Manual do Pastor Metodista Livre · Parte V · Capítulo 40

Missão, ação social e plantação de igrejas

A Igreja Metodista Livre existe para levar o evangelho a todos, e de modo especial aos pobres, como lembra o “Livre” do nosso nome. O pastor é designado para a evangelização do bairro e da cidade, e não só para cuidar de quem já está dentro. Ele conduz a igreja a servir com dignidade, faz parcerias sem perder a identidade e, com o superintendente, multiplica pontos de pregação, congregações e igrejas pelas fases que o Manual descreve.

A missão na tradição metodista livre

“A missão da Igreja Metodista Livre é fazer conhecido de todas as pessoas, em todo lugar, o chamado de Deus para a perfeição através do perdão e santidade em Jesus Cristo, e convidar para a sua membresia e equipar para o ministério a todos que responderem com fé” (§6010). A visão é ser “uma comunidade bíblica saudável de pessoas santas multiplicando discípulos, líderes, grupos e Igrejas” (§6010). A missão é de Deus antes de ser nossa: “Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês” (Jo 20.21).

O Manual diz que “Missão começa na adoração” e que o serviço que chama de missão “inclui educação cristã, evangelismo, missões mundiais e serviço social” (§6000). Vê as igrejas locais “como postos avançados da missão”, com pastores designados “para a evangelização de comunidades inteiras, bairros, cidades e regiões”, e se define como um povo ‘enviado’, “encarregado da tarefa de alcançar novos territórios e novos grupos de povos com o evangelho” (§6060). Entre os resultados esperados estão “cada Igreja uma congregação reprodutora” e “cada Igreja uma congregação missionária” (§6070). O Bispo resume: “Identidade sem missão vira nostalgia. Missão sem identidade vira improvisação” (Identidade Metodista Livre: palestra aos pastores e líderes). A evangelização e o acolhimento dos novos convertidos estão no capítulo 35.

O centro desta missão é o que Jesus leu em Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres” (Lc 4.18). O relato da convenção que organizou a Igreja, em 1860, fala da convicção de estabelecer “igrejas livres, com os assentos para sempre gratuitos, onde o evangelho possa ser pregado aos pobres” (História de Hogue: Volume I · Capítulo XXXII), e B. T. Roberts escreveu: “A obra de Jesus é evangelizar os pobres, não afagar o orgulho dos ricos” (Pescadores de Homens: B. T. Roberts (1878), cap. 11). O Manual guarda a herança: “Jesus disse que a obra que coroa o ministério autêntico é este: o Evangelho levado aos pobres. Portanto, os destituídos e desprovidos do mundo merecem nosso cuidado especial” (§6060). E a cláusula de boa fé, que vale para todo imóvel da Igreja, ainda diz que nas casas de adoração “os assentos serão utilizados gratuitamente para sempre” (§6400).

Ação social com dignidade

A Igreja se declara empenhada “com interesse ativo sempre que seres humanos são humilhados, abusados, despersonalizados ou sujeitados às forças demoníacas do mundo, por indivíduos ou instituições” (§3340), e entende o serviço social como “a Igreja cuidando das necessidades humanas, como expressão do amor de Deus” (§6000). Na igreja local, o Manual confia este trabalho aos ecônomos, que socorrem os necessitados e devem “trabalhar com agências comunitárias aprovadas, para servir às necessidades humanas, sempre lembrando que todo esse serviço precisa visar o objetivo final, isto é, a salvação por meio de Jesus Cristo” (§6900). A ordem sugerida para a reunião da Junta inclui ainda a eleição de uma Comissão de Ministérios Sociais (§6300).

A dignidade de quem recebe é parte do evangelho: “Quem oprime o pobre insulta aquele que o criou, mas o que se compadece do necessitado honra a Deus” (Pv 14.31). As regras de Wesley para os ecônomos diziam: “Não dê a quem pede socorro nem uma palavra ruim nem um olhar ruim. Não o fira, se não puder ajudá-lo” e “Não espere agradecimento de ninguém”. Ele também criou um fundo que emprestava pequenas quantias a devolver em três meses, e com ele duzentas e cinquenta pessoas foram ajudadas num só ano (Explicação sobre o povo chamado metodista, X e XV). O Bispo define a linha: “A ação social cristã não é assistencialismo que humilha, mas serviço que restaura a dignidade dada por Deus a cada pessoa”, e acrescenta: “Damos o pão e apontamos para o Pão da vida” (Ministério de Ação Social). Sobre as cartas de Wesley aos pobres, lembra que ele “não romantiza a pobreza nem faz do pobre um mérito para quem o socorre” (Cartas de Wesley sobre servir aos pobres). O documento “Uma agenda social, urbana e étnica”, de 1995, reproduzido no Manual do Pastor de 1998, já pedia que a igreja enfrentasse o preconceito, o paternalismo e o sexismo.

O quadro abaixo é orientação pastoral. O Manual da Igreja não trata de condições para o socorro: não condicionar a ajuda à presença no culto ou à conversão é conselho deste manual. O conselho não contradiz o Manual, que manda lembrar sempre que todo esse serviço precisa “visar o objetivo final, isto é, a salvação por meio de Jesus Cristo” (§6900). Visar a salvação é anunciar Cristo a quem recebe ajuda, com respeito e liberdade; a fé não se cobra em troca do pão.

O que humilha O que dignifica
Fila à vista de todos e perguntas feitas em público Atendimento reservado, com hora marcada
Foto de quem recebe ajuda nas redes da igreja Imagem só com autorização escrita, e nunca de quem está em situação de humilhação
Ajuda condicionada à presença no culto ou à conversão O evangelho anunciado a todos, com liberdade; o pão não é preço da fé
Doação de sobras e do que ninguém quer O que se daria a um irmão querido
Socorro sem nome, decidido pelo outro Escuta, visita e acompanhamento, com a pessoa envolvida nas decisões
Dependência sem fim Caminhos de autonomia: cursos, trabalho, orientação sobre direitos

Na prática: cadastre só o necessário e guarde os dados com cuidado (capítulo 44); encaminhe à rede pública (no Brasil, o CRAS) sem se desligar da pessoa (capítulo 23); siga as regras de proteção quando o serviço envolver crianças (capítulo 27); e nunca use a ação social como palanque político (capítulo 3). A Escritura manda fazer “o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé” (Gl 6.10): a igreja cuida dos seus e do bairro.

Parcerias

Ninguém precisa servir sozinho. O Manual atribui aos ecônomos o trabalho com agências comunitárias aprovadas (§6900) e encarrega o Comitê de Missões da Conferência de “Promover, quando necessário, o estabelecimento de parcerias entre Igrejas, Concílios Regionais e Conferências nacionais e internacionais para a implementação de um projeto missionário” (§4510). Dentro da própria conexão há com quem caminhar: o VEM: Voluntários em Missão, desde 1984, com voluntários que constroem, cuidam da saúde, ensinam e evangelizam; a Equipe Visão, em revitalização, evangelismo e capacitação; a entidade Todo Mundo Feliz, em Santo André (SP), que atende crianças de baixa renda por convênio com a prefeitura; e a Escola Pastor José Emílio Emerenciano, em Monte Santo (BA).

B. T. Roberts aceitava a ajuda de quem não é crente, com uma condição: “Se, pois, você pede ajuda para o sustento ou a difusão do cristianismo, não alegue motivos senão cristãos; não empregue argumentos senão cristãos” (Pescadores de Homens, cap. 15). E o Manual traça o limite de toda estrutura: “Nossos líderes não podem conduzir a Igreja de maneira a prejudicar a missão ou desviá-la dela” (§6050).

Plantação de igrejas e congregações

“Alcançar os ‘não alcançados’ é o motivo para a plantação de novas Igrejas”, e “Estratégias criativas e múltiplos estilos de ministério são necessários” (§6800). A maioria das novas igrejas nasce de grupos formados perto de uma igreja existente ou do uso das suas dependências para novos ministérios; outras nascem do envio de pessoas ou equipes, e outras da afiliação de grupos já existentes. Em todos os casos, “o alvo final é não somente alcançar mais pessoas e vê-las maduras em Cristo, mas também reproduzir novas Igrejas locais” (§6800).

O começo costuma ser pequeno. A aula do Bispo sobre a missão da igreja lembra que a igreja nasce “com um lar aberto, uma mesa e o Evangelho anunciado”, a partir de quem Jesus chamou de “uma pessoa que ama a paz” (Lc 10.6), aberta ao mensageiro e à sua rede de família e vizinhos (A Missão da Igreja e os Desafios Contemporâneos: Eclesiologia IV (Aula 4)). A Disciplina de 1860 mandava: “Assim que houver quatro crentes em algum lugar, reuni-los numa classe” (Disciplina de 1860: Capítulo III. Dos oficiais e ministros, Seção X). E Wesley, que mandava unir logo aos demais quem despertava, pedia prudência a um plantador: “Não é prudente arrotear mais terra do que se pode cultivar, nem pregar em mais lugares do que você e os seus irmãos consigam atender com regularidade” (Cartas de Wesley sobre as missões).

O Manual descreve as fases da nova igreja (§6810 a §6840):

Fase Quem autoriza Organização e contas Duração No Concílio
Ponto de pregação Uma entidade patrocinadora: igreja local, junta ou comissão do Concílio Regional. Existe a partir do anúncio da decisão. O pastor plantador ou líder leigo responde ao patrocinador e pode nomear uma comissão ministerial. Fundos só com autorização e auditoria do patrocinador. Os membros que ajudam continuam no rol da igreja de origem. Até dois anos, salvo circunstâncias especiais O líder leigo tem assento honorário
Congregação O superintendente, com a concordância do órgão patrocinador, quando há futuros membros preparados, adoção pública do Manual e documento de concordância assinado Junta de pelo menos três membros (secretário, tesoureiro e delegado honorário); relatório escrito trimestral ao superintendente e ao patrocinador; imóvel em nome da Igreja Metodista Livre do Brasil Até três anos, salvo extensão Delegado honorário, com voz e sem voto
Igreja afiliada (igreja já existente que se une à IMeL) O superintendente, com o consentimento da Junta Administrativa do Concílio, depois de um período de orientação e de um documento de afiliação Encontros pelo menos semestrais com o superintendente; ajuda da denominação ao patrimônio em forma de empréstimo, restituível se ela não se tornar Igreja Local Plena Até três anos Delegado honorário, com voz e sem voto
Igreja Local Plena O superintendente, em consulta com a Junta Administrativa do Concílio, quando há declaração de missão, membros, maturidade e estabilidade financeira Organização completa (capítulo 42). A cláusula de boa fé do §6400.D entra nas escrituras e no estatuto da igreja afiliada; a nova igreja a reconhece por escrito no documento de concordância (capítulo 43) Fase final Delegados com voto

Cada um tem o seu papel:

O caminho, passo a passo (orientação pastoral sobre as normas do Manual):

  1. Ore e discirna com a Junta e a Comissão de Evangelismo e Crescimento: um bairro sem igreja, um grupo não alcançado, uma casa aberta.
  2. Converse com o superintendente antes de anunciar qualquer coisa.
  3. A Junta decide patrocinar e anuncia a decisão: nasce o ponto de pregação (§6810).
  4. Escolha o líder e combine por escrito o apoio (consulta, pessoas, materiais, dinheiro) e a prestação de contas.
  5. Comece numa casa, com Palavra, oração e mesa; forme logo o primeiro grupo (capítulo 37) e prepare os futuros membros (capítulo 36).
  6. Busque cedo a autonomia financeira: “Deve-se atingir a completa autonomia financeira o mais cedo possível” (§6810).
  7. Em até dois anos, peça ao superintendente o reconhecimento como congregação e combine com ele, por escrito, quem será o órgão patrocinador (§6820). Os futuros membros adotam juntos o Manual e respondem às perguntas para membros plenos (capítulo 15); o Manual não traz rito próprio de organização.
  8. Na congregação, eleja a Junta, envie o relatório trimestral e caminhe para a Igreja Local Plena.

A forma jurídica da nova igreja (ata, estatuto, registro, imóvel) segue a orientação do Concílio e os capítulos 43 e 44. Quando o trabalho nasce perto de outro da Igreja, as partes fortalecem a comunhão e reconhecem “a eficácia evangelística como sua mais alta prioridade” (§6850). O documento de 1995 traz outros princípios úteis à missão nas cidades: uma igreja em dificuldade, num bairro que mudou, pode renascer como nova plantação; os novos líderes vêm de preferência da própria comunidade, sem ser arrancados do seu meio; as igrejas de uma mesma região trabalham em rede; o serviço social pode abrir caminho para uma nova igreja; e tudo isto pede oração perseverante.

Missão transcultural

“A Igreja Metodista Livre não admite restrições geográficas, sociais, étnicas ou culturais em relação ao mandamento de Cristo de pregar o Evangelho de redenção e de anunciar a Sua mensagem de perfeição” (§6000). A nossa história é transcultural: a obra no Brasil nasceu do trabalho do Rev. Daniel Nishizumi entre os imigrantes japoneses, a partir de 1928, e chegou aos brasileiros em 1946, na casa do Pastor José Emílio Emerenciano (Identidade Metodista Livre: palestra aos pastores e líderes). Em 2007, o primeiro missionário metodista livre do Brasil chegou a Angola, onde hoje há um Concílio (História da IMeL em Angola). E a missão transcultural também acontece aqui: “Grupos de imigrantes residentes no Brasil podem ser identificados como iniciativas missionárias pelo Comitê de Missões” (§6800).

As estruturas existem nos três níveis. Na igreja local, a Comissão de Missões prepara um programa anual com o Departamento de Missões do Concílio, forma grupos de oração, informa sobre as equipes VEM, VISA e Visão e sobre os missionários de carreira, levanta fundos e deve “encaminhar ao Departamento de Missões do Concílio Regional os nomes e endereços de jovens da Igreja local que se sentem vocacionados para o serviço missionário” (§6900). O Departamento recruta para o serviço de longo e de curto prazo (§5250), e o Comitê de Missões da Conferência ajuda no “recrutamento, preparo e envio dos missionários” (§4510).

O Manual não tem rito de envio missionário, e este manual não propõe um. O cuidado de quem vai, como orientação pastoral:

Equipes de curto prazo vão para servir a igreja que as recebe, e não o próprio programa: respeitam os costumes, não criam dependência, não expõem a pobreza alheia em fotos e acompanham o trabalho depois. A urgência é real, pois, como lembra o Bispo, “O evangelho é oferecido a todos e alcança quem o recebe pela fé; a graça convida, mas pode ser resistida”. Wesley escreveu a um missionário que “as almas valem mais do que o ouro”, e o Bispo propõe medir o êxito “não pelo tamanho da obra, mas pelo número dos que passam a andar com Deus” (Cartas de Wesley sobre as missões).

Na prática

Uma igreja missionária (orientação pastoral)

Para aprofundar

Base deste capítulo: Manual da Igreja, §3340, §4510, §4530, §5110, §5200, §5220, §5250, §6000, §6010, §6050, §6060, §6070, §6300, §6400, §6800 a §6850 e §6900; Manual do Pastor (EUA, 1998), Organização de igrejas e recepção de membros e Documentos diversos; Wesley, Explicação sobre o povo chamado metodista, X e XV, e cartas sobre os pobres (1780-1781) e sobre as missões (1784-1786); Disciplina de 1860, cap. III, Seção X; Hogue, vol. I, cap. XXXII; Roberts, Pescadores de Homens, caps. 11 e 15; páginas do site citadas; palestra Identidade Metodista Livre; aula A Missão da Igreja e os Desafios Contemporâneos.

Organização: Bispo Ildo Mello. Baseado no Manual do Pastor da Igreja Metodista Livre dos EUA (Junta de Bispos, 1998), no Manual da Igreja Metodista Livre do Brasil e em pesquisa nova. Texto preparado com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do organizador. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA).