Manual do Pastor Metodista Livre · Parte V · Capítulo 39

Formação de líderes

O pastor não foi chamado para fazer sozinho todo o ministério, e sim para preparar o povo de Deus para servir. Ele identifica pessoas pelo caráter e pelos dons, faz o convite, forma de perto, entrega autoridade junto com a tarefa e acompanha com avaliação regular. O Manual dá os critérios e os lugares em que isto acontece; o resto é exemplo, paciência e oração.

Formar líderes é obra do pastor

Cristo deu pastores e mestres à igreja “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.12). O Manual aplica isto ao presbítero: “Pastores ordenados se comprometem a equipar todo o corpo de crentes para esses fins”, isto é, a adoração viva, o evangelismo, a ação social, a edificação e a comunhão (§8000). E pede que, “Sob a liderança do pastor, as congregações locais ajudarão as pessoas a reconhecerem, aceitarem e usarem seus dons no ministério” (§6600). Afirma que “A Igreja Metodista Livre prepara presbíteros e líderes que servirão efetivamente em qualquer contexto” (§8100) e espera do candidato à ordenação um líder servidor, que “promove o desenvolvimento dos outros” e “capacita outros a descobrirem o projeto divino para eles e a funcionarem dentro deste projeto” (§8400).

Paulo deixou a regra a Timóteo: “E o que você ouviu de mim na presença de muitas testemunhas, isso mesmo transmita a homens fiéis, idôneos para instruir a outros” (2Tm 2.2). O Bispo observa que são “quatro gerações numa só frase” (Ministério de Formação de Líderes), e chama o pastor de “treinador de sucessores” (Formação de Novos Líderes). Lembra também que a igreja centrada no pastor deixa de ser centrada em Cristo, pois Cristo reparte os dons entre todos (Wesley e a Participação dos Leigos na Missão).

O metodismo cresceu assim. Quando o cuidado das coisas temporais ficou pesado demais, Wesley repartiu o trabalho: “escolhi primeiro um, depois quatro e, passado algum tempo, sete dos homens mais prudentes que conhecia”. Entre os deveres desses ecônomos estava “Dizer aos pregadores, em amor, se acharem algo errado, seja na doutrina, seja na vida deles” (Explicação sobre o povo chamado metodista, X). B. T. Roberts resumiu: “Você realizará muito mais pondo os outros a trabalhar do que tentando fazer tudo sozinho” (Pescadores de Homens: B. T. Roberts (1878), cap. 15).

Quem chamar

“A liderança na Igreja é uma honra acompanhada de responsabilidades e sacrifícios”, e os escolhidos “devem fazê-lo em espírito de humildade e debaixo da dependência de Deus” (§3460). O Manual lista as qualidades de quem ocupa posições de liderança (§6200.E). A coluna da direita é orientação pastoral para aplicá-las.

O que o Manual pede Pergunta prática
Vida coerente com as orientações bíblicas para líderes (Êx 18.21; At 6.3; 1Tm 3.1-13; Tt 1.5-9) Em casa, no trabalho e na igreja, a vida confirma o que a pessoa professa?
Atitudes semelhantes às de Cristo na vida e nos relacionamentos (Mt 20.26-28; Jo 15.12-17; At 6.1-7; Ef 4.1-17) Como ela trata quem discorda e quem não pode retribuir?
Evidência de dons espirituais como liderança, fé e administração Houve fruto em tarefas menores? Outros a seguem sem ser forçados?
Busca sincera dos alvos da vida madura em Cristo Ela ora, lê, aceita correção e quer crescer?
Harmonia com a doutrina, a Aliança de Membro e a missão Conhece e aceita o que a Igreja ensina?
Fé vital, presença fiel e sustento da igreja pelo menos no nível do dízimo É constante e fiel também no que ninguém vê?

O caráter pesa mais que o talento. O crente deve procurar como evidência da plenitude do Espírito “não os dons em si mesmos, mas o caráter e o poder do Espírito Santo” (§3240). Paulo pede que o bispo, o supervisor da igreja, não seja recém-convertido, “para não acontecer que fique cheio de orgulho” (1Tm 3.6), e o curso Narcisismo religioso lembra que o cargo dado cedo demais é um risco espiritual (Pastores que apascentam a si mesmos). Para reconhecer o potencial, o Bispo indica três traços: disponibilidade, fidelidade e ensinabilidade (Formação de Novos Líderes). Os apóstolos pediram à igreja de Jerusalém o mesmo cuidado com o caráter: “escolham entre vocês sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria” (At 6.3).

Nas eleições, o processo de indicações tem o mesmo alvo: “identificar pessoas com maturidade espiritual, talentosas e frutíferas no ministério e dar a elas o papel adequado na participação da missão integral da Igreja” (§6310). Na igreja pequena, “Alguns cargos/funções podem ser omitidos ou acumulados enquanto a Igreja local é nova ou pequena” (§6200). A assembleia, a Comissão de Chapas e a cédula estão no capítulo 42; quem vai servir com crianças segue o capítulo 27; o chamado ao pastorado, o capítulo 1; os pregadores leigos, o capítulo 8.

Chamar e formar de perto

O convite é pessoal e concreto: uma tarefa definida, por um tempo combinado, com alguém ao lado. Roberts aconselhava: “Em quase toda igreja há quem tenha dom especial de exortação ou de oração. Chame-o à atividade” (Pescadores de Homens, cap. 15).

Formar não é dar um curso e soltar. Nas palavras do Bispo, “Mentoria não é apenas dar aulas; é permitir que o aspirante à liderança observe a vida, o caráter e as reações do mentor em situações reais”, pois “A teoria acontece na sala de aula, mas o ministério se aprende no caminho” (Formação de Novos Líderes). Leve o aprendiz às visitas, às reuniões e ao planejamento, e trate o erro como ocasião de aprender, e não de castigo. O alvo é a maturidade do outro: o pastor wesleyano, escreve o Bispo, “Não visa dependência, mas maturidade” (O Pastor Wesleyano: Guardião da Fé, Educador do Povo e Servo de Cristo).

O conteúdo da formação, como orientação pastoral:

O Manual traz dois modelos desse caminho. Quem entra no ministério de música passa por “três meses de acompanhamento e discipulado na área que vai atuar no ministério” (§6900). E as pessoas que a Junta aprova para o diaconato “serão reconhecidas, encorajadas, mentoreadas, treinadas, avaliadas e certificadas para o diaconato”, num processo em que a Junta considera caráter, chamado, dons, treinamento e fruto (§6600). A consagração e o seu rito estão no capítulo 20.

Delegar com autoridade

Muitos pastores não delegam por perfeccionismo ou por medo de perder o controle. O Bispo propõe um ciclo em cinco etapas (Formação de Novos Líderes):

Etapa O pastor O aprendiz
1. Eu faço, você vê Demonstra Observa
2. Eu faço, você ajuda Orienta Participa
3. Você faz, eu ajudo Supervisiona Lidera
4. Você faz, eu vejo Avalia Age com autonomia
5. Você faz, outro vê Multiplica Forma outro

Delegar é entregar autoridade junto com a responsabilidade. O Bispo dá o exemplo: “Se você dá a alguém a tarefa de organizar um evento, mas ele precisa te ligar para decidir a cor dos guardanapos, você não delegou; você apenas estendeu seus braços.” A centralização cria um funil, porque tudo para na energia de uma só pessoa, e atrofia os talentos, porque os capazes desanimam e ficam passivos. Para descentralizar sem perder a unidade: ensine valores mais que regras, use as reuniões para explicar o porquê e deixe o como a quem executa, e dê aos ministérios autonomia dentro do seu orçamento.

O Manual do Pastor de 1998 notava que tarefas com objetivo, orçamento e prazo definidos, e com agradecimento ao fim, rendem mais que comissões permanentes (Manual do Pastor (1998): Membresia, liderança e a Junta Administrativa Local). Toda delegação diz o quê, para quê, até quando, com que recursos, o que a pessoa decide sozinha e quando presta contas.

Há limites. No culto, o pastor pode delegar, “mas sempre recairá sobre ele a responsabilidade final” (§6900); os sacramentos seguem as regras do capítulo 9, e o diácono só os administra quando autorizado por um presbítero (§6610). Dentro desses limites, o pastor se alegra com o crescimento do outro: “O sucesso do mentor é ser, eventualmente, superado pelo mentorado”, escreve o Bispo.

Acompanhar e avaliar

A equipe ministerial é o lugar natural desse acompanhamento: cabe a ela “dar assistência ao pastor no cuidado com o pastoreio da igreja” (§6320). Pastor e assistente devem reunir-se “regularmente (de preferência semanalmente) para oração e planejamento” (§6720). Para os demais líderes, a orientação pastoral é um encontro mensal da equipe, com oração, estudo breve, planejamento e revisão do mês, e uma conversa pessoal com cada um a cada trimestre.

Uma vez por ano, avalie com cada líder o que deu certo, o que pesou e qual o próximo passo, e pergunte pela alma, pela família e pelo descanso. A Junta examina os diáconos todo ano (§6600) e tem na pauta a “Avaliação da liderança pastoral e da eficácia da Igreja” (§6300).

A avaliação vale nos dois sentidos, como no tempo dos ecônomos de Wesley. Na avaliação da eficácia do ministério pastoral, o Manual encoraja todos os que dela participam a fazê-lo “com graça cristã, oração e jejum, com a direção do Senhor” (§8800), e o mesmo espírito serve para avaliar os líderes. O rodízio também protege: na Junta, “Recomenda-se também que nenhum membro, com exceção do pastor, sirva por mais de seis anos consecutivos” (§6300), e o mesmo princípio evita ministérios com dono.

Líderes jovens

A Igreja faz dos ministérios com crianças e jovens uma prioridade, e “Os ministérios não se concentram apenas em conduzir os jovens à fé em Jesus Cristo, mas também em envolvê-los na membresia da Igreja e no ministério” (§3450). Paulo escreveu ao jovem Timóteo: “Ninguém o despreze por você ser jovem; pelo contrário, seja um exemplo para os fiéis, na palavra, na conduta, no amor, na fé, na pureza” (1Tm 4.12). Ser jovem não é o mesmo que ser recém-convertido.

O Bispo conta que tinha 18 anos quando os líderes da mocidade da sua igreja se desentenderam e, um a um, renunciaram. Ele telefonou aos jovens, e marcaram uma reunião na casa de um deles; a mãe do rapaz, pensando que seria um culto, convidou dez vizinhos não crentes, e ele pregou pela primeira vez na vida: “Cinco das pessoas presentes se converteram”. Ele atribui esse começo ao legado da mocidade, que não queria ver morrer, e à convicção de que o Evangelho precisava ser pregado (Liderança e Legado: Construindo um Impacto que Transcende o Tempo). Na prática (orientação pastoral):

Mulheres na liderança

A Igreja Metodista Livre ordena mulheres, e a base bíblica e histórica está no capítulo 1. Na avaliação do candidato à ordenação, o Manual inclui o apoio “de todo coração” à entrada das mulheres na liderança (§8400); o rito do diaconato se chama “Consagração de Diáconos/Diaconisas” (§9500); e a Comissão para Cuidado de Membros tem “representação de homens e mulheres” (§6330). O Bispo escreve que elas “não devem ser caladas e nem serem restringidas a um papel secundário” (Uma Palavra em prol do Ministério Feminino), e Roberts já dizia em 1878: “Entendem mal as Escrituras os que pensam que elas ensinam que a mulher não pode empregar todos os métodos próprios ao homem para persuadir os outros a vir a Cristo” (Pescadores de Homens, cap. 15).

Sinais de alerta

Narcisismo e autoritarismo. O quadro do capítulo 3 compara a autoridade que serve com a que se serve. No líder em formação, preocupam a busca de título e de palco, a dificuldade de receber correção, o ministério tratado como propriedade, o afastamento de quem pode fazer sombra e a exigência de lealdade pessoal. Jesus deu a medida: “quem quiser tornar-se grande entre vocês, que se coloque a serviço dos outros” (Mc 10.43). O curso do Bispo propõe quatro perguntas, a começar pelo próprio pastor (Imagem, cargos e controle):

  1. As decisões são justificadas com razões que podem ser examinadas?
  2. Quem discorda pode falar sem ser humilhado?
  3. Existe alguém autorizado a corrigir o dirigente?
  4. O acesso ao ministério depende de fidelidade cristã ou de lealdade pessoal irrestrita?

O Bispo acrescenta que “alegar maturidade espiritual não dispensa ninguém de correção ou supervisão” (A autoridade como serviço e a resposta da graça). Wesley, já idoso, escreveu a Asbury: “Eu me esforço para ser pequeno: você se esforça para ser grande”; na leitura do Bispo, ele temia que a autoridade, entendida como serviço delegado, virasse poder pessoal (Cartas sobre a Liderança de Asbury).

Esgotamento. Os mesmos poucos fazem tudo, faltam ao descanso e à família, ficam irritados, não conseguem dizer não ou somem de repente. O curso do Bispo pergunta: “O que acontece, na minha igreja e comigo, com quem adoece, se cansa ou deixa de render?” (A autoridade como serviço e a resposta da graça). Dê a cada pessoa um ministério principal, faça rodízio, combine pausas (o Manual prevê, no ministério de música, licenças por saúde, trabalho ou estudo, §6900) e agradeça em público. O esgotamento do pastor está no capítulo 5; a saúde mental, no capítulo 29.

Integridade. Dinheiro sem prestação de contas, segredos, relações impróprias e desprezo pela política de proteção pedem ação no mesmo dia.

Diante de qualquer sinal, converse em particular, como Wesley pediu a um pregador que tratasse um colega: “com franqueza, mas com ternura” (Cartas de Wesley aos pregadores; Gl 6.1). Afastar alguém de uma função por um tempo não é castigo, e o Bispo lembra que “o perdão não torna automática a volta ao púlpito” (A autoridade como serviço e a resposta da graça). Casos com vítimas seguem os capítulos 27, 28 e 34.

Na prática

Um ano de formação de líderes (orientação pastoral)

  1. Em janeiro, liste os líderes atuais e, ao lado de cada um, um possível aprendiz.
  2. Ore pela lista com a equipe ministerial e faça os convites pessoalmente.
  3. Reúna os aprendizes uma vez por mês para estudo, oração e prática.
  4. Dê a cada um uma tarefa real, seguindo o ciclo da delegação.
  5. No meio do ano, converse com cada líder e cada aprendiz.
  6. Antes da assembleia, lembre à igreja as qualificações do §6200.E e passe à Comissão de Chapas os nomes que amadureceram (capítulo 42).
  7. No fim do ano, agradeça em público a quem serviu e combine as pausas de quem precisa descansar.

Exame do líder (adaptado de “Um chamado à ação”, 1995, Manual do Pastor (1998): Documentos diversos)

Para aprofundar

Base deste capítulo: Manual da Igreja, §3240, §3450, §3460, §5220, §6120, §6200 a §6330, §6600, §6610, §6720, §6900, §8000, §8100, §8400, §8800 e §9500; Manual do Pastor (EUA, 1998), Membresia, liderança e a Junta Administrativa Local e Documentos diversos; Wesley, Explicação sobre o povo chamado metodista, X, e cartas a Trembath (1760), Wride (1785) e Asbury (1788); Roberts, Pescadores de Homens, cap. 15; Orientações Pastorais, Tema VI; estudos e páginas do Bispo citados; curso Narcisismo religioso, aulas 3, 4 e 6.

Organização: Bispo Ildo Mello. Baseado no Manual do Pastor da Igreja Metodista Livre dos EUA (Junta de Bispos, 1998), no Manual da Igreja Metodista Livre do Brasil e em pesquisa nova. Texto preparado com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do organizador. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA).