticá-la
Tamanho Até doze Três a cinco Até doze
Pergunta central Como vai a sua alma? Que pecados, que tentações, que livramento? O que o texto pede de nós nesta semana?

Muitos métodos de células circulam no Brasil. Em 2009, perguntado sobre o G12, o Concílio dos Bispos da Igreja Metodista Livre admitiu as práticas que não contrariam a doutrina, mas advertiu: “Não recomendamos a aceitação dos ensinamentos de qualquer movimento em sua totalidade”; tudo se avalia “pelo ensino claro das Escrituras” (O Parecer dos Bispos Metodistas Livres sobre o G12). Fuja das metas de números que pesam mais que as pessoas e de qualquer promessa de bênção ligada à obediência ao líder.

Os grupos vivem “dentro do Corpo maior de Cristo” (§6060). Não substituem o culto do domingo, e o líder do grupo não ministra os sacramentos: batiza e preside a Ceia quem a Igreja autorizou (capítulo 9).

Cuidados: sigilo e autoridade

Sigilo. O sigilo tem sede no capítulo 3, e o Manual o pede também aos membros: no cuidado espiritual, “nossos Presbíteros e membros mantêm uma relação de confiança e confidência, mantendo em sigilo toda informação revelada a eles” (§7170). A primeira regra da sociedade seleta de Wesley era “que nada do que se disser nesta sociedade seja repetido” (Explicação, VIII.3).

Autoridade. Jesus ensinou: “quem quiser tornar-se grande entre vocês, que se coloque a serviço dos outros” (Mc 10.43). No Manual, a submissão “deve ser mútua, tanto de quem está debaixo de autoridade como de quem exerce autoridade” (§7110). Um grupo adoece quando o líder:

O remédio é a adesão voluntária, a liberdade para sair, o líder que também se abre e presta contas ao pastor, e um pastor acessível. A quem soubesse de um líder sem dons ou sem graça, Wesley pedia: “diga-o a mim, não a outros” (Explicação, II.12). Queixa contra o próprio pastor vai ao superintendente (capítulos 3 e 34).

Outros cuidados.

Na prática

Os primeiros seis meses

  1. Ore e estude com a Junta Administrativa Local e a equipe ministerial a seção do Manual e este capítulo; pregue sobre a comunhão.
  2. Convide dois ou três futuros líderes e reúna-os numa classe com você por oito a doze semanas.
  3. Abra os primeiros grupos por bairro, cada um com líder e aprendiz, e convide todos os membros e os novos convertidos.
  4. Reúna os líderes uma vez por mês para orar, avaliar cada grupo sem quebrar o sigilo e aprender.
  5. Visite cada grupo ao menos uma vez por trimestre.
  6. Ao fim de seis meses, avalie com os líderes, multiplique os grupos que passarem de dez a doze pessoas e ofereça bandas a quem pedir.

Lista do líder

Igreja pequena e pastor bivocacional. Numa igreja de vinte membros, a igreja inteira pode ser uma ou duas classes, e o culto do meio da semana pode virar reunião de classe. O pastor bivocacional dirige o primeiro grupo enquanto forma o líder, depois o entrega e guarda o encontro mensal com os líderes.

Para aprofundar

Base deste capítulo: Manual da Igreja, §157, §3230, §6060, §6320, §6900, §7100, §7110, §7170 e §8400; Manual do Pastor (EUA, 1998), O pastor no cuidado do rebanho, deveres 4, 14, 16 e 34; Disciplina de 1860 (referência histórica), cap. III, Seção X, e cap. IV, Seção III; John Wesley, Regras Gerais (1743), Regras e orientações dos grupos menores (1738 e 1744) e Explicação sobre o povo chamado metodista, II, VI, VIII e IX; Concílio dos Bispos da Igreja Metodista Livre, parecer sobre o G12 (2009); Bispo Ildo Mello, aula Classes e bandas wesleyanas (Curso de Evangelização, aula 11), estudo A Importância das Células e curso Narcisismo religioso, aula 3.

Organização: Bispo Ildo Mello. Baseado no Manual do Pastor da Igreja Metodista Livre dos EUA (Junta de Bispos, 1998), no Manual da Igreja Metodista Livre do Brasil e em pesquisa nova. Texto preparado com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do organizador. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA).