TEOLOGIA WESLEYANA · A PARTIR DOS 141 SERMÕES
Uma exposição sistemática do ensino de John Wesley, reunida tema por tema a partir dos seus 141 sermões — com todas as referências ligadas ao texto integral de cada sermão, já publicado neste site.
Organizador: Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil
John Wesley (1703–1791) nunca escreveu uma teologia sistemática. Ele foi, antes de tudo, um pregador e um pastor de almas. Sua teologia não nasceu no gabinete, mas no campo aberto, diante de mineiros e operários, e na direção espiritual de milhares de pessoas reunidas nas sociedades metodistas. Por isso, quem quiser conhecer o pensamento de Wesley precisa ir aos seus sermões. Foi ali que ele depositou, de forma deliberada, o corpo de doutrina que desejava transmitir ao povo chamado metodista. Os sermões padrão foram inclusive incorporados ao Modelo de Escritura (Model Deed) como norma doutrinária das capelas metodistas: o pregador que subisse àqueles púlpitos deveria pregar em conformidade com eles.
Esta obra reúne, organiza e expõe o ensino contido nos 141 sermões de Wesley (conforme a edição de Thomas Jackson, 1872, aqui utilizados na tradução em português atual da coleção “Sermões de Wesley na Linguagem de Hoje”). O método foi este: ler os sermões tema por tema, coletar o que Wesley ensina sobre cada tópico da teologia e apresentar esse ensino na ordem clássica dos loci teológicos — Deus, criação, ser humano, pecado, Cristo, Espírito Santo, salvação, igreja, vida cristã e últimas coisas. Em cada afirmação, o leitor encontrará a referência ao sermão de onde ela foi extraída, no formato (Sermão 5, “A justificação pela fé”), podendo assim conferir e aprofundar cada ponto na fonte.
Três advertências ajudam a ler bem esta obra. Primeira: Wesley é um teólogo da ordem da salvação. Seu centro de gravidade não está na especulação sobre os decretos eternos, mas no caminho concreto pelo qual Deus salva o pecador — graça preveniente, convicção, justificação, novo nascimento, santificação, glória. A sistematização aqui oferecida respeita esse centro. Segunda: Wesley é um teólogo conjuntivo. Ele une o que outros separam: fé e santidade, graça livre e responsabilidade humana, religião do coração e meios institucionais de graça, piedade pessoal e misericórdia social. Terceira: Wesley se entendia como homem de um só livro, homo unius libri, e submetia toda doutrina ao teste das Escrituras, lidas com o auxílio da razão, da tradição cristã (especialmente a antiguidade primitiva e a Igreja da Inglaterra) e da experiência dos filhos de Deus.
A obra está organizada em catorze capítulos. Cada capítulo abre com perguntas norteadoras, expõe o ensino de Wesley com as devidas referências e termina com uma síntese e uma breve aplicação pastoral.
O que é, afinal, a religião cristã: um conjunto de opiniões corretas, um sistema de práticas exteriores, ou outra coisa? Que lugar têm a Escritura, a razão e a experiência no conhecimento de Deus? E como distinguir a obra genuína do Espírito do fanatismo que fala em nome de Deus sem autorização?
Antes de qualquer doutrina particular, é preciso entender o que Wesley considera ser a própria religião. Sua resposta é constante do primeiro ao último sermão: a verdadeira religião não é essencialmente exterior, cerimonial ou especulativa; ela é a vida de Deus na alma humana, e sua essência bíblica é “justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). No sermão sobre Marcos 1.15, Wesley é explícito: a verdadeira religião “não consiste em formas externas ou cerimônias, ainda que sejam excelentes”, nem “propriamente em qualquer ação exterior”, nem “simplesmente em ortodoxia ou em opiniões corretas”, pois “uma pessoa pode ser quase tão ortodoxa quanto o próprio diabo e, mesmo assim, permanecer tão distante quanto ele da religião do coração” (Sermão 7, “O caminho para o Reino”). O que resta, então? Justiça — o duplo amor a Deus e ao próximo (Mc 12.30–31); paz — a paz de Deus que excede todo entendimento (Fp 4.7); e alegria no Espírito Santo — a alegria que nasce do testemunho de que somos filhos de Deus (Sermão 7).
Essa definição tem um alcance crítico enorme. Ela desmascara aquilo que Wesley chama de “quase cristão”: a pessoa que possui a honestidade pagã, a forma completa de piedade — evita o mal, frequenta os cultos, ora em família — e até a sinceridade, “um propósito real de servir a Deus”, e ainda assim não é cristã por inteiro (Sermão 2, “O quase cristão”). Wesley chega a apresentar a si mesmo como exemplo: “eu fui até aí por muitos anos… e, contudo, a minha própria consciência me dá testemunho no Espírito Santo de que, todo esse tempo, eu era apenas quase cristão” (Sermão 2). Ser cristão por inteiro é amar a Deus de todo o coração, amar o próximo como Cristo nos amou e ter a fé que opera pelo amor (Gl 5.6) — a “confiança segura de que, pelos méritos de Cristo, os meus pecados estão perdoados e eu estou reconciliado com o favor de Deus” (Sermão 2, citando a Homilia da Igreja da Inglaterra sobre a salvação).
O mesmo diagnóstico reaparece nos sermões tardios. Em “O verdadeiro cristianismo”, pregação preparada para Oxford, Wesley denuncia uma cristandade que mantém opiniões corretas, moralidade exterior e lealdade institucional, mas perdeu a vida de Cristo operando no coração (Sermão 134, “O Verdadeiro Cristianismo”). E em “Causas da ineficácia do cristianismo” ele pergunta por que a religião cristã produz tão pouco fruto mesmo onde é professada — e responde apontando a falta de doutrina completa, de disciplina e de abnegação entre os que se dizem cristãos (Sermão 116, “Causas da Ineficácia do Cristianismo”). O cristianismo bíblico, tal como descrito no sermão sobre Atos 4.31, começa no indivíduo cheio do Espírito, espalha-se de pessoa a pessoa e há de cobrir a terra — mas Wesley encerra perguntando, com ironia dolorosa, onde esse cristianismo de fato existe (Sermão 4, “O cristianismo bíblico”).
Para Wesley, “o fundamento da verdadeira religião está nos oráculos de Deus. Ela está edificada sobre os profetas e os apóstolos, tendo o próprio Jesus Cristo como pedra angular” (Sermão 70, “A razão imparcialmente considerada”). A Escritura é a autoridade final e suficiente. Ao descrever a fé dos protestantes, Wesley formula com precisão o princípio: ela “abrange como necessárias à salvação somente as verdades claramente reveladas nos oráculos de Deus… A Palavra escrita é a única e completa regra de sua fé e de sua prática. Creem em tudo aquilo que Deus declarou e professam fazer tudo aquilo que ele ordenou” (Sermão 106, “Sobre a Fé”). É a regra que ele mesmo aplica na direção espiritual: quando alguém quer conhecer a vontade de Deus, o caminho não é esperar sonhos, visões ou impulsos súbitos, mas consultar “os oráculos de Deus”: “À lei e ao testemunho!” (Is 8.20) — “este é o método geral de conhecer qual é a boa e agradável vontade de Deus” (Sermão 37, “A natureza do entusiasmo”).
Wesley também adverte contra o manuseio desonesto da Bíblia. No sermão sobre 2 Coríntios 2.17, ele condena os que “corrompem a Palavra de Deus” — seja diluindo sua mensagem para agradar os ouvintes, seja pregando-a sem sinceridade, “como de Deus e na presença de Deus” deveria ser (Sermão 136, “Sobre Corromper a Palavra de Deus”). A pregação fiel anuncia todo o conselho de Deus: a lei e o evangelho, a convicção e a consolação.
Wesley enfrentou dois extremos: os que desprezavam a razão como inimiga da fé e os que a exaltavam como guia infalível e suficiente. Sua resposta, no sermão sobre 1 Coríntios 14.20, é um modelo de equilíbrio. De um lado, a razão pode muito: definida como a faculdade do entendimento que opera “pela apreensão simples, pelo juízo e pelo raciocínio”, ela é indispensável nos assuntos da vida comum, nas artes e ciências, e sobretudo na religião — pois “é a razão, auxiliada pelo Espírito Santo, que nos capacita a compreender o que as Escrituras declaram sobre a existência e os atributos de Deus”, o que é o arrependimento, a fé, a justificação, o novo nascimento e a santidade (Sermão 70). Muitos casos de consciência “não podem ser resolvidos sem o mais cuidadoso exercício da razão” (Sermão 70).
De outro lado, a razão sozinha não pode produzir as três coisas de que a alma mais precisa: a fé — “a convicção de fatos que não se veem” (Hb 11.1) —, a esperança bíblica e o amor de Deus. Wesley fala aqui por experiência própria: contando como reuniu os argumentos mais fortes pela existência de Deus e do mundo invisível e, ainda assim, mergulhou “no mais profundo desespero”, conclui que a evidência plena do mundo invisível não é conquista intelectual, mas dom da graça (Sermão 70). A razão é dádiva de Deus e guia ordinário da conduta — “Deus nos deu a nossa própria razão por guia, embora nunca excluindo a secreta assistência do seu Espírito” (Sermão 37) —, mas a religião viva nasce da fé, que é obra divina.
Complementa esse quadro a humildade epistemológica do sermão sobre a imperfeição do conhecimento humano: mesmo nosso conhecimento de Deus, da criação e da providência é parcial e limitado, e essa limitação deve produzir em nós modéstia, tolerância e confiança em Deus, não ceticismo (Sermão 69, “A imperfeição do conhecimento humano”).
Wesley foi acusado de “entusiasta” — no século XVIII, o termo designava o fanático que pretende inspirações divinas que não tem. Sua defesa é notável: em vez de negar a experiência cristã, ele a distingue rigorosamente do fanatismo. O entusiasmo é “uma loucura religiosa que nasce de alguma influência ou inspiração de Deus falsamente imaginada; ao menos, de atribuir a Deus algo que não lhe deve ser atribuído, ou de esperar de Deus algo que dele não se deve esperar” (Sermão 37, “A natureza do entusiasmo”). Wesley cataloga suas espécies: imaginar ter a graça que não se tem — como os que se dizem cristãos sem santidade, sem amor a Deus, sem a mente de Cristo —; imaginar ter dons que não se tem; esperar alcançar o fim sem usar os meios que Deus ordenou (Sermão 37). O fruto do entusiasmo é o orgulho e um espírito indócil, “cada vez mais apegado ao próprio juízo e à própria vontade” (Sermão 37).
A experiência cristã genuína, ao contrário, é aferível pela Escritura, acompanha-se dos frutos do Espírito e caminha pelos meios ordinários da graça. O discernimento da vontade de Deus se faz “em parte pela razão, em parte pela experiência”, sob a assistência pressuposta do Espírito (Sermão 37). No sermão gêmeo, “Advertência contra o fanatismo”, Wesley aplica o mesmo teste à intolerância religiosa: perseguir os que pensam diferente, julgando servir a Deus com isso, é a forma mais destrutiva do falso zelo (Sermão 38, “Advertência contra o fanatismo”).
Um último elemento dos prolegômenos wesleyanos merece destaque: sua doutrina da fé como órgão de percepção espiritual. A fé é “certeza e convicção de coisas que não se veem… uma certeza e convicção divina a respeito de Deus e das coisas de Deus” (Sermão 106, “Sobre a Fé”). Nos sermões tardios, Wesley desenvolve essa ideia: a fé é para o mundo invisível o que os sentidos são para o mundo visível — por ela se abrem os olhos do entendimento e a alma “vê” aquele que é invisível (Sermão 110, “Sobre as Descobertas da Fé”; Sermão 113, “A Diferença Entre Caminhar Pela Vista e Caminhar Pela Fé”). Essa epistemologia da fé sustenta toda a doutrina wesleyana da certeza da salvação, que veremos no capítulo sobre o Espírito Santo.
Note-se ainda a gradação que Wesley estabelece entre as espécies de fé: a do materialista (que mal merece o nome), a do deísta, a do pagão e do muçulmano — “como pouco lhes foi dado, pouco lhes será exigido” —, a do judeu, a do católico romano, a do protestante; e, acima de toda fé de mero assentimento, a fé salvadora, que capacita a “temer a Deus e praticar a justiça”, e a fé filial, pela qual o crente testemunha: “o Filho de Deus me amou e se entregou por mim” (Sermão 106). A distinção entre o servo de Deus (que teme e obedece, e já é aceito) e o filho de Deus (que recebeu o Espírito de adoção) tornou-se, no Wesley maduro, uma das chaves pastorais mais importantes de todo o seu ministério: “Ninguém deve desanimá-lo. Pelo contrário, deve amorosamente incentivá-lo a esperá-lo a qualquer momento” (Sermão 106).
A teologia de Wesley começa, portanto, com uma definição de religião — santidade e felicidade do coração, derramadas na vida — e com um método: a Escritura como regra única e suficiente, a razão como serva indispensável, a experiência como confirmação viva, e a tradição cristã como testemunha (Wesley cita constantemente as Homilias e os Artigos da sua Igreja, como no Sermão 2). Para o púlpito de hoje, isso significa duas vigilâncias simultâneas: contra o formalismo ortodoxo que tem a forma de piedade sem o poder, e contra o subjetivismo que confunde impressões próprias com a voz de Deus. Wesley ensinaria o pregador a levar seu povo à Palavra, com o entendimento aberto pelo Espírito, esperando que a doutrina se torne experiência: justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14.17).
Quem é o Deus que Wesley prega? Como ele trata um mistério como a Trindade — exige que o expliquemos ou apenas que o creiamos? E que diferença faz, para a vida diária, crer que Deus está presente em toda parte e cuida de cada detalhe?
Wesley abre o sermão sobre Marcos 12.32 com uma tese que resume toda a sua doutrina de Deus: “Assim como existe um só Deus, existe também uma só religião e uma só felicidade para todos os seres humanos” (Sermão 114, “A Unidade do Ser Divino”). Deus é eterno — “aquele que existe de eternidade a eternidade” —, onipresente, absolutamente perfeito, onipotente, onisciente, sábio, santo, justo, verdadeiro e, “acima de tudo, misericordioso”, como proclamou a Moisés: “Senhor, Senhor, Deus compassivo e bondoso, tardio em irar-se e grande em misericórdia e fidelidade” (Êx 34.6; Sermão 114). Deus é Espírito, sem corpo, partes ou paixões; criou todas as coisas para a sua glória, e criou o ser humano “para ser feliz nele”: “Deus é o verdadeiro centro dos espíritos, para quem todo espírito criado foi formado” — e Wesley cita com aprovação a máxima agostiniana: “Tu nos fizeste para ti, e nosso coração não encontra descanso até descansar em ti” (Sermão 114).
Daqui decorre a crítica wesleyana à idolatria: tudo o que promete felicidade independente de Deus — criaturas, relações, prazeres, opiniões, práticas religiosas — torna-se ídolo (Sermão 114; cf. Sermão 78, “A idolatria espiritual”). E decorre também sua crítica à “religião racional” do iluminismo: um sistema de benevolência e moralidade sem Deus e sem Cristo não é a religião bíblica, pois o amor ao próximo só alcança sua plenitude quando procede do amor a Deus (Sermão 114).
O sermão sobre a Trindade, escrito às pressas em Cork em 1775, é uma das peças mais originais de Wesley. Ele começa distinguindo opinião de religião: “até a opinião correta está tão distante da religião quanto o oriente do ocidente” — pessoas podem estar certas em tudo e não ter religião alguma, e verdadeiros cristãos podem sustentar muitas opiniões erradas (Sermão 55, “Sobre a Trindade”). Mas há verdades que tocam o coração da fé, e a Trindade é uma delas.
A tese central é de uma elegância notável: Deus nos pede que creiamos no fato revelado — que ele é Três e Um —, não que expliquemos o modo, que ele não revelou. “O mistério não está no fato, mas inteiramente no modo… Creio exatamente tanto quanto Deus revelou, e nada mais” (Sermão 55). Wesley recusa impor qualquer explicação filosófica, e nem sequer insiste nos termos “Trindade” e “Pessoa” para quem tenha escrúpulos com palavras extrabíblicas — “eu mesmo as uso sem escrúpulo, porque não conheço termos melhores” (Sermão 55). E ilustra com bom humor: cremos no sol, na luz, no ar, na terra, na nossa alma e no nosso corpo sem compreender o modo de nenhum deles. “Aqui estão três velas, e há, contudo, uma só luz. Explique-me isto, e eu lhe explicarei o Deus Três-e-Um” (Sermão 55).
Por que, então, a doutrina importa tanto? Porque “o conhecimento do Deus Três-e-Um está entretecido em toda verdadeira fé cristã, em toda religião viva”: na experiência da salvação, “Deus Espírito Santo testemunha que Deus Pai o aceitou pelos méritos de Deus Filho” (Sermão 55). A Trindade não é especulação de escola; é a gramática da experiência cristã. O crente pode não saber formular a doutrina — “a princípio, talvez, nem um em vinte” a perceba —, mas ela está implícita naquilo que ele vive (Sermão 55). No mesmo espírito, o sermão sobre a adoração espiritual apresenta a comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito Santo como o fundamento da vida cristã, e confessa Jesus Cristo como “o verdadeiro Deus e a vida eterna” (1Jo 5.20) — Criador, Sustentador, Redentor e fim de todas as coisas (Sermão 77, “Adoração espiritual”).
No sermão sobre o Salmo 90.2, Wesley se lança ao tema “mais vertiginoso” que a mente pode encarar: a eternidade, “a duração sem limites”, dividida em eternidade passada (sem começo, que pertence só a Deus) e eternidade futura (sem fim, da qual Deus fez participantes anjos e homens) (Sermão 54, “Sobre a eternidade”). “Só Deus habita a eternidade em ambos os sentidos”; o tempo é “um fragmento da eternidade, quebrado nas duas pontas”, situado “entre duas eternidades” (Sermão 54). Deus fez as almas humanas “retratos da sua própria eternidade” — imortais, destinadas a uma eternidade feliz ou infeliz; e Wesley insiste, contra todo determinismo, que a eternidade infeliz é escolhida, jamais imposta por decreto (Sermão 54).
A onipresença recebe um sermão próprio, sobre Jeremias 23.24. A partir do Salmo 139, Wesley afirma que “não existe ponto algum do espaço, dentro ou fora dos limites da criação, no qual Deus não esteja presente” (Sermão 111, “Sobre a Onipresença de Deus”). O argumento central liga onipresença e onipotência: “é absolutamente impossível que algum ser atue onde não se encontra”; logo, “negar a onipresença divina implica também negar sua onipotência” (Sermão 111). Deus atua em toda a criação “sustentando todas as coisas, sem o que tudo voltaria imediatamente ao nada original; governando todas as coisas…; influenciando tudo poderosa e suavemente, sem destruir a liberdade de suas criaturas racionais” (Sermão 111). Note-se, de passagem, essa cláusula tipicamente wesleyana: o governo divino não destrói a liberdade das criaturas.
A aplicação é pastoral: viver diante da presença de Deus produz reverência — “não com o temor dos demônios, que creem e tremem, mas com o temor dos anjos” —, vigilância sobre pensamentos, palavras e ações, e confiança serena: “cuidem para não realizar a menor ação, pronunciar a menor palavra nem permitir o menor pensamento que possa ofendê-lo”, pois o próprio Deus “examina seu coração, sua língua e suas mãos a cada momento” (Sermão 111).
O sermão sobre Lucas 12.7 enfrenta os deístas do século XVIII, que admitiam uma providência “geral” mas julgavam indigno de Deus ocupar-se dos pequenos assuntos de cada pessoa. Wesley desmonta a distinção: não existe geral sem particular, como não há um todo sem partes; e, diante do Altíssimo, “grande” e “pequeno” são termos relativos — “nada é tão pequeno ou insignificante aos olhos dos homens que não seja objeto do cuidado e da providência de Deus, diante de quem nada é pequeno, se toca a felicidade de alguma das suas criaturas” (Sermão 67, “Sobre a providência divina”). Só Deus pode dar relato claro do seu modo de governar o mundo, “e isto ele fez na sua palavra escrita: todas as Escrituras descrevem outras tantas cenas da providência divina”; a Escritura, cita ele, “é a história de Deus” (Sermão 67).
Wesley descreve três círculos concêntricos da providência: o cuidado de Deus abraça toda a humanidade; cerca de modo mais próximo os que professam o nome cristão; e, no círculo mais íntimo, vela sobre cada detalhe da vida dos que o servem em espírito e em verdade (Sermão 67). E responde à pergunta inevitável — por que Deus não elimina de uma vez o pecado e a dor? — com o princípio que atravessa toda a sua teologia: fazê-lo pela força destruiria a liberdade, que é parte da imagem de Deus no homem, e aboliria, junto com o vício, a própria possibilidade da virtude. Deus governa o homem como homem, espírito livre, “oferecendo-lhe todo socorro sem jamais forçá-lo” (Sermão 67).
O sermão sobre a sabedoria dos desígnios de Deus completa o quadro: a sabedoria divina resplandece na criação, na preservação e no governo de todas as coisas, e de modo eminente na história da Igreja — plantada como grão de mostarda, corrompida, reformada e reavivada (Sermão 68, “A sabedoria dos desígnios de Deus”). Ali Wesley registra também, com típico acento arminiano, que Deus poderia abolir todo pecado “por um decreto absoluto e poder irresistível”, mas isso “não implicaria sabedoria alguma”: a sabedoria de Deus está em salvar o homem sem destruir a natureza livre que lhe deu (Sermão 68).
A doutrina de Deus em Wesley é clássica no conteúdo — um só Deus, trino, eterno, onipresente, onipotente, santo e misericordioso — e pastoral no manejo. Ele crê no fato revelado sem exigir a explicação do modo; ele expõe os atributos não para alimentar especulação, mas para formar adoradores vigilantes e confiantes. E em cada ponto aparece a marca arminiana: o Deus soberano governa “poderosa e suavemente”, sem destruir a liberdade que ele mesmo deu. Para o púlpito, a lição é dupla: pregar a grandeza de Deus de modo que produza reverência e não terror servil; e pregar a providência de modo que o crente mais simples saiba que nenhum pardal cai sem o Pai (Mt 10.29) — e que, portanto, pode lançar sobre ele toda a sua ansiedade (1Pe 5.7).
Como saiu o mundo das mãos de Deus? Que lugar ocupam os anjos, bons e maus, no governo divino? E o que é, afinal, o ser humano — essa criatura minúscula diante do universo e, ao mesmo tempo, feita à imagem de Deus?
No sermão sobre Gênesis 1.31, Wesley percorre a obra da criação dia a dia para estabelecer uma tese que sustenta toda a sua teodiceia: o mundo hoje não é como foi no princípio. “Tudo o que foi criado era bom no seu gênero, ajustado ao fim para que foi projetado, adaptado a promover o bem do todo e a glória do grande Criador”; e, reunidas todas as partes num só sistema, “eis que eram muito boas” (Sermão 56, “A aprovação divina de suas obras”). As objeções contra a bondade de Deus — doenças, terremotos, predação — partem do erro de supor que a criação presente é a mesma que saiu das mãos de Deus. Não é: “a morte, a dor e a corrupção entraram pelo pecado do homem, não pelo projeto do Criador” (Sermão 56). Wesley acrescenta, com seu acento característico, que Deus deixou o homem “nas mãos do próprio conselho”, livre para escolher: não retirou a liberdade que dera (Sermão 56). O mesmo argumento reaparece no sermão sobre os terremotos, onde Wesley lê as convulsões da natureza como consequência e sinal de um mundo desordenado pelo pecado, chamando ao arrependimento (Sermão 129, “A Causa e a Cura dos Terremotos”).
Wesley também contempla a criação como uma “cadeia de seres” sem lacunas, “desde uma partícula não organizada de terra ou água até Miguel, o arcanjo” (Sermão 72, “Dos anjos maus”) — uma visão de mundo hierárquica e conexa, típica do seu século, mas posta a serviço de uma afirmação teológica: tudo depende continuamente do poder do Criador, que sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder (Hb 1.3; cf. Sermão 77, “Adoração espiritual”).
Wesley dedica dois sermões aos anjos. Sobre os bons anjos (Hb 1.14), seu objetivo declarado não é alimentar curiosidade especulativa nem devoção angélica, mas mostrar como Deus os emprega como instrumentos de sua providência “em favor dos herdeiros da salvação”: são criaturas santas que servem ao Criador e cumprem suas ordens — não agem independentemente e não devem ser adoradas (Sermão 71, “Dos bons anjos”). Wesley distingue com honestidade o que a Escritura declara do que ele apenas conjectura (como a participação de anjos em livramentos e direções providenciais), e o editor deve fazer o mesmo.
Sobre os anjos maus (Ef 6.12), Wesley quer despertar o cristão para a realidade do conflito espiritual, “evitando que atribua toda oposição apenas às pessoas ou às circunstâncias visíveis” (Sermão 72, “Dos anjos maus”). Satanás e seus anjos são criaturas caídas, organizadas, ativas na tentação — tema que Wesley desenvolve pastoralmente no sermão sobre as artimanhas do diabo contra a obra de Deus (Sermão 42, “As estratégias de Satanás”) e no sermão sobre a tentação (Sermão 82, “Sobre a tentação”). Mas o tom nunca é de pânico: o cristão não deve viver dominado pelo medo, e sim “revestido de santidade, fé, esperança, oração e confiança no poder de Deus” (Sermão 72).
Wesley pregou duas vezes sobre a pergunta do Salmo 8: “Que é o homem, para que te lembres dele?” No primeiro sermão, contempla a pequenez do ser humano diante da imensidão do universo — valendo-se da astronomia do seu tempo — não para diminuir a humanidade, mas para engrandecer o amor de Deus, “que se importa com criaturas tão pequenas e passageiras” (Sermão 103, “O Que É o Ser Humano”, sobre Sl 8.3–4). No segundo, volta a pergunta para si mesmo: “O que sou eu?” — e examina o corpo, “uma máquina extraordinária, assombrosamente e maravilhosamente feita” (Sl 139.14), a alma, a liberdade, a morte e a finalidade da existência (Sermão 109, “O Que É o Ser Humano”, sobre Sl 8.4). A vida presente, ensina o sermão sobre o sonho, é como um sonho do qual despertamos na eternidade — e só a fé nos acorda para o mundo real e permanente (Sermão 121, “A Vida Humana É um Sonho”).
A antropologia positiva de Wesley aparece com toda a clareza no sermão sobre a libertação geral, ao descrever Adão no paraíso. O homem foi feito à imagem de Deus, e essa imagem natural consiste “no poder de automovimento, no entendimento, na vontade e na liberdade” — pois sem liberdade o homem “não seria mais capaz de servir ao Criador do que um pedaço de terra ou de mármore” (Sermão 60, “A libertação geral”). E acima de tudo: “esta era a sua mais alta excelência, mais valiosa que todo o resto — ele era uma criatura capaz de Deus, capaz de conhecer, amar e obedecer ao seu Criador” (Sermão 60). No estado original, o entendimento era sem erro, a vontade sem inclinação má, a liberdade guiada pelo entendimento; da retidão fluía a felicidade, e o homem era imortal (Sermão 60). Aos elementos da imagem natural (espiritualidade, entendimento, vontade, liberdade) e da imagem política (o domínio sobre as criaturas, pelo qual o homem era o canal das bênçãos de Deus para o mundo inferior), Wesley soma a imagem moral: justiça e santidade verdadeiras (Ef 4.24), o conhecimento e o amor de Deus — que é precisamente o que a queda destruiu e a redenção restaura (Sermão 60; cf. Sermão 45, “O novo nascimento”).
O sermão sobre Romanos 8.19–22 merece destaque por sua sensibilidade rara no século XVIII: Wesley pergunta pelo sofrimento dos animais. Se “a sua misericórdia está sobre todas as suas obras” (Sl 145.9), por que sofrem as criaturas? A resposta segue o mesmo arco de toda a sua teologia: no princípio, a criação animal era feliz, recebendo as bênçãos de Deus através do homem; agora, está “sujeita à futilidade” por causa da queda humana, presa da predação, da doença e da crueldade do próprio homem; e no fim será “libertada, restaurada e elevada”, participando à sua medida da liberdade dos filhos de Deus, no novo céu e na nova terra em que “o lobo habitará com o cordeiro” (Is 11.6; Sermão 60, “A libertação geral”). Daí o apelo à compaixão: se o Pai não esquece um só pardal (Lc 12.6), como podemos maltratar as criaturas que ele ama? E daí também a definição do propriamente humano: “o que distingue o homem do bruto é ser capaz de Deus” (Sermão 60).
A doutrina da criação em Wesley cumpre três funções: defende a bondade de Deus contra as objeções tiradas do estado presente do mundo, situa o ser humano — pequeno diante do cosmos, grande por ser capaz de Deus — e alarga o horizonte da esperança até a restauração de todas as coisas. Para a pregação de hoje, ela oferece um antídoto contra dois erros: o naturalismo que lê o mundo sem Criador e o espiritualismo que despreza o mundo material. O crente wesleyano louva a Deus pelas obras das suas mãos, cuida delas como mordomo, e espera “novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça” (2Pe 3.13).
Por que há dor e mal no mundo, se Deus é bom? O ser humano é naturalmente bom, apenas ferido, ou está profundamente corrompido? E que diferença essa doutrina faz para o modo como entendemos a própria religião cristã?
O sermão sobre Gênesis 3.19 abre com a pergunta mais antiga do coração humano e responde com clareza cristalina: “Por que há dor no mundo, visto que Deus é bondoso para com todos? Porque há pecado. Não houvesse pecado, não haveria dor. E por que há pecado no mundo? Porque o homem foi criado à imagem de Deus… dotado de liberdade — o poder de dirigir os próprios afetos e ações, a capacidade de determinar-se, de escolher o bem ou o mal” (Sermão 57, “Sobre a queda do homem”). A liberdade que nos faz semelhantes a Deus é a mesma que tornou possível a queda: sem ela, o homem “seria tão incapaz de santidade, ou de qualquer virtude, quanto uma árvore ou um bloco de mármore” (Sermão 57). E, “tendo esse poder de escolher o bem ou o mal, ele escolheu o mal”.
A anatomia da queda é precisa. O pecado começou pela incredulidade: “Ela creu numa mentira; deu mais crédito à palavra do diabo que à palavra de Deus” (Sermão 57). Eva foi enganada; Adão, não: “ele pecou de olhos abertos”, e Wesley acolhe a sentença de que “Adão pecou no coração antes de pecar por fora — por uma idolatria interior, amando a criatura mais que o Criador” (Sermão 57). À perda da inocência seguiu-se imediatamente a perda da felicidade e da sabedoria: o homem que se esconde de Deus entre as árvores mostra um entendimento já entenebrecido (Sermão 57). O mesmo arco aparece no sermão sobre o mistério da iniquidade: “Deus fez o homem reto, perfeitamente santo e perfeitamente feliz; mas, rebelando-se contra Deus, o homem destruiu a si mesmo, perdeu o favor e a imagem de Deus, e legou o pecado, com o seu companheiro, a dor, a si e a toda a sua posteridade” (Sermão 61, “O mistério da iniquidade”).
Mas Wesley nunca para na queda. O sermão termina em esperança, com a ousadia da felix culpa: o remédio universal para o mal universal é o segundo Adão, que morre por todos os que morreram no primeiro; “onde o pecado abundou, superabundou a graça” (Rm 5.20), e em Cristo podemos ganhar mais do que perdemos em Adão (Sermão 57; cf. Sermão 59, “O amor de Deus ao homem caído”).
O sermão sobre Gênesis 6.5 é a exposição doutrinária central. Contra “a visão otimista segundo a qual o ser humano seria naturalmente bom, autossuficiente e capaz de alcançar a virtude por suas próprias forças”, Wesley sustenta que, “em seu estado natural e sem a ação da graça, os propósitos do coração humano continuam sendo maus, somente maus e continuamente maus” (Sermão 44, “O pecado original”). A corrupção não se limita a vícios isolados: alcança o entendimento, a vontade, os afetos e os desejos — todas as capacidades da alma.
Wesley desdobra essa corrupção em quatro raízes. Primeira, o ateísmo prático: “sem conhecer a Deus, não podemos amá-lo… ninguém ama naturalmente a Deus; ele não possui sabor para nossa alma” (Sermão 44). Segunda, a idolatria: “em seu estado natural, todo ser humano é idólatra… Todo orgulho é idolatria, pois atribui à criatura aquilo que pertence ao Criador” (Sermão 44). Terceira, a vontade própria: “Satanás imprimiu sua imagem no coração humano por meio da vontade própria… Todo ser humano nasce com o mesmo princípio” (Sermão 44). Quarta, o amor ao mundo: “buscar felicidade na criatura em vez de buscá-la no Criador é tão natural para nós quanto amar nossa própria vontade” (Sermão 44) — os desejos da carne, os desejos dos olhos e a soberba da vida (1Jo 2.16). O sermão sobre o caráter enganoso do coração (Jr 17.9) retoma o diagnóstico: o pecado procede de raízes interiores — orgulho, vontade própria, independência de Deus, amor desordenado pelas criaturas (Sermão 123, “O Caráter Enganoso do Coração Humano”). E o sermão sobre viver sem Deus mostra o resultado: o ateísmo prático de quem confessa que Deus existe, mas vive “sem comunhão com ele, sem reconhecê-lo nos pensamentos, nas escolhas e na vida cotidiana” (Sermão 125, “Sobre Viver Sem Deus”).
Wesley extrai do pecado original três conclusões que definem o próprio cristianismo. Primeira: “aprendemos uma diferença fundamental entre o cristianismo, considerado como sistema de doutrinas, e o paganismo mais refinado”. O paganismo reconhece vícios; só o cristianismo conhece a queda e, portanto, a corrupção total: “o cristianismo declara que todos nascem em pecado; que existe em cada pessoa uma mentalidade carnal inimiga de Deus e incapaz de se submeter à sua lei (Rm 8.7); e que, na natureza caída, não habita bem espiritual algum” (Sermão 44). Segunda: “todos os que negam essa verdade — qualquer que seja o nome utilizado — permanecem pagãos no ponto fundamental que diferencia o paganismo do cristianismo… Se você reconhece isso, nesse ponto pensa como cristão. Se nega, continua sustentando a visão pagã da natureza humana” (Sermão 44). Terceira, e mais importante: “aprendemos qual é a verdadeira natureza da religião de Jesus Cristo. Ela é o método de Deus para curar uma alma enferma. O grande Médico aplica os remédios necessários para restaurar a natureza humana, corrompida em todas as suas capacidades” (Sermão 44). A religião é therapeia psyches — cura da alma: Deus cura o ateísmo pelo conhecimento de si em Cristo, o orgulho pela humildade, a vontade própria pela entrega, o amor ao mundo pelo amor a Deus.
É preciso ler a doutrina wesleyana do pecado original junto com a da graça preveniente, sob pena de grave distorção. Wesley não afirma que todas as pessoas sejam tão más quanto poderiam ser, nem que nunca pratiquem atos exteriormente bons; ele afirma que todo movimento verdadeiramente santo depende da graça de Deus, “que antecede e capacita a resposta humana” (Sermão 44, nota introdutória; a doutrina será desenvolvida no capítulo 7). O próprio sermão registra que as diferenças entre as pessoas se devem ao temperamento, à educação “e às diferenças produzidas pela graça preveniente” (Sermão 44). Em outras palavras: o que de bom há no homem natural já não é natureza pura, é graça. Wesley é tão pessimista quanto Agostinho a respeito da natureza, e tão otimista quanto possível a respeito da graça. Por isso pôde dizer, no sermão sobre a sabedoria dos desígnios de Deus, que a doutrina da perfeição cristã — avançar, pela graça, até o amor perfeito — não é heresia, mas o alvo do evangelho (Sermão 68).
O sermão sobre o mistério da iniquidade acrescenta a dimensão histórica: a corrupção não operou apenas no indivíduo, mas na própria igreja ao longo dos séculos — e o golpe mais duro não veio da perseguição, mas da prosperidade, quando Constantino “encheu a igreja de riquezas, honras e poder” (Sermão 61). O veneno recorrente do cristianismo genuíno, em toda era, é a riqueza — tema que voltará no capítulo de ética.
A antropologia de Wesley sustenta dois polos sem soltar nenhum: o realismo sobre o pecado — universal, interior, total na extensão — e a esperança da cura — universal na oferta, interior na operação, total no alvo. Para o púlpito, isso proíbe tanto o moralismo que trata o pecador como alguém que só precisa de bons conselhos, quanto o desespero que o trata como caso perdido. Ninguém está são; ninguém está além do alcance do Médico. A pregação wesleyana do pecado nunca é fim em si: é o bisturi que prepara a alma para o remédio da graça (Mc 2.17).
Quem é Jesus Cristo para Wesley — e por que a confissão da sua plena divindade não é negociável? Para que ele veio ao mundo? E o que significa dizer que “o Senhor é justiça nossa”?
Wesley não dedicou muitos sermões à cristologia especulativa, mas sua confissão é firme e reiterada. No sermão sobre a adoração espiritual, ele expõe 1 João 5.20 — “este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” — apresentando Cristo como Criador, Sustentador, Preservador, Redentor, Governador e fim de todas as coisas (Sermão 77, “Adoração espiritual”). No sermão sobre a Trindade, observa que negar que Cristo seja o Deus supremo é, no fundo, negar que seja Deus, “a menos que se pretenda afirmar que existem dois deuses: um grande e outro pequeno” (Sermão 55, “Sobre a Trindade”); e lembra o embaraço de Sócino, cujos seguidores se recusavam a adorar a Cristo justamente por lhe negarem a divindade (Sermão 55).
O sermão sobre 2 Coríntios 5.16 combate duas formas de “conhecer Cristo segundo a carne”: rebaixá-lo a mero homem ou a ser divino inferior ao Pai (contra socinianos e arianos), e tratá-lo com familiaridade sentimental incompatível com a reverência devida a Deus (Sermão 117, “Sobre Conhecer Cristo Segundo a Carne”). O valor permanente desse sermão está no equilíbrio: Jesus é verdadeiramente humano — nasceu, sofreu, morreu —, mas é o Filho eterno, “digno da mesma honra e adoração oferecidas ao Pai” (Jo 5.23); e o amor fervoroso a ele deve andar unido ao santo temor (Sermão 117).
O sermão sobre 1 João 3.8 responde à pergunta mais essencial: para que Cristo se manifestou? “Para destruir as obras do diabo” — isto é, o pecado e todos os seus frutos. Wesley começa mostrando a impotência de toda ética sem redenção: os moralistas pagãos pintaram a beleza da virtude, mas “tudo o que se pode dizer da beleza da virtude e da deformidade do vício não consegue resistir a um só apetite ou paixão desregrada, muito menos vencê-lo e curá-lo” (Sermão 62, “O propósito da vinda de Cristo”). O remédio não está “em si mesmos, na razão, na filosofia — caniços quebrados, bolhas, fumaça!”, mas em Deus somente (Sermão 62). A “sede de glória” que o filósofo diagnosticou sem saber curar, e o grito de Medeia — “vejo o melhor e o aprovo; mas sigo o pior” —, ecoando Romanos 7.19, só encontram resposta na manifestação do Filho de Deus (Sermão 62).
Wesley percorre então as manifestações do Filho — da criação ao Calvário e a Pentecostes — até a mais preciosa de todas: a manifestação interior, quando Cristo se revela no coração do crente (Gl 1.16; Sermão 62). E chega àquela que talvez seja a definição mais límpida de religião em todo o corpus wesleyano: a verdadeira religião é a restauração do homem, por aquele que esmaga a cabeça da serpente (Gn 3.15), a tudo o que a antiga serpente lhe tirou — “não só ao favor, mas à imagem de Deus” (Sermão 62). Segue-se a advertência: não confundir religião com forma exterior, nem com moralidade, nem — “o mais vão dos sonhos” — com mera ortodoxia; religião é a fé que opera pelo amor (Gl 5.6) e a destruição de todo pecado nesta vida presente, “pela graça d’Aquele que salva perfeitamente os que a ele se chegam” (Hb 7.25; Sermão 62). Aqui se vê com clareza a dupla dimensão da obra de Cristo em Wesley: ele morre por nós (expiação, perdão) e opera em nós (cura, restauração da imagem). As duas são inseparáveis.
O sermão sobre Jeremias 23.6 é uma peça rara: um acordo de paz teológico. A doutrina da justiça imputada dividia os evangélicos do século XVIII (a controvérsia com os calvinistas sobre a “justiça imputada” como capa para o antinomianismo estava acesa), e Wesley sustenta que boa parte da briga “está mais nas palavras do que nos sentimentos” (Sermão 20, “O Senhor, justiça nossa”). Quanto à substância, ele não hesita: essa verdade “penetra fundo na natureza do cristianismo e, de certo modo, sustenta toda a sua estrutura”; dela se pode dizer o que Lutero disse da justificação: é articulus stantis vel cadentis ecclesiae, “o artigo com o qual a Igreja se mantém em pé ou cai” (Sermão 20).
Wesley distingue a justiça divina de Cristo (como Deus eterno) e sua justiça humana, interior e exterior — sua santidade perfeita e sua obediência completa até a morte. É esta justiça humana, ativa e passiva, que é imputada a todo crente: no momento em que crê, Deus o aceita e perdoa “por causa do que Cristo fez e sofreu”, e não por qualquer justiça própria (Sermão 20). Wesley defende a expressão “justiça imputada” contra os que a rejeitam, mas também a protege dos que a usam “como capa para viver no pecado”: a mesma fé que recebe a justiça de Cristo imputada recebe também o Espírito que implanta a justiça no coração (Sermão 20). Justificação e santificação, imputação e impartição, caminham juntas — este é o coração do equilíbrio wesleyano, que o capítulo 7 desenvolverá.
O sermão sobre Romanos 5.15 completa a cristologia wesleyana com uma teodiceia ousada. Por que Deus permitiu a queda, se a previa? “Ele sabia que não é assim o dom gratuito como a ofensa; que o mal resultante desta não se compara ao bem resultante daquele… se pela queda o pecado abundou sobre toda a terra, muito mais superabundou a graça — sim, e a cada indivíduo da raça humana, a menos que fosse por sua própria escolha” (Sermão 59, “O amor de Deus ao homem caído”). Sem a queda não haveria encarnação nem cruz: não haveria como amar a Deus como Redentor, nem fé no sangue de Cristo, nem as virtudes que só nascem no sofrimento — paciência, mansidão, misericórdia (Sermão 59). A queda abriu a possibilidade de uma santidade e de uma glória maiores do que Adão jamais conheceria.
Duas cláusulas desse sermão têm peso dogmático. Primeira: a extensão universal do remédio — a graça superabundou “a cada indivíduo da raça humana”. A expiação de Cristo é para todos; nenhum ser humano está fora do seu alcance (cf. Sermão 128, “A Graça Livre”, no capítulo 8). Segunda: a negação frontal de qualquer decreto de reprovação — “tal decreto jamais existiu… ninguém jamais foi ou pode ser perdedor, senão por sua própria escolha” (Sermão 59). Quem se perde, perde-se por recusar a graça, não por decreto eterno. Note-se bem: isso não é universalismo — a salvação permanece condicionada à fé em Cristo —, é universalidade da oferta e suficiência da expiação.
A cristologia de Wesley é a cristologia dos credos — verdadeiro Deus e verdadeiro homem — posta a serviço da soteriologia: Cristo é o grande Médico que veio destruir as obras do diabo, a nossa justiça diante de Deus e o restaurador da imagem divina em nós. Para a pregação, dois cuidados wesleyanos permanecem atuais. Primeiro, não pregar um Cristo pela metade: nem só perdão sem transformação, nem só exemplo moral sem expiação. Segundo, guardar o equilíbrio entre intimidade e reverência: o Cristo que nos amou e se entregou por nós (Gl 2.20) é o mesmo diante de quem todo joelho se dobrará (Fp 2.10).
Quem é o Espírito Santo e qual é a sua obra na salvação? Pode o cristão comum ter certeza de que é filho de Deus — e como distinguir essa certeza da presunção? E o que acontece quando resistimos à obra do Espírito?
O sermão de Pentecostes de 1736, que encerra a coleção de Jackson, mostra que já o jovem Wesley entendia a salvação pneumatologicamente: não apenas perdão, mas “restauração da presença e da imagem de Deus no ser humano mediante o Espírito Santo”, tornada possível pela encarnação, morte e ressurreição de Cristo — uma participação real, pela graça, “na vida, na santidade e no amor de Deus” (2Pe 1.4; Sermão 141, “Sobre o Espírito Santo”). O Espírito não é força impessoal, mas “a presença pessoal de Deus que convence, orienta, consola e santifica” (Sermão 138, “Sobre Entristecer o Espírito Santo”). Toda a ordem da salvação, que o próximo capítulo expõe, é obra sua: ele convence do pecado, gera a fé, aplica o perdão, regenera, testifica a adoção e santifica.
O sermão sobre Romanos 8.15 organiza a experiência religiosa em três estados. O homem natural dorme: indiferente a Deus, sente uma falsa segurança — não teme porque não vê. O homem “debaixo da lei” despertou: o “espírito de escravidão” o convenceu do pecado; ele reconhece a culpa, luta, mas vive dominado pelo medo e pela impotência — vê o melhor e segue o pior (Rm 7.19). O homem “debaixo da graça” recebeu o “Espírito de adoção”: o perdão, o poder do Espírito e o testemunho interior de que é filho de Deus, clamando “Aba, Pai!” (Rm 8.15; Sermão 9, “O espírito de escravidão e o Espírito de adoção”). Wesley não oferece essas etapas como classificação teórica, mas como espelho pastoral: estou adormecido, lutando sem vitória, ou vivendo pela fé como filho amado? A distinção madura entre o “servo” e o “filho” de Deus (Sermão 106, “Sobre a Fé”) suaviza o esquema sem aboli-lo: o que teme a Deus e pratica a justiça já é aceito como servo, mas deve ser incentivado a esperar, a qualquer momento, a fé filial.
Aqui está uma das contribuições mais características de Wesley à teologia cristã. Ele dedicou dois sermões ao testemunho do Espírito (Rm 8.16), separados por mais de vinte anos, e manteve a mesma definição: “O testemunho do Espírito é uma impressão interior na alma, pela qual o Espírito de Deus comunica direta e imediatamente ao meu espírito que sou filho de Deus; que Jesus Cristo me amou e entregou-se por mim; que todos os meus pecados foram apagados; e que eu, até mesmo eu, fui reconciliado com Deus” (Sermão 10, “O testemunho do Espírito — primeira exposição”; Sermão 11, “O testemunho do Espírito — segunda exposição”). “Depois de refletir durante mais vinte anos sobre essa definição, não vejo razão para retirar qualquer parte dela” (Sermão 11). Wesley esclarece que não se trata necessariamente de voz exterior ou interior, nem sempre de um texto aplicado ao coração: o modo é inefável; o conteúdo é a filiação (Sermão 11).
Ao lado desse testemunho direto há o testemunho indireto, o “testemunho do nosso próprio espírito”: “a Palavra de Deus afirma que todo aquele que possui o fruto do Espírito é filho de Deus; nossa experiência nos diz que possuímos o fruto do Espírito; dessas duas premissas, concluímos racionalmente: portanto, sou filho de Deus” (Sermão 11; desenvolvido no Sermão 12, “O testemunho de nosso próprio espírito”, sobre a alegria da consciência limpa, 2Co 1.12). A questão controversa não é se existe testemunho, mas se existe um testemunho direto, anterior e distinto da inferência; e Wesley responde que sim, pela exegese de Romanos 8.16 e Gálatas 4.6 “confirmada pela experiência de incontáveis filhos de Deus” (Sermão 11). A ordem importa: “precisamos amar a Deus antes de podermos ser santos; e não podemos amar a Deus antes de sabermos que ele nos ama — nós amamos porque ele nos amou primeiro (1Jo 4.19)”; logo, o testemunho do Espírito precede, “pela própria natureza das coisas”, o testemunho do nosso espírito (Sermão 10).
A salvaguarda contra o fanatismo é dupla e rigorosa. Primeira: “o resultado imediato desse testemunho é o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, bondade (Gl 5.22–23)… Sem esses frutos, o testemunho não pode permanecer” (Sermão 11). Quem alega o testemunho enquanto pratica as obras do diabo é “verdadeiramente fanático, no pior sentido da palavra” (Sermão 10). Segunda: os dois testemunhos são inseparáveis — nem religião formal que nega a experiência, nem experiência que dispensa a santidade (Sermão 11). A certeza wesleyana, note-se, é certeza da graça presente, não da perseverança incondicional: ela pode ser enfraquecida ou perdida “por tudo aquilo que entristece o Espírito Santo de Deus” (Sermão 11).
O sermão sobre Romanos 8.1 responde à angústia do crente sincero que ainda percebe em si fraquezas e inclinações más: “Isso significa que ele continua condenado diante de Deus?” Não: “quem está em Cristo foi perdoado, recebeu o Espírito Santo e já não vive sob o domínio do pecado. Embora ainda esteja caminhando para a plena santificação, não precisa viver atormentado pela culpa, pelo medo ou pela insegurança” (Sermão 8, “Os primeiros frutos do Espírito”). Wesley distingue cuidadosamente a tentação, a falha involuntária e o pecado deliberado: não há condenação pelo que resta de corrupção enquanto o crente não consente com ela, nem pelas fraquezas involuntárias; há perigo real, porém, no pecado voluntário e na negligência consciente. “A ausência de condenação não é licença para pecar: ela pertence àqueles que permanecem em Cristo e caminham segundo o Espírito” (Sermão 8).
O sermão sobre Efésios 4.30 (revisado por Wesley a partir de William Tilly) completa o quadro com a advertência: é possível entristecer o Espírito — “resistir conscientemente à sua obra e desprezar a graça oferecida” (Sermão 138, “Sobre Entristecer o Espírito Santo”). A linguagem é analógica — Deus não tem paixões instáveis —, mas a realidade é séria: “a resistência persistente à graça enfraquece nossa sensibilidade espiritual e poderá conduzir-nos ao afastamento da comunhão com Deus” (Sermão 138). Esta doutrina é o reverso pastoral do sinergismo wesleyano: a graça que não é irresistível pode ser resistida — e resistida até a perda.
A pneumatologia de Wesley é experiencial sem ser subjetivista: o Espírito age direta e pessoalmente na alma, mas sua ação é aferida pela Escritura e pelos frutos. A doutrina da certeza — talvez o presente mais precioso do metodismo à igreja — liberta o crente tanto do tormento da dúvida perpétua quanto da presunção sem santidade. Ao pastor, ela ensina a não entristecer os que Deus não entristeceu: ao servo sincero que ainda não tem a certeza filial, não se diz “você é filho do diabo”, mas “continue clamando, e você verá coisas maiores do que estas” (Sermão 106).
Onde começa a salvação: na decisão humana ou na graça de Deus? O que é, exatamente, a justificação — e quem pode ser justificado? Que diferença há entre ser perdoado e nascer de novo? E que lugar têm as obras nesse caminho?
O sermão que abre a coleção — pregado dezoito dias depois de Aldersgate — é o manifesto de toda a soteriologia wesleyana: “Todas as bênçãos que Deus concede ao ser humano vêm unicamente de sua graça, de sua bondade, de seu favor — um favor livre e imerecido, ao qual o homem não tem o menor direito… A graça é a fonte; a fé, a condição da salvação” (Sermão 1, “A salvação pela fé”, sobre Ef 2.8). Nada do que somos ou fazemos merece coisa alguma diante de Deus; “qualquer justiça que se encontre no ser humano é, também ela, dom de Deus” (Sermão 1). Wesley é, nesse ponto, integralmente protestante: sola gratia, sola fide. A originalidade está no modo como ele articula essa graça ao longo de todo o caminho da vida — e é o sermão sobre Efésios 2.8 pregado quase cinquenta anos depois, “O caminho bíblico da salvação”, que oferece o mapa completo: “a ação da graça de Deus desde os primeiros movimentos da graça preveniente até a plena santificação e a glória eterna” (Sermão 43, “O caminho bíblico da salvação”).
A pedra angular do arminianismo wesleyano está formulada com todas as letras: “Entendida em seu sentido mais amplo, a salvação inclui tudo aquilo que Deus realiza por meio do que normalmente é chamado de ‘consciência natural’, mas que deveria ser chamado mais corretamente de graça preveniente. Inclui todos os movimentos do Pai atraindo o ser humano (Jo 6.44); todos os desejos de buscar a Deus que, quando não são sufocados, tornam-se cada vez mais fortes; e toda a luz com que o Filho de Deus ilumina cada pessoa que vem ao mundo (Jo 1.9)… e as convicções que o Espírito produz, em diferentes momentos, no coração de cada ser humano” (Sermão 43). Ninguém está em estado de pura natureza: a todo ser humano é dada alguma medida de graça que precede qualquer decisão. É por isso que Wesley pode sustentar simultaneamente a corrupção total (capítulo 4) e a responsabilidade universal: o que há de bom no homem já é graça; e essa graça pode ser sufocada — “a maioria das pessoas procura sufocar essas convicções o mais rapidamente possível” (Sermão 43). O apelo do sermão sobre Efésios 5.14 pertence a esse momento do caminho: “Desperta, tu que dormes” — a pregação existe para acordar o pecador da falsa paz (Sermão 3, “Desperta, tu que dormes”, de Charles Wesley, incluído por John na coleção padrão).
Antes da fé justificadora vem o arrependimento, que Wesley chama de “o pórtico da religião”: “reconhecer a verdadeira condição de vocês… a convicção do pecado e o conhecimento de si mesmo” (Sermão 7, “O caminho para o Reino”). O pecador convicto reconhece a corrupção da sua natureza, a multidão dos seus pecados, a justiça da sentença que pesa sobre ele — e a sua completa impotência: “Você nada pode fazer… Reconhecer profundamente o quanto você está desamparado, culpado e contaminado pelo pecado é aquele arrependimento que precede o Reino de Deus” (Sermão 7). O sermão sobre a justiça da fé (Rm 10.5–8) contrasta a aliança de obras — “faça isto e viverás”, caminho para sempre fechado ao pecador — com a aliança da graça, cuja palavra “está perto de você, na sua boca e no seu coração” (Sermão 6, “A justiça da fé”). E a porta estreita do Sermão do Monte é lida na mesma chave: o caminho é estreito não porque Deus regateie a graça, mas porque exige abandonar o pecado e a justiça própria (Sermão 31, “A porta estreita”).
O sermão sobre Romanos 4.5 é o tratado wesleyano da justificação. Primeiro, o que ela não é: não é ser tornado justo de fato (isso é a santificação, “que é, sem dúvida, em certo grau, o fruto imediato da justificação, mas é um dom de Deus distinto, de natureza totalmente diferente”); nem é uma ficção jurídica, como se Deus fingisse que somos o que não somos (Sermão 5, “A justificação pela fé”). O que ela é: “A noção bíblica e simples de justificação é o perdão, a remissão dos pecados. É aquele ato de Deus Pai pelo qual, por causa da propiciação feita pelo sangue do seu Filho, ele manifesta a sua justiça pela remissão dos pecados passados (Rm 3.25)… Deus não infligirá àquele pecador o que ele merecia sofrer, porque o Filho do seu amor sofreu por ele” (Sermão 5).
Quem é justificado? A resposta de Wesley é deliberadamente escandalosa, porque é a de Paulo: “os ímpios… e ninguém senão o ímpio. Não é um santo, mas um pecador, que é perdoado — e perdoado na condição de pecador. Deus não justifica os piedosos, mas os ímpios; não os que já são santos, mas os que não o são… Afirmar o contrário seria dizer que o Cordeiro de Deus tira apenas os pecados que já haviam sido tirados antes” (Sermão 5). As obras feitas antes da justificação, por melhores que pareçam, “não são boas no sentido cristão, porquanto não brotam da fé em Jesus Cristo” (Sermão 5, citando os Artigos da Igreja da Inglaterra). E sob que condição o ímpio é justificado? “Somente pela fé” — a fé que não é mero assentimento, mas “plena confiança no sangue de Cristo; a confiança nos méritos de sua vida, morte e ressurreição; o repousar sobre ele como nossa expiação e nossa vida” (Sermão 1). Fé que se distingue da fé do pagão, da fé do demônio — que crê e treme (Tg 2.19) — e até da fé dos apóstolos antes da Páscoa, porque “reconhece a necessidade e o mérito da sua morte e o poder da sua ressurreição” (Sermão 1).
A salvação recebida por essa fé é presente: “não ‘vocês serão salvos’, mas ‘vocês são salvos, por meio da fé’… salvos do pecado: da culpa, pelo perdão; do medo servil, pelo Espírito de adoção; e do poder do pecado”, pois “aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado” (1Jo 3.9; Sermão 1). Wesley enfrenta as objeções — que a doutrina levaria ao orgulho, à licenciosidade, ao desespero — e responde com a Homilia da Igreja: pregar a salvação pela fé somente é “escavar, subverter e destruir todos os outros fundamentos”, e por isso mesmo é a pregação que produz santidade verdadeira (Sermão 1).
“Se algumas doutrinas podem ser corretamente chamadas fundamentais para o cristianismo, certamente são estas duas: a justificação e o novo nascimento” (Sermão 45, “O novo nascimento”). A distinção é a espinha dorsal da soteriologia wesleyana: “Na justificação, Deus realiza uma obra por nós, perdoando nossos pecados. No novo nascimento, realiza uma obra em nós, renovando nossa natureza caída. Essas duas obras acontecem no mesmo momento, mas não são idênticas. A justificação transforma nosso relacionamento com Deus; a regeneração transforma nosso coração” (Sermão 45). Por que é preciso nascer de novo? Porque nascemos com a natureza corrompida (capítulo 4): a mudança relacional sem mudança de natureza deixaria o homem incapaz de santidade e, portanto, de felicidade — “sem santidade ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14; Sermão 45). O que é o novo nascimento? A grande mudança que Deus opera na alma quando a vivifica: os “olhos do entendimento” se abrem, os sentidos espirituais despertam, e a alma passa a viver para Deus — análoga ao nascimento físico: o feto tem olhos e ouvidos, mas não vê nem ouve até nascer (Sermão 45; cf. Sermão 19, “O grande privilégio daqueles que nasceram de Deus”, onde a vida espiritual é descrita como “respiração” contínua: Deus sopra graça na alma, e a alma devolve a Deus louvor e oração).
As marcas do novo nascimento são três: a fé — não a “fé morta” da opinião, mas a que dá poder sobre o pecado e paz com Deus; a esperança viva, acompanhada do testemunho do Espírito; e o amor — a Deus e ao próximo, que se manifesta na obediência alegre aos mandamentos (Sermão 18, “As marcas do novo nascimento”). E Wesley não recua diante da consequência pastoral: o batismo é “sinal e meio da graça, mas não pode ser usado como desculpa para uma vida sem transformação”; quem vive no pecado, ainda que batizado, precisa nascer de novo (Sermão 45; Sermão 18). A regeneração é a porta; a santificação, o caminho que ela abre — “a regeneração é a entrada na vida santa; a santificação é o crescimento contínuo até a maturidade em Cristo” (Sermão 45).
Como se articulam, então, a graça soberana e a ação humana? O sermão sobre Filipenses 2.12–13 dá a fórmula wesleyana definitiva: “desenvolvam a salvação de vocês com temor e tremor, porque Deus é quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar”. Deus opera; logo, você pode operar. Deus opera; logo, você deve operar (Sermão 85, “Sobre desenvolver a nossa própria salvação”). Não há contradição entre graça e esforço: o esforço é possível porque a graça o precede e sustenta, e é devido porque a graça não anula a vontade — ela a liberta. O sermão sobre os meios da graça (capítulo 12) e toda a ética wesleyana (capítulo 13) repousam sobre esse fundamento: “a fé é a condição imediata da salvação; as boas obras são seus frutos necessários” (Sermão 43). Quem separa fé e obras destrói o evangelho por um dos dois lados — legalismo ou antinomianismo —, e Wesley combateu os dois a vida inteira (cf. capítulo 11).
A ordem da salvação wesleyana pode ser resumida assim: a graça preveniente desperta; a graça convincente conduz ao arrependimento; a graça justificadora perdoa o ímpio que crê; a graça regeneradora o faz nascer de novo no mesmo instante; a graça santificadora o transforma até o amor perfeito; e a glória consuma a obra. Tudo é graça, do primeiro ao último passo; e em cada passo a graça pede e capacita a resposta humana. Para o púlpito, a lição permanece: pregar a justificação pela fé sem diluição — Deus justifica o ímpio, hoje, agora — e pregar com o mesmo fôlego o novo nascimento, para que ninguém durma sobre um perdão que não transforma.
Deus decretou desde a eternidade quem será salvo e quem será condenado? Como Wesley lê Romanos 8.29–30? E o que a universalidade da graça significa para a missão da igreja no mundo?
O sermão sobre Romanos 8.29–30 enfrenta “o texto que, mais do que qualquer outro, foi puxado para um lado e para outro na história da igreja” — e o faz com uma serenidade que o próprio Wesley cobra dos polemistas: neste assunto difícil, os autores costumam escrever “como infalíveis”, quando a divergência entre homens sábios e piedosos deveria produzir modéstia (Sermão 58, “Sobre a predestinação”). Sua tese exegética: Paulo não descreve “uma cadeia de causas e efeitos”, mas “simplesmente a ordem em que os vários ramos da salvação constantemente se sucedem” — presciência, predestinação, chamado, justificação (aqui no sentido de “tornar justo”, santificação) e glória (Sermão 58).
O ponto que sustenta toda a leitura arminiana é a natureza da presciência: “não devemos pensar que as coisas são porque ele as conhece. Não; ele as conhece porque elas são. Assim como eu agora sei que o sol brilha; contudo, o sol não brilha porque eu o sei, mas eu o sei porque ele brilha… Deus sabe que o homem peca, pois conhece todas as coisas; contudo, nós não pecamos porque ele o sabe, mas ele o sabe porque nós pecamos” (Sermão 58). A rigor, “não há em Deus presciência ou pós-ciência”: toda a eternidade lhe está presente de uma só vez; e o seu conhecimento não causa a fé nem a incredulidade — “os homens são tão livres em crer ou não crer como se ele nada soubesse a respeito” (Sermão 58). Segue-se o argumento moral, já conhecido dos capítulos anteriores: sem liberdade não há responsabilidade — “se o homem não fosse livre, seria tão incapaz de virtude ou de vício quanto o tronco de uma árvore” (Sermão 58). A predestinação, portanto, é de crentes: “Deus decreta, de eternidade a eternidade, que todos os que creem no Filho do seu amor serão conformes à sua imagem”; o decreto imutável e irresistível é este: “Quem crer será salvo; quem não crer será condenado” (Mc 16.16; Sermão 58). E a conclusão pastoral: Deus está “limpo do sangue de todos os homens; quem perece, perece por seu próprio ato e decisão” (Sermão 58).
O sermão pregado em Bristol em 1740 é a exposição mais vigorosa — e mais polêmica — da soteriologia arminiana de Wesley. A estrutura é um dístico: “A graça ou o amor de Deus, do qual procede nossa salvação, é livre em todos e livre para todos” (Sermão 128, “A Graça Livre”). Livre em todos: “não depende de capacidade ou mérito humano, nem mesmo em pequeno grau… Todo bem existente no ser humano ou realizado por ele possui Deus como autor e realizador” — os bons desejos e propósitos “são apenas os rios, e não a fonte; os frutos da graça livre, e não sua raiz” (Sermão 128). Aqui Wesley é tão monergista quanto qualquer reformado: quanto à origem, tudo é graça. Livre para todos: Cristo morreu por toda a humanidade, e Deus “deseja que todas as pessoas sejam salvas” (1Tm 2.4); a graça pode ser resistida, e “aqueles que perecem rejeitam a graça e o chamado divino” (Sermão 128).
Contra o decreto de reprovação, a linguagem do sermão é severíssima — Wesley chega a dizer que a doutrina, levada às últimas consequências, representa Deus de modo pior que o diabo, pois atribui ao Pai das misericórdias a condenação irremediável de criaturas que jamais puderam crer (Sermão 128). É preciso ler essa dureza no seu alvo exato: ela se dirige ao sistema, não à experiência cristã dos irmãos reformados — o mesmo Wesley reconhece, no sermão sobre a Trindade, que muitos calvinistas “são hoje cristãos reais, que amam a Deus e a toda a humanidade” (Sermão 55), e pede, no prefácio de “A Graça Livre”, que qualquer resposta venha “com amor e espírito de mansidão” (Sermão 128). Firmeza no conteúdo, caridade no tom: eis o padrão wesleyano de polêmica.
A universalidade da graça desemboca em esperança para a história. No sermão sobre Isaías 11.9, Wesley contempla o estado escuro do mundo — a maior parte da humanidade sem Cristo — e pergunta como conciliá-lo com a bondade de Deus. A resposta é a promessa: “a terra se encherá do conhecimento do Senhor”. E o modo é decisivo: não de repente, nem por força irresistível, mas “como fermento, de coração em coração, de casa em casa, de nação em nação” (Sermão 63, “A difusão geral do evangelho”) — o mesmo padrão do avivamento que ele viu nascer. O ponto teológico mais precioso: Deus converte sem destruir a liberdade. Wesley cita Agostinho: “aquele que nos fez sem nós não nos salvará sem nós” (Sermão 63). O sermão sobre a obra de Deus na América do Norte lê a história recente com a mesma chave providencial (Sermão 131, “A Recente Obra de Deus na América do Norte”).
Registre-se, com honestidade, a moldura escatológica: Wesley espera um triunfo do evangelho dentro da história, uma “glória dos últimos dias”. Um leitor amilenista lerá essas promessas com outra ênfase — o reino cresce como fermento, mas a consumação pertence à vinda de Cristo. O núcleo, porém, é comum às duas leituras: a salvação oferecida a todos, recebida sempre e somente pela fé em Cristo, jamais um universalismo automático. E quanto ao destino dos que nunca ouviram o evangelho, Wesley é cauteloso: recusa-se a condenar por atacado os pagãos e muçulmanos, declara não ter “autoridade bíblica para julgar aqueles que estão fora” (1Co 5.12–13) e confia-os ao Juiz de toda a terra, que julgará cada um segundo a luz que recebeu (Sermão 125, “Sobre Viver Sem Deus”; Sermão 106, “Sobre a Fé”: “como pouco lhes foi dado, pouco lhes será exigido”).
A doutrina wesleyana da predestinação pode ser resumida em três frases. Tudo o que é bom vem da graça — livre em todos. A oferta de Cristo alcança cada ser humano — livre para todos. E quem se perde, perde-se por recusa própria, não por decreto — Deus está limpo do sangue de todos. Para o púlpito, isso autoriza o convite sem reservas mentais: o pregador wesleyano pode olhar qualquer ouvinte nos olhos e dizer “Cristo morreu por você” — e pode, com a mesma seriedade, advertir que a graça resistida não salva. A eleição não é um segredo a decifrar, mas uma ordem a obedecer: “quem crer será salvo”.
Quando alguém nasce de novo, todo pecado desaparece do coração? O arrependimento serve apenas para o início da vida cristã? Como entender os períodos de escuridão espiritual — e a possibilidade real de queda?
Entre dois extremos — o que descreve o crente como escravo do pecado, quase igual ao não convertido, e o que afirma que na justificação todo pecado interior é destruído —, Wesley traça a via média: “quando somos justificados, somos verdadeiramente renovados, libertos da culpa e do domínio do pecado. Entretanto, ainda permanecem no coração tendências como orgulho, vontade própria, incredulidade, ira e amor ao mundo. Elas não reinam, mas precisam ser continuamente combatidas pela fé e pela graça” (Sermão 13, “Sobre o pecado nos crentes”). O pecado remanescente não traz condenação enquanto não obtém consentimento (cf. Sermão 8, capítulo 6), mas é real: negá-lo é preparar quedas; superestimá-lo é roubar a liberdade dos filhos de Deus. “Reconhecer a presença do pecado não deve conduzir ao desespero, mas à vigilância e à busca da plena santificação” (Sermão 13).
Se o pecado permanece, o arrependimento também: “geralmente se supõe que o arrependimento e a fé sejam apenas a porta de entrada da religião… necessários somente no começo da vida cristã” — Wesley ensina o contrário: há um arrependimento próprio dos crentes (Sermão 14, “O arrependimento dos crentes”, sobre Mc 1.15). Não é volta à condenação, mas o reconhecimento humilde “do pecado que ainda permanece no coração e se mistura até mesmo às melhores palavras e ações” (Sermão 14). E a dinâmica é evangélica, não legalista: “o arrependimento reconhece a doença; a fé olha para o Médico. O arrependimento confessa nossa incapacidade; a fé recebe o poder de Cristo” (Sermão 14). Esse arrependimento contínuo é justamente o caminho para a inteira santificação, pois convence o crente de que a purificação total, como a justificação, só pode ser recebida por fé (Sermão 14; cf. Sermão 43).
Wesley distingue com finura clínica duas experiências que se confundem. O “estado de deserto” é a perda da certeza, da paz, da alegria e do poder sobre o pecado depois de tê-los experimentado. Contra os que a atribuem à vontade soberana de Deus — como se ele retirasse a luz “simplesmente porque assim deseja” —, Wesley insiste: “em geral, a escuridão possui causas que precisam ser identificadas: pecados praticados, deveres negligenciados, orgulho, ira, desejos desordenados, preguiça espiritual, interpretações bíblicas equivocadas ou tentações inesperadas”; e “o tratamento deve corresponder à causa. Consolar alguém sem tratar o pecado pode apenas encobrir a ferida; acusar quem sofre por ignorância ou tentação pode aprofundar sua angústia” (Sermão 46, “O estado de deserto”).
Diferente é a tristeza em meio a provações (1Pe 1.6): ela “pode coexistir com fé viva, esperança, amor, paz e santidade. O cristão não deixa de ser humano quando recebe a graça” — doenças, luto, pobreza e decepções produzem dor real, e a fé não anula os efeitos naturais dessas experiências (Sermão 47, “A tristeza em meio a diversas provações”). Deus não fabrica arbitrariamente a dor, mas pode usá-la “para fortalecer a fé, confirmar a esperança, aprofundar o amor e promover a santidade” (Sermão 47). Nos sermões tardios, a paciência aparece como a graça que deixa a provação completar sua obra — “a paciência deve ter uma obra perfeita” (Tg 1.4; Sermão 83, “Sobre a paciência”) —, e a tentação, como realidade que Deus limita e da qual sempre dá o escape (1Co 10.13; Sermão 82, “Sobre a tentação”).
A teologia wesleyana admite a possibilidade real de apostasia: “um verdadeiro crente pode abandonar a fé, perder a graça justificadora e até mesmo perder a experiência da inteira santificação” (Sermão 86, “Um chamado aos desviados”). Mas o sermão inteiro existe para combater o desespero tanto quanto a presunção: “o desviado ainda pode arrepender-se e ser restaurado. A possibilidade de queda não significa que a misericórdia de Deus tenha chegado ao fim” (Sermão 86). Quanto às advertências terríveis de Hebreus 6 e 10, Wesley as relaciona aos que renegavam publicamente Cristo declarando merecida a sua morte; e oferece o critério pastoral de ouro: “quem ainda deseja voltar-se para Cristo demonstra não ter cometido o pecado imperdoável e não deve abandonar a esperança” (Sermão 86). A vigilância contra as “estratégias de Satanás” — que procura corromper os fins pelos meios e desanimar os que buscam a santidade (Sermão 42, “As estratégias de Satanás”) — pertence a essa mesma pastoral da perseverança.
A vida cristã, para Wesley, não é uma linha reta ascendente nem um pântano de derrotas: é caminhada real, com pecado remanescente a combater, arrependimento diário, desertos que têm causas e provações que têm propósito — e com a possibilidade solene da queda, cercada de todos os lados pelo chamado à restauração. O pastor wesleyano aprende aqui a diagnosticar antes de medicar: não consolar o que precisa de arrependimento, não acusar o que precisa de consolo, e nunca fechar a porta que Deus mantém aberta.
O que Wesley quer dizer — e o que não quer dizer — quando fala em “perfeição cristã”? Ela é alcançável nesta vida? E como se recebe: por esforço gradual ou pela fé?
Já em 1733 — antes de Aldersgate —, Wesley pregava em Oxford aquilo que jamais abandonaria: a verdadeira religião como “circuncisão do coração” (Rm 2.29), “a renovação profunda da pessoa pelo Espírito Santo”, que “corta o orgulho, a autossuficiência, os desejos desordenados e o amor ao mundo, dirigindo todas as afeições para Deus” (Sermão 17, “A circuncisão do coração”). O sermão resume a santidade em quatro realidades — humildade, fé, esperança e amor —, e culmina no amor perfeito: “amar a Deus com todo o ser e amar todas as demais coisas nele, por ele e para a sua glória” (Sermão 17). Wesley diria mais tarde que esse sermão continha toda a sua doutrina da perfeição; a diferença é que, depois de 1738, ele aprendeu que essa santidade não é o preço da aceitação, mas o fruto da fé.
O sermão sobre Filipenses 3.12 é a exposição doutrinária padrão. Primeiro, o que a perfeição não é: os cristãos “não são perfeitos em conhecimento — nesta vida, não estão completamente livres da ignorância” (Sermão 40, “A perfeição cristã”); não estão livres do erro de julgamento, nem das fraquezas físicas e psíquicas, nem da tentação. A perfeição wesleyana não é infalibilidade, não é a perfeição de Adão nem a dos anjos, e não exclui o crescimento — “não existe perfeição que não admita aumento contínuo” (Sermão 40; cf. Sermão 76, “Sobre a perfeição”). Segundo, o que ela é: a purificação do coração do pecado e o amor pleno a Deus e ao próximo — “a perfeição cristã é outro nome para a santidade ou para o amor perfeito… o coração purificado do pecado e inteiramente voltado para Deus e para o próximo” (Sermão 40). É a “santificação completa, inteira dedicação a Deus e presença do fruto do Espírito em toda a vida”, a restauração da imagem moral de Deus (Sermão 76).
A chave para não caricaturar a doutrina é a definição wesleyana de pecado neste contexto: “transgressão voluntária de uma lei conhecida” (Sermão 76). As falhas involuntárias — frutos da ignorância, do erro, da limitação — não são pecados propriamente ditos, embora precisem do sangue expiatório de Cristo; por isso o perfeito em amor continua orando “perdoa-nos as nossas dívidas” e continua dependendo de Cristo a cada instante (Sermão 76; cf. Sermão 26, sobre o Pai-Nosso). Quem define pecado como “qualquer desvio do padrão absoluto” achará a doutrina absurda; quem aceita a definição de Wesley verá que ela afirma apenas isto: a graça é suficiente para que o amor expulse do coração o pecado voluntário — “o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.7).
Sobre Hebreus 6.1 — “avancemos para o que é perfeito” —, Wesley observa que não avançar é perigoso: quem estaciona, recua (Sermão 76). Mas o avanço não é escalada meritória. Como a justificação, a inteira santificação é recebida pela fé: o arrependimento dos crentes (capítulo 9) convence o cristão de que não pode purificar-se a si mesmo; a fé recebe a promessa — “fiel é o que os chama, o qual também o fará” (1Ts 5.24; cf. Sermão 14; Sermão 43). Wesley espera essa obra tanto gradual quanto instantaneamente concedida, e recusa marcar prazos para Deus; o que ele não admite é que se pregue menos do que a promessa: “a vontade de Deus é a santificação de vocês” (1Ts 4.3; Sermão 37).
O conteúdo da perfeição é sempre o amor. O sermão sobre 1 Coríntios 13 chama o amor de “o caminho mais excelente”, acima de todos os dons (Sermão 89, “O caminho mais excelente”); o sermão sobre o amor expõe que sem ele nada somos (Sermão 139, “Sobre o Amor”); e o da caridade mostra que todo sacrifício sem amor é nada (Sermão 91, “Sobre a caridade”). A veste nupcial da parábola é a santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor (Hb 12.14; Sermão 120, “Sobre a Veste Nupcial”).
A perfeição cristã é a doutrina wesleyana por excelência — o “grande depósito” confiado, segundo Wesley, ao povo chamado metodista. Bem entendida, ela não produz orgulho nem escrúpulo doentio, mas expectativa: Deus pode fazer nesta vida o que prometeu — encher o coração de amor até não restar lugar para o pecado voluntário. Ao pregador cabe guardá-la de duas mortes: a do rebaixamento, que a reduz a ideal inalcançável e assim desarma a esperança; e a da caricatura, que a confunde com impecabilidade e assim a torna incrível. Pregue-se como Wesley pregou: como promessa a ser recebida, hoje, pela fé no Deus fiel.
O que é a lei que Cristo veio cumprir e não revogar? Para que serve a lei na vida de quem já foi justificado pela fé? E como reconhecer — e evitar — o antinomismo, o erro de usar a graça para dispensar a santidade?
No sermão sobre Romanos 7.12, Wesley distingue cuidadosamente a lei cerimonial de Moisés — abolida por Cristo — da lei moral, que “jamais pode passar” (Sermão 34, “A origem, natureza, propriedade e uso da Lei”). Sua origem é mais antiga que o mundo; sua natureza, “uma cópia da mente eterna”, o “retrato incorruptível” de Deus; suas propriedades, as de Romanos 7: “a lei é santa; e o mandamento, santo, e justo, e bom” (Sermão 34). Wesley eleva a lei moral a uma dignidade quase sacramental: ela é o coração de Deus revelado, e por isso amá-la é amar a Deus — “ó, quanto amo a tua lei! É a minha meditação o dia todo” (Sl 119.97; Sermão 34).
O ponto decisivo para o metodismo são os usos da lei. “O primeiro uso da lei, sem dúvida, é convencer o mundo do pecado… Por ela, o pecador é descoberto a si mesmo. Todas as suas folhas de figueira são arrancadas… A sua boca se cala, e ele fica culpável perante Deus” (Rm 3.19; Sermão 34). “O segundo uso é trazê-lo à vida, a Cristo, para que viva” — a lei age como aio severo (Gl 3.24), impelindo mais do que atraindo, “e, contudo, o amor é a nascente de tudo” (Sermão 34). E o terceiro uso — aquele que muitos crentes ignoram — é “conservar-nos vivos”, manter o crente junto de Cristo: “ela é ainda de indizível utilidade: primeiro, em convencer-nos do pecado que ainda resta… e assim manter-nos junto de Cristo, para que o seu sangue nos purifique a cada momento; segundo, em derivar força da nossa Cabeça para os seus membros; e, terceiro, em confirmar a nossa esperança de tudo o que ela ordena e ainda não alcançamos” (Sermão 34). A síntese é inesquecível: “não posso dispensar a lei um só momento, tanto quanto não posso dispensar Cristo… cada um continuamente me envia ao outro — a lei a Cristo, e Cristo à lei” (Sermão 34).
O sermão sobre Mateus 5.17–20 formula a tese mais luminosa de toda esta seção: “não há contrariedade alguma entre a lei e o evangelho… as próprias palavras, consideradas sob aspectos diferentes, são partes tanto da lei quanto do evangelho. Se são consideradas como mandamentos, são partes da lei; se como promessas, do evangelho. Assim, ‘amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração’, quando considerado como mandamento, é um ramo da lei; quando visto como promessa, é parte essencial do evangelho — sendo o evangelho nada mais que os mandamentos da lei propostos em forma de promessas” (Sermão 25, “A lei e o evangelho”). E ainda: “todo mandamento na Sagrada Escritura é apenas uma promessa velada”, pois na nova aliança Deus se comprometeu a escrever suas leis no coração (Jr 31.33; Hb 8.10): “Ele nos ordena orar sem cessar? Alegrar-nos sempre? Ser santos como ele é santo? Basta. Ele operará em nós exatamente isto” (Sermão 25). A lei aponta para o evangelho; o evangelho capacita para a lei: “a justiça da lei se cumpre em nós pela fé que há em Cristo Jesus” (Rm 8.4; Sermão 25). Por isso Cristo declara que nem um jota ou til passará da lei, e que grande no Reino será quem praticar e ensinar estes mandamentos (Mt 5.18–19) — não há “pecado pequeno” nem indulgência para um ídolo de estimação: “o que Deus exige é uma obediência inteira” (Sermão 25).
Wesley identificou no antinomismo o maior perigo interno do avivamento. O sermão sobre Romanos 3.31 expõe os três modos de “anular a lei pela fé”: primeiro, não pregá-la — sob o pretexto de “pregar Cristo”, o pregador cala mandamentos e advertências, “ainda que, na verdade, destrua tanto um quanto o outro”; segundo, ensinar que a fé torna a santidade desnecessária; terceiro — o mais sutil e comum —, anulá-la na prática, “vivendo como se a fé fosse destinada a dispensar-nos da santidade, permitindo-nos o pecado ‘porque não estamos debaixo da lei, e sim da graça’” (Sermão 35, “Como não anular a lei pela fé”). O exame de consciência que Wesley propõe permanece incômodo: quem, “estando debaixo da graça”, passou a permitir-se o que não ousava antes, está anulando a lei.
O sermão seguinte mostra o reverso: confirmamos a lei pela doutrina (pregando-a em toda a sua extensão espiritual), pela pregação de uma fé que produz santidade, e sobretudo estabelecendo-a no coração e na vida (Sermão 36, “Como a fé confirma a lei”). E aqui aparece uma das teses mais características de Wesley: a fé é serva do amor. “O amor é o fim de todos os mandamentos (1Tm 1.5); existia antes da fé e permanecerá quando a fé for tragada pela visão. A fé é o grande meio que Deus ordenou para restaurar em nós o amor perdido — e por isso é bênção inexprimível, ainda que não seja o fim” (Sermão 36). Nem a lei acima de Cristo, nem a fé acima do amor: a hierarquia wesleyana é graça → fé → amor → santidade.
A dialética wesleyana de lei e evangelho protege a igreja dos seus dois desvios crônicos: o legalismo, que prega mandamento sem promessa e produz servos amedrontados; e o antinomismo, que prega promessa sem mandamento e produz filhos desobedientes. O pregador fiel prega os dois como um: cada mandamento anunciado como promessa, cada promessa desdobrada em obediência. Na prática do púlpito, isso significa nunca pregar a santidade sem apontar a graça que a torna possível, e nunca pregar a graça sem mostrar a santidade que ela produz.
O que é a igreja — instituição, edifício ou outra coisa? Como Deus comunica ordinariamente sua graça? Quando a separação institucional se torna pecado — e o que é o “espírito católico” que Wesley propõe como antídoto?
Sobre Efésios 4.1–6, Wesley responde à ambiguidade da palavra “igreja” com uma definição essencialmente espiritual e comunitária: a igreja não é primeiramente edifício ou estrutura institucional, mas “o povo chamado por Deus para viver unido em Cristo, partilhando um só Espírito, uma só esperança, uma só fé, um só batismo e um só Deus e Pai” (Sermão 74, “Da igreja”). Ele cita o Artigo XIX da sua Igreja — a congregação dos fiéis onde a pura Palavra é pregada e os sacramentos devidamente administrados —, mas alarga generosamente as fronteiras: pertencem à igreja universal “todos os que possuem fé viva em Cristo, mesmo quando conservam opiniões equivocadas ou formas de culto” imperfeitas (Sermão 74). E viver “de maneira digna da vocação” (Ef 4.1) é a outra metade do sermão: a igreja existe para a santidade. Sobre o ministério, Wesley distingue o ofício ministerial — pregação e sacramentos confiados aos que são chamados e enviados — do sacerdócio comum dos crentes, defendendo a ordem sem sufocar o serviço dos leigos (Sermão 115, “O Ofício Ministerial”); e cobra dos ouvintes a obediência devida aos pastores fiéis (Hb 13.17; Sermão 97, “Sobre a Obediência aos Pastores”).
Contra os quietistas que mandavam “esperar em silêncio”, sem usar prática alguma, e contra os formalistas que confiavam nas práticas, Wesley define: os meios de graça são “sinais, palavras e ações instituídos por Deus como canais ordinários pelos quais ele concede graça preveniente, justificadora e santificadora” — principalmente a oração (secreta e pública), o exame das Escrituras (ouvir, ler, meditar) e a Ceia do Senhor (Sermão 16, “Os meios da graça”). O equilíbrio é formulado com precisão: “esses meios não possuem poder mágico, não compram o favor de Deus e não substituem a fé. O mérito pertence exclusivamente a Cristo, e a eficácia vem somente do Espírito Santo. Mesmo assim, desprezar os meios instituídos por Deus é rejeitar o caminho no qual ele normalmente decidiu encontrar-se conosco… não confiar nos meios, mas também não abandoná-los; utilizá-los com fé, buscando neles não a prática em si, mas o próprio Deus” (Sermão 16).
A esse núcleo somam-se o jejum — que Wesley trata no Sermão do Monte como dever cristão de tempero espiritual, nem salvador nem dispensável (Sermão 27, “O jejum”) —, a oração do Pai-Nosso como modelo de toda oração (Sermão 26, “A intenção pura e o Pai-Nosso”) e o culto público: “não devemos negligenciar a congregação” (Hb 10.25; Sermão 104, “Sobre Frequentar o Culto da Igreja”). Quanto à Ceia, Wesley defende a “comunhão constante”: participar “em todas as oportunidades razoavelmente disponíveis”, porque a Ceia é mandamento de Cristo — “façam isto em memória de mim” (Lc 22.19) — e meio de graça que fortalece e renova. E desfaz o escrúpulo da indignidade: “todos são indignos da misericórdia divina; a preparação necessária é arrependimento sincero, fé em Cristo, propósito de obedecer a Deus e amor ao próximo… a Ceia não é prêmio para pessoas perfeitas, mas meio de graça oferecido a discípulos arrependidos” (Sermão 101, “O Dever da Comunhão Constante”).
O sermão sobre 1 Coríntios 12.25 recoloca a palavra “cisma” no seu sentido bíblico: não primeiramente “separar-se de uma instituição eclesiástica, mas produzir divisões, partidos, rivalidades e alienação de afeto dentro de uma comunidade cristã” (Sermão 75, “Sobre o cisma”). O cisma do Novo Testamento é ferida interna no corpo. Quanto à separação institucional, Wesley admite que ela “pode ser necessária quando a permanência em determinada Igreja exige a prática do pecado, a negação da consciência ou a desobediência a uma ordem clara de Deus. Fora desses casos, porém, a separação injustificada é grave violação da lei do amor” (Sermão 75). Ele mesmo viveu essa tensão: líder de um movimento, recusou-se a abandonar a Igreja da Inglaterra enquanto nela pudesse cumprir sua vocação (Sermão 75).
O sermão sobre 2 Reis 10.15 — “O teu coração é reto com o meu? Se é, dá-me a tua mão” — é a carta magna do ecumenismo wesleyano. Wesley distingue opiniões e formas de culto, nas quais os cristãos sinceros podem divergir, do essencial: “O teu coração é reto para com Deus? Crês no Senhor Jesus Cristo?… É a tua fé cheia da energia do amor? Amas a Deus de todo o teu coração?… Amas o teu próximo?” (Sermão 39, “O espírito católico”). Se sim: “dá-me a tua mão” — não para adotar minhas opiniões ou meu modo de culto, mas para amar-me como irmão, orar por mim e animar-me no bem. O espírito católico não é indiferentismo doutrinário — Wesley o distingue expressamente da “latitude especulativa” de quem não tem convicções: o homem de espírito católico é firme nos seus princípios, mas seu coração se alarga a todos os que amam a Deus (Sermão 39). É a mesma distinção entre opinião e religião viva do sermão sobre a Trindade (Sermão 55), agora aplicada à comunhão entre os cristãos.
A eclesiologia wesleyana é uma eclesiologia de meio: a igreja é o povo da fé viva, alimentado pelos canais ordinários da graça, guardado da divisão pelo amor e aberto, sem perder as convicções, a todos os que têm o coração reto com Deus. Para as igrejas de hoje, três correções permanecem oportunas: contra o subjetivismo, os meios de graça — ninguém cresce sem oração, Escritura e mesa do Senhor; contra o institucionalismo, a definição espiritual da igreja; contra o sectarismo, o espírito católico — “se o teu coração é como o meu, dá-me a tua mão”.
Como se vive a santidade no mundo — na família, no trabalho, no bolso, no tempo? Por que Wesley insiste que o cristianismo é uma religião social? E o que significa ser mordomo, e não dono, de tudo o que temos?
Wesley dedicou treze discursos ao Sermão do Monte — a maior série da coleção (Sermões 21 a 33) —, convencido de que ali “o Filho de Deus, que veio do céu, nos mostra o caminho para o céu… o único caminho verdadeiro, pois não há outro” (Sermão 21, “A pobreza de espírito e os que choram”). E o sermão é para todos, não para uma elite espiritual. As bem-aventuranças traçam a ordem da vida cristã: começa na pobreza de espírito — não uma “virtude da humildade”, mas “o reconhecimento nu da nossa culpa e impotência”, exatamente onde a moral pagã termina (Sermão 21); passa pela mansidão, pela fome e sede de justiça e pela misericórdia (Sermão 22, “Os mansos, a fome de justiça e os misericordiosos”); e culmina na pureza de coração, na pacificação e na perseguição por causa da justiça (Sermão 23, “Os limpos de coração, os pacificadores e os perseguidos”). Seguem-se a intenção pura em toda devoção — esmola, oração e jejum feitos para Deus e não para os homens (Sermões 26–27) —, o olho bom e o tesouro no céu (Sermão 28, “Os tesouros e o olho bom”), a confiança que não se aflige com o amanhã (Sermão 29, “Deus e as riquezas; a ansiedade do amanhã”), a regra de ouro e o não julgar (Sermão 30), a porta estreita (Sermão 31), o teste dos falsos profetas — “pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7.16; Sermão 32) — e os dois fundamentos: ouvir e praticar (Sermão 33, “Os dois fundamentos”).
No coração da série está a tese antimística de Wesley: “o cristianismo é, por essência, uma religião social; e torná-lo solitário é destruí-lo” (Sermão 24, “O sal da terra e a luz do mundo”). Ele não despreza o retiro — “temos necessidade de nos retirar diariamente do mundo, ao menos de manhã e à noite, para conversar com Deus” —, mas demonstra que as virtudes essenciais do cristianismo simplesmente não existem na solidão: a mansidão, a longanimidade, a misericórdia, a pacificação “não podem de modo algum existir sem convívio com outros homens… tentar torná-las virtude solitária é apagá-las da face da terra” (Sermão 24). O sal precisa salgar; a candeia não se acende para ficar debaixo do cesto (Mt 5.13–15). Ocultar a religião, além de impossível, é contrário ao propósito do seu Autor (Sermão 24). Dessa raiz nascem as obras de misericórdia como verdadeiros meios de graça: “visitar, ouvir, alimentar, consolar e servir pessoas que sofrem também são práticas por meio das quais Deus transforma tanto aquele que recebe ajuda quanto aquele que a oferece” (Sermão 98, “Sobre Visitar os Enfermos”) — a presença compassiva não se terceiriza. O dever de repreender o próximo com amor (Lv 19.17; Sermão 65, “O dever de repreender o próximo”), a cura da maledicência pela regra de Mateus 18 (Sermão 49, “A cura da maledicência”) e o zelo santo — que arde primeiro pelo amor, depois pelas obras de misericórdia, e só então pelas opiniões e formas (Sermão 92, “Sobre o zelo”) — completam essa ética das relações.
O sermão sobre Lucas 16.9 é o berço da máxima wesleyana: ganhe tudo o que puder, poupe tudo o que puder, dê tudo o que puder (Sermão 50, “O uso do dinheiro”). O dinheiro em si é neutro — “nas mãos de um filho de Deus pode virar pão para o faminto, roupa para o nu, remédio para o doente”; o mal está no amor a ele (1Tm 6.10). Mas cada regra tem cercas. Ganhar: sem destruir a saúde, sem ferir a mente ou a consciência — “para ganhar dinheiro, não devemos perder a alma” —, e sem ferir o próximo: “ninguém pode enriquecer engolindo os bens do próximo sem engolir também a condenação do inferno!” (Sermão 50 — com denúncias concretas: os que enriquecem vendendo destilados, os que lucram prolongando a doença dos pacientes). Poupar: “não atire o precioso talento ao mar… não gaste parte alguma dele só para satisfazer o desejo da carne, o desejo dos olhos ou a soberba da vida” (Sermão 50). E dar: as duas primeiras regras sem a terceira viram avareza — entesourar é o mesmo que jogar o dinheiro fora.
Wesley voltou ao tema com insistência crescente na velhice, alarmado com o paradoxo que ele mesmo diagnosticou: a religião produz diligência e frugalidade; estas produzem riqueza; e a riqueza mata a religião (Sermão 61; Sermão 68). Daí os sermões sobre o perigo das riquezas — “os que querem ficar ricos caem em tentação” (1Tm 6.9; Sermão 87, “O perigo das riquezas”) —, sobre as riquezas (Sermão 108), sobre o perigo de aumentá-las (Sermão 126, “Sobre o Perigo do Aumento das Riquezas”) e sobre a ineficácia do cristianismo, onde pergunta, quase em desespero, por que os metodistas não obedecem à terceira regra (Sermão 116). A vestimenta simples (Sermão 88, “Sobre o vestuário”) e a recusa das diversões que apagam a vida de Deus na alma (Sermão 140, “Sobre as Diversões Públicas”; Sermão 79, “Sobre a dissipação”) pertencem ao mesmo combate contra a mundanidade — cujo cerne é a “amizade com o mundo” como inimizade contra Deus (Tg 4.4; Sermão 80, “Sobre a amizade com o mundo”; Sermão 81, “Em que sentido devemos deixar o mundo”).
O sermão sobre Lucas 16.2 vai à raiz teológica de toda a ética: “nenhuma imagem convém tão exatamente ao estado presente do homem quanto a de administrador” (Sermão 51, “O bom mordomo”). Não somos donos de coisa alguma: alma, corpo, fala, mãos, bens, tempo e graça nos foram confiados — “até os nossos pensamentos não são propriamente nossos” (Sermão 51). Viremos a prestar contas de cada talento diante do Senhor; e não há mérito excedente a acumular: “tudo o que temos já é de Deus, e devolvê-lo por inteiro é apenas fidelidade” (Sermão 51). O tempo entra na mesma conta: “aproveitem bem o tempo” (Ef 5.16; Sermão 93, “Sobre aproveitar bem o tempo”).
A ética wesleyana desce ao cotidiano da casa: a religião familiar — o culto doméstico, o exemplo dos pais, a santificação do lar (Js 24.15; Sermão 94, “Sobre a religião familiar”); a educação dos filhos, corrigindo a vontade própria com amor e formando-os para Deus (Sermão 95, “Sobre a educação dos filhos”); e a obediência aos pais (Cl 3.20; Sermão 96, “Sobre a obediência aos pais”). A negação de si mesmo e o tomar a cruz diária (Lc 9.23) são o instrumento de tudo: “recusar-se a seguir a própria vontade quando ela se opõe à vontade de Deus” — não nas grandes perseguições apenas, mas “nas decisões comuns: perseverar em oração, abandonar um desejo desordenado, corrigir alguém com amor, servir os necessitados” (Sermão 48, “Negar a si mesmo”). A consciência, “aquele juiz interior”, deve ser mantida “sem ofensa diante de Deus e dos homens” (At 24.16; Sermão 105, “Sobre a Consciência”); a sinceridade sem dolo é o retrato do verdadeiro israelita (Jo 1.47; Sermão 90, “Um verdadeiro israelita”); e o cristão busca “agradar a todos para a edificação”, sem bajulação nem aspereza (Rm 15.2; Sermão 100, “Sobre Agradar a Todas as Pessoas”).
A ética de Wesley é a santidade em roupas de trabalho. Nada nela é apêndice da doutrina: a fé que justifica opera pelo amor, e o amor tem endereço — o pobre, o doente, o vizinho, o filho, o freguês, o empregado. Duas provocações wesleyanas seguem atualíssimas para a igreja brasileira: a religião solitária — hoje travestida de espiritualidade sem igreja e sem próximo — continua sendo destruição do cristianismo; e o dinheiro continua sendo o teste mais confiável da santificação professada. Quem quiser medir um avivamento, dizia Wesley na prática, olhe para o que a igreja faz com o que ganha.
O que acontece ao ser humano depois da morte? Como será o julgamento final? Como Wesley entende o castigo dos ímpios e a glória dos justos? E qual é a esperança última — céu desencarnado ou criação renovada?
Wesley vive com a eternidade diante dos olhos: a vida presente é sonho breve à beira do despertar (Sermão 121, “A Vida Humana É um Sonho”), e “um ponto de tempo, o espaço de um momento” nos leva “àquele lugar celeste ou nos encerra no inferno” (Sermão 54, “Sobre a eternidade”). Sobre o estado entre a morte e a ressurreição, Wesley ensina, a partir da narrativa do rico e Lázaro — que ele lê como relato de fatos, não mera parábola —, que “as almas dos justos são conduzidas ao paraíso, chamado ‘seio de Abraão’, onde aguardam a ressurreição e o juízo final; as almas dos ímpios são conduzidas a outra região do Hades, onde experimentam sofrimento enquanto aguardam o julgamento definitivo” (Sermão 112, “O Rico e Lázaro”). O ponto pastoral central desse sermão, porém, é outro: prodígios não convertem — “caso não ouçam Moisés e os Profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos” (Lc 16.31); a transformação verdadeira vem pela Palavra (Sermão 112). Quanto ao luto, Wesley consola sem proibir as lágrimas: não nos entristecemos “como os demais, que não têm esperança” (1Ts 4.13; Sermão 135, “Sobre o Luto pelos Mortos”; cf. os sermões fúnebres sobre Whitefield e Fletcher, Sermões 53 e 133, onde a morte dos justos vira ocasião de gratidão e imitação).
Pregado diante de juízes e acusados numa sessão pública de tribunal, o sermão sobre 2 Coríntios 5.10 usa o tribunal humano como imagem do universal: todos ressuscitarão, toda a humanidade será reunida, e “as obras, palavras e intenções” de cada um serão reveladas diante de Cristo, o Juiz (Sermão 15, “O grande julgamento”). Wesley distingue com honestidade suas conjecturas (sobre duração e local do julgamento) do ensino bíblico central: “todos prestarão contas a Deus, Cristo será o Juiz, e o tempo de arrependimento é agora” (Sermão 15). O Juiz é também o Salvador dos que creem — e é precisamente por isso que o julgamento não é terror para os que estão em Cristo (Rm 8.1, 33–34). Os “sinais dos tempos” que Wesley discerne na sua geração (Mt 16.3; Sermão 66, “Os sinais dos tempos”) são, para ele, sinais da obra de Deus em curso, não convite à especulação de datas.
No sermão sobre Marcos 9.48, Wesley expõe o castigo futuro dos impenitentes com a distinção clássica: a “pena da perda” — a privação definitiva da presença e das bênçãos de Deus, que ele considera o núcleo mais terrível — e a “pena dos sentidos”, descrita pelas imagens do verme que não morre e do fogo que não se apaga (Sermão 73, “Do inferno”). Wesley interpreta essas imagens de modo bastante literal e “defende expressamente a duração interminável do sofrimento consciente” (Sermão 73); a mesma posição aparece na “eternidade infeliz” do sermão 54 e na afirmação de Calamy, revisada por Wesley, de que os condenados serão ressuscitados incorruptíveis (Sermão 137). A fidelidade histórica exige registrar esse ensino tal como está.
Cabe aqui, porém, uma nota teológica e pastoral. A doutrina do castigo final deve ser sustentada com humildade e temor. A Escritura fala tanto em tormento (Ap 14.11; Mt 25.46) quanto em destruição e perecimento (Mt 10.28; 2Ts 1.9; Jo 3.16), e há cristãos sérios e bíblicos dos dois lados — os que entendem o castigo eterno como tormento consciente sem fim e os que o entendem como destruição final e irreversível. O próprio Wesley fornece as âncoras que nenhuma das leituras pode soltar: o castigo é real, justo e proporcional — o Juiz de toda a terra fará justiça (Gn 18.25), e a cada um será dado “segundo as suas obras” (Rm 2.6), com “poucos ou muitos açoites” conforme a luz recebida (Lc 12.47–48); a perdição é escolhida, jamais decretada — “ninguém jamais foi ou pode ser perdedor, senão por sua própria escolha” (Sermão 59); e não há segunda oportunidade prometida além da morte — “o tempo de arrependimento é agora” (Sermão 15). O que a teologia wesleyana exclui de modo absoluto é o universalismo: a salvação é condicionada à fé em Cristo, e usar a largueza do amor de Deus para prometer a salvação de todos, creiam ou não, é corromper a Palavra (cf. Sermão 128; Sermão 63).
Sobre a ressurreição, a coleção inclui o sermão de Benjamin Calamy revisado por Wesley, que defende a ressurreição do mesmo corpo (Sermão 137, “Sobre a Ressurreição dos Mortos”). As teorias sobre a reunião das partículas pertencem à física do século XVIII; o centro bíblico permanece firme: “Deus ressuscitará os mortos, vencerá definitivamente a morte e revestirá seu povo de incorruptibilidade, glória e poder” (1Co 15.42–43, 53; Sermão 137). Aos justos está reservada a recompensa — “então os justos resplandecerão como o sol no Reino de seu Pai” (Mt 13.43; Sermão 99, “A Recompensa dos Justos”) — e o descanso: as aflições do tempo presente não são dignas de comparação com a glória (Rm 8.18; Sermão 127, “A Aflição e o Descanso dos Justos”). E a vida eterna, insista-se, já começou: “quem tem o Filho tem a vida” (1Jo 5.12; Sermão 7; Sermão 77).
O horizonte final de Wesley não é a fuga da matéria, mas a redenção do cosmo. No sermão sobre Apocalipse 21.5 — as únicas palavras que o Cristo entronizado pronuncia em todo o livro, observa ele: “Eis que faço novas todas as coisas” —, Wesley recusa as leituras que esgotam a promessa na era de Constantino ou no presente: “a linha desta profecia não termina com o mundo presente, mas nos mostra as coisas que virão quando este mundo não mais existir” (Sermão 64, “A nova criação”). E percorre, “interpretando a Escritura pela Escritura, segundo a analogia da fé”, o que será renovado: os céus, o ar, as águas, a terra sem espinhos nem terremotos, os animais sem crueldade — o lobo com o cordeiro (Is 11.6) — e, “glória das glórias”, os filhos dos homens, livres da morte, da dor, do pranto e, “a maior libertação de todas”, do pecado (Ap 21.4; Sermão 64). A criação animal participará da liberdade dos filhos de Deus (Rm 8.21; Sermão 60). E o cume de tudo é a comunhão: a união íntima e ininterrupta com o Deus Trino — Deus habitando com os homens, e eles vendo a sua face (Ap 21.3; 22.4; Sermão 64).
A escatologia de Wesley é pastoral do começo ao fim: a eternidade não é tema de curiosidade, mas o peso que dá seriedade a cada dia — “um ponto de tempo” decide destinos. Seus acentos permanentes: a morte não interrompe a comunhão dos justos com Deus; o julgamento é universal, justo e segundo as obras como evidência da fé; o castigo é real e proporcional, e a perdição é sempre escolhida; a ressurreição é corporal; e a esperança final é a criação renovada, não a alma desencarnada. Ao pregador, Wesley deixaria dois conselhos: pregar a eternidade com lágrimas, nunca com prazer no terror; e pregar de tal modo que ninguém saia do culto sem saber que o tempo de se reconciliar com Deus é hoje (2Co 6.2).
Percorridos os 141 sermões, o perfil se deixa desenhar com nitidez. A teologia de Wesley é bíblica na fonte — tudo se decide “à lei e ao testemunho”; católica na substância — o Deus trino dos credos, a queda, a expiação, a graça; protestante no fundamento — a justificação pela fé somente, do ímpio, por causa de Cristo; arminiana na extensão — graça livre em todos e para todos, presciência sem determinismo, perdição apenas por recusa própria; e wesleyana no alvo — a santificação do coração e da vida, o amor perfeito, esperado nesta vida pela fé.
O seu segredo permanente talvez seja a arte de manter juntos os pares que a cristandade insiste em separar: fé e obras, doutrina e experiência, coração e razão, piedade pessoal e religião social, meios institucionais e vida no Espírito, seriedade da lei e doçura do evangelho, certeza presente e vigilância perseverante. Cada capítulo desta obra registrou um desses equilíbrios; qualquer um deles, perdido, mutila o conjunto.
Para a igreja de hoje — e falo como pastor a pastores —, os sermões de Wesley continuam fazendo o que faziam nos campos da Inglaterra: acordam o que dorme, apontam o Cordeiro ao que desperta, asseguram ao que crê, santificam ao que caminha e consolam ao que sofre. Que este compêndio sirva apenas de mapa; o alimento está nos próprios sermões — e, acima deles, no Livro único de que Wesley se fez homem: as Escrituras Sagradas, que podem tornar-nos “sábios para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2Tm 3.15).
Bispo Ildo Mello, organizador Igreja Metodista Livre do Brasil
A numeração e os títulos seguem a coleção “Sermões de Wesley na Linguagem de Hoje” (ed. Thomas Jackson, 1872). A coluna final indica o capítulo desta obra em que o sermão é tratado ou citado principalmente.
Baseado na coleção “Sermões de Wesley na Linguagem de Hoje” (tradução em português atual a partir do original em domínio público, ed. Thomas Jackson, 1872 · citações bíblicas conforme a NAA).
Organização: Bispo Ildo Mello, com auxílio de inteligência artificial na redação.
Revisão teológica e responsabilidade editorial: Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil.
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